Darcy Ribeiro

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Esses dias vi alguém citando Darcy Ribeiro em sua fala. Fiquei pensando como faz falta um livre pensador como ele nos dias de hoje. Tomo como minhas as suas ideias e compartilho de sua “altiva depressão”. Fracassei no meu estado e na minha cidade na implantação de um modelo humanizado e transdisciplinar de atenção ao parto que coloca o protagonismo da mulher em primeiro plano. Fracassei na criação  de uma lei de doulas em minha cidade. Tive inúmeros fracassos em meus sonhos por um parto mais seguro e livre. Todavia, assim como ele, eu me envergonharia de estar no lugar de quem me venceu.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. 
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. 
Tentei salvar os índios, não consegui. 
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. 
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. 
Mas os fracassos são minhas vitórias. 
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
(Darcy Ribeiro)

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Brigas e esfacelamento do golpe

As brigas e bate-bocas entre os apoiadores de primeira hora do golpe são um sinal inequívoco do desmantelamento moral desse (des)governo. Assisti às gargalhadas o bafão Reinaldo X Joyce. É muito engraçado. A tentativa de desmerece-la como profissional, o falso comedimento, a raiva dissimulada e o desprezo são patentes em cada frase. Parece que agora eles jogam a criança de um lado para o outro gritando “É teu, é teu!!”. E o festival de vaidades expostas é impagável. O chororô do Reinaldo pareceu concurso de Drag Queen; só faltou no final tirar a peruca e descer o sarrafo.

O governo que já ruía por dentro agora começa a desmoronar por fora. Os jornalistas que deram suporte ao golpe jurídico-midiático começam a querer se livrar do rótulo de apoiadores de um governo que está afundado em corrupção até o pescoço.

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Dengue asiática

Dengue asiática

A dengue de Xiaoping o deixou muito Mao. O grande problema é que ele a adquiriu de um simples Beijing. Por esta razão tome cuidado. Caso encontre alguém com essa doença, não Tóquio, porque é sempre possível o karatê e não ser visível. Esperamos que este alerta não fique Confúcio e que medidas sejam tomadas.

Lembre-se sempre:

“If you can’t understand this message, Gengis Khan”.

Espero que esse comentário a judô você.

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Educação

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Uma estudante conta de alunas de obstetrícia que,  ao escutarem sua professora explicando porque as episiotomias rotineiras são desnecessárias, exclamam: “mas é mais fácil cortar“. Sim, alunas de obstetrícia.

Mais importante do que se enfurecer ou indignar é tentar entender a motivação inconsciente que estas meninas tem para cortar. Como dizia a personagem médica que Simone Diniz uma vez mencionou: “Eu sei que não devo cortar, mas minha mão vai sozinha e corta”.

O que a médica estava se referindo não era um automatismo neurológico da sua mão, nem mesmo uma possessão demoníaca. Ela se referia ao fato de que as motivações para o corte no períneo não eram CONSCIENTEMENTE determinadas. Sua RAZÃO dizia algo e seu desejo dizia outra coisa. A médica apenas descrevia – de forma curiosa e didática – o conflito entre razão e desejo.

A grande força das intervenções médicas se estabelece exatamente porque elas NÃO SÃO conscientemente determinadas, mas geradas nos estratos inferiores da mente, lá onde moram os nossos medos e os desejos inconfessos.

Ao dizerem “melhor cortar” as alunas apenas estavam sorvendo alguns goles do rio que flui sobre nossas cabeças chamado “campo simbólico”, que a todos afeta em maior ou menor grau. O que elas dizem com sua “vontade de cortar” é que parece muito mais fácil “fazer algo” ao invés de esperar que a mulher ajude a si mesma. Afinal, seus corpos frágeis, incompletos e defectivos demandam de nós ações objetivas para solucionar os dilemas do parto, obra de uma natureza madrasta, cruel e insensata.

Uma episiotomia é um corte simbólico; rasga a carne para atingir a alma. Seu sentido é mostrar o lugar da mulher no mundo: passível, imóvel e alienada do que ocorre ao redor. Por fim a lâmina fria lhe confirma: “Só parirás se for por mim. Eu sou o único caminho à verdade e à vida”.

Em função dessa carga histórica e ideológica, mais do que explicar conscientemente a inutilidade e os malefícios das episiotomias rotineiras (e de outras intervenções sem respaldo científico) é fundamental ensinar a beleza da fisiologia feminina, o processo milenar de aperfeiçoamento dos mecanismos de parto, sua adaptação paulatina à bipedalidade, à encefalização e à consequente fetação e deixar claro aos estudantes que NENHUM recurso tecnológico é capaz de tornar o parto normal mais seguro, e que as intervenções sobre o processo de parto só tem sentido do quando utilizadas em processo patológicos, cuja única finalidade é garantir segurança ao binômio mãe-bebê diante dos desvios da fisiologia.

O bom senso diante das intervenções e a orientação diante dos seus riscos deve ser acompanhada de um processo pedagógico intenso sobre a fisiologia feminina. O inimigo é o desprezo pela mulher e suas especificidades, que herdamos dos tempos mais sombrios do patriarcado.

Se as mulheres já conquistaram uma alma imortal resta-lhes conquistar um corpo digno e que seja respeitado pela medicina.

Talvez Carl Rogers tenha mesmo razão em sua frase, que eu sempre vi como perfeita para a medicina: “Perdemos um tempo precioso com treinamento que seria mais bem utilizado em seleção”. De NADA adianta treinarmos médicos e enfermeiras para a atenção ao parto se forem incapazes de sentir o parto e se apaixonarem por esse momento.

Por essa razão os médicos – via de regra – são parteiros sofríveis (para dizer o mínimo); eles foram selecionados em um vestibular pela suas capacidades com geografia, trigonometria e física, e não pela sua capacidade empática. Para piorar eles frequentam uma faculdade de medicina que os empurra para as intervenções – com drogas, cirurgias e palavras – desde os primeiros minutos da faculdade, ao sentirem o formol no nariz durante as aulas de anatomia.

Estamos selecionando de forma errada. Passei toda a minha vida de parteiro escutando o desprezo dos médicos pela arte de partejar. Como pode ser possível que, com todos os dados e estudos que temos das experiências do mundo inteiro, ainda apostamos na intervenção médica como atenção primária ao parto? Pela sua abrangência e capacidade destrutiva, a atenção médica ao parto eutócico é um dos maiores equívocos da história humana no que diz respeito à saúde e ao bem-estar.

Como pedir para estes meninos e meninas que acreditem nas mulheres se todo o seu ensino é focado na patologia e nas formas de intervir? E não apenas na obstetrícia, mas também como solicitar que neonatologistas acreditem nos mecanismos adaptativos dos bebês se todo seu ensino é baseado em catástrofes? Como exigir dos profissionais que “peguem leve” se toda a importância social que eles ganham está relacionada às intervenções?

Muitos médicos recebem prêmios e honrarias por terem salvado vidas, mas quantos recebem elogios manterem vidas a salvo através de uma atitude não violenta?

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Liberdade e Fascismo


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Uma proposta de debate:

Fato: ativista pró-Bolsonaro, vestido a caráter (camiseta Bolsominion) participa de um debate na UFMG e nas poucas frases que diz exalta o que chama de “nosso candidato”. Imediatamente a plateia reage ao orador e o expulsa do ambiente, primeiro com gritos e depois com imposição física. Ele não conseguiu expor suas ideias. Os gritos foram “Fascistas não passarão!!”. O vídeo que recebi tem um título mais ou menos assim: “Bolsominion tenta falar em evento na UFMG e se dá mal”.

Como eu sou um fanático da liberdade de expressão esse tipo de atitude sempre me faz muito mal, mais ainda quando vi o vídeo pela segunda vez e me certifiquei que o objetivo do pretenso palestrante NÃO ERA falar, mas ser expulso. Com essa expulsão ele conseguiu que sua imagem fosse disseminada pelas redes sociais e – mais importante – ser visto como vítima da intolerância (das esquerdas).

Em outras palavras, um fascista montou uma armadilha que todos caíram. Pior, saiu como herói da liberdade de expressão que foi silenciado a murros e gritos por um grupo de intolerantes. Era TUDO que ele e seu grupo desejavam.

Claro que foi uma provocação, mas por que temos que continuar caindo nessas armadilhas?

No mesmo dia recebo e publico no Facebook o vídeo de um dos (meus) heróis contemporâneos, o Snowden, que vai na direção oposta. Ele fala que o combate às mentiras na Internet (fake news) não pode ser feito através da censura ou qualquer ato proibitivo, mas através de MAIS abertura e mais debate. Esconder as posições fascistas FORTALECE O FASCISMO e censurar bolsominions os deixa mais coesos e firmes. O que pareceu aos olhos desavisados da esquerda como uma vitória dos democratas presentes contra um elemento fascista foi – ao meu ver – uma derrota da livre expressão e da própria democracia.

Afinal, o que devemos temer nesse discurso? Porque haveríamos de ter medo de um discurso grotesco e reacionário? Por que não permitimos que eles exponham toda a sua violência e radicalismo para assim serem mais facilmente combatidos?

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Estratégias

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Infelizmente sou obrigado a reconhecer que este ato de apoio à vereadora Juliana em São Paulo ofereceu toda a visibilidade que o vereador Holiday queria. Ele passa a ser um herói dos fascistas. Não nego que o movimento em solidariedade a Juliana se tornou mandatário, mas ao mesmo tempo coloca holofotes na dupla Holiday – Kataguiri. Eles estão conseguindo trazer suas pautas para a mídia e com isso buscando apoio dos fascistas em toda parte. Se foi planejado – como imagino que foi – então está dando certo.

Desde o início a estratégia dos fascistas é a polarização: nós contra eles. Isto é histórico e aconteceu em todos os lugares onde os modelos fascistas foram implantados; como uma receita de bolo que só é diferente nos detalhes externos e decorativos. Nunca houve um real desejo de compor ou construir, mas apenas de se CONTRAPOR a tudo que vem do “outro”. Além do mais, colocar a culpa no outro (a corrupção, o desemprego, a desonestidade, o Mal) é uma sedução que eternamente nos acompanha.

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Pêndulo

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Quando você consegue alcançar vitórias importantes em algum tipo de movimento social isso significa que, inevitavelmente, alguma reação virá em sentido oposto. O movimento “menas main” surgiu em resposta aos avanços da humanização do nascimento, chegando a criar horrores como “Não me obriguem a um parto normal” entre outros. O movimento feminista, após importantes conquistas e as tantas mudanças na sociedade pelas denúncias de violência contra a mulher (inclusive no parto) recebe agora um ataque violento de machistas (homens e mulheres) insatisfeitos com estes avanços. Até a alimentação saudável agora está na mira de pessoas que não suportam mais a “ditadura da alimentação saudável”. Alguns chegam a dizer que querem comer “tudo que tiver vontade” e não aceitam ser controlados por “xiitas como Bela Gil”.

Todos os novos insatisfeitos reclamam que se sentem “oprimidos” pelas novas “ondas”, mas não conseguem enxergar que os movimentos que agora estão em destaque surgiram para combater as ditaduras do lixo alimentar, das cesarianas e do poder testosterônico abusivo. Não é errado aceitar que a humanização do nascimento, o feminismo e a alimentação saudável cometeram erros, em especial ao julgar as pessoas fora desses grupos sem contextualizar as razões para as cesarianas, as relações abusivas ou a comida sem qualidade. Entretanto, não há como invalidar suas conquistas pelos exageros e equívocos, tão naturais quanto inevitáveis. O que sobra como lição é a necessária dialética pendular que faz com que o sucesso das novas propostas seja o prenúncio de um ataque violento às suas premissas por aqueles que se sentem ameaçados pela emergência dos novos paradigmas.

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Lavagem Cerebral

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Sempre que escuto a expressão “Lavagem cerebral esquerdista” eu lembro que essa queixa está em sintonia com outras “lavagens” contemporâneas. É a mesma coisa que reclamar dos “malucos da alimentação saudável“, os “fanáticos do parto normal” e as “dementes feministas“. Quem diz isso não sabe como funciona uma lavagem cerebral. E sempre que isso acontece a imagem do mestre Marsden Wagner aparece na minha frente.

A gente vive mergulhado num OCEANO de propaganda direitista, cesarianas “salvadoras”, “cheetos e Sazon” e violência contra a mulher, desde que nascemos, a ponto de aceitarmos com naturalidade 28% da riqueza nas mãos de 1% dos mais ricos do país, 57% de cesarianas epidemia de obesidade e abusos e estupros diários contra mulheres.

Aí, algo acontece na sua vida embaixo d’água. Por razões difíceis de explicar, o peixinho dá um salto e por uns breves instantes sente como é o mundo fora da água. Impressionado com sua descoberta vai contar para os outros peixes o que viu. Diante do seu relato emocionado, os súditos do tubarão torcem o nariz e dizem que tudo não passou de uma “lavagem cerebral”, que a realidade é outra e que o correto mesmo é viver apenas dentro da água, pois um mundo de ar não existe. Mais ainda, os pássaros, os leões e as girafas não existem, são fantasias e mentiras, e o tubarão e as baleias que devoram os peixes menores fazem apenas para manter a ordem para o bem de todos.

– Pare de falar essas coisas e concentre-se em ser amigo das rêmoras pois são elas que controlam os restos do almoço dos tubarões. Seja pragmático e deixe de fantasias. E lembre … quem consegue a proximidade com os grandes habitantes do oceano tem vantagens, mas para isso tem que ter mérito. Por exemplo: ser filhote de tubarão, ou tornar-se amigo de um deles.

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Meu P* te ama

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Música ao estilo “sertanejo universitário” (o nome mais malandro inventado na história da música) que é onipresente na cultura e toca nas rádios toda hora, fala de 4 assuntos básicos: mulheres que chutam homens que não lhes dão o valor que julgam merecer, baladas, sofrência de corno e bebedeiras. A cafonice das letras é de arrepiar, mas hoje em dia elas estão presentes em todos os ambientes. É quase impossível não escutar. Aqui na cafeteria estou há 15 minutos escutando o DVD do Luan Santanna, que agora definitivamente está assumindo um estilo “melaqüeca“.

Eu não aceito falar em termos de “no meu tempo era melhor”, mas gostaria de escutar alguém que entenda de música me dizer o que aconteceu com o refinamento, a delicadeza, a profundidade das letras, e a sofisticação de melodias nos últimos 30 anos.

Veja só, quando eu era adolescente Chico Buarque era POPULAR. Não precisava ligar a Rádio Cultura para ouvir. Ele ia no programa do Chacrinha e o povo cantava em uníssono suas canções. Caetano, Gil, Tim, Betânia eram artistas do povo, e suas letras estavam na cabeça de todos nós.

O que aconteceu para chegarmos até “Meu pau te ama” e “Eguinha Pocotó”?

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Cócoras

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Há exatamente 30 anos comecei a atender partos de cócoras no meu estado e por muitos anos eu fui o único profissional a usar essa posição em em uma região onde moram 10 milhões de pessoas. Isso, entre outras atitudes (como corte tardio do cordão) era motivo de deboche, escárnio, desprezo e bullying. Naquela época posições alternativas sequer eram mencionadas, quanto mais oferecidas ou aceitas pela comunidade dos obstetras.

Hoje em dia parece fácil debater esta questão, mas há 3 décadas quando resolvi atender partos de cócoras no hospital de Sapucaia do Sul houve uma sessão especial da Câmara de Vereadores para impedir que isso continuasse. Um dos vereadores disse que tinham que fazer algo com o médico que colocava as mulheres para “parir como galinhas“. Mesmo 30 anos depois da minha iniciativa os hospitais de Porto Alegre – em especial os hospitais universitários – não estimulam partos verticais como padrão ou rotina.

Quando quiser saber o nível de abertura e atualização de um obstetra pergunte a ele sobre partos verticais, em especial de cócoras. Se ele falar coisas como “isso é coisa de indígenas“, ou “civilizadas não podem parir assim“, ou “mulheres de cidade perderam essa habilidade” pode ter certeza que ele está usando os mesmos argumentos furados e sem embasamento de 30 anos atrás.

Na verdade o que ele tem em mente mas não consegue dizer é “eu não sei atender um parto que seja bom para a mãe; só sei assistir quando é bom para mim“.

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