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Ultrapassando a linha

Florbela Espanca

Quando vejo pessoas defendendo o parto normal e/ou humanizado para além do que considero justo ou conveniente eu lembro das palavras de Robbie, a quem considero uma grande feminista: “Não podemos permitir que nosso fervor humanista transforme este movimento na Gestapo do parto normal”.

Por entender que o parto humanizado está abaixo do protagonismo restituído às mulheres é que a defesa das nossas teses não pode ser mais um modelo de opressão contra elas. Nossa defesa deve focar na mulher e suas escolhas. Nenhum modelo é superior a isso.

Fanatismo é o “império da paixão“. É ruim, mas impossível iniciar qualquer projeto se a paixão não nos tomar por inteiro. Seja no amor ou na construção de qualquer empreendimento humano. Por isso que, ao mesmo tempo que o critico, vejo o “fanatismo” como um elemento primordial de nossas ações, que apenas necessita, tal qual um garanhão indômito, ser amansado pela razão.

Eu acho que um certo “fanatismo” (quem não?) faz parte do processo inicial de qualquer grande ideia. Somos tomados pelo discurso revolucionário e olhamos o mundo pela ótica estreita de nossas paixões. Todo mundo já passou por isso, pelo menos aqueles que ousaram amar – pessoas ou ideias.

Fanatismo, como evitar?

Minh´alma de sonhar anda perdida
Meus olhos ficam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida

(Florbela Espanca)

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Pena de Morte

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Para além das questões éticas e humanas, a pena de morte é burra e estúpida. O assassínio patrocinado pelo estado é absolutamente ineficiente para educar ou coibir. Se a pena de morte funcionasse teríamos uma diminuição significativa de crimes e assassinatos nos lugares onde ela existe, mesmo no Brasil. Sim, porque a pena capital existe no nosso país, apenas não é legalizada. Nas favelas, comunidades e bolsões de pobreza impera esta pena entre as facções do tráfico. Matam-se uns aos outros por penas impostas por eles mesmos. Fosse a morte decretada um anteparo ao crime e reinaria a paz nos domínios do tráfico. Não é o que se vê. Uma porcentagem significativa das mortes em nosso meio são decorrentes da ilegalidade oportunista deste comércio. Sair matando bandidos nunca ofereceu qualquer vantagem e jamais nos conferiu mais segurança.

A morte é IGUAL para quem morreu, tenha sido este assassinato cometido pelo governo ou por outros grupos. Portanto, do ponto de vista de quem teme, ser morto pelo Estado ou pela facção rival dá no mesmo. Pior: a morte pelos grupos paralelos tem julgamento sumário e você não tem defesa, e isso deveria te causar muito mais medo e muito mais cuidado. Pois não ocorre nada disso, e as agressões entre os grupos em disputa por pontos continuam, como se a própria morte fosse apenas um detalhe. Por isso mesmo que a pena de morte não faz diferença alguma para coibir o crime. Os bandidões do velho oeste já diziam isso no tempo do Jake Grandão: “Posso matar quantos eu quiser, mas só conseguem me matar uma vez“.

O Estado precisa ser o condutor da civilidade. Não se admite que ele esteja não animalizado quanto às pessoas a quem procura educar e proteger. Um Estado matador é medieval e inaceitável, sem falar que os sujeitos que caem nas garras desse governo vingativo são os mesmos grupos de sempre: pretos, pobres, miseráveis, inimigos políticos, etc…

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Violências e gênero

Violencia Mulher

A violência contra as mulheres é uma ferida aberta em nossa sociedade. Ponto. Não há como negar esta realidade e nem é possível colocar panos quentes em uma tragédia cotidiana que tira a vida de centenas de mulheres todos os anos por um machismo violento e desmedido. Por outro lado, eu creio ser possível complexificar a questão, mesmo sabendo que qualquer sujeito que fale da violenta perpetrada PELA mulher será sempre julgado como “machista”, insensível, ou que vê o cisco e não enxerga a trave diante de seus olhos. Porém, quando uma mulher inteligente, aparentemente madura, com curso superior e bom emprego te conta que há 5 ou mais anos apanha sistematicamente do seu parceiro(a) fica a dúvida até que ponto existe uma violência doentia por parte do parceiro e quando, associado a isso, há uma patologia da relação que faz aparecer nela um gozo (não confundir com prazer ou vontade) de apanhar. Estudar este gozo é fundamental para que esta mulher desfaça um sistema de violência que se retroalimenta. Acontece muito com alcoolistas: uma menina testemunha as violências aplicadas na mãe pelo pai durante toda sua infância e quando mais tarde se casa, adivinha quem é o marido? Um alcoolista violento. Ela repete a cena infantil em sua relação adulta.

Dizer que uma mulher participa inconscientemente de um jogo erótico patológico destrutivo NÃO é a mesma coisa que dizer que “ela pediu“, ou que “ela merece“, e muito menos que o parceiro dela está desculpado, perdoado ou é inocente. Significa apenas que ela também precisa ser ajudada para que possa fugir do padrão. Caso contrário ela corre o risco de se separar desse sujeito perturbado e encontrar outro drogadito violento, por nunca ser capaz de entender o que a levara a procurar relações em que sofre e é violentada. Existe um campo de estudo e pesquisa da psicologia (e da criminologia) chamado “vitimismo” que estuda as relações patológicas de pessoas que sempre são vítimas de relações ou situações deste tipo, mostrando haver um determinismo psicológico inconsciente que as leva a se colocar neste modelo de relação. Eu mesmo conheci uma mulher, minha paciente, que namorou três sujeitos na vida, e todos eles acabaram se mostrando no transcorrer da relação como homossexuais, o que pôs fim aos relacionamentos. Ela ficava muito decepcionada e não acreditava como podia ser tão azarada. Nunca acreditei na tese que ela mesmo trazia do azar, mas o caso dela parecia provar um tropismo por trejeitos e manifestações sutis que ela identificava como atrativos, e a surpresa pela descoberta da homossexualidade operava na ordem do inconsciente, ao invés de conscientemente percebido.

A violência das mulheres só é mais branda porque elas são fisicamente e politicamente mais frágeis. No filme  “O Senhor das Moscas” este tipo de ilusão é desfeito não com relação às mulheres, mas com os pequenos. Nós temos a ilusão de que as crianças são “do bem“, anjinhos inocentes e carentes, apenas porque NÃO conseguem fazer muito mal, pela sua fragilidade. Esse filme desmistifica a “candura” das crianças, assim como Freud desmistificou as relações eróticas que elas estabelecem com suas mães.

As mulheres não batem em maridos – ou os agridem com a mesma intensidade e frequência – apenas por serem frágeis e não por serem virtuosas. Esse essencialismo “mulheres do bem, homens truculentos e violentos” é tosco e tolo. Basta até você acompanhar os relatos de violência doméstica para perceber que, em muitos casos, a mulher foi vítima apenas porque era a mais fraca e não porque era moralmente superior, mais calma, ponderada, ou uma vítima silenciosa. Não é justo tratar os homens desta forma estereotipada, porque isso não ajuda a causa das mulheres. Temos que combater a violência contra a mulher sem romantizar estas relações e entendê-las como uma interação patológica de gozos destrutivos, em que ambos tem responsabilidade, mas que uma parte – a mais fraca – corre sério risco de vida.

Quando falamos de minorias como as mulheres (são maioria, mas politicamente e socialmente podem ser consideradas uma minoria) qualquer menção às perversidades femininas – inclusive em uma relação violenta por parte do parceiro – será julgada como “acusar a vítima“, quando na verdade muitas vezes se usa para que fique claro que uma relação é SEMPRE uma dualidade feita da interação de sujeitos, amalgamados e entrelaçados em seus fantasma. Se não é justo absolver os homens das violências e mortes praticadas, também é certo entender que nessa junção de almas existem parcelas de responsabilidade em ambos os sujeitos.

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Feministas Radicais

Latuf Feminazi

Bem… A charge do Latuff sobre as “radfems” é politicamente incorreta. Equivocada mesmo. Eu gosto do ativismo político do Latuff, em especial no que se refere à Palestina. Minha tese sobre o feminismo se mantém, e a crítica ao Latuff só a reforça: as mulheres são vítimas de uma sociedade onde o machismo ainda é brutal, mortal e cruel. Mesmo uma mulher que nunca sofreu na carne essa brutalidade já a sofreu no espírito. Temos uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo arbítrio. A sofisticação da justiça e da democracia passa, inexoravelmente, pela “libertação” das mulheres. Assim, por reconhecer estas realidades, qualquer crítica ao grupo que é historicamente oprimido, mesmo quando sensata ou verdadeira, pode receber a marca da insensibilidade ou parecer um conluio com os opressores. Seria absurdo imaginar que muitas radicais feministas não cometem erros ou que não possuem ódios, rancores e feridas mal cicatrizadas. O mesmo com negros, nordestinos, homossexuais. Se estes sentimentos passam ao ato, e criam violência, deveriam ser criticados. Entretanto, a charge do Latuff extrapola e generaliza. O que seria uma parcela minoritária vira a imagem iconográfica de um grupo que prega a igualdade. Fez bem em se retratar. Ficou legal para ele e acho que as feministas radicais acabaram contempladas em suas justas reivindicações. Os sujeitos erram, mas reconsiderar é muito bonito.

Latuf Feminazi Retratação

Durante este período percorri os debates sobre o professor famoso aquele e sua conduta com as fãs e acabei descobrindo, um pouco espantado, a extrema diversidade do movimento feminista. Algumas dissidências internas parecem brigas de torcida organizada de futebol. Tem muito rancor, mágoa, visões díspares, mas nada além do normal para movimentos nascentes (um movimento é “nascente” se tiver menos de um século, no meu critério pessoal). O meu espanto maior foi meu desconhecimento da extrema diversidade entre tais grupos e os jargões que elas usam. Radfems, transfems, cis, queer, mascus, etc. me mostram a ignorância que tinha/tenho sobre isso. Outro ponto é a divergência, que por vezes se manifesta por repúdio explícito, à presença de homens, chamados de “feministos“. Continuo achando que, mesmo apoiando estes movimentos e os amplos direitos de igualdade pretendidos pelas mulheres, não me identifico com o discurso de várias correntes. Todavia, sigo firme no apoio às liberdades femininas de expressão de sua sexualidade, em especial no parto, que é parte da “vida sexual de toda mulher”.

Nos debates sobre o suposto machismo do famoso professor sobravam acusações de todos os lados entre as várias vertentes feministas. “Transfóbica” era um dos mais comuns. É curioso como elas chamavam os homossexuais masculinos de “viados” com o mesmo “tom” pejorativo que os heterossexuais usam. Mas, longe de mim querer rotular e achar que “isso aí é o feminismo”. Isso é tão tolo como ver uma prostituta e dizer “isso é o capitalismo” ou ver um homem-bomba e chamar de “islamismo”. Não, este movimento é rico exatamente por ser multifacetado e plural. Mesmo me assustando com a violência de alguns grupos é inegável a urgência e a propriedade das reivindicações.

Um exemplo famoso: nos anos 90, nos Estados Unidos, um marido violento, mulherengo e alcoolista chega em casa bêbado e tenta fazer sexo com sua mulher – uma imigrante da América Central – que o rechaça. Ele deita para dormir e a mulher, amargurada e humilhada, resolve se vingar amputando seu pênis com golpes de facão. Lembro que na época eu dizia que uma brutalidade como a que ela cometeu não se justificaria, mesmo que fosse possível entender suas razões. Mas qualquer crítica à ação de uma mulher duplamente oprimida, por ser mulher e imigrante, passava a ideia de que aceitávamos as OUTRAS violências que ela sofria, a do marido e a da sociedade preconceituosa onde estava inserida, estas crônicas e insidiosas.

Era complexo, e por vezes inútil, debater com as vítimas, ou seja, todas as mulheres que se identificavam com o sofrimento e humilhação da imigrante.

No caso do negro acorrentado a um poste via-se o mesmo. As vítimas somos todos nós, reféns de uma sociedade desigual e onde o crime é impune. Qualquer um que defendesse o jovem negro, criticando a indignidade cometida contra um ser humano, recebia uma saraivada de críticas ferozes dos justiceiros, e as mais brandas eram “então leva pra casa”.

Tentar criar uma terceira via, onde NENHUMA violência seria aceitável, sempre recebe críticas daqueles que por anos (ou séculos) sofrem nas mãos dos opressores. Mas eu acredito que esta é a única solução duradoura.

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Fazer Partos

cesariana2

A naturalização da expressão “fazer o parto” é tão intensa na nossa cultura (e não o é com igual intensidade em outras latitudes) que alguns sequer entendem nossa crítica a esta forma de descrever um nascimento. Quando dizemos que “só mulheres podem fazer um parto” confundem essa afirmação com a exclusão dos atores sociais relacionados com sua assistência e entendem tal ponto de vista favorece a desassistência. Nada poderia estar mais distante da verdade. Parto assistido por bons profissionais é uma conquista milenar das sociedades humanas. Ponto.

É por esse entorno cultural – a negação consciente e/ou inconsciente do protagonismo da mulher no parto – que os movimentos de humanização são necessários. É precisamente pela obliteração da função primordial das mulheres num evento que só ocorre na intimidade dos seus corpos que não há como se calar. Mesmo quando se repetem as acusações infantis e inconsistentes de que somos “contra os médicos” ainda assim, e com mais razão, é preciso colocar a mulher no seu verdadeiro posto. Achar que combater a violência obstétrica é ser contra médicos é tão tolo quanto acreditar que a luta contra a pesca das baleias é ser contra os marinheiros. Bons médicos e bons marinheiros serão sempre necessários.

Barbatanas de baleia e Kristeller , chega.

Entretanto, tenho SÉRIAS objeções quanto a criminalização da violência obstétrica na forma como está sendo debatida. Essa atitude terá uma reação imediata: o refúgio por parte dos profissionais no porto seguro das cesarianas e o medo crescente destes em oferecer assistência para partos. Tratar episiotomia com a mesma severidade com que analisamos espancamento doméstico é um exagero que pode ter consequências danosas para a atenção ao parto e,  mesmo sendo plena de boas intenções, pode ser um tiro no pé.

Educação e ativismo são o melhor caminho. A judicialização é sempre um caminho extremo. Produziremos muito mais efeitos positivos ao orientar mulheres, educar os novos profissionais, criar protocolos humanizados, conselhos hospitalares locais de revisão de práticas, aconselhamento de casais grávidos, comitês de direitos dos pacientes, doulas, acompanhantes, plantões multiprofissionais e muito mais. Colocar profissionais contra a parede, ameaçá-los e constrangê-los, de nada adiantará.

A única coisa certa a ocorrer é o aumento de cesarianas.

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Cidadão de bem

Cidadao de bem

Auto proclamar-se “Cidadão de bem” é pejorativo, sim. Eu acho que não é à toa que a direita mais retrógrada usa tanto essa expressão. E ela se estabelece pela divisão essencialista da sociedade, baseada em critérios morais criados pelas classes hegemônicas. Assim, um cidadão racista, homofóbico, misógino, preconceituoso e golpista como o Bolsonaro pode se considerar um cidadão “de bem”, porque nunca precisou “bater” uma carteira ou roubar um supermercado para conseguir o que comer, ou apenas para ter acesso à felicidade que ilusoriamente vem com o consumo. Já estes últimos, “ou outros”, os “vagabundos”, mesmo sendo pessoas em que o crime existe por contingência – e não por convicção perversa, como em Bolsonaro – são considerados da “banda de lá”, meliantes, criminosos, safados, que merecem cadeia ou, de preferência, a morte.

Uma frase que li em um desses sites de extremistas em apoio à intervenção militar: “Na ditadura se você for uma pessoa de bem não terá o que temer“. Desta forma, para ser “pessoa de bem”, é necessário baixar a cabeça para os poderosos ou ser forte e violento o bastante para obrigar que os outros se curvem quando você passar. Sim, “cidadão de bem” me ofende, pois sou um cidadão IGUAL a todos os outros, e não pertenço a uma estirpe ou casta superior, aquela que pode atirar pedras nos outros por se julgar isenta de pecado.

Abaixo o jornal “Cidadão de Bem” de 1926 (Good Citizen), uma famosa publicação da Ku Kux Klan. Podemos considerar coincidência que esta expressão seja usada pelos defensores de Bolsonaro e outros fascistas contemporâneos?

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Machismo

Soldadas

(*) post scriptum:

Este foi o texto que gerou a cisão dentro do antigo blog que eu escrevia,  que depois de dois anos de convivência fui convidado e me retirar. Existe um outro artigo em que eu deixo aclaradas algumas posições sobre este texto e que se chama “Algumas Explicações Necessárias”  que também contém alguns escritos que foram publicados no Facebook após o incidente.  No final deste artigo original eu transcrevi em itálico – para diferenciar do texto publicado no blog – minhas falas em uma conversa privada com uma amiga feminista que lamentava o ocorrido. Espero que este fato triste seja um degrau na construção de uma interlocução cada vez mais intensa entre a humanização do nascimento e o feminismo. Estou certo de que são aspectos diversos na cultura, mas suas interfaces são tão claras que a necessidade de um contato entre humanistas e feministas é mais do que necessário: é urgente.

MACHISMO

A segregação que o patriarcado determinou forçou a invasão que hoje testemunhamos nos espaços antigamente entendidos como “naturais”. Eu não creio que o patriarcado seja “machista”, pois penso se tratar de dois aspectos da organização social diferentes em essência. Minha tese é de que o machismo é a naturalização de um modelo social artificial baseado na posse e com o objetivo de garantir segurança. O patriarcado não é um sistema de valor; o machismo é.

A separação das atividades por gênero, por vezes absolutamente RÍGIDAS na sociedade, é milenar. Poderia me cansar citando, mas lembro que a atenção ao parto era proibida para os homens até o final do século XVI.

“Em 1522, um certo doutor Wortt de Hamburgo travestiu-se de mulher para assistir a um parto, mas seu disfarce foi descoberto e ele foi queimado na fogueira “por sua indecência e por degradar sua profissão” (Rich, 1986:140), o que ilustra que, pelo menos em certos contextos, aos varões era vedada a presença na sala de parto, delito que poderia ser punido com a morte. Por outro lado, foi no começo do século XVI que se iniciou a publicação de edições dos livros de ginecologia e obstetrícia dos antigos, por varões, em língua vernacular, como é o caso do Rosengarten, o Jardim das Rosas.”  (www.mulheres.org.br/mestrado_3.html)

Mulheres nas Igrejas são discriminadas até hoje (e não apenas na Igreja Católica), e não se vislumbra uma invasão neste terreno em curto prazo. Nenhum sinalizador na Santa Sé ou outras denominações para que o modelo misógino e androcêntrico seja modificado.

As invasões de território, na esfera de gênero, não ocorrem com facilidade e nem com plena aceitação. Por isso o termo invasão está correto, pois os espaços não “estão aí” para serem ocupados, pois já tinham “dono”. A posse é garantida pela cultura, mas como sabemos, as culturas são cambiantes, mutantes e plásticas. Mais uma vez, o termo “invasão” se refere exatamente a estes caminhos de lutas para desbravar espaços ocupados por OUTROS. Mulheres e homens assim constroem a sociedade. As mulheres o fazem de forma mais intensa na atualidade porque muitos espaços sociais foram ocupados pelo patriarcado (e não pelo “machismo”). Todavia, vemos – como acima – espaços sendo invadidos pelos homens de maneira corajosa e consistente, como na atenção ao parto nos últimos 3 séculos, ou nos cuidados com mães e bebês nos últimos anos.

O machismo é um sistema de poder como qualquer um dos outros sistemas existentes, como o racismo. Quem não se deixa cativar por eles? Quem não os incorpora e os naturaliza? Se você fosse da realeza no século XVII ou XVIII certamente acreditaria que sua essência é diversa daquela da plebe, e olharia seus braços todos os dias para confirmar que seu sangue é azul. Não se trata de justificar qualquer desses sistemas de exclusão, mas incorporá-los à natureza humana. É preciso coragem para abrir mão de suas prerrogativas culturais. Quando se sugeriu a presença de doulos no parto algumas corporativistas de gênero “subiram nas tamancas” e reclamaram dessa invasão de território. Elas estavam cativas em seu sexismo, não lhes parece?

O patriarcado ofereceu a posição política preponderante ao mais forte, para proteger a sociedade. Essa é sua essência. É ingenuidade acreditar que ele foi criado por “ódio às mulheres”. Este sentimento até pode existir em muitos homens, mas não é pelo ódio que se cria um modelo e uma estrutura social de absoluto sucesso como este, de abrangência universal. Em qualquer canto da terra ele foi utilizado como ferramenta de progresso, e qualquer sociedade que ousou desafiar o patriarcado no passado veio a fenecer.

Entretanto, hoje em dia – depois da pílula e da Magnum, diriam algumas – sua necessidade não se faz mais tão evidente. A força física dos homens não é mais tão fundamental em um mundo tecnológico, o que permite que grandes nações do mundo – Alemanha, Chile, Brasil, Argentina – sejam governadas por mulheres, de compleição física mais frágil, mas igualmente poderosas. Agora já é possível trocar a configuração política do mundo por um modelo mais justo e equilibrado, onde os gêneros sejam respeitados e tratados com equidade.

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Vou acrescentar algumas coisas que eu disse depois no texto original para que a minha posição possa ficar mais clara. Mas não se preocupem comigo… isso não me atinge tanto assim. Pois é, isso é ruim, mas na minha opinião faz parte do jogo. É natural que isso aconteça, e temos que nos preparar para isso. Com o tempo as melancias se ajeitam com o balançar da carroça.

Minha argumentação é bem simples: o patriarcado é uma estratégia de sobrevivência, estabelecida no fim do paleolítico superior e a partir das mudanças estruturais da sociedade, de um modelo nômade para um agrário. O surgimento da posse (terra, animais) nos obrigou a colocar em posição de poder os machos testosterônicos de nossa espécie, daí surgindo o patriarcado. Isto é: o patriarcado NÃO surgiu por um ódio às mulheres. Um sentimento estranho como esse não poderia ter criado um modelo de “sucesso” como este na manutenção da propriedade e na expansão territorial, com consequente bem estar para as populações sob seu domínio. Não só isso: o patriarcado permitia que um homem tivesse várias mulheres, o que apoia o incremento populacional, o que era fundamental para as novas tarefas incorporadas, na agricultura e pecuária..Isso nada tem a ver como machismo, que é a NATURALIZAÇÃO de um sistema ARTIFICIAL, como o patriarcado. Entretanto, algumas feministas se encheram de raiva por eu aparentemente ter uma visão “condescendente” do patriarcado. Não é verdade, mas eu acho que se você confundir patriarcado com “ódio às mulheres” será muito mais difícil combatê-lo.

O machismo é a tentativa de fazer uma simples estratégia (como uma ditadura, o racismo ou a escravidão) ser naturalizada, como se fosse “natural” o homem ser superior à mulher. Mas TODA a briga foi por eu ter dito exatamente isso o que muitas pessoas disseram antes de mim.
Mas é ÓBVIO (!!!!!) que o patriarcado é um estupendo sucesso !! Fosse ele um fracasso não haveria porque combatê-lo !!! Ele ainda é, mas é claro que percebemos a sua decadência dia a dia, e é para isso que lutamos. Quando falo no sucesso do patriarcado falo de sua abrangência planetária, sucesso em abrangência e em poder de transformação social. Somos todos herdeiros do patriarcado.

Mas isso de deu as custas de sufocar o feminino. E o patriarcado precisa ser substituído por um modelo mais justo e igualitário. Ele agora é insuportável. A origem das ofensas está nessas simples ideias. Podem ser combatidas e aceito argumentos em contrário, mas as ofensas foram pela minha pessoa, e não pelas minhas ideias. Eu tenho uma visão próxima da marxista sim, dialética e histórica, mas o problema é tocar na ferida do feminismo, e isso deixou as feministas em pé de guerra. Todavia meus argumentos são límpidos e translúcidos. Pode-se discordar deles, mas é absurdo pensar que “existe algo por trás”, desejos ocultos ou uma visão diminutiva da mulher. Pelo contrário; no próprio texto eu falo da importância capital de combater a ambos: o machismo por ser preconceituoso, e o patriarcado por ser um modelo anacrônico.

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Bruxas

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas.

Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário: “Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.” Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos“, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen“, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas. Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres.

Sim, a história estabeleceu estes espaços para os homens, como a política, a guerra e os esportes em geral. A cultura, em sua dinâmica, deixou as mulheres confinadas à família, aos cuidados com os filhos, à culinária e ao lar. Esta é a história do patriarcado que, ao meu ver, foi uma brilhante solução cultural adaptada ao paleolítico superior e todos os séculos de guerra que o seguiram. A crise desse sistema só agora, felizmente, pôde aparecer. Essa mesma dinâmica cultural adaptativa proporcionou a decadência do patriarcado criando as condições para a invasão que hoje vemos, fortuita e bem vinda, como disse anteriormente. Por isso advogo que as invasões no outro sentido sejam também respeitadas.

O uso da palavra “invasão” se justifica por ser a que mais claramente traduz a luta das mulheres para conquistar (e não simplesmente “ocupar”) espaços na sociedade ocidental contemporânea. Aliás o MUNDO não é masculino nem feminino, mas algumas funções foram assim determinadas. Essas “funções” nada mais são do que acertos temporários de adaptação às condições internas e externas dos grupamentos humanos. O patriarcado determinou uma delimitação em que muitos afazeres ficaram com os homens, como citei acima. Mas basta você trocar a fralda do sei filho ou entrar na cozinha da sua casa para ver como as mulheres dizem (jocosamente, mas nem tanto) que ali quem manda são elas. O que o mundo pós-pílula fez foi questionar os lugares alocados pela cultura, oferendo oportunidade para que as mulheres invadissem locais antes tradicionalmente masculinos. A palavra “invasão” é boa exatamente porque a ocupação não foi (e não é) pacífica. Vejo beicinho por todo lado quando uma mulher ocupa um posto que sempre foi ocupado por homens, e vi muxoxos quando afirmei que somente a mulher pode decidir se quer ou não um homem como “doulo“.

Haveria muito mais a ser dito sobre este tema e de forma profunda, mas existem pessoas feridas pelo machismo que não suportam qualquer referência ao tema sem responderem com emocionalidade, o que é plenamente compreensível, mas impede o progredir dos debates. Lembro do Déda, meu vizinho russo, que fugiu do seu país durante a guerra, e que acompanhou o totalitarismo stalinista nos seus primórdios. O tema “Stalin” e a Revolução de 17 eram absolutamente insuportáveis para ele, que se alterava bastando para isso tocar de leve nestes assuntos. Ele foi vítima, e também com ele me dei conta que é inviável tentar debate racionalmente. A carga emocional era tanta que Babá, sua esposa, me fazia sinais pelas costas avisando para não falar no tema. Com alguma mulheres, vítimas de um machismo cruel e abjeto, muitas vezes é melhor calar e esperar que as feridas se fechem, para que, com o tempo, elas sejam capazes de debater sem serem vencidas pela dor e pelas lágrimas.

Minha tese, por defender postulados feministas sem sê-lo, é que as bem vindas invasões não podem causar estranheza apenas quando os homens são deslocados de suas exclusividades. Que as mulheres sejam militares, políticas, guerreiras ou matadoras de aluguel, sem problema. Invadam e tragam feminilidade e diversidade psicológica a estes campos. Todavia, aceitem que homens queiram ser babás, professores infantis, educadores de creche, cuidadores de berçário e…. doulas! Aceitem esta invasão também, pois, assim como as outras, ela vai ajudar a trazer ensinamentos masculinos para um campo em que as mulheres sempre dominaram.

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Palmada

Violência Crianças

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6 de outubro de 2014 · 04:24

Pesos e Medidas

Palestinian_children

Uma linda ativista, com um enorme coração, escreveu em sua página, referindo-se aos conflitos em Gaza e ao massacre de crianças em escolas da ONU e tantos outros exemplos de barbárie: “Em todo conflito existem pelo menos dois lados e os DOIS precisam se transformar, os DOIS precisam mudar! E ao apoiar esse processo nós precisamos lutar por NÃO cair nesse buraco negro de culpa, ódio e separação.

Como não concordar com isso, principalmente ao ver que a autora da frase é verdadeiramente comprometida com a paz e a comunhão entre as pessoas? Quem ousaria discordar dessa proposta? Quem deixaria de apoiar este tipo de resolução? Acabar com as mortes e os ataques é desejo de todos os que prezam pela civilidade.

Mas, em nome da justiça e da igualdade, experimente mudar um pouco essa frase e adaptá-la a um outro contexto:

“Olha, sobre o holocausto judeu na segunda guerra mundial, a gente tem que ver os dois lados, eles precisavam se transformar. A gente não pode apenas condenar um lado, sabe como é…”

O quê???? DENIALIST !!!! (e realmente quem ousa negar o holocausto judeu na II Guerra Mundial é isso mesmo…)

Portanto, posso afirmar a todos que pedem aos palestinos que “façam a sua parte” que eles JÁ FIZERAM, nos últimos 60 anos, suportando massacres, ataques, diminuição do território, morte de crianças, humilhação, tortura, prisões ilegais, cerco, fome, espancamentos, cerceamento de liberdades, vilificações, mentiras, etc. Não peçam aos palestinos que sejam “bonzinhos” da mesma forma como seria injusto pedir para os judeus para que colaborassem enquanto se dirigiam para as câmaras de gás.

Por mais bem intencionados que sejam, os pedidos de “mútuas concessões” escondem o desejo de que apenas um lado continue oprimindo, como tem acontecido nos últimos 66 anos.

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