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Etarismo

Muitos casos tem nos mostrado um dilema evidente no nosso cotidiano: a proteção às pessoas de um determinado grupo supostamente oprimido (pessoas mais velhas, trans, gays, negros, etc) fatalmente as transforma em “pessoas especiais”, o que, ao meu ver, retira delas o protagonismo. Como já foi dito centenas de vezes, quem é vítima não pode ser protagonista; o primeiro é objeto enquanto o segundo é sujeito. Em diversas oportunidades vemos pessoas de mais idade tornando-se (ou sendo tratados como) sujeitos que precisam de “cuidado” e, portanto, incapazes de cuidar de si mesmos. Entretanto, existem muitas pessoas nesta faixa etária que se rebelam contra esse tipo de atitude, que em verdade dissimula uma perspectiva diminutiva fantasiada de “atenção”. Lembro muito bem do meu pai em férias que se negava a fazer “ginástica na praia” por medo de ser cuidado e tratado de forma carinhosa pelos professores, como se ele fosse um bebê incapaz de fazer os exercícios sem supervisão.

A proteção excessiva é a face cor de rosa da exclusão. Por isso a proteção abjeta à estudante de 44 anos fui um exemplo pedagógico de “suco de etarismo concentrado”. Lembrem apenas das crianças que recém aprenderam uma habilidade (amarrar os sapatos, por exemplo) e da sua reação indignada e saudável em direção à autonomia quando tentamos fazer isso por elas. “Eu não sou mais bebê”, dizem eles.

Estas ações também me fazem questionar a proteção oferecida às gestantes que, assim que acessam o hospital, são colocadas em cadeiras de rodas. Muitas são tratadas como “princesas”, sem se dar conta que esse tratamento de exceção apenas revela o (pré)conceito que temos delas. No hospital são vistas como deficientes, dotadas de “fraqueza”, “fragilidade”, e incompetência, algo que elas carregam pela sua essência feminina – fraca e dependente. Ou seja, não é possível empoderar e fortalecer a maternagem se continuarmos a tratar as mulheres – e em especial as gestantes – como bonecas frágeis que demandam cuidados especiais.

Michael Klein, um colega médico do Canadá 🍁 cuja esposa sofreu um grave acidente automobilístico, certa feita me contou sobre a trajetória de recuperação de sua esposa. Depois de se recuperar do acidente, e sabendo da sua condição de deficiência pelo resto da vida (ela ficou paraplégica), pediu ao marido que a deixasse sozinha por duas semanas na sua casa de campo. Disse a ele para não aparecer por lá em nenhuma circunstância. Garantiu a ele que tinha um sistema de emergência que seria acionado caso necessário, mas que não tinha interesse em usar. Precisava usar este período para provar para si mesma que era capaz de continuar a viver apesar de suas óbvias condições de dependência. Não desejava se colocar na posição cômoda de cobrar do mundo um cuidado especial. Seu objetivo era fugir da atitude sedutora “agora sou deficiente e mereço ser cuidada”. Não aceitava ser objeto de cuidado dos outros, mas conquistar autonomia para cuidar de si mesma. Ou seja, assumir a posição de sujeito, com limitações e dificuldades, mas sem desistir de alcançar autonomia e protagonismo em sua vida.

Eu fiquei indignado e triste com a atitude da estudante “velha”. Sim, velha, pois foi assim que ela mesma se reconheceu. Sua ação foi um desserviço para todas as outras mulheres maduras que chegam ao ensino superior, que a partir de agora serão tratadas como deficientes, incapazes de suportar as dificuldades que qualquer outro estudante precisa encarar. Fosse ela a esposa do meu colega e iria conversar com as meninas, explicar sua vida, mostrar suas conquistas, apresentar a família, convidar para um café, mostrar onde mora e criar proximidade com as garotas. Ou responderia de forma desaforada para as “pirralhas”, mas não se fecharia como uma ostra. Mostraria sua força e o quanto é forte para suportar por si mesma as críticas e gracejos inevitáveis na vida social. Infelizmente ela preferiu ser a princesa frágil que chamou o príncipe (o Estado, a Justiça burguesa) para resolver o problema por ela.

Para ver como esta questão pode ser vista com os olhos do humor, veja aqui

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Críticas

Acho que neste momento em que as forças do Mal parecem estar confusas e enfraquecidas (mas nem de longe destruídas) depois da derrota bolsonarista, cabe a nós fazer justiça à importância seminal da crítica. Criticar passou a ser ofensivo e maligno nos últimos anos. Eu mesmo, há poucos anos, fui cancelado por uma palestrante de autoajuda por ousar fazer uma crítica às pessoas do nosso campo que engoliam “baits”, iscas bem colocadas por todo tipo de provocador para gerar “engajamento”. Diante das ameaças e ataques a estas personagens fascistas eu dizia, à época, que usar as mesmas armas baixas e violentas de quem nos atacava nada mais fazia do que nos tornar perigosamente semelhantes àqueles a quem – ilusoriamente – imaginávamos distância.

O cancelamento, por certo, fez bem a ambos. Procuro manter uma respeitosa distância com aqueles que atuam no maniqueísmo identitário que destrói as propostas inovadoras de convívio com as diferenças. Todavia, o que eu queria ressaltar neste texto é a importância de manter viva a crítica. É evidente ser impossível realizar juízos severos aos erros que testemunhamos sem correr o risco de ofender pessoas; arriscar-se a ofender está implícito em qualquer análise de valor. Mesmo quando ela é impessoal e técnica ainda assim é possível que o sujeito, alvo da crítica, se sinta pessoalmente atingido. Isso porque muitos ativistas incorporam as ideias como se fossem parte de si mesmos, como fervorosos religiosos que se sentem mor(t)almente atacados se alguém questiona seus dogmas. Criticar a fé das pessoas é ameaçar o próprio crente, pois que ele não distingue suas crenças de si mesmo.

A cultura do cancelamento produziu a estagnação do pensamento crítico estabelecendo barreiras para qualquer análise. Assim, o “lugar de fala” foi usado como mordaça por determinados grupos que acreditavam que uma unidade pétrea de postulados, infensa a qualquer crítica externa, produziria fortalecimento. Pelo contrário: produz fanatismo e atrofia, além de fomentar um contraditório cada vez mais poderoso. O que vemos hoje é o crescimento muito grande de grupos que contestam de forma sistemática as teses pós-modernas sobre gênero, sexualidade, raça, etc. fortalecidos pela postura muitas vezes autoritária, fechada e punitivista daqueles que supostamente defendem minorias.

Essa cultura também produziu a exaltação do individualismo que nos coloca na posição de soberanos absolutistas do gosto. Ou seja: se eu gosto então é maravilhoso e a opinião do outro (não importa se for um estudioso da área) é irrelevante diante da suprema autonomia da minha opinião própria. Mais ainda em campos como literatura, cinema ou música. Nesta última tornou-se comum a ideia de que a trajetória do músico é mais importante do que sua obra. Assim, o passado de pobreza, as fotos de quando era uma pessoa comum, o impacto das dificuldades pelas quais passou e as barreiras que teve de ultrapassar tornam, magicamente, proibidas quaisquer críticas às suas produções e performances musicais. Se o(a) cantor(a) for membro de uma minoria oprimida qualquer juízo será tratado como preconceito ou xxxx-fobia. Com isso produzimos uma geração incrível de artistas medíocres cuja produção não pode ser questionada, sob pena de imediato cancelamento. Criou-se uma blindagem que protege a produção ruim de qualquer comentário negativo.

A necessidade do contraditório e a proteção da crítica são elementos fundamentais em qualquer sociedade. É certo que algumas julgamentos (como certas piadas) são ataques violentos e preconceituosos travestidos de “opinião e análise”. Todavia, o bom observador, percebe rapidamente qual o real objetivo da análise ou do gracejo. Além disso, não se pode cancelar a crítica e o humor sem que haja um transtorno grave na sociedade, o que leva inevitavelmente ao emburrecimento e à estagnação. Mesmo quando ela possa levar à ofensa e ao ataque pessoal – práticas que também merecem censura – ainda assim não podemos permitir que ela seja cerceada.

“Tão triste quanto o retrocesso dessas conquistas, que vimos na era fascista, é vermos hoje uma nova geração com clamor identitário, herdeira de lutas emancipatórias, equiparar-se aos censores reacionários, inimigos da liberdade, em estratégias moralistas patéticas e antidemocráticas. (…) A garantia do ‘lugar de fala’, legítima quando promove, é tirânica quando apregoa que se calem outras vozes e lugares”. (Francisco Marshal, coluna Zero Hora, 25 março 2023)

Para uma análise mais madura e qualificada sobre o tema aqui está o texto do Juremir Machado da Silva.

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Preconceitos

Esse é o cerne do identitarismo: a ideia de que para defender meu grupo não importam as demandas que os outros grupos sociais fazem, igualmente atacados pela sociedade injusta em que vivemos. Para defender uma suposta superioridade de um gênero sobre outro (leia-se sexismo) vale atacar a classe trabalhadora, os pobres, o “lumpenproletariat“, os trabalhadores braçais, os estivadores, todos colocados na posição de “burros de carga”. Pois se o movimento feminista pretende um dia ser uma força ativa na sociedade o ataque ao proletariado é a ação mais insensata possível.

E sim, o sujeito a quem foi endereçado este comentário vai pensar. Seu pensamento será: “ok, esta é uma disputa, nós contra elas”. Os proletários, ao fazerem sua revolução, desta forma já sabem que não poderão contar com quem os trata como tolos animais de carga. E quando estas mulheres saírem às ruas com cartazes “parem de nos matar” de nada vai adiantar gritar, pois estes pobres trabalhadores estarão ocupados no porto, carregando as caixas cheias de produtos que chegam para tornar a nossa vida mais fácil.

“Sem diálogo ou negociação, as batalhas morais beneficiaram os conservadores, já que, historicamente, se associa a eles o monopólio da moralidade. O ativismo e a própria área de pesquisa em gênero e sexualidade contribuíram para sua própria derrota ao lidarem com seus adversários em termos que os favoreciam” (Richard Miskolci, em Extra Classe)

Ou seja: usar as armas do machismo nessa luta apenas favorecerá os conservadores. Essa retórica favorece a narrativa dos machistas que enxergam nessa disputa seu terreno mais favorável. Parabéns ao envolvidos.

Dizer que homens carregam sacos de 50 kg é apenas a verdade. Talvez você nunca tenha visto um caminhão de uma obra sendo descarregado, mas isso ainda é muito necessário. Não só isso: bombeiros, policiais, eletricistas, todos os trabalhadores da construção civil são obrigados a realizar muito esforço físico. E nem vou debater o argumento dele de “cotas para serviços pesados”, mas apenas a resposta absurda que a engenheira deu.

Portanto, não foi ele quem se colocou como “burro de carga”, mas a própria sociedade construída para que estas tarefas duras, arriscadas e perigosas sejam atribuição dos homens. Existem milhões de homens que carregam sacos, pedras, cimento, areia e carregam os móveis para nossas casas. Chamar estas pessoas de “burros de carga” mostra duas coisas: primeiro, a profunda ignorância de uma engenheira (!!!), que não sabe que para certas situações as rodas não ajudam em nada, e o trabalho físico pesado continuará sendo necessário – até que a evolução da tecnologia impeça o sacrifício dos homens nessas tarefas – algo que ainda estamos muito longe. A segunda coisa é que chamar o trabalhador braçal de “burro de carga” apenas afasta qualquer tipo de simpatia para a causa feminista.

Aplaudir esta estupidez dupla apenas atrasa os avanços que são necessários para se criar uma sociedade mais justa. Essa engenheira expôs seu desconhecimento em público, usando um preconceito de classe para tentar combater um pretenso preconceito de gênero. Mais ainda, colocando uma cobertura pouco digestiva de sexismo sobre tudo ao afirmar que “as mulheres são melhores” quando se trata de colocar azulejos, o que não tem nenhuma base em qualquer estudo conhecido – e nem de que os homens sejam melhores neste ofício.

Suco de identitarismo lacrativo. Aliás, quando perguntarem porque os avanços nessa área são tão lentos lembre que estas pessoas fazem de tudo para atrasá-los…

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Nós e eles

No Facebook ninguém jamais foi egoísta, sacana, maldoso ou ruim. Todo mundo sofreu bullying, ninguém jamais o cometeu. Todos foram injustiçados, mas ninguém foi autor de grosseiras injustiças. Todos guiaram sua conduta pela bondade e pela solidariedade, mas foram vítimas contumazes da maldade alheia. A ninguém jamais ocorreu agir em causa própria para obter vantagens; as ações sempre foram direcionadas para o bem comum. Todos são merecedores de erguer a mão e responder à pergunta de Jesus, afirmando impávidos “Eu, mestre. Sim, eu sou isento de pecado e posso atirar a primeira pedra. Façavor de me alcançar o paralelepípedo”. As redes sociais são pródigas em mostrar estes vestais, seres isentos de pecado, candidatos a atirar as primeiras pedras.

Ao lado da consciência de classe precisamos também aprender a calçar as “sandálias da humildade”. Ou ao menos aprender com o dramaturgo romano Publius Terentius Afer (Terêncio) que dizia “Sou humano, e nada do que é humano me é estanho”. Sem muito esforço consigo perceber toda a gama infinita de maldades humanas dentro de mim mesmo, das mais perversas às mais banais e imperceptíveis. A diferença entre mim e os criminosos que ocupam as prisões é pequena demais para que eu possa reconhecer uma essência distinta entre nós. Muitas vezes circunstância e contextos produzem estas distâncias enganosas, muito mais do que o caráter.

O apontar de dedos e o punitivismo inexorável das redes sociais não cansam de me surpreender pelo seu vigor e resistência. É a sanha punitivista que me espanta, em especial quando surge no seio da esquerda. Por que desacreditamos tão facilmente no perdão e na compreensão das falhas? Por que tanto sentimento de vingança que tanto nos aproxima dos verdugos e algozes da classe média? Qual o sentido de nos colocarmos tão acima daqueles que erram? Por acaso somos feitos de uma matéria distinta? Acreditamos mesmo em diferenças tão marcantes de caráter entre nós e o mar de pecadores que nos cerca? Que retrocesso espiritual é esse que nos faz gozar com a punição e a vingança?

A ideia de colocar-se acima dos outros – inclusive dos reais criminosos – é um erro que eu não tenho coragem de cometer. De novo trago as palavras dos antigos: “Nunca diga que dessa água não bebereis”. Sabe-se lá qual a sede que te consome. Tivesse eu bebido a mesma água que tantos beberam, passado pelas agruras de suas vidas e sofrido na carne o que sofreram e só assim seria possível dizer que jamais cometeria seus erros. Qualquer julgamento feito sem ter calçado os seus sapatos é injusto. E, mais uma vez, a impossibilidade de julgar as pessoas não significa a impossibilidade de julgar suas ações e seus crimes, assim como impor as punições que sejam necessárias.

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Vítimas

“As universitárias de Bauru que debocharam de colega de 44 anos abandonam faculdade. A Unisagrado afirmou que abriu processo disciplinar contra as estudantes, mas elas “solicitaram a desistência do curso de Biomedicina” durante a apuração do caso.”

Muita gente feliz com o desfecho do caso…

Eu pessoalmente creio que as verdadeiras vítimas dessa história foram as três meninas que fizeram um comentário inadequado para uma colega mais velha. Elas foram vitimadas pela fúria das redes sociais, de forma inexorável, brutal e cruel. Já a senhora, colega de turma, recebeu tão somente uma crítica, de forma jocosa e infantil. Se a gente acredita que as pessoas não podem suportar piadas desse tipo, que tipo de sociedade estamos criando??? Eu não tenho empatia alguma por pessoas (presumidamente, porque não ouvi nada dela) que se desmancham como castelos de areia diante das mais leves críticas.

Curiosamente, fazemos críticas, memes, gozações, ataques e até acusações de todo tipo – inclusive falsas – contra pessoas de outro viés politico, como a família Bolsonaro. Colocamos apelidos demeritórios em personagens da direita (Nikolas “chupetinha”, por exemplo) sem nenhum pudor e sem nos preocuparmos que isso possa lhes causar danos. Acaso temos empatia pela crueldade feita contra estes inimigos? Não, por certo, e ainda exigimos que essas pessoas atacadas por nós tenham fibra e suportem as críticas e piadas porque, afinal, faz parte do jogo. Pois eu digo que voltar a estudar na maturidade e escutar risadinhas de colegas adolescentes faz parte do jogo também. Não é aceitável uma cultura em que é valorizado ser frágil, um floco de neve que se esfarela diante de adversidades.

O principal problema de tratar adultos como se fossem crianças (ou velhos senis), que precisam ser protegidos de quaisquer ataques, é que isso rouba deles o protagonismo. Tornam-se objetos do nosso cuidado. Protegemos essa estudante mais velha porque acreditamos ser ela incapaz de se defender, sem condições de responder diretamente às meninas e tratar desse assunto na hora do recreio. Pela nossa ação esta senhora ficou esmagada entre o ataque infantil e tolo das coleguinhas e a defesa exagerada e alienante que as redes sociais fizeram. A voz dela – como a voz de uma criança – sequer foi considerada. Ela foi tratada por todos como uma incompetente.

A proteção exagerada só se justifica quando temos certeza da incapacidade de quem protegemos. É assim que fazemos com nossos filhos, que se mantém sob nossa redoma protetora. Todavia, chega um momento que a gente olha para o filho e diz: “Voce já está bem crescidinho. Isso você mesmo terá que resolver, diretamente com seu colega. E para de chamar a professora por qualquer coisinha que aconteça. Ela só deve resolver coisas muito graves. Se ele lhe chamou de “bobo, chato ou feio” lembre que você não é. Você é uma ótima pessoa e a opinião dele não pode lhe afetar dessa forma”.

Ou seja, estimule o protagonismo, a autonomia e a autoestima do seu filho. Digo mais: se um dia eu fosse ofendido (como fui a vida toda, chamado de gordinho, burro, maconheiro, etc) e minha mãe (ou a diretora) viesse me defender creio que jamais voltaria à escola, porque não suportaria a extrema humilhação de não conseguir “resolver meus B.O.s” por conta própria e ter que aceitar a intervenção da mãe ou da escola. O mesmo ocorre na vida adulta, pelo Estado, através da justiça burguesa.

Já existe um razoável consenso de como devemos educar os pequenos neste aspecto. Sabemos não ser possível evitar os ataques incessantes do mundo, mas temos a chance de fortalecer suas personalidades a ponto de que uma simples ofensa tola não os faça ruir. O tempo da judicialização e dos sujeitos frágeis, de gente que se ofende por literalmente qualquer coisa – aplicando sempre a desculpa “só eu sei o que sofri, você não pode julgar” – acaba jogando a análise da ofensa para a absoluta subjetividade, impossibilitando um julgamento de valores pessoais. Este tempo está, finalmente, acabando. Esse tipo de sociedade é insuportável e cínica, e sabemos que não se muda a sociedade pelos tribunais, mas através de lentas mudanças estruturais em seus valores.

O que mais me chocou esse caso é que, no afã de proteger uma senhora de 44 anos (!!!) que foi considerada como uma débil mental e incapaz de suportar esta crítica, tratamos de forma brutal e destrutiva três meninas que fizeram algo que todos nós um dia fizemos – uma simples troça inadequada. A barbárie usada contra elas não causou nenhum arrependimento e sequer o fato de terem desistido do sonho de fazer o curso – pelas ameaças feitas pelos colegas – foi levado em consideração. Mais ainda: vejo gente comemorando, com a mesma excitação dos bolsonaristas que gozam ao dizer “bandido bom é bandido morto”. Neste caso “menina que faz piada com coroa é menina expulsa da faculdade”

Se você enxerga muita diferença entre estes gozos punitivistas, eu não vejo. Para mim são faces da mesma moeda, de gente que acredita que uma sociedade é capaz de melhorar com cadeias, punições, expulsões e linchamentos em redes sociais. Eu não creio nessa perspectiva de sociedade, e tenho pena de quem se alegra com a desgraça alheia. Estes, de dedos em riste, ainda não se deram conta que o massacre às meninas pelo crime hediondo de fazer uma piada sem noção diz muito mais dos acusadores do que do delito inafiançável das garotas. Mas, tudo bem; do ponto de vista da justiça popular elas já foram executadas.

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Olifãs e Pipokinhas

Eu não vejo grandes dramas com o fato de uma menina – que atende pelo sugestivo nome de Mc Pipokinha – rebolar em bailes funk e até mesmo ficar rica com essa profissão. O mesmo raciocínio uso com quem faz olifãs – ou mesmo prostituição por livre escolha – por uma razão bem simples: há quem pague e existe quem queira vender. Minha única reclamação é pelo fato de uma menina dessas escarnecer de um professor achando que o trabalho de mostrar seu corpo e rebolar de forma provocativa é “mais valioso” que o ofício de uma professora apenas porque seu contorcionismo erótico paga mais.

O dinheiro é, quase sempre, um péssimo método para avaliar qualidade ou importância social de uma ideia ou um trabalho. Apesar de sua inquestionável importância através da história os professores são depreciados e mal pagos no capitalismo. Mesmo diante desse desprestígio não deixam de ser indispensáveis. Nunca é tarde para lembrar que Beethoven fez muito menos sucesso que Justin Bieber ou Madonna.

Uma cultura sobrevive sem pipokinhas, mas não sem mestres.

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Tríptico Amor Romântico – 1. Amores decadentes

Tenho uma curiosidade sobre a “decadência do amor romântico” e gostaria de saber a opinião das pessoas sobre essa ideia. Por que tantos acreditam que o amor romântico “não funciona” e precisa ser eliminado? Qual a alternativa a ele? Se o amor romântico não funciona a alternativa seria a construção de uma cultura hedonista, baseada em múltiplos encontros sexuais e amorosos fugazes, superficiais e “operacionais”, tipo, objetivando apenas a reprodução? Poliamor seria a resposta para o desejo? Relacionamentos abertos? E as crianças? Tribos, comunidades, comunas? Como podemos imaginar as sociedades, as famílias, as crianças e a velhice num mundo pós amor romântico?

A questão proposta é apenas esta: se o amor romântico como o entendemos não tem mais sentido, como seria a estrutura social do futuro? Amores líquidos, meteóricos? Prazeres descompromissados? Surubas cibernéticas? Sexo casual? Filhos comunitários? Admirável Mundo Novo?

Para ser mais explícito, não é sobre apaixonamento, tesão ou outros tipos de amores que estamos falando. “A crise do amor das relações surgiu no horizonte como um impacto muito forte, com as separações tanto das relações mais formais como as informais. O casamento oficializado entra em crise.” (Edson Fernando Oliveira). A crise está na ideia de que precisamos nos relacionar por amor, pelo desejo de formar parcerias longas, “até que a morte os separe”, uma vida conjunta envelhecendo em parceria, ao lado de filhos, netos e bisnetos. É sobre esse “contrato social” de pessoas que estão juntas e decidem se manter assim porque se amam. Não é sobre paixão e desejo, mas a forma de acomodá-los, criando uma dualidade afetiva duradoura.

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Tríptico Amor Romântico – 2. Os Mosuo

Acho importante citar que existem experiências de organizações sociais que diferem do casamento monogâmico e do próprio “amor romântico”. Todavia, é importante entender as condições para o aparecimento desse tipo de organização social e as razões por jamais ter se disseminado. Uma forma de pensar como seria uma sociedade sem amor romântico é conhecer a comunidade Mosuo no sul da China, numa das zonas mais isoladas e pobres do país. Acho um equívoco tratar esse modelo como “matriarcado”, que eu acredito ser um mito, mas a estrutura social aplicada para dar conta das famílias, dos filhos e da sexualidade parece ser extremamente interessante, em especial no que tange os “casamentos caminhantes”. Nessa comunidade – repito, pobre e isolada, e isso ao meu ver é muito significativo – após completarem 13 anos de idade, as meninas podem ter seu próprio quarto na “casa das flores”, uma casa onde as avós detêm o controle político e moral. Nesse seu quarto elas pode convidar os meninos que desejarem para visitá-las (por isso casamentos caminhantes), tendo uma vida sexual livre e sem cobranças. Num determinado momento elas escolhem quando desejam se tornar mães – ou o “destino” escolhe por elas, como acontece entre nós. Ficam grávidas do pai biológico de seu filho, mas este nunca terá funções paternas sobre aquele.

A sociedade não é matriarcal; isso é um mito. A liberdade sexual das mulheres não significa diretamente poder político. A sociedade é matrilinear e matrilocal, mas o conceito de “arkhé”, poder político, não está implicado nessa sociedade. Em uma cultura patriarcal, o homem assume a responsabilidade e a autoridade política, moral e religiosa sobre as mulheres e os filhos confiados à sua proteção, e as mulheres nessa sociedade isolada chinesa não têm estas atribuições. Ou seja, não é o espelho invertido da sociedade patriarcal, mas uma sociedade onde as famílias se organizam em torno das mulheres e de suas casas, e onde usufruem de uma curiosa (e eu diria merecida) liberdade sexual. Na sociedade Mosuo quem assume a função paterna das crianças é o irmão mais velho da mãe, que será o “pai” dos seus sobrinhos, mas não dos seus filhos biológicos. Portanto, a função desse homem é muito importante na formação das crianças, mas não adquire uma conexão biológica/genética. Como a sociedade é matrilocal, os homens vivem nas casas das “matriarcas” e as crianças nascidas vivem sempre sob a tutela desse núcleo familiar, o qual não obedece uma característica patrilocal, sequer patronímica. Entretanto, é importante entender que esse costume aos poucos vai morrendo, e as novas gerações vão adotando o modelo patriarcal monogâmico do resto da China, adaptando-se ao “amor romântico”.

Outra questão importante é o turismo sexual que se criou para esta localidade, pois se acreditava que as mulheres Mosuo eram “fáceis”, que tinham relações com qualquer visitante. Houve até campanhas na China para afastar estes turistas indesejados que não compreendiam o costume e o tratavam como uma variante da “libertinagem”. Porém cabe uma pergunta: por que esta sociedade é uma exceção? Pode haver várias respostas, mas a minha é esta: por ser uma sociedade isolada, pequena e insignificante. São populações que vivem nas montanhas e sem contato com vizinhos ameaçadores; esta é, afinal, uma das regiões mais pobres da China, onde a vida é muito dura. Essas sociedade são militarmente frágeis, mas apenas por que as ameaças inexistem. Foi pela necessidade de proteção que o planeta inteiro adotou o patriarcado, que produz sociedades mais fortes e protegidas. Mas o que aconteceria com uma sociedade que não sofresse ameaças externas? Talvez exatamente isso: uma sociedade sem a necessidade do patriarcado como força protetiva. Por isso algumas feministas perceberam que a única forma de produzir real igualdade social – e sexual – entre os gêneros seja pela conquista da paz.

Como a sociedade é “matrilocal”, as meninas Mosuo permanecem morando na casa das mulheres após o nascimento dos bebês e quem fará a função paterna será o irmão mais velho. O pai biológico do seu filho poderá fazer essa função na sua casa e com os filhos e filhas de suas irmãs. Poderá também participar, se assim o quiser, dos cuidados do seu filho biológico, mas está não será sua obrigação primordial. Esse modelo é, por certo, uma exceção no mundo atual e, para existir, precisa de circunstâncias muito especiais, entre elas a paz e uma característica não belicosa da sociedade. Creio que esse é o ponto nevrálgico. Todas as sociedades que, de uma forma ou de outra, se sentiram ameaçadas por inimigos externos acabaram adotando o modelo patriarcal, muito mais forte, determinado e capacitado para o enfrentamento.

Existem muitos documentários sobre os Mosuo (vide abaixo) em especial por concepções errôneas e preconceituosas sobre a organização sexual das mulheres nesta cultura. Em um desses documentários, a matriarca diz que o modelo Mosuo “é o mais avançado do mundo, e deveria ser exportado para todo as culturas”. Ela rechaça a ideia de que seja promíscuo, mas ressalta que nesse modelo (ou nessa experiência) as mulheres fazem um trabalho muito pesado na agricultura de subsistência e no cuidado com os animais domésticos, produzindo uma sociedade de ampla autossuficiência. Entretanto…. se pensarmos bem, não temos uma variante desse modelo em alguns subgrupos sociais? Pensem em alguns bolsões de pobreza, onde as meninas adolescentes engravidam de garotos igualmente muito jovens. A menina e seu filho estabelecem-se (por necessidade) na casa da mãe, que passa a cuidar do neto, muitas vezes assumindo o cuidado materno. O pai biológico desaparece, evade, vai cuidar de suas necessidades, e a função paterna acaba sendo executada pelos irmãos mais velhos ou pelo avô do bebê (quando houver). Não é parecido?

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Tríptico Amor Romântico – 3. Do que estamos falando?

Primeiramente é importante deixar claro este conceito. Amor romântico não é isso que muitas das pessoas imaginam; aliás, quase todos confundem esse conceito quando se trata das formas de constituir uma sociedade. Amor romântico é casar (ou qualquer relação semelhante que objetiva constituir uma família) por amor, e não por qualquer outro interesse. Essa criação social é relativamente jovem na história da humanidade, e ainda hoje existem milhões de casamentos que não ocorrem por amor, fora do esquema que temos aqui, e que ocorrem por contrato de divisão de terras, divisão de poder, por escolha dos pais, para fazer filhos, por interesses jurídicos (green card, por exemplo), por rituais familiares, etc.

O Japão possui uma longa história de casamentos arranjados, chamados “omiai”. Este país mudou bastante a partir da 2a guerra mundial e a forçosa ocidentalização que se obrigou pela invasão americana e hoje em dia muitas pessoas estão escolhendo parceiros que conhecem e amam. Há não menos de 20 anos o total de casamentos Omiai era de 20%, mas hoje estima-se que cerca de 5% a 6% dos japoneses ainda usam o modelo do casamento arranjado e aceitam ter seus parceiros escolhidos por outras pessoas. Os casamentos arranjados ainda são a norma na Índia, mas há uma tendência crescente de algumas mulheres escolherem seus próprios parceiros, ou simplesmente não se casarem. Ou seja: o casamento romântico que parece morrer aqui, lá na Índia está recém nascendo e florescendo, e se tornando – só agora – a norma.

Esses casamentos arranjados, que foram o padrão da humanidade por séculos, costumam ser uma instituição muito mais sólida, firme, forte e permanente. Como dizia Contardo Calligaris, “o casamento é uma instituição sólida, a única coisa que o enfraquece e ameaça é o amor”. Todos nós percebemos o quanto o casamento de nossos avós eram bem mais duradouros que os atuais, mas também muitos se espantam (ou ficam horrorizados) ao descobrir que muitos destes nossos antepassados… jamais se amaram.

Enquanto isso, o casamento por amor romântico é uma novidade recente onde o sentimento afetivo (amor) é o principal elemento de união, não havendo outras amarras explícitas para o contrato. Não são escolhas parentais e não são valores materiais os objetivos dos que escolhem o parceiro, o objetivo não é monetário e não há interesses escusos.

Algumas pessoas dizem que este tipo de união é fracassada, tendo em vista que na idade madura mais da metade das pessoas já estão separadas desse amor. Pois foi esse meu interesse ao perguntar: se não for esse o modelo de casamento – por amor – qual seria? Voltar a ter casamentos por dinheiro, escolhidos pelos pais? Pessoas fazendo filhos sem se conhecer? Máquinas de gestação extra corpórea? Relações fugazes? Longos namoros sem coabitação? Filhos criados por comunidades de mulheres? Paternidade dispersa? Pessoas vivendo sozinhas e se encontrando apenas por sexo (como ocorre em parte da juventude de hoje)?.

Claro que qualquer um pode escolher o seu modelo, mas isso não se configura um padrão social, apenas uma forma de resolver sua vida erótica, e sobre essa questão social se apoia a pergunta inicial. Alguns perguntaram “para que precisamos modelos?”, que é uma pergunta válida para o sujeito, mas se vamos tentar entender as tendências sociais é importante questionar as razões pelas quais escolhemos formas de guiar as práticas de união social – em especial aquelas que vão produzir filhos e manter nossa espécie.

Portanto, não estou falando de “amor verdadeiro”, “amor eterno”, “amor real e sincero” e muito menos do conceito de “romantismo”, ou seja, “práticas externas e explícitas de demonstração de afeto e paixão por uma pessoa”. Isso é outro assunto. O amor romântico pode ser silencioso e discreto, basta ser movido tão somente…. por amor.

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Pedra de Tropeço



“And a stone of stumbling, and a rock of offence, even to them which stumble at the word, being disobedient: whereunto also they were appointed”.

Eu acho que Cristo estava certo ao dizer “pedra de tropeço e rocha que causa a queda; porquanto, aqueles que não creem tropeçam na Palavra, por serem desobedientes, todavia, para isso também foram destinados.”

Minha interpretação é de que os acontecimentos ruins que nos fazem tropeçar precisam ser utilizados como ferramenta de elevação. A sua “destinação” – e aqui serve apenas como alegoria – é a pedagogia do caminho justo. O escândalo do trabalho escravo precisa servir de alavanca para uma profunda reflexão, e uma posterior transformação nas relações trabalhistas. Sabemos também que os casos de trabalho análogo à escravidão acontecem há muito tempo, e que muitas queixas já haviam acontecido, mas a imprensa e o MP nunca deram a devida importância. Não é novidade alguma o que aconteceu, mas o ambiente político pós era Bolsonaro, as declarações infelizes do vereador bolsonarista, a publicidade que foi dada acabaram produzindo a necessidade de enfrentar este caso de uma forma diferente. É preciso que a sociedade brasileira aproveite a oportunidade que o escândalo do trabalho escravo nos ofereceu, que ele venha a nos envergonhar, para que esta vexame seja a peça essencial para uma nova consciência.

Uma história parecida: Nos anos 70 os anestesistas eram escassos no Brasil. Era comum que um anestesista cuidasse de várias salas cirúrgicas ao mesmo tempo, ocupando-se de vários pacientes, dividindo sua atenção entre muitos teatros operatórios. Então aconteceu o acidente de Clara Nunes durante uma cirurgia, e este fato oportunizou – pela via da dor – um novo padrão de atenção, através do escândalo de uma morte que poderia ter sido evitada. Não se sabe com exatidão se esse foi o caso que ocorreu com a cantora, mas foi uma das versões que percorreram o noticiário da época. A solução surgiu a partir da vergonha, causada pela pedra de tropeço de uma tragédia. O Conselho Regional de Medicina da Bahia, informou que causa mortis apresentada no atestado de óbito da cantora foi “hipersensibilidade ao halotano”, gás administrado durante a cirurgia como anestésico. Pela avaliação da corporação os depoimentos apontaram que, tanto do ponto de vista técnico quanto humano, não houve falhas. Os médicos não teriam se ausentado, os equipamentos não falharam por falta de manutenção e a clínica São Vicente onde ocorreu o fato foi inocentada. De qualquer maneira, a partir dessa data, houve uma vigilância severa sobre a atuação dos profissionais em salas de cirurgia.

Nesta caso que agora nos espanta pela sua crueldade e violência protagonizada pelos empresários e por membros do Estado, é preciso ter uma visão prospectiva, que não pode se esgotar no punitivismo. Espero que a partir de agora a indignidade, a violência, o abuso, os maus tratos e o cerceamento da liberdade sejam vistos como crimes contra cada um de nós. Que sejamos atingidos pela vergonha de considerar cidadãos trabalhadores como sub-humanos, indignos de justo tratamento. Que tenhamos a sabedoria para fazer um bom uso desse lamentável acontecimento.

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