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Whistleblower

A “whistleblower” do Facebook nada mais é que mais uma dessas figuras patéticas do século XXI que fazem sucesso por apoiar censura em nome da “proteção das adolescentes”. Que a mão pesada da democracia seja dura com você. Eu pergunto: quando é que vamos ultrapassar essa fase absurda de proteger com autoritarismo e censura os sentimentos feridos de adolescentes feitos de açúcar?

E aqui no Brasil a esquerda está LOTADA de gente que acha a censura algo tipo… “veja bem, eu sou contra, mas você tem que entender que nos tempos de hoje, por favor, acredite, sou contra censurar, mas as fake news, precisamos fazer algo”.

Estamos deixando que algo que era padrão OURO nas reivindicações da minha juventude – a liberdade de expressão, e inclusive a liberdade de ser ofensivo e mal educado – seja colocado debaixo do tapete em nome dos sentimentos de uma geração floco de neve.

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Aprendi isso a duras penas quando há 10 anos comecei a criticar um certo grupo de direitistas infiltrados na esquerda. Tomei pedrada e fui queimado vivo pelos reacionários das mais variadas cores e gostos. Mas garanto que isso é libertador. Fazer o papel de agradar seu “eleitorado”, escravizando-se à sua visão de mundo e dançando a música que eles tocam é uma prisão insuportável.

Não reclamo dos meus múltiplos cancelamentos. Tenho a certeza que estas pessoas estão bem melhor sem a minha presença incômoda e eu me sinto muito mais livre sem seu catecismo e suas imposições.

Saravá!!

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Epitáfio

Existem temas e grupos que a gente risca da vida por causa de múltiplas decepções. Mas, por certo que muitas vezes estas pessoas também se decepcionaram conosco. Durante a vida me divorciei de vários amores; algumas foram separações suaves, outras dramáticas e que produziram ressentimento. Hoje consigo olhar estas rupturas com a serenidade que a idade proporciona, mas todas elas geraram a seu tempo a dor que as projeções determinam. Como vou me despedir dentro de alguns anos, quero deixar claro que não carrego nenhuma mágoa dos amores que deixei.

Sigam em paz….

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Política, para que política?

Quando digo que parto humanizado é uma questão política muitos torcem o nariz e dizem que esta proposta será vitoriosa pela avalanche de evidências científicas confirmando nossas teses sobre a autonomia e a visão transdisciplinar desse evento. Essa teleologia me parece tola. Eu acho que acreditar na ciência como guia das ações humanas é basicamente uma postura…. anti científica.

Minha resposta a este positivismo ingênuo é mostrando que as episiotomias – cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental – possuem evidências que comprovam sua ineficiência quando usadas de rotina há mais de 30 anos. Três décadas de provas contundentes, e mesmo assim continua sendo praticada no mundo inteiro. Por este exemplo simplório fica fácil entender que a verdade dos fatos não é suficiente para nos afastar de um preconceito, em especial quando ele nos beneficia.

A homossexualidade deixou de ser considerada doença há poucas décadas, e sua saída do DSM foi celebrada por muitos. Por acaso alguma evidência científica nos mostrou esse erro? Qual o exame clínico deixou clara a inexistência do “homossexualismo”? Ou foram as pressões políticas nesse sentido que produziram a mudança? Vou além: qual a evidência científica seria necessária para liberar o aborto ou para uma aceitação mais científica do parto extra-hospitalar?

A superioridade comprovada – em termos de morbimortalidade materna e neonatal – do parto normal sobre a cesariana é conhecida de todos os profissionais do nascimento. Todavia, a taxa de cesarianas na classe média brasileira é da ordem de 85%, exatamente no segmento mais esclarecido da população. As evidências e provas não produzem nenhuma pressão no sentido de diminuir este abuso.

Ora… nenhuma evidência será suficiente para quem se nega a aceitar as mudanças que ela propõe. Por acaso Galileu foi perseguido por ter poucas provas de suas ideias ou, ao contrário, por tê-las em demasia – o que obrigaria a uma mudança radical no paradigma medieval geocêntrico?

Assim, apesar de reconhecer a importância das pesquisas eu percebo que elas são o SUPORTE das mudanças sociais, a base para produzir sedimentação, mas jamais sua ponta de lança. Para que estas modificações ocorram, é necessário uma ação política coordenada, para assim produzir transformações significativas e duradouras. Por outro lado, esta ação só vai ocorrer quando existir adequado amadurecimento de conceitos e propostas.

Parir é um ato político.
Sexo é um gesto político
Nascer, viver, amar e morrer … também.

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Jumanji

É

curioso que, quando se trata de defender a liberdade, a extrema esquerda e a extrema direita se aproximam. Quem aceita escamotear as liberdades em nome de uma pretensa proteção de certos grupos são os direitistas e os liberais, exatamente o solo fértil que permite o identitarismo florescer.

Exemplo de proximidade das extremas: a liberdade de ser ofensivo.

Triste, mas ainda assim é muito engraçado. A esquerda liberal americana agora usa como mote para as massas: Trust science = shut up and obey.

Isto é: a direita é que se coloca como revolucionária e anti sistema, enquanto a esquerda aceita passivamente as vozes de autoridade. Não admira que esta esquerda esteja perdendo jovens para a perspectiva da direita, que oferece a oportunidade de enfrentamento – e mudança – da ordem estabelecida e com um discurso muito mais “propositivo”. A pandemia – e o medo – nos tornou acomodados, passivos espectadores da festa da BigPharma e das atitudes opressivas e autoritárias.

Eu não deveria me surpreender, mas quem está namorando com a ideia da censura agora é a esquerda. Afinal, “as fake news podem causar danos incalculáveis”. Vejo isso e sinto calafrios, e acho engraçado porque para mim é inevitável que apareçam algumas analogias assustadoras. Apelem para a memória e recordem que inúmeras histórias de aventura juvenil começam com esse “plot” – ao estilo Jumanji, A Múmia, Indiana Jones, Superman (zona fantasma!!), Jungle Cruise e uns 50 outros que me vem à lembrança.

A trama é simples: garotos de bom coração, movidos pela ingenuidade ou por pura curiosidade, abrem uma caixa, um jogo, uma porta, uma tumba, entram numa casa abandonada, esfregam uma lamparina ou qualquer outra atitude banal. Imediatamente, esta ação desperta o terrível mal que estava adormecido há séculos, às vezes milênios, que volta para espalhar horror e vingança. O resto do filme se resume à tarefa de botar o monstro de volta no lugar de onde escapou.

Colocamos a censura dentro da caixa após a ditadura brutal e assassina de 1964. Achamos que estávamos seguros e havíamos aprendido com o terror e as mortes. Pura ingenuidade. Como no filme Jumanji, a caixa agora faz “tum-tum, tum-tum, tum-tum”, batendo como um coração ansioso e apressado.

Agora, depois de uma chuva de mentiras e falsidades que mudaram o rumo das eleições aqui, nos Estados Unidos e em outros países, colocando idiotas, psicopatas e autoritários no poder, estamos de novo pensando em soltar o monstro da censura de dentro de sua cela. A justificativa é boa: não podemos permitir que “mentiras circulem livremente”. Ora… em 1964 a justificativa era a mesma, e aposto que feita de bom coração. Para eles, a “mentira do comunismo” deveria parar de transitar na mente dos jovens.

Fico com essa curiosidade: quem será a Solange Hernandez (madrinha da censura nos anos 60-70) do século XXI para decidir o que é – ou não – mentira? Quando a censura poderá ser usada? Quem serão os notáveis a decidir? Serão eleitos ou deixaremos os CEOs do Facebook escolherem por nós? Suas escolhas serão livres (ra ra ra) ou moduladas pelos interesses das empresas que os financiam? Quem controlará os “fact checkers”?

“Ah, mas agora os tempos são outros. As fake news podem matar milhares de pessoas no mundo todo”. Pois eu afirmo que a falta de debate e criminalização do contraditório, onde “verdades científicas” passam a ser tratadas como dogmas religiosos, tem a potencialidade de matar muito mais. Aceitar mordaças na área da ciência é atacar a estrutura central que a sustenta.

Nos filmes de aventura a libertação do monstro ocorre nos primeiros 10 minutos; todo o resto da película é gasto na sua difícil captura. Se aceitarmos a censura mais uma vez achando que ela vai nos ajudar, podem ter certeza que teremos de novo duas décadas tentando colocá-la de novo na prisão, de onde não deveria jamais ter saído, por melhores que sejam – ontem e hoje – as razões para soltá-la.

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A los que Luchan

O sistema de patrulha que existe hoje em dia, mormente nas redes sociais, impede (ou dificulta) que as pessoas se posicionem de forma contra hegemônica em alguns temas sensíveis. Isso produz uma espécie de duplicidade retórica, onde o sujeito guarda suas crenças pessoais, porém sua opinião expressa é uma “mentira pública”. Nesse modelo o sujeito diz para você em uma conversa privada: “Sim, eu concordo com você, mas é óbvio que eu não podia falar isso publicamente, pois você conhece aquele pessoal: eles fariam pedacinhos de mim”.

Mais curioso ainda é quando algumas pessoas ficam tão conectadas com essa sua face pública que passam a tratá-la como verdade, mesmo que no íntimo saibam que se trata de algo contrário às suas crenças mais íntimas e mais profundas. Chegam a defender ardentemente algo que discordam e até mesmo desprezam, como os sofistas, tendo como pagamento a aprovação das pessoas que encontram em suas palavras aconchego e esperança. Mentem descaradamente por terem se viciado na aprovação da qual, por fim, se tornam dependentes. As vezes, ao testemunhar as manifestações emocionadas e veementes de alguns sujeitos, fico pensando: “Será mesmo que essa pessoa acredita no que afirma? Ou estará ela apenas aceitando a submissão a um ordenamento social que, caso rompesse, sabe de antemão que não suportaria?”

Muito dessa relação dissimulada com seus próprios valores eu vi na política, nos partidos e nas amizades, mas também no trabalho com o parto humanizado. Testemunhei dezenas de colegas que se aproximaram de mim em inúmeras ocasiões dizendo: “Acho que o que você está fazendo é correto. Não há como aceitar a barbárie imposta à mulheres no momento do parto e nascimento. Eu concordo com sua perspectiva, mas você há de entender a minha situação”. A partir daí falavam das pressões dos colegas, das dificuldades locais, das chefias médicas, do diretor do hospital, da família e da fé pública que tanto prezavam, e que é, em verdade, o maior patrimônio de qualquer profissional. “Eu realmente gostaria de trabalhar guiado por tais perspectivas, mas veja…. não há como”. E como se poderia culpar alguém que percebe o tamanho do gigante que lhe faz sombra? Nem todos tem vocação para Davi, e muito menos para Kamikaze. É compreensível que as pessoas queiram exercer seu ofício sem ameaças, sem violências, sem perseguições e sem ter uma espada apontada diuturnamente contra seu peito.

Em tempos de linchamento virtual, em especial pelos guardiões do politicamente correto, é compreensível que alguns se calem e contem suas verdades apenas entre devaneios – ou no obscuro cenário das alcovas. Entretanto, como diria Bertold Brecht, há que reverenciar aqueles que diante das balas no Pelotão de Fuzilamento das redes sociais abrem a camisa e gritam: “Que venham as balas, pois minha integridade e consciência são superiores à própria vida”.

À “los que luchan”, minha reverência…

Hay hombres que luchan un dia y son buenos;
Hay otros que luchan un año y son mejores;
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos;
Pero hay los que luchan toda la vida,
Esos son los imprescindibles.
(Bertold Brecht)

Abaixo, Mercedes Sosa declamando esta estrofe de Brech na música Sueño con Serpientes de Silvio Rodriguez

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Pensamentos mal humorados

Insistir na proposta neoliberal, o mesmo modelo fracassado que falhou em todos os lugares nos quais foi implantado (vide Chile), é aceitar a opressão de milhões em nome de uma fantasia.

É curioso como os espíritas têm – quase sempre – uma postura reformista relacionada ao capitalismo. Quase todos acreditam que a “evolução espiritual fará o sujeito menos egoísta e mais caridoso”. Ou como me diziam muitos, “Não importa o sistema; qualquer um será bom ou ruim, dependendo da pureza da alma das pessoas”. Segundo me dizia um ex-amigo “No futuro os empresários se negarão a explorar as pessoas porque terão Jesus no coração”. A ideia que perpassa é a de que o capitalismo, quando bem administrado, subverteria sua própria essência – o capital – e se tornaria humanista.

Nada pode ser mais ingênuo do que isso. Aguardar que a justiça social seja oferecida graciosamente pelos opressores é um absurdo tão gigantesco quando imaginar que na história do mundo alguma liberdade foi alcançada por “dádiva” – e não for luta e sacrifício. Já a caridade, para os espíritas, significa distribuição de rancho e roupinha para pobre; sopão e festa de Natal para criança. Em outras palavras, alívio das culpas acumuladas pela vida burguesa”, exatamente a mesma prática dos empresários picaretas e selvagens, ou das senhoras da alta sociedade que fazem chazinho beneficente para auxiliar a enfermaria de pediatria da Santa Casa.”

A caridade espírita é cristã: ou seja, visa manter a pobreza para que a caridade e os caridosos continuem necessários e exaltados. Nossa caridade é um dos braços mais poderosos para a manutenção da miséria. Por isso as instituições internacionais ajudam tanto os identitários: para manter a sociedade dividida e manipulada, ávida por ajuda que caia do céu.

Estou farto dessa caridade dos caridosos. O mundo não precisa dessa esmola, dessas migalhas. Precisamos de justiça social, equidade, respeito à natureza e o fim do capitalismo. Ou como diria HOJE Alan Kardec “Fora da justiça social não há salvação”. Não é?

O Terceiro setor – as ONGs e similares – são a representação inequívoca da falência do Estado. Tapadores de buracos. Participei de várias a vida inteira, e com orgulho – especialmente da ReHuNa – mas sempre soube que nossa existência era a imagem perfeita da incompetência do Estado para realizar estas funções. Eu gostaria que a ReHuNa deixasse de existir, por ser desnecessária. Os colegas que ainda estão lá, entretanto, serão necessários ainda por um bom tempo.

Quando ouço falar de “Hospital de Caridade” me dá calafrios. O mesmo mal-estar que eu sentia ao ouvir o nome completo da Santa Casa: “Santa Casa de Misericórdia” que deixava claro que você só estava sendo atendido lá porque alguém teve pena de você, e não por ser seu direito constitucional à saúde. Eu pergunto: desde quando cidadão precisa “caridade”??? Saúde não se ganha, se conquista através de políticas públicas. Filantropia é um remédio amargo e indigesto, cuja finalidade é manter um sistema injusto e cruel através da dominação e dependência. Qualquer país minimamente decente acabaria com todos os sistemas de filantropia interna.

Quem assumir em 2022 receberá um país dividido, em frangalhos, com a infraestrutura destruída por Moro e depois complementada por Bolsonaro/Guedes, sem emprego, sem estatais para alavancar o desenvolvimento, com teto de gastos e ainda controlado por uma elite financeira exploradora e uma burguesia de rapina, as mesmas que escondem dinheiro no exterior.

Nunca houve ‘taxação justa’ do setor produtivo, muito menos agora onde a sonegação bate recordes.

É preciso subjugar as forças armadas golpistas, exterminando o padrão reacionário que existe em seu seio tal como bem conhecemos. É preciso punir os militares assassinos e corruptos, como o comandante dos massacres do Haiti. Sem o fim do “partido militar” e de seus militantes nunca avançaremos. Precisamos fazer o resgate da história, corrigindo o erro da “transição pós 64”. Sem isso teremos nova crise militar em poucos anos.

É preciso acabar com a classe burguesa no poder. Esse é um projeto de décadas, mas o único onde é possível vislumbrar um futuro possível. O fim do capitalismo é a única esperança de continuidade da espécie humana. As pandemias em sequência e o colapso do sistema capitalista são avisos claros de que esse sistema de dominação e opressão não tem mais força para manter este planeta.

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Querer e deixar de querer

Não pode simplesmente uma vela apagar porque o pavio terminou, sem que alguém precise soprá-la?

Encontrei essa frase, dita por alguém muito jovem, e achei que merecia um comentário, exatamente porque acredito que muitas vezes os elogios que os homens fazem às mulheres são, em verdade, ofensas…

Essa concepção de relacionamento parte de uma visão ingênua, para dizer o mínimo: os relacionamentos acabam porque os homens não agradaram adequadamente as suas mulheres. Pois eu pergunto: por que não poderiam acabar porque uma mulher não tratou bem seu homem? Ou por que não poderia uma mulher tratada como uma princesa pelo seu parceiro simplesmente encher o saco do “grude” que está com ela? E, mais importante ainda, por que precisamos encontrar razões racionais para explicar algo profundamente inserido nos estratos inferiores da mente, e que não tem e nem precisa uma explicação racional – como o amor, a paixão e o desejo?

Um homem NUNCA perde uma mulher para outro?” Sério? E os dois milhões de casos que me vem à mente justo agora foram todos culpa dos homens? Nenhuma mulher falhou ou falha nesse terreno? Todas são perfeitas e o sucesso ou o fracasso depende exclusivamente do esforço masculino? Ou mais ainda…. precisa alguém “falhar” para que um relacionamento termine? Não pode simplesmente uma vela apagar porque o pavio terminou, sem que alguém precise soprá-la?

Come on…. a frase foi feita por um adolescente. É biscoiteira até a raiz. Parte da idealização das mulheres, como seres perfeitos, e que o fracasso das relações só pode ser debitado na conta do homem malvadão que “deixou a desejar”. Essa concepção, repito, é ofensiva com as mulheres, porque as coloca à reboque das ações masculinas. Elas não têm desejo, apenas respondem ao que recebem do seu parceiro. Assim, ela são seres reativos, passíveis e moldáveis, adaptando-se à boa ou má conduta que a elas é oferecida. Não sobra espaço para que elas simplesmente desejem ou deixem de desejar, pois que apenas respondem às ações masculinas, únicas condutoras do processo.

Se eu fosse mulher ficaria ofendida. E gritaria: “Os relacionamento podem acabar também porque, apesar do príncipe maravilhoso, lindo, gentil, atencioso e nobre que está comigo, eu simplesmente não quero mais, mesmo que nenhuma culpa possa ser atribuída a ele. Em verdade, deixei de querê-lo, e minha vontade e o meu desejo contam”.

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Observações a partir de um texto de Zizek

Observações pessoais, sujeitas à críticas:

Sim, a ideia (ou o clichê) de que “Freud está ultrapassado” é muito comum em alguns grupos. Algumas feministas ficam enfurecidas quando o mestre austríaco é citado em qualquer contexto. Muitas vezes li e ouvi de forma bem clara que a queixa contra Freud ultrapassava suas concepções sobre a mulher e o feminino, e invadia a própria essência da mensagem freudiana, ou seja, a existência de uma dimensão do inconsciente. Nestes momentos eu vejo claramente a imagem do discurso pré freudiano, onde a negação do inconsciente leva a uma arrogância racionalista.

Eu também acho pura arrogância a ideia de ser “fiel a si mesmo”, no sentido de obedecer as suas vontades e desejos. Via de regra ignoramos por completo o que verdadeiramente desejamos. Quando eu vejo relatos de pessoas sobre o que são, como pensam, seus valores, suas virtudes eu chamo de “síndrome de pocanálise”, pois os relatos nunca falam da verdade do sujeito, que lhe é interditada. Por isso precisamos de Freud mais do que nunca. O mundo não vai ultrapassar Freud até que surja algo tão revolucionário quanto sua obra para compreender a alma humana, o inconsciente e a sexualidade.

A ideia do jogo, da ficção, sempre foi uma estratégia que usei em consultas, baseada no fato de que pedir que alguém fale (a verdade) sobre si mesmo é ingênuo e inútil, e produz apenas alegorias, fantasias e auto enganos. Assim, eu pedia para que os pacientes descrevessem os outros, seus amores e seus desafetos, ou pedia que vestissem uma máscara qualquer, ao estilo “no lugar dele, o que você faria”, e escutava atentamente o paciente descrevendo seu personagem como em um jogo de RPG. Somente nesses momentos era possível que alguma verdade surgisse, desviando do retrato enganoso que sempre fazemos de nós mesmos.

Concordo que a repressão do desejo leva ao desejo da repressão. Essa característica fica muito fácil de ser percebida no proibicionismo. Pode ter certeza que aqueles que mais querem punir, castigar e proibir são os que mais sofrem pela repressão de seus desejos. Vemos isso com facilidade na legião de fascistas que querem a repressão a todo custo, que desejam prender o Lula, fechar o STF, diminuir a idade penal, a volta da ditadura, prisão, encarceramento, pena de morte ou que apoiam linchamentos de toda sorte. Estes, que tanto querem proibir e punir, são os que mais se martirizam como o bloqueio da expressão de seus desejos.

Por certo que todo o jogo da sexualidade está em jogar com os obstáculos. O segredo do desejo é a proibição, e por isso tanto desconforto ou desinteresse na sexualidade ocorre na medida em que os seus obstáculos desaparecem ou são suprimidos pela cultura. No filme “O Piano” de Jane Campion, aparece a bela metáfora do “furo na meia” que, ao meu ver, simboliza o gozo de brincar de driblar os obstáculos. Por isso eu gosto tanto do pudor: ele é exatamente essa proibição, esse bloqueio, o muro, que produz a vontade constante de brincar com os véus que se interpõem entre nós e o objeto de desejo.

Uma vez reclamei da facilitação que pais faziam para o exercício da atividade sexual de seus filhos adolescente. Fui atacado exatamente por entender que nenhuma sexualidade madura vai se estabelecer sem que ela esteja associada à suplantação de barreiras e muros – quanto mais alto mais será a significativa a conquista. Há ajudas que são profundamente destrutivas.

Por fim, concordo com Zizek que a sexualidade se baseia na possibilidade de manter um espaço de impossibilidade.

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Medicina e Socialismo

Muitos médicos fazem da prática da medicina toda a sua vida, pois é dela que extraem seu valor social, seu significado e sua importância. Ter essa conexão com a profissão não é exatamente errado, mas é perigoso. Em primeiro lugar porque somos muito mais do que a profissão que abraçamos. Somos uma potencialidade infinita de funções e modos de ser. Somos pais, avós, filhos, escritores, marceneiros, empresários, cantores em potencial e ater-se apenas a uma forma de expressão pode impor uma limitação desnecessária a qualquer um de nós.

Muitas mulheres – e até homens – colocaram na sua relação amorosa todo o valor de sua existência. Como Florbela Espanca, dizem “tu não és sequer a razão do meu viver, pois que já és toda minha vida”. Alguns profissionais fazem o mesmo, e alienam sua existência a um ofício. Em medicina isso é muito comum. Todavia, creio ser importante criar outras formas de ser relevante e sentir-se produtivo. Ou, como diriam os apostadores, não devemos colocar todas as fichas (da nossa paixão) no mesmo número.

Em segundo lugar, a Medicina tanto abriga quanto oprime. Ela é uma mãe poderosa, amorosa e benevolente, porém possessiva e vingativa. Ao mesmo tempo em que lhe oferece um poder desmedido, valor social e dinheiro ela lhe cobra fidelidade. Para a imensa maioria de seus filhos essa fidelidade é oferecida sem queixas. Afinal, quem reclamaria do preço a pagar diante de produto tão valioso? Existem, entretanto, aqueles a quem sua fidelidade está direcionada a valores outros, como uma mente livre e sem amarras. Para estes a conexão à medicina e seus postulados só terá sentido se não afetar outros aspectos da vida, como a equidade, a justiça, os direitos humanos e a liberdade do sujeito de fazer suas próprias escolhas.

É nesse momento que os choques podem ocorrer. No caso da Medicina, a expressão da arte médica se faz no espaço que se forma entre a justa ação de proteção dos pacientes e a apropriação indébita da autonomia destes pelo jugo imposto pelo capitalismo. É nessa zona esfumaçada e incerta que operam os profissionais. Para a maioria, os abusos sobre a autonomia dos doentes são um preço baixo que eles devem pagar para a sua prometida segurança. Para outros, liberdade é a meta última, e qualquer ação que destrua a autonomia alheia será criminosa.

Uma mente inquieta sofrerá a inevitável dor e padecerá da angústia, do sofrimento e viverá em conflito quando estiver diante desse “imperativo de consciência”. Calar-se e acovardar-se diante da injustiça produz doença e martírio moral. Lutar causará dor, feridas, ressentimento e tristezas profundas. Consciência e postura ética cobram um preço deveras alto. Para alguns o embate será inexorável e muitos sabem que essa luta poderá não trazer qualquer resultado além do próprio sacrifício pessoal. Nesse aspecto a luta política pela conquista do socialismo emparelha seu caminho com a luta por uma medicina mais democrática. Não faz sentido que a luta pela saúde dos pacientes não incorpore a ideia de uma sociedade justa e igualitária. Imaginar que é possível tratar os sujeitos doentes sem se importar com as causas primeiras do adoecimento é fazer o jogo mórbido das indústrias que lucram com a doença e o martírio.

Baruch Espinoza, judeu sefardita holandês nascido em Amsterdã, resolveu fazer críticas à dogmas cristãos e à própria Bíblia que foram consideradas pesadas e inadequadas pela oficialidade da comunidade judaica, por agredir elementos essenciais do cristianismo. Estes rabinos, com razão, temiam que suas posições deixassem em risco os judeus que foram recebidos na Holanda após sua expulsão de Portugal pela inquisição portuguesa.

Apesar das pressões, Espinoza não se retratou, por fidelidade à sua consciência e pelo valor que dava à sua liberdade de expressão. Foi humilhado, excomungado e expulso de sua comunidade, vindo a se refugiar em um sótão para trabalhar como relojoeiro até o final de sua vida. Ele é, para mim, o maior exemplo de integridade e respeito a si mesmo. Muitos médicos que conheci – como vários colegas do Brasil e do exterior – seguem esse padrão ético e pessoal. Muitos deles tem marcas na alma das lutas incessantes contra um sistema cruel cujo respeito à autonomia dos pacientes não ocupa o lugar central que deveria ter na ação terapêutica. Para estes minha reverência e meu respeito.

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