O homem se distingue dos outros animais por ser o único em que a violência que pratica pode ser escondida, escamoteada e não percebida. Para um leão, um macaco, um rinoceronte, uma mordida é uma mordida, uma patada é uma patada. Já entre nós, ditos humanos, a violência pode ser praticada ao extremo sem que seja necessário levantar um dedo. As violências institucionais, principalmente no que diz respeito ao parto, se enquadram entre as “agressões invisíveis” nas sociedades contemporâneas. Pior: ao não marcarem o corpo elas se direcionam diretamente à alma, e lá, nos movimentos obscuros do inconsciente, elas crescem, se transmutam, se agrandam e ferem. Tal qual um cravo inserido na carne, as memórias tristes dos abusos, humilhações e maus tratos cometidos no nascimento permanecem por anos a gerar tristeza e ressentimento. “Violência no parto” é um dos piores tipos de agressão contra a mulher, pois as feridas que aí são geradas se mantêm até o fim da vida.
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Cyborg Fem
Minha tese, há muitos anos expressa, é de que a humanização do nascimento precisa “vazar” dos espaços conceituais que a contém. Necessitamos falar para outras plateias e públicos. Temos que expandir os horizontes do nosso discurso, oferecendo “molho de espaguete pedaçudo” para os consumidores que ainda não se deram conta da existência dessa iguaria.
Tive uma experiência interessante em 2012: fui convidado a falar no CISQ – Congresso Internacional de Saúde Quântica, onde os palestrantes eram da área da física quântica (Dr. Amit Goswami – What the F* – estava lá), psicologia, fitoterapia, aromaterapia, homeopatia, entre outras áreas da saúde suplementar. Nesse congresso falei de partos num contexto mais abrangente, numa palestra chamada “Colapsos”, onde apresento uma visão ecológica do nascimento, mostrando a importância de tratarmos da questão em conjunto, com toda a sociedade, pois o extermínio da habilidade de atender o nascimento é seguida da natural extinção da forma humana de parir. Depois disso, o próprio gestar feminino se tornará uma exceção, fazendo com que o último laço que mantemos com a nossa espécie se perca. Será o surgimento do “Homo sapiens technologicus”, mas nada nos garante que ele será melhor do que a espécie que vem evoluindo nos últimos 5 milhões de anos.
A resposta do público foi muito interessante. Pessoas que nunca haviam presenciado partos humanizados, ou escutado nossos pontos de vista, ficaram encantadas com essas ideias. Fui procurado por vários profissionais, de diferentes áreas, para conversar sobre o movimento de humanização do nascimento. Havia uma viva curiosidade sobre um tema ao mesmo tempo fascinante e desconhecido do público em geral. Percebi que existe um lapso, um espaço gigantesco de desinformação sobre o nascimento. Grande parte dessas pessoas avaliam o nascimento pela mídia televisiva, pelas imagens mundanas de gritarias, xingamentos, dor, isolamento e sofrimento. Sobre essa terra fértil em informações distorcidas é que se aplica a semente da cesariana dignificadora, limpa, esterilizada, pura e tecnológica.
Costumo brincar que a sociedade (e não somente os médicos, que são apenas os porta-vozes de valores culturais) nos apresenta duas opções: A e C. A primeira é um parto violento, com elementos de objetualização e coisificação do corpo feminino, container inconfiável de um produto social – o bebê. Nessa opção usamos técnicas e artifícios há muito condenados pela boa prática médica, comprovadamente inúteis e até perigosos quando usados de rotina: episiotomias, kristelleres, enemas, tricotomias, jejum forçado e isolamento. Aí teremos os partos de “novela”, sempre violentos, sofridos, dramáticos e agressivos.
A opção “C” é a cesariana, onde a data e a hora são escolhidas, assim como a conjunção astral, o local e a conveniência de todos, principalmente da equipe médica. Nessa opção não haverá gritos, impaciência, demoras, espera, angústia, medos e nem tampouco os rituais milenarmente conhecidos, como esperar as contrações ou a ruptura da bolsa, ligar para o profissional, ir para o hospital, aguardar a dilatação, etc. Não, nada disso se faz necessário. Ultrapassamos todos os rituais, todos os preparativos, toda a formatação psíquica milenarmente construída e retiramos um bebê que dormitava no claustro materno sem qualquer notificação de “aviso prévio”. A praticidade levada às últimas consequências. Um dos principais problemas é que a ritualização de nossas ações é uma das marcas mais importantes e essenciais da cultura. Aliás, não há cultura sem rituais, pois que eles desempenham um papel fundamental no desenvolvimento humano. Eles “mediam processos psicossociais reestabelecendo a coesão do grupo através da resolução de conflitos, mantendo a continuidade de grupo diante das perdas e adversidades e modificando o comportamento individual e grupal para criar coesão e harmonia” (Robbie Davis-Floyd & Charles Laughlin – The Power of Ritual, a ser lançado em breve).
Entretanto, continuamos a ver sonegada a opção “B”. Ela se esconde entre os gritos que nos vendem como inevitáveis no parto “normal” e as luzes ofuscantes que nos dizem serem imprescindíveis na cesariana. A opção “B” é aquela em que os valores da tecnologia não são desprezados, mas que se encontram sob o domínio do bom senso; cuja utilização só se faz quando os riscos inerentes de qualquer intervenção são menores do que as patologias encontradas no processo. Na opção “B”, temos os partos humanizados, que se sustentam numa tríade conceitual: o protagonismo restituído à mulher, a visão integrativa bio-psico-social-espiritual do evento e a vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências. A opção “B”, síntese das teses digladiantes, continua a ser vista como um luxo, uma fantasia ou uma impossibilidade. Entretanto, essa opção é a única que nos oferece uma esperança de congregar o melhor de dois mundos: de um lado o respeito à nossa linhagem mamífera e aos processos psicológicos e sociais que construíram a humanidade como ela é, e do outro a tecnologia como ferramenta essencial para tratar dos casos que se afastam da trilha da fisiologia e se aproximam do caminho tortuoso da patologia.
A supressão dos rituais em nossa sociedade pós-moderna tem como consequência possível – ou provável – a desestabilização dos valores sociais que a sustentavam. Destruir os rituais e processos psicológicos e sociais adaptativos criados para o nascimento de uma criança pode enfraquecer as estruturas de segurança elaboradas para o fortalecimento da relação amorosa entre a mãe e seu bebê altricial. Se nós sabemos que a estrutura psicológica de uma criança se assenta sobre o afeto recebido, na configuração edipiana primordial, como negligenciar estas questões no nascimento, onde tais elementos aparecem aos nossos olhos de forma crua, nítida e fulgurante? Colocar entraves nessa etapa da formação do psiquismo pode ter efeitos desastrosos, mesmo que eles se produzam de forma lenta, dissimulada e insidiosa.
Que tipo de sociedade teremos quando nenhum bebê for trazido ao mundo pelo esforço de sua mãe? Que humanidade será esta em que nenhuma dor for sentida, onde anestesiaremos qualquer dissabor, onde nenhuma obra humana será regada pelo suor e pelas lágrimas de quem a produziu? Humanizar o nascimento pode ser, para além das questões médicas e psicológicas, uma tentativa de salvar a humanidade de sua lenta desintegração…
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Pensar Diferente
Há algum tempo eu publiquei um texto exatamente tratando dessa questão: a importância do contraditório, do estranho, do diferente e do aparentemente absurdo. Acho que foi a velhice que me deixou assim: se alguém me procurar para falar de cesariana a pedido, eu apenas digo: “Traga a sua tese em poucas palavras, e vejamos se há algo de interessante nela para debater“. Não acho indecentes essas propostas, e nem inadequadas por si. Mais ainda, acho que a única forma de energizar as nossas convicções é colocá-las constantemente à prova. Debater as convicções que nos são mais caras é a melhor maneira de deixá-las firmes e fortes.
Meu pai diz que criou seus filhos mais velhos com essa ideia em mente: fomentar o debate e a contradição. Para isso, estimulou que um fosse gremista e o outro colorado (quem é do sul sabe que isso é mais complicado do que a relação entre israelenses x palestinos) , colocando-se (mentirosamente, depois soube) como “isento”. Com isso eu passei a infância inteira tendo que conviver com um cara que gostava de outro time, aguentar as “flautas”, aprender a debater e respeitar a grandeza do outro clube. Não foi fácil, mas isso me ajudou a suportar as agruras de combater sempre junto aos pensamentos minoritários.Todos queremos ser amados e receber a aprovação das pessoas que estão ao nosso lado.
Assim sendo, pensar “diferente” é um esforço complexo diante da sedução constante de agradar seus pares. Contestar, brigar por teses contra-hegemônicas e sustentar suas convicções com a coragem para mudar é um aprendizado que deveria começar na primeira infância. Depois disso fica sempre mais difícil…
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Homossexualidade e Futebol
Vou abrir um espaço para falar o que penso, sem brincadeiras (que, aliás, não apenas curto como estimulo, pois se trata da possibilidade de fugir do politicamente correto). Eu não acredito que exista um clube mais homossexual (em termos de torcida) que outro. Simplesmente não faz sentido. Aliás, se houver algum será o Flamengo, e depois o Corinthians, simplesmente porque detém as maiores torcidas. Simples assim, mas isso não significa que eles sejam percentualmente mais gays que outros. Aqui mesmo nana Internet apareceram fotos de homossexuais (postadas pela torcida adversária, claro) de todas as agremiações; basta procurar por alguns minutos na Internet que se acha.
Olha… eu sou do tempo em que o Grêmio teve uma torcida chamada “Coligay”. Era formada por um grupo de jovens homossexuais que frequentavam uma boate chamada Coliseu. Eu cheguei mesmo a assistir Grenal em que estava esta torcida, e ela era não apenas tolerada, mas até exaltada como um exemplo de diversidade; alegre, divertida, barulhenta e colorida. Havia também outra torcida no Grêmio chamada de “Força Azul” comandada pelo “Careca” que era um notório homossexual. Há relatos que ele praticava felação com os jovens durante os jogos, escondido no meio das bandeiras. Entretanto, mesmo sabendo esse tipo de “viadagem”, isso não nos incomodava ou ofendia: entendíamos como o exercício da liberdade sexual. Olhava quem queria, chegava perto quem tinha curiosidade e entrava na roda quem precisava. Havia, curiosamente, um respeito pela diversidade sexual, algo impensável para os dias de hoje. Mas por quê? O que se modificou na relação que nós temos com esse tipo de atitude? O que houve nos últimos 30 anos que modificou a estrutura da sociedade contemporânea penalizando a atitude homossexual, com as óbvias repercussões nos fenômenos de massa, como o futebol?
Há várias interpretações. A minha é a queda do muro de pedra. Não, nada a ver com o muro de Berlim. É sobre outro muro, do outro lado do mundo. Este muro é igualmente de pedra, chamado de “Stone Wall”, uma famosa boate gay na cidade de Nova York, no início dos anos 70. Uma feroz e desumana batida policial realizada naquele local colocou seus frequentadores diante das câmeras pela prática da “pederastia”. Diante dos televisores dos lares americanos apareceram os “doentes”, os “transviados”, ou “perversos” praticantes de uma doença que parecia se alastrar, colocando em risco a estrutura da família americana. Mas, para o assombro geral, os sujeitos presos e humilhados durante a abordagem policial eram pessoas como nós: pais, jovens, velhos, advogados, avós, médicos, professores, arquitetos. Gente. Pessoas perigosamente parecidas demais conosco, os heterossexuais.
É importante recordar que para nós, nos anos 70, não havia homossexualidade, que só foi inventada nos anos que se seguiram. Havia um distúrbio, uma doença, um desvio e uma aberração biológica e moral chamada “pederastia”. Diante desse nome, dessa marca e desse diagnóstico paradoxalmente sentíamo-nos seguros e protegidos. “Eu não sou homossexual, não tenho essa enfermidade”. A homossexualidade era tratada, curiosamente – e de forma um tanto jocosa – como uma doença contagiosa, num modelo “vampiresco”. Os próprios homossexuais ingenuamente diziam “Ah, você se julga hetero, mas se um dia você “der” nunca mais vai ser o mesmo”. Era folclore, misturado com preconceito e com a ignorância do determinismo de desejo que se aplica à orientação sexual.
Pois a queda de Stone Wall acabou por provocar uma onda de protestos por todos os Estados Unidos, pelos direitos da livre expressão da sexualidade. O início desse movimento pode ser visto no filme MILK, grande obra de Sean Penn. Daquele ponto em diante a homossexualidade passou a ser vista como uma bandeira de luta pela liberdade, contra o moralismo e a favor da autonomia do sujeito sobre seu próprio corpo e seu desejo. A bandeira multicolorida, o orgulho gay, as paradas e as manifestações, assim como o surgimento de grupos em todo o mundo (como o “Nuances” no Brasil) marcam a trajetória de um movimento de resgate da homossexualidade como manifestação legal e legítima de afeto entre as pessoas.
Entretanto, a saída do armário acabaria produzindo um notável movimento de reação. Somente depois do surgimento da homossexualidade é que nós criamos a homofobia. Esse sentimento (que em geral não se expressa de forma organizada, mas como uma posição subjetiva) é derivado do medo de que os sentimentos homossexuais, derivados de nossa configuração sexual primitiva na tríade amorosa primordial, sejam descobertos pelo outro, e expressos como preconceito. A homofobia, portanto, nasce como contraponto à expressão livre da sexualidade na cultura. Ela é a forma como nos defendemos de nossas próprias inseguranças, refugiando-nos num estereótipo “macho” para esconder nossas fragilidades. O homossexual é sempre o outro, assim como na escola nos apressávamos em chamar o colega de “baixinho” antes que alguém pusesse os olhos em nós e visse que nossa altura era igualmente desfavorecida.
Homossexuais são as torcidas adversárias : As Marias, o Gaymio, os Coloridos (moranguinhos), o Gaylo, os Bambis e todos aqueles que não são “nós”, num exorcismo que fala muito mais de nossas inseguranças do que de uma verdadeira preferência sexual do outro. Hoje em dia vemos que os xingamentos de torcida são todos exorcismos sexuais. Os outros são “putos”, são “viados” e “bixas”. Na minha época de criança xingávamos a mãe, foco de nosso amor desmedido e centro da nossa proteção. Tudo mudou: ofendemos o outro por suas preferências supostas, imaginadas e/ou temidas.
Eu achei que seria interessante abordar um fenômeno novo (porque não tem mais do que 30 anos) no futebol: a homofobia. Muito mais do que a defesa ingênua e tutelante que eu as vezes presencio, eu acredito ser mais interessante entender as origens da homofobia em função da conjuntura atual, decorrente dos movimentos de liberação gay. Nessa perspectiva, a homofobia (como manifestação, não como sentimento e nem como prática) é uma consequência dos movimentos GLTB (ou queers, que engloba tudo). Antes da extroversão dessas modalidades de expressão sexual não havia necessidade de expressão homofóbica, pela simples razão de que ela não ameaçava a maioria heterossexual. Bastou os homossexuais se assumirem publicamente, mostrarem seus rostos na rua, para nos apavorarmos com a semelhança (e não com as diferenças) que eles possuem com o mundo dos “normais”.
É isso, exatamente, que gerou a homofobia: a parecença, o fato de eles serem humanos, amarem, odiarem, terem medo e orgulho. Como qualquer um. Portanto, ninguém mais estaria a salvo. Saíram dos armários e do DSM (lista de doenças psiquiátricas), e isso os deixou perigosamente próximos de todos os héteros, os que sustentavam a ideia de família cristã e prolífica. Assim, tornou-se imperioso expurgar a suspeita e colocá-la no outro. Foi essa a razão pela qual os xingamentos homofóbicos se tornaram lugar comum nos estádios, e também na vida das cidades: o medo, pânico de que descubram minhas fragilidades…
Mas sou um otimista inveterado. Eu ainda gostaria de ver de novo uma torcida homossexual no meu clube. Mais ainda: gostaria que a orientação sexual não fizesse diferença alguma para o torcedor, e que as barreiras entre homos e héteros simplesmente ficassem restritas aos leitos e aos corações. Gostaria que os homossexuais gostassem de futebol, se interessassem pelo espetáculo e se apaixonassem pelos gols e vitórias. Gostaria que meu clube não impedisse, através da direção ou da torcida, a livre expressão de amor clubístico pelos grupos homoafetivos. A repressão que qualquer preferência sexual é um mal para a sociedade. Mesmo que eu defenda com unhas e dentes a livre expressão, e o direito à homofobia, eu sonho com uma sociedade livre desses preconceitos, em que a comunhão em torno da alegria do futebol seja o traço de união entre todos que o procuram.
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Agnodice
Agnodice, a mais antiga parteira da história grega.
Diz a lenda que uma antiga lei nos séculos V e VI antes de Cristo proibia as mulheres de estudar medicina e exercê-la. Agnodice, entretanto, por desejar o conhecimento e a possibilidade de se aproximar do mistério do nascimento, frequentou as aulas da escola médica do professor Hierophilus, devotando-se ao estudo da parteria e da ginecologia. Foi acusada e julgada por infringir essa lei, mas foi resgatada da prisão pelo testemunho da influente mulher de um político ateniense, a quem havia atendido no seu parto. Agnodice foi uma parteira com uma face masculina. A coragem e a doçura encarnadas no mesmo corpo.
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A Ousadia de Discordar

Como de hábito, meu filho Lucas selecionou uma pérola de sabedoria, inteligência, poder de síntese e simpatia nas páginas do TED. A palestrante Margaret Heffernan fala com brilhantismo da importância dos conflitos e do convívio com os diferentes. Mas, ao contrário do que poderíamos esperar, ela não faz uma pregação ao estilo “respeite aqueles que divergem de você“. Não… ela vai muito mais além. Ela diz da importância de trabalharmos com pessoas que pensam de maneira diferente, pois esta é a única maneira de calibrarmos o nosso trabalho e mostrar que ele está correto. Conviver com os que pensam como nós produz letargia e acomodação. Por sua vez, o contraditório é estimulante e induz ao progresso, das pessoas, corporações ou nações.
A palestrante produz em 20 minutos uma das mais fantásticas palestras do TED que eu escutei nos últimos anos. Curiosamente eu havia acabado de postar aqui no meu humilde blog um artigo chamado “Mudança de Paradigma” onde exponho a minha crítica ao racionalismo exacerbado como proposta de mudanças paradigmáticas na cultura. Minha tese é centrada na ideia de que as modificações profundas se dão a partir de mudanças de ordem afetiva, psicológica e emocional. Somente depois que tais elementos forem mobilizados é que a abertura para o conhecimento poderá plantar as sementes da mudança. Lucas enviou-me essa palestra sem saber do sofrimento por que passei por ter ousado discordar do senso comum, de ter coragem de me posicionar contra algo que intuía ser uma agressão ao direito soberano de livre expressão. Mas eu percebia que, mais do que simplesmente uma crise de posturas e opiniões, eu estava diante de uma tensão causada pelos diferentes caminhos propostos no ideário da humanização, e a discordância verdadeira se escondia no que não havia sido dito. Talvez alguns colegas houvessem percebido e preferiram se calar – e talvez apenas eu tenha essa opinião – mas a verdade é que eu resolvi aceitar o desafio do conflito e dizer minhas propostas.
Continuo acreditando que o caminho mais seguro para a humanização do nascimento seja através da sensibilização, do afeto, do carinho reconquistado e de uma abordagem humana e pessoal. A trajetória do “nascimento na perspectiva do sujeito” nos obrigará a repensar os modelos, protocolos e rotinas, abrindo um campo muito mais vasto de atenção às gestantes, fazendo de cada nascimento uma história única e inigualável. O grande erro das sociedades contemporâneas, no dizer de Wenda Trevathan, é a incapacidade do sistema médico ocidental de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, psicológicas e sociais do nascimento, mesmo que as evidências dessa falha sejam facilmente reconhecíveis pelos profissionais que atuam na atenção ao parto. Não faltam estudos, análises e pesquisas para demonstrar tal desacerto e disparidade. O problema é que “saber” não é suficiente. O conhecimento segue as mudanças, e não as provoca. Antes de informar é preciso transformar, subverter, modificar, revirar a terra de nossas convicções envelhecidas, para assim torná-la fértil para a semeadura do saber. Termino com as palavras finais de Margaret Heffernan sobre a “abertura” das consciências:
“Informação livre é algo fantástico; redes abertas são essenciais. Entretanto, a verdade não nos libertará até que desenvolvamos as habilidades, o hábito, o talento e a coragem moral para utilizá-los. Franqueza e sinceridade não são o fim; são o começo.”
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