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A Cesariana da Celebridade

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Mais um pouquinho sobre as críticas à cesariana da cantora Sandy…

Bem… Muitas ativistas exageram mesmo, mas isso é normal quando se luta por ideias. Eu já sofri na carne o ataque de algumas pessoas por ter uma postura mais aberta nas questões feministas, mas entendo que seja normal o exagero diante da barbárie da condição da mulher. Como diria John Lennon, “A mulher é o negro do mundo”. Como não perder o rumo diante de tanta energia para a mudança? A injustiça, mesmo condenável, tem um sentido, que é a transformação social. Mas essa energia precisa ser domada e controlada, para que não sirva de armamento contra pessoas que fazem suas escolhas, certas ou não.

Mas a proposta de não atacar as escolhas das “celebridades” me parece adequada. Acusar as mulheres que fazem cesarianas é continuar a agredir a vítima, e isso não podemos admitir.

A escolha pela cesariana é triste, mas é uma escolha como tantas outras que fazemos na vida. Mulheres que “escolhem” cesarianas sofrem do que eu chamei anteriormente de “violência ideológica”. O mesmo tipo de violência silenciosa que fazia as chinesas esmagarem seus pés para deixá-los pequeninos e delicados. O mesmo tipo de agressão ideológica que faz mulheres escolherem cesarianas por acreditarem que elas são “limpas, civilizadas, indolores e seguras”. Também se expressa na pressão que as meninas sofrem para ter um corpo magro e perfeito, até que a anorexia as conquiste. É também aquela usada contra mulheres que optam pelo parto normal. De longe parece mesmo que estas mulheres fizeram escolhas: malhar, comer pouco, esmagar seus pés ou abrir o ventre para extirpar um bebê, mas quão livres terão sido elas? Que tipo de pressão foi exercida para que elas tomassem estas decisões? Que carga tiveram elas que suportar – psicológica, emocional, física – para optar por um caminho com a qual não concordamos? Afinal, quem atira esta pedra?

É o que penso: que tipo de forças houve em cada caso de cesariana a ponto de fazer uma mulher esquecer sua escolha anterior pelo parto normal e refugiar-se na cirurgia? Culpá-la por ter sucumbido a estas pressões não é justo. Precisamos cultivar uma postura compreensiva, onde o parto será exposto como uma forma segura, tranquila e bonita de parir, mas jamais um modelo imposto por um grupo fechado em sua ideologia. Para isso já temos os cesaristas…

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Violência gera violência

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Eu entendo a indignação de quem se horroriza com algumas atitudes que são cometidas contra mulheres e seus filhos. Eu também me solidarizo com todas as mulheres que tiveram seus sonhos rasgados por uma cultura que criminaliza o afeto, a proximidade, a doçura e estimula o autoritarismo. Entretanto, concordo com o meu amigo Luis Tavares de que a nossa resposta NÃO pode ser no mesmo nível vibratório. Xingar profissionais, atacá-los, processá-los (como algumas pessoas estão sempre prontas a sugerir) pode apenas recrudescer a violência, fazendo com que aumente a distância entre cuidadores e clientes.

Nos Estados Unidos temos exatamente este cenário: processos diários, e por qualquer razão, cheios de ódio, ressentimento e (como evitar?) oportunismo de pacientes e advogados espertos. O resultado é uma catástrofe: médicos encaram seus pacientes como potenciais inimigos, e os pacientes desconfiam de seus médicos, imaginando-os torturadores arrogantes e insensíveis. Desarmamento dos espíritos – e não a insensata e compulsiva confrontação – é a chave. Sei que minhas palavras podem parecer uma fraqueza, mas já vi como a guerra funciona. Não há saída para este tipo de cilada: “eu desconfio de você e por isso você age apenas para se proteger, e não para NOS proteger”. Por favor: prestem atenção nas palavras dos poetas, pois ele tem muito a nos ensinar. Aliás, onde o entendimento cru e racional patina, a poesia desliza.

Há muito que se critica a passividade feminina diante dos desmandos sobre seus corpo, sua autonomia, sua liberdade e sua sexualidade. Ninguém suficientemente honesto deixa de perceber o quanto ainda temos que progredir para alcançar uma sociedade igualitária para os gêneros. Mas lembrem-se, que reagir a uma situação como essa não significa usar as mesmas armas do agressor. Reagir não é o mesmo que “contra-atacar”. Indignar-se não é o mesmo que usar a Lei de Talião, onde um olho vazado se trocava por outro, um dente também. Reagir significa agir em resposta, mas esta resposta PODE SIM ser repleta de compreensão, carinho ternura e…. FIRMEZA. Em Gandhi, temos a resposta e o exemplo de sucesso; a resistência pacífica dos Palestinos desarmados, também. Podemos responder aos médicos cesaristas com palavras, críticas de nível, artigos, blogs, páginas do Facebook e tantas outras formas de ativismo sem generalizar (os “médicos maus”, as “pacientes vítimas”) e sem crucificar.

Existem sim alternativas. A violência gera mais violência. Podemos educar (os médicos, os pacientes e a sociedade) sem PALMADAS !!! Para isso é importante paciência e “paralaxe” (a capacidade de ver o que o outro vê, por suas próprias perspectivas).

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Cesarianas em excesso

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A propósito, com relação às cesarianas em excesso…

Diminuir “na marra” as cesarianas excessivas que presenciamos no mundo contemporâneo jamais será uma solução definitiva. De que adianta diminuir índices de cesariana para aumentar taxas de violência obstétrica? Nada, pelo contrário, tal atitude só tornará a situação pior e criará uma fama injusta para o parto normal. É inútil solicitar aos profissionais errados que façam o trabalho correto. Michel Odent já falava isso há muitos anos. A simples diminuição de cesarianas não nos leva a lugar algum. O que precisamos é tornar o parto um evento tão grandioso e prazeroso que a cesariana se tornará a mais tola das escolhas, ou a mais rara das opções.

É necessário MELHORAR o parto, para que as cesarianas caiam por consequência, e não por decreto

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Paralaxe

Paralaxe

Alguém escreveu uma frase a respeito de um tema que sempre me interessou, e ultimamente de uma forma mais intensa e profunda. Disse ela:

“Assim, se você opta por acreditar que um lado é bom e o outro é mau, que só há dois extremos, que só existem dois lados, então você automaticamente exclui todas as infinitas nuances e possibilidades com que a vida nos contempla.”

Concordei de pronto com a manifestação de minha amiga. Entretanto, alguns minutos depois outra amiga escreveu um post declarando que em algumas circunstâncias – em especial na necessidade de “sobrevivência” – é importante “não perdoar“, e adequado “não compreender“. Não posso reproduzir o que ela escreveu, mas a tese central era a de que em momentos especiais temos que fazer escolhas e optar por um lado, colocando o outro lado como inimigo e aceitando “não compreendê-lo“.

Achei confusa a manifestação e respondi indagando se eu tinha entendido de forma correta, mas acabei sendo bloqueado, provavelmente por questões passadas. Mas o que eu queria dizer, e acho que isso sim tem importância, é que a visão compreensiva sobre a posição do outro, e a possibilidade de analisar um fenômeno por diferentes perspectivas, permite fugir do reducionismo maniqueísta e injusto no qual frequentemente incorremos. A busca de uma “paralaxe”, o olhar múltiplo sobre o mesmo objeto, enriquece nossa compreensão sobre qualquer fenômeno. “Para combater o racismo e o nazismo é preciso entender porque eles foram (e são) tão populares…”, disse eu.

Simplesmente eleger os nazistas, xenófobos, homofóbicos, racistas e coxinhas (mas poderiam ser os esquerdopatas, ok) como inimigos, desreconhecendo as razões que os motivam, impede que possamos defender nossas ideias com determinação e abrangência. Não é necessário concordar com tais atitudes, por certo, mas perceber que elas são expressões legítimas do pensamento humano é importante até para que um dia possam, finalmente, desaparecer.

Eu respondi à amiga: “Mas, abrir mão de uma visão imparcial e abrangente em nome do quê? Compreendo que se deva tomar partido e fazer escolhas, mas daí a reduzir o adversário à sua condição de “inimigo” e aceitar “não compreendê-lo” como uma desculpa para não aceitar suas razões é demais para mim. Não entender as razões do outro pode ser considerado certo? Por quê? Pois é exatamente no momento da “sobrevivência” que essa compreensão se torna uma ferramenta fundamental! Revoltar-se é legítimo e necessário, até no que diz respeito à violência obstétrica, entre outras mazelas. Mas “não entender” as razões daqueles que perpetuam estas atitudes seria o mais inaceitável dos erros.”

Olhar para o outro como igual, na infinitude de diferenças que a vida nos contempla, é tarefa árdua. Entretanto, sem esta mirada respeitosa com a experiência alheia jamais poderemos absorver as verdades que o adversário graciosamente nos propicia com a oferta do contraditório.

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Explicações

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Vou explicar de uma maneira mais simples, ok?

Pensem da seguinte forma: nós que lutamos pela humanização do nascimento não temos NADA contra comida, pois se não fosse pela comida nós morreríamos de fome e inanição. Entretanto, o ABUSO DE COMIDA, a propaganda de açúcares, chocolates, cheeseburgers, e outras tantas comidas com gordura, carboidratos e glicose para CRIANÇAS criou um país de DIABÉTICOS E OBESOS. O abuso, e não a comida em si, é que é o problema. Aliás, não é apenas um “problema”; é uma questão de saúde pública. Muitas pessoas morrem todos os dias por doenças criadas e mantidas por hábitos alimentares equivocados.

Agora use este mesmo raciocínio para entender o problema dramático do crescimento de cesarianas no nosso país (como de resto no mundo inteiro). A cesariana abusiva e excessiva que ocorre no Brasil faz com que a mortalidade materna continue vergonhosamente alta, e nos Estados Unidos ela está (pasmem!!) crescendo. É hora de as autoridades do Brasil começarem a pensar nesse exagero operatório com mais seriedade. É o momento de dar um BASTA no excesso de cesarianas. Se a sua cesariana foi bem indicada, não é preciso se sentir atingida pela campanha que fazem as organizações que defendem o parto. Mas, se ela está entre as milhares de cesarianas feitas TODOS OS DIAS sem indicações clínicas, junte-se a nós nesta luta. É preciso que as mulheres percebam que a utilização do recurso cirúrgico para o nascimento só se justifica quando os ÓBVIOS RISCOS de uma cesariana são menores do que a continuidade do parto normal. Mas isso ocorre em uma parcela muito pequena, por volta de 10 a 15% dos nascimentos, e não em 54%, como tristemente percebemos no Brasil.

Vamos fazer do Brasil um país que respeita a integridade física e psicológica das mulheres. Já chega de cesarianas desnecessárias.

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Cesárias e Palmadas

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Muitas vezes uma cesariana é como uma palmada.

Conta menos a necessidade de quem recebe do que a falta de preparo e a impaciência de quem aplica. Uma cesariana mal indicada economiza tempo para quem a realiza, assim como uma palmada em uma criança irrequieta. Ao invés de amparar, cortar; ao invés de compreender, bater. Cesarianas e palmadas oferecem a sedução de um atalho rápido para um objetivo imediatista. Se o caminho parece inútil, que mal há em chegar logo ao final?

A questão é que o trajeto é constitutivo. Uma mãe é moldada por cada contração; ela se constrói no interstício de suas dores. Partos não fazem apenas bebês, como diria Barbara Katz Rothmann, mas também mães fortes e capazes para enfrentar os dilemas da maternagem. A paciência necessária para o trabalho com o nascimento é provavelmente o mais sofisticado dos talentos requeridos nesta arte. Para a criação de uma criança a mesma lei se aplica: o aprendizado se dá na compreensão lenta e gradual dos valores embutidos em cada ação, das mais banais às mais complexas. Uma palmada cala, mas a paciência ensina.

Houvesse mais aptidão para escutar, aguardar, confiar e esperar tanto as cesarianas quanto as palmadas não seriam aplicadas da forma abusiva como vemos em nossa sociedade.

*PS: Ah, e antes que digam que “existem cesarianas necessárias, mas não existe palmada justa”, eu diria que uma cesariana necessária e bem indicada corresponde a um “banquinho do pensamento”, onde não há culpados, mas um lugar onde é importante refletir sobre todas as circunstâncias que cercaram a necessidade da cirurgia.

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Crescer precisa Crescer

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Comentário sobre a Matéria da Revista Crescer com o título de “Tudo o que acontece nos primeiros 60 minutos de vida do seu bebê

Meu nome é Ricardo e sou médico obstetra. Infelizmente virou rotina que empresas jornalísticas escrevam matérias sobre parto e nascimento baseadas em mitologias, informações enviesadas e protocolos anacrônicos. A matéria acima não foge à regra, e esta poderia ser categorizada entre as matérias mais desatualizadas e fracas sobre parto e nascimentos dos últimos tempos. Certamente que o(a) profissional que a assina colocará a responsabilidade nos entrevistados, mas isso não o(a) exime de culpa. Não se admite mais TANTA desinformação e tantos equívocos. Seria enfadonho listar todos os erros graves na reportagem, mas atentem apenas para um deles: as episiotomias são procedimentos agressivos e injustificados, comprovadamente INÚTEIS para mães e bebês desde os trabalhos clássicos de 1987 (Thacker & Banta). Já se passaram 27 anos e existem jornalistas que ainda disseminam este tipo de violência obstétrica!

Para haver uma imprensa responsável, ética e correta é preciso que este tipo de informação venha de mais de uma fonte, para evitar que um entrevistado com carência de boas informações e com condutas ultrapassadas e erradas dissemine conceitos que não tem mais espaço na medicina moderna. Os erros sobre o corte do cordão e aspiração de líquido amniótico são constrangedores. Para um leitor desavisado, mas com conhecimento na área da saúde, pareceria estar abrindo uma revista “Seleções do Readers’s Digest” de 1955, tamanha a desatualização de conceitos. Numa época em que se fala incessantemente de Violência Obstétrica, uma matéria como essa serve de exemplo de como o (mau) jornalismo pode ser violento com a inteligência dos seus leitores.

É importante lembrar os 3 pilares que sustentam a humanização do nascimento:

  1. Protagonismo restituído à mulher, para que ela deixe de ser “tutelada” pelo sistema de saúde, e possa ser a condutora de seu próprio destino;
  2. Parto como evento humano, e não como procedimento médico (mesmo que a visão médica seja uma das importantes formas e perspectivas para avaliar o parto e o nascimento) e…
  3. Vinculação visceral com a MBE (Medicina Baseada em Evidências).

Na matéria da Revista Crescer a mulher não aparece como protagonista, mas como um ser passivo sobre a qual um grande número de procedimentos desnecessários e perigosos serão executados, em sua grande maioria sem a autorização expressa por parte da mulher para a sua realização. As descrições dos procedimentos partem de uma visão absolutamente médica, sem levar em consideração os aspectos emocionais da mãe (afastada de seu filho imediatamente depois do parto para ser “secado” – ???, tendo feito uma episiotomia, mas “sem machucar a mãe” – ?????), psicológicos, sociais, culturais, antropológicos, econômicos e espirituais. E, de forma conclusiva e marcante, as “recomendações” não se baseiam em ciência, mas em mitos, procedimentos antigos, exercício de poder e rituais sem a devida comprovação científica de sua validade. Isso precisa acabar, para que possamos atingir em um futuro próximo a condição de “país civilizado” que, pelo menos no que tange à garantia da integridade física de mães e bebês, ainda não alcançamos.

Modernizar a atenção ao parto é uma URGÊNCIA na saúde brasileira.

Ric Jones
Médico Obstetra Humanista

http://revistacrescer.globo.com/Bebes/Rotina/noticia/2014/03/saiba-tudo-o-que-acontece-nos-primeiros-60-minutos-de-vida-do-seu-bebe.html

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Sobre uma Crítica à Humanização

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Fiquei um pouco surpreso ao ler um texto escrito por um médico e que parece ter sido escrito nos anos 80. O articulista parece estar genuinamente preocupado com a questão da humanização e o problema da violência obstétrica, mas curiosamente o texto fala pouco das questões contemporâneas de violência contra a mulher no momento de parir, e preocupa-se mais com a questão por um viés corporativistas e de proteção do mercado para os médicos. Desta maneira, o colega parece ter descoberto que a humanização do nascimento não deve prescindir da tecnologia e dos médicos.

Eureka !!! No texto ele parece ter avistado a América e ficou maravilhado com sua descoberta, mas ainda não teve tempo de se dar conta que tudo isso já é velho, e que logo ali na frente está o porto e a cidade, construídas há muito tempo.

No texto aparece a frase “…e fôssemos falar em parto e quiçá gestação totalmente “humanizada”, conceituando mínima ou ausente tecnificação..”

Mínima ou ausente tecnificação?” Diante desta insinuação eu pergunto: A quem ainda interessa este conceito anacrônico de confundir humanização com desassistência e repulsa à tecnologia? Tal confusão foi sepultada há anos !!! O articulista prefere se defender de algo que não interessa a mais ninguém, ou seja, a falsa idéia de que a humanização do nascimento prega a ausência de atendimento e a supressão da figura do médico.

Desinformação ou interesse em criar confusão?

No mais o texto revela mais pelo que não diz do que pelo que expressa. A simples existência de um texto em defesa da boa prática médica demonstra uma preocupação crescente da corporação com as acusações cada dia mais consistentes de que o nascimento é local frequente de práticas envelhecidas, inconsistentes e com muita violência. Isso é positivo.

Espero que os equívocos do texto não desmereçam a nobre e positiva tentativa do seu autor em ajudar na construção de uma assistência mais digna e respeitosa às mulheres.

A quem realmente interessa a manutenção desses mitos? A quem interessa a ideia de que a humanização despreza tecnologia e médicos? A quem favorece a noção anacrônica de que a tecnologia pode ser aplicada indiscriminadamente, pois ela representaria o “progresso” e a “evolução” , e que só através dela poderemos nos proteger das incertezas da natureza?

Ora… a pergunta é: Quem se sente ameaçado com a justiça e a dignidade restituída às mulheres? Quem?

O texto nos remete a um falso dilema: Se quisermos a modernidade e o progresso, a alienação e a violência entram no pacote. É uma venda casada, na qual os médicos são os proprietários do parto, e a mulher um objeto sobre o qual eles atuam. Caso queira o parto natural, sem violência e protagonismo, então nós médicos não faremos parte, e seu destino é a selva e a desassistência.

O texto do colega sonega EXATAMENTE a humanização do nascimento, que vem propor a “terceira via”, o protagonismo restituído à mulher, a visão complementar e integrativa e acoplada às EVIDÊNCIAS científicas. Falta tocar no nervo exposto da assistência: a incapacidade crescente dos médicos de entenderem o parto normal como um direito das mulheres e um evento humano, para o qual a sua ajuda é bem vinda, mas não fundamental para a assistência direta.

Falta CORAGEM para olhar este cenário de frente. Por isso é que se cria essa dicotomia falsa e interesseira entre violência e tecnologia X desassistência e barbárie. MENTIRA. É possível oferecer partos humanizados, para todos os setores, públicos e privados, mas para isso é preciso sair das trevas, parar de pensar sobre conceitos estapafúrdios e anacrônicos, e encarar o desafio de oferecer a ética conjugada com a técnica, resguardando as mulheres de intervenções inadequadas no transcurso fisiológico dos seus partos.

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Ultrassom

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Eu falo do exagero de ultrassonografias há 20 anos, mas agora vejo a preocupação alcançar as instituições médicas. Lembro que há muitos anos eu criei as 3 categorias básicas de ultrassom:

  1. Médicas – aquelas que possuem os 3 elementos fundamentais de um exame diagnóstico: uma pergunta uma resposta e uma ação médica.
  2. Sedativas – É utilizada (indicada ou a pedido) para aquelas mulheres que desconfiam de sua capacidade de carregar uma gestação com segurança. Para estas a ecografia oferece uma tranquilização e uma sedação de suas angústias.
  3. Recreativas – Sem indicação clínica, estes exames são utilizados para ver o sexo do bebê, para “espiar” o bebê, para saber “como ele está” ou “com quem é parecido”.

O artigo abaixo se refere às ecografias “recreativas”…

É muito importante estabelecer uma crítica constante aos modismos médicos e ter uma conduta baseada no que é comprovadamente melhor para os pacientes.

http://o.canada.com/news/stop-using-ultrasound-to-determine-sex-of-fetuses-urge-doctors-radiologists/

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Cesarianas, episiotomias, clitoridectomias…

Cesariana

Episiotomias, cesarianas, histerectomias, ooforectomias…

O que estas cirurgias têm a nos dizer?

Aparte de ocorrerem apenas em um gênero – as mulheres – tais intervenções estão entre as cirurgias mais realizadas do mundo, mas a ninguém parece lícito questionar a necessidade de algumas destas cirurgias. Nós mesmos, os humanistas do nascimento, historicamente defendemos a cesariana bem indicada, criticando apenas seu uso abusivo e indiscriminado. Porém, estamos nos aproximando de números para os quais não existe justificativa. Nos Estados Unidos as cesarianas já chegaram a 33% das gestantes, mais de 1 milhão delas sendo realizadas todos os anos. O Brasil ostenta a vergonhosa marca de 56% de cesarianas todos os anos. No setor privado brasileiro as cesarianas se aproximam de 90%, mostrando que a obstetrícia brasileira desistiu da atenção ao parto normal, oferecendo a via sedutora e alienante da cesariana como primeira (e muitas vezes única) alternativa.

Estes números sobre a forma de nascer deveriam acender um sinal vermelho intermitente para a sociedade. A “vida natural” parece estar cedendo espaço de forma intensa para sua vertente artificial. O nível de intervenção sobre o ciclo fisiológico feminino atinge coeficientes absurdos e inaceitáveis. Entretanto, quando vamos analisar a cesariana com mais profundidade para entender as reais motivações para a sua realização abusiva, percebemos que ela não está isolada no espectro de intervenções sobre o corpo feminino.

As histerectomias estão entre as cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos. Por volta de 600 mil são realizadas todos os anos, e mais de 20 milhões de americanas não possuem mais o seu útero. As episiotomias, apesar da sua queda na prática obstétrica graças a quase três décadas de evidências científicas em contrário, ainda são muito utilizadas por lá. No Brasil os relatos das pacientes que sofreram uma episiotomia nos chegam diuturnamente, e até revistas para mulheres ainda as caracterizam como “pequenas intervenções que não machucam a mãe”.

Estas intervenções cirúrgicas ocorrem exclusivamente entre as mulheres e sobre a sua sexualidade. Qual a razão disso?

Para entender as razões para o aumento de cesarianas é fundamental inseri-las no contexto das intervenções culturalmente aplicadas sobre o corpo da mulher, onde esta cirurgia se situa como a mais chamativa, mas não a única.

A clitoridectomia – retirada cirúrgica do clitóris – cirurgia ritualística utilizada por alguns povos africanos, também se caracteriza por uma intervenção ablativa sobre o corpo da mulher. Para estas mulheres a retirada do clitóris as capacita para a vida adulta, fornecendo um ritual de iniciação preparatório para a maternidade. Este ritual milenar, assim como todos os outros que fazem parte do nosso dia-a-dia, não se estabelece ao acaso. Um ritual pode ser definido como “um ato repetitivo, padronizado e simbólico, de uma crença cultural ou um valor. Estas atitudes podem ser simultaneamente ritualísticas ou técnico-racionais”, segundo a definição de Robbie Davis-Floyd. Assim, um ritual qualquer pode ser entendido como a encenação de um valor cultural, de forma consciente ou não.

Uma clitoridectomia e uma cesariana, desta forma, obedecem a um ordenamento semelhante, pois se caracterizam por encenações de valores profundos relacionados à mulher e ao feminino. Se para muitos fica clara a ideia de que a clitoridectomia é uma violência para cercear e controlar a sexualidade feminina, para alguns a mesma lógica pode ser aplicada à realização abusiva de cesarianas, que apenas demonstra uma dificuldade de lidar com as energias de ordem sexual que se tornam evidentes no transcorrer de um parto. A retirada de úteros e ovários, práticas comuns nas sociedades ocidentais também corroboram esta hipótese na medida em que confirmam a noção do corpo da mulher como sendo imperfeito, mal elaborado e defectivo, indigno de confiança.

As sociedades humanas temem a sexualidade feminina porque ela atenta contra um dos seus pilares mais importantes de sustentação: o patriarcado.

As intervenções sobre o corpo da mulher estão assentadas sobre um olhar específico sobre o feminino. Cesarianas, histerectomias, clitoridectomia, episiotomias são todas faces de uma mesma figura. O uso alastrado de formas ablativas de intervenção em seus corpos se baseia na ideia da mulher como ser perigoso, traiçoeiro, dissimulado e inconfiável. As razões médicas para tamanha intervenção são incapazes de explicar a enorme adesão a esta forma de atenção. As culturas humanas olham para a mulher de uma forma depreciativa. Seus órgãos são frágeis e problemáticos, sua menstruação é uma “sangria inútil”, sua gestação é uma bomba relógio prestes a explodir e sua menopausa é uma “falência” que necessita de reposições químicas, caso contrário seus ossos se tornam farinha e se quebram.

Nenhum aspecto FISIOLÓGICO da vida masculina recebe atenção ou tratamento da medicina. Como dizia meu colega Max “Se mulheres tivessem barba haveria tratamento para isso”.

Para entender a profusão de cesarianas é importante entender a mulher e seu contexto. Para mudar esta realidade não será suficiente proibirmos as cesarianas, ou mesmo penalizarmos quem as comete em demasia. É preciso mudar a forma como a sociedade enxerga a mulher e o feminino, valorizando seus rituais de passagem e oferecendo um olhar positivo para eles. O cuidado com momentos críticos da vida reprodutiva e sexual de uma mulher exige mais do que simplesmente intervir quando é necessário; implica em valorizar o que existe de belo e estimular  a vivência mais natural possível destes eventos.

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