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Barulhos de fundo

Não é fácil e posso entender quando o peso nos faz vergar os joelhos. Eu só entendi o bullying que sofri durante 30 anos quando parei de atender, pela mesma razão que a gente só percebe o silêncio quando alguém desliga o ventilador e interrompe o barulho. O bullying na minha vida era o “ruído de fundo” que, de tão constante e insistente, parecia inseparável do cotidiano. Só o desligar de todas as máquinas me deu sua verdadeira dimensão.

É possível compreender a angústia daqueles que desistem no meio da batalha ou que lamentam terem um dia escolhido a pílula vermelha. Entretanto, isso em nada muda a necessidade da luta ou sua urgência, apenas trocamos os personagens.  

“Não chores meu filho, não chores, que a vida é luta renhida. Viver é combate que aos fracos abate, mas que aos fortes e bravos só sabe exaltar.” (Ijuca Pirama)

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Simbolismos

Parei totalmente de fazer episiotomia num memorável plantão obstétrico em uma cidade vizinha de Porto Alegre quando corria o ano de 1990; lá se vão 27 anos. Resolvi testar a capacidade elástica dos períneos por mim mesmo, em uma época em que episiotomia era tabu e não realizá-la era considerado má prática. Todavia, essa determinações não vinham da ciência e das pesquisas, e sim através do “Guardiões do Saber da Província“, mais preocupados com a manutenção dos seus privilégios do que com a garantia da integridade física de suas pacientes.

O resultado de minha experiência prática nos plantões foi espantoso: os períneos, em sua imensa maioria, se mantinham íntegros ou com lacerações minúsculas. A paciência com a elasticidade perineal, conjugada com a posição vertical do parto – que eu já usava desde a residência – foi um grande sucesso, e apresentou duas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, demonstrou o que a pesquisa de Thacker & Banta já afirmava: não se justifica a episiotomia de rotina para proteção contra lacerações nos tecidos do períneo. Em segundo lugar, confirmou a tese de que a episiotomia era um ritual mutilatório por oferecer os três elementos que o constituem: padronização, repetição e simbolismo. Quanto à repetição e à padronização do procedimento não havia dúvidas, mas qual o simbolismo se escondia por detrás do meramente manifesto no corte sobre as estruturas perineais?

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, só parirás se for por mim”, dizia Max sobre a ação que abria as portas do claustro materno, permitindo assim a liberação do ser por ela sequestrado. Cabia a nós, médicos, permitir que o bebê pudesse escapar das amarras de pele e músculo pelas quais sua mãe o prendia. Era por nossa ação que ele escapava da prisão sufocante em que se encontrava, podendo finalmente encontrar o ar que o corpo de sua mãe teimosamente sonegava.

A episiotomia nos colocava gloriosamente no centro da parturição, atestando nossa importância no evento e confirmando nossa desconfiança milenar na defectividade essencial do corpo da mulher. O monstro da “vagina dentada”, se mutilava falos no passado, hoje encarcera bebês, e o bisturi da cultura ao corta-lhe a garganta devolve a nós o produto social – o bebê – agora pela mão hábil, precisa e segura do cirurgião.

Foi preciso acordar dessa fantasia, transmitida pelo currículo oculto da escola médica, para interromper as mutilações genitais que fui ensinado a fazer. Nunca me arrependi de ter abandonado essa prática medieval, mas ainda carrego um certo remorso pelas tantas vaginas que maltratei – por ignorância, medo e miopia – durante meus anos iniciais de prática.

Que elas possam um dia me perdoar.

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Carros de duas rodas

Uma cesariana depois de um tremendo esforço, luta, dedicação, orientação e uma atitude de respeito pelos profissionais CONTINUA SENDO UMA CESARIANA. E não tem nada de errado em ser assim. Mas uma cesariana é um ato médico que tem esse profissional como protagonista. Acredito que devemos parar de chamar de “cesariana humanizada” apenas porque foi bem indicada, porque se não for bem indicada ela é apenas ABUSIVA.

Nessa definição que utilizamos, para um evento ser humanizado ele precisa ter o protagonismo do sujeito, o que é impossível numa cesariana. Só isso. Isso não torna o nascimento menos importante ou menos bonito, apenas define o que ele é. Acima de tudo, sabemos o quanto temos progredido nos projetos de humanização no mundo inteiro e na luta contra as cesarianas abusivas. O uso da expressão “cesariana humanizada” é UM TRUQUE dos cesarianas para entrar no clube da fisiologia e do respeito ao corpo pela porta dos fundos. É uma margarina que se finge de manteiga, um leite que se finge de materno, uma geleia com sabor artificial de morango.

Não caiam nesse discurso que quer vender cesariana como se fosse a última flor da humanização.

Outra coisa, precisamos parar de tratar mulheres como crianças, dourando a pílula das cesarianas. Não há porque usar artifícios de linguagem para “proteger”  mulheres do fato de que a cesariana é uma cirurgia, e que um parto é um processo completamente diferente. As mulheres são fortes e maduras o suficiente para suportarem a frustração de um não-parto.

“Venha comprar um automóvel de duas rodas e ganhe um capacete de brinde”

– Mas não é uma motocicleta?”

– A gente chama de automóvel de duas rodas para o proprietário não se sentir chateado por não ter um carro. Afinal, auto + móvel, ora… por que não?

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Cesarianas humanizadas

Não…. eu não acredito em “cesarianas humanizadas”. Esse é um termo historicamente utilizado para trazer a cesariana para próximo da seara da humanização. É uma mensagem para o inconsciente: “Tanto faz se for cesariana ou parto normal, o importante é ser humanizado”. O objetivo é retirar o peso da cesariana e equalizar as experiências humanas de dois processos absolutamente diferentes e que só tem como ponto em comum o nascimento de uma criança. Para justificar minha recusa ao termo apresento meu conceito de humanização, que consiste de 3 pontos fundamentais:

1- Garantir o pleno protagonismo à mulher
2- Visão interdisciplinar (o parto não é um evento médico, mas humano)
3- Conexão com a SBE – Saúde Baseada em Evidências

Como se pode ver uma cesariana retira o protagonismo da mulher e o coloca nas mãos do profissional. Ela não tem o controle do parto; mais ainda, ele deixa de existir sendo transformado em um evento cirúrgico. Assim a expressão “cesariana humanizada” carece do elemento fundamental que sustenta as propostas de humanização: o protagonismo garantido à mulher em suas escolhas.

No meu modesto ver as pacientes submetidas a uma cesariana serão sempre objetos do procedimento, jamais sujeitos. Podem ser sujeitos da escolha, mas não do ato cirúrgico, que é médico. Não vejo, porém, erro algum em ser objeto de intervenção médica quando necessário, desde que haja boas razões para que esse protagonismo seja confiscado. Repetindo: cesarianas salvam vidas, mas seu abuso as retira. Não é demérito algum para uma mulher que precisa de uma cirurgia, mas uma perda enorme para aquelas que, sem verdadeiramente precisar, acabam sendo a ela submetidas.

Uma cesariana pode ser “humana” no sentido de gentil, cuidadosa, adequada e justa. Deve ser, acima de tudo, bem indicada, apenas como última alternativa a um parto fisiológico – quando todas as outras alternativas para o sucesso de um parto vaginal falharam. Entretanto, não pode ser “humanizada” por não oferecer a característica mais essencial da humanização, qual seja, o protagonismo feminino no processo.

Sei que debatemos semântica, mas sei também o que existe por trás dessa confusão. O mesmo truque de palavras se usa com a “amamentação artificial”, cuja propaganda procura produzir confusão com o verdadeiro leite, aquele de quem usa a “mama”. Assim como a indústria do “leite artificial”, a indústria da cesariana usa o termo “humanizada” para qualificá-la e aproximá-la do parto normal, com o mesmo objetivo de dissimular a diferença brutal entre o processo fisiológico e o artificial que observamos em todos os aspectos envolvidos: segurança, (re)adaptação, conexão com o bebê, fisiologia respeitada, perda sanguínea, amamentação, etc.

É exatamente para fugir desde tipo de confusão linguística proposital que procuramos alertar sempre que tal expressão aparece.

Protagonismo é uma palavra grega que se compõe de dois elementos: proto (primeiro) e agonistes (ator, lutador). O protagonista é o ator primeiro, principal. Em uma cesariana este ator é o médico, não mais a paciente. Protagonismo é ter autonomia para tomar decisões. Numa cesariana a paciente não pode mais “fazer seu parto”; o médico é quem tem essa tarefa. Portanto, se brigamos tanto pelo protagonismo – sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela – a cesariana jamais será algo de pleno protagonismo, já que a paciente é objeto da arte do profissional que a opera, e não o sujeito de suas ações.

Mas, por favor, percebam o que se esconde por detrás do meramente manifesto. Ao dizermos “cesariana humanizada” existe um conceito escondido que não se atreve a aparecer. É dessa dissimulação que falo. Nada disso impede que ela faça escolhas conscientes. Pode até escolher, sem nenhuma justificativa médica, fazer uma cesariana. Considero essa uma opção válida, mesmo que mais arriscada para a mulher e seu bebê. Só não pode – no meu modesto ver – qualificá-la como humanizada.

Cesarianas, por serem atos médicos, não podem ser protagonizadas pelas mulheres. Assim sendo, e se acreditamos que o protagonismo está na essência da humanização, uma cesariana será sempre uma cirurgia que, mesmo quando justa e delicada, não pude ser “humanizada”. Estou debatendo o TERMO e não a qualidade de partos e cesarianas. Não posso admitir a utilização equivocada e oportunista de um termo que nos é muito caro.

Recordem apenas que esse termo era ODIADO pelo stablishment médico até poucos anos, com a tosca argumentação de que era redundante, já que o parto era feito em humanos e, portanto, era impossível não ser “humanizado”. Argumentação chula de quem nunca entendeu que a expressão se relacionava ao movimento humanista do século XVIII, e não ao fato de sermos do gênero humano. Pois agora, passada a rejeição, advém a “apropriação indébita” da expressão por nós construída, para confundir as intervenções (mesmo justificadas) com o processo fisiológico em que a paciente é a protagonista. Isso eu não vou aceitar.

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A Neurose Necessária

Eu sempre falei aos colegas que tentavam se aproximar da humanização do nascimento que a “curiosidade” não é uma motivação suficiente, realizar partos vaginais é muito pouco e seguir protocolos mais sensatos e embasados em evidencias, também. É necessário mais do que este desejo, mesmo sendo justo e correto; é preciso buscar uma mudança tão profunda quanto dolorosa e radical. É fundamental inserir o parto nos direitos reprodutivos essenciais das mulheres e garantir a elas o protagonismo pleno do seu exercício. Sem isso teremos apenas médicos curiosos e simpáticos, cujos esforços se limitam a sofisticar a tutela sem que jamais atinjam a profundidade de sua missão. É por isso, e por nada mais, que essa tarefa é tão complexa e difícil.

“Certa vez, eu queria interromper minha análise e perguntei a Lacan porque era tão duro iluminar nosso inconsciente. A resposta dele pode ser resumida assim: a verdade é sempre incômoda, e a psicanálise nos mostra o que preferimos ignorar. Quanto mais nos aproximamos de nossa verdade mais temos vontade de ignorá-la. Por isso mesmo ele desencorajava aqueles que o procuravam para se conhecer melhor. Isso não é o suficiente. É preciso que algo nos atrapalhe e no interrogue para sobreviver ao longo das sessões. É preciso almejar uma mudança radical.” (Gérard Miller)

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A Preponderância do Afeto

Essa foto é de uma frase de Eugene Declercq e tem a ver com uma tese há tempo acalentada por mim, mas que não é aceita por muitos. Para mim as evidências científicas relacionadas à humanização do nascimento são absolutamente INSUFICIENTES para mobilizar o sujeito na direção de modificar suas ações, posturas, atitudes e – em especial – sua prática.

Em minha experiência pessoal, e no contato com todos os humanistas que conheci, essa transformação somente se processa através de um “choque afetivo”, no terreno das emoções, sobre elementos muito primitivos da formação da personalidade que são ativados por eventos especiais (pivotal events) capazes de resgatar estas características. A razão, por ocupar uma porção externa do encéfalo e não ser mais do que um verniz de intelecto a cobrir uma massa de pulsões e sentimentos, é incapaz de produzir tal revolução.

A construção de um humanista não se dá pela via da razão, mas pelo respeito e resgate das emoções mais básicas como a fraternidade, o carinho e a empatia. Entretanto, como um cimento unificador, as evidências científicas e toda a sua racionalidade vem depois para oferecer consistência e coesão a estas ideias.

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Tipos de Ultrassom

O ultrassom é outra novela capitalista. Existem três tipos fundamentais: ultrassons médicos, sedativos e recreativos.

Os ultrassons MÉDICOS  possuem como característica “uma pergunta, uma resposta e uma ação“, sendo esta última diretamente ligada à resposta oferecida pelo exame. São exames raramente feitos, mas são os únicos justificáveis.

Os ultrassons SEDATIVOS são subproduto da indústria do medo. As pacientes durante o pré natal são tão danificadas emocionalmente pelo modelo médico que passam a desconfiar de sua capacidade de produzir bebês saudáveis. Por esta razão, precisam de um reforço visual, uma comprovação do bem-estar fetal pela via tecnológica. As lágrimas na sala de ecografia não são – via de regra – de alegria, mas de alívio.

Os ultrassons RECREATIVOS são para olhar, espiar, socializar o bebê e para descobrir seu gênero antes do nascimento. Hoje em dia são exigidos pelas famílias como um ritual tecnológico de apropriação e introdução social do “nascituro”. Uso essa palavra controversa de propósito, exatamente porque as ecografias contribuem para a noção contemporânea do “feto como sujeito”, que tanto estrago traz às mulheres, tanto no debate sobre o direito ao aborto quanto na ocorrência de uma perda gestacional. É sabido também que tanto este tipo de ultrassom quanto o “sedativo” são incapazes de produzir melhora nos resultados perinatais.

Em verdade, as ecografias na gravidez como método de RASTREIO (em mulheres com gestações saudáveis) não oferecem nenhuma vantagem para mães e bebês do ponto de vista do decréscimo da morbi-mortalidade materna, fetal e neonatal. São “brinquedos eletrônicos” que, na imensa maioria das vezes,  não  justificam – com resultados positivos – a quantidade enorme de recursos neles aplicados.

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Vanguarda do Atraso

Existe uma cidade nos Estados Unidos que fica no meio de uma região muito careta, mas o que a salva é ser um polo universitário muito grande, o que traz estudantes do mundo inteiro que oferecem a diversidade e a pluralidade de gostos, jeitos, caras, cheiros e idiomas que se entrelaçam na malha social. Estou falando de Austin, Texas.

Pois esta cidade tem um “bumper stick”, um adesivo famoso e que se vê em muitos lugares: automóveis, jornais, lojas e até nas casas. Nele se lê: “Keep Austin Weird” – Mantenham Austin Bizarra – normalmente acompanhado de uma foto de algo muito estranho que ocorre na cidade, como uma corrida de gente pelada, festival de tatuados, galerias de arte com amostras curiosas, arte e eventos LGBT, gente jovem de qualquer combinação de gêneros se beijando, etc. Para os moradores de Austin, ser “weird” significa ser diferente, ser progressista, desafiar os limites e enfrentar corajosamente as mentes mais atrasadas que se recusam a avançar. Ser bizarro é um orgulho para seus moradores, e algo pelo que querem ser conhecidos.

Quando vejo isso fico pensando nas mentes atrasadas e estúpidas que regulam nossa sociedade. Somos comandados pela vanguarda do atraso do Brasil, e não é à toa que a nossa obstetrícia obedece ao mesmo padrão de caretice e anacronismo. Mesmo quando o mundo inteiro já tiver se dado conta da imperiosa necessidade de trocar o modelo obstétrico baseado em cirurgiões – que falhou no mundo inteiro – por um controlado por parteiras profissionais, o Rio Grande do Sul se manterá atrelado aos sistemas de poderes que oferecem supremacia para uma corporação, mesmo em detrimento do bem-estar de mães e bebês. Aqui o atraso é chique, a abertura das mentes uma dor insuportável, e a perseguição aos dissidentes um ato de desespero que se dissimula como “defesa da família” ou “práticas consagradas”.

O que testemunhamos hoje em dia é uma brutal humilhação para quem conheceu uma Porto Alegre que prometia a pluralidade, a diversidade e o sonho de “um mundo novo possível”. O que acontece agora, esse salto para trás, é muito triste e deprimente, mas tem tudo a ver com um estado que sempre se orgulhou de seus fracassos.

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Com açúcar com afeto

Ele sentou-se na poltrona à minha frente enquanto escutávamos ao longe a melodia serena da vida, envoltos na bruma matinal e escutando os pássaros alvissareiros.

– Então Ric, quer saber como foi?

– Pode contar

– Diga aí uma droga que já ouviu falar. Qualquer uma.

Minha relação com as drogas sempre foi de aversão e uma certa repulsa. Quando nos anos 90 criei o PAOH – Protocolo de Assistência Obstétrica Humanizada – um simples protocolo de atendimento baseado em premissas simples de acompanhamento ao parto de baixo risco, um dos elementos fundamentais na lista de seis itens era “Uso judicioso e restrito de medicamentos durante o trabalho de parto”. Portanto, minha distância com as drogas incluía tanto as drogas ilegais quanto as legais, posto que ambas possuem efeitos perigosos para a economia orgânica. Entendia eu que a “legalidade” de uma droga não se referia à sua periculosidade ou dano possível, mas a questões contextuais e culturais ligadas ao seu controle e produção. Maconha é ilegal e cachaça é legalizada, mas o álcool tem uma mortalidade milhares de vezes superior à maconha. Portanto, eu sabia o quanto esse valor era volátil na sociedade. As descrições de Freud sobre seu uso de Cocaína no início do século passado são curiosas, enquanto as propagandas com médicos fumando e fazendo publicidade de Camel – aliado ao (agora) estranho patrocínio da indústria do tabaco às instituições médicas – também nos ajudam a entender um pouco mais a complexidade do tema.

Fiquei olhando para Bruno com atenção enquanto pensava em uma resposta para seu desafio. Não queria dizer uma droga muito simples para não ser considerado ingênuo, mas também nenhuma muito pesada para não ser ofensivo. Ele continuava parado à minha frente com um sorriso instigante. Era alto, levemente grisalho e ostentava uma barba bem cortada.

– Cocaína, disse eu finalmente.

Com um sorriso respondeu

– Muito, doutor. E por muitos anos. Diga outra.

– Maconha? Heroína? Metanfetamina? Crack?

A todas elas me respondia afirmativamente, e para cada uma acrescentava outras em sua longa lista de drogas experimentadas. Todas tinham sua história, as quais descrevia como quem relata as lembranças de uma amante do passado: um início fulgurante, a lua-de-mel, a convivência conturbada e o longo martírio de um final catastrófico.

Levantou-se do assento em que estava e foi até a estante logo atrás. Trouxe um grosso livro de capa dura em que se lia na capa “O Pão dos Deuses”, de Terence de McKeena, uma espécie de enciclopédia das drogas. Folheei algumas páginas lustrosas ricamente ilustradas com fotos de plantas, equipamentos, cigarros artesanais, cachimbos e seringas.

– Estou limpo há três anos, doutor. Nada mesmo. Fiz essa promessa a ela.

Olhamos ambos para o quarto onde a ação se desenrolava. Ali, sua mulher respirava profundamente enquanto aguardava que suas contrações voltassem. Seu semblante era sereno, no intermezzo melífluo entre duas ondas de contração. Atrás dela a doula massageava suas costas deixando o ambiente com um suave aroma de lavanda. Abraçada a ela a parteira dançava os passos de uma dança tão antiga quanto conhecida. São dois prá lá, dois prá cá. Respire fundo, deixe seu corpo se inundar de energia.

Ficamos escutando por alguns segundos os sons do quarto adjacente enquanto eu fechava o livro de capa dura à minha frente.

– Sabe qual foi a mais difícil de largar?, perguntou

– Nunca tive que largar nenhuma, disse eu, quase envergonhado da minha caretice. Eu diria que o cigarro, pelo menos é o que tantos pacientes me disseram ser tão complexo e difícil.

Ele abriu um sorriso.

– Negativo. Não digo que larguei o cigarro de forma fácil, mas nem se compara à droga mais difícil de todas elas. Abra de novo o livro, está nas primeiras páginas.

Folheei as páginas brilhantes desde o início até o momento em que ele me pediu para parar e apontou para um montinho de grãos brancos.

– Esse aí, doutor. Para mim o açúcar foi a droga mais difícil para me libertar.

Sorri com ele. Subitamente me senti um viciado e pensando comigo “Não, eu paro quando quiser”….

Nossa conversa se manteve entre risadas, comentários sarcásticos e sussurros até o momento que Zeza me chamou.

Completou”, disse ela, com aquele sorriso cheio de satisfação que eu bem conhecia.

– Você pode ir para a banheira agora, se quiser, disse ela para a bela menina que sentia suas últimas dores.

Zeza se posicionou à sua frente, enquanto a doula permanecia ao lado. O marido abraçou-a por trás firmemente, enquanto esperávamos pela chegada do bebê. Seu corpo semissubmerso se contorcia a cada onda contrátil, e depois relaxava no espaço silente entre elas. A tudo eu observava atentamente, mantendo a câmera a postos para gravar o momento da chegada.

Enquanto as velas ao redor da banheira iluminavam o espaço do banheiro minha atenção se concentrava no rosto sereno da mãe e me perdia pensando sobre os significados últimos dessa passagem. Quando vejo o momento inexplicável do apagamento neocortical, o mergulho na “partolândia” e o mistério eterno deste momento para o mundo masculino eu sempre lembro do sorriso de Elisabeth Davis no documentário “Orgasmic Birth” ao dizer “Se lhe dissessem que esta é a maior aventura possível da existência humana e que aqui está o mapa, você recusaria?

Os minutos se sucederam na velocidade dos gemidos enquanto mantivemos o nosso silêncio solene diante do que estava para acontecer. As chamas das velas tremulavam a cada suspiro mais longo, a cada palavra que saía dos lábios da bela menina. Zeza, a postos, finalmente aponta discretamente seu indicador para me mostrar a emergência dos cabelos do bebê. O momento da chegada se aproximava.

Se há um momento nessa cultura em que as máscaras caem, é este. As carapaças pétreas que seguram nossa experiência cotidiana se desfazem diante da explosão de emoções e significados que emergem durante o nascimento. Sei que nada será como antes, amanhã…

O momento tão esperado se aproximava e eu podia sentir na pele o silêncio de Bruno. Não havia um som, uma palavra, apenas os músculos retesados de seus braços e o olhar parado sobre o ventre de sua mulher. Abraçado a ela ele aguardava calado o momento decisivo.

Zeza virou seu olhar para mim e eu percebi o sinal. Na próxima contração ele viria. O silêncio se fez ainda mais ruidoso e só foi interrompido com o grito primal, seguido do som das mãos de Zeza retirando o bebê da água e colocando-o de frente para o sorriso de êxtase de sua mãe. Registrei o momento mágico com minhas mãos trêmulas, firmes o suficiente para não estragar a imagem. Em mais um momento e o bebê silenciosamente se aninhava no colo da mãe.

Foi então que o silêncio da cena foi novamente interrompido. Como a erupção de um vulcão, Bruno gritou com o máximo de seus pulmões. Gritou não como um grito de vitória, ou de consagração, mas como algo muito mais profundo e inquietante. E sobre seu grito sobreveio outro, e mais outro e depois outro.

Zeza olhou para mim com alguma preocupação. A conversa anterior sobre as drogas me deixou preocupado, confesso. E se ele estivesse entrando em uma espécie de surto? E se ele se descontrolasse? E se algo ocorresse que colocasse a todos – em especial ele mesmo – em risco?

Olhei para Zeza e a doula e nossos olhares mudos tinham o mesmo sentido: era melhor tirá-lo da cena até que se acalmasse. Foi então que eu lhe fiz um convite irrecusável:

– Bruno, quem sabe deixamos as mulheres com essa parte e vamos tomar um café na cozinha?

Apelei para o meu vício. Talvez assim, assumindo diante dele uma parceria no universo das adições, ele se sentisse compelido a me acompanhar.

– Claro, disse ele. Eu passo um café para nós.

Colocou-se de pé, e secou o corpo com a toalha pendurada. Foi até seu quarto e rapidamente trocou a bermuda que usava. Entrou comigo na cozinha, mas não conseguia controlar-se diante das emoções que havia presenciado.

– Ric, foi muito demais. Foi algo espetacular. Foi mágico.

Colocava as mãos à frente do rosto e caminhava inquieto de um lado para o outro da cozinha, e seus passos se deixavam acompanhar pelo chiado da chaleira. O aroma do café em pó invadiu o recinto enquanto ele continuava a falar.

– Tudo Ric, não apenas o momento da chegada do bebê. Não somente o êxtase, mas tudo que o precedeu. Não se trata de valorizar o prazer de receber sua filha nos braços, mas poder valorizar a completude da experiência humana. O medo, a angústia, a espera, a tensão, a ansiedade pelo momento de sentir na pele a maciez de um bebê. Todas essas emoções fazem parte do pacote, e seu valor é imenso exatamente por isso. Como podem escolher conscientemente trocar esta rica experiência por nascimentos mediados pela tecnologia, onde as emoções são engarrafadas, pasteurizadas, controladas por máquinas e onde recebemos apenas a parte final, sem que o ciclo todo tenha se completado?

Tomou um pouco de fôlego, respirou profundamente e fixou o olhar em algum ponto do infinito cósmico. Olhou mais uma vez para mim e disse:

– Ric, eu usei todas as drogas do mundo, tive todas as sensações que a vida pode oferecer. Participei das viagens lisérgicas mais doidas e mais bizarras. Andei pelo vale das sombras e consegui milagrosamente chegar até aqui. Por isso mesmo posso te afirmar que nenhuma sensação chega sequer perto desta que acabo de sentir. Nenhuma experiência supera esta e nenhum barato consegue ultrapassar esta emoção.

Nenhuma descrição de uma experiência sensorial poderia ser mais clara sobre a temática do gozo e do prazer, e só alguém que esteve por tantos anos envolvido no mundo da adição química poderia dar uma explicação tão rica quanto esta.

Verteu a água fumegante sobre o coador repleto e serviu uma xícara para mim. Ofereceu açúcar e eu menti que não queria. Ele sorriu da minha falsidade.

Enquanto ele se preparava para sentar na mesma poltrona em que estivera nas horas que antecederam, algo milagroso ocorreu.

O telefone tocou.

Bruno titubeou por instantes antes de atender. O bebê não tinha sequer 10 minutos de vida, e alguém ligava. O que seria?

– Alô, pois não?

Eu o acompanhava com o olhar, tentando adivinhar as palavras que só ele ouvia. Não era preciso mais do que metade das falas para saber do que se tratava.

– Sim, pai, está tudo bem. A bebê acabou de nascer. Não, estamos mesmo em casa, mas depois eu explico. Não se preocupe estamos muito bem. Não, não pesamos ainda, mas ela é linda e saudável. Assim que soubermos mais detalhes vamos informar. Ela está com a enfermeira e sua auxiliar aprendendo a mamar. Amanhã vocês podem vir aqui fazer uma visita. Claro pai, muito obrigado. Sim, eu sei…. claro que eu sempre soube.

Sua voz ficou mais pesada, mais grave. Ele estava visivelmente emocionado. Pensei em me levantar e deixa-lo a sós falando com o pai, mas não houve tempo para isso.

– Agora eu também sou pai, e talvez eu possa finalmente entendê-lo. Um beijo pai e obrigado.

Ao longe escutamos o choro forte da bebê. Tomei um gole de café amargo e me diverti com o vapor que pulava da xícara para embaçar meus óculos. Melhor assim; prefiro que não vejam um velho obstetra chorar.

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Fogo amigo

“Algumas pessoas que aparentemente se situam no espectro da humanização divulgam – com especial ênfase e alarde – notícias de punições a parteiras por erros cometidos. Eu posso entender a importância da autocrítica dentro de qualquer movimento social, do combate ao racismo ao feminismo, passando pela defesa LGTB e pela humanização do nascimento. O que eu tenho dificuldade de entender é o sentido de engrossar o coro das forças conservadoras que procuram qualquer brecha para destruir um movimento frágil e iniciante como o nosso. Certamente que a motivação é pessoal, mas ainda assim eu me assombro com a intensidade e a crueldade que testemunho em algumas manifestações.

Dos cesarianas eu posso entender a violência, mas o “fogo amigo” sempre me pega de surpresa.”

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