Parteria no século XXI

O desprezo pela arte da parteria e a introdução do médico no acompanhamento da gravidez de risco habitual e na assistência ao parto eutócico foram os piores decisões tomadas na assistência à saúde no século XX. Esse modelo tecnocrático foi muito mais fortemente introduzido nos países satélites dos Estados Unidos, e muito menos intenso na Europa, sendo estes últimos os países que apresentam qualidade melhor nos índices de saúde materna e neonatal. Não por acaso. Essas evidências deveriam nos guiar, mas precisamos aumentar a pressão para que sejam adotados modelos mais adequados e justos.

A falta de evidências científicas que amparem um sistema centrado no médico, associado ao desprezo pela qualidade milenar da assistência das parteiras, demonstram que essa imposição só se sustenta pelo uso da força. Somente uma narrativa despregada da ciência permite que continuemos investindo num modelo caro e inefetivo.

A adoção de um novo/ancestral modelo centrado na atuação das parteiras profissionais à gestação e parto de baixo risco deverá ser a tarefa a atravessar o século XXI para que as mulheres possam alcançar o melhor de dois mundos: a qualidade e a delicadeza do atendimento das parteiras associado ao melhor que a ciência pode oferecer na correção das patologias, com sistemas de referência ágeis e respeitosos com os profissionais envolvidos.

A manifestação da Febrasgo está em sintonia com esta imposição de modos pelo poder, seja ele econômico ou pela condução da narrativa enviesada que controla a tecnocracia. Deve ser repudiada não apenas por quem preza a assistência de qualidade às gestantes, mas também por quem respeita a ciência – com a qual estas decisões deveriam estar sempre conectadas.

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Obediência

Quatro sujeitos entram em um mercado num dia muito quente de verão. Pelo calor reinante os rapazes adentram no local sem as camisas. O proprietário imediatamente pede que coloquem a roupa e aponta o cartaz com a proibição afixado ao lado na porta.

Os quatro rapazes brincam e avisam que não vão demorar pois querem apenas comprar refrigerantes e já vão se retirar. O proprietário, impaciente, pede uma segunda vez enquanto, ato contínuo, acena para o carro de polícia que está estacionado em frente.

Três policiais entram enquanto os meninos estão pegando os refrigerantes. Ainda com a porta do balcão refrigerado aberta, três deles são empurrados a força para fora, mas um deles é jogado no chão e tem a cabeça prensada pelo joelho do policial. Sua boca sangra enquanto as algemas são colocadas em seus punhos, colados em suas costas.

Ele então pergunta, “Por que essa violência? Viemos comprar refrigerante!! Nada disso é necessário!!”. Enquanto isso seus amigos assustados aguardavam olhando através do vidro do mercadinho.

“Cala boca, neguinho” grita o policial com o nariz grudado no rosto do rapaz. “Você vai aprender a obedecer quando lhe mandarem fazer algo.”

O jovem negro, ainda com a face colada ao piso frio, observa seus três amigos brancos aguardando, enquanto a viatura policial grita o som angustiante de sua presença.

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Midwifery

Midwifery is a state of mind, that moves between anguish, fear, ecstasy and profound exhaustion. Is one of the most exciting professions, which combines tenderness and a strong spirit. It would be job that God Herself would be doing if she was not birthing the Universe. “Pregnancy is when the entire universe fits within your own belly”

Joanne Aston, “Midwifery in a Nutshell”, ed. Politeus, pag. 135

Joanne Becker Aston, nasceu em Manchester na Inglaterra em 1882, imigrando para os Estados Unidos no início do século XX após se casar com Erick Perman, um alfaiate de Yorkshire. Por influência de sua sogra tornou-se parteira nos subúrbios de Boston onde passou a morar. Tornou-se rapidamente uma referência para a sua comunidade, tendo atendido centenas de partos, além de ter oferecido aconselhamento para mulheres sobre saúde sexual e reprodutiva. Era chamada de “Fada de Quincy”, pela doçura e dedicação com a qual atendia as mulheres e suas famílias. “Midwifery in a Nutshell” é um livro biográfico de casos, histórias, conceitos (muitos deles hoje vistos com estranheza) e tratamentos usados no início do século XX para a assistência ao parto.

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Carrefour

“E os brancos que são mortos por negros? Eles não valem nada?”

Suas mortes são igualmente lamentáveis, mas pense bem: eles não morrem POR SEREM brancos. No caso do Carrefour o racismo é o principal elemento da cena, mas por certo não o único. A violência absurda, a covardia e o uso abusivo da força também contam. O poder econômico de uma grande rede de supermercados multinacional atacando a ponta frágil da sociedade – preta e pobre – é inegável e não podemos fechar os olhos para essa face cruel do capitalismo.

Mas a observação da Bebel é certeira e vai no ponto: se fosse branco nada disso teria acontecido. Alguém conversaria com ele, chamaria um responsável da loja e acabaria tudo sem maiores problemas. Vejam os vídeos dos barracos que brancos fazem e perceba a diferença. É a cor da pele, é a cor…

Sim, ele morreu por ser negro, sua condenação estava na escuridão da sua pele. Um negro não tem o mesmo direito de fazer um “barraco” e tudo ser resolvido na conversa, chamando o gerente. Não, com eles é na porrada no mata Leão, na asfixia – há pouco tempo, no chicote. A execução é sem júri, sem advogado; é no chão frio da rua, atrapalhando as “pessoas de bem” que vão fazer suas compras.

Claro que há negros que matam brancos, mas mostre para mim um grupo de negros pulando e asfixiando um branco apenas por ele ter sido inconveniente ou abusado. Onde estão?

A desculpa, quase onipresente aqui e nos Estados Unidos, é bem conhecida por todos nós: Por que ele resistiu? Por que não cooperou com as “autoridades”? Pois eu acho essa pergunta a maior das ofensas, pois no fundo ela significa: “Hei negro, ponha-se no seu lugar. Quando a gente manda, você obedece!”

Para um negro, reagir a uma injustiça é sempre um crime inafiançável. A eles só cabe a resignação e o silêncio.

O racismo fica evidente quando o que para nós brancos é tratado como “exagero” ou “inconveniência” para os negros significa uma sentença de morte.

Os não brancos são 51% desse país. Por quê nossos irmãos são tratados com muito mais crueldade que qualquer animal? Ontem foram 80 tiros. Um pouco antes Amarildo. A juventude negra continua sendo massacrada diariamente pelo Estado racista.

Até quando???

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Fim de festa

É verdade isso… Um dia você sai com seus amigos para jogar bola, soltar pipa, brincar de correr pelas ruas do bairro, tomar um sorvete no bar do seu João. Dão risadas, conversam, fazem “cabo de guerra”, se abraçam, trocam figurinhas e jogam bolinha de gude. Quando a noite se aproxima voltam todos para casa, sem se dar conta que aquela foi a última vez que todos compartilharam sonhos, alegrias e esperanças.

Talvez seja melhor que a gente não saiba, senão esse derradeiro encontro seria difícil de aceitar. É bom que estes laços se desfaçam sem que a gente perceba, para que o fim da infância não seja marcado por uma lembrança tão triste.

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Falsos consensos

Infelizmente o padrão na atualidade não é a confrontação de ideias, o contraditório e o respeito pelas visões discordantes mas o cancelamento, a perseguição pelas posturas, os abaixo-assinados com pedidos de demissão, a difamação, as pressões pela punição severa e a destruição sumária da reputação.

Pouco ou nada importa que o alvo da ira de agora seja alguém que durante décadas esteve ao lado da “nossa causa”; basta uma única posição discordante e você é jogado na lata de lixo, descartado, aniquilado e humilhado publicamente.

Esse sistema de terror faz com que, diante de casos públicos conhecidos e muito publicizados, aqueles que tem uma visão diferente da massa enfurecida se calem, com medo dos ataques e das violências virtuais. Reina um silêncio constrangedor nas redes, criando a falsa impressão de unanimidade. Tornou-se comum que, nos agora raros encontros pessoais, algumas pessoas sussurrem entre si: “eu não vejo dessa forma e não concordo, mas não posso falar sobre isso publicamente pois serei executado se disser o que penso”.

A tirania do senso comum faz vítimas todos os dias nas redes sociais. Quem escreve sabe que uma mínima palavra descontextualizada pode acender o estopim de uma reação violenta e cruel.

Minha opinião? No futuro próximo vai acontecer um fenômeno de reação a isso. A intolerância de alguns grupos será vista como realmente é: um sistema cruel de silenciamento, cujo objetivo é forjar consensos na marra e através da violência virtual. Por fim, as pessoas vão se voltar contra estes ativistas que se escondem por trás das belas causas para melhor espalhar opressão e despotismo.

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Causas e meios

Há um desespero notável nos tempos atuais na busca de “causas” onde, ao mesmo tempo que se estimula a proteção de minorias que sofrem, é também possível odiar um enorme contingente de pessoas. Esta é uma das armadilhas mais comuns das redes sociais. Somos levados a nos seduzir pelo discurso amoroso de apoio e auxílio sem perceber que muitas vezes o motor principal de muitos ativistas é a liberação para o ódio sem culpa.

Camille Deschamps-Dreyfus, “Le monde Souterrain du Web Mondial”, ed. Barroque, pág. 135

Camille Deschamps-Dreyfus nasceu no Cambodja em 1970, filha de um diplomata francês e uma oftalmologista. Escreve para revistas femininas na França, onde vive na atualidade.

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China

“A China, recém-eleita para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, acaba de analisar os EUA e insta o país a erradicar o racismo sistemático, enfrentar a brutalidade policial e a proliferação de armas, parar de estigmatizar a pandemia e interromper a intervenção militar em outros países.”

Desculpe, mas qual o motivo do espanto? Racismo sistemático na cultura americana é impossível de não enxergar; brutalidade policial é uma realidade impressionante nos Estados Unidos, proliferação de armas produz o “mass shootings” praticamente diários no país que mais valoriza o armamento pessoal, politizar a pandemia é uma realidade lá e em outros países (como o Brasil) e o imperialismo e a intervenção militar em outros países não pode ser negado por qualquer pessoas que leia o jornal. Por que isso causaria espanto e surpresa?

Vejam, a China não é nenhum paraíso, mas erradicou a fome e a pobreza que são crescentes nos Estados Unidos. Aos poucos se torna a maior potência econômica e tecnológica do planeta. A proibição de armas na China faz com que mortes e assassinatos sejam raríssimos. O racismo na China nunca foi institucionalizado como nos Estados Unidos, cujo modelo “Jim Crow” deixou Hitler tão apaixonado, querendo explicitamente importar o modelo racista americano para a Alemanha pois achava que o racismo Yankee era o mais adequado para seu país.

A brutalidade policial na China jamais será semelhante àquela dos Estados Unidos, a mais violenta polícia do mundo, a que mais mata (depois da polícia brasileira) e a que mais é motivada por diferenças raciais. A China não tem nem de longe este tipo de problema. A China encarou a pandemia como devia ser encarada, com seriedade e ações de saúde pública e sem partidarização. Por essa razão, mesmo com uma população 4-5 vezes maior que os Estados Unidos teve apenas uma fração de suas mortes.

A China pós revolução de 1949 nunca invadiu outros países (com exceção do Tibete, onde imperava um sistema escravagista e teocrático), nunca teve uma atitude imperialista, jamais bombardeou países da Ásia como a Coreia, onde 1/3 da população morreu pelas bombas americanas. Sim um terço de todas as pessoas de lá morreram (mulheres e crianças) pelas ações imperialistas. Vietnã, Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen, Líbia foram destruídos pelo imperialismo americano, produzindo dor, morte e destruição. Sem falar nas ações de espionagem e sabotagem nas democracias da América Latina.

Não se trata de achar que a China é um paraíso e que não tenha problemas graves. Poluição e corrupção são dois muito chamativos. Entretanto, acreditar que o mundo ocidental tem mais liberdade do que a China é algo que só pode ocorrer pelo desconhecimento do sistema chinês, o sistema mais meritocrático de todos aqueles criados para a administração pública.

O modelo político liberal burguês é que precisa explicar o seu fracasso, que pode ser facilmente entendido quando vemos Bolsonaro como presidente e os Estados Unidos tendo que decidir entre um psicopata e um “senhor da guerra” senil.

Mais uma vez: não considero a China um exemplo a ser seguido cegamente, mas permitam que eu me surpreenda com o preconceito com a China e a aparente exaltação do sistema brutal do imperialismo americano.

Pergunta final: quantos cidadãos do mundo foram mortos nos últimos 10 anos por americanos e quantos o foram por chineses? Quantos chineses foram mortos por forças do seu próprio Estado na China e quantos americanos foram mortos pela polícia americana? Perceba: o sistema capitalista mata seus próprios cidadãos, enquanto no socialismo a ideia não é matar através das ações do Estado.

Desafio a assistirem este TED Talk que trata do debate sobre a democracia representativa e o modelo chinês.

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Travessuras

Ontem meu neto Henry caiu caiu da árvore e logo depois quando se levantou do chão disse entre lágrimas e choro: “quebrei o ossinho do meu braço”. Meu mundo (que já se equilibra com dificuldade e está cambaleante) caiu diante de sua dor e sua angústia. Ao ver que a dor não passava seu pai o levou ao hospital e constataram a fratura. Depois de velho eu tive a chance de reviver a angústia causada pelas travessuras infantis e as marcas que elas produzem na nossa alma.

Enquanto se preparavam para ir ao hospital eu procurava algumas medicações enquanto Zeza contava histórias para que ele se acalmasse. Foi então que eu lembrei para o que servem os avós: eles são úteis para lembrar aos filhos que não se apavorem com as tempestades; por pior que sejam, sempre haverá um amanhecer. O que os velhos podem oferecer de melhor aos jovens é sua própria velhice e a esperança de sobrevivência que ela representa.

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O Velho Soldado

Ele já havia passado dos cinquenta anos, e isso era denunciado pela cor dos cabelos e pela falta deles bem no centro da cabeça. Era um oficial da reserva e estava acompanhando a esposa, que carregava o indefectível sacolinha de exames. Haviam me procurado cheios de indignação. Falavam em processar o médico que os havia atendido no parto anterior, cujo bebê tinha pouco mais de um ano e meio. Primeiramente tentei acalmá-los, mas ele era o mais bravo e inconformado.

– Não tem desculpa isso, doutor, e o senhor bem sabe. Como pode uma mulher engravidar depois de ter ligado as trompas? Eu já tinha 4 filhos, nem queria mais nenhum. Já marquei a cesariana com seu colega para a minha mulher poder “desligar” as trompas. Cinco é um bom número, não acha? Eu estava conformado, mas agora olha esses exames!!! Será possível que dar um nó num tubinho é assim tão difícil?

Mostrou o Planoteste recém feito que se mostrava positivo.

Sua esposa, que tinha se mantido calada até então, resolveu falar.

– Sim, doutor, vou ter meu 6º filho agora, depois de ter realizado uma cesariana para ligamento das trompas. Foi seu colega, o Dr. Eustáquio* quem a fez. Isso não pode ficar assim.

Ela estava no meio da gestação, por volta de 20 semanas. Tinha 4 partos normais e uma cesariana, exatamente aquela realizada com o único objetivo de realizar a ligadura das trompas.

Expliquei demoradamente que, por melhor que uma cirurgia tivesse sido realizada não há como descartar uma recanalização. Disse também que confiava na capacidade do Dr. Eustáquio e que culpá-lo por este incidente era injusto e não levaria a nada.

Apesar das minhas explicações eles se mantiveram indignados, acreditando que esta gestação era fruto de uma falha do profissional. Terminamos aquela consulta inicial e marcamos a seguinte. Todavia, à medida que o pré-natal prosseguia, eu consegui convencê-los de que pensar no passado de nada ajudaria a enfrentar o novo desafio. Mais importante era planejar esta nova vida que chegaria. Falei para eles os conselhos usuais para a gestação e deixei claro que qualquer projeto de nova ligadura só poderia ocorrer no pós parto.

Assim se fez. Depois mais alguns meses ela entrou em trabalho de parto e pariu lindamente seu filho na mesa de cócoras que eu havia introduzido Centro Obstétrico do nosso acanhado hospital. Desta vez, ao contrário de todas as outras gestações, o marido esteve presente durante todo o processo. Assistiu extasiado o nascimento de seu sexto e último filho.

Na consulta imediatamente após o parto, a face do esposo estava transformada. Ao invés de me cumprimentar de forma protocolar me deu um longo abraço. Falou da alegria de ter testemunhado algo tão impressionante como o nascimento de uma criança e que, agora de cabeça fria, agradecia à natureza marota que lhes pregou uma peça e permitiu a chegada do novo bebê.

– Sabe o que mais me impressionou? Eu cortei o cordão, doutor. Depois do nascimento contei para todos os meus velhos companheiros de quartel que eu mesmo havia cortado o cordão umbilical. Eu senti com a tesoura que o senhor me deu a textura daquele fio que leva sangue para o bebê!! Descrevi esta cena para minha turma como uma criança conta o brinquedo novo para seus amigos da escola. Foi algo inesquecível!!

Sorri da sua euforia diante da magia do nascimento. Disse a eles apenas que o nascimento de uma criança também serve para desarrumar nossas certezas e para mostrar nossas potencialidades humanas. Nascer é bem mais que chegar neste mundo; é fazer o mundo se transformar pela nossa chegada.

Quando levantei de novo o olhar, o velho soldado chorava.

* Nome fictício

(Lembrei dessa história depois de nossa breve conversa tão cheia de lembranças bonitas, Luciane Chiapinotto)

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