Mamiferizar

Apesar de eu mesmo me considerar um humilde discípulo de Michel Odent a sua ideia de “desumanizar” o parto e de “mamiferizar” o nascimento será a grande discordância que terei com sua obra. Não há, no meu modesto ver, sentido em tornar o parto como ele ocorre entre os animais, mesmo entre os mamíferos.

Como diria Lacan, “a palavra matou o real” e é absolutamente impossível tornar o parto um processo “natural”, pelo simples fato de que é impossível abrir mão do mundo simbólico e voltar ao mundo da natureza. Mamiferizar seria assistir o parto dentro da realidade dos mamíferos, portanto, dentro da natureza de onde fomos sumariamente expulsos pelo acesso à linguagem, ao raciocínio e ao mundo simbólico. A metáfora bíblica da expulsão do casal primordial do paraíso – para toda a eternidade – deixa claro que a saída da natureza pelo acesso à razão nos impede de retornar para um mundo de perfeita harmonia – e submissão – com a natureza.

Não existe volta nesse caminho. O parto humano jamais voltará a ser “mamífero” ou “natural” pois que o acréscimo de neocórtex desenvolvido para nossa espécie – se pode ser diminuído momentaneamente, como no sexo – não poderá jamais ser abolido sem retirar de nós o que verdadeiramente nos constitui como humanos.

O parto humano só pode ser exercido dentro da contingência psíquica que nos estrutura, humano e formatado pela linguagem, jamais através de um retorno ao “paraíso perdido”.

Humanizar o nascimento é o caminho, mesmo que esse caminho seja respeitando – mas não copiando – nossa ancestralidade mamífera.

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Poema da Retomada

Se o seu corpo é território,
onde disputas acirradas
atropelam gerações,
como não aceitar por legítima
a luta por ser retomado?

Se a riqueza dessa terra,
por ter história e ser matriz,
seduziu o forasteiro
que dela quis se apossar,
como não aceitar que o ventre
– e tudo que tem em volta –
queira mais do que depressa
para casa retornar?

Os lindeiros desse chão,
achados de posse eterna,
se esqueceram que a pequena,
por mais delicada que fosse,
tinha na mão um desejo
e no coração um poema.

O poema curioso,
cheio de rimas frágeis,
dizia meio por assim,
porque a memória anda fraca,
que a conquista não se faz,
no martírio e na faca.

Que a mulher ou é livre,
ou melhor então que nem nasça,
pois quem dá de si o leite,
de sua carne outra uma,
não pode viver cercada,
da liberdade impedida.

O poema era esse,
que a lembrança agora falta,
por mais que a mente procure
a palavra escondida.

Mas na mão está o desejo,
que se abre e nos afirma,
que a mulher tão paciente,
agora se joga à luta.

Mais que a dor de sempre
ela agora só procura,
o caminho que é só seu,
que desenha na lonjura
do seu doce caminhar.

Marilia Carillo de Cuellar “Las Flores de la Ventana Roja”, Ed. Marchand, pag. 135

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Sobre Mulheres e Posições

Mais de 30 anos já se passaram de quando eu resolvi enfrentar o modelo obstétrico do hospital universitário em que fiz residência e coloquei as gestantes para parir de cócoras. Certamente que esta atitude – apesar de ter sido tolerada – era tratada com desdém e aversão. Um dos professores me disse que “partos de cócoras eram para índios, e só funcionavam em sua própria cultura“, da mesma forma como “acupuntura só funciona para japoneses“. Minhas lembranças da residência, como se pode perceber, não são de um local de livre circulação de ideias, informações e profundidade de conceitos.

O rechaço às posições verticais daquela época poderiam ser interpretadas hoje como resultado da falta de pesquisas que mostrassem as vantagens do parto em posição não-litotômica. Essa visão, entretanto, não resiste a uma análise mais profunda, em especial quando se analisa o fato de que a posição de litotomia (deitada de costas, pernas levantadas e presas) é uma invenção moderna e que nunca se comprovou superior às variantes verticais usadas em praticamente todas as culturas humanas.

Hoje em dia mais de 91% das mulheres no Brasil (Nascer no Brasil – 2012) continuam a parir seus filhos em posições horizontais, uma imagem fiel dos partos que testemunhei há 30 anos em minha residência médica, e que tanta indignação me causou. As últimas 3 décadas de comprovações científicas sobre a superioridade das posições verticais e sobre a livre escolha fizeram QUASE NADA para modificar o ensino médico e as opções que as mulheres tem para o nascimento de seus filhos, pelo menos no que diz respeito à posição.

Fizemos avanços na lei do acompanhante, na presença de doulas, na diminuição das episiotomias, na ambiência, nas Casas de Parto, na disseminação do parto domiciliar planejado como opção válida e segura mas ainda não foi feita nenhuma mudança considerável na posição de parto. Por quê?

Creio que a resposta para essa dúvida recai sobre elementos profundamente inseridos no inconsciente. A paciente deitada, abaixo da linha dos olhos do médico, em posição constrangedora e com as pernas abertas é a própria imagem da submissão em que ela se encontra diante do poder autoritativo do médico. Atentem para o fato de que esta posição só foi disseminada após a entrada dos médicos-homens no cenário do parto; antes disso as gravuras e estatuetas antigas sempre mostraram parteiras no mesmo plano ou mesmo abaixo da mulher a quem auxiliam. Por que essa mudança ocorreu e por qual razão se mantém apesar de todas as evidências que nos provam sua inadequação e mesmo o inegável prejuízo para mães e bebês?

Minha tese é de que o parto deitado é um reforço psíquico subliminar que auxilia o poder médico a manter sua dominação sobre o corpo da mulher. O parto deitado, posição clássica de litotomia, estabelece a assimetria de poderes que ajuda o profissional a se sentir no comando e envia uma mensagem de inferioridade para a mulher que está parindo. Por esta razão, e não pela falta de informações ou provas científicas, é que esta posição ainda é disseminada nos hospitais de ensino e utilizada na assistência a 9 de cada 10 mulheres parindo neste país. Muito mais do que representa objetivamente, ela é plena de um simbolismo patriarcal de dominação, e por essa razão resiste aos ventos do tempo e da verdade.

Muitos outros mamíferos utilizam essa posição para informar submissão a um elemento dominante no grupo. Os cães, tanto quanto os lobos, costumam se deitar e oferecer o ventre para o chefe da matilha para demonstrar sua subserviência. Este tipo de atitude está associada às estruturas hierárquicas dentro de grupos de animais que se organizam desta forma, como cães, lobos, hienas, etc. Isso reforça a tese de que essa imagem ativa elementos muito profundos do inconsciente, e por este fato é tão significativa e resistente.

A posição de parir é uma das mensagens mais fortes e intensas da iconografia do nascimento, e por isso mesmo é tão difícil de ser modificada. É provável que a mudança na ergonomia do parto será a última barreira a ser rompida, exatamente porque ela carrega essa simbologia dissimulada, mas que afeta a forma como o patriarcado se expressa nas ações de médicos e na dominação sobre o corpo das gestantes. Negamos às mulheres grávidas o “produto social” que carregam no ventre, e por isso ainda insistimos em controlar esse evento e obstruir sua autonomia.

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Cócoras

Há exatos 35 anos iniciei a atender partos em posição vertical no hospital onde fiz residência. A reação dos colegas variava entre o escárnio debochado e a aversão explícita. As explicações que davam na época são usadas até hoje: “civilizadas são diferentes”, “só índias podem/aguentam”, “o períneo enfraqueceu pela vida moderna”, “mulher de cidade não fica acocorada e não sobe em coqueiro”, etc. Nenhuma dessas afirmações se baseia em evidências, mas ainda assim o parto continua sendo tratado da mesma maneira.

Trinta e cinco anos se passaram e o parto padrão em nossas maternidades – públicas e privadas – continua sendo nas posições que favorecem médicos e instituições, mas são profundamente inadequadas para mães e bebês. O poder é (ainda) mais importante do que as evidências.

“A história é geralmente dura com os covardes, mesmo quando poderosos, e via de regra generosa com os corajosos e ousados, mesmo quando vítimas daqueles a quem denunciaram”

Sergei Kalikowski, “Piratas do Gulag”, Ed Printemps, pag 135

Veja aqui o resumo mais recente sobre posições verticais no parto:

Texto de Gail Hart:

BIRTH TOPIC: WOW!

So… here’s a nice study of birth position. 100 women were randomly assigned to birth in lithotomy position – supine (on their backs) and 100 were delivered in the squatting position.

Look at the results:

1. Second and third degree perineal tears occurred in 9% of the lithotomy group, but none in the squatting group.

2. Forceps for delivery was twice as high in the lithotomy (24%) as the squatting group (11%)

3. There were two cases of shoulder dystocia in the lithotomy group, but none in the squatting group.

4. There were no cases of retained placenta in the squatting group, but 4% of the women supine had retained placenta and 1% had postpartum hemorrhage of more than 500cc due to uterine atony.

“”There was no significant difference in the apgar scores, foetal heart rate patterns or requirement of neonatal resuscitation.””

So, wow, that’s a heck of a lot of maternal benefit simply by changing to a more physiological delivery position. It is time to assign the Lithotomy Position to the Dustbin of History! Indeed, it is long past time!

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Pai, sempre

Pai é pai;
mãe é mãe.
Pai não é amigo.
Amigo se briga e até podemos esquecer; pai, entretanto, é pra sempre, até depois que morre. (…) não esquecendo a vital importância do pai, esse novo integrante da família, que chegou para tornar mais doce e terna a função difícil e complexa de mostrar aos pequenos os limites do mundo.”

Ziegfried Blatt, “Liczne funkcje rodzicielstwa” (As inúmeras funções da paternidade). Ed Jutrzenka, pag 135

“Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai”. (Sigmund Freud)

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Activism

“The same kind of argument (that the activism for normal and physiologic birth is dangerous) is used against every social movement, like ecology, anti-racism, muslims, refugees etc. Why not attack the birth movement as well? The strategy is to use focal problems and to generalize, creating the idea that protecting gays, pregnant women, refugees, children and workers, in fact, hides a “terrible problem”, since activists are “fanatics” and “irresponsible human beings”.

Indeed, that’s what we should always expect when we witness the slow death the old paradigms.”

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Poder e Evidências

O Poder vale mais do que as evidências.

Esta visão do processo fisiológico do parto vai perdurar enquanto o parto for classificado pelos homens, e a partir de suas perspectivas. Mas quando vejo este tipo de protocolo eu lembro que eu me insurgia contra esta imposição há 30 anos, e eu já fazia isso baseado nas evidências da época, e não em visões românticas ou pessoais.

O que mais me impressiona é que passadas três décadas de profundas revoluções, em especial no terreno da disseminação de informação, ainda temos uma visão OFICIAL de parto, disseminada em serviços universitários, que já era velha há 30 anos.

O que acontece com os donos do parto, que se negam a ver as mudanças na própria ciência e mantém uma visão depreciativa da mulher e suas capacidades? Trinta anos se passaram e o mesmo modelo se mantém.

Em verdade o que se expressa nesse papel são os últimos suspiros do patriarcado, uma forma de controlar a mulher cerceando sua liberdade e controlando um dos aspectos mais fundamentais da sua sexualidade.

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Conhece-te a ti mesmo

Desconfie muito de todo aquele que afirma conhecer-se a si mesmo. Acho pouco provável que este sujeito tenha realmente a capacidade de desvendar-se. Quem muito se conhece jamais percebe o limite do seu saber-se. Pelo contrário; afirma categoricamente que pouco sabe de si mesmo, o que é absolutamente correto e justo, diante do gigantismo de um sujeito e os mistérios que guarda escondidos. Um sujeito que pensa se conhecer é como um peixe que, nascido em um aquário, de lá mesmo exclama: “não há nada no mundo que seja para mim desconhecido”. O (seu) mundo vai muito além dos limites que parece ter….

Jenny Higgins “The day Before Tomorrow”, Ed Caterpillar, pág 135

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O Discurso da Direita

Vejo duas características sobressaindo no discurso de direita, em especial naqueles mais “exaltados” ou cuja revolta os faz pensar em “intervenções”. Em primeiro lugar a ideia do gestor “apolítico”, o empresário sem filiação partidária (ou cujo nome seja maior que o do partido), o cara tão rico que nao precise roubar (minha fantasia predileta) e o sujeito acima das “divisões” ideológicas para assim insinuar figuras grotescas que adentram a coisa pública, como Dória, Berlusconi, Silvio Santos, Huck ou mesmo Bolsonaro (que é político, mas que em 26 anos nada fez além de esbravejar e disseminar ofensas). A via da administração “sem ideologia” – a exemplo da “escola sem partido” – é uma tentativa de consagrar a visão conservadora como a visão “correta” da sociedade, contra a qual se insurgem as outras, que desestabilizam a “ordem natural das coisas“.

A segunda característica é a fantasia de políticos impolutos e honestos eleitos por uma população que é famosa por dar “jeitinho” e em que a corrupção das pequenas coisas faz parte do seu cotidiano, sendo financiados por uma canalha empresarial escravagista, racista e elitista. Esse tipo de proposta nos leva ao cinismo e diretamente a um voto nas aparências. Quem mentir melhor, ganha. Falar de “franciscanos” no poder também me remete a um período em que a direita brasileira mais se identifica: a idade média. Fanáticos religiosos no poder, como o prefeito do Rio, é o mergulho mais certeiro na idade das trevas.

Essas propostas da direita se enquadram dentro de uma visão de combate à corrupção que é plantada na população toda vez que os partidos de esquerda obtém o poder e insinuam uma mudança nas classes sociais. Portanto, nada mais são do que cortinas de fumaça para afastar a todos da luta verdadeira: a justiça social e o combate à iniquidade.

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Nascer em Paz

“O nascimento em paz é uma força capaz de galvanizar energias transformadoras e produzir reverberações que atravessam gerações. Hoje já temos uma grande legião de pequenos que tiveram a oportunidade de vivenciar partos mais suaves e dignos e cuja vivência fará a diferença no futuro. Muito bom saber que existem obstetras, parteiras, doulas, pediatras e demais profissionais que conseguiram entender a amplitude e o significado dos primeiros instantes e dos primeiros anos para muito além da saúde física e do “silêncio dos órgãos”.

A estas pessoas – que ousaram olhar o parto com cuidado e delicadeza, rompendo a fronteira do “cuidado com as doenças” e olhando para cada gesto e cada palavra com responsabilidade – o meu profundo agradecimento. Estes profissionais estão ajudando na construção de uma nova humanidade, cujo imprint inicial será o do amor e do afeto, e não mais o da violência e do abandono.”

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Arquivado em Medicina, Parto