Doulas e tretas

Não acredito que haja muita “treta” nos debates contemporâneos sobre os cursos de doulas que se espalharam pelo Brasil. Em verdade eu vejo quase um consenso. O problema é que quando nós começamos a dar cursos no Brasil no início desse século havia dois polos de formação. Havia o grupo da ANDO que eu ajudei a criar com Fadynha, Lucia, Cristina, Renata e Zeza (que depois se desmembrou) e o grupo do GAMA – Ana Cris – no qual eu mesmo cheguei a dar aulas no início. Só isso para todo o Brasil, há 15 anos atrás. Era muito pouco, mas era o desbravamento de um campo completamente novo.

Hoje em dia existem dezenas de cursos proliferando pelo Brasil, o que não é ruim. Não vejo mal algum que possamos capacitar doulas para que elas estejam disponíveis em cada canto do Brasil. Por mim pode haver centenas de cursos, desde que não desvirtuem o papel da doula, retirando ou acrescentando as funções reconhecidas de sua prática.

Lembrando: doula não verifica sinais vitais, não avalia dilatação, não atende parto e não dá assistência médica ou de enfermagem ao recém-nascido ou à mãe. Doula é uma acompanhante de parto treinada par a dar conforto à parturiente.

Vou apenas acrescentar que doula pode ser analfabeta, velha ou adolescente (menor de idade eu faria restrições por causa dos partos hospitalares), homem ou mulher (já briguei muito por causa disso), cis ou trans, bonita, feia, gorda, magra, forte, fraca. Tímida ou espalhafatosa.

Quem escolhe é a mulher.

O problema que surge agora é a disputa por espaço. Criou-se a ideia de que os cursos “longos” são melhores, o que não condiz com a verdade das pesquisas. Também surgiu a ideia de que estágios são “essenciais”. Não creio nisso, apesar de que essa será uma ideia boa quando houver campo de estágio onde ocorram partos minimamente respeitosos. Levar doulas para assistir parto violento, episiotomia, parto deitado, puxo dirigido e Kristeller no SUS (e no privado) não ajuda ninguém.

Portanto, o choque que testemunhamos agora é o resultado natural de uma ideia de sucesso. Só há conflito porque o modelo contagia a todos. Resta a todo mundo que participa dessa história lutar para que não se repitam as lutas intestinas por poder típicas das velhas corporações.

E que assim seja.

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Religião

Sou cada vez mais interessado pelo verdadeiro sentido sociológico da religião, que não é a prática do bem, da caridade, a crença na vida após a morte ou nas bem-aventuranças. Religião me parece cada vez mais um idioma; uma linguagem. Um código complexo e detalhado onde colocamos nossos valores contemporâneos e os inserimos entre as palavras escritas.

É por esta razão que os textos sagrados são tão longos, complexos e dúbio – por vezes contraditórios. Eles são assim com um propósito: permitir a entrada de inúmeras visões de mundo, mesma as que são antagônicas. É possível ter opiniões diametralmente opostas e usar a Bíblia ou o  Corão para embasá-las.

Religião não é um lugar de onde tiramos conceitos, mas onde os colocamos. Por isso ela muda no tempo e no espaço. A religião, portanto, é uma identidade compartilhada, que funciona para agregar as pessoas em nome de ideias, valores e histórias comuns.

Edward McDuffie,  “The gates to Nowhere”, Ed. Printemps, pág 135

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Eu (também) acredito em Woody Allen

Sobre Woody Allen

No mundo da pós verdade qualquer acusação que esteja de acordo com os linchamentos da época assume estatuto de verdade. Em certo tempo a moda era linchar judeus, agora os palestinos – e árabes em geral – são os escolhidos. No Brasil os petistas são o prato predileto. A partir de agora aos homens poderosos é lícito jogar qualquer infâmia pois quem teria coragem de duvidar? Se você criar uma acusação com um mínimo de lógica as provas tornam-se desnecessárias devido ao convencimento que se obtém com milhões de compartilhamentos em redes sociais. Quem pensaria em questionar um abuso cometido declarado em lágrimas por uma vítima que nos desperta empatia? Quem ousaria discordar do boato de que um político poderoso é dono da Friboi, possui uma mansão e um jatinho particular? Basta repetir indefinidamente, milhões de vezes, centenas de capas de revistas, milhares de memes e pronto… Nenhuma evidência se torna necessária.

O extermínio de reputações é uma praga contemporânea que se intensificou exponencialmente com a Internet. Ela dá um poder desmedido ao acusador, em especial se este fizer parte de um grupo minoritário e historicamente oprimido. Experimente questionar a veracidade de uma acusação (por mais forçada que seja) de racismo, homofobia ou machismo. O simples fato de você solicitar uma prova, ou pedir as fontes – para confirmar uma acusação tão grave – já o coloca na berlinda e o torna “cúmplice” da barbárie denunciada. Não há saída: ou você se associa à massa indignada ou sobe ao cadafalso junto com o acusado.

Eu sempre defendi Woody Allen porque acompanhei o caso quando aconteceu, no início dos anos 90. O relato da acusação me parecia absurdo, inverossímil, fantasioso, carente de provas e claramente calcado em vingança. O depoimento da menina parecia imerso no que depois se chamou de “Falsas Memórias” (veja aqui e também aqui), e totalmente desprovido de valor. Já as declarações de Woody Allen convenceram a mim e a todos os peritos envolvidos no caso e, por esta razão, o caso jamais seguiu adiante.

Fica claro que, se é lícito destruir a reputação de um artista famoso sem qualquer prova, nenhuma pessoa estará livre de ser destruído por estas ferramentas. Não esqueçam quantas mulheres na história foram destruídas e mortas por insinuações, que variavam de bruxaria, ninfomania até adultério. Sem provas. Pensem nisso antes de jogar a pedra.

Fico feliz de ler artigos (como este aqui) que colocam em ordem os sentimentos que sempre nutri contra essa perseguição imoral e perversa. Salve Woody Allen, e que seus detratores sejam punidos.

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Síndrome de Estocolmo

Há muitos anos eu já usava a metáfora da Síndrome de Estocolmo para descrever o relacionamento entre as mulheres e os representantes do modelo tecnocrático de atenção ao parto. Ela cabe – mesmo reconhecendo os limites de qualquer analogia – por mostrar a delicada tessitura de relacionamento entre mulheres “cativas” e as figuras de poder que governam suas ações.

A metáfora também é útil para desvelar o fato de que, mesmo sendo uma relação claramente opressiva, existe um circuito de afeto que circula entre oprimido e opressor. Para que isso seja implementando muitas histórias e mitos são criados, em especial as “histórias de hospital”, reforçadas pelo pessoal de apoio como enfermeiras e suas auxiliares, onde os médicos são, via de regra, pintados como cavaleiros heroicos que salvam donzelas condenadas pela crueldade de sua natureza madrasta. Nada que já não esteja nos contos de fada.

O problema, segundo Marsden, é que esse afeto exagerado, por sua natureza amorosa profunda, facilmente se transforma em ódio.

Meu bebê quase morreu por ser muito grande (quase 4 kg), mas foi salvo por uma cesariana” ou também “Graças ao Dr Frotinha estamos vivos pois ele notou na palpação que o cordão estava enforcando minha bebê“. Quem é da área conhece centenas dessas histórias de auto glorificação contadas pelos profissionais, e sabe também o quão difícil – por vezes impossível – desfazer noções erradas nas pacientes por causa desses mitos criados pelos próprios protagonistas, e sobre fatos que muitas vezes eles mesmo criaram.

Mulheres são cativas de um sistema misógino e depreciativo de suas qualidades e a maneira mais engenhosa de manter esse sistema funcionando é faze-las acreditar que a sua servidão e cativeiro lhes beneficia, e que tudo é feito para seu próprio bem. Logicamente alguns vão se insurgir contra esse paradigma e tentarão mostrar que o Rei está nu, mas serão facilmente esmagados e engolidos pela máquina que controla o sistema, como o protagonista Winston Smith, de Geroge Orwell, em “1984”. Nunca esquecerei que Winston não foi executado pelo Big Brother, apenas deixado livre a vagar para ser considerado por todos como um “louco”.

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Suicídio

O despreparo para lidar com a morte é uma das características mais dramáticas da formação médica ocidental. As dificuldade em lidar com o nascimento e com a autonomia dos pacientes lhe seguem. Entretanto, a morte é o maior tabu. Morte é fracasso, erro, fim. Perdemos todos, paciente e profissionais, derrotados pelo fantasma do fim. Morte mostra nossos limites e nossa falibilidade última. Não salvamos a todos e sempre haverá um truque do destino a nos trair.

O suicídio é onde testemunhamos essa incapacidade de forma mais gritante. Não aceitamos que alguém deseje se atirar no abismo do qual nos esforçamos para salvá-las. A nossa abordagem com os suicidas é, via de regra, baseada em julgamentos, em uma postura moralista e opressiva.

Um episódio ocorrido no Pronto Socorro, há 35 anos, foi relatado a mim por colegas de outra escala de plantões. Um colega estudante atendeu um sujeito que havia tentado o suicídio com um revólver de baixo calibre dando um tiro na própria boca. A tentativa foi frustra: a bala apenas transpassou sua bochecha. Diante disso, o colega do plantão disse ao paciente que aquele tinha sido “um trabalho mal feito”, e que o correto seria atirar de cima para baixo e com um revólver mais potente. O homem escutou calado enquanto tratavam do seu ferimento. Um mês depois o paciente volta ao pronto socorro tendo realizado o trabalho da forma correta. Ao saber disso o colega se defendeu dizendo que “poupou o trabalho de muita gente”.

Os aspectos psicológicos da atenção médica sempre foram negligenciados durante a minha formação. Mais do que isso: qualquer tentativa de abordá-los era vista como “fraqueza”, falta de “seriedade acadêmica” ou “frescura”. Em se misturando os dois temas – autonomia do paciente e morte – o buraco era gigantesco, um vazio de palavras, conceitos, preparo e, acima de tudo, empatia.

Encarar a morte dentro da vida e enxergar o suicídio como uma tentativa desesperada de escapar à dor é um grande desafio. Como a depressão, em especial, não aparece em nenhum exame de laboratório ou de imagem somos levados a desacreditar em sua própria existência, rotulando as dores da alma e os desejos de acabar com a vida como carências pontuais.

Nada poderia estar mais errado. A dor é real e corrosiva, a ponto da morte se tornar menos dolorosa que ela. Enquanto não houver preparo para a abordagem empática de paciente diante dos dilemas do aborto, do suicídio e dos transtornos mentais jamais conseguiremos oferecer o alívio e o auxílio que são as nossas tarefas mais primordiais e essenciais.

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Distanásia

A “distanásia”, compreendida como a terapêutica de manutenção artificial da vida para além de uma esperança ou uma recuperação, é uma “praga” que não foi introduzida pela medicina, mas pela cultura. Quem trabalha em UTIs sabe como é o peso de tomar decisões sobre a manutenção de uma vida em estado vegetativo sem esperança de retorno.

Lembro de um caso na Santa Casa de Porto Alegre nos anos 80. Paciente idoso, em coma, múltiplos transtornos de saúde, diabético, pós AVC. Família pobre. Os filhos e netos se revezavam nas visitas, que eram “caras”, pois trabalhavam durante o dia e vinham de uma cidade vizinha para visitar o velhinho. Certa vez a filha teve um acesso de raiva e desesperança e passou a nos questionar porque daquela “indignidade”, porque não permitiam que ele se fosse “sem sofrer”, qual a razão de prolongar inutilmente uma vida que não mais voltaria. Meu colega (eu era estudante na época) escutava com atenção e balançava a cabeça. Por repetidas vezes dizia: “Enquanto houver um fio de vida lutaremos por ela”. A tudo eu escutava, mas os argumentos da filha me pareciam sensatos e justos. O que estávamos realmente fazendo? Prolongando funções vitais artificialmente em um laboratório? Qual o sentido para o sujeito e sua família de um coração que ainda bate, mas que nenhuma emoção ou sentimento transita entre este corpo e nós?

Depois do desabafo ela se pôs a chorar e se retirou. Meu colega preceptor apenas me falou: “É o que nos cabe dizer“, e voltamos aos nossos afazeres. Entendi que ele também concordava com os argumentos da filha e compartilhava sua angústia, mas seu papel como médico não lhe permitia ler um outro script que não o “mantra da vida sagrada” que ele havia repetido de forma maçante para a pobre moça.

Uma semana depois o velho morre, naturalmente, durante a madrugada. “SPP” (se parar, parou) se dizia na época. Após uma brava luta contra o desenlace do qual só podemos adiar, depôs suas armas e entregou-se para a vida de lá. Logo após a constatação de morte saímos para fora da UTI e informamos a família.

A filha mais velha se aproximou de nós e disparou: “Eu sabia que ele ia morrer nessa pocilga. Vocês o mataram. Não permitiram sequer que ele acordasse para que fosse possível uma despedida digna. Vocês vão ver, vamos tirar isso a limpo”.

Mas, mas…. a mesma filha que uma semana antes pedia para abreviarmos o sofrimento inútil e custoso do seu pai agora nos acusa exatamente quando seu pai consegue finalmente descansar?

“Exatamente, disse Max, meu colega. Suas acusações nada mais são que um artifício psicológico para se livrar da culpa corrosiva que sente por estar tão aliviada com a morte do pai. É por essa razão, acima de qualquer outra, que mesmo concordando com todos os argumentos que ela havia nos apresentado, ainda não é possível abrir a guarda e encarar a morte como fazendo parte da vida. Os mesmos pacientes que se solidarizam facilmente podem nos apedrejar.”

Max fez uma pausa e continuou.

“É triste, mas a mudança não virá de nós…. virá de todos, ou não virá. Enquanto essa nova postura diante da morte não chega não será possível abandonar o clichê anacrônico de “preservar a vida acima de tudo”, mesmo quando esta não passar de meras funções vitais de um sujeito que há muito se foi”.

Para mais informações sobre o tema, leia o artigo da Prof Maria Júlia Kovács aqui

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Brasil dividido

Li o texto de Vera Iaconelli na Folha de São Paulo de hoje, 2 de janeiro 2018, “Ódio ao Brasil” e de pronto concordei com sua tese sobre um Brasil que cultiva ódios e se distancia das nações mais democráticas por se manter atrelado a uma divisão arbitrária em sua sociedade. O debate sobre sermos um “país majoritariamente negro“, que eu discordei, é um detalhe irrelevante. Eu me associo à sua visão de país dividido, assim abraço a tese de Jessé Souza que acredita que somos uma sociedade que jamais se recuperou de “maio de 88”.

Sim, não errei de ano. Não me refiro à “maio de 68” em Paris, mas 13 de maio de 1888, data da promulgação da Lei Áurea. Nunca conseguimos nos recuperar plenamente do trauma do fim da escravidão. Jamais abandonamos a ideia inconsciente de uma sociedade dividida entre cidadãos e e escravos, entre gente e sub-gente; entre senhores e serviçais. É esse nojo do Brasil mestiço que esteve palpitando nas manifestações contra Dilma, naquele mar que misturava o verde e o amarelo nas camisetas com o branco da pele, e por cima daquelas faces raivosas uma fantasia de moralidade e combate à corrupção.

O silêncio das panelas é a prova insofismável de que nunca houve uma real rejeição à corrupção. O que movia essa parte mais branquinha do Brasil era o rechaço a um projeto de pais mais igual, mais colorido, mais integrado. O pecado dos governantes de antes foi tocar no nervo exposto das castas sociais.

Lembrei de um colega dos meus tempos de médico militar. Sempre muito vaidoso, cultivava uma cabeleira fora dos padrões, mas para mantê-la parecia ter costas largas com os coronéis. Sempre se comportava como um Lord inglês perdido no meio de tupiniquins. Diz-se dele que, apesar do salário médio dos oficiais militares, adorava ostentar. Quando compareceu à festa de 10 anos de formatura da medicina em sua cidade teve o cuidado de chegar na festa com um carro importado. Alugado, mas ninguém precisava saber.

Uma vez durante as férias economizou o suficiente para viajar para a Europa com a esposa. Na volta me disse uma frase que nunca esqueci, referindo-se a Paris: “Aquilo sim que é cidade, e não essa chinelagem daqui. Eu merecia ter nascido lá, e não no meio dessa porcaria”.

Essa frase me marcou, mesmo passados quase 30 anos, porque resume a ideia de uma porção considerável da classe média branca brasileira. Parece a eles que acabaram de desembarcar no Brasil vindos do velho continente e perceberam que esse país está cheio de uma gente estranha, escura, ignorante e suja. “Aqui não é o meu lugar”, dizem eles de costas para o Brasil. Sua postura é de uma eterna distopia; estão no lugar errado, cercados de gente inferior.

Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado
me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci brasileiro
(e ainda no Rio de Janeiro!!!)
– Chico Buarque –

Pois eu digo que esse Brasil que desprezam só é assim porque uma parte muito grande da classe média continua sonhando ser o que não é, além de cultivar uma postura xenofílica e pedante.

Na verdade é o Brasil que não precisa mais dessa classe média arrogante e egoísta.

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Sobre o mundo virtual

Sobre continuar…

(…ou snowflake activism)

Desculpem a breve intromissão, mas vocês realmente achavam que poderia ser diferente? Acreditavam mesmo que iam mexer nas inseguranças sexuais das mulheres, seus remorsos e culpas, suas alegrias, suas angústias e medos e ninguém ia reclamar? Achavam mesmo que iam tocar no abelheiro dos “podres poderes” da corporação e os “senhores da guerra” não iam atacar com violência desproporcional?

O problema não é a ofensa, nem a grosseria. Também não é a violência de quem não suporta o contraditório. O problema é a ingenuidade de querer fazer omelete sem quebrar a casca do ovo. “Mercenário“, “frio”, “dinheirista, “fingido”? Ora… isso é ofensa? Achavam mesmo que às pessoas iriam respeitar? E por quê? Por serem mães e cuidarem de filhos, portanto “mulheres de bem“?

Ingenuidade. Mexer nas questões do parto é “tiro, porrada e bomba”. Foguete de todos os lados. As mulheres que fizeram cesariana, as que não podem pagar, os cesaristas ofendidos, os neo-humanistas em busca de espaço, os verdadeiramente mercantilistas que acharam um nicho pra grana, as doulas feridas e as abençoadas, enfermeiras e obstetrizes, quem odeia médico e quem os ama demais.

Construir esse caminho é para quem consegue levantar todo ensanguentado, tirar a poeira do corpo, limpar o sangue, cuspir o dente quebrado, levantar a cabeça e seguir em frente no caminho do protagonismo garantido à mulher.

Resiliência.

Não se iludam; um patife virtual é um canalha na vida real. Não me refiro a ninguém em especial mas esta definição está em sintonia com o que vivi nos últimos 20 anos de redes virtuais. Esperar que o mundo virtual seja melhor e mais civilizado que o mundo real é a mais suprema das ingenuidades. Pelo contrário: aqui no Império duro e inexorável dos signos a vida tem muito menos matiz. E o dilema para a manutenção de comunidades temáticas é sempre esse: de um lado o “princípio primordial” (porque estamos aqui? que pode ser parto humanizado, vacinas, amamentação ou tipos de cabelos) e do outro lado “minha expressão subjetiva, meus direitos e minhas necessidades“.

Já participei de grupos que questionam as vacinas em que pessoas entravam para debater o calendário vacinal e onde fazer “aquela nova vacina do HPV”. Em outros grupos de apoio à amamentação algumas mães perguntavam qual o melhor NAN para uma criança de 1 ano. Quando eu (geralmente) ou outro participante questionava a pertinência de tal debate em grupos que combatem o modelo vacinas, fórmulas lácteas e desmames as respostas eram exatamente estas conhecidas por todos. “Eu tenho o direito, não sejam radicais, isto é um culto, é uma religião, não me sinto respeitada etc“. Outra resposta (das mulheres) era: “Vocês precisam ser mais acolhedores com quem traz esses questionamentos“.

Max diria: “Proselitismo equivocado. Seleção pobre de participantes. Excesso de bondade. Falha de função paterna”.

Acho que precisamos acolher tanto quanto educar e colocar limites… mas de qualquer forma a minha larga experiência no assunto determina que ser maleável neste nível ou ser acolhedor e amoroso em demasia só tem um resultado previsível: a morte do grupo. Quando o núcleo duro dos princípios norteadores de qualquer grupo ou associação é atingido então o grupo naturalmente se desfaz; sua razão de existir se destrói. É a explosão da pequena e delicada parte central no coração da Estrela da Morte, mas que constitui sua identidade e seu sentido essencial.

Por esta razão gosto de grupos com administradores sem culpa e que mandam os chatos tomar no fiofó. Eles percebem que mais do que problema pessoal de uma mocinha com “medo de parto normal mas que consulta com o Dr Frotinha” existe a questão da própria sobrevivência de um canal para a difusão de uma determinada ideia ou perspectiva.

No fundo, a dinâmica dos grupos e comunidades sempre será o enfrentamento entre o os ensejos do coletivo e as necessidades individuais.

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A Execução

Os olhos fechados sobre o inox recebiam da mesa gelada o reflexo das lâmpadas que se penduravam do teto. Nenhum movimento, nem mesmo quando a furtiva mosca pousou sobre o contorno da sua orelha esquerda. Os lábios cerrados mantinham encarcerada a última palavra, ainda repousando sobre a língua descolorida.  Os cabelos já não os tinha faz tempo e a pele há muito perdera sua cor rosada, substituída por uma palidez marmórea.

Seu rosto duro encarava a lâmina giratória à sua frente de forma impassível. As rugas no contorno dos olhos se mantinham estáticas, apontando para a comissura dos olhos de uma serenidade aterrorizante. Nenhuma lágrima e nenhum remorso aparente. Seu crime seria pago com indiferença. Subitamente o negro manco de avental amassado apertou o botão vermelho na parede ao lado e fez a lâmina girar, e nos assaltou um som de agudo de marcenaria – ou açougue. A sala acanhada se encheu com o ruído fino e envolvente da máquina giratória, enquanto os dentes da lâmina brilhavam ao nosso olhar incrédulo. A execução se iniciava.

Com a mão na nuca do homem ele fez um delicado movimento, empurrando-o em direção à serra circular. Esse nada disse, sequer resistiu. Seus olhos se mantiveram fechados assim como sua boca, talvez por pressentir que seu momento derradeiro se aproximava. O ruído ficou mais intenso enquanto nós, aglomerados no lado oposto da mesa, sentimos os pelos do braço retesarem à espera do inevitável. Aguardamos por um grito, uma resistência, uma queixa que nunca chegaria. Talvez para nós a passividade do homem se mostrava mais brutal do que a pena a ele imposta. O giro da máquina parecia se intensificar à medida em que se aproximava da face lívida do pobre homem. Nossa respiração há muito parou e as batidas surdas de nossos corações retumbavam pela sala, numa batucada de medo e horror, mas também nos envolvendo em uma excitação inquestionável. Enquanto isso, os lábios pareciam querer beijar a lâmina que se aproximava e, mesmo assim, ele nada disse. Meus ouvidos escutavam o guinchar histéricos dos violinos de Psicose em sinistra repetição.

A loucura foi seu crime. A insanidade levando ao isolamento e ao martírio de uma vida infeliz. Resgatado dos porões do manicômio agora estava ali diante de nós para pagar sua derradeira pena. A serra impiedosa encostou finalmente seu nariz, bem ao centro. Nenhum movimento, nenhuma sílaba, sequer um apertar de pálpebras. Seguindo seu ritmo ela cortou a cartilagem do nariz enquanto feria o lábio inferior, seguindo-se o superior. O negro executor manteve-se mudo, sem dizer palavra. Havia respeito ou insensibilidade? Ajeitou seu pé manco sob a mesa e imprimiu mais força na nuca do homem, deixando o aço frio atingir a testa, o queixo e separando definitivamente seus olhos. Enquanto a lâmina atingia o pescoço alguém ao meu lado levou a mão à garganta, e a sala inteira pôde escutar seu soluço involuntário.

Mais um minuto e a mão firme do carrasco cortou a última fibra de pele da nuca. Com a mão enluvada apertou novamente o botão e a máquina se calou. De imediato o homem caiu para os dois lados ao mesmo tempo; uma parte de si para cada borda da mesa, exibindo seus miolos, sua mente insana, sua loucura e suas memórias. Fragmentos da sua infância, vida adulta, seus amores e dramas salpicaram na mesa, mas não havia sangue, apenas silêncio. O jovem funcionário juntou as metades do condenado e as colocou em uma bacia. Nenhuma explicação do que seria feito. Ainda com as máscaras no rosto saímos em fila da sala carregando conosco a certeza de que não há nada que nos ensine mais sobre a vida do que olhar um corpo que ela abandonou, despudoradamente exposto em uma aula de anatomia.

John Avery Smith “The Day When They Sort it Out”, Ed. Printemps,  pág 135

John A. Smith nasceu em Augusta, divisa da Georgia com a Carolina do Sul no auge da depressão americana pós “crack da bolsa”, em 17 de agosto de 1930. Filho de agricultores, muito cedo desenvolveu o gosto pela escrita, sendo o editor chefe do jornal de sua escola o “Old College” em Athens, que posteriormente se tornou a University of Georgia. Foi nessa universidade que ele cursou medicina, tendo se formado em 1956, vindo a praticar em diversas cidades na Georgia e na Carolina do Sul. Seu primeiro livro foi “Amidst the Battle Roar”, um romance sobre um soldado negro desertor na “Batalha de Atlanta” ocorrida na Georgia em 1864. Recebeu o “Prêmio Maccabee de Literatura” por esta obra, o que o estimulou a continuar seu trabalho como escritor ao lado de sua prática médica. Morreu em Atlanta em 1997, aos 67 anos, vítima de um infarto fulminante, logo após escrever seu derradeiro livro (para alguns seu “canto do cisne”e sua obra prima) chamado “Love, Peace and Truth”, dedicado a sua esposa Meggy Weinsbaugh, conhecida novelista. Não teve filhos.

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Invasões Midiáticas

Marcel Proust viveu em uma Paris de profundas transformações. Ele testemunhou chegada da eletricidade, da água encanada e dos elevadores. Também viu a troca de bondes puxados a cavalo por carros a vapor e depois eletricidade. Estava na Cidade Luz durante a construção da Torre Eiffel na Exposição Universal de 1889 e na construção da primeira linha de metrô. Não há como duvidar do entusiasmo com a modernidade que inundava o coração dos habitantes de Paris.

Um relato, todavia, sempre me chamou a atenção em um texto de Proust sobre a introdução de uma tecnologia inovadora nos primórdios do século XX. Ele se referia à instalação das primeiras linhas telefônicas na cidade. Curiosamente, ao contrário de tantas outras inovações recentemente introduzidas – como a iluminação pública e os carros – o telefone foi recebido com reservas. Cabe a pergunta: como pode um artefato quase imprescindível no mundo contemporâneo ter sido introduzido na cidade mais mais culta e mais rica do mundo com desconfiança e tão pouco entusiasmo?

A resposta para essa pergunta não está tão distante da nossa compreensão. É fácil entender que o telefone era um artigo caro na época de sua disseminação, sendo apenas instalado nas mansões de pessoas muito abastadas. Nessas casas era comum aos visitantes se anunciarem a um mordomo que posteriormente perguntaria ao dono da casa da possibilidade de atendê-los; esse era o protocolo. Assim sendo, o telefone era visto como uma invasão aos domínios íntimos do domicílio. De posse de uma combinação de números qualquer um passaria a ter o acesso garantido, estaria apto a “entrar” na mansão outrora inexpugnável da elite parisiense. O telefone era visto, então, como uma “bugiganga de novos ricos”.

Hoje em dia o mesmo desconforto nos atinge, e pela mesma sensação de invasão. Repetindo o fenômeno do rádio – e depois da TV – que penetrou nos lares e em nossas consciências, as  redes sociais nos atropelam de informações e publicidades, invadindo nossos lares pelos olhos e ouvidos. A mesma retórica volta, recheada de augúrios catastróficos pela perda completa da privacidade. Talvez um dia isso venha a ser verdade, e um avanço tecnológico seja o portal para a nossa destruição. Por enquanto, com o acúmulo de experiências das quais somos sobreviventes no passado, cultivo ainda um saudável ceticismo.

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