Linguagem

A iniciativa do Liceu Franco-Brasileiro não obriga ninguém a usar “linguagem inclusiva”, mas permite que ela seja usada livremente por professores e alunos. Pelo menos foi assim que eu entendi na reportagem. A alternativa para isso seria a proibição, mas isso é absolutamente inaceitável. A língua é um “ser vivo”; ela é mutante e se transforma, como as espécies animais e vegetais no planeta, que se modificam para produzir adaptação a um meio ambiente que se altera constantemente. Por isso que “você” surge de “à vossa mercê” e tantas outras palavras e expressões aparecem da lapidação cotidiana de seu uso.

Imaginar uma língua imutável é pretendê-la morta, estéril, sem o uso que as pessoas fazem dela nas ruas, em casa, no contato com outros idiomas e no surgimento de novas palavras para novos objetos e circunstâncias.

O uso da “linguagem inclusiva” deve se submeter ao teste do uso. Se as pessoas aceitarem sua utilização e ela se tornar corrente e corriqueira, será naturalmente incorporada ao dia a dia – e posteriormente pela academia. Não existe “língua errada”, não existe falar incorreto; os idiomas são entidades em constante transformação. Só o tempo e os costumes podem incorporar formas de falar ou tornar outras obsoletas.

O resto é ranço de quem pretende a existência de linguagens “corretas” e “fixas”. Esse conservadorismo é inútil, pois é impossível interromper a transformação da forma como falamos.

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Mundos distintos

A jovem entrou no consultório carregando em uma mão a carteirinha de papelão surrado e na outra sua mãe, quase tão miúda quanto ela. À frente sua lustrosa barriga de 9 luas.

Sentou -se à minha frente e sorriu timidamente. Sua mãe começou a falar e eu a interrompi suavemente com a mão espalmada à frente. Por certo que a menina de olhar triste era “dimenor”, com o elas falavam, mas nem por isso deveria ter sua voz silenciada.

– Jéssica o meu nome.

Perguntei detalhes da sua gravidez enquanto desdobrava o papel amarrotado de seu pré-natal.

– Tive algumas dores e minha mãe disse pra eu vir ao hospital.

A mãe sussurrou em seu ouvido “fala do escorrimento”, mas eu escutei sem a necessidade que ela repetisse. Expliquei da normalidade de secreções inocentes pela descamação das células e pela produção de muco. Ela concordava balançando a cabeça, sem dizer palavra.

Procurei na folha de papel sua data de nascimento, mas me confundi com a letra ruim do prenatalista. Perguntei diretamente à ela.

– Tenho 14 anos, disse ela, sem parecer ter qualquer problema com essa informação.

Minha filha tinha apenas 5 anos na época. Não conseguia imaginar que em uma década ela pudesse estar sentada à frente de um médico numa consulta de pré-parto.

Por alguns instantes fiquei olhando os números esparsos de seus exames enquanto minha mente vagava pela realidade tão distante da minha. Dois universos completamente diversos se chocavam naquela pequena sala de entrevistas do hospital na periferia pobre de uma cidade grande.

Ali estava eu, o escafandrista. Mergulhado num oceano de significantes tão diversos da minha história, eu respirava por um tubo conectado aos meus valores e experiências de vida, traduzindo o idioma estranho e complexo que as pacientes falavam. Mas também em minha mente havia a certeza que não é possível entender as dores, os dramas, as tragédias, as alegrias e as conquistas sem se despir das vestes que separam estes mundos e deixar-se banhar pelas águas do campo simbólico onde atuamos.

Fiz os exames de rotina ao lado da mãe que, comportada, nada falou. Não havia motivo para preocupação, e bastava aguardar as dores que, por certo, chegariam em breve.

Olhei mais uma vez seu rosto e, incontido, resolvi cometer o erro fatal de traduzir sua vida pelos meus olhos. Sem dúvida, um erro juvenil e tolo, mas que hoje coloco na conta da presunção e arrogância da minha pouca idade.

– Mas, Jéssica, não é muito cedo?

Uma pergunta tola, sem sentido, sem valor e que só poderia produzir culpa e vergonha. Para ela, naquele dia; para mim hoje.

Para minha surpresa ela abriu um sorriso e disse sem titubear

– Não acho doutor. Já sou casada há dois anos e penso que é a hora de ter meu bebê.

Fechou seu cartão de pré-natal, levantou-se e chamou a mãe. Esta, que antes dos 30 anos já se preparava para ser avó, me cumprimentou com sua mãozinha frágil e sorriu sem jeito.

Mundos distintos.

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Gratificações

Há alguns anos fui convidado a participar de um evento em uma universidade local onde profissionais de múltiplas áreas tratavam de suas perspectivas específicas na área da saúde. A mim coube falar de “Humanização do Nascimento”, por certo.

Como estávamos no ambiente acadêmico minhas palavras foram recebidas com reserva por alguns professores presentes, em especial aqueles ligados à neonatologia. Para a imensa maioria desses médicos a humanização do nascimento é um tabu. Sua formação é centrada na atenção dos quadros mais complexos e limítrofes e quase nenhuma atenção (ou importância) é dada para a observação e a atitude não intervencionista da imensa maioria dos casos. Aliás, este o grande paradoxo do atendimento ao parto normal pela medicina: treinar exaustivamente para o enfrentamento de situações raras e pouco para o normal e o fisiológico, que são a regra no nascimento humano.

Porém, logo após a minha palestra entrou na sala uma nutricionista especializada em crianças com paralisia cerebral grave, e eu resolvi permanecer para ouvir suas palavras. Ela começou sua palestra deixando claro ser importante desmistificar a relação do parto normal com esta condição, o que já me deixou muito feliz. Depois disso começou a descrever as estratégias nutricionais usadas em crianças severamente comprometidas, em estados quase vegetativos.

Foi no seu relato apaixonado sobre a atuação sobre estas crianças que eu comecei a me questionar sobre nosso sistema de recompensas.

Tenho uma amiga que adora presentear seus netos. Compra para eles todas as bugigangas eletrônicas da moda. Certa vez eu lhe perguntei o porquê de tantos presentes e ela respondeu, de forma sincera e aberta: “Você precisava ver a carinha dela quando abriu o presente!!” Foi aí que eu formulei a minha tese de que os presentes são iscas que damos às crianças para recebermos o verdadeiro pagamento, aquele que vem com sua gratidão e seu amor. Somos os agraciados, não eles; garantimos o “presente do afeto” deles para nós mesmos.

O mesmo na medicina. Para mim é fácil ver o quanto trabalhar com o nascimento humano pode ser gratificante. O choro, a emoção, as lágrimas, a alegria contagiante dos casais e das famílias, a vida que (re)nasce em cada parto, o futuro da humanidade garantido, etc., são todos presentes que recebemos. Para cada parto, uma tonelada de agradecimentos, abraços, felicitações. Quem é, afinal, “presenteado” com o bebê?

Entretanto, quando eu vi a dedicação àquelas crianças, algumas delas quase irresponsivas – os muito severos – e o carinho devotado a elas eu percebi o quanto é necessário entender que a verdadeira gratificação vêm do sentido mais amplo da tarefa, e não das miudezas e dos agradecimentos que, por mais que sejam presentes maravilhosos para enfrentar as agruras da tarefa, não podem ser a única moeda simbólica para o nosso trabalho.

Senti vergonha da minha euforia diante das conquistas por nascimentos dignos e respeitosos. Senti pena de mim pela alegria incontida nos cumprimentos recebidos. Pude ver naquela bela menina o quanto o amor pela tarefa é muito mais importante do que qualquer outra recompensa em jogo

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Amor e Verdade

“Se o seu amor à causa for maior que seu amor à verdade, sua causa já morreu e você não notou”.

Erastus de Medina

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O que se é

“Se você continuar engolindo sapos para parecer bonzinho e mansinho, vai sofrer um revertério nas tripas e quem vai se ferrar é você”

Em outras palavras: diga a sua verdade, mesmo que isso signifique ser mal tratado por pessoas que não aceitam a diversidade de opiniões ou que acham que a paz do silêncio é melhor que os inevitáveis conflitos que a livre opinião acarreta. Não aceite ser silenciado pelos lacradores que preferem os aplausos à verdade.

Seja íntegro e expresse sua perspectiva de mundo acima da aceitação frouxa e pueril que poderá receber. Saboreie a dor e a delícia de ser o que se é….

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Sobre Kamala Harris

Não tão rápido com este entusiasmo sobre a eleição de uma negra para a vice-presidência dos Estados Unidos. Lembrem apenas que eles já tiveram um presidente negro, e esse negro jogou bombas e matou milhares de cidadãos de pele escura no Oriente Médio. A cor dela é importante, mas pode facilmente sucumbir a outras vinculações e compromissos.

Eu pessoalmente acho que há muitas outras questões em disputa. A celebração por Obama resultou numa gigantesca frustração, pois ele foi um presidente genocida e cruel. Do ponto de vista da saúde pública um desastre; para os imigrantes um terror. A cor de sua pele não fez diferença alguma e os alvos mais afetados de sua política continuaram sendo as pessoas de pele escura. Quem quiser pode ver aqui as palavras breves de Cornel West – filósofo e pensador contemporâneo americano – para que a miragem da cor da pele não deixe as pessoas – mais uma vez – iludidas.

E veja bem, para a comunidade imigrante, gay e negra a vitória de Biden é um alívio, exatamente porque representa a queda de Trump. Entretanto, eu apenas peço “calma” na comemoração. Não vou torcer contra o sucesso dela, pelo contrário. Entretanto, a nossa experiência prévia com essa representatividade nos exige ponderação, pois a cor da pele não produziu nenhum benefício palpável para a comunidade negra americana.

Outro dica é esse debate entre Chris Hedges e Cornel West, extremamente útil nestes tempos de desencanto – mas de esperança. É longo porém muito elucidativo. No meio do debate eles falam do legado de Obama e o significado prático de um presidente negro à frente do Império. Sugiro que vejam, até porque são dois grandes expoentes da cultura americana falando sobre vários temas, em especial racismo e representatividade

Mas não se deixem enganar; os argumentos para deslegitimar Obama e sua governança não vem da direita; vem de todos os lados, principalmente da esquerda e dos negros, extremamente frustrados com sua administração. E vejam, vou repetir: não quero julgar o governo desses gringos antes que ele aconteça. Apenas pedi ponderação para não haver uma cobrança desproporcional gerada por uma expectativa ilusória. Os Estados Unidos são um império decadente que despenca vertiginosamente e não há presidente que possa negar esse fato, muito menos interromper seu notável declínio. Qualquer um, de qualquer cor, verá as tensões raciais aumentarem. Kamala é uma punitivista, promotora durona. Não joguem suas fichas todas em gente da direita.

Esta é a minha postura no momento:

– Comemorar a derrota de um supremacista branco é algo não só plenamente defensável como necessário. Nenhum militante suporta psiquicamente por muito tempo essa proibição de gozar vitórias, mesmo quando parciais e de um certo ponto de vista insuficientes. Na pior das hipóteses o Bolsonaro está irritado e isso, por si só, é motivo de comemoração de todos os progressistas.

– Ficou evidente para o mundo inteiro a farsa plutocrática da “democracia” americana e a falência de suas instituições. Um país que, em pleno século XXI não adota “1 person = 1 vote” não pode ser considerado democrático.

– Kamala Harris é uma punitivista que mandou vários jovens negros para a cadeia por posse de maconha. É uma virtual candidata a criminosa de guerra impune. Como Obama. Não coloquem a cor de sua pele acima de seus compromissos com a direita americana.

– O candidato que representaria alguma mudança estrutural, Bernie Sanders, foi interditado pelos oligarcas do partido democrata americano. Creio que a esquerda americana (que, sim, existe) deverá em futuro próximo centrar suas forças no fim do colégio eleitoral. Esta é a condição mínima para o surgimento de um partido de fato de esquerda com alguma viabilidade eleitoral. (adaptado de Alexandre Vasilenskas)

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Trincheiras

Lembram em 2018 quando Lula foi preso sem provas num esquema que envolvia a “joint venture” entre a mídia e uma parcela fascista do judiciário? Lembram do que a esquerda dizia? “Lula está sendo preso sem provas, apenas pelas convicções sem base dos promotores alucinados. Não há crime!! Não há provas!!”

Hoje as mesmas pessoas que defenderam Lula parecem não mais se lembrar da destruição que Lula passou pelas redes sociais, o julgamento falso a que foi submetido e o martírio de ficar mais de 500 dias preso sendo inocente. Lula foi encarcerado pelo que era, e não por algo que fez. Nunca encontraram provas contra Lula, e várias provas de sua inocência foram se somando ao processo. Não obstante, o massacre midiático não será facilmente curado numa cultura dividida.

Se a esquerda não assumir como princípio essencial a defesa do Estado Democrático de Direito e do devido processo legal não haverá porque continuar existindo. Sem essa estrutura basilar da civilidade seremos apenas selvagens com smartphones.

Meu pai me repetia um antigo provérbio chinês que dizia: “Só podes me fazer mal se me fizeres mau”.

Dizia ele: “Sem que o teu mal me contamine sou imune. Se minha alma se mantiver firme nenhum ataque me atingirá”. A virtude é algo que se gesta no âmago de nossa alma, e só nós temos o poder de perdê-la; ninguém a tira de nos sem nossa permissão.

O que me entristece no lado de cá das trincheiras é ver o discurso autoritário e antidemocrático gritado lá do outro lado fazendo eco nas palavras dos meus irmãos. Se eles queriam o nosso mal, sabem que só terão sucesso nos tornando maus.

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A Internet em Tempos de Cólera

– …. portanto, nunca é demais esquecer que Hitler matou 10 milhões de judeus no holocausto da segunda guerra mundial, e estas mortes todas poderiam ser…
– Errrr, na verdade não foram 10 milhões. Muitos falam em torno de 6 milhões, o que se considera um número oficial de vítimas da comunidade judaica.
– E que diferença faz?
– A diferença é a precisão, estar mais próximo verdade, não espalhar fake news.
– Você entendeu o que eu quis dizer, seu nazista.
– Sim, eu entendo, apenas tentei consertar seus números equivocados. Seu argumento perde credibilidade e força se contiver esses erros factuais. Mas … por que me chamou de “nazista”?
– Ora,, porque você está desmerecendo as mortes do holocausto, discutindo detalhes – como número de mortos – quando o ponto é questionar a barbárie cometida em nome das ideologias, seu machista.
– Mas eu não questionei seu ponto, apenas seus dados incorretos!!! Como eu disse, estava tentando lhe ajudar, consertando um equívoco com o número de vítimas. E por que agora me chama de “machista”?
– Por que eu sou mulher e você está me interrompendo. Além disso está questionando a minha verdade, achando que por ser homem e branco sempre terá razão!!!
– Mas.. eu apenas tentei lhe ajudar!!!
– Chega de tentar me dizer como devo pensar, o que devo dizer e como preciso me expressar!! Apenas respeite minhas palavras!!
-…….
– …. continuando, a ideologia comunista de Hitler levou o mundo a um colapso com repercussões que…
– Desisto. Nave mãe, pode voltar. ET, telefone, casa…

(história baseada em fatos reais)

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Causas

Quando a causa nobre esconde a verdade crua e seus objetivos finais atropelam inocentes então quem perde é a causa e quem morre é a verdade.

Esther Salvatore Etchegaray, “Las Flores y las Abejas”, Ed. Printemps, pag. 135

Esther Salvatore Etchegaray nasceu em Bilbao, no país Basco e estudou na Euskal Herriko Unibertsitatea (Universidade do País Basco), tendo se formado em filosofia e arte. Escreveu “Las Flores y las Abejas” (Loreak eta erleak) em 2004, sendo publicado em espanhol pela editora Printemps. Seu livro fala os dilemas éticos que permeiam as grandes causas políticas do século XXI, em especial as lutas de libertação de caráter nacionalista.

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Massacres cotidianos

Já pensaram como deve ser o massacre contra meninos pretos e pobres diante das acusações – por vezes levianas e sem sustentação – nos juizados pelo Brasil afora? Se nos Estados Unidos, onde os direitos humanos e a proteção aos réus é mais solidificado, existem casos brutais de condenações motivadas por raça e classe social (como o caso de George Stinney na foto acima), imaginem como deve ser o desrespeito, o racismo e o preconceito de classe contra esses jovens aqui no Brasil. Quantos jovens estarão encarcerados agora apenas por sua cor? Quantos meninos estão hoje atrás das grades apenas como punição para a condição de pobreza a que são submetidos?

O punitivismo – de qualquer tipo – é um câncer da direita que infecta até as alas liberais da esquerda. Precisa ser extirpado, destruído e esquecido, porque se baseia num conceito de sociedade dividido entre “bons e maus”, de viés essencialista e moralista, que nega os contextos sociais na produção dos delitos e do crime.

O abolicionismo penal entende que, para alguns tipos de crime, ainda não temos recurso melhor do que o afastamento da sociedade. Entretanto, a visão abolicionista prega que a ideologia da punição e do castigo é absolutamente ineficiente para diminuir a criminalidade e para gerar uma sociedade de paz. Só a equidade e a justiça social serão capazes disso. E para este fim precisaremos de um esforço pela paz, pois sem paz continuaremos divididos e em eterna guerra.

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