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A Miséria dos Partos da Burguesia

 

 

cesarea

Uma paciente da Unimed Porto Alegre tem 7.5% de chance de ter um parto normal; 92.5% das gestantes com este convênio terão uma cesariana, a maioria delas sem nenhuma justificativa clínica. Uma cesariana aumenta de maneira clara e inquestionável os riscos de curto e longo prazo para mães e bebês. Os estudos mais conservadores apontam algo como 100 a 200% de aumento de mortalidade, e sobre isso não recai mais nenhuma dúvida.

Mais de 9 entre 10 grávidas de Porto Alegre e arredores da classe média (que usam planos de saúde) são submetidas a cesarianas que colocam a vida e a saúde de mães e bebês, sem que exista uma justificativa clara para tal conduta. O que houve?

Isso seria suficiente para desconfiar que algo está MUITO errado na atenção ao parto na minha cidade (mas o resto do Brasil não está diferente). Cabe a pergunta óbvia: Quem ganha com essa inversão de expectativas? Quem lucra com isso? Quem leva vantagem com o excesso de cesarianas?

Posso apenas dizer que os que PERDEM com essa “cultura perversa da cesariana” são mães e bebês. Quem são os que ganham?

Isso poderia ser menos vergonhoso se os órgãos de classe atacassem o excesso de cirurgias e oferecessem soluções para a grave crise. Afinal, eles deveriam lutar pela “boa medicina”, não? Mas não é o que acontece e o que se vê é o contrário disso.

No meu estado a corporação resolve atacar enfermeiras que atendem partos ou os partos NORMAIS, planejados e atendidos fora dos hospitais. Tais partos extra-hospitalares não perfazem 1% do total dos nascimentos. Porque algumas dezenas de partos merecem críticas, perseguições e ameaças – mesmo com centenas de estudos comprovando sua segurança – enquanto mais de 90% da classe média é submetida a cesarianas sem indicação clínica, arriscando a vida de mães e bebês, sem que haja qualquer comentário dos senhores da corporação?

As mulheres – em especial – começaram a se dar conta da EXPROPRIAÇÃO de seus partos. Impedidas de parir por uma cultura que protege a intervenção e criminaliza a fisiologia, começam a se questionar sobre este modelo e a quem ele serve. Da solução deste dilema surgirá o paradigma de assistência do século XXI.

Não creio que poderemos esconder a verdade para sempre. Perseguir aqueles que avisaram da nudez do Rei nunca deixou o monarca mais vestido e, no máximo, atrasou a compra de roupas. Medidas desesperadas e diversionistas como apontar para os partos normais (e seguros!!!) não surtirão o efeito desejado, e vão aprofundar ainda mais o fosso de desconfiança que as pacientes começam a ver se formar entre elas e aqueles que juraram protegê-las.

Falta bom senso onde abunda arrogância.

ANS – A Agência reguladora de planos de saúde do Brasil – ans.gov.br

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Limites

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Há alguns dias assisti na Internet a cena absurda de um aluno adolescente agredindo e abusando de uma professora de uma escola pública de Minas Gerais. A cena gerou reações no país inteiro, das mais alteradas às ponderadas e compreensivas. Entretanto, as marcas da humilhação que esta professora sofreu não serão fáceis de cicatrizar.

Eu prefiro pensar nesse terrível episódio como uma oportunidade para reavaliar nossa postura em relação à disciplina na educação.

Para mim creio que se trata de uma “Pedra de tropeço”. Apesar de ser deplorável a ação, e lamentável sob todos os aspectos, talvez este episódio possa alavancar um debate que está décadas em atraso: a perda da autoridade que a escola e os professores tiveram nas últimas décadas.

As causas são múltiplas, por certo, e certamente eu não sou a pessoa mais capacitada para desenrolar o nó das relações entre escola, professores e alunos. Todavia, eu lembro muito bem da relação que tínhamos com os mestres no meu tempo de escola.

Havia respeito.

Hoje esse respeito desapareceu, e suspeito que isso também tenha a ver com a mercantilização do ensino privado, onde o aluno deixa de ser aprendiz e se torna “cliente”, um consumidor de produtos e serviços educacionais. A escola, como “negócio, precisa manter seus clientes.

Isso não explica o fato nas escolas públicas, como neste caso, mas aí concorrem outros fatores, como a complacência da cultura contemporânea com a agressividade e a falta de limites dos alunos. No filme percebe-se que o aluno age do alto de uma profunda percepção de impunidade, mas aí pode entrar um outro fator: a desimportância do estudo e da formação escolar formal para determinados segmentos sociais. Afinal, se for afastado da escola, o que terá a perder? O estudo, em geral, não está no horizonte de muitos jovens marginalizados, e a escola não passa de uma obrigação, quando não um estorvo.

Para que isso deixe de acontecer não existem soluções simplistas. Não será com repressão – como fica fácil reivindicar nestas horas de indignação – mas somente com uma alteração da própria cultura e sua relação com a educação.

Tarefa difícil, mas que o episódio deixou claro ser urgente.

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Crime e Castigo

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Diante do questionamento que surgiu a partir do brutal e estúpido assassinato de um cidadão que placidamente andava de bicicleta no Rio, muitas vozes furiosas clamaram por justiçamento, pena de morte e até linchamentos sumários. Isso me fez pensar nos clamores em Israel quando morre um soldado judeu e o silêncio brutal quando centenas de crianças palestinas morrem carbonizadas numa guerra desigual entre o mais armado exército do mundo e uma população prisioneira, sem armas e sem soldados.

A pergunta que cabe, reconhecendo a brutalidade do ato e a insegurança que todos sentem diante de um assassinato – e também a dor da família enlutada – é “o que podemos fazer de efetivo para combater essa e outras barbáries contemporâneas?“.

Primeiramente é preciso rechaçar o que é falso e “plantado” nas redes sociais com o único objetivo de gerar discórdia. Depois, é importante entender que esses debates não se resumem em um lado certo (nós) e um lado errado (os outros). Na questão da violência é fundamental se perguntar se as medidas preconizadas como solução ajudam a você (na sua necessidade de vingança) ou ajudam a todos, a comunidade inteira, a resolver (ou melhorar) um problema endêmico e de raiz estrutural.

De nada adianta eletrocutar esse menino pobre e negro; outros virão ocupar seu lugar. Não esqueçam que ele JÁ estava condenado; se não fosse preso agora dificilmente passaria dos 25 anos, vítima da guerra do tráfico. Ficar com raiva dele e santificar o “doutor” (que era alguém comum, como eu, mas acabou sendo pintado como santo) de nada adianta, e apenas aprofunda o fosso dos lados que se opõem no debate.

Precisamos mais policiais e mais inteligência no combate ao crime, mas é tolice imaginar que esse problema acaba com repressão. É MENTIRA. O tráfico não acabou nos Estados Unidos, e só cresce, mesmo com o aparato de repressão mais caro do mundo. O crime não deixa de existir porque policiamos a vida até o extremo. Não, ele existe – e se mantém – pela “sensação de injustiça” a que são submetidos os pobres, ao perceberem que a opulência oferecida a uma determinada casta nunca é oferecida à sua. Eles não se julgam bandidos ou malfeitores; pelo contrário, sentem-se heróis a combater uma injustiça, Batmans da favela, e nenhuma repressão vai fazê-los parar. Quanto mais apanham ou morrem mais cresce a indignação com o que consideram injusto e perverso. É por isso que o assassinato patrocinado pelo estado (pena de morte) ou pela iniciativa privada (chacinas e guerras de pontos de tráfico) nunca coibiu a violência e, mais ainda, contribui para o seu incremento.

É preciso mais do que raiva e indignação para resolver esta questão. Mais ainda, é necessário suplantar o ódio para encontrar uma resposta segura e sensata, que contemple o desejo de todos, e não apenas do nosso grupo.

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Feminismo e Humanização

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Aqui estão reflexões sobre a Humanização do Nascimento conforme tenho observado.

Nos últimos meses temos visto muitas brigas intestinas dentro do movimento exatamente no momento em que ele se torna mais forte e abrangente. Muitas destas divergências poderiam ser tratadas internamente, esperando que os ataques venham daqueles que não concordam com nossas ideias, mas infelizmente vemos brigas entre pessoas que comungam com a mesma base de pensamento, divergindo apenas nos detalhes.

De uma certa forma isso é compreensível, visto que essas lutas são causadas quase que exclusivamente pelas  vaidades inerentes a qualquer coração que se deixa tomar por uma paixão, e o trabalho com o parto está dentro das grandes paixões que imantam profissionais do mundo inteiro.

Sei que minhas palavras desagradam muitas pessoas e não tiro minha culpa sobre estes julgamentos. Sou falante demais, opiniático e intrometido. Por outro lado sou alguém que acredita que o diálogo pode ser a única forma de resolver conflitos de forma civilizada, e para isso é fundamental escutar o que o outro tem a dizer, suportar o contraditório e (ó dor…) aprender com a experiência alheia. Por isso creio que o movimento de humanização precisa fazer uma reflexão sobre as questões inerentes ao ritmo e direcionamento de suas lutas.

Por transitar pelo universo feminino há mais de três décadas acabei me tornando um observador atento das nuances e características dos movimentos com os quais tive contato e aproximação: o feminismo e a humanização do nascimento.

É importante esclarecer que, do meu ponto de vista, a humanização do nascimento não é um assunto “feminista”. É um assunto sobre o qual as feministas precisam se debruçar de forma crescente, já que foi por elas negligenciado por décadas, mas que não pertence ao escopo de assuntos que pertencem ao feminismo. O parto é múltiplo, inúmeras facetas e vieses cabem no seu entendimento. Se é verdade que ocorre nos corpo das mulheres, TODOS somos nascidos deste processo, conferindo à totalidade da humanidade o direito de ter voz neste debate. Todavia, é evidente que  a imensa maioria das ativistas de ambos os movimentos sociais são mulheres. No feminismo, a totalidade, mas na humanização do parto a gigantesca maioria, e isso dá às mulheres uma especial posição de autoridade para falar de um tema que as toca de forma muito marcante. Posso ser visto como um dos poucos homens que se aventura a falar e defender de forma desabrida o protagonismo feminino como o ponto nevrálgico desta mudança paradigmática na atenção ao parto.

Como observador atento das nuances de discurso nos dois movimentos, muito do que vejo no feminismo é o mesmo que observo no movimento de humanização do nascimento: para algumas defensoras existe uma clara confusão conceitual entre o “problema” e quem o “representa“.

Na humanização do nascimento, o qual acompanho desde o final do século passado, ao invés de focarmos nossas forças na mudança de um SISTEMA perverso e ineficaz (nossas taxas de mortalidade materna nos comprovam isso) perdemos muito tempo nos elementos que – concordando ou não com ele – o representam; no caso do parto, os obstetras. Assim, muita energia é dispensada em atacar ferozmente médicos que atuam dentro de um sistema que não respeita a subjetividade, a autonomia e a liberdade das mulheres. Infelizmente, muitas vezes estes próprios médicos atacados são até sujeitos interessados em fazer mudanças na sua postura e na sua prática, mas são forçados a se proteger em suas corporações porque TUDO o que observam partindo do outro lado (as ativistas) é formado por acusações, agressões, violências verbais e rancor. Como seria possível chamar estes profissionais para fazer parte de uma grande mudança se não lhes oferecemos o carinho e a acolhida necessárias, exatamente o que reclamamos para as pacientes que entram em um hospital para dar à luz?

O mesmo acontece no feminismo. Eu mesmo, que tenho 30 anos de lutas para fortalecer a autonomia e o protagonismo das mulheres no parto, fui duramente atacado pela “tropa de choque” das feministas por um conceito (que sequer é meu, é de Engels) sobre as origens do patriarcado. Quando eu vi a enxurrada de acusações e violências (repletas de clichês do tipo “vaza“, “já vai tarde“, “não passará“, “machista“, “misógino mentiroso“, etc..) desferidas a mim eu pensei: “Bem, se eu não sirvo para essa luta, quem serve? Que tipo de obstetra seria correto e adequado para as feministas? Que tipo de profissional poderia cumprir todos os requisitos para servia à causa da humanização? Que tipo de obstetra concordaria com qualquer agressão à sua corporação sem sequer ter o direito de defesa? Que obstetra aceitaria participar de uma luta em que, qualquer discordância, o faria ser tratado como lixo?

Trinta anos buscando auxiliar a causa do protagonismo feminino não servem de nada diante das exigências das mulheres sobre o “correto comportamento e o adequado discurso de um homem quando fala sobre as mulheres“.

Mas antes que as defesas apareçam, é claro que não são todas as feministas que agem assim, talvez sejam uma minoria, mas são as que tem mais voz e que causaram mais estragos nas tentativas de diálogo.  No caso destes grupos mais radicais o objetivo implícito em muitas manifestações é uma total humilhação dos homens, uma vingança completa e final pelo “mal” que causaram às mulheres em todos estes séculos, sempre recheada de clichês (vaza macho, não passarão, mascus, esquerdomacho, etc.).

Na humanização do nascimento temos um grupo semelhante e muito vocal, acostumado a criticar abertamente o comportamento dos médicos com piadas, deboches, apelidos e críticas onde os fatos sequer foram totalmente esclarecidos, fazendo com que qualquer intervenção médica seja julgada com desconfiança. Para estas, o “extermínio” dos obstetras é uma espécie de “solução final”, pois eles representam todo o mal e toda a dor das mulheres na assistência.

Nenhuma destas soluções é possível (ou mesmo suportável), mas os discursos de culpa contra homens e médicos se multiplicam de forma inaceitável, pelo menos para quem sonha com mudanças.

Para quem deseja avanços surgindo no horizonte, mesmo que lentos e seguros, ver a humanização do nascimento adotar as mesmas táticas do feminismo mais violento pode retardar estas transformações por décadas. Atacar de forma agressiva e irracional – com palavras  recheadas de rancor e mágoa – os profissionais que atuam no parto, nos fará apenas regredir nas conquistas até aqui conseguidas. Esse comportamento apenas incentiva o surgimento e crescimento de reações óbvia daqueles que se sentem (justa ou injustamente) atingidos: os grupos machistas e o “dignidade médica“.

Sem uma postura de congraçamento e diálogo, isto é, uma postura mais “feminina“, nada será feito de forma consistente em um futuro próximo.

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Ódio

Hate

Mulheres que odeiam homens não precisam ler o que escrevo ou dissemino nos meus escritos e postagens, e podem guardar de mim uma distância respeitosa. Aliás, a mesma que me separa dos homens que odeiam mulheres, ou que as tratam como bibelôs idiotizados. Apenas entendam que o ódio que guardam dos homens não é espetaculoso ou explícito, mas opera nas sutilezas do discurso, nos silêncios e nos vãos que separam as palavras. O ódio que destilam pelos homens aparece nos pequenos detalhes dos comentários ou nos “calabocas” frequentes, que tentam impedir que um homem se manifeste sempre que a mulher é o assunto. Além disso, quando me dizem “eu não odeio os homens, tanto que casei com um” para mim faz tanto sentido quanto o velho clichê “não sou racista, já namorei uma negra“.

Homens que odeiam mulheres e as mulheres que os odeiam não precisam ler ou frequentar minhas ideias. Eu os respeito, mas não se faz necessária nenhuma proximidade.

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Guerras Religiosas

Guerra Israel

Um erro plantado na cultura ocidental contemporânea é a crença de que as guerras entre israelenses e palestinos ou entre britânicos e nacionalistas na Irlanda tem alguma conotação religiosa. A religião é apenas uma coincidência. Da mesma forma que brancos e negros poderiam ter religiões diferentes na África do Sul, ela nunca foi a origem do Apartheid. Israel domina o território palestino, mas isso nada tem a ver com a religião, até porque os ideólogos sionistas eram declaradamente ateus. O mesmo se dá com as lutas entre “católicos” e “protestantes” na Irlanda, que nada mais são que uma forma de desviar a atenção sobre o colonialismo britânico e colocar sobre a disputa uma conotação religiosa e de intolerância com as crenças alheias.

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Fabrício e Adelir

Fabrício-Adelir

Exatamente nos umbrais de abril, um ano depois de Adelir ser forçada a realizar uma cesariana sob ameaça e coerção, um jogador de futebol se rebela, joga a camisa do clube que o sustenta ao solo, sai de campo vaiado, recebe ofensas de todo tipo (raciais?) e termina seu ato dizendo que vai embora para não mais voltar.

Qual a relação entre estes dois fatos, ocorridos na mesma terra, no extremo mais conservador do Brasil?

Não creio em coincidências, e muito menos que a distância entre estes fatos não possa ser ultrapassada com um pouco de análise crítica. Penso que os valores que circulam no campo simbólico acabam se acumulando sobre as nossas cabeças como nuvens, as quais por fim se precipitam sob a forma de raios e tormentas aparentemente sem causa, diante de fatos cuja intensidade oportuniza uma fissura na casca protetora dos discursos.

Os elementos que ressaltam em ambos os casos são relativos à forma como a sociedade enxerga estes personagens. Se de um lado Adelir era uma “máquina de parir” à nossa disposição, cujo produto – o bebê – a nós pertence, também Fabrício é uma “máquina de jogar”, cujo passe pertence ao clube, e sua arte a todos nós. Um jornal local chegou a chamar Fabrício de “um ativo financeiro do clube” e que, por isso (seu valor como mercadoria), deveria ser preservado.

Em ambas as situações os sujeitos coisificados se rebelaram.

Adelir refugiou-se em sua casa com uma doula, aguardando o momento mais adequado – o mais tarde possível – para chegar ao hospital, esperando com isso conseguir seu parto normal. Foi ameaçada, trazida de casa por policiais armados e sem chance de defesa. Sucumbiu ao poder maior dos proprietários de corpos, os que manipulam nossa vida em nome de uma ordem imutável. O objeto de parir foi conduzido para o lugar que a cultura designa, sem qualquer autonomia sobre sua vida e seu destino. Calou seu corpo e submeteu-se à lâmina fria que cortou seu ventre e seu sonho.

Fabrício também deu seu grito de basta. Com as vaias e apupos trancados na garganta, misturados com uma história pessoal de perdas, dores, mágoas, tristezas e decepções, ele explode de raiva e indignação incontidas. O objeto de jogar chora e grita em campo, afasta-se dos companheiros, xinga a turba ensandecida, caminha de cabeça erguida para o vestiário e grita para todos “eu vou embora, aqui não jogo mais“.

Nós testemunhamos um sujeito se desmanchar emocionalmente em campo. Quase todos viram um jogador desesperado, mas alguns viram um ser humano despencar devido a uma pressão violenta e insana. Um gladiador que, ao ver a turba ensandecida clamando por sangue e glórias, se rebela. Tira seu escudo e suas armas, joga-as ao solo. Olha para os assistentes com indignação, os quais respondem com incredulidade, que logo dá lugar ao ódio.

Penso na crise existencial de Fabrício e não consigo tirar da mente a imagem de Spartacus…

Dois atos separados por um ciclo solar, mas unidos pela rebeldia. Em Fabrício e Adelir vemos a insistência em ser protagonistas de suas vidas, e de não entregar seus corpos ao gozo alheio. Adelir tornou-se um símbolo na luta contra a violência obstétrica institucional, e um ícone do protagonismo responsável que almejamos. Fabrício e seu ato tresloucado representam a insurgência contra um modelo que objetualiza pessoas para servirem como depositários de nossas frustrações, mágoas e fracassos.

Que ambos sirvam de reflexão para a posteridade. Que o protagonismo da mulher no parto seja sagrado e respeitado por todos, e que o respeito à pessoa humana do artista, ou de qualquer figura pública, seja uma constante.

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Abraço, Fabrício…

Fabrício

Abraço, Fabrício…

Sabe o que é desumano?

É quando retiramos as qualidades humanas de um sujeito, sua unicidade e subjetividade, aquilo que o transforma em uma pessoa única. É quando ele deixa de ser alguém, e passa a ser uma “coisa”.

Ontem testemunhamos um fato raro no futebol. O jogador Fabrício do Inter, após ser vaiado por uma parte da torcida, investiu contra ela com gritos, insultos e gestos obscenos. Uma cena lamentável de violência e descontrole. Ato contínuo, foi expulso pelo juiz e tirou a camisa do seu clube. Arremessou-a ao solo e, mesmo sendo contido pelos colegas de profissão, rumou célere para a saída do campo, sinalizando com gestos que jamais voltaria. Boa parte da torcida colorada, em especial aquela que o estava vaiando, vibrou com a sua expulsão e a saída. O futebol, haja vista sua má fase, pouco perdeu. Mas e o nosso senso de humanidade?

Poucos dias atrás, uma outra desgraça, desta vez atingindo o (ex) todo poderoso José Dirceu, foi tratada com deboche e escárnio por centenas de internautas. Quando do anúncio de seu AVC (Acidente Vascular Cerebral) inúmeros comentários depreciativos surgiram nas redes sociais, fazendo troça com a doença do ex-ministro. Com os candidatos e a presidenta, o mesmo. O ministro Guido Mantega, em visita a um hospital, foi brutalmente hostilizado por pessoas na recepção. As figuras públicas perdem a sua condição de humanas, e passam a ser meros personagens, sem vida, história, subjetividade ou porvir.

Desumanizar é tirar do sujeito sua essência humana. É coisificá-lo para o nosso gozo, seja ele qual for. É olhar para uma mulher e reduzi-la a peitos e bunda, para um homem e torná-lo apenas força, poder e dinheiro. Um jogador de futebol vale apenas para o nosso gozo, sem que seus sofrimentos, sua vida, suas fragilidades e sua história sejam levadas em consideração.

O jogador Fabrício, soube-se hoje, tem um irmão que está preso, e outro que já morreu pelas mesmas razões: tráfico de drogas. Sofria pressão desumana de torcedores que achavam que ele não estava jogando o quanto devia. A pressão também chegava de uma “crônica esportiva” espetaculosa, insensível e grosseira, que ressalta ainda mais a objetualização dos jogadores, tornando-os marionetes de seus conceitos e alvos fáceis para suas piadas de gosto duvidoso. Por mais que se entenda que as gratificações monetárias para os jogadores são muito altas (para uma elite restrita e minúscula, como no caso do Fabrício) também é verdade que a tensão para cumprir metas, nunca errar, jamais falhar, lutar como um gladiador, oferecer o sangue, destruir a própria saúde em nome de uma bandeira é uma tarefa pesada demais para qualquer um, e mais ainda para meninos de origem pobre.

Não foram poucos os jogadores que pensaram em suicídio. Outro famoso jogador do Internacional, quando jogava no exterior, longe da família, sem falar o idioma local, sem amigos e sem referências, subiu no alto de um prédio e por pouco não se arrojou de lá, acabando com sua vida. Teve mais sorte do que Fabrício.

Fabrício explodiu, rompeu a corda. Diante de tanta tensão acumulada ele não aguentou a(s) pressão(ões). Não suportou o desprezo da torcida por quem se dedicava ao limite e jogou tudo para o ar. Todavia, quando o que ele mais precisa é de compreensão e de uma palavra amiga, ele recebe deboche, críticas, mais violência e desprezo. O objeto Fabrício passa a ser desimportante e, mais ainda, incômodo. “Joguem fora essa peça, ela já não nos serve mais.

Fabrício precisa de um abraço. Se serve o abraço de um gremista, aqui vai. Erga a cabeça, olhe para frente, pense na sua família, tente se acalmar. Existe um grande futuro ainda possível, se você puder ultrapassar este momento.

Vai passar, vai passar…

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Maioridade Penal

Criança presa 1

Existe uma “direita raivosa” (não me refiro a ninguém em especial) que pensa que a solução dos problemas da sociedade está numa visão moralizante, como se a humanidade se dividisse entre “bons” e “maus”. Uma espécie de moralismo fascista que acredita que eliminando os maus teríamos uma sociedade melhor. Isso gera uma série de atrocidades, principalmente porque nega a importância da própria estrutura social na geração de tais discrepâncias. Em verdade, os meliantes de hoje poderiam ser vistos como “resistentes” de uma guerra social, onde a maior parte dos recursos lhes é sonegada, e onde seu quinhão – a parte que lhes cabe neste latifúndio – nunca é entregue. Achar que seu extermínio ajudaria a sociedade é uma ingenuidade ou uma manobra interesseira.

Enquanto eles acreditarem que o sujeito é mau não vão perceber o quanto a sociedade é madrasta“.

Esta direita raivosa adora linchamentos e justiçamentos. Deve dar um prazer imenso ver um jovem de 16 anos apodrecendo numa prisão, enquanto a sociedade – fábrica de meliantes – mantém sua produção inalterada e a pleno vapor. Criar a injustiça e depois “limpar” os miseráveis da nossa vista é a maior prova de que nossa sociedade está doente.

Sempre que eu leio a historia desses meninos “bandidos” eu penso que provavelmente faria o mesmo que eles se minha vida tivesse sido regida pelas mesmas circunstâncias e contextos. Como Terêncio afirmo que “o que é humano não me é estranho“. Existe muito mais semelhanças entre um criminoso brutal e o filhinho de papai, bem alimentado, boa escola, pais presentes, afeto e necessidades supridas. Retire essa história dadivosa e sobrará apenas um humano desnudo, igual a todo outro, criminoso ou não. Dividir os humanos por uma essência “boa” ou “má” esquecendo-se da arquitetura social subjacente que os produziu é um crime contra a humanidade, uma perda de tempo e energias, que poderiam ser mais bem utilizadas na construção de uma sociedade justa e equânime.

Nas minhas peregrinações pelas redes sociais eu percebi que as mulheres eram majoritariamente  a favor da redução. Evidente que isso é apenas uma observação, e não tem valor científico. Mas sinto uma tristeza ao  constatar a queda desses mitos: o amor materno, o amor incondicional e a doçura essencial. Não… aparentemente elas amam os seus, acima de tudo. Os outros filhos, os deserdados da vida, os filhos das putas, esses que apodreçam nas cadeias infectas. Obrigado senhoras, por mais esta lição.

O que  penso ser relevante observar é que, de quem eu mais esperava sentimentos nobres e amorosos foi de onde vieram os comentários mais violentos. Quanto à ideia de diminuir a idade penal em si pouco resta a dizer. Mas as teses moralistas de uma parte da direita nacional – a mais raivosa – ficam evidentes. A ideia moralista e ingênua (minha opinião) é de um essencialismo pueril e preconceituoso: a divisão da sociedade entre “bons” e “maus”. Para completar a proposta de que, eliminando-se aqueles “maus”, sobrariam apenas os bons, ignorando a produção de criminalidade pela própria injustiça social. Esta tese nos obriga a acreditar que na Suécia os presídios estão sendo fechados por falta de prisioneiros porque os “suecos são bons em essência”, sem olhar para a distribuição adequada de renda e a dignificação do trabalho como fator civilizatório. Estamos colocando adolescentes para apodrecer na cadeia por esta visão estupidificante e tacanha da sociedade. E as mães, que na minha visão infantil seriam as guardiãs do amor e da compreensão, são as que mais aplaudem iniciativas que visam encarcerar meninos e adolescentes.

Mas não há nada a temer, senhoras; já sabemos que só pretos e pobres irão para lá. A senhora pode ficar tranquila: vamos limpar a sua rua dessa sujeira.

Veja o que acontece quando essa visão é levada às últimas consequências:

Criança presa nos Estados Unidos

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Moderação no Discurso

Algumas mulheres poderiam – em nome do respeito, da racionalidade e da boa convivência – aprender que discordar das suas opiniões NÃO significa desconsiderá-las, silenciá-las ou desmerecê-las. Debater com alguém demanda reconhecer visões de mundo diferentes e possibilidades diversas de olhar para o mesmo fenômeno. Escutar dignamente uma opinião diversa, sem adjetivos, ofensas ou criticas “ad hominem”, são condições indispensáveis ao debate.

Infelizmente nas redes sociais qualquer discordância significa malquerência. Uma mulher ofender um homem que ousou discordar dos detalhes de uma argumentação (mesmos tendo concordado com a conclusão) é muito triste de ver, pois determina o fim de qualquer possibilidade de interlocução.

E isso é sempre uma perda…

Debater é fundamental, mas entendo como o mundo virtual pode transformar uma conversa frugal em uma briga. Ontem fui discutir uma piada machista sobre a bunda da Yoko Ono e fui xingado, mesmo concordando com a tese principal e condenando o machismo explícito do chiste. Entretanto a pessoa dizia que Yoko era mais do que uma bunda, a qual “só serve para eliminar fezes“.

Aí eu discordei. “Peraí. Uma bunda é muito mais do que isso, e por seu valor simbólico e erótico ela é tão valorizada. Uma bunda é o quadril, as ancas, e por ali passam bebês. Passam dores e passam desejos. Ali está o sexo com suas reentrâncias e mistérios. Uma bunda tem valor simbólico, muito mais do que operacional. Para criticar uma piada machista não é necessário biologizar a bunda, ou o corpo da mulher“.

Por dizer isso e discordar da visão diminutiva de um fetiche (adorado em todos os povos, tanto quanto os seios fartos), fui agredido virtualmente, mesmo reconhecendo que a Yoko não merecia esta desconsideração de caráter objetual e machista.

Ok, “mea culpa“…

Eu já falei sobre isso, e a culpa é minha. Trata-se do “debate com as vítimas“. Quando um dos sujeitos do debate É vitima (como as mulheres são) qualquer “adversário” (pois sou colocado nessa posição) está inexoravelmente perdido. Ele não tem perdão por incorporar em sua fala, mesmo sem o desejar, o agressor. Se eu disser, em forma de conselho, que “as mulheres deveriam…” isso é transformado – antes mesmo de atingir a retina – em uma ordem indevida, e tratado de forma injusta como se uma violência fosse. Quando o debate fica assim e literalmente TODAS as palavras precisam ser vigiadas é por que o diálogo já acabou ha muito tempo e só o que resta é um enfrentamento de solilóquios.

Por outro lado é interessante notar como algumas mulheres chamam homens de “machistas” com total liberalidade. Creio que as que fazem isso não se dão conta como isso é ofensivo. Pior: não oferecem sequer uma defesa possível. Vou contar um segredo. Toda a vez que eu escuto uma mulher me acusar de machista, apenas por discordar dela sobre palavras ou detalhes de percepção, eu me sinto como uma mulher que, ao debater com um homem, é chamada de “mal amada”. Pense nisso antes de chamar um amigo seu de “machista”, principalmente quando o seu amigo simplesmente discordou de você.

Meu pedido é que debatam e dialoguem sem ofender, sem rotular ou adjetivar. E o meu “mimimi” não é gratuito. É uma tristeza de ver gente que não tem consideração pelo interlocutor. Que ofende apenas porque discorda. Que agride e fere, mas que reclama das (verdadeiras) agressões sistemáticas que sofre. Como eu disse anteriormente, quando as palavras precisam ser medidas para não serem usadas contra quem as proferiu é porque o desejo de debater deu lugar há muito tempo para sentimentos menos nobres.

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