Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada? A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação desta visão pelas mulheres, é um dos capítulos mais fascinantes da história do feminino no ocidente, e um dos menos estudados. Entretanto, a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos essenciais. Pelo contrário; será pelo mergulho profundo na feminilidade vibrante de seus ciclos e pelo reforço de suas especificidades.
Marguerite Keller, “Wolves over the prairie”, ed. Cabell, pag. 135
Marguerite Keller é uma feminista alemã nascida em Hamburgo em 1960 que se dedicou ao estudo das relações entre feminismo e nascimento humano. Escreveu “Wolves over the Prairie” como uma coletânea de contos, histórias e crônicas sobre a temática do nascimento na ótica feminista em várias revistas e jornais americanos. Estudou com Robbie Davis-Floyd e foi discípula de Brigitt Jordan. Mora em Atlanta, na Georgia, e tem dois filhos Klauss e Vanessa.
Há alguns anos o empreiteiro que construiu minha casa pediu que eu comprasse uma substância para passar no madeirame do telhado. “Quantos galões?“, perguntei eu. Ele coçou a cabeça, calculou mentalmente e respondeu: “Seis serão suficientes“. Saiu caro, mas comprei conforme sua indicação.
Muitos anos depois fiz uma reforma na casa e perguntei se precisaria comprar de novo aquela substância. O pedreiro que estava me acompanhando na época respondeu que sim, seria conveniente. Perguntei mais uma vez a quantidade, e ele respondeu sem titubear: “Um galão dá e sobra para tudo isso aqui“. Meu antigo empreiteiro usou o produto que comprei para a minha casa e mais cinco outras…
O mestre de obra que está à frente da reforma da Escola da Comuna me diz: “Precisa comprar mais canos, porque com a vazão da água do telhado, a drenagem…” e tudo que eu escuto é “Precisa uma cesariana porque o batimento e a posição do bebê…“
A realidade é que ficamos inexoravelmente nas mãos dos especialistas. Não apenas porque sabem mais e conhecem as técnicas e as “manhas”, mas por terem o “conhecimento autoritativo” aquele que lhes garante o reconhecimento social e a responsabilidade de fazer e acontecer.
A qualidade técnica é essencial, não há dúvida sobre isso. O estudo, o aprimoramento, a sede pelos novos conhecimentos, o capricho, o detalhe e a delicadeza são primordiais. Entretanto, todos estes valores sucumbem rapidamente diante de sua base de sustentação: os valores éticos de uma profissão.
No meu tempo de estudante era comum dizerem: “Dr Fulano é um cavalo, um animal vestido, mas é um ótimo cirurgião.” Nunca acreditei nessa tese. O Dr Fulano dominava técnicas manuais e tinha experiência como operador, mas carecia dos elementos fundamentais que configuram um bom profissional: a conexão visceral com os preceitos éticos de beneficência e da não maleficência. Muitos são técnicos; operadores e prescritores de drogas, mas não são médicos na verdadeira extensão dessa função social.
Antes de escolher o mestre que levará adiante o sonho de uma escola de comunidade é importante conhecer o sujeito dentro do profissional, para poder confiar que suas decisões serão tomadas tendo a ética como norte. Para escolher alguém que estará tomando decisões sérias e delicadas diante do mais espetacular e decisivo evento de uma família – o nascimento de seus filhos – é essencial que se conheçam os profissionais e as vinculações éticas que estabelecem com o próprio trabalho.
Sem isso serão tão somente técnicos sem o brilho que se espera de alguém que será testemunha de uma revolução emocional e espiritual de tamanha amplitude.
Imagina um sujeito que questionava as rotinas insensatas da atenção ao parto – como as episiotomias, o kristeller, as cesarianas abusivas, o corte prematuro de cordão, o afastamento precoce da mãe e do bebê, as vacinas usadas imediatamente após o parto, as rotinas de afastamento etc. – há 30 anos e demonstrava que todas elas faziam parte de uma mitologia médica sem qualquer evidência científica que as justificasse, que apenas serviam aos interesses de uma corporação e ao patriarcado na sua missão de expropriar o parto da mulher. O que aconteceria com um profissional assim? Não é difícil de imaginar…
Pois esta semana eu li um conceito que me chamou a atenção, e que veio em forma de questionamento. Era sobre a ideia – felizmente ainda não colocada em prática – de colocar crianças na escola aos 6 meses de idade e ensiná-las a caminhar com a ajuda de professores e através de equipamentos sofisticados de “auxílio à marcha”. O que aconteceria se as crianças aprendessem a andar com esses profissionais, em vez de o fazerem junto à sua família, em suas casas, como uma experiência afetiva e familiar?
Pois eu afirmo que bastariam duas gerações para passarmos a acreditar que somente com uma escola especializada seriam os bebês capazes de aprender a andar. O ensino domiciliar poderia até ser proibido.
“Imagina, aprender em casa, sem professores, sem equipamentos!! E se uma criança cair? E se um bebê morrer? Aprender em casa é coisa da idade média!!! Estamos no século XXI, não podemos mais aceitar modismos perigosos!!“
Parece familiar?
Não seriam necessárias mais do que poucas décadas para que o aprendizado “natural” e “fisiológico” de andar – que sempre foi feito através do afeto e respeitando aos tempos subjetivos (10 meses? 11 meses? 1 ano? Qual a diferença?) – desaparecesse por completo. Os estudos sobre o mecanismo da marcha seriam feitos apenas em escolas, comparando métodos de ensino entre si, mas negando a existência de um método multi milenar que sempre nos acompanhou, pois que este agora seria tratado como exemplo de atraso e perigo.
Sabe qual o resultado óbvio dessa aventura tecnocrática? “Disfunção de marcha“, atraso no desenvolvimento, problemas de equilíbrio e desenvolvimento muscular, da mesma forma como a intervenção médica abusiva sobre os ciclos vitais criou os problemas no parto e estimulou o desmame precoce. Pior, nós acabaríamos formando mais especialistas para tratar os graves problemas de marcha e equilíbrio que criamos, porém não de forma crítica e responsável, mas acrescentando ainda mais intervenções para manter intocado o poder sobre os corpos, desnaturalizando dramaticamente nossas experiências de vida.
A crítica aos limites da intervenção só pode ser feita com coragem e determinação. A expropriação da natureza humana em nome do poder consagrado aos “especialistas” precisa ser desafiada, para que não destruamos o pouco de humano que ainda resta em nós.
Diante da explosão de emoções suscitadas por um parto me parece justo que a equipe possa descrevê-lo a partir de SUA perspectiva, até porque um parto sempre terá inúmeras interpretações. Sem dúvida que as mais importantes são as “de dentro” e todas as outras “de fora”.
Uma equipe pode falar que um parto foi maravilhoso ou problemático, desde que o descreva do ponto de vista da atenção prestada. Só uma mulher pode falar de como se sentiu ou como digeriu sua experiência de parir.
Para além disso, nem a descrição que a mulher faz do próprio parto pode ser considerada “a definitiva”. Apesar da primazia de suas percepções – já que é a óbvia protagonista – suas expectativas e projeções subjetivas podem obscurecer a realidade dos fatos, fazendo com que muitas vezes ela descreva seu parto de uma forma completamente diferente de outras perspectivas.
Um parto, por ser um evento humano e multifacetado, sempre comportará várias interpretações e vieses. Além disso, é um dos eventos mais complexos da existência humana, que conjuga em sua essência vida, morte e sexualidade. Exatamente por essas características o nascimento será um processo sensível e reservado. As pessoas convidadas a participar dele precisam entender a importância de resguardar sua privacidade. Assim, não faz sentido que aqueles que o testemunham revelem suas particularidades sem a aquiescência da protagonista, e isso deve ser um consenso entre os cuidadores.
Não se trata de determinar a existência de uma única verdade no parto, a perspectiva justa e certa, pois que isso não existe. Parto só pode ser entendido pela paralaxe de múltiplas visões, em que todas completam o todo interpretativo de um evento múltiplo. Porém, as características pessoais de cada nascimento impõem a reserva e o respeito de todos os que dele participam.
Resguardar a sacralidade do parto depende do preparo dos assistentes e da capacidade de entender sua posição subjetiva como auxiliares de um evento cujas repercussões estão muito além da nossa compreensão.
Aqui no Brasil a episiotomia ainda é feita com frequência. A sociedade de ginecologia e obstetrícia nunca teve uma posição firme contra essa cirurgia até porque, historicamente falando, ela é a intervenção que inaugura a divisão entre a prática dos médicos e das parteiras. É o divisor de águas, surgida de um trabalho mal feito e mal avaliado por De Lee, no início do século passado. Tem a fama de ser a única cirurgia do Ocidente a ser realizada sem o consentimento das pacientes. É responsável pela maior parte do desconforto físico pós-parto e pode causar dores na atividade sexual mesmo vários meses após ter sido realizada.
É também vista como a cirurgia que é feita no corpo de uma pessoa para produzir efeitos no corpo de outra. Por isso mesmo, por estar no limiar entre esses dois mundos, esta intervenção cirúrgica é cercada de mitos, e permanece avessa às evidências científicas a pelo menos 3 décadas. É o procedimento mais emblemático da luta das mulheres pela autonomia corporal. Sua execução, entretanto, resiste às evidências porque simboliza a supremacia da tecnologia – representada pelo bisturi – sobre a natureza implicada no nascimento fisiológico. Episiotomia é a grande cirurgia ritualística e mutilatória da Medicina ocidental.
A derrocada da episiotomia e da posição de litotomia (a posição mais usada para parir, deitada de costas na mesa obstétrica) ocorrerá ao mesmo tempo de uma mudança paradigmática profunda, com o retorno das parteiras ao centro da atenção ao parto e com a máxima valorização da fisiologia do parto sobre as intervenções, que ocorrerão apenas em situações limite, e não como o padrão do cuidado.
Todos haverão de concordar que um tempo de cama compartilhada auxilia tanto a mãe na tarefa de amamentar quanto tranquiliza o bebê – para quem sua mãe e “o mundo” são a mesma coisa. Concordamos também que, em nome da autonomia da criança, esta proximidade de corpos deve ser abandonada em algum ponto da infância. O problema é estabelecer este ponto de corte, esta castração simbólica do poder da criança sobre o corpo da mãe, pois que a nossa própria maturação enquanto sujeitos dependerá desse afastamento.
Eu já fui bem radical sobre esse tema logo após me graduar. Achava justo que esse corte fosse o mais precoce para auxiliar na autonomia e independência das crianças. Também acreditava que a amamentação devia ser interrompida num ponto determinado, por volta dos dois anos, pelas mesmas razões. Pensava, com honestidade, que era função social do médico educar as mulheres a fazer esta separação da forma mais rápida, olhando para o desmame e a colocação no berço como a retirada de um band-aid emocional, uma muleta que devia ser abandonada.
O tempo foi me deixando mais maleável, sem dúvida. Hoje prefiro acreditar que, com raríssimas exceções, mães e bebê acabam encontrando um consenso sobre amamentação e cama compartilhada. Chega um determinado momento em que os dois se “olham estranho”, lançam um sorriso que preenche o espaço entre ambos e percebem que aquela relação, com tamanha proximidade, não cabe mais para eles. Assim se dá um desenlace amigável e ambos passam para uma nova fase da sua relação.
Percebi também que muito do que eu dizia sobre o tema era uma composição complexa entre racionalizações e conteúdos psíquicos inconfessos e inconscientes. Para mim é inegável que a cama compartilhada e a amamentação são movimentos eróticos entre os personagens da “cena primária”, nos quais os homens são fatalmente excluídos. Muito das teorias sobre o tema são produzidas sob essa pressão patriarcal. Para os homens, as emoções ativadas diante dessa cena são angustiantes e conflituosas, mesmo quando existe a alegria esfuziante e genuíno afeto envolvido nesse encontro. No meu caso, era óbvio o quanto a manutenção dessa ligação parecia embaraçosa, mas levou muito tempo para perceber o quanto havia de preconceito e bloqueios pessoais envolvidos.
A medicina, como representante e mantenedora dos valores patriarcais, sempre terá uma postura conservadora, tanto na expropriação do parto – desde sua entrada na atenção – quanto no afastamento das mães de suas crias, exatamente porque este afeto denuncia e desafia os poderes patriarcais estabelecidos.
Manter essa união “mãebebê” sob máxima proteção e cuidado deveria ser a tarefa mais sagrada de todos os cuidadores, pois que os efeitos desse contato harmonioso perduram por toda a existência, fortalecendo a saúde física e mental dos sujeitos. Infelizmente, nossos próprios medos e fragilidades impedem que este encontro seja o mais suave e tranquilo possível.
Nossa missão enquanto profissionais do parto e da puericultura deve ser a proteção da fisiologia e do contato, fugindo sempre que possível da artificialidade e do afastamento. Para isso é preciso que cada cuidador se permita encantar com a magia de uma mãe amamentando seu filho e repousando ao seu lado com total segurança e liberdade.
Não sei se há respaldo legal para a aplicação de vigilâncias panópticas em centros obstétricos, onde as grávidas em trabalho de parto desfilariam desnudas diante de câmeras, exibindo-se involuntariamente a um observador à distância. Alguns dizem que este controle já é usado em alguns hospitais.
Entretanto, se isso for fato e houver garantias legais para tal, qual o problema? Qual seria a novidade em invadir desta forma o mundo privativo do nascimento na perspectiva da biomedicina patriarcal?
Posso garantir que, se essa pergunta for feita para 10 médicos obstetras, 9 deles vão olhar o interlocutor com cara de assombro, como a não entender do que se está falando. Para quem não consegue entender que “episiotomia é violência obstétrica“, como exigir que entenda a nudez das pacientes na perspectiva delas mesmas, e não de quem as atende?
Via de regra, a resposta a este questionamento será: “Como assim? De onde tirou essa ideia?“, para logo depois arrematarem: “Vocês enxergam maldade em tudo“…
O corpo das mulheres, ao olhar da medicina, é dessexualizado; um corpo real, tornado des-animado para assim oferecer proteção à atuação dos profissionais. Monitorar grávidas desnudas não parece, aos olhos da medicina, configurar uma invasão da intimidade ou da privacidade.
Entrar em um hospital para parir significa perder sua condição de cidadã e sua autonomia, e abrir mão dessas “frescuras” de intimidade, pudores e privacidade. Estas necessidades, tão humanas e banais, ficam no guichê do hospital, junto com os documentos e a carteirinha da Sulamérica. Assim, não causaria nenhum tipo de surpresa se o “big brother” obstétrico achasse normal, natural e benéfico vigiar corpos-máquinas desnudos fazendo seu trabalho de procriação.
Qual o sentido dos corpos já deserotizados pelo sistema de atenção ao parto reclamarem e questionarem a perda de sua privacidade?
Diante do efeito dominó nas casas legislativas do país em acatar a ideia das “cesarianas a pedido”, creio que as instituições de proteção à mulher – em especial aquelas que defendem a humanização do nascimento – precisam olhar para o fenômeno com muito cuidado, toda a delicadeza e a devida responsabilidade que ele demanda.
Apesar da frustração inicial e pela perspectiva de vermos aprofundar o intervencionismo obstétrico em nosso país, creio que nossa ação – da ReHuNa e outras instituições afins – deve ser antropofágica. Quero dizer: comer a realidade que nos foi imposta, digerir a nova condição, ruminar suas circunstâncias e contextos e finalmente incorporar essa nova fase, onde a (ilusória) autonomia das mulheres, determinada pela pressão dos profissionais e instituições, será tomada como guia.
Sabemos do “Cavalo de Troia” que está por trás dessa falsa liberdade de escolha. Simone Diniz explicava há muitos anos sobre a estratégia de “oferecer partos violentos para vender cesarianas“. Pior ainda, agora vemos a própria legislação travestir a opção pela cesariana – que nada mais é que uma “escolha pela dignidade” em contextos de violência obstétrica – como um avanço nos direitos humanos e uma vitória para as reivindicações históricas das mulheres.
Temos plena consciência de que estamos diante de um embuste e um retrocesso, mas é difícil fazer esta informação chegar na ponta da atenção para o conhecimento das gestantes e suas famílias.
Todavia, não há como retroceder. Qualquer movimento para obstaculizar esta medida será levada ao público como retrocesso e como insistência na tutela sobre os corpos femininos. Para a imensa maioria das gestantes, embebidas na cultura do “imperativo tecnológico”, a cesariana representa o futuro, a ciência, o progresso e o fim de suas “dores excruciantes”. Bem sabemos o quanto isso está longe da verdade, mas também temos noção do quanto educar mulheres sobre os benefícios do parto fisiológico é tarefa que dura gerações.
O que é necessário agora é absorver o golpe, aceitar o aumento de cesarianas como um resultado inevitável, cuidar dos feridos e dos mutilados (entre pacientes, médicos e parteiras) e continuar nossa campanha incessante e firme por uma pedagogia verdadeiramente libertária para as mulheres, desde a mais tenra idade.
Para as mulheres que se deixaram seduzir pelo canto mavioso da sereia tecnocrática só podemos dizer:
“Se você deseja uma cesariana para fugir da dor, ou porque está consumida por medos, esta é uma escolha sua. Todavia, se deseja saber o quanto custará esta decisão, e os riscos envolvidos nela, pode nos procurar, pois estaremos sempre aqui para ajudar”.
Para que um obstetra procure transformar sua prática é essencial que sua forma de conceber a assistência ao nascimento entre em crise. O choque doloroso entre conceitos precisa ser a tônica do processo. Esta transformação a partir do legado da Escola Médica (tecnocrática e intervencionista) em busca de maneiras mais democráticas de atuação jamais ocorre sem angústia …. e dor. Despir-se dos valores duramente adquiridos no período de formação só pode ocorrer através de sacrifício.
Sacro ofício, trabalho sagrado.
Todavia, é preciso que a humanização, a abordagem suave e a garantia da autonomia à mulher ocorram a partir da dor, pois ela é a energia motriz mais efetiva. A partir disso, a promessa de alívio desse sofrimento assegura a coragem necessária para efetuar as mudanças. A transformação sempre ocorrerá nos estratos emocionais e afetivos do sujeito. O arcabouço teórico só chega bem depois, para dar suporte à reconstrução do nosso proceder, agora sob outras bases.
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“Para que a psicanálise seja eficaz, é necessário que quem se analisa reúna as seguintes características: que sofra, que não suporte mais sofrer, que se interrogue sobre as causas de seu sofrimento e que tenha a esperança de que o profissional que vai tratá-lo será capaz de livrá-lo de seu tormento.”
Macaca-caranguejeira, como as utilizadas no estudo de Juan Carlos Izpisúa, ao lado do filhote
O alongamento do período fértil das mulheres através da intervenção tecnológica (leia sobre as recentes descobertas aqui) é um exemplo clássico do “modelo de punch” (Punch Theory) do antropólogo americano Peter Reynolds eternizado por Robbie em “Birth as an American Rite of Passage”.
O modelo capitalista determina o retardo da gravidez no mundo contemporâneo, fazendo com que a primeira (em geral a única) gestação ocorra perto do fechamento da janela fisiológica de fertilidade, no início da 5a década. Assim, ao invés de questionarmos os mecanismos sociais que retardam a maternidade – em suma o capitalismo em sua expressão social – criamos novos recursos tecnológicos para “consertar” o desequilíbrio criado por um estilo de vida que agride nossa programação paleolítica.
Evidentemente a criação de soluções para gestações após a época naturalmente determinada pelo processo adaptativo produzirá suas próprias consequências – o desaparecimento do suporte das avós jovens sendo apenas a mais óbvia – mas estas serão igualmente abordadas por outras intervenções tecnológicas, e assim sucessivamente.
O progresso científico é sempre enganoso. O que nos oferece é sempre fulgurante, mas o que nos retira fica ofuscado, as vezes por um tempo tal que impede qualquer retorno. Como… smartphones.