Bolhas

Existe uma série de assuntos que eu adoraria debater até para diminuir um pouco a minha ignorância sobre eles. Quando você vive em uma sociedade branca, num estado branco, sendo de classe média e heterossexual acaba tendo dificuldade para entender as queixas das pessoas que sofrem as consequências por NÃO SEREM como você, as quais não tem a possibilidade de deixar que o fluxo do mainstream as carregue para posições mais privilegiadas. Lembro muito do ativista israelense Miko Peled que, sendo israelense e branco, tinha dificuldades de entender o ponto de vista dos palestinos, pessoas a quem NUNCA via no seu dia-a-dia, e por isso mesmo podiam ser estereotipados e/ou demonizados pela cultura em que estava embebido. Foi apenas o encontro fortuito com palestinos quando moravam em San Diego, nos Estados Unidos (!!!), que o fez acordar para a questão da Palestina, o Nakba, a limpeza étnica e as reivindicações daquele povo.

Miko Peled em seu livro “O Filho do General” agradece de forma comovente a recepção afetiva e compreensiva que teve por parte dos ativistas palestinos, os quais tinham TODAS AS RAZÕES do mundo para odiá-lo, não apenas por ser israelense, mas por ser filho de um general invasor, responsável por boa parte da desgraça afligida ao seu povo. Sem esse carinho e essa fraternidade explícita de pessoas em uma posição aparentemente tão distante, seria muito fácil para Miko manter-se dentro de sua bolha de demonização e ódio ao “inimigo”. Para mim, não foram os argumentos racionais que o convenceram que sua postura estava errada, muito menos os registros históricos a que teve acesso em sua busca pela verdade, mas o afeto e a acolhida amorosa que recebeu daqueles que por muito tempo considerou como adversários e inimigos mortais.

Para as pessoas que tem as mesmas condições que eu é importante serem apresentadas às questões femininas, raciais, de gênero e sociais para que possamos pensar fora de nossa bolha de amizades e relações cotidianas. Sem esse confronto com vivências diversas e sem o contraditório é difícil sair da zona de conforto das nossas convicções e nossas perspectivas. Por isso o confronto de ideias é tão importante.

Infelizmente, em tempos de ódio, isso é cada vez mais difícil. Fiz um comentário na página de uma doula a respeito de uma mensagem que ela postou com um texto assinado por Andrea Dworkin. Disse que o texto (sobre ser lésbica) era sensível e bonito, mas foi escrito por alguém que sofre muito mais criticas do que elogios de dentro do movimento feminista por suas lutas anti-pornografia e acima de tudo por suas atitudes controversas (liberdade para mulheres que mataram maridos abusadores). Ela, por exemplo, era extremamente conservadora e escreveu um livro cujo título era “Right-wing women”. Faleceu aos 58 anos com um quadro avançado de artrite e complicações de obesidade mórbida, mas se estivesse viva estaria ao lado de Trump fazendo campanha por ele e por sua visão de extrema direita.

Meu comentário visava apenas alertar para a origem da mensagem, para não repetir o que o ator José Wilker fez numa reunião de diretores da Globo: um discurso recheado de citações que, depois dos aplausos de todos, avisou serem todas de Adolf Hitler, retiradas do “Mein Kampf”. Infelizmente bastou eu questionar uma autora como esta – mesmo elogiando a visão poética que ela tinha da homossexualidade feminina – para sofrer ataques pessoais. Aí vieram as agressões, ironias, deboches, violências e ataques pessoais que culminaram com um festival de blocks e o fim de qualquer possibilidade de conversa.

Claro, o erro foi meu. Eu não deveria ter feito aquele comentário. Afinal, não é problema meu. Quem quiser que siga, que cite, que admire e que adore. O problema é que isso mantém a bolha e as ilhas de concordância intactas, e não permite que a gente aprenda com o pensamento alheio. Ficamos todos desconectados porque as pessoas não querem debater; querem lutar, destruir opositores, querem “lacrar”, humilhar oponentes, vencer guerras de argumentos, ser o mais irônico possível, ser o super fodão da sua turma (o meme preferido é o negro aquele que é carregado pelo amigos e recebe os óculos escuros da suprema esperteza) e tratar todas as pessoas de quem discordam como inimigos a serem destroçados.

A solução momentânea é se afastar, bloquear, voltar para o seu canto frustrado e esperar que alguém de bom coração se proponha a conversar sem pedras nas mãos. Ter a paciência de aguardar a caridade de alguém sem ódio transbordante e esperar que os ânimos possam arrefecer. Infelizmente, para algumas pessoas, isso nunca vai acontecer, pois as causas são apenas desculpas passageiras para a razão principal que as move: a luta em si e a destruição dos oponentes.

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10 Dicas para PowerPoint

Algumas regras gerais para apresentações em PowerPoint:

1 – Mude o formato para 16:9 pois ele oferece mais espaço e também porque a maioria dos projetores e TVs hoje em dia são preparados para “wide screen“. Se não forem, e a única possibilidade de tela for 4:3, a imagem ficará com uma faixa escura acima e abaixo, sem atrapalhar o conteúdo..

2 – Não coloque texto na tela. Não escreva uma história que você poderia contar, e que concentraria a atenção em VOCÊ. Tire o olhar das pessoas da tela, e as conduza para lá só quando for importante. Não coloque quadros estatísticos com letras miúdas. Ninguém enxerga e tampouco memoriza isso. Coloque figuras simples e frases curtas!!! Imagens valem mais que mil palavras!!! Mude as letras para um padrão de apresentação. Uso Tahoma porque ela é gorducha e permite visualização à distância. Times é uma fonte para jornal, jamais para apresentações, pois à distância ela produz confusão. Lembrem-se que quando as pessoas não enxergam o que está na tela elas olham para o lado e se dispersam, e essa dispersão é o pânico de todo professor ou palestrante.

3 – Ajude o aluno a organizar as ideias de forma coerente!! Estabeleça critérios simples e facilmente compreensíveis para os subtítulos das páginas (por exemplo: vermelho, 40 pixels e superior à esquerda). Diante disso o aluno saberá que se trata de um novo tema, uma nova ênfase ou um novo assunto para pensar, e não a simples continuação de algo que viu na tela anterior. Dessa forma ele organizará mentalmente de uma forma mais simples o entendimento da aula ou da palestra.

4 – Organize as gravuras e os textos de acordo com configurações espaciais harmônicas e que quebram a rotina do observador. O aluno precisa ser surpreendido com a forma como as imagens e letras aparecem. É como uma estrada: se ela for reta demais torna-se monótona e produz sono; se a aula for previsível demais o mesmo fenômeno vai ocorrer.

5 – O mais importante e trabalhoso: estabeleça movimento e ritmo para a apresentação, o que a torna “profissional”. O grande problema dos slides “chapados” com bullets é que eles tendem a tornar a apresentação enfadonha e chata. Algumas aulas que assisti funcionam muito melhor que Rivotril, não pelo conteúdo ou pelo professor, mas pela forma. Normalmente quando você apresenta 5 (ou mais) itens ao mesmo tempo em uma tela alguns poucos alunos na plateia acompanham a sua leitura, enquanto a maioria faz uma leitura privada dos itens de acordo com sua própria velocidade e interesse. Com isso, boa parte da audiência para de lhe escutar, pois está lendo outro item, e não o que você está descrevendo. Se você puder controlar o que eles leem, fica mais fácil garantir a atenção e o foco de todos. Além disso, você poderá interromper em cada item e explicar o assunto, ou dar um exemplo para o que está sendo falado, pois eles estarão lendo o mesmo que você. O aparecimento das gravuras também deve ficar sob o seu controle. Essa alteração implica que VOCÊ precisa ficar com o “passador” na mão, ditando o SEU ritmo, a sua velocidade e determinando suas ênfases e paradas estratégicas. É como contar uma piada ou fazer amor: RITMO é tudo. Uma das coisas mais irritantes e criadoras de distração é a monotonia de um apresentador que diz “seguinte” para quem está controlando o computador a cada vez que precisa trocar um slide. Isso quebra o ritmo da palestra e distrai as pessoas. Aprenda a usar o passador e controlar a entrada do texto e verá que a sua aula ficará muito mais interessante.

6 – Regra geral de QUALQUER aula ou palestra: VOCÊ é o centro, não o powerpoint. As pessoas precisam focar em seus gestos, suas palavras, suas ideias e seus exemplos, e apenas olhar para a tela quando VOCÊ QUISER. A tela é apenas um acessório, e não o centro de sua aula. Nunca permita que a apresentação comande você; você precisa estar sempre à frente. Por isso estude cada slide antes e pense nos ritmos, nas ênfases e nas histórias possíveis de contar. Quando a tela é mais importante que o apresentador as pessoas imediatamente perdem o foco e começam a conversar. Isso é muito difícil de recuperar. Só os palestrantes muito geniais controlam uma audiência depois de dispersões. Eu já vi isso, mas de tão raro nunca mais esqueci.

7 – Coloque seu nome em letras bem menores no início da apresentação. Fica muito melhor e passa a ideia de que você é apenas o mensageiro, uma pessoa humilde que traz uma ideia. É importante passar o conceito de que você reconhece sua função diante da grandiosidade do tema, a qual é tão somente ser o veículo de uma mensagem importante cujos conteúdos podem até salvar vidas.

8 – Resista sempre à tentação de aparecer demais em uma aula ou palestra: coloque o foco na ideia, nos paradigmas, no conhecimento e nas necessidades dos alunos. Seja humilde, reconheça sua parte ínfima na construção e difusão de um conhecimento. Por outro lado, seja vibrante e deixe-se contaminar pela paixão que as ideias podem fazer eclodir.

9 – Termine sua aula/palestra com uma palavra de estímulo e otimismo. Ninguém suporta pessimistas e discursos apocalípticos. Se tiver alguma crença seja grato ao Universo pela possibilidade de distribuir seu humilde conhecimento para os outros.

10 – Agradeça a quem o convidou. É sempre gentil e bonito saber que seu nome foi lembrado e agradecer pela oportunidade de fazer parte da construção de algo novo e desafiador.

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Espiritismo conservador

O CORAÇÃO DO MUNDO. No prefácio da obra escreveu Emmanuel: O Brasil não está somente destinado a suprir as necessidades materiais dos povos mais pobres do Planeta, mas, também, a facultar ao mundo inteiro uma expressão consoladora da crença e de fé raciocinada e a ser o maior celeiro de claridades espirituais do Orbe inteiro. O autor da obra esclarece, na introdução: Jesus transplantou da Palestina para a região do Cruzeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim de que os seus rebentos delicados florescessem de novo, frutificando em obras de amor para todas as criaturas.(…)

Sobre o conservadorismo espírita – pelo menos como absorvi na infância:

Estou nesse momento almoçando com minhas amigas chinesas olhando o mar da China e posso imaginar no horizonte a Coreia do Sul. Da conversa me surge a lembrança de que a obra ufanista “Brasil coração do mundo Pátria do Evangelho” é o que o espiritismo religioso tupiniquim mais produziu de semelhante ao nefasto sionismo. Na frase supra citada essa vinculação arrogante e pretensiosa fica constrangedoramente evidente: “Jesus transplantou da Palestina para a região do Cruzeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim de que os seus rebentos delicados florescessem de novo, frutificando em obras de amor para todas as criaturas“.

Nada pode ser mais inverídico e prejudicial ao Brasil do que ter uma crença como essa. A ideia de que o Brasil é o “coração do mundo” ou mesmo a “pátria” (????) do Evangelho me dá arrepios. Olho para as minhas amigas daqui e sinto vergonha de que ainda cultivamos a ideia de que somos superiores em algo, os escolhidos por Jesus (????), o povo que Deus escolheu. Por que deveriam os chineses ou os índios brasileiros se curvar a esse palestino? A ideia de ser diferente e superior só produz morte, miséria e devastação. Não me sinto em nada superior ou inferior a qualquer país ou cultura e jamais aceitarei que o Brasil está predestinado a algo de bom ou ruim. O Brasil sempre será o que fizermos dele. A China também.

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Bolhas identitárias

O documentário “Minimalist” (que eu gostei muito) que é sobre uma dupla de rapazes que abandonaram seus empregos e carreiras para investir em uma vida mais simples e sem luxos, vivendo com o que consideram necessário e essencial. É um discurso minimalista, como o nome diz, e que prega o desapego às futilidades do dia-a-dia e uma opção pelo que é realmente valioso na vida. O documentário aborda a turnê desses dois jovens pelos Estados Unidos e a venda do livro com suas ideias.

Daí alguém me marca em uma página que critica o filme. Tudo bem, até me interessei, talvez o documentário tenha um erro essencial, uma visão equivocada ou mesmo um paradoxo que eu não tinha me dado conta. Quando comecei a ler percebi que a crítica era porque o filme era “machista“, já que os protagonistas eram homens, e as mulheres deveriam estar presentes em um documentário que aborda este tema.

Eu pergunto: um documentário sobre os Beatles também seria irremediavelmente machista? Stones? O Grêmio? Como esses dois aventureiros e idealistas poderiam fazer um documentário sobre sua jornada de auto transformação e NÃO serem considerados machistas, já que são homens?

A crítica do filme deixa clara a ideia de que o crime inafiançável desses dois rapazes é o fato de serem homens e tentarem construir um caminho diferente para suas vidas.

Eu não suporto mais essas bolhas identitárias. Eu simplesmente não aguento esse discurso pois vejo que ele está destruindo a solidariedade e as próprias esquerdas. Agora não é para o bem de todos, o que vale é “minha bolha primeiro, afinal...” e aí você coloca o discurso pré determinado para defender os interesses do seu grupo em detrimento de todos os outros. Vale mais quem puder ser mais vítima.

O identitarismo é uma ação de direita travestida de movimento por direitos humanos. Ele oferece todas as armas para os fascistas que odeiam igualdade e faz de inimigos pessoas que poderiam estar do mesmo lado. Que tristeza. Passei a ter alergia a qualquer manifestação dessa natureza

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Constrangimentos futuros

– Papai
– Sim filho…
– Eu estava olhando essas fotos de muitos anos atrás no seu computador…
– Sim….
– Achei essas aqui, muito bonitas. Você estava me segurando no colo com a camisa da CBF. Era jogo da seleção?
Arram, bem, não… era uma outra coisa.
– Vejo um cartaz engraçado escrito atrás: “Somos todos Cu…“, mas não aparece o resto.
– Ahhh, isso é uma bobagem. Eu nem me lembrava mais. Coisas da juventude.
– Tem essa foto aqui que aparece “Adeus querida“, era a despedida de alguém?
– Ora meu filho…. é que, veja bem… naquela época lá em casa todo mundo assistia a Globo e era difícil ter uma informação melhor. A internet recém tinha começado. A gente acreditou em muita coisa que não devia, até em Triplex e pedalinho.
– Triplex? Pedalinho???
– Sim, outra hora te explico.
– Papai…. essas fotos… essas imagens…. essas camiseta e esse pato amarelo aqui atrás. Isso tem a ver com o “Golpe de 2016”?
– Pera lá…. calma aí filho. Não foi “golpe”, foi impeach….
– Mas pai, a minha professora de história disse que…
– Maldita professora!!! Maldita escola!!! Tinha mais é que ter votado o “Escola sem Partido” quando tivemos chance com Temer!!!!
– Papai!!! Você foi à rua pra derrubar Dilma? Pelo Temer?
– Sim!!! E bati panela!!! E votei no Aécio, mas depois que tudo foi descoberto, desvotei; e chamava Bolsonaro de “mito”!!!! Sim, eu achava Gentili engraçado!!! Por que? Vai me criticar, seu pirralho??? Ahhh, eu prefiro um filho morto que um filho de esquerda!!!
– ……..
– Filho, vem cá. Volta aqui, deixa eu explicar. Não é nada disso que você está pensando. E não dê ouvidos pra tua mãe, ela é outra maluca!!!

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Epílogo

As manifestações violentas dos representantes de sistemas de poder sempre acontecem no epílogo de todos os modelos hegemônicos. Um pouco antes da morte de um paradigma sobrevém o terror, como natural manifestação de desespero. O modelo médico obstétrico está doente e decadente, mas vai levar ainda muitos anos para ser substituído. Enquanto isso não acontece aqueles que o sustentam precisam lançar mão da violência verbal – e corporativa – para contrapor às evidências trazidas à tona pela nova consciência emergente, aquela que vai estruturar o novo paradigma.

A ferocidade dos ataques está, portanto, no script. Ela faz parte do ocaso de qualquer paradigma. Não se incomodem tanto com tais manifestações de ódio; elas são apenas como náufragos se debatendo e se agarrando nas vigas de madeira de um navio que aos poucos afunda.

“A cada dia que passa, e a cada nova descoberta, eu agradeço a Deus por ter me colocado do lado certo da história, mesmo que o preço a ser pago por estas escolhas seja a dor, a tristeza, o exílio e, por fim, o amargo esquecimento”.

Amália Contreras del Arroyo, “El Llanto de las Cascadas” Ed. Footprint, page 135

Amália del Arroyo é uma parteira nascida em Cuzco, no Peru, tendo desempenhado um importante papel na consolidação da parteria em seu país. Escreveu “O Pranto das Cachoeiras” como uma série de histórias e artigos relacionados com a parteria tradicional da cultura andina, em especial do Quíchuas – grupo indígena da região do Chile até a Colômbia e língua falada pelo império Inca. Neste livro ela descreve especificamente da destruição das culturas de parto indígenas pelo modelo tecnocrático e a desnaturalização do nascimento nas culturas ocidentais. Mora em Lima e tem 4 filhos.

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Realidades chinesas

Quando das minhas visitas à China, para trabalhar junto às parteiras chinesas, as questões que mais me impressionam são sobre dinâmica familiar. Elas me perguntam muito sobre fatos e situações corriqueiras entre as famílias. Não esqueçam que aqui as famílias são minúsculas. Raros cunhados, quase nenhum irmão (só os mais jovens tem) e gente muito isolada. Elas querem saber miudezas, detalhes, coisas que nunca paramos para questionar.

Por exemplo, elas me perguntaram se “saiu muito caro para o meu filho se casar“. Diante da minha estranheza com a pergunta elas me dizem que para um filho homem se casar os pais precisam pagar tudo: cerimônia, convites, comilança, casa própria, carro, e sustento (mesada mesmo), caso ele ainda não ganhe o suficiente. Eu disse que para o meu filho dei um abraço e um chute na bunda, mas o humor chinês não consegue fazer sinapse com esse tipo de piada. Tive, então, que explicar que não nos sentimos responsáveis neste nível, e que o casamento é uma forma de estabelecer a autonomia por parte dos jovens, e que pagar para eles casarem não parece ser um bom início de vida independente.

Outra pergunta que fazem é “Quem cuida das crianças?” e eu explico que a família ajuda quando pode e que temos creche (baby care) para quem trabalha fora. Elas me explicam que na China essa tarefa é sempre da mãe da moça, quase que uma obrigação social que ela tem que cumprir; não é uma ajuda, mas uma tarefa culturalmente determinada – e cobrada

A outra pergunta é: “Como a sua nora se relaciona com a Zeza?”, e eu respondo que sempre me pareceu a melhor relação possível. Elas dizem que na China as relações da sogra com a nora são sempre conturbadas e belicosas, e existem muitas piadas e histórias sobre este relacionamento. Dizem que genro com sogra é, via de regra, uma relação muito tranquila, mas entre as “mulheres que amam o mesmo homem” ela é conflituosa e complicada. “Que sorte tem sua nora”, disseram elas. Eu disse que a relação da Zeza com a sogra dela também sempre foi ótima, mas fundamentalmente por um fato essencial: minha mãe teve a sabedoria de jamais se intrometer na vida econômica ou afetiva dos filhos sem ser convidada. Creio que Zeza tem a mesma política.

Mac Tavish, meu tradutor, me contou que, quando os chineses viajam para o exterior com seus amigos e se comportam mal na rua (adolescentes), eles fingem que são japoneses e começam a falar “saionara” e “arigatô“. Contei para ele que fazemos o mesmo com os argentinos e ele caiu no chão de tanto rir. Nunca imaginou que essa trolagem fosse internacional.

Conversando com Gillian, minha tradutora chinesa e professora de inglês me atrevo a fazer algumas perguntas da vida na China. Afetos, profissão, família, dinheiro, etc. Ela me disse que recentemente rompeu um namoro de 8 anos. Perguntei se estava deprimida por isso e ela disse que as vezes se sentia triste e só. Ela é uma menina e tem a idade da minha filha.

– Você é jovem e bonita. Não fique triste; daqui a pouco aparece um príncipe encantado.
–  Ah, tem até um menino que eu gosto, muito mais é baixinho.
– Sério?
– Sim, mais baixo que eu (ela tem 1.64m)
– Mas isso é tão importante assim?
– Bem…. eu gosto de homens altos. E, acima de tudo, as meninas chinesas gostam de homens com pernas compridas.
– Ah…. as pernas…

Lembrei da pergunta do camponês ao presidente Lincoln, no conto de Woody Allen:
– Qual o tamanho ideal das pernas de um homem?, perguntou o camponês em desespero.
– Ideal para que cheguem até o chão, respondeu de forma marota o presidente.
A partir da conversa com Gillian tenho outra resposta:

– Ideal para alcançar o coração de uma bela menina (mas esta resposta só vale na China)

Em relação ao parto e nascimento, apesar de testemunhar tantos avanços na China, me impressiona o atraso no debate sobre as posições de parto. Em 1986, há 30 anos atrás, eu comecei a utilizar a posição de cócoras na atenção ao parto, ainda como residente no Hospital de Clínicas. Para mim foi o processo de entrada no universo da humanização, que na época não tinha esse nome e ainda aparecia como “sofisticação de tutela”. Muito tempo depois é que o protagonismo garantido às mulheres se tornou o eixo central ao redor do qual todos os outros valores gravitam. Entretanto, aqui ainda não se fala de parto vertical, e todos os partos são realizados como nos anos 50: perneiras, estribos, gente torcendo ao lado, etc. Minhas aulas todas se centraram na importância de mudar a posição do parto para que esta atitude venha abrir as portas para mudanças mais significativas.

Por outro lado, alguns encontros que eu testemunhei foram extremamente gratificantes. Um desses presentes que a vida me deu foi conhecer a chefe da única Casa de Parto da China, na região do Tibete. Ela se diz parteira mas sua formação é em medicina. O hospital de referência para a casa de parto em que atendem fica há 5 minutos de distância. O número de atendimentos é de 900 por ano, por volta de 2 a 3 por dia. Os maridos nunca assistem partos, mas ela explicou que se trata de uma questão cultural (maridos nunca enxergam a mulher ir ao banheiro). Além disso, nenhum marido jamais pediu para assistir, apesar de que esta solicitação já é muito comum em cidades maiores como Linyi, Qingdao ou Beijing. Lembro do meu pai me falando que assistir o parto de seus filhos nos anos 60 jamais passou por sua cabeça. A taxa de transferência para o hospital é (preparem-se) 1%. Eu perguntei três vezes para confirmar e não dar informação errada. Mortes neonatais acontecem 1x cada dois anos. A clínica é privada e todos pagam o mesmo valor, inobstante a classe social a que pertencem. O valor pelo atendimento completo é ao redor de 1000 yuan (R$ 500.00).

Essa parteira teria muito a ensinar sobre os malefícios que a sociedade moderna (onde a obstetrícia tecnológica é apenas uma das suas manifestações) produziu sobre as mulheres, seus ciclos vitais e sua sexualidade.

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Desafio do Casal

Desafio do casal

Onde se conheceram? Na festa pela proclamação da República. Ela segurava um cartaz “Tchau querida princesa Isabel” e eu carregava um banner “Somos todos Deodoro”. Amor à primeira cacetada.
Em que ano se conheceram? 1889
Quem roubou o primeiro beijo? Eu. Ela é honesta demais.
Quem é o mais ciumento? Ela. Tem ciúme das minhas canetas. “Precisa segurar elas desse jeito indecente, seu velho babão!!!”
Quem é o mais bagunceiro? Eu. Quando meu filhos eram pequenos esqueci o Lucas no cesto de roupa suja e quando o tintureiro veio devolver eu fiquei embaraçado.
Quem é o mais falante? Eu. Mas ela fala melhor.
Quem sempre pede desculpas? Eu sempre, porque só eu faço coisas erradas
Quem é mais briguento? Sem dúvida eu. Brigo porque uma vida sem brigas é como uma ponte sem faróis, mas a analogia agora me escapa.
Quem nunca esquece o aniversário de casamento? Os dois, mas confundimos sempre com o aniversário da independência do Camboja.
Quem gasta mais? Eu claro. Eu gasto saliva explicando porque precisamos economizar em tempos difíceis.
Quem é mais romântico? Uma vez comprei dois kg de bacon e dei a ela no dia dos namorados. Acharam insensibilidade minha, mas era uma oferta imperdível!!
Quem gosta mais de sair? Eu. Quando a coisa esquenta saio de si
Quem se atrasa? Eu
Quem cozinha melhor? Acho que eu, mas como nunca cozinhei na vida fica difícil provar o meu argumento
Quem come mais? Eu
Quem dorme mais? Ela. E não se atreva a acordá-la antes da hora!!
Quem é mais chato? Eu, mas como recebi recentemente o “Stubborn Award” como o cara mais chato das Américas é difícil para ela competir comigo. Continue tentando!!!
Quem dirige mais? Eu dirijo mais o carro e ela dirige mais as nossas vidas
Quem chora mais? Ela chora em qualquer filme que no final a moça-morre-porque-estava-com-doença-terminal. Eu só choro com replay de gol do Grêmio.
Quem tem paciência? Ela. Eu fico muito impaciente com o excesso de paciência dela

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O falso rebelde e a difícil defesa da civilização

Alguém já disse, mas vou repetir: quando Gentili diz “você é minha empregada; eu digo se você fala ou cala a boca” não é o libertário que está com a palavra, mas o garoto mimado, filho do estancieiro, gritando para seu empregado na fazenda. Ele usa o discurso da Casa Grande querendo parecer rebelde, mas não há nenhuma rebeldia em suas atitudes, só fascismo travestido de molecagem.

Acredito ser inaceitável quando rotulam a deputada Maria do Rosário de “defensora de bandido“. Ofensivo e profundamente injusto. Gostaria apenas de lembrar que, apesar de alguns inevitáveis equívocos que ocorrem na vida de qualquer parlamentar, ela desempenha um papel fundamental na garantia do cambaleante Estado Democrático de Direito em que o Brasil vive. Lembrem que Maria do Rosário defende pessoas comuns, como qualquer um de nós, contra o poder esmagador do Estado e do judiciário. Ela representa a luta pelas garantias do sujeito contra o autoritarismo e a violência dos poderosos.

Gente como ela é essencial em tempos de crise. Não fossem por pessoas como ela estaríamos vivendo ainda em uma selva. Se estivéssemos na Segunda Guerra Mundial, Maria do Rosário estaria defendendo os “bandidos” judeus ou os “criminosos” ciganos contra Hitler e todos os “cidadãos de bem” na Alemanha nazista. Se ela vivesse no Mississippi nos anos 50, ela estaria defendendo os “malfeitores e vagabundos” negros dos linchamento e perseguições dos patrióticos senhores brancos da Ku Kux Klan. Dizer que Maria do Rosário “defende bandidos” é colocar-se do lado errado da história e retroceder alguns séculos na questão dos direitos humanos, quando os acusados não tinham defesa e onde o arbítrio das massas estupidificadas era o único juízo a que os cidadãos comuns se submetiam.

Pensem bem antes de criticar quem defende as garantias jurídicas para todos os cidadãos. Quando elas caem e sobrevém a sombra do totalitarismo, quem poderá defender cada um de nós dos abusos e da barbárie?

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Os Frutos

Há muitos anos eu imaginava que a verdadeira revolução na assistência ao parto seria uma modificação da estrutura da sociedade, em seus aspectos mais profundos. As condutas médicas durante o parto nada mais eram do que a ponta final de um processo que emergia das profundezas da estrutura social. A violência obstétrica era, no meu ver, como um osso de dinossauro na superfície do deserto, que tanto nos permitia perceber o gigantismo do animal quanto a tarefa hercúlea de desenterrá-lo.

Muito cedo me dei conta que a tarefa de reescrever a história do nascimento jamais se daria através da simples ampliação da consciência dos profissionais, seja pela alteração nas “práticas médicas” ou pela transformação das estruturas hospitalares. Isso seria reconhecer os poderes instituídos e tão somente suavizar sua opressão. Na época eu chamava este modelo de “sofisticação de tutela”.

Eu sabia que para mudar a forma de nascer precisávamos mudar a sociedade. Essa sociedade, assim consciente dos sentidos profundos do nascer, não mais permitiria que o parto se tornasse um foco disseminador de violência, exclusão e opressão, envolto na dura carapaça da misoginia. Sabia também que as vias de transformação se dariam através da medicina baseada em evidências e da interdisciplinaridade para enfim chegarmos ao pleno protagonismo do parto garantido às mulheres.

Para isso acontecer deveríamos contemplar 4 pontos essenciais:

A sociedade
Os profissionais
A mídia
Os operadores do direito

Nossa luta com junto à sociedade se dá há quase 30 anos, não só pela nossa ONG mais importante – a Rehuna Humanização Do Parto – como por tantos outros organismos surgidos espontaneamente. Citarei a Parto do Princípio e o GAMA como exemplos dessas instituições. Assim a sociedade – em especial as mulheres – sempre foram o foco primordial de nosso ideário. Se uma revolução no nascimento pode acontecer só será se forem as mulheres a conduzi-la.

Os profissionais humanizados se reúnem há mais de 20 anos para debater, questionar, construir um novo paradigma e disseminar sua visão renovadora através de artigos científicos e livros “à mancheia”, mostrando que temos, sim, muito a dizer e oferecer para esta luta. Dos encontros da Fadynha Doula, até os grandes congressos internacionais e o Siaparto, construimos uma rede segura e forte de disseminação de conhecimento embasado em evidências, reunindo profissionais de vários campos nesse debate.

A mídia ao poucos “vira o fio”. Se antes nos tratava como “malucos” ou “românticos” aos poucos reconhece que os partos humanizados são a ponta de lança da atenção qualificada. Os meios de comunicação hoje reconhecem que o combate ao intervencionismo é uma batalha que rompeu todas as fronteiras, que o excesso de medicalização prejudica a saúde da população e que o caminho é pela suavidade, pela “slow medicine” e pelo respeito aos direitos reprodutivos e sexuais. O sucesso de “O Renascimento do Parto”, a espera “angustiante” pela sua continuação e a produção de tantos outros documentários mostram que a visão da mídia sobre nossas palavras está mudando de uma forma bastante positiva.

O último elemento, o qual me motivou a escrever esta resenha, é a participação dos operadores do direito. Hoje a ReHuNa fez-se ouvir na Organização dos Estados Americanos, em Buenos Aires – através da brilhante advogada Ana Lucia Keunecke – que foi levar aos delegados desta instituição a voz dos ativistas do parto do Brasil junto com nossas denúncias de violência obstétrica. Tivemos a oportunidade de mostrar às Américas como se dá a perseguição sórdida protagonizada por corporações contra médicos, enfermeiras obstetras e doulas que lutam por partos mais dignos e menos violentos. Pudemos sensibilizar os delegados de muitos países irmãos para a nossa luta contra a violência institucional aplicada às gestantes, numa violação inaceitável de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Importante também salientar a importância da Artemis como participante das lutas pela dignidade garantida às gestantes, mostrando que nossa paixão invadiu o universo do direito e lançou sementes que aos poucos mostram seus frutos.

Assim, minhas previsões todas estão se cumprindo. Entretanto, erra quem pensar que esta tarefa está próxima de seu término. “Longo é o caminho de quem deseja trazer luz e discernimento“. Humanizar o Nascimento é garantir o protagonismo à mulher e, enquanto nossa missão não for cumprida, haverá sempre razão para continuarmos firmes nesta trajetória.

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