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Cesárias e Palmadas

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Muitas vezes uma cesariana é como uma palmada.

Conta menos a necessidade de quem recebe do que a falta de preparo e a impaciência de quem aplica. Uma cesariana mal indicada economiza tempo para quem a realiza, assim como uma palmada em uma criança irrequieta. Ao invés de amparar, cortar; ao invés de compreender, bater. Cesarianas e palmadas oferecem a sedução de um atalho rápido para um objetivo imediatista. Se o caminho parece inútil, que mal há em chegar logo ao final?

A questão é que o trajeto é constitutivo. Uma mãe é moldada por cada contração; ela se constrói no interstício de suas dores. Partos não fazem apenas bebês, como diria Barbara Katz Rothmann, mas também mães fortes e capazes para enfrentar os dilemas da maternagem. A paciência necessária para o trabalho com o nascimento é provavelmente o mais sofisticado dos talentos requeridos nesta arte. Para a criação de uma criança a mesma lei se aplica: o aprendizado se dá na compreensão lenta e gradual dos valores embutidos em cada ação, das mais banais às mais complexas. Uma palmada cala, mas a paciência ensina.

Houvesse mais aptidão para escutar, aguardar, confiar e esperar tanto as cesarianas quanto as palmadas não seriam aplicadas da forma abusiva como vemos em nossa sociedade.

*PS: Ah, e antes que digam que “existem cesarianas necessárias, mas não existe palmada justa”, eu diria que uma cesariana necessária e bem indicada corresponde a um “banquinho do pensamento”, onde não há culpados, mas um lugar onde é importante refletir sobre todas as circunstâncias que cercaram a necessidade da cirurgia.

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Crescer precisa Crescer

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Comentário sobre a Matéria da Revista Crescer com o título de “Tudo o que acontece nos primeiros 60 minutos de vida do seu bebê

Meu nome é Ricardo e sou médico obstetra. Infelizmente virou rotina que empresas jornalísticas escrevam matérias sobre parto e nascimento baseadas em mitologias, informações enviesadas e protocolos anacrônicos. A matéria acima não foge à regra, e esta poderia ser categorizada entre as matérias mais desatualizadas e fracas sobre parto e nascimentos dos últimos tempos. Certamente que o(a) profissional que a assina colocará a responsabilidade nos entrevistados, mas isso não o(a) exime de culpa. Não se admite mais TANTA desinformação e tantos equívocos. Seria enfadonho listar todos os erros graves na reportagem, mas atentem apenas para um deles: as episiotomias são procedimentos agressivos e injustificados, comprovadamente INÚTEIS para mães e bebês desde os trabalhos clássicos de 1987 (Thacker & Banta). Já se passaram 27 anos e existem jornalistas que ainda disseminam este tipo de violência obstétrica!

Para haver uma imprensa responsável, ética e correta é preciso que este tipo de informação venha de mais de uma fonte, para evitar que um entrevistado com carência de boas informações e com condutas ultrapassadas e erradas dissemine conceitos que não tem mais espaço na medicina moderna. Os erros sobre o corte do cordão e aspiração de líquido amniótico são constrangedores. Para um leitor desavisado, mas com conhecimento na área da saúde, pareceria estar abrindo uma revista “Seleções do Readers’s Digest” de 1955, tamanha a desatualização de conceitos. Numa época em que se fala incessantemente de Violência Obstétrica, uma matéria como essa serve de exemplo de como o (mau) jornalismo pode ser violento com a inteligência dos seus leitores.

É importante lembrar os 3 pilares que sustentam a humanização do nascimento:

  1. Protagonismo restituído à mulher, para que ela deixe de ser “tutelada” pelo sistema de saúde, e possa ser a condutora de seu próprio destino;
  2. Parto como evento humano, e não como procedimento médico (mesmo que a visão médica seja uma das importantes formas e perspectivas para avaliar o parto e o nascimento) e…
  3. Vinculação visceral com a MBE (Medicina Baseada em Evidências).

Na matéria da Revista Crescer a mulher não aparece como protagonista, mas como um ser passivo sobre a qual um grande número de procedimentos desnecessários e perigosos serão executados, em sua grande maioria sem a autorização expressa por parte da mulher para a sua realização. As descrições dos procedimentos partem de uma visão absolutamente médica, sem levar em consideração os aspectos emocionais da mãe (afastada de seu filho imediatamente depois do parto para ser “secado” – ???, tendo feito uma episiotomia, mas “sem machucar a mãe” – ?????), psicológicos, sociais, culturais, antropológicos, econômicos e espirituais. E, de forma conclusiva e marcante, as “recomendações” não se baseiam em ciência, mas em mitos, procedimentos antigos, exercício de poder e rituais sem a devida comprovação científica de sua validade. Isso precisa acabar, para que possamos atingir em um futuro próximo a condição de “país civilizado” que, pelo menos no que tange à garantia da integridade física de mães e bebês, ainda não alcançamos.

Modernizar a atenção ao parto é uma URGÊNCIA na saúde brasileira.

Ric Jones
Médico Obstetra Humanista

http://revistacrescer.globo.com/Bebes/Rotina/noticia/2014/03/saiba-tudo-o-que-acontece-nos-primeiros-60-minutos-de-vida-do-seu-bebe.html

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Sobre uma Crítica à Humanização

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Fiquei um pouco surpreso ao ler um texto escrito por um médico e que parece ter sido escrito nos anos 80. O articulista parece estar genuinamente preocupado com a questão da humanização e o problema da violência obstétrica, mas curiosamente o texto fala pouco das questões contemporâneas de violência contra a mulher no momento de parir, e preocupa-se mais com a questão por um viés corporativistas e de proteção do mercado para os médicos. Desta maneira, o colega parece ter descoberto que a humanização do nascimento não deve prescindir da tecnologia e dos médicos.

Eureka !!! No texto ele parece ter avistado a América e ficou maravilhado com sua descoberta, mas ainda não teve tempo de se dar conta que tudo isso já é velho, e que logo ali na frente está o porto e a cidade, construídas há muito tempo.

No texto aparece a frase “…e fôssemos falar em parto e quiçá gestação totalmente “humanizada”, conceituando mínima ou ausente tecnificação..”

Mínima ou ausente tecnificação?” Diante desta insinuação eu pergunto: A quem ainda interessa este conceito anacrônico de confundir humanização com desassistência e repulsa à tecnologia? Tal confusão foi sepultada há anos !!! O articulista prefere se defender de algo que não interessa a mais ninguém, ou seja, a falsa idéia de que a humanização do nascimento prega a ausência de atendimento e a supressão da figura do médico.

Desinformação ou interesse em criar confusão?

No mais o texto revela mais pelo que não diz do que pelo que expressa. A simples existência de um texto em defesa da boa prática médica demonstra uma preocupação crescente da corporação com as acusações cada dia mais consistentes de que o nascimento é local frequente de práticas envelhecidas, inconsistentes e com muita violência. Isso é positivo.

Espero que os equívocos do texto não desmereçam a nobre e positiva tentativa do seu autor em ajudar na construção de uma assistência mais digna e respeitosa às mulheres.

A quem realmente interessa a manutenção desses mitos? A quem interessa a ideia de que a humanização despreza tecnologia e médicos? A quem favorece a noção anacrônica de que a tecnologia pode ser aplicada indiscriminadamente, pois ela representaria o “progresso” e a “evolução” , e que só através dela poderemos nos proteger das incertezas da natureza?

Ora… a pergunta é: Quem se sente ameaçado com a justiça e a dignidade restituída às mulheres? Quem?

O texto nos remete a um falso dilema: Se quisermos a modernidade e o progresso, a alienação e a violência entram no pacote. É uma venda casada, na qual os médicos são os proprietários do parto, e a mulher um objeto sobre o qual eles atuam. Caso queira o parto natural, sem violência e protagonismo, então nós médicos não faremos parte, e seu destino é a selva e a desassistência.

O texto do colega sonega EXATAMENTE a humanização do nascimento, que vem propor a “terceira via”, o protagonismo restituído à mulher, a visão complementar e integrativa e acoplada às EVIDÊNCIAS científicas. Falta tocar no nervo exposto da assistência: a incapacidade crescente dos médicos de entenderem o parto normal como um direito das mulheres e um evento humano, para o qual a sua ajuda é bem vinda, mas não fundamental para a assistência direta.

Falta CORAGEM para olhar este cenário de frente. Por isso é que se cria essa dicotomia falsa e interesseira entre violência e tecnologia X desassistência e barbárie. MENTIRA. É possível oferecer partos humanizados, para todos os setores, públicos e privados, mas para isso é preciso sair das trevas, parar de pensar sobre conceitos estapafúrdios e anacrônicos, e encarar o desafio de oferecer a ética conjugada com a técnica, resguardando as mulheres de intervenções inadequadas no transcurso fisiológico dos seus partos.

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Ultrassom

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Eu falo do exagero de ultrassonografias há 20 anos, mas agora vejo a preocupação alcançar as instituições médicas. Lembro que há muitos anos eu criei as 3 categorias básicas de ultrassom:

  1. Médicas – aquelas que possuem os 3 elementos fundamentais de um exame diagnóstico: uma pergunta uma resposta e uma ação médica.
  2. Sedativas – É utilizada (indicada ou a pedido) para aquelas mulheres que desconfiam de sua capacidade de carregar uma gestação com segurança. Para estas a ecografia oferece uma tranquilização e uma sedação de suas angústias.
  3. Recreativas – Sem indicação clínica, estes exames são utilizados para ver o sexo do bebê, para “espiar” o bebê, para saber “como ele está” ou “com quem é parecido”.

O artigo abaixo se refere às ecografias “recreativas”…

É muito importante estabelecer uma crítica constante aos modismos médicos e ter uma conduta baseada no que é comprovadamente melhor para os pacientes.

http://o.canada.com/news/stop-using-ultrasound-to-determine-sex-of-fetuses-urge-doctors-radiologists/

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Cesarianas, episiotomias, clitoridectomias…

Cesariana

Episiotomias, cesarianas, histerectomias, ooforectomias…

O que estas cirurgias têm a nos dizer?

Aparte de ocorrerem apenas em um gênero – as mulheres – tais intervenções estão entre as cirurgias mais realizadas do mundo, mas a ninguém parece lícito questionar a necessidade de algumas destas cirurgias. Nós mesmos, os humanistas do nascimento, historicamente defendemos a cesariana bem indicada, criticando apenas seu uso abusivo e indiscriminado. Porém, estamos nos aproximando de números para os quais não existe justificativa. Nos Estados Unidos as cesarianas já chegaram a 33% das gestantes, mais de 1 milhão delas sendo realizadas todos os anos. O Brasil ostenta a vergonhosa marca de 56% de cesarianas todos os anos. No setor privado brasileiro as cesarianas se aproximam de 90%, mostrando que a obstetrícia brasileira desistiu da atenção ao parto normal, oferecendo a via sedutora e alienante da cesariana como primeira (e muitas vezes única) alternativa.

Estes números sobre a forma de nascer deveriam acender um sinal vermelho intermitente para a sociedade. A “vida natural” parece estar cedendo espaço de forma intensa para sua vertente artificial. O nível de intervenção sobre o ciclo fisiológico feminino atinge coeficientes absurdos e inaceitáveis. Entretanto, quando vamos analisar a cesariana com mais profundidade para entender as reais motivações para a sua realização abusiva, percebemos que ela não está isolada no espectro de intervenções sobre o corpo feminino.

As histerectomias estão entre as cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos. Por volta de 600 mil são realizadas todos os anos, e mais de 20 milhões de americanas não possuem mais o seu útero. As episiotomias, apesar da sua queda na prática obstétrica graças a quase três décadas de evidências científicas em contrário, ainda são muito utilizadas por lá. No Brasil os relatos das pacientes que sofreram uma episiotomia nos chegam diuturnamente, e até revistas para mulheres ainda as caracterizam como “pequenas intervenções que não machucam a mãe”.

Estas intervenções cirúrgicas ocorrem exclusivamente entre as mulheres e sobre a sua sexualidade. Qual a razão disso?

Para entender as razões para o aumento de cesarianas é fundamental inseri-las no contexto das intervenções culturalmente aplicadas sobre o corpo da mulher, onde esta cirurgia se situa como a mais chamativa, mas não a única.

A clitoridectomia – retirada cirúrgica do clitóris – cirurgia ritualística utilizada por alguns povos africanos, também se caracteriza por uma intervenção ablativa sobre o corpo da mulher. Para estas mulheres a retirada do clitóris as capacita para a vida adulta, fornecendo um ritual de iniciação preparatório para a maternidade. Este ritual milenar, assim como todos os outros que fazem parte do nosso dia-a-dia, não se estabelece ao acaso. Um ritual pode ser definido como “um ato repetitivo, padronizado e simbólico, de uma crença cultural ou um valor. Estas atitudes podem ser simultaneamente ritualísticas ou técnico-racionais”, segundo a definição de Robbie Davis-Floyd. Assim, um ritual qualquer pode ser entendido como a encenação de um valor cultural, de forma consciente ou não.

Uma clitoridectomia e uma cesariana, desta forma, obedecem a um ordenamento semelhante, pois se caracterizam por encenações de valores profundos relacionados à mulher e ao feminino. Se para muitos fica clara a ideia de que a clitoridectomia é uma violência para cercear e controlar a sexualidade feminina, para alguns a mesma lógica pode ser aplicada à realização abusiva de cesarianas, que apenas demonstra uma dificuldade de lidar com as energias de ordem sexual que se tornam evidentes no transcorrer de um parto. A retirada de úteros e ovários, práticas comuns nas sociedades ocidentais também corroboram esta hipótese na medida em que confirmam a noção do corpo da mulher como sendo imperfeito, mal elaborado e defectivo, indigno de confiança.

As sociedades humanas temem a sexualidade feminina porque ela atenta contra um dos seus pilares mais importantes de sustentação: o patriarcado.

As intervenções sobre o corpo da mulher estão assentadas sobre um olhar específico sobre o feminino. Cesarianas, histerectomias, clitoridectomia, episiotomias são todas faces de uma mesma figura. O uso alastrado de formas ablativas de intervenção em seus corpos se baseia na ideia da mulher como ser perigoso, traiçoeiro, dissimulado e inconfiável. As razões médicas para tamanha intervenção são incapazes de explicar a enorme adesão a esta forma de atenção. As culturas humanas olham para a mulher de uma forma depreciativa. Seus órgãos são frágeis e problemáticos, sua menstruação é uma “sangria inútil”, sua gestação é uma bomba relógio prestes a explodir e sua menopausa é uma “falência” que necessita de reposições químicas, caso contrário seus ossos se tornam farinha e se quebram.

Nenhum aspecto FISIOLÓGICO da vida masculina recebe atenção ou tratamento da medicina. Como dizia meu colega Max “Se mulheres tivessem barba haveria tratamento para isso”.

Para entender a profusão de cesarianas é importante entender a mulher e seu contexto. Para mudar esta realidade não será suficiente proibirmos as cesarianas, ou mesmo penalizarmos quem as comete em demasia. É preciso mudar a forma como a sociedade enxerga a mulher e o feminino, valorizando seus rituais de passagem e oferecendo um olhar positivo para eles. O cuidado com momentos críticos da vida reprodutiva e sexual de uma mulher exige mais do que simplesmente intervir quando é necessário; implica em valorizar o que existe de belo e estimular  a vivência mais natural possível destes eventos.

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Parto e Autonomia

Maozinha

Afinal, quem deve tomar as decisões no nascimento?

Você acha que as equipes de saúde podem tomar decisões por você?
Podem escolher por você? É certo você receber uma episiotomia sem justificativa e sem a sua plena concordância? É razoável ter um fórceps ou um Kristeller aplicado sem que você receba explicações? É correto tomar atitudes sobre o corpo de uma mulher sem consentimento?

É justo que você seja afastada do seu bebê sem explicações detalhadas ou justificativas baseadas em evidências, apenas porque as equipes do hospital querem “dar um banho“, “tirar a sujeira do parto“, “pesar, medir, colocar colírio” ou para fazer “procedimentos de rotina“? Podem estes procedimentos ocorrer sem que você seja consultada?

É justo que seu bebê seja levado para longe de você apenas para ser avaliado em um local cheio de luzes, barulhos e cheiro de desinfetantes a despeito de sua vontade expressa de estar ao lado do seu filho? É adequado interromper a “hora dourada” – os 60 minutos que se seguem ao nascimento – para cumprir normas insensíveis e sem comprovação de sua utilidade? A quem servem estas condutas?

Já parou para se perguntar quem tem o direito de mandar em você e no seu filho no momento sagrado em que um é apresentado ao outro?

Pense bem… afinal, quem manda no seu corpo? Quem determina sobre este bebê, que ainda pulsa no mesmo ritmo do seu coração?

Não se trata de impedir o cuidado oferecido pelos profissionais, mas questionar até onde estas intervenções são criadas para verdadeiramente acrescentar segurança ao momento do parto ou apenas para gerar vantagens para quem atende.

Se você acha que a atenção ao bebê precisa ser revista, para que o melhor da técnica se adapte aos direitos humanos, não aceite mais procedimentos indignos e que não respeitam a ciência e negam autonomia às mulheres.

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As Delícias do Parto

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Pela segunda vez em poucas semanas atendemos um parto (no hospital!) em que a mãe, imediatamente depois que o corpinho inteiro do bebê saiu, exclamou de forma espontânea: “Ai, que delícia!!”

Ai, que delícia!! ??????

Mas… não era para ser um horror?
Não era para elas se ajoelharem e pedirem uma analgesia?
Não era para ficarem aterrorizadas e marcarem uma cesariana ainda segurando entre os dedos trêmulos das mãos o teste de positivo de gravidez?

Não entendo…
Não era para ser uma dor excruciante, injusta, cruel e sem sentido?
Não era para ter a intensidade dolorosa de um dedo decepado?
Não era para ser como “defecar um tijolo”?
Onde cabe o conceito de “delícia” no sombrio cenário de parto que me foi ensinado na escola médica?
Onde “prazer”, “realização” e “superação” poderiam fazer sentido no modelo tecnocrático e biologizante que recebi nos bancos da universidade?

Eu pergunto:
Onde foi que perdemos o caminho do nascimento humano?
Onde foi que esta parte fundamental da sexualidade humana foi culturalmente deturpada?
Em que momento perdemos a mão, caímos soltos no espaço, sem referenciais e sem destino?
Onde foi que prostituímos o parto, encarceramos os corpos e sequestramos o prazer, a alegria e a felicidade de parir em paz e com dignidade?
Porque não podemos mais escutar dos nascimentos a verdade que neles se esconde?

Sim, a verdade por tantos sonegada é que esse momento pode ser uma “delícia”, desde que nós assim aceitemos.

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Respostas à Violência

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Não se trata de tornar-se infenso a qualquer reparo. Eu mesmo conheço pessoas que fazem críticas corretas e bem fundamentadas ao trabalho das doulas. Por exemplo: levar o ativismo para as salas de parto e tornar o centro obstétrico um campo de batalha. Temos nos preocupado com isso nos últimos anos, exatamente pelo aumento no número de doulas e na natural dificuldade de estabelecer o limite entre ativismo – doulagem. É muita emoção para ser controlada, mas é necessário que assim o seja. É por isso que devemos escutar as críticas e aprender com elas, o que só fortalece o movimento de humanização. Fechar-se em conceitos estanques é cristalizar-se e desaparecer. A dinâmica da transformação social deve ser intensa e reflexiva.

O fato da própria ACOG (American College of Obstetrics and Gynecology), poderosa defensora dos obstetras dos Estados Unidos, ter reconhecido publicamente a importância das doulas na diminuição da taxa vergonhosa de cesarianas (a vergonha para eles chegou aos 33%; para nós ainda não, aos 56%) apenas deixou os conservadores da minha especialidade ainda mais furiosos. O resultado é bem demonstrado em algumas manifestações de médicos indignados com o fato de terem suas atitudes e condutas questionadas pelos pacientes: baixo nível, agressão verbal, impropérios, acusações, generalizações e violência de toda ordem. Como diria Schopenhauer: depois do escárnio viria a violência; era o que fatalmente ocorreria.

Concordo com o mestre. Minha visão sobre esta fase do processo de humanização do parto é de que a violência poderia esperar, mas chegaria de qualquer maneira. Não é possível fazer o omelete da humanização sem quebrar os ovos da prepotência. Entretanto, nossa resposta precisa ser diferenciada. NÃO podemos entrar no jogo acusatório e violento. Se recebemos pedradas, revidemos com evidências. Se a violência é o idioma, respondamos na língua da perseverança.

Sem este diferencial apenas nos igualamos à queles que nos combatem.

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A necessidade da transcendência

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Olha, qualquer um pode enxergar de forma negativa até mesmo o sexo, quanto mais uma gravidez. Todavia, as descrições negativas sobre a gravidez que frequentemente encontramos na Internet não descrevem as agruras e problemas em si, mas as dificuldades de pessoas que não conseguem perceber sentido no conjunto de transformações pelas quais uma mulher passa durante sua gestação. Quando focamos no negativo e no problema ele se torna absolutamente evidente; quando voltamos nosso olhar para outro lado, ele desaparece.

Para quem está cego à transcendência é impossível perceber a luz. Podemos, sem muito esforço, descrever uma rosa como uma “vara cheia de espinhos que facilmente perfuram dedos desavisados“. Podemos descrever o nascimento de uma criança em termos econômicos, fazendo cálculos que começam nas fraldas e terminam na universidade particular. Podemos enumerar os transtornos físicos, os edemas, o peso alterado, as náuseas e tantas outras coisas. É uma questão de viés e, portanto, de escolha. Um momento mágico e glorioso como a gestação (para o meu olhar, admito) pode ser entendido e traduzido apenas pelos desconfortos que frequentemente se apresentam à grávida. Um período curto de 9 meses pode ser visto como uma “longa e torturante jornada”. O natural e charmoso crescimento do útero pode ser visto como um transtorno sem precedentes e até uma perda de feminilidade. Porém, quanto mais as mulheres se afastam de sua essência feminina, onde a gestação e a maternagem tem lugar de destaque, mais elas perdem seu valor específico.

Para nós, homens, é fácil abstrair a magia e nos focar nos pés inchados, na ciatalgia e nas cãibras. Já para uma mulher, que mergulhou nas águas misteriosas de uma gestação, é muito mais difícil manter-se alheia à intensidade inebriante de suas transformações. Por isso mesmo as descrições negativas e até pejorativas da gravidez são para mim espantosas. Eu respeito qualquer forma de olhar para a gestação e o nascimento, até partindo daqueles que pretendem artificializá-los ad infinitum. Entretanto, se existe algo da essência humana que vale a pena manter, creio que esta chama tímida se esconde no nascimento. Toda a história de nossa espécie foi escrita pela ligação entre uma mãe e seu filhos. Max adora repetir o adágio freudiano de que “Se o amor existe, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todas as outras formas de amor são dele derivadas“. Portanto, esse amor – que é fruto da extremada dependência do filhote humano ao nascer – esculpiu o que somos. Somos filhos dessa fissura cósmica, o inexplicável, o não planejado. Somos o que somos por causa do amor, e ele apenas pode nos definir. E se isso é verdade, qualquer mudança nas delicadas tessituras deste envolvimento primitivo poderá ter consequências funestas para todos nós. Talvez, num futuro distante, teremos a triste nostalgia do tempo em que uma mulher podia sentir alegria, contentamento e plenitude na sua gravidez, mesmo rodeada de pequenos desconfortos passageiros.

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Pais expulsos do parto

Pais e Filhos

Insistir nesse equívoco – “expulsar” os pais (homens) da sala de parto – atrapalha historicamente os projetos e objetivos da humanização do nascimento. E por “equívoco” eu considero qualquer determinação externa que não parta da mulher.

Inserir o pai ou expulsá-lo é a mesma coisa, se nos negamos a olhar cada mulher e cada parto como únicos e especiais. Sem o protagonismo poderemos apenas sofisticar tutelas. Expulsar o pai piora o parto, inseri-lo no ambiente de parto como regra fixa também. Quando é que vamos parar com estas regras ridículas as quais as mulheres devem se submeter, determinações apriorísticas que não levam em consideração o contexto, seu desejo, sua vontade e a sua subjetividade?

A ideia original do Michel (Odent) é de que, para que o parto possa ser levado em segurança é fundamental que a paciente não se sinta observada, resguardando assim a sua privacidade e intimidade. Com isso elevaremos os níveis de ocitocina e manteremos a adrenalina baixa, produzindo uma harmonização do ambiente psicológico e hormonal, regularizando as contrações e alcançando o progresso adequado do trabalho de parto. O entorno é fundamental, como diria Grantly Dick-Read; a “psicosfera” é determinante, como diria meu colega Max. Este parece ser um ponto pacífico, e quase ninguém parece discordar dele.

Entretanto, criar sobre este princípio geral uma “regra”, um “protocolo”, um determinante externo ao desejo da mulher é tratar as mulheres como bichos desprovidos de subjetividade e de linguagem. Estabelecer que todos os pais devem sair do ambiente de parto é um equívoco; determinar que todas as mães amamentem na primeira hora também. Obrigar a euforia e a felicidade após cada parto é uma imposição cruel e desumana. Não tem saída: o único caminho dentro da trilha da linguagem é olhar para este fenômeno como algo especial, irreproduzível e infinito em suas particularidades e detalhes.

Quantas vezes será necessário repetir que “intimidade” é um valor subjetivo, pessoal e determinado por circunstâncias de ordem cultural, circunstancial e contextual?

O que era intimidade há 200 anos hoje não é. Dormitórios para os pais diferente daquele dos filhos parece uma obviedade hoje em dia, mas há poucos anos o contrário era o padrão. A intimidade – de um casal ou de uma mulher parindo – é uma criação de caráter social, e não um valor biológico para os humanos. As análises etológicas, que estudam o comportamento animal, são excelentes fontes de ensino, mas não podemos expandir a compreensão de comportamentos – como no sexo e no parto – daquilo que observamos em animais para os seres humanos, dotados de linguagem e cultura. Portanto, o que é válido para uma vaca, uma cabra, um felino ou um equino não é necessariamente adequado para seres humanos!!

Uma mulher pode se sentir vigiada estando sozinha em uma sala, e pode se sentir plenamente segura e com intimidade estando rodeada de amigos, familiares e profissionais que a atendem. Criar proibições para este evento tão delicado não parece ter embasamento científico e lógico, e não parece ser adequado ou justo.

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