A questão do surto opiniático da sociedade contemporânea é equilibrar-se sobre a fina lâmina que separa a compulsão pelas opiniões e a mais improdutiva alienação. Colocar-se de forma equidistante entre estes dois polos é tarefa complexa e, invariavelmente, pendemos para um dos lados.
A palavra “caridade” tem origem no latim, “caritas” – significando um tipo de amor incondicional, que por seu turno deriva do grego “cháris”, que significa graça, a mesma origem de “caro”, ou seja, aquilo que possui valor.
Como tive uma formação espírita escutei muitas vezes a frase de Kardec que exaltava assim a caridade: “Fora da caridade não há salvação“. Esta é uma das frases mais icônicas do espiritismo, mas acredito ser importante entendê-la em seu contexto; é preciso colocar a sentença do pedagogo francês em seu tempo e sua circunstância histórica.
Um dos axiomas mais celebrados pelos estudiosos da Igreja é “fora da Igreja não há salvação”, ou seja, “extra Ecclesiam nulla salus“, que se pode encontrar nas manifestações de vários Padres e teólogos medievais, modernos e contemporâneos. O próprio magistério da Igreja já a usou inúmeras vezes e em contextos distintos.
Desta forma, a expressão usada por Kardec pretendia fazer um contraponto à expressão “Fora da Igreja não há salvação”, a qual estabelece que a condição precípua e inescapável para a salvação do espírito após a morte seria a crença em Jesus como seu salvador e sua fidelidade à Igreja fundada por Pedro. Para salvar-se do Inferno era fundamental aderir a Cristo. Assim, Kardec tão somente retirou a primazia da fé e colocou na prática da fraternidade o caminho indispensável para a evolução – já que “salvação” é um conceito desprezado pelo espiritismo. Nesse contexto, Kardec se contrapunha à Igreja e sua exclusividade salvacionista.
Também se faz necessário compreender que a “caridade” como nós a concebemos hoje é a ajuda aos mais necessitados, aos famintos, aos descamisados e destituídos, aos pobres, miseráveis e marginais, todos aqueles que surgem como resultado da aplicação dos modelos econômicos excludentes que se baseiam na estrutura das classes sociais, desde o feudalismo, passando pela aristocracia e desembocando no capitalismo, todos eles sistemas econômico-sociais que se sustentam na exploração do trabalho, criando classes distintas de oprimidos e proprietários, onde a miséria e o desemprego são peças essenciais para o funcionamento da máquina.
A caridade seria a válvula de escape das tensões sociais, uma forma sutil de apaziguamento das culpas derivadas da pobreza instituída pelo modelo de divisão das riquezas do planeta. Quando a simples caridade realizada como propaganda – a entrega de pequenas quantidades de valor para os despossuídos – não é suficiente, a ação das forças de repressão se faz necessária. Assim, a caridade é o espelho da desigualdade social; onde existe caridade prolifera a injustiça, a exploração e a opressão sobre enormes contingentes da população. Caridade é a humilhação que o pobre aceita em nome da sobrevivência – própria e dos seus.
Sociedades desenvolvidas não admitem a caridade, já que ela sempre sinaliza desequilíbrio. “A suprema caridade é o desaparecimento de toda e qualquer ação caridosa“. Todavia, se quisermos entender a caridade como “expressão da fraternidade”, poderemos incorporá-la, já que a fraternidade nada mais é do que a forma mais elevada e desenvolvida de relação entre os homens.
Eu as vezes leio artigos escritos por jornalistas, escritores, acadêmicos e simples escrevinhadores como eu e me surpreendo com a qualidade da escrita, seja pelo estilo, pela organização das ideias, pela capacidade de síntese, pela clareza, pela profundidade, pela relevância e pela erudição. Sou possuído pela sensação bastante comum de “puxa, gostaria de escrever assim!“.
Eu não aprendi a escrever direito, mas depois de passar 25 anos escrevendo num ritmo diário eu cheguei à conclusão que a única forma consistente de aprender esse ofício e essa arte é… escrever sempre, verter a vida em letras, condensar as ideias em tinta, massacrar o papel com os sulcos do pensamentos.
Como em muitas outras áreas, o exercício da escrita se faz na experiência diária da transmutação das ideias embaralhadas, na revivescência de lembranças enoveladas e nas propostas misturadas para a linearidade do texto, permitindo ao leitor que capte o fio do seu pensar e o utilize como assim o desejar.
Se pudesse dar a mim mesmo um conselho diria para ter escrito minhas histórias desde a adolescência, porque isso teria sido muito mais útil do que se pode imaginar.
Claro que é possível separá-las, e assim o fazemos cotidianamente, basta ver a forma distinta como nós analisamos as falhas e defeitos de nossos ídolos. Nossa indignação é seletiva; não é justa, isenta ou desprovida de paixões.
Criamos uma enorme celeuma com o caso Pelé-Sandra, e o simples fato de ter sido tão explorado deveria nos ensinar algo. Por outro lado, também há mulheres e homens que realizaram grandes obras em favor da humanidade cujas vidas privadas foram repletas de problemas éticos extremamente graves. Nossa capacidade de exaltar alguns defeitos e esquecer outros nos mostra que, para o nosso juízo, mais importante que o delito é o sujeito que o comete, e isso expõe o quanto estes problemas alheios se relacionam com as nossas questões pessoais. Ao mesmo tempo que vejo justiceiros atacando o Rei do Futebol nunca vi ninguém atacando a memória de Simone de Beauvoir – ícone feminista – por suas ligações com a pedofilia e outras práticas condenáveis (como seduzir suas alunas). Também nunca vi alguém cancelando Marie Curie – grande mulher cientista – pelo caso amoroso que teve, já viúva, com seu auxiliar de laboratório, homem mais jovem e casado, fato que levou à dissolução do seu casamento. Apesar de ser muito maltratada pela sociedade parisiense em sua época, este fato hoje em dia é quase desconhecido, eclipsado pelos seus dois prêmios Nobel em duas áreas distintas. Também não vejo ataques sistemáticos a Rachel de Queiroz por ter sido uma árdua defensora da ditadura militar que massacrou o Brasil por duas décadas. Leiam sobre o genial poeta Pablo Neruda e vejam como foi sua terrível relação com a parentalidade.
Poderia passar horas citando outros personagens cujos erros receberam um claro perdão, comparando esse tratamento com as fogueiras montadas para outros, cujos crimes foram iguais ou até de menor importância e consequência. Assim, parece claro que oferecemos o benefício do esquecimento aos erros de alguns, enquanto tentamos nos lembrar diariamente dos defeitos de outros.
E vejam: tenho convicção de que os erros dessas personagens são do seu tempo, falhas humanas, e isso não diminui a importância e o valor de suas obras para a sociologia, a ciência e a literatura, produções essenciais para toda a humanidade.
E porque fazemos essa análise enviesada, com pesos e medidas diferentes para delitos semelhantes?
Agimos assim porque alguns “defeitos” observados nos outros não são suportáveis, e alguns são mesmo inconfessáveis. Por exemplo: ser um Deus negro em um país que nunca cortou plenamente os laços com o racismo. Também o crime de ser homem numa sociedade pós moderna que condena a masculinidade, tratando-a como “tóxica”, e que julga com estrema severidade um ídolo por não amar sua filha da forma como nós exigimos que esse amor se estabeleça.
Sabemos que o capitalismo e sua estrutura de classes precisa de um exército de homens que se submetam docilmente a um sistema injusto e abusivo. Por esta razão, causa desconforto vermos um homem negro ser a figura mais emblemática do povo brasileiro. Isso fere nossas aspirações de “nação branca” e escancara nossa origem mestiça.
Pelé cometeu erros humanos, mas que tocam na ferida exposta de muitas pessoas em sua relação com a figura paterna. Por isso, pela projeção que fazem da relação de Pelé com esta filha, colocam Pelé como o “paradigma do pai ausente”, nem que para isso precisem comprar uma história maniqueísta, cheia de furos e lapsos, demonizando o jogador e colocando sua filha e genro num pedestal. Toda narrativa assim construida tem como objetivo moldar a história para criar vilões e mocinhos, sem contradições, sem nuances, sem complexidades, apenas o confronto entre o “bem” e o “mal”, a vítima e o algoz.
Aceitar a falibilidade humana – o que inclui a história dos nossos heróis – é importante para humanizar tais personagens. Além disso, fazer linchamento morais de alguns e passar pano para outros apenas demonstra que sob as capas de erros e virtudes que todos nós carregamos existem essências que nos incomodam e agridem, enquanto outras nos causam empatia e compaixão. Não são os erros, mas quem os comete. Alguns sujeitos podem errar; outros não tem o direito às falhas humanas. Nosso julgamento – condescendente ou inexorável – diz muito mais de nós do que dos pecadores sobre quem jogamos as pedras.
Quantos monstros morreram sem ter sua monstruosidade descoberta? Quantos degenerados são ainda hoje reverenciados apenas porque suas maldades foram eficientemente escondidas? Quantos perversos são estátuas, nomes de rua e retratos nas paredes dos parlamentos, apenas porque seus seguidores não permitiram que suas perversões e crueldades fossem expostas publicamente?
Quantos de nós já se espantaram ao conhecer a verdadeira essência cruel de alguém que outrora achávamos perfeito e impoluto? E quantos tiveram a oportunidade de olhar a alma do criminoso embrutecido e colher dali, dentre tantas tragédias e dores, sensibilidade e virtude?
Ainda assim, quantos heróis anônimos mudaram o curso da humanidade inteira sem que jamais tivessem seus nomes conhecidos? Quantas mulheres e homens comuns morreram sem terem recebido o reconhecimento pelo seu valor enquanto monstros da pior espécie são tratados por nós, mesmo na atualidade, como heróis e até santos?
A notoriedade nos faz destacar da multidão, e por essa posição muitos de nós pagam qualquer quantia. Entretanto, a idolatria a estes personagens é sempre arriscada; nunca sabemos o que há por detrás da máscara pública que esconde a essência do verdadeiro sujeito.
Na foto um policial multa uma banhista em uma praia da Itália em 1957.
Há algum tempo li nas redes sociais os ataques a um músico, um garoto de 20 anos, negro e de periferia, que ganhava a vida compondo músicas de funk. Depois que ficou famoso, e passou a ter notoriedade e dinheiro, descobriram em seu twitter várias manifestações questionáveis.
Eram piadas inocentes, apesar de serem claramente homofóbicas e misóginas, cheias de deboche e humor adolescente. Por causa disso, ele passou a ser duramente atacado pelos identitários e suas patrulhas morais de cancelamento. Continuei a leitura e li que as manifestações eram antigas, feitas ao redor de 6 anos antes da data do cancelamento.
Ou seja, ele escreveu os posts (brincadeiras de mau gosto) quando não tinha mais que 14 anos de idade, o que explicava o tipo de humor infantil utilizado. Fiquei lembrando das coisas tolas e até desrespeitosas (para os padrões atuais) que eu dizia na infância e as piadas que eu contava aos 14 anos de idade e me dei conta do quão violentas e brutais são essas patrulhas.
Imediatamente me veio à mente as patrulhas de costumes do Irã e as polícias que multavam mulheres pela ousadia dos seus biquínis em meados dos anos 50 do século passado. Qual das ofensas é mais perigosa: a nudez do corpo ou aquela da alma?
Punir um garoto recém entrando na vida adulta por piadas bobas que contou durante a puberdade é a suprema injustiça. Mais ainda… quantas dessas pessoas de dedos apontados também não foram preconceituosos nessa fase da vida?
Quando é que vamos superar este tipo de controle moralista, reacionário e religioso sobre o comportamento? Não existe nada de progressista nesse retrocesso das relações, e muito menos humanista e de esquerda.
No meu pensamento se contorcem no mínimo 5 assuntos sobre os quais gostaria de escrever. Gritam, choram, clamam por liberdade. Agora mesmo, na minha cabeça, se agitam sem descanso e a cada volta se multiplicam, mostram suas outras faces, se transmutam. Incansáveis buscam serem ouvidos e transcritos, antes que a amnésia inexorável os transforme em poeira de reminiscências. Apesar do barulho ensurdecedor que fazem eles são todos…
…. um punhado de temas proibidos. Prometi para mim mesmo que não falaria publicamente sobre esses assuntos sem a intermediação de uma xícara de café e conversaria tão somente com sujeitos cujos ouvidos sejam fortes o suficiente para suportar verdades inconvenientes e perspectivas impopulares.
Tenho umas 20 histórias que não podem ser contadas, crônicas proibidas, novelas inteiras interditadas, contos censurados, pois envolvem pessoas ainda vivas, que poderiam ficar profundamente magoadas e invadidas. Respeitosamente guardarei todas essas histórias para o túmulo, e passarei horas deliciosas contando-as para os vermes enquanto eles alegremente consomem minha carne
A idade nos oferece alguns presentes um pouco desagradáveis como dores nas juntas, a queda dos cabelos, um estômago mais sensível e uma memória que a cada dia se torna mais apagada. Por outro lado, a maturidade nos ensina – pela pedagogia das múltiplas quedas – a não julgar o semelhante com tanto fervor. O tempo de vida recomenda duas coisas: não jogar pedras por erros que você mesmo poderia ter cometido e não sofrer por ser o último a sair do avião.
A ideia muito disseminada em anos passados que tratava o “corpo como embalagem do cérebro” foi uma tese contestada pelo movimento feminista nascente, através de um grupo de mulheres americanas dos arredores de Boston que escreveu um livreto chamado “Women and their bodies”, no ano de 1969. Já em 1970 esta pequena publicação se transformou em um livro que é considerado a Bíblia do moderno feminismo americano, chamado “Our bodies, our selves” – “Nossos corpos, nós mesmas” – que no ano 2020 completou 50 anos da primeira edição e vendeu mais de 4 milhões de exemplares em suas inúmeras edições posteriores.
A principal reivindicação dessa publicação é a conquista da autonomia dos corpos femininos, o direito à beleza e ao prazer e o reconhecimento dos direitos reprodutivos e sexuais femininos. Entre as primeiras editoras estava a jornalista e autora feminista Gloria Steinem. A tese do corpo como mera “embalagem” do espirito sempre foi por elas firmemente contestada. Ou seja, sua visão era “nossos corpos somos nós mesmas”…
Lembrei disso hoje porque minha amiga Robbie participou como articulista em uma dessas edições e porque a falecida atriz Carrie Fisher (Star Wars), quando lhe comentavam que ela havia envelhecido, respondia dizendo que seu corpo era uma “mera embalagem do seu cérebro”.
Pelé e Alcindo Marta de Freitas na inauguração do Colosso da Lagoa – Erechim, em 2 de setembro de 1970. Grêmio 0 x 2 Santos.
… e todos que dizem isso revelam inexoravelmente a idade. Porém, só quem foi menino e jogou bola nos anos 60 e 70 pode entender a verdadeira dimensão desse acontecimento. Sendo gaúcho, e vivendo numa época em que as transmissões de TV eram precárias, isso significa que você teve a rara oportunidade de testemunhar a presença de um Deus.
Um fenômeno como Pelé não existe mais na atualidade, não na dimensão que ocorreu com Sua Majestade. O fenômeno Pelé só poderia acontecer em uma época anterior ao futebol moderno, quando o jogo ainda se confundia com a arte e o balé, quando os jogadores eram pessoas comuns, gente como todos nós, e não milionários exibicionistas que ganham mais com publicidade do que com a arte dos seus pés. Pelé surge como a “grande esperança negra”, o menino pobre, preto, filho de dona Celeste – uma lavadeira – e seu pai “Dondinho” – um jogador de pouco brilho. Era um Brasil que recém acordava como nação, emergindo do grande trauma do “maracanazo“. Pelé mudou a história desse país, tornou-se menino prodígio em 1958 na Suécia, passou a ídolo e de ídolo para “Rei do Futebol” antes de completar 25 anos. Depois disso ainda foi considerado como o maior esportista de todos os esportes no século XX.
Hoje em dia está cheio de torcedor Nutella que chama jogadores absolutamente comuns de “craque”. Nunca houve nada semelhante a Pelé. Pelé parou uma guerra. Pelé expulsou um juiz de campo. Pelé fez mais de 1000 gols na carreira e levantou 3 copas do mundo em 12 anos. Pelé foi o gênio maior da bola. Eu me sinto feliz por ter sido contemporâneo desse monstro sagrado do futebol e, ainda menino, ter assistido o Rei jogar no Estádio Olímpico.
Tamanha foi sua fama que quando o Santos vinha jogar em alguma cidade – e naquela época eram comuns as excursões de clubes ao exterior – as pessoas iam ao estádio somente para ver Pelé, marcar a presença desse talento em suas retinas, torcer e vibrar por ele. Até eu mesmo fui ver Pelé no Estádio do Grêmio (o Imortal) e meu olhar esteve o tempo todo sobre ele; sua desenvoltura em campo era mais importante que a vitória da minha equipe. Ele era um personagem maior do que o próprio futebol.
Com a morte de Pelé se vai essa mística, que não existe em nenhum outro jogador da atualidade. Morre junto com o Rei o menino que havia em mim e que se encantou com o Deus do futebol.
Nesta foto abaixo é do jogo que eu vi Pelé jogar ao vivo, no Estádio Olímpico de Porto Alegre. Se a foto tivesse resolução adequada eu poderia ser visto na social do velho estádio tricolor, ao lado da cintura do craque Atílio Genaro Ancheta. Siga em paz, Pelé.
Grêmio x Santos, na última partida de Pelé no Estádio Olímpico, 27 janeiro 1974. Na foto, Pelé e Ancheta. Gremio 1 x 0 Santos, gol de Carlinhos.