Moderação no Discurso

Algumas mulheres poderiam – em nome do respeito, da racionalidade e da boa convivência – aprender que discordar das suas opiniões NÃO significa desconsiderá-las, silenciá-las ou desmerecê-las. Debater com alguém demanda reconhecer visões de mundo diferentes e possibilidades diversas de olhar para o mesmo fenômeno. Escutar dignamente uma opinião diversa, sem adjetivos, ofensas ou criticas “ad hominem”, são condições indispensáveis ao debate.

Infelizmente nas redes sociais qualquer discordância significa malquerência. Uma mulher ofender um homem que ousou discordar dos detalhes de uma argumentação (mesmos tendo concordado com a conclusão) é muito triste de ver, pois determina o fim de qualquer possibilidade de interlocução.

E isso é sempre uma perda…

Debater é fundamental, mas entendo como o mundo virtual pode transformar uma conversa frugal em uma briga. Ontem fui discutir uma piada machista sobre a bunda da Yoko Ono e fui xingado, mesmo concordando com a tese principal e condenando o machismo explícito do chiste. Entretanto a pessoa dizia que Yoko era mais do que uma bunda, a qual “só serve para eliminar fezes“.

Aí eu discordei. “Peraí. Uma bunda é muito mais do que isso, e por seu valor simbólico e erótico ela é tão valorizada. Uma bunda é o quadril, as ancas, e por ali passam bebês. Passam dores e passam desejos. Ali está o sexo com suas reentrâncias e mistérios. Uma bunda tem valor simbólico, muito mais do que operacional. Para criticar uma piada machista não é necessário biologizar a bunda, ou o corpo da mulher“.

Por dizer isso e discordar da visão diminutiva de um fetiche (adorado em todos os povos, tanto quanto os seios fartos), fui agredido virtualmente, mesmo reconhecendo que a Yoko não merecia esta desconsideração de caráter objetual e machista.

Ok, “mea culpa“…

Eu já falei sobre isso, e a culpa é minha. Trata-se do “debate com as vítimas“. Quando um dos sujeitos do debate É vitima (como as mulheres são) qualquer “adversário” (pois sou colocado nessa posição) está inexoravelmente perdido. Ele não tem perdão por incorporar em sua fala, mesmo sem o desejar, o agressor. Se eu disser, em forma de conselho, que “as mulheres deveriam…” isso é transformado – antes mesmo de atingir a retina – em uma ordem indevida, e tratado de forma injusta como se uma violência fosse. Quando o debate fica assim e literalmente TODAS as palavras precisam ser vigiadas é por que o diálogo já acabou ha muito tempo e só o que resta é um enfrentamento de solilóquios.

Por outro lado é interessante notar como algumas mulheres chamam homens de “machistas” com total liberalidade. Creio que as que fazem isso não se dão conta como isso é ofensivo. Pior: não oferecem sequer uma defesa possível. Vou contar um segredo. Toda a vez que eu escuto uma mulher me acusar de machista, apenas por discordar dela sobre palavras ou detalhes de percepção, eu me sinto como uma mulher que, ao debater com um homem, é chamada de “mal amada”. Pense nisso antes de chamar um amigo seu de “machista”, principalmente quando o seu amigo simplesmente discordou de você.

Meu pedido é que debatam e dialoguem sem ofender, sem rotular ou adjetivar. E o meu “mimimi” não é gratuito. É uma tristeza de ver gente que não tem consideração pelo interlocutor. Que ofende apenas porque discorda. Que agride e fere, mas que reclama das (verdadeiras) agressões sistemáticas que sofre. Como eu disse anteriormente, quando as palavras precisam ser medidas para não serem usadas contra quem as proferiu é porque o desejo de debater deu lugar há muito tempo para sentimentos menos nobres.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Professora de Inglês

menina-envergonhada-90x60

A vida divertida de uma professora de inglês para crianças…

Minha filha Bebel estava dando aula de inglês para crianças de 4 anos de idade em uma escola privada da cidade. A brincadeira que ela elaborou consistia em dizer em voz alta para os aluninhos uma parte do corpo em inglês, e as crianças apontarem em si mesmas. Com todos eles em pé de frente para a professora a brincadeira começou.

– Vamos lá crianças, quero ver quem acerta. Escutem a professora… “HEAD”.

Algumas crianças não sabiam, outras apontam para suas cabeças, mas uma menina linda bem à frente da professora põe ambas as mãos entre as pernas e grita:

– Xexeca!!!

Sem se perturbar minha filha Bebel explica que não é isso, que é a cabeça. Ela sorri e Bebel propõe outra parte do corpo, e fala “LEG”.

As crianças se entreolham, e algumas se abaixam e tocam nas pernas. Outras apenas sorriem sem saber o que fazer. A menina lindinha aproveita e mais uma vez coloca as mãozinhas nos genitais e dispara:

– Xexeca!!!

Minha filha começa a ter dificuldade para conter o riso, mas explica mais uma vez que não é essa parte e explica que é a perna. Ela parece desapontada, mas continua sorrindo lindamente. Mais uma charada então é proposta. Bebel diz “NOSE” e espera as respostas.

As crianças novamente titubeiam. Algumas colocam o dedo no nariz, outras nas orelhas, mas a loirinha não tem nenhuma dúvida. Coloca as mãos lá em baixo e mais uma vez exclama com plenos pulmões:

– Xexeca!!!

Aí a minha filha não contem mais o riso e, depois de explicar que era o nariz, dispensa a turma para fazerem um lanche. Quando estão todos de saída a menina se aproxima da minha filha e diz em voz baixa:

– Professora, depois a senhora vai dizer xexeca?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Visão de Futuro

Minha visão de futuro?

“Em um futuro distante testemunharemos a lenta incorporação dos valores da autonomia e liberdade para as escolhas informadas das mulheres gestantes, a diminuição lenta e gradativa das cesarianas – em especial as de indicação duvidosa ou questionável – uma aceitação crescente de enfermeiras obstetras na atenção ao parto eutócico, a incorporação das doulas pelas equipes de assistência, a criação de núcleos extra hospitalares de assistência ao nascimento, a suavização dos procedimentos de atenção e cuidados no parto (guiados pela Medicina Baseada em Evidências) e o desaparecimento dos “dinossauros” da obstetrícia, sufocados na poeira que surgirá pelo choque dos meteoros das evidências contra a face desgastada das mitologias anacrônicas.

Todavia, é preciso olhar para todos estes eventos com olhar geológico.”

1 comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Dearest Robbie

Robbie 01

Rituais de passagem são fundamentais, e o parto é um exemplo da real necessidade de ritualizar as transições pelas quais passamos. Entretanto, no parto contemporâneo ocidental não há uma falta de rituais; pelo contrário, existe uma perversão daqueles que historicamente conduziram o nascimento nos milênios que nos antecederam. Um ritual nos permite enxergar os valores inconscientes da cultura que circulam de forma invisível no “campo simbólico”, e no parto não poderia ser diferente. Os rituais que usamos revelam a estrutura valorativa que sustenta nossa ação social. Se no passado serviam para fortalecer as funções primordialmente femininas de gestar e parir, hoje sustentam o modelo tecnocrático, empoderando instituições e profissionais às custas da subtração da mulher como condutora do processo.

Assim, não nos faltam “rituais” no parto. Eles existem em abundância, bastando para isso observar os movimentos que o constituem. As malas, as roupas, as consultas de pré-natal, a ida ao hospital, o corte dos pelos, as “lavagens”, o afastamento imediato, as intervenções e tantos outros eventos se estruturam pela repetição, padronização e simbolismo, os quais caracterizam e definem todos os rituais humanos.

A diferença nos rituais que hoje observamos na assistência ao nascimento é que eles afastam as mulheres do controle, enquanto exaltam as tecnologias e quem as controla. Mudar a forma de nascer implica em transformar estes rituais, adaptando-os a um novo paradigma, passando de um modelo que aliena e exclui as mulheres para outro que as inclui e, mais ainda, as coloca no comando do processo.

A grande deflagradora deste processo de resgate da ritualística no parto foi Robbie Elizabeth Davis-Floyd. Robbie é uma das maiores personalidades do feminismo no mundo contemporâneo. Seu livro “Birth as an American Rite of Passage” é um marco na antropologia do parto e nascimento, ramo da ciência que estuda os recortes transcultural da assistência ao parto. Se primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado na Universidade do Texas, vendeu mais de 40 mil cópias, e isso é algo digno de nota. Ela recebeu algumas homenagens e honrarias que apenas feministas americanas realmente importantes receberam. Participou de várias edições de “Our bodies, ourselves”, e escreveu livros que transformaram a trajetória de parteiros no mundo inteiro. Robbie descortinou o imaginário do nascimento, sua profundidade simbólica e a relação dos rituais com as práticas da atenção ao parto ocidental contemporâneo. Muitos médicos, entre os quais me incluo, mudaram a forma de ver sua ação no parto a partir da perspectiva que ela inaugurou com relação aos rituais aplicados ao nascimento.

Este texto é a consequência direta de assistir – inadvertidamente – um colega atendendo um parto através da velha ritualística de atenção dos anos 50: paciente deitada de costas, pernas erguidas, obstetra mascarado, episiotomia, gritos, Kristeller, luzes ofuscantes e uma crença óbvia – apesar de inconsciente – na defectividade feminina para dar conta dos desafios do parto. Somente depois de conhecer o trabalho de Robbie o enigma da diferença – muitas vezes abissal – entre o que se sabe e o que se faz na prática pôde finalmente ser compreendido.

Os rituais foram desvelados por Robbie, e assim despidos, puderam ser por nós analisados naquilo que trazem de mais verdadeiro.

Por abrir estas “portas de percepção” teremos com Robbie uma dívida impagável.

Que Deus a abençoe…

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Discursos femininos

mulher-gordinha

O discurso das mulheres diante de desafios como “peitos pequenos”, “bunda grande”, “excesso de peso”, ou “cabelo ruim” sempre foi incompreensível e paradoxal para mim, e me remete à construção de uma auto imagem baseada no olhar do outro e sobre uma estrutura psíquica narcísica.

Por isso é que qualquer discurso construído pelas mulheres para reagir a estas “problemas” é considerado por mim como heroico.

  • Eu uso silicone porque é importante para minha autoestima, e o importante é eu me sentir bem e não o que os outros pensam.
  • Eu não coloco silicone porque não tenho que dar satisfação de como sou aos outros. Eles que me aguentem.
  • O importante é a beleza interna. O externo é efêmero e enganoso aos olhos.
  • Sim, eu gasto 500 reais num tratamento para o cabelo porque eu mereço.
  • Quero alguém que me valorize pelo que eu sou e não pelo que eu aparento.
  • Sim, fiz redução de mamas porque eu quero me amar mais.

Como entender tantas vozes aparentemente paradoxais? A moça das mamas pequenas que as exibe despudoradamente não tem menos coerência em seu discurso do que aquela que coloca próteses para se sentir mais bonita “consigo mesma”

É exatamente por estes aparentes conflitos do que significa ser e estar mulher que as percebo tão fascinantes e misteriosas.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

As Regras Sujas do Jogo

O mesmo discurso ingênuo que o PT usava nos anos 80 eu vejo agora sendo utilizado pelo “outro lado”, com as mesmas características de exclusão e essencialismo. Na época os integrantes do PT chamavam a todos os “não PT” de “eles”, os outros, os que “não são como nós”. Quando um deputado do PT enfureceu-se com uma manifestação violenta e antidemocrática e convocou os petistas para “sair na porrada com os coxinhas” eu li de um colega de direita a expressão: “Olha como se comporta essa gente”.

“Essa gente”, uns irresponsáveis, baixo nível. Petistas, petralhas e corruptos.

Mais uma vez a diferença “essencial”. Essas pessoas são diferentes de nós. Suas veias carregam outra coisa, seus sonhos são diferentes, seus objetivos diversos dos nossos. Essa gente bagaceira, sem nobreza e sem valor.

Esta semana escutei outra pessoa me dizendo: “Já fui fã do PT, mas ele sujou as mãos. Não voto neles nunca mais, mas também não voto nos miseráveis da direita. Minha simpatia agora é com o PSOL“.

Pronto, o PSOL passou a ser a “virgem da vez”. Luciana passa a ser a impoluta representante dos éticos, honestos e corretos. Continuamos com a mesma retórica ilusória do futebol: “Bom mesmo é o Zezinho: não errou nenhum passe e não perdeu nenhuma bola. Bem verdade que não jogou também; estava no banco assistindo a partida”.

Mas, pasmem, as pessoas que compõe o PSOL (ou o PSTU, PCO, PMN…) são feitas da mesma carne, os mesmos vícios, o mesmo sangue e linfa que constitui a todos nós. Estivessem agora no poder e o dilema seria o mesmo:

“Se eu me mantiver puro não governo e apenas permito que os corruptos, os que se sujam, os canalhas e aproveitadores, continuem no poder. Posso me manter fiel aos princípios e fracassar em alguns meses. Porém, posso me sujar como TODOS fizeram, e tentar impor um pouco do meu estilo, minhas ideias, meus desejos e meus valores. Mas para isso precisarei me sujar na mesma lama que emporcalha a vida pública do país há séculos. Precisarei do dinheiro dos poderosos, e será necessário selar alguns compromissos com o demônio. O que fazer?”

Qualquer um tem o direito de, arrogantemente, exclamar: “Eu nunca sujaria as minhas mãos. Só “eles” fazem isso. Nós somos éticos.” Pois eu também tenho o direito de duvidar de tamanha prepotência. Ora, o poder embriaga a todos e, mais do que isso, as regras desse jogo estão aí para serem jogadas. “Não quer cair do balanço não desce pro play“, já dizia a turma do bullying. O jogo da política – como o conhecemos na atualidade brasileira – é SUJO em essência e qualquer partido que tenha a possibilidade de ascender ao poder usará todos os recursos para conquistar a maioria no congresso e fará isso da maneira que for possível. Comprará votos, ameaçará, pressionará, boicotará e todos os outros recursos – éticos ou não. Não existem “nós” ou “eles” quando as regras dadas são estas.

Não, é um erro acreditar que eu defendo uma complacência com os erros do PT. Digo o mesmo que a presidente Dilma se esforça por repetir: “Se há erros que sejam punidos exemplarmente“. O equívoco é imaginar que tirando o PT do governo teríamos todos os problemas resolvidos, como se o PT fosse um cancro, uma agremiação que concentra a podridão e a corrupção no país. A história nos mostra que não, e a própria ascensão deste partido ao poder nos anos 80 se deu para combater a corrupção galopante da época. A história apenas se repete, ou “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, como diria meu caro amigo Karl.

Trocamos os jogadores, mas mantivemos as mesmas regras pútridas. O resultado é que boas intenções (como as que reconheço no PT) acabam sendo manchadas pelas falcatruas que ocorrem pelo próprio transcorrer de um jogo com cartas marcadas.

A reforma política é a saída, mas será que desejamos mesmo que algo mude? Ou seremos apenas pobres corruptos menores aguardando a nossa chance na fila das vantagens indevidas?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política

A Culpa é dos Outros

julgamento

– Meu filho, porque você comeu o bolo que estava aqui em cima? Mamãe falou que estava quente e não era para comer!
A criança faz cara de choro e aponta para o irmão.
– Mas o  mano também comeu!
A mãe põe as mãos na cintura e o encara com olhar de falsa brabeza:
– Meu filho, desde quando apontar a culpa nos outros diminui o seu erro?

Quem não passou por esta cena?

Apenas quem não teve infância, ou uma mãe zelosa para apontar o certo e o errado para um filho. Pois surpreendentemente, este tipo de lógica usada pelo garoto ainda é muito frequente nos discursos que vejo sobre temas relativos à mulher. Analisem apenas estes dois fatos atuais:

O aborto passa por uma fase de intenso questionamento e avaliação por parte da sociedade civil. Evidentemente as mulheres – seu corpo e sua autonomia – são os mais visados. Parece que a sociedade ocidental patriarcal acende um sinal vermelho sempre que as liberdades femininas são acenadas, mesmo as mais sutis. As antigas estruturas falocêntricas da cultura parecem se abalar diante de qualquer iniciativa que ofereça às mulheres uma liberdade maior para a escolha de seus destinos e para gerenciar com autonomia a sua vida. Por serem elas “matrizes” tendemos a entendê-las como contêineres fetais que carregam algo que é, acima de tudo, nosso.  As mulheres ainda estão longe de garantir o pleno protagonismo de seus corpos.

Entretanto, quando li os primeiros escritos atuais sobre o aborto fiquei um pouco surpreso com o conteúdo de vários deles. Ao invés de testemunhar uma chuva de argumentos em favor da liberdade de escolha,  enfocando a questão de saúde pública envolvida, as mortes evitáveis de mulheres ou a falha dos sistemas policiais de obstaculizar o aborto clandestino no mundo inteiro,  eu me deparei com argumentos ao estilo o “aborto do homem“.

Esse argumento se baseia no fato de que milhões (ao que parece 5 milhões) de crianças não tem o nome do pai na sua certidão, e que isso seria um “aborto de pai“. Quando eu vi essa ideia pela primeira vez eu pensei: “Caraca, o que tem a ver uma coisa com a outra? Porque um pai abandonar um filho é o mesmo que não permitir que ele venha a nascer? Estão tentando comparar maçãs com brócolis! Qual a razão para criar mais culpados nesta equação?“.

Ainda não consigo aceitar que um pai fugir de suas responsabilidades pudesse ser comparável ao aborto, o impedimento de um nascimento. Ambas as situações são problemas sociais que precisam ser atacados: o aborto clandestino e a falta de presença e/ou suporte do genitor no cuidado com seus filhos. Entretanto, o aborto não passa a ter uma compreensão melhor se nós encontrarmos falhas – inquestionáveis – nas condutas masculinas relacionadas à criação de filhos! O argumento do “aborto do pai” em NADA ajuda a descriminalizar ou legalizar o aborto, apenas usa a mesma retórica da criança que comeu o bolo ainda quente. E isso, ao meu ver, apenas exalta uma culpa feminina que tem vergonha de se expressar, da mesma forma como o menino que comeu o bolo sente-se culpado e tenta exonerar esta culpa apontando para o irmão. Não é necessário criar mais culpados para libertar as mulheres do jugo do patriarcado e oferecer-lhes autonomia. O aborto do pai é um erro retórico que apenas atrasa o debate.

Outro cenário: um adolescente toma 30 “shots” em uma competição de quem suportava mais bebida alcoólica em uma festa de “bichos” de uma universidade paulista. Em consequência da intoxicação aguda por álcool ele vem a falecer. A sociedade consternada se pergunta: “De quem foi a culpa? Universidade? Cultura?  Sociedade? Família?” Alguém insinua a estúpida e extemporânea pergunta: “Onde está a mãe desse menino que permitiu que isso acontecesse?“

Para uma mulher enlutada pela mais dura das dores, a mais cruel das tristezas, o silêncio quebrado pelo soar de um telefone na madrugada, não poderia haver nada pior do que ser acusada por esta tragédia. Posso apenas imaginar a dor amplificada de uma mulher que perde o filho e depois é açoitada por acusações infundadas e absurdas.

Ora, muitas dessas tragédias ocorrem a despeito de todos os esforços que fazemos para que elas sejam evitadas. Eu sou pai e avô, além de ser tio de dezenas de sobrinhos “capetas”, e já tive minha cota de sustos e pânicos. Apontar o dedo para uma mãe nestas condições é mais do que injusto; ultrapassa todos os limites da crueldade. Fazer isso é desconsiderar as circunstâncias e contextos, as forças do grupo e as necessidades de expressão do ego em uma época tão complexa da vida como a adolescência.

Eu mesmo já bebi em uma festa da faculdade. Tomei todas, apenas para saber do que se tratavam as alterações de consciência que eu testemunhava no hospital de Pronto Socorro. Saí cambaleando da festa em direção à minha casa, e no meio do caminho caí. Perdi todos os meus documentos (e só soube dias depois), mas fui socorrido por um gentil passante que me ajudou a entrar em um táxi. Mas poderia ter sido assaltado, esfaqueado, atropelado. Poderia ter morrido por uma dessas tragédias que estão no jornal de hoje.

Seria justo culpar a minha mãe – ou o meu pai!!! – por uma bebedeira juvenil de um menino que antes disso nunca havia bebido, e que depois disso nunca mais se embriagou?

Certo, é estúpido e injusto oferecer esta conta para uma sofrida mulher pagar. Mas diante dessas acusações eu esperava uma defesa aberta da maternidade, um pedido de consciência sobre estes casos, uma solicitação de ponderação sobre os múltiplos elementos que levam a estas tragédias. Eu queria apenas serenidade e menos apontar de dedos. Entretanto, sou obrigado a ler algumas matérias cujo argumento principal é: “Ah, estão acusando a mãe do adolescente? Mas e o pai? Porque não falam dele?“

Essas pessoas realmente acreditam que esta mulher terá menos peso a suportar se direcionarmos esta carga para seu marido? Acreditamos mesmo que a dor de uma perda como esta fica menos dolorida se acrescentarmos INJUSTAMENTE outros culpados? A angústia que uma mulher sofre por optar por um aborto fica menor quando sabemos que os homens também fraquejam e abandonam filhos?

Por quê o discurso de algumas feministas (a minoria) insiste nesta dicotomia infantil? Porque não investir em desculpabilizar as mulheres que escolhem pelo aborto ou oferecer aconchego e abraços para uma mãe cujo filho se foi numa brincadeira trágica de faculdade? Porque é necessário atirar a culpa para os “inimigos”, os homens?

E porque, afinal, continuamos a escolher os homens como inimigos quando o patriarcado e o machismo é que deveriam ser os verdadeiros alvos?

Quando me perguntam porque as modificações na sociedade são tão lentas no que diz respeito aos direitos das mulheres eu sempre respondo que enquanto as mulheres aceitarem este discurso equivocado as conquistas continuarão lentas.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

Nova Era

Renascimento

ACOG – American College of Obstetrics and Gynecology – a mais importante associação americana de obstetras, mudou sua posição em relação à assistência ao parto conduzida por enfermeiras obstetras fora do hospital. A partir de agora este tipo de atenção é aceita para as mulheres de baixo risco. Ainda não fez o mesmo em relação ao parto domiciliar, mas também não apresenta nenhuma justificativa para que os “partos em casa” não sejam igualmente contemplados.

Mas qual a razão para esta mudança histórica?  Bem, várias. Uma delas se relaciona aos custos. Um parto em hospital custa entre 30 e 50 mil dólares (entre 90 e 150 mil reais). O custo de uma enfermeira não passa de 3 a 7 mil dólares (9 a 21 mil reais) num atendimento fora do hospital. Diminuir custos é sempre importante para equilibrar as finanças de países que lutam com déficits crescentes em seu orçamento de saúde, como os Estados Unidos (e o Brasil, igualmente). Outra razão é que este orçamento é de quase 3 trilhões de dólares por ano, mas apesar de todo este investimento os EUA ocupam o lugar 26 em mortalidade infantil e o 60 em mortalidade materna, atrás de todos os outros países do chamado “primeiro mundo”. Em 1987 o número de mortes maternas era de 6/100.000 e hoje está em 28/100.000, num crescimento assustador.

Estes números são muito baixos em termos absolutos, mas o crescimento relativo nos óbitos nos obriga a repensar um modelo de assistência tecnocrático que nos oferece péssimos resultados. Por último (mas as razões não se esgotam por aqui) a publicação do NICE na Inglaterra no final de 2014, recomendando partos em casa e em casas de parto a partir dos resultados de uma extensa pesquisa chamada “Birth Place” – que comprova a excelente qualidade destas opções – deixou a obstetrícia americana defasada e sem reação.  Era imperiosa uma alteração de atitude a partir do novo cenário que se desenhava no mundo inteiro.

Esta mudança histórica terá óbvias e previsíveis repercussões em todos os países que orbitam o modelo médico dos Estados Unidos. Já não será mais possível aceitar a arrogância e a desinformação de chamar atenção em Casas de Parto de “violência obstétrica”, como se ouviu de algumas autoridades médicas. Será necessária uma revisão dos postulados que sustentam a atenção centrada na figura dos médicos e nos hospitais, até porque toda a atenção ao parto no nosso meio era baseada na confiança depositada no modelo da “matriz” americana.

Para os que lutam pela liberdade de escolha, a visão integrativa e interdisciplinar do parto e uma medicina baseada em evidências,  este é um grande momento. A partir de agora já será possível ver um futuro muito melhor para as gestantes, ao se oferecer a elas uma gama maior de alternativas comprovadamente seguras.

Veja o documento aqui:

http://www.nightingalebirth.com/nestingblog/acog

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Violentos

Um grupo de ativistas brasileiras invadem uma propriedade rural que produz transgênicos e que plantam pinus para “reflorestamento”. Sabemos o estrago que este plantio produz para as propriedades próximas e a ação é coordenada pelo MST – Movimento dos Sem Terra.

Uma parcela significativa das pessoas que comentam a notícia pedem mais respeito

Mas… o que é respeito?
Como definimos isso?

Um exemplo: brancos europeus de olhos azuis invadem terras no oriente médio e expulsam 700 mil pessoas de suas casas, argumentando serem descendentes de uma tribo que lá viveu há 2 mil anos. Exigem que sua pele clara e seus olhos azuis não cause confusão: “sim, somos descendentes dos velhos patriarcas que por algum tempo viveram aqui!!“, mas não se preocupam em arrasar vilas inteiras, incendiar casas, destruir famílias, matar mulheres e crianças no afã de “limpar a terra dos impuros” e expulsar pessoas cujos ancestrais cultivaram aquelas terras há milhares de anos.

Não satisfeitos criam “prisões a céu aberto”, enclaves superpopulados com grades, muros e checkpoints. Realizam prisões sem julgamento, encarceramento de crianças, tortura e toda sorte de violações aos direitos humanos. Exclamam em alto e bom som para todos que seu direito àquela terra foi dado por Deus, pois no livro sagrado que adotam (o mesmo que diz que o som de trombetas fez os muros caírem) existe uma “terra prometida” (por sorte não é no meu bairro).

Como discutir com pessoas que afirmam que o genocídio, o racismo institucionalizado e a limpeza étnica são determinações divinas?

Hoje em dia 5 milhões de prisioneiros vivem enclausurados em uma pequena fração da terra que durante milhares de anos foi o lar de seus ancestrais. Diante de tantas violações de tantos direitos internacionais reconhecidos seria razoável pedir àqueles cuja honra foi destruída que sejam “respeitosos”, “educados”, “comedidos” e que parem de reivindicar seu direito, referendado por todas as instituições de direitos humanos do planeta?

Por outro lado, seria justo pedir que as mulheres agricultoras fossem mais “equilibradas” vendo a destruição dos ecossistemas pelo agronegócio? “Educação” e respeito às estruturas de poder é tudo o que os “donos” pedem a nós. O objetivo é fazer as coisa aparentemente acontecerem, enquanto eles sabem que – no final – nada vai mudar.

Nunca Bertold Brecht foi tão atual:

“Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que os oprimem“.

Dos “sem terra” dizemos radicais, mas não percebemos violento o modelo que os castiga.
Dos gritos dizemos barulho, mas não chamamos terror o silêncio que nos ensurdece.
Da luz dizemos ofuscante, mas não chamamos de morte a escuridão que nos cega.
Dos ativistas dizemos “vândalos”, mas não chamamos vandalismo as grades que os contém.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Palestina

Diários de Motocicleta

Eu usei a metáfora dos “Diários de Motocicleta” há uns 13 anos ao fazer a abertura do Congresso de Ecologia do Nascimento no Rio, representando a ReHuNa – Rede pela Humanização Do Parto e Nascimento. Numa cena deste filme o jovem médico – e asmático – Che (Guevara) precisa atravessar um rio gelado para atender os pacientes que precisavam de sua atenção do outro lado da margem. Movido por um impulso imperioso de dever e compromisso ético ele se arroja à corrente de água fria que retesa seu corpo e o sufoca, mas ao final vence a distância gelada com bravura e estoicismo. Os doentes precisavam dele; era sua obrigação servi-los.

Mais de uma década nos separa desta imagem de dedicação heroica aos pacientes, mas ela ainda continua fazendo sentido. Continuamos asmáticos e frágeis, mas do outro lado o número daqueles que procuram por nós só cresceu, expandiu-se para muito além do que esperávamos. Apesar das dores e da falta de ar continuamos nossas braçadas com vigor e resistência. O rio continua gelado e tormentoso, nossos braços aos poucos perdem o vigor da juventude, mas nossa teimosia humanista nos obriga a seguir.

Entretanto quando olhamos para o lado algo surpreendente ocorreu.

Não estamos mais nadando sozinhos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos