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O Bem e o Mal

Em toda a minha infância o tema da segunda guerra mundial foi onipresente. Na verdade, entre o começo da guerra na Europa (com a “blitzkrieg” de Adolf Hitler na Polônia) e o meu nascimento existe um espaço tão pequeno quanto o dia de hoje e a criação do Facebook. Havia um claro sentimento de que a guerra era um assunto recente, ainda presente no cotidiano de cada um de nós. Sim, eu sou um “boomer” e minha vida de criança foi marcada pela grande guerra. O meu vizinho do apartamento de baixo se chamava “seu Scherer”, um descendente de alemães que havia lutado na Força Expedicionária Brasileira e que sentava em uma cadeira na calçada sem camisa e adorava explicar aos vizinhos como adquiriu nos campos da Itália a vistosa cicatriz que ostentava na barriga. Havia conversas, histórias, rádio novelas, gibis, livros e na nascente teledifusão surgiram os grande filmes épicos sobre o conflito na Europa, África e Ásia

Naquela época surgiram inúmeras produções de Hollywood exaltando o heroísmo dos soldados americanos. A ideia hegemônica era de que, graças à moral americana, aos seus bons princípios, à sua bondade e à sua incomparável coragem, o mundo havia sido salvo dos nazistas. Hoje sabemos da falsidade dessa perspectiva: a vitória das forças soviéticas iniciada na batalha de Stalingrado garantiu a derrota dos nazistas da Europa, mas ao custo de 7.5 milhões de soldados mortos na guerra, e milhões de judeus russos mortos pelas forças do Führer. Os americanos perderam por volta de 500 mil soldados. De qualquer forma, a máquina de propaganda americana, em especial pelo cinema e pela TV que surgia no Brasil, colocaram os americanos como os “donos” da vitória, os grandes protagonistas, os heróis da liberdade contra a ameaça nazista. Na minha infância havia um programa de TV chamado “Combate“, estrelado por Vic Morrow, mostrando a realidade da guerra na perspectiva de um grupamento de soldados americanos em solo alemão, mas eu não podia assistir porque era muito “violento”. Ao lado disso havia “Guerra, Sombra e Água Fresca“, com Bob Crane, uma comédia que tratava os americanos como líderes de um grupo diversificado de prisioneiros de guerra (que agiam como espiões), e tratava os alemães como tolos e estúpidos. Esse era muito engraçado e eu podia ver, mas é interessante ver como se estabeleciam os clichês dos soldados europeus. Hoje, a Europa se comporta como aqueles soldados, obedecendo as ordem do líder americano. Também é curioso ver como ambos protagonistas dessas séries morreram de forma súbita e violenta.

Só muito mais tarde eu tive a oportunidade de ler sobre a história que precedeu a segunda guerra mundial e os contextos geopolíticos nos quais ela ocorreu. Durante anos essa guerra era ensinada para as pessoas comuns como uma luta do bem contra o mal, ou seja, um embate moral. Essa perspectiva simplificava o debate: como você poderia escutar a outra parte, se eles representam o “mal”, e nós somos o “bem”? Quando fui ler sobre a paixão de Hitler pelo sistema “Jim Crow” dos Estados Unidos, e o quanto ele desejava que a Alemanha adotasse esse mesmo tipo de segregação, as coisas ficaram um pouco mais complicadas de entender. Afinal, quem eram os racistas nessa guerra? Quando li as ações de Winston Churchill na Índia – em especial sua conduta na Grande Fome de Bengala – e suas manifestações explícitas do mais asqueroso racismo, ficou difícil estabelecer uma barreira moral entre os alemães e seus inimigos na guerra. Afinal, era mesmo uma luta entre a luz e a sombra? Ou havia um choque meramente econômico e geopolítico entre as nações imperialistas sendo as questões de ordem moral usadas somente para ludibriar as massas, criando uma falsa imagem do “bem contra o mal”?

Hoje nós testemunhamos o apoio irrestrito dos Estados Unidos – nosso antigo paradigma de honra e coragem – ao genocídio palestino em Gaza. Mais do que apenas apoiadores do holocausto que lá ocorre – com mais de 186 mil mortes até agora, 10% da população – eles oferecem aos sionistas todo o suporte de armas, de logística e de armamentos, sem falar do respaldo político aos governantes do país, a mesma nação que deseja “apagar do mapa” a população palestina, tratada por Yoav Galant, ministro da defesa de Israel, como “animais humanos”. Em verdade, os grandes apoiadores europeus de Israel nessa guerra são França, Alemanha, Itália e Reino Unidos, países que abdicaram de sua autonomia e funcionam como satélites do poder imperialista americano. Mais do que nunca, as análises morais caem por terra. O mesmo país “democrático” que atacava o “Mal”, materializado no nazismo, agora apoia o primeiro genocídio televisionado do planeta, garantindo a continuação da guerra e dando ajuda à parte agressora. Ou seja, os nazistas de hoje estão do lado do Imperialismo. Talvez o grande erro do Führer tenha sido não seduzir os americanos nos anos 30 do século passado para lutarem do seu lado. Tivessem feito isso e talvez hoje estivéssemos falando alemão.

Isso nos mostra que a chaga do nazismo, com sua brutalidade racista, excludente e supremacista nunca foi exterminada e se mantém em outras latitudes, outros interesses e falando outros idiomas. Na liderança está o sionismo, implantado em um país caracteristicamente supremacista, uma colônia europeia em solo secularmente árabe, levando a cabo uma etnocracia (assim chamado por autoridades como Alexander Kedar, Shlomo Sand, Oren Yiftachel, Asaad Ghanem, Haim Yakobi, Nur Masalha e Hannah Naveh) assassina e terrorista, aplicando um apartheid brutal e desumano, separando as pessoas por muros obscenos mas que recebe do Império as bênçãos e o auxílio necessário para manter uma guerra perdida. Sim, a resistência não poderá ser vencida pois todos sabemos que os seus combatentes se multiplicam a cada massacre e assim se torna indestrutível e o sonho de uma Palestina livre para os palestinos de todas as crenças é imortal.

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Sonhos

Nas últimas décadas, em especial depois da derrocada do bloco soviético e a dominância unilateral imperialista, intensificou-se um tipo de narrativa que valoriza o empenho pessoal do sujeito que, para alcançar o sucesso, precisa basicamente de um combustível de ânimo pessoal, desejo, garra e determinação. “O céu é o limite” bradam os entusiastas da promessa capitalista de transformar cidadãos comuns em megaempresários, usando para isso apenas a chama de dedicação e o empenho para subir indefinidamente. Os sonhos de construção de uma sociedade mais justa, que eram nossos devaneios coletivos na virada dos anos 60-70 do século passado, foram aniquilados pela realidade da queda do muro e por uma ideologia de crescimento através de projetos individuais de riqueza e poder. Não havia mais espaço para projetos coletivos: o mundo havia se tornado um gigantesco “cada um por si”.

Com isso proliferaram histórias de pessoas que, partindo de quase nada e munidos apenas de sonhos, alcançaram fortuna e poder. Entramos na era do “empreendedorismo”, dos coaches, dos gurus, dos influencers de mercado, onde ter seu próprio negócio e investir na bolsa é sinônimo de uma vida aventureira e cheia de ação. Por outro lado, ter um trabalho formal, ser um médico, lojista, radialista, advogado, ter carteira assinada e – pior ainda – ser funcionário público é sinal de fracasso. No nosso imaginário coletivo surgiram exemplos maravilhosos de brasileiros que foram trabalhar na construção civil nos Estados Unidos e depois se tornaram empreiteiros de sucesso, mas estrategicamente nos escondem que esse resultado não passa de 0.001% dos patrícios que se aventuram nas terras gringas, sendo a maioria empregados que se permitem explorar, sem qualquer seguro de saúde e sem previdência. O capitalismo é um bilhete de loteria, ou um dízimo doado ao pastor: apenas àqueles munidos de fé será possível alcançar a graça.

No meio destes “empreendedores” aparecem aqueles que, sem qualquer habilidade especial, ou impedidos de usarem as que têm por falta de lugar ou condições de exercer seu ofício, se jogam à venda de comida na rua, de porta em porta, na praia ou nas esquinas das grandes cidades. Também a eles se oferece a ideia de que, com persistência e obstinação, um dia chegarão ao sucesso. O sujeito que vende bolo de pote na saída da faculdade para os estudantes esfomeados que saem das aulas é visto como um empreendedor moderno atrás do seu sonho dourado de ascensão social.

Não é difícil perceber que não existe nenhum “sonho” em vender estas guloseimas. Não haveria nem se – ao invés de bolo de pote – fossem “sonhos” de padaria. O que há nessas pessoas é apenas necessidade, muitas vezes desespero, produzidos por uma sociedade onde seu trabalho não é valorizado ou é mal utilizado. Entretanto, esta sociedade agora os trata como sonhadores, gente movida por um projeto dourado de futuro, o qual, através do trabalho árduo e persistente, um dia poderá ser alcançado. Não é justo romantizar a pobreza e a escassez.; não há beleza, nobreza ou um futuro brilhante para um homem velho vendendo bolinhos na rua. O que o move é apenas o rugir do aluguel atrasado e o trovão das contas a pagar; é isso que o faz acordar todas as manhãs para vender seus produtos.

Sim, comprem os bolos de pote, ajudem o próximo, distribuam riqueza, valorizem o trabalho alheio e reconheçam o esforço destes nobres sujeitos que vendem sua força de trabalho para dar o devido sustento às suas famílias, mas não caiam na fantasia neoliberal de chamar estes sujeitos de “empreendedores” e seu negócio um “sonho”. Não sejam dessas pessoas que acreditam na fábula de que a escravidão do neofeudalismo capitalista é uma “oportunidade”, e a exploração a que são submetidos é, em verdade, uma “chance de crescer”. Glamurizar a pobreza e o sacrifício não é a missão de quem projeta um futuro de paz social. Não temos mais o direito de cair nesse engano.

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As cobras

Eu entendi o sentido da frase, e a importância de não insistir em relações fracassadas e tóxicas. Porém, gostaria de fazer uma análise um pouco mais além. Bem, é da essência da cobra lhe morder. Quando falamos dos bichos, esse limite instintual é determinante. Todavia, quando falamos de gente, a história muda um pouco de figura. Se você realmente acredita que as pessoas que lhe magoaram o fizeram porque a maldade está em sua “essência” – e não no emaranhado caótico de circunstâncias e contextos que produzem um encontro de almas – então a busca pelas razões e pela compreensão das causas é mesmo inútil.

Entretanto, se o crime não for algo da constituição mais primitiva do sujeito, então será algo da sua trajetória e dos contextos da vida que o fizeram “morder” alguém que não merecia. E se for este o caso, então a busca pelas razões do algoz se justifica, porque só entendendo seus impulsos mais profundos para o crime será possível combatê-los. Quando estamos diante de um criminoso, seja ele um assassino contumaz ou a criança que riscou as paredes do quarto com giz de cera, o entendimento de suas motivações é a chave para evitar a repetição dos delitos. Jamais o entendimento pleno das estruturas causadoras de um mal ou de uma catástrofe poderá ser considerado negativo; da mesma forma, o desconhecimento dos motivos do outro nunca será positivo para a solução de conflitos.

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A Bailarina e o Segurança

Eu ainda acredito que o grande erro, no que diz respeito ao parto e nascimento, foi torná-lo uma especialidade médica submetida à lógica da intervenção que domina a escola de medicina. Durante mais de 20 anos eu falei publicamente da minha desilusão com a prática médica obstétrica, e isso se deu principalmente por ter saído do Brasil e visto como funciona este tipo de atenção à saúde em outros países, em especial no norte da Europa. No livro da antropóloga Robbie Davis-Floyd “Birth Models that Work” existe um capítulo dedicado ao atendimento em equipe realizado por nós aqui no Brasil, mas também inúmeras outras experiências centradas no sucesso do modelo de parteria aplicado tanto em países desenvolvidos quanto em nações em desenvolvimento. Muito do que eu percebo ainda hoje como atraso na atenção se refere ao desconhecimento pelas comunidades do parto – enfermeiras, médicos, anestesistas, administradores, etc – sobre uma forma alternativa ao modelo biomédico de atenção ao parto. Nós não conhecemos outras possibilidades e, como dizia minha amiga Debra Pascali-Bonaro, doula de New Jersey, “se você não conhece suas alternativas você não tem escolha“.

Sobre o tema de conhecer um universo distinto, eu lembro o impacto que me causou a história que Marsden Wagner – neonatologista da Califórnia e Diretor do Setor de Saúde da Mulher e da Criança da Organização Mundial da Saúde – me contou durante um congresso nos Estados Unidos. No intervalo das conferências, e tomando com ele uma xícara de chá, Marsden me explicou seu grande “turning point”, ou seu “ponto sem retorno”, que ocorreu com a confrontação de realidades absolutamente opostas sobre a questão do modelo de parteria. Vou tentar retratar aqui nossa conversa, sendo o mais fiel possível às suas palavras.

“Eu estava na Suécia almoçando na casa de uma grande amiga quando, depois de terminado o almoço, sentamos na ampla varanda para tomando um chá e trocar ideias sobre as questões da assistência global ao parto e nascimento. Naquela época eu já era contratado pela OMS para tratar da saúde materna e neonatal, vivendo em Copenhague boa parte do ano. No meio da conversa, o “bip” (os mais velhos vão lembrar) de uma das mulheres presentes tocou de forma estridente. Essa senhora era uma parteira sueca que estava sendo avisada que uma de suas pacientes estava em trabalho de parto, com fortes contrações. Imediatamente sorriu e recebeu de todos os presentes os votos de que tudo ocorresse bem para o bebê que estava por chegar. Nesse momento, a anfitriã voltou-se para mim e perguntou se não gostaria de acompanhá-la à casa da paciente, onde o parto estava programado para ocorrer.

Eu disse a minha amiga que, no meu trabalho no Hospital na Califórnia, havia atendido centenas de partos, e que mais um nascimento pouco poderia acrescentar à minha experiência sobre o tema. Curiosamente, todos os presentes sorriram, como se eu tivesse contado uma história engraçada, ou uma piada. Minha amiga então insistiu: ‘É um parto domiciliar, aposto como essa experiência você não tem‘.

Ela estava certa. Apesar de muitos anos trabalhando com neonatologia eu nunca havia assistido um parto domiciliar, até porque no meu país – os Estados Unidos – esse tipo de atendimento era considerado ultrapassado, perigoso e algo que deveria ser banido da prática profissional. Para mim, naquele momento, um parto domiciliar não era mais do que um parto como qualquer outro, apenas sem os aparatos tecnológicos que possuímos no hospital. Só mais tarde eu me referiria a estes equipamentos como “máquinas estranhas, manejadas por estranhos, fazendo estranhos ruídos”. Depois da sinalização de todos os presentes, estimulando-me a ir, e após o sorriso convidativo e simpático da parteira sueca, resolvi me levantar e acompanhá-la ao atendimento.

O que posso dizer deste parto é que ele foi um divisor de águas na minha vida profissional. A ideia de que se tratava de “um parto como qualquer outro” se mostrou a mais ridícula das concepções. Em verdade eu poderia dizer que tudo foi diferente, com exceção do produto final, o bebê. Entretanto, se analisarmos com mais profundidade, até mesmo este produto acaba se tornando diferente, porque a forma como o nascimento se desenrola vai produzir imprints no bebê, tão invisíveis quanto poderosos, que determinarão inclusive a sua saúde e condição psíquica no transcorrer da vida. Pela primeira vez eu tive a oportunidade de assistir um parto em silêncio respeitoso, penumbra, suavidade e delicadeza. Nada de luzes brilhantes, nada de pessoas estranhas – recebi o convite para ficar distante da ação e só me aproximar para receber o bebê da mãe – nada de comandos, gritos, ameaças, cortes, empurrões. O pai esteve presente o tempo todo e ajudou no nascimento; a família comemorou em plena comunhão. A parteira é um capítulo à parte neste episódio. Que talento!!! Quanta delicadeza, quando conhecimento da fisiologia do parto, quanto respeito aos desejos da mulher, quanto reconhecimento das fases do parto, não apenas no que concerne às questões mecânicas, mas igualmente aquelas relacionadas aos aspectos mais sutis, espirituais e emocionais. Tudo o que ocorreu foi tratado com naturalidade, desde as explicações sucintas, o toque, os abraços, as massagens, o carinho e a vigilância atenta e silenciosa.

O episódio todo mudou radicalmente minha percepção do fenômeno. A partir dessa experiência comecei a entender o parto pelo reverso; não aquilo que podemos fazer pelas gestantes, mas tão somente o que devemos esperar que elas façam. “Parto é algo que as mulheres fazem, Ric”. Não haveria mais como entender o parto da forma antiga, aquela que recebi da escola médica, pois ela se assenta sobre uma concepção equivocada, depreciativa e diminutiva das capacidades femininas de gestar e parir com segurança. A nós cabe, tão somente, resguardar o ambiente com segurança para que ela possa liberar seu bebê da forma mais suave e segura.

Robbie Davis-Floyd fez entrevistas no início deste século com profissionais do nascimento, médicos e parteiras humanizados, que estavam atendendo partos à época. Todos eles contavam que sua adesão ao modelo humanístico de atenção ao parto havia sido despertada através de uma epifania, um evento marcante em suas vidas, o qual abriu as portas da consciência para a entrada de novas perspectivas. Marsden Wagner, da mesma forma, foi confrontado com uma experiência de caráter sensorial, afetiva e emocional, e por isso conseguiu entender o parto por um viés diferente do que havia aprendido e praticado até aquele momento. Por esta razão, ele se tornou durante todo o resto de sua vida um defensor árduo das parteiras profissionais e do modelo de parteria, centrado no trabalho dessas profissionais.

Infelizmente nos países satélites, girando na órbita da medicina americana, o médico é ainda o principal atendente de partos, num desperdício gigantesco de habilidades e talentos. A medicina, como bem o sabemos, funciona na lógica da intervenção, e colocar um médico, cuja formação é centrada na intervenção direta sobre o corpo, para atender partos, é um erro inaceitável. A prática de receber bebês milenarmente construída é focada na fisiologia, na normalidade e na suavidade dos fluxos e ritmos do parto e, ao contrário da visão médica, sua lógica é centrada no cuidado. “Médicos deveriam ser os heróis da maternidade”, já dizia o velho adágio das parteiras, agindo tão somente quando as condições se aproximassem perigosamente da rota da patologia, deixando que as ações da fisiologia do nascimento humano ficassem a cargo das parteiras, legítimas especialistas no cuidado das mulheres e seus bebês.

Manter os médicos a cargo da normalidade dos nascimentos é como colocar o segurança do Teatro de Revista para dançar, realizando de forma desajeitada as delicadas piruetas que as bailarinas desenvolvem em sua dança sensual e voluptuosa. As condições para o atendimento ao parto ultrapassam em muito as meras habilidades técnicas, cirúrgicas e farmacológicas; os conhecimentos para a atenção segura ao parto aliam-se às habilidades de ordem afetiva, emocional, psicológica e espiritual que as parteiras acumulam há milênios, desde que a primeira mulher a parir pediu a mão de sua amiga para segurar o bebê que dela se separava. Reconhecer o lugar exato de cada profissional é o que deveremos fazer neste novo milênio, para que as mulheres voltem a ter escolhas reais para o nascimento de seus filhos.

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Quando eu era criança um dos programas de maior sucesso da TV era a comédia dramática M*A*S*H* (Mobile Army Surgical Hospital – Hospital Móvel do Exército Norte-Americano), que retratava o cotidiano de um hospital de campanha americano na guerra da Coreia. Foi exibida pela CBS entre 1970 e 1983, e seu capítulo final foi durante décadas o recorde de audiência na TV americana. A série era uma brilhante comédia sobre dois cirurgiões, Hawkeye e “Trapper” John McIntyre (Alan Alda e Wayne Rogers), e suas traquinagens no hospital, em especial com seus superiores, sempre retratados como tolos e incompetentes. Ambos os cirurgiões aliavam suas excelentes habilidades cirúrgicas com um humor ácido e zombeteiro. O programa também era moralista ao extremo; os cirurgiões pegavam todas as mulheres, mas nunca as casadas; faziam troça de um casal (o cirurgião chefe e “hot lips”, uma enfermeira) que tinham um caso. Colocavam um nerd como figura importante e um “falso trans”, que se vestia de mulher para ser mandado embora – sem jamais conseguir.

Os 13 anos da série são um brilhante exemplo do “empacotamento americano”. Ele funciona quando um fato vergonhoso da história americana é empacotado como algo heroico, grandioso ou cômico e vendido desta forma “adocicada” para sua população e para todos os cantos do Império. Nesse contexto, a guerra na Coreia – ou a Guerra de Libertação Nacional para os coreanos – é retratada como algo engraçado, pitoresco, com figuras cativantes e com espaço para brincadeiras. Nesta série, os americanos são mostrados como nobres, justos, corretos misericordiosos e bons, e o coreanos como miseráveis, carentes e vítimas inocentes de uma guerra criada pelos comunistas que odeiam a liberdade.

Logo após a derrocada japonesa na guerra com o exército americano, a parte sul da Coreia saiu do controle japonês para se tornar um entreposto americano no mar da China. Enquanto isso, o norte mantinha sua luta pela libertação total do país, eliminando o último dos invasores: os americanos e seus sequazes. Pelo forte sentimento anticomunista (medo da União Soviética) a guerra foi um exemplo de brutalidade e de abusos contra os direitos humanos, tornando-se um divisor de águas do imperialismo. Até então, nunca havia ocorrido em tempos modernos tamanha crueldade com um país e seu povo como o ocorrido lá. Essa guerra se tornou o marco de violência, o modelo a ser aplicado em todas as outras intervenções imperialistas, como no Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia e outros. Os Estados Unidos jogaram sobre a península coreana 635 mil toneladas de bombas e 33 mil toneladas de Napalm – mais bombas foram jogadas pelos americanos na Coreia Popular (Coreia do Norte) do que durante a guerra do Pacífico contra o Japão, apenas 6 anos antes. O famoso General MacArthur desejou explicitamente a utilização de bombas atômicas na península – entre 30 e 50 delas na fronteira com a Manchúria – o que deixaria um rastro imenso de destruição e radioatividade.

O norte do país foi totalmente destruído: hospitais, escolas, conventos, diques, represas, plantações, casas, indústrias e pontes jogando a Coreia na “idade da pedra”. Inúmeros massacres foram realizados pelos soldados americanos ou sob a sua supervisão, mas nada disso aparece – nem de forma sutil – nos 13 anos em que a série americana esteve no ar. Literalmente tudo foi bombardeado. No espaço de 3 anos os americanos mataram 1/5 da população civil do norte, por volta de 3 milhões de pessoas (a imensa maioria civis – mulheres e crianças), e estabeleceram no sul uma ditadura que perdurou por décadas. Apesar disso, um armistício foi declarado em 1953 e a Coreia Popular conseguiu estabelecer a autonomia sobre a parte ao norte do paralelo 38. No início dos anos 70, em uma forma diabólica de fazer desaparecer tantos crimes, eu e milhões de americanos dávamos risadas assistindo as travessuras dos médicos e enfermeiras na península coreana.

 “O que quase nenhum americano sabe ou lembra é que nós bombardeamos o Norte inteirinho por 3 anos, sem nenhum tipo de cuidado em relação aos civis”, explica Bruce Cumings, historiador da Universidade de Chicago, em seu livro “The Korean War: A History”.

O “empacotamento” também foi feito com os filmes de Hollywood em relação ao massacre das populações indígenas no século XIX na conhecida “corrida do ouro”. Surgiram a partir daí os filmes de faroeste (Far West, o oeste longínquo), Os Pioneiros, Rin tin tin, Gary Cooper, John Wayne, Forte Apache, etc. Um dos maiores genocídios do século XIX foi empacotado e vendido para o mundo como a vitória dos “pioneiros” cristãos contra as populações primitivas e violentas. E que história eles contam sobre a segunda guerra mundial? Ora, de que foram os vencedores, mesmo que qualquer historiador sério, baseado em números de soldados perdidos, unidades de infantaria e a importância logística cruciais das vitórias ao leste, reconheça que a grande responsável pela vitória contra o nazismo tenha sido a União Soviética e sua “Grande Guerra Patriótica“.

Somos bombardeados pela propaganda imperialista de forma incessante, ininterrupta, massiva e persistente. Tudo o que sabemos do mundo, em especial dos países da resistência ao imperialismo como Palestina, Rússia, Cuba, China e a Coreia Popular, vem de fontes empenhadas nesse tipo de empacotamento, pela falsificação da verdade, pela mentira contumaz e pela desumanização dos outros povos, de forma que só seja possível chegar até nós a versão escolhida pela máquina de propaganda controlada pelos Estados Unidos. A liberdade de um povo também significa contar sua própria história, e como diria Milan Kundera “A Luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”.

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Amor

Há alguns dias li uma entrevista do baixista John Paul Jones do Led Zeppelin em que ele afirmava que os integrantes da banda não eram amigos. “We weren’t friends”, disse ele secamente. Com isso não desejava dizer que eram inimigos, longe disso; negou que existisse qualquer tipo de animosidade, rancor ou mágoa entre eles, mas que apenas eles compartilhavam uma banda, tinham um trabalho juntos, e nada mais. Tão logo acabava uma turnê ou uma apresentação voltavam para suas casas e suas vidas.

“A questão é que nunca socializamos. Assim que saímos da estrada, nunca mais nos vimos, o que sempre achei que contribuiu para a longevidade e harmonia da banda. Não éramos amigos.”

O falecido psicanalista italiano Contardo Caligaris certa vez disse uma frase que me impactou muito durante uma de suas aulas na APPOA. Em meio a sua palestra, e questionado sobre o casamento e suas repercussões, ele respondeu de forma provocativa: “O casamento é uma instituição de sucesso. Entretanto, o único elemento que pode colocá-lo em risco é o amor. Sem este detalhe ele sempre foi a mais harmoniosa das instituições humanas”. Essa frase veio à minha mente ao ouvir a descrição de John Paul Jones sobre sua banda. Por certo que a inexistência do amor – em sua forma mais sofisticada, a amizade – seria capaz de oferecer sucesso e longevidade à banda. A amizade transtorna completamente qualquer relação de trabalho. Por isso, se acrescentarmos a este encontro uma pitada – mesmo que minúscula – desse afeto tão popular e o risco do equilíbrio se desfazer cresce exponencialmente.

Não deveria nos produzir qualquer surpresa este tipo de análise. O amor por sua potência é uma força descomunal. Quando ele se mistura com as relações puramente profissionais acaba trazendo consigo toda sorte de sentimentos conflitantes e igualmente poderosos. Ciúme, inveja, ressentimento, abandono, raiva, mágoa, etc. Não há dúvida que os casamentos insossos e puramente operacionais dos tantos séculos que nos antecederam eram muito mais consistentes e firmes do que os de hoje, onde o amor é a peça essencial. Foi o amor, a fissura bizarra da ordem cósmica, quem produziu o que entendemos por humanidade, mas ele está diretamente ligado à crise nos casamentos. Talvez ele seja o golpe definitivo para a sua desaparição, e as sociedades futuras não terão mais que se preocupar com fatiotas, grinaldas, vestidos brancos e listas de presentes.

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Sobre a moça linda

No discurso da candidata de Sergipe ao Miss Brasil Teen 2024 ela tenta se defender do que chama de “vitimismo”, como a pedir para que suas origens não sejam confundidas com um pedido de atenção especial. Entre citações em várias línguas ela solicitou que sua condição de mulher negra, filha de mão solteira, neta de indígenas e pobre não fosse tomada como vantagem sobre as demais concorrentes. Para ela, o fato de sua situação social ser ruim não significaria que seja “limitante”. Diante desse tipo de discurso – que sempre contém a palavra “representatividade” – creio ser importante um pequeno ajuste.

Sim, os seus “parâmetros sociais” vão, sem dúvida, limitar os seus sonhos, e por isso mesmo para uma menina pobre e periférica na maioria das vezes restam as qualidades herdadas de beleza e graça para que possa alcançar algum futuro, furar a bolha das castas e conquistar seu lugar numa sociedade de classes. Se essa condição social não fosse limitante para os pobres, onde estaria essa menina caso fosse feia, ou apenas de uma beleza normal, e não fulgurante como é a sua? Onde estão as outras meninas, as filhas de mãe solteira, netas de indígenas e que vivem nos subúrbios? Na faculdade de Medicina, fazendo o curso de Direito, de Arquitetura? Serão elas, em boa conta, empresárias e artistas? Não, elas serão em sua grande maioria mães, donas de casa, manicures, diaristas, funcionárias de escritórios e empregadas do comércio, pois a sua condição social será um enorme impeditivo para a sua ascensão. Negar isso é cegar-se à realidade cotidiana.

Quando se fala de um sujeito com qualidades especiais, em especial uma menina agraciada por incontestável beleza, não se pode tirar do horizonte que ela é uma minúscula exceção em um universo que determina desde o berço o destino de quem nasce pobre e com a cor negra a colorir sua pele. Não é justo tomar a exceção como se fosse a regra, pois a realidade bate à porta todos os dias nos mostrando que o mundo não oferece oportunidades iguais para quem nasce no bairro nobre e para aqueles da periferia dos grandes centros urbanos.

Sem que a sociedade sofra uma revolução através da luta de classes essas meninas continuarão a ser a suprema exceção, o ponto desviante, cuja única esperança de alcançar o sucesso e a fortuna na vida será através da beleza física ou, no caso dos meninos, a arte de chutar uma bola. Acreditar que o sucesso ocasional de uma pessoa representa a “vitória dos excluídos” é jogar o jogo dos poderosos, fazendo com que a sociedade injusta que temos seja tratada como normal, a qual só pune os vitimistas e os que “não se esforçaram o suficiente”.

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Comentaristas isentos

Aqui no RS existe, desde longa data, o costume dos comentaristas de futebol, repórteres de TV e rádio, serem “imparciais”. Na verdade, pela divisão das torcidas, definir-se por um lado significava ser odiado pelo outro lado. Por esta razão os profissionais da imprensa passaram anos fingindo uma imparcialidade para se forjar uma equidistância dos polos clubísticos. Como sempre, é impossível enganar todos o tempo todo, e a cor da camisa sempre acabava aparecendo.

Esse costume foi rompido há alguns anos com advento das redes sociais e o surgimento dos comentaristas “identificados” com os clubes. Na maioria não são jornalistas de formação e com o tempo foram eclipsando a luz dos famosos jornalistas sabichões, que tudo sabem do ludopédio. A partir de então, não apenas inúmeros novos comentaristas surgiram como alguns “isentos” saíram do armário, declarando abertamente seus clubes, sendo que a maioria, ao fazer esta revelação, causou tanta surpresa quanto a declaração “bombástica” do governador do Estado para o Pedro Bial.

O que me surpreende (mas não devia) é que esses novos “assumidos” agora agem como torcedores fanáticos, esbravejando, gritando o nome do seu clube, chorando ao vivo e disparando palavrões quando o juiz marca algo contra seu time. Isso me obriga a pensar: quando havia encenação? Antes, quando agiam com moderação e isenção ou agora quando atuam de forma histriônica e fanática?

Minha resposta simples é: em ambos momentos. Antes para evitar a desvalorização de suas opiniões, pois estariam afetadas pela paixão clubística, e agora para solidificar sua condição de representantes fanatizados da torcida, mesmo que, diferente de outrora, agora suas manifestações são irracionais, escandalosas e mediadas pelo fervor por suas cores. Ou seja: na crônica esportiva, como em qualquer outro setor do mundo do espetáculo, a luta pela audiência pressupõe um teatro incessante, onde o que importa é cativar a atenção do espectador usando todas as armas possíveis. No passado a máscara era a isenção e a seriedade; hoje se usa a desbragada afiliação ao clube do seu coração como ferramenta de marketing. A sinceridade, como sabemos, é um detalhe pouco importante.

PS: quem é da Aldeia conhece M. Saraiva e a instituição da IVI.

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Serjão dos Foguetes

Sabe qual o drama do Serjão dos Foguetes? O mesmo de quase todos os “produtores de conteúdo” do YouTube: a tirania do papel em branco, o mais terrível dos opressores para quem está conectado ao mundo do entretenimento.

Vamos combinar que existe muito material para falar de astronomia e geofísica – esta última é a área na qual ele tem formação. Há como falar dos achados incríveis do James Webb, das descobertas de exoplanetas, da Lua, de Marte, da viagem interplanetária, de Vênus, do furacão de Júpiter, da vida fora da Terra, de visitantes alienígenas, das teorias sobre o Oumuamua, etc., mas a gente sabe que existem tormentos para quem quer continuar a falar indefinidamente. O primeiro é que, apesar de vasto, estes temas não são infinitos; não há como repetir 4 ou 5 vezes um programa sobre a Lua ou sobre os satélites de Saturno. Desta forma, uma solução encontrada é sucumbir à “síndrome de Caetano”, que é a tendência a dar opinião sobre coisas sobre as quais não tem muito conhecimento. Aqueles que se deixam contaminar por ela acabam falando demais por terem atingido um grau de notoriedade que faz com que jornalistas fiquem insistindo em obter sua opinião sobre temas aleatórios. Eu sei o quanto é difícil ser humilde nessas horas e dizer: “não tenho opinião formada sobre isso”, e ter a grandeza de uma Glória Pires na premiação do Oscar. A maioria sucumbe a ideia ilusória de que sua opinião é indispensável.

Serjão era quase uma unanimidade entre aqueles que gostam de ciência popular. Com seu jeito de nerd, gordão, sorridente, brincalhão, e muito comunicativo, ele explica a astrofísica como se fosse um professor bonachão das séries iniciais de um colégio público. Não se furtava a brincar com o “mundial inexistente do Palmeiras”, com as teses amalucadas dos terraplanistas e com as descrições de visitantes extraterrestres a visitar nosso planetinha. Tudo ia muito bem, e seu canal já havia passado alguns muitos milhares de inscritos e, direi eu, de forma merecida, até porque sou um dos fãs dos seus programas.

O problema começou a ocorrer quando Sérgio Sacani – seu verdadeiro nome – começou a dar mostras de que, além de ser um excelente comunicador e divulgador científico, estava alinhado com as correntes mais conservadoras do pensamento político contemporâneo, flertando com a extrema direita e o bolsonarismo. Quando sua biografia foi exposta surgiram manifestações no mínimo comprometedoras, em especial quando sugeriu a morte do presidente Lula, mesmo que em forma de brincadeira. A partir daí, ficou claro que sua posição no espectro político estava situada muito mais à direita do que gostaríamos, em especial por ele ser um propagador do conhecimento científico. Serjão apoia a ciência ao mesmo tempo em que se aproxima dos grupos que mais a atacam. Também é notória a sua vinculação com figuras icônicas da extrema direita mundial, em especial Elon Musk. Sua defesa se baseava em uma Fake News: um fantasioso diálogo entre o herói bilionário e a “ONU” a respeito de uma doação de 6 bilhões de dólares para acabar com a fome, para a qual ele exigia a “nota” dos gastos para, só então, investir nessa iniciativa. Tudo indica que o diálogo e as exigências do dono da Tesla eram apenas uma forma de propaganda.

A privatização da Petrobrás, que ele defende, é uma das suas opiniões mais controversas. Para ele, “a Petrobrás está cheia de pessoas que não fazem nada, está inchada“. Assim, uma empresa nas mãos de investidores, entregue pelo governo à iniciativa privada, seria uma forma de deixar a empresa mais saudável, usando o velho argumento de que as empresas privadas são mais “honestas” e mais “enxutas”. Para ele, a importância estratégica de ter o petróleo sob o controle do governo é menos importante do que se livrar de funcionários que, segundo ele, pouco ou nada produzem. Também é pródigo em atacar a China, tratando sua ciência como se fosse inferior à americana, o padrão de excelência.

Assim, o que vemos com Sérgio Sacani, longe de ser um desvio na curva, é um padrão no comportamento dos divulgadores de conhecimento nas redes sociais. Assim que ele começou a falar de assuntos como geopolítica, capitalismo, sociedade, privatizações, socialismo, China, Coreia Popular e o significado dos bilionários na sociedade capitalista ficou evidente sua verdadeira essência conservadora. A exaltação do bilionário Elon Musk, visto com ele como um “gênio” e mecenas da ciência, e a de Lula, visto como alguém que poderíamos eliminar, deixa muito clara sua perspectiva de mundo. Porém, não é certo culpá-lo por estas opiniões fora do seu métier; ele na verdade sucumbe à tentação irresistível de ficar tratando de assuntos que desconhece; na maioria das vezes “ouviu o galo cantar mas não sabe onde”. Muito do que ele fala de política, do PT, do Lula, de Elon Musk, da China, da Coreia Popular é suco de senso comum, um amontoado de informações sem fonte e sem qualquer comprovação científica. Essa adesão oportunista aos cânones científicos é o que existe de mais censurável; quando é para criticar os terraplanistas a vinculação à ciência é mandatória; afinal, como tratar destes assuntos e ao mesmo tempo desprezar toda a ciência que sustenta nossa visão do cosmos? Todavia, quando critica os “vagabundos da Petrobrás” não é necessário mostrar nenhuma comprovação de que os funcionários da nossa maior estatal são relapsos – sua percepção pessoal e isolada é suficiente. Ou seja: ciência para quem precisa de ciência; senso comum quando interessa.

Entretanto, eu ainda prefiro esquecer as mancadas do Serjão dos Foguetes e escutar apenas as coisas interessantes que ele apresenta. Acho que é razoável e justo distanciar o autor da obra, o divulgador científico da sua posição política. Por outro lado, que isso fique como ensinamento: o fato de um sujeito ter uma vida acadêmica abundante, rica e ter acumulado conhecimento sobre um tema específico, não garante que tenha informações suficientes para tratar com profundidade outros temas. A compartimentalização do conhecimento nos permite que sejamos doutos em determinada especialidade e totalmente ignorantes em muitas outras. Nosso erro é valorizar as opiniões dessas pessoas fora dos seus domínios, onde eles possuem a mesma profundidade de saber do que qualquer um de nós.

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Cuba

Está é a história de um casal de gays que, pouco tempo depois de se casarem, decidem mudar para um condomínio de casas. Logo após fazerem a mudança percebem o incontido desconforto dos vizinhos. Com o tempo estes cochichos e narizes torcidos se transformam em rechaço aberto por parte de muitos moradores. Não só isso: o casal é atacado, boicotado e humilhado frequentemente. Tem o carro riscado, os pneus furados e as janelas quebradas por pedras. São desprezados nas reuniões de condomínio e suas queixas não são levadas em consideração. Diante de todas as provas oferecidas recebem como resposta apenas um conselho: “Se não estão satisfeitos, saiam daqui”.

As ameaças constantes, e as dúvidas sobre como agir, produziram ansiedade e angústia crescentes. Com tanta pressão o casal entra em conflito: um deles deseja mudar e com isso obter tranquilidade e paz para viver; um sonho de vida não poderia se transformar em uma constante tortura. O outro, por sua vez, apela para a necessidade de se buscar justiça, os direitos humanos e a honra, dizendo ser esta uma “boa luta”, um confronto em nome de todos aqueles que sofrem preconceito. A distância entre as visões de ambos, com o tempo, se torna inconciliável. A diferença de postura diante dos ataques – sutis ou explícitos – acaba por produzir uma rachadura na relação, e desta surge a inevitável ruptura. Pouco tempo depois, separam-se, vendem a casa, e cada um vai refazer sozinho a sua vida.

Um velho casal de moradores da mesma rua, ao fazer sua caminhada matinal, vê a placa de “VENDE-SE” pendurada na porta. Um deles, sabendo quem outrora morava naquela casa, comenta com o outro:

“É como eu sempre digo: este tipo de relacionamento dificilmente dá certo”.

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