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Diferenças

Tenho uma tese que carrego há décadas. As divergências morais e intelectuais entre os humanos são muito pequenas. Assim como nas minúsculas diferenças genéticas que temos com nossos primos primatas, as distâncias entre gênios e sujeitos comuns são ainda menores. No grande espectro são desprezíveis. As nossas discrepâncias são muito menores do que as semelhanças. Ainda mais posso dizer entre gêneros e “raças”. Não há qualquer diferença moral ou intelectual entre homens e mulheres, ou entre qualquer etnia.

A diversidade observada pode ser facilmente explicada pela história e pela geopolítica dos últimos 80 séculos, o que não é nada se levarmos em conta que isso representa menos de 5% do tempo em que vivemos na Terra. Exaltar um grupo especial ou desmerecer outro com essencialismos provou-se tolo e sem embasamento. Acreditar que homens são mais burros ou violentos que mulheres e que negros são mais nobres que brancos – e vice versa – só serve a quem semeia divisões e mentiras.

Não é apenas a quantidade de informação o elemento essencial para a valorização de um profissional, mas o valor que se dá às pessoas que realizam estas funções. Não fosse assim um astrofísico ganharia mais do que um astro… de futebol, e uma professora ganharia o mesmo que um médico e assim por diante. A valoração que damos é muito mais política e cultural do que baseada no acúmulo de saberes e técnicas.

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O Hiper Macho

Sempre achei que os puros homossexuais seriam estes, ao estilo Donovan, porque neles existe a masculinidade exclusiva, hiper masculina, certeira, indubitável, positiva, com a veneração do falo e a total supressão do feminino.

Nessa perspectiva masculinista o gay efeminado, delicado, suave, frágil seria “apenas” um sujeito que adora mulheres a ponto de imitá-las em seu gestual e na preferência por homens; ele não seria o “gay genuíno”. O guerreiro, o gladiador, o super atleta seriam os reais paradigmas masculinos máximos, onde as mulheres representariam a falta de tudo quanto valorizam e admiram.

Donovan é o melhor exemplo de um mundo sem diversidade, pobre em tudo o que a mulher é capaz de oferecer enquanto pensamento e sentimento feminino. Suspeito que por trás de tanta masculinidade está um sujeito com um medo terrível do que significa a pergunta que cada mulher nos apresenta.

Pensamento engraçado: imaginar o Donovan atendendo um parto ou cuidando de um bebê. No meu ponto de vista o mundo de Donovan seria tão miserável quanto uma sociedade de Amazonas.

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Epistemicídio do Parto

Quando iniciei a atender partos de cócoras por estas bandas tal proposta era tratada como “parto de índio”. Colaborou para isso o fato de que o mestre Moyses Paciornik incentivava seu uso a partir da observação dos povos indígenas que mantiveram esta prática aqui no Brasil.

Todavia, o uso da expressão “índio” ou “indígena” era carregada de um preconceito óbvio e indisfarçável. Atender partos assim era aceitar a manutenção de práticas nativas que teriam sido suplantadas pelo rigor científico e metodológico que chegou aqui com os colonos brancos e europeus. Aceitar a posição de cócoras como uma postura materna válida para o período expulsivo significava a adoção de um paradigma já “suplantado”, que deveria ser abandonado como um anacronismo sem sentido.

É evidente – agora – que se tratava de um epistemicídio planejado, e a tentativa de garantir para a assistência branca e europeia uma narrativa hegemônica. Para mim ficou muito claro que agir em contraposição à prática submissa da litotomia (com a paciente deitada de costas na mesa) era também rebelar-se contra a monocultura do parto. Esta proposta era ofensiva aos olhos dos médicos daquela época, e todas as falácias eram usadas no sentido de tornar a postura de cócoras um absurdo e até uma violência.

Nunca tive dúvidas que adotar uma atitude contra-hegemônica seria difícil e passível de sofrer todo tipo de abusos e “bullying”, até porque mais do que tratar de uma manifestação cultural – como uso de medicamentos, rezas, rituais ou práticas esotéricas – o nascimento tem muitos outros significados ocultos, pois “implica, em um único evento, vida, morte e sexualidade”, como dizia Holly Richards. Apoiar a visão de pluralidade e diversidade no parto jamais poderia ser um ato impune.

Da mesma forma como a opção pelo modelo de parteria, o parto extra hospitalar, a homeopatia como alternativa primeira e até a abordagem da psicanálise, a mudança das “posturas de parir” visavam estabelecer uma barreira à homogeneização da assistência, uma contra narrativa que se opunha ao empobrecimento da compreensão de um fenômeno ímpar e subjetivo, carregado de elementos sexuais potencialmente transformadores.

Hoje em dia o reconhecimento da importância dessa variabilidade cultural já está mais presente, mas ainda é evidente a tendência da Academia e do ensino de obstetrícia para uma visão monolítica e fechada em suas práticas “científicas”. Entretanto, sem a compreensão do parto como evento SUBJETIVO e CULTURAL jamais teremos uma assistência plenamente satisfatória.

Veja mais sobre epistemicídios aqui.

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O que se é

“Se você continuar engolindo sapos para parecer bonzinho e mansinho, vai sofrer um revertério nas tripas e quem vai se ferrar é você”

Em outras palavras: diga a sua verdade, mesmo que isso signifique ser mal tratado por pessoas que não aceitam a diversidade de opiniões ou que acham que a paz do silêncio é melhor que os inevitáveis conflitos que a livre opinião acarreta. Não aceite ser silenciado pelos lacradores que preferem os aplausos à verdade.

Seja íntegro e expresse sua perspectiva de mundo acima da aceitação frouxa e pueril que poderá receber. Saboreie a dor e a delícia de ser o que se é….

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Da nossa inutilidade

É bem provável que os homens venham a se tornar paulatinamente desimportantes e inúteis para a reprodução. Talvez seja mesmo o que nos espera ali na esquina e é lícito imaginar que seguimos nesta direção.

Entretanto, a ciência também descobre aceleradamente meios de produzir gestações fora do útero, e a facilidade de construir um espermatozóide deve ser tão complexa quanto a de construir um óvulo. Assim sendo, a desnecessidade de mulheres na perspectiva biológica também é uma sombra no futuro. Isso sem falar nas gestações implantadas no peritônio de homens e sua subsequente suplementação hormonioterápica. “Homens-mãe” pairam sobre nosso espectro de possibilidades há muito mais tempo do que a criação de “girinos biônicos“.

Para quem acha o sexo oposto um entrave à felicidade e uma fonte inesgotavel de mágoas insolúveis, tais avanços tecnológicos poderão ser encarados como boas notícias. Para aquela “minoria” que enxerga a diversidade psíquica advinda do dimorfismo sexual uma das chaves para o nosso sucesso neste planeta, podemos antever o prenúncio do Armagedom.

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