A respeito de uma cena de cesariana realizada de forma delicada – com nascimento empelicado – e o debate que se seguiu, onde alguns participantes afirmavam que se tratava de uma “cesariana humanizada”, uma discussão que acompanho há mais de 20 anos.
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“Uma cesariana pode ser delicada, humana e respeitosa, mas jamais “humanizada”.
Vejamos porque não aceito essa definição para estas cirurgias. Faço, já há muitos anos, esta diferença porque o conceito que utilizamos é de que a humanização do nascimento se apoia em três elementos constitutivos:
a atenção baseada em evidências
o enfoque interdisciplinar
o protagonismo do evento garantido à mulher
Não é difícil de entender que em uma cesariana o protagonista do evento é o médico e suas habilidades cirúrgicas. Portanto, uma cesariana – mesmo escolhida pela mulher ou com indicações médicas claras – não pode ser “humanizada” por não possuir um dos elementos basilares da humanização: o protagonismo garantido à gestante. Na cesariana, como em qualquer cirurgia, o paciente será sempre objeto da arte médica e não sujeito do processo.
Não se trata de um julgamento de mérito, mas uma questão semântica, de conceito. Como eu defino a humanização como sendo uma estrutura suportada por três pontas (protagonismo, Saúde Baseada em Evidencias e a interdisciplina) eu não posso considerar uma cesariana como humanizada – mesmo quando ela for útil, delicada, humana, bem indicada e até salvadora – pela falta de um dos elementos estruturantes.
Além disso, sabemos que existe uma questão semiótica neste rótulo reivindicado pelos propagadores das “cesarianas humanizadas”. Essa demanda serve para criar confusão entre uma cesariana – que é uma intervenção cruenta e artificial – e os mecanismos fisiológicos e naturais do corpo, chamando ambos os procedimentos de “humanizados”. Assim, para muitos fica a mensagem de que “tanto faz a via de nascimento se ambas as formas de nascer forem humanizadas“, certo?
Não, cesariana é cirurgia, parto é parto, assim como fórmula láctea é uma coisa e leite materno é outra. A superioridade em termos de riscos diminuídos e promoção da saúde do leite materno e do parto normal sobre suas variantes artificiais sequer precisa ser discutida.
Todo nascimento tem sua beleza. Mesmo a cesariana, que é uma cirurgia de grande porte, pode ser realizada com delicadeza e respeito, fazendo do nascimento pela via cirúrgica um evento igualmente belo e significativo. Não se trata de desmerecer esta cirurgia e muito menos quem porventura precisou se submeter a ela, mas é um cuidado para resguardar o conceito de humanização para os processos naturais e fisiológicos, onde a própria mulher mantém o controle dos tempos, das presenças, das posições e dos ambientes.”
Quando vejo “certos e errados” na atenção ao parto sinto arrepios. Sem dúvida que a experiência e os estudos podem nos oferecer guias, mas é fundamental entender que qualquer patologia ou mecanismo fisiológico é uma abstração, e só se torna real quando inserido no corpo de uma mulher. É ali, e somente nesse terreno, que o universo agirá para manter a vida, e sabemos o quanto a individualidade pode modificar estas rotas.
Ainda hoje a maioria dos atendentes de parto prefere se guiar por manuais rígidos, protocolos, rotinas, fluxogramas e “camas de Procusto”, mesmo quando a manifestação do sujeito lhe cospe na cara todos os dias a diversidade infinita da alma humana.
A imagem da “enfermeira pedindo silêncio”, que está na parede de tantos hospitais, e a observação da Margot Zetzsche sobre o tema, me trouxeram à memória um fato que Robbie me contou há alguns anos. Ela me descreveu a visita que fez a um hospital que havia iniciado um protocolo de “humanização”, o qual se limitava ao uso irrestrito de analgesias de parto. Além da visão completamente equivocada do que seja humanização (onde analgesias irrestritas seriam o OPOSTO desse conceito), o responsável pelo centro obstétrico – um anestesista, que surpresa – estava plenamente convencido de que a falta de gritos, sussurros e gemidos era um avanço civilizatório. Quando Robbie adentrou o centro obstétrico este médico, de forma altiva e orgulhosa, observou: “Viu? Percebeu o silêncio? Abolimos os gritos das pacientes com nossa política de analgesias para todas.”
Robbie escutou respeitosamente a descrição dos “avanços” descritos pelo profissional, mas não deixou de se questionar o quanto estes silêncios traziam de perguntas a procura de respostas. Qual o significado profundo da falta de vozes, gritos primais, choros e gemidos que se tornaram ausentes numa cena de parto?
No meu modesto entendimento, essa prática tem muito menos a ver com a diminuição das dores das pacientes e muito mais com o arrefecimento da angústia que estes gemidos inequivocamente produzem nos ouvidos dos cuidadores. Este seria, muito provavelmente, o “silêncio dos inocentes”, a mudez de quem foi despida não apenas de suas vestes, mas também de sua autonomia, sua identidade e sua voz. Se os gemidos são parte da subjetividade de uma mulher, o silêncio é mais uma forma de uniformizá-las, e assim, retirar-lhes a incômoda subjetividade.
Humanizar o nascimento nada tem a ver com a supressão química da dor, mas se refere a uma atitude que se propõe a situar esta dor como elemento constitutivo da mãe que nasce (a ponto de fazê-las suportáveis e até ausentes), impedindo que o ambiente, as vozes, os olhares e as mensagens catastrofistas sejam potentes o suficiente para inserir a gestante no círculo vicioso de Medo-Tensão-Dor.
A proposta de humanizar nascimento não pode ser resumida a um protocolo químico, invasivo e medicalizante da assistência para silenciar mulheres, mesmo quando na superfície possa parecer sedutora a simples ablação da dor de uma gestante. Humanização do nascimento é muito mais do que isso: é uma compreensão profunda desse evento e uma visão transformadora do nascimento como fator determinante para o resto da vida das pessoas que dele participam.
Queria tecer alguns comentários sobre este atendimento…
Elas poderiam ter enrolado o bezerro num tecido, talvez a própria camiseta, o que seria mais simples e fácil para os homens – por razões culturais. Por isso demorou para sair; o corpo do bezerro escorrega muito; é um sabão, mas é exatamente assim para facilitar o parto.
Mas, não se trata de tecer críticas aos partos veterinários, mas entender como essa atenção se encaixa no tema da “humanização do nascimento”. Primeiramente, vamos deixar claro que nada disso é realmente necessário. A própria vaca Julieta reclamou da V.O., pois ela bem sabia que tinha plenas condições de parir dentro do seu tempo e através de suas próprias forças e capacidades. O que a gente está vendo na filmagem é um parto instrumental, invasivo e sem justificativa aparente. Só faltou, por sorte, episiotomia….
Entretanto, é a própria sensação de vitória e sucesso que nos impregna depois de atender um parto o que produz essa euforia explícita nos cuidadores. É a “couvade”, fenômeno que se observa em comunidades originárias, a qual produz a expropriação do evento mágico do nascimento. Assim, o parto é retirado da “vaca” e colocado nas mãos das atendentes, e não há nada mais sedutor que isso.
Nas equipes que atendem partos humanos a sensação épica de um nascimento pode contaminar e comprometer nossa percepção da verdadeira função dos atendentes. O entusiasmo desmedido que toma conta de quem participa ativamente de um parto é o maior inimigo da boa atenção. Essa euforia precisa ser, primeiramente reconhecida, e depois controlada para que não se transforme em atuação invasiva. Acreditar que somos sempre imprescindíveis é o mais fácil e o primeiro de todos os erros.
Mãos cheias de dedos são o maior risco para o parto humanizado. Entretanto, não se trata apenas da criação de “protocolos respeitosos” mas, antes disso, a compreensão profunda dos tempos e da “fisiologia alargada” do parto. E, mais ainda, o respeito pelas capacidades inatas da mãe.
E, por favor, não estou criticando as moças, apenas aproveitando a deixa para analisar a psicosfera do nascimento. Veja o vídeo aqui.
É bem sabido que um bebê de 9 meses de idade (atingindo o estádio do espelho) tem habilidades de um chimpanzé recém nascido. Ao nascer somos incompetentes ao extremo. Nascemos todos despreparados para a vida extra uterina e por meses ainda nos comportamos como fetos fora do útero. Por isso foi necessário estabelecermos um cuidado muito intenso por parte da mãe como estratégia de sobrevivência. A altricialidade (dependência do cuidado alheio), decorrente dessa fragilidade, acabou gerando esta “fissura bizarra na ordem cósmica”, chamada “amor”.
Somos, portanto, produtos de uma conjunção de fatores adaptativos surgidos há 5 milhões de anos com a bipedalidade e posteriormente pela encefalização – que se acelerou com o surgimento de nosso gênero há 2 milhões de anos. Como os cangurus temos dois partos: um ao sair do útero e subirmos para o “marsúpio do colo materno”, onde encontramos leite, calor, afeto, a voz e o olhar da mãe; já o outro parto vai ocorrer lentamente na primeira infância, ao nos afastamos paulatinamente da dependência extremada desse cuidado.
A marca da altricialidade determinou o gozo e a tragédia dessa espécie. Sem ela não haveria o sentimento dela derivado: o amor profundo de um bebê por sua mãe. Em decorrência desse amor desmedido, também nas mães brota um sentimento inusitado e estranho. “Se existe amor, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, já diria Freud. Assim, a base edipiana de nossa estrutura psíquica surge pelo fenômeno adaptativo de grandes cérebros conjugados com pélvis estreitas levando ao parto de um bebê totalmente dependente, onde a semente do amor será acolhida em campo fértil. “Somos o que somos porque nascemos de uma forma bizarra, e esse nascimento produz a inevitável dor de ser o que se é”.
Por outro lado, na história da humanidade a maternidade sempre foi exercida de forma cooperativa, grupal e distribuída por várias figuras femininas, uma imagem completamente diferente do que observamos no cotidiano de tantas mães modernas. A tônica de hoje é o cansaço, a dúvida, a depressão e a insegurança, elementos psíquicos relacionados com o isolamento das mães contemporâneas.
Mães solitárias e muito sobrecarregadas na maternagem são uma coisa nova na história da humanidade. Não é de se espantar que o resultado seja a tragédia do desmame precoce em sociedades que negligenciam o contato íntimo entre mães e bebês nos primeiros meses de vida. É tempo, portanto, de revisitar a história humana e reverter nossa vivência para esse período anterior, onde, além do cuidado compartilhado, havia um profundo aprendizado das recém mães com a experiência de outras mulheres ao seu redor.
Só assim poderemos resgatar a amamentação como evento natural e fisiológico. Sem acolher estas mães, nenhum bebê será bem cuidado.
“É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança“, parafraseando um famoso provérbio africano.
A agressão às funcionárias (todas mulheres) do ISEA por ter sido chamado durante a madrugada para atender uma paciente ocorreu por parte de um anestesista. E por que não me surpreendo que está agressão tenha vindo de um médico dessa especialidade?
Existe uma divisão bem clara de perspetivas que diferencia obstetras e anestesistas. Estes últimos não conseguem enxergar pacientes da mesma forma como os obstetras os enxergam, e por esta diferença tive várias discussões relativas às indicações de cesariana no início da carreira. Achavam eles que chamá-los na madrugada era uma afronta e um desaforo. Sua expectativa era de serem convocados a atender apenas cesarianas marcadas e a maioria se negava a atender analgesias de parto, por causa do tempo quecteriam a despender com esta única paciente.
Minha experiência sempre foi difícil com eles, e não me surpreende que essa atitude absurda e violenta tenha partido dessa especialidade.
O ataque direcionado às obstetras que o chamaram para anestesiar uma paciente de madrugada é típica de quem sabe que, se fizesse isso contra colegas homens correria o risco de levar uns sopapos. Também nao me deixa surpreso.
Mas ainda acredito que a culpa disso é da cultura da cesariana, causada pela medicalização do parto, e a transformação do parto contemporâneo em evento médico, controlado por cirurgiões e com pouca consciência dos significados últimos do parto na cultura.
O que percebemos hoje é que esta geração de anestesistas, gestada no auge da cultura das cesarianas, acabou criando a ideia de que estas cirurgias não acontecem de madrugada, mas apenas com hora marcada, sob o controle do médico, e não quando o bebê sinaliza o momento de nascer. Criaram a ideia de que o nascimento, profundamente inserido no paradigma médico, ocorre com a mesma previsibilidade de uma cirurgia de vesícula.
Quando eu fui plantonista e indicava cesarianas na madrugada a observação que me faziam era sempre a mesma: “você é um mau médico. Seus colegas percebem de antemão os partos que vão “encalhar” e marcam a cesariana para um horário em que todos estão acordados e em boas condições para operar”.
Com isso tentavam constranger os colegas a marcar as cirurgias para “depois da novela”. E isso acontece porque os anestesistas têm uma ação meramente técnica; eles não sabem a história, os anseios, os desejos da paciente ou o esforço da equipe. Tudo o que querem é dormir em paz, sem ser atrapalhado – mesmo estando de plantão.
É claro que é “possível” fazer um ensaio MARAVILHOSO, randomizado com “n” satisfatório, avaliação isenta, e provar que X é maior que Y. Porém, quem escolhe avaliar X e Y, e porque não investigaram Z? Só a filosofia pode mostrar que um estudo comparando dois analgésicos para tratar a dor pós-episiotomia existe para normalizar estas cirurgias, estimulando a noção largamente disseminada na cultura de que as episiotomias são adequadas, seguras e que “consertam” um mecanismo falho e disfuncional de parto. Para além disso existe uma mensagem misógina de defectividade feminina, que é a estrutura que sustenta a manipulação e controle de seus corpos, seus desígnios e até seu prazer.
Tais estudos estão em sintonia com aqueles que comparam métodos farmacológicos de alívio da dor no parto, mas que servem especialmente para vender a ideia de que os partos são desumanamente dolorosos, sacrificiais, horríveis, destruidores e que, sem o auxílio da tecnologia – e dos profissionais que as controlam – eles seriam insuportáveis. E quem faz estes estudos? Os próprios profissionais que se beneficiam dessa mitologia de transcendência tecnológica, que esconde o fato de que a PRÓPRIA assistência medicalizada ao parto produz uma artificialização tão profunda de um evento fisiológico que a reação natural das mulheres é o medo, que gera tensão e que, por sua vez, produz dor. Esta, no diagrama famoso de Dick-Read, por sua vez vai gerar mais dor e manter o ciclo patológico da assistência ao parto. MEDO – TENSÃO – DOR
É por isso que, mais do que a crueza fria dos números e da ciência, é preciso criar um entendimento que coloque estes achados dentro de um invólucro cultural e econômico, e que os explique dentro da cultura e do seu tempo.
Há muitos anos eu era residente no hospital escola onde estudei e me formei. O plantão havia sido intenso, com muitos partos, atendimentos e cirurgias, mas já havia passado uma hora do último parto, o que oferecia ao nosso setor uma benfazeja calmaria. Eu fazia o trabalho mais pesado, enquanto os R2 faziam as atividades que precisavam mais responsabilidade e experiência. Depois de alguns poucos minutos de descanso no “estar médico” esta tranquilidade foi quebrada com gritos – na verdade uma gritaria recheada de palavrões e ameaças – vindo da entrada do centro obstétrico. Corri para o local e quando lá cheguei vi meu colega de plantão pronto para bater num cidadão que estava ao lado de sua esposa, a qual iniciava seu trabalho de parto. Ambos estavam com os pulsos ao alto, prontos para socar um ao outro. Algo havia acontecido momentos antes que havia escalado para uma altercação física.
Eu imediatamente me coloquei entre os dois, enquanto faíscas de ódio passavam por cima dos meus braços e cabeça. A agitação de ambos era limítrofe: os rostos pálidos cheios de adrenalina indicavam que estavam prontos a se engalfinhar. Depois de alguns momentos, e com muita calma e paciência, consegui convencer meu colega a sair e deixar a questão para que eu cuidasse.
Quando a poeira sentou escutei o que o casal tinha a contar. Disseram que o médico estava “negando” a internação. Disseram também que moravam longe, que não tinham como voltar e só lhes restava chamar as rádios populares, fazer uma queixa, depois chamar a polícia e todas aquelas ameaças que os trabalhadores da linha de frente da assistência à saúde já escutaram alguma vez na vida.
Pedi para ver a ficha do atendimento que meu colega havia acabado de registrar. Os batimentos estavam ótimos, mas o toque revelava duas contrações cada 10 minutos, fracas, e a dilatação era de meros dois centímetros. Ficou fácil entender porque meu colega havia “negado” a internação.
– Ele disse que o hospital está lotado!!! Isso é uma mentira!! Olhe em volta!!
Ficava fácil perceber que o centro obstétrico estava vazio, mas o meu colega havia transmitido apenas a recomendação do setor de neonatologia (do andar de baixo) para não internar ninguém pois eles estavam sem leitos disponíveis. Foi o que ele tentou fazer, talvez sem a necessária delicadeza.
Expliquei ao casal o que havia acontecido, pelo menos do nosso ponto de vista. Relatei a eles sobre a lotação da neonatologia e eles pareceram entender, mesmo sem se convencer. Pedi, então, para que fizessem um acordo comigo. Que saíssem do hospital e ficassem dando voltas na quadra. Ou que fossem ao parque – que fica uns 50 metros distante – e que tomassem um sorvete. Pedi que se tranquilizassem e esperassem sem medo a chegada das contrações do trabalho de parto.
– Aguardem a chegada das contrações fortes. O sol está se pondo, alguns recém-nascidos terão alta. Vão sobrar lugares depois disso. Quando voltarem aqui com muitas contrações eu me responsabilizo por atendê-los. Fiquem tranquilos, eu dou minha palavra. Eu garanto a internação.
Com essas garantias eles se acalmaram e saíram da sala. Voltei para a sala e encontrei meu colega ainda alterado. Eu sabia que, se tivesse internado a paciente (sem nenhuma justificativa), os socos e pontapés poderiam ser transferidos para mim, por isso fui rapidamente dizendo que confirmei sua decisão. Porém, isso não foi suficiente para acalmá-lo. Ainda descontrolado, explodiu em palavras de indignação e raiva.
– Quem eles pensam que são para me dar ordens? Como ousam dizer como devo fazer meu trabalho? São uns ignorantes sem preparo algum!!!
Pedi em vão que se acalmasse. Ele continuou esbravejando, com os olhos injetados de inconformidade.
– Pois eu te digo o que vai acontecer. Eles voltarão aqui por volta das 4 da manhã, durante o meu turno de trabalho. Você sabe o que eu vou fazer? Vou colocá-la na última sala de pré-parto, no fundo do corredor, sem acompanhante algum. Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinha para ver seu períneo se arrebentar!!! Só então ela vai entender o nosso trabalho!!
É evidente que meu colega, um sujeito brincalhão e boa praça, jamais faria isso. Não se pode analisar este tipo de arroubo de forma literal. Retirar essa explosão de raiva do contexto seria um crime imperdoável. Ele nunca cometeria um ato tão odioso quanto esse e a tudo isso entendi como uma explosão de indignação, dita para dois ou três de seus colegas imediatamente após uma cena de quase pugilato.
Entretanto, sua frase nunca saiu de minha cabeça. Ela continha, de forma sintética, a quintessência do pensamento médico obstétrico e todos os ensinamentos da antropologia do nascimento que eu ainda viria a conhecer.
“Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinho para ver seu períneo se arrebentar. Só então vai entender nosso trabalho.”
Com esta frase ele queria mostrar que a única forma de uma mulher parir com segurança e dignidade é submetendo-se à ordenação médica e deixando-se cortar, abrindo-se e tendo seu filho sacado do seu ventre para entrar nesse mundo – “por baixo ou por cima”. A alienação era a ÚNICA via que poderia lhe garantir segurança; inobstante a via de nascimento, ela seria controlada por forças externas a ela, já que, em essência, era vista como incompetente para dar conta dessa tarefa.
A episiotomia entrava, em seu breve discurso, como um processo civilizatório, uma marca da cultura em seu corpo a lhe lembrar de sua posição social, como uma cicatriz de guerra, uma escarificação, uma tatuagem a lhe dizer eternamente que, para dar conta de suas tarefas femininas, precisou da ajuda de alguém representando o mundo masculino. Mesmo sendo um ato violento, a episiotomia se justificava como uma forma de pedagogia. “É para o seu bem, mãezinha”.
“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, e só parirás se for por mim”, já me avisava Max nos primórdios da minha conversão.
Nenhuma “humanização do nascimento” vai prosperar e vicejar sem que esses elementos da cultura sejam lentamente eliminados dos nossos ouvidos como a narrativa condutora e hegemônica. Nenhum avanço será feito se continuarmos a acreditar na defectividade feminina, em sua incompetência essencial e no direito inquestionável da tecnologia de lhes expropriar deste momento especial.
Esse assunto se situa no ponto de choque entre dois gigantescos icebergs: tutela e autonomia. A mulher durante a gestação percebe estas duas massas gigantescas se aproximando de forma ameaçante e precisa decidir onde se situar. Ela pode se agarrar a um dos icebergs, mas será inexoravelmente cobrada por ter feito esta opção.
Cada um de nós estabelece um limite na batalha entre a alienação do seu corpo ao profissional e a plena autonomia, de acordo com suas histórias, vivências, estudos e sua topografia na hierarquia de poderes. Entretanto, para esta que sofre no corpo o drama da escolha esta é uma decisão muito mais complexa.
Não sei se acho justo, adequado, válido ou correto quando vejo uma mulher sem pré Natal chegar ao terceiro trimestre, mas as poucas que vi na minha vida traziam no olhar uma pergunta que eu não sabia responder.
Sabe… como olhar para um ato de extrema coragem, mas que, apesar de não concordamos, nos faz questionar nossos valores e nossas certezas.
A expressão do rosto de ambos é o que deveria ser mostrado nas novelas, nos filmes e apresentado para as crianças na escola. A felicidade contagiante da imagem conta mais sobre a realidade profunda do parto do que compêndios de obstetricia, por conjugar de forma holográfica uma serie de verdades escondidas. A iconografia do parto, desde que a Medicina se apoderou do evento patologizando-o no seu intento expropriativo, nos deixou como legado as imagens da dor, do abandono, do sofrimento, do medo e do horror. Por muitas décadas a face do parto foi a emergência, a tragédia, o drama e a defectividade essencial do processo. A culpa seria, a partir de então, das das mulheres e seu mecanismo falho, seus úteros débeis e suas vaginas dentadas.
Por outro lado, desde a emergência da especialidade médica no parto, o canto de sereia da alienação feminina do evento se fez ouvir. Primeiro ao admitir que cirurgiões operando na lógica da intervenção tomassem conta de um evento fisiológico, onde a regra deveria ser da não-intervenção, do respeito aos ciclos e da paciência com os tempos. Depois retiraram das mulheres a ambiência calorosa e reasseguradora que por milênios as cercou, levando-as para hospitais frios e assépticos, onde a lógica que contamina suas paredes é a da doença e das ações etiocêntricas.
Ato contínuo, a família foi apartada da gestante, os bebês de suas mães, o leite foi separado do peito e os cirurgiões se tornaram os intermediários entre os núcleos familiares e a cultura patriarcal, usando o momento de pura energia transformativa como uma porta de entrada para doutrinar mães e bebês para seu lugar submisso na cultura.
A obstetricia, assim estabelecida, vem a se tornar um braço poderoso do patriarcado na cultura do Ocidente.
A partir desses dois pontos – os cirurgiões no comando e o parto hospitalar – o caminho para a total alienação do parto estava pavimentado. O controle panóptico do pré-natal, as drogas, os exames, as ultrassonografias (em sua maioria) inúteis e invasivas, a ilusão biologicista do controle total e a mecanização extrema de todo o processo foram os seguimentos naturais.
A foto perturbadora de um casal sorrindo e feliz no momento do nascimento, experimentando essa passagem com êxtase e alegria, causa espanto porque o modelo obstétrico, ao tornar esse momento um “ato médico” não consegue apreender a gama infinita de manifestações sociais, fisiológicas, emocionais, psicológicas e espirituais que esse evento comporta. Ao se ater apenas nas questões mecânicas e biológicas, com foco especial na patologia e cobertos pelo manto do medo, é natural que as cesarianas – com sua imagem ilusória de segurança, limpeza, ciência e silêncio – se tornassem a fotografia padrão dos nascimentos no Brasil.
Criamos um mapa tão distante da realidade que a essência profunda do parto desapareceu e, quando sua real imagem aparece na tela da cultura, ela causa espanto e assombro.
Para mudar a cultura do parto também é necessário mudar sua iconografia. Cabe a nós, testemunhas do milagre, retratá-lo em sua mais completa grandiloquência.