A Outra História das Almas Apressadas

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A história deste texto está conectada com o capítulo “Das Escolhas” do livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”. Nele ofereço outro olhar sobre a cena descrita; ao invés do drama médico das escolhas e dos caminhos possíveis, a perspectiva dramática da mulher que sofre a dor de um nascimento fora de hora. Desta forma pretendo fechar o círculo de possíveis olhares de um evento triste, mas que ao mesmo tempo nos ensina tanto sobre as fragilidades da vida e as escolhas que fazemos.

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A decisão está tomada, e as rodas mal azeitadas da maca guincham pelo corredor estreito, driblando macas, cadeiras, enfermeiras e passantes. Para ela o mundo repentinamente se transforma em tetos mofados e luminárias sujas, que passam diante de sua face pálida como um filme antigo. Os olhos sequer se mexem. Fixos no alto, apenas aguardam a entrada no centro cirúrgico para voltarem a piscar.

O cheiro das limpezas, o brilho ofuscante de mil luzes, o som dos metais tilintando nas mesas e as rodas que param de guinchar lhe anunciam a chegada à sala de operações. Com esforço ajusta seu corpo cansado na mesa cirúrgica, auxiliada por pessoas sem nome, sem fala e sem rosto. Pendurado no braço o manguito; na dobra descorada do cotovelo a fina agulha penetra, por onde escoa um líquido cristalino. No teto a roda luminosa se acende, e pôde ver seus múltiplos rostos aflitos refletidos nos anteparos vítreos das lâmpadas.

Mantém-se em silêncio devocional, como se qualquer som quebrasse uma norma da qual não saberia a razão. Apenas obedece maquinalmente as ordens que lhe são dirigidas. “Vire-se para este lado”, diz um senhor mascarado de voz grossa, enquanto a enfermeira aperta seu queixo contra o peito desnudo. “Não respire. Se você ficar bem quietinha termino bem rápido”. Sente um choque elétrico a lhe percorrer a coluna e retesa o corpo em resposta, mas em seguida percebe as sensações paulatinamente desaparecendo. Dividida ao meio, seu corpo de baixo para e dorme; o corpo de cima silencia e espera. E reza.

Depois as higienes, os panos, as frases desconexas que lhe chegam aos ouvidos. Palavras cruzam a sala sem que delas se capte o sentido. Apenas o medo, como um código secreto compartilhado, percorre as almas da sala.

Então o silêncio. Por alguns instantes todos estão imóveis. Nada se ouve. Finalmente a lâmina grave fere a carne, abre o espaço, penetra. Depois disso, apenas o “bip” das máquinas quebra a monotonia sonora. Pequenos estalidos se seguem. Dos presentes, nenhum som, sequer uma expressão. A luz intensa cega, o tempo fica estanque. As camadas da carne rubra vão sendo abertas, uma após a outra, até que a nave uterina, com sua cor rosada e brilhante, aparece diante do brilho ofuscante do foco de luz. Ali, no casulo aconchegante de veias e membranas, repousa nosso herói.

Um, dois, três cortes precisos da navalha fria. O amnionauta, encerrado em seu mundo de sonhos, nem percebe que seus devaneios de sons e luzes tênues serão interrompidos pelo nosso chamado. Um último corte e chegamos no interior da diminuta esfera. Pela translucência das camadas, que envolvem o universo ínfimo do pequeno ser, podemos ver que ainda dorme. Com um golpe derradeiro e definitivo, rompemos a bolsa, e os panos verdes que cobrem a nudez se escurecem com o líquido amniótico que escorre sem pudor.

É o tempo de nascer.

Dois ou três movimentos e a cabeça salta para fora da ferida. “Desculpe, amigo. Não era seu tempo, mas foi preciso lhe resgatar”. Seu corpo miúdo escorrega para a sala e para o mundo, deixando como rastro o frágil fio que o liga à placenta. As mãos enluvadas suportam o corpo esquálido que, de tão frágil, mal pesa. Ao invés da pele uma fina camada transparente róseo-violácea. Ao invés de cabelo, uma tênue penugem que mal lhe cobre a cabeça. Recém saído do ventre materno ele abre os braços e por um instante parece procurar algo. Ou alguém. Sua expressão é de dor e angústia, a mais antiga de nossas emoções. “O que faço aqui? Porque interromperam meu sono?” pergunta-se. Seus dedos finos e azulados abrem-se e procuram agarrar a luva ensanguentada. Ele contrai seu corpo minúsculo, estende mais uma vez os braços enquanto aguardamos ansiosos os primeiros sons. Sofre, pela primeira vez, a dor do excesso de espaço. “Onde está minha mãe, que me envolvia e acalentava desde quando minhas primeiras células se dividiram? Onde está aquela que tocava com doçura cada pedaço do meu corpo? Abro os braços e só o que agarro é o espaço, o nada. Estou só.”

Abre a pequenina boca e quando esperamos um grito escutamos apenas um tímido e fino sibilo. Um lamento. A sala novamente se enche de silêncios. Cordões são cortados, amarra das almas desfeita. Os panos verdes o envolvem num triste celofane. Um sibilo a mais e ele é levado para distante dos nossos olhos.

Os corpos se separam em salas contíguas, mas a mulher cortada ainda jaz à nossa frente. Temos trabalho a fazer e o mais difícil de todos é suturar a alma dilacerada de uma mãe. Corroída pela culpa e pela angústia, olha para a porta que recém se fecha. Seus ouvidos se agrandam para escutar mais um sinal, por menor que seja, do pedaço de si mesma que há pouco se foi. Fecha os olhos e reza em silêncio. Chora pela separação, pelo medo de perder, pela tristeza de ver seu filho sofrer. Imaginariamente abre seus braços e o abraça, junto ao colo. Traz o rostinho amarrotado e lívido para perto do seu e sussurra em seus pensamentos “Mamãe está aqui. Não vamos nos separar. Sei o quanto precisas de mim e também sei o quanto é preciso que eu esteja ao seu lado. Não se desespere, mamãe está aqui”.

E nós, ao seu lado, apenas nos calamos e testemunhamos sua dor.

Na sala ao lado, outra batalha se trava. Consternados perguntamos àquele pequenino que se posta à nossa frente: “Por que agora? Por que tão cedo? Qual a pressa em chegar a um mundo de expiações e sofrimentos?”.

Sua resposta é apenas o choro fino, o lamento de uma alma apressada.

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Inbox do Facebook

Inbox

Chamado no Inbox do Facebook.
Todo ele em inglês, que vou traduzir para facilitar.

– Oi, como vai? Obrigado por me aceitar. Eu me chamo XXX.
– Hummm. Seja bem vinda. De onde vc fala? Nos conhecemos?
– Sou das Filipinas. Não o conheço. Vi você no Facebook.
– Ah, ok e porque me adicionou?
– Porque você é muito bonito e o seu bebê é lindo.
– Hummm…. Olha, as fotos são muito enganosas. Não vá atrás disso. E ele não é meu bebê. É o meu neto.
– Como? Seu neto? Qual sua idade?
– Menina… Tenho a mesma idade da taxa de cesarianas do Brasil.
– Ah… muito né?
– ??
– Quer dizer, as taxas, as taxas!!!!
– Sim, eu sei. Mas obrigado pelo elogio. Depois do que passei nos últimos dias achei que nunca mais ouviria algo assim… Você ainda está aí?
– Alô, alô, alô?… Acho que ela ficou assustada. Com as taxas, as taxas é claro…

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Feios, sujos e malvados

Feios_sujos_e_malvados

Já se deram conta do drama terrível que atinge o cantor popular que lança um disco e vende 1 milhão de cópias?

Nunca?

Muitas vezes eu penso nesses temas que normalmente não nos tocam, porque parece a nós que estas circunstâncias não são compatíveis com sofrimento de qualquer natureza. Também fico encucado como “a dor de ganhar muito dinheiro“, as “dificuldades de ser bonito demais” ou as “agruras e sofrimentos de ter muito sucesso“.

Sim, penso em tese. Nunca fui agraciado com nenhuma das benesses acima citadas, o que não me impede de tentar entender como as pessoas podem se sentir prisioneiras de suas próprias virtudes e conquistas.

Imagine o homem bonito e suas dificuldades. Estou usando esse exemplo pela distância evidente e óbvia comigo, mas poderia usar a questão das mulheres lindas. A beleza ofusca todos os outros possíveis talentos. Um homem bonito naturalmente obstrui suas outras potenciais capacidades, pois a beleza lhe oferece um acesso fácil aos seus interesses e desejos. O mesmo se pode pensar do dinheiro. Para que estudar, aprofundar-se em temas, tornar-se crítico e inventivo se o dinheiro oferece um “bypass” para qualquer comodidade? Para enfrentar a beleza e o dinheiro e ainda assim tornar-se humilde, culto e interessante há que se transpor barreiras muito complexas e difíceis, principalmente porque elas se opõe à própria natureza humana e a “lei do menor esforço”. Como ter certeza de que a mulher (ou homem) que se acerca, está encantado pela sua figura completa, ou apenas pela luz que emana de sua beleza ou riqueza?

Um músico de sucesso precisa manter o interesse das pessoas, pois o “amor” a ele devotado é embriagante, sedutor e cativante. Porém, tal devoção cobra seu preço, e o cantor cedo percebe que sua obra deixa de lhe pertencer, e passa a ser controlada pela expectativa que os fãs dele fazem. Os admiradores cobram do artista o amor a ele oferecido. “Vais nos agradar e retribuir nosso amor. Caso contrário será uma traição ao nosso carinho graciosamente oferecido, e por isso te odiaremos eternamente”.

Apesar de ser uma pessoa desprovida de talentos posso entender o quão difícil e tenebrosa é esta tarefa. Uma vez jogados no terreno do desejo alheio, como romper as amarras de dependência criadas? Como manter-se livre para criar, produzir, expor e demonstrar sem o peso da concordância e admiração do outro, que em última análise dá a medida do que chamamos sucesso?

Se o Latino resolvesse cantar música erudita, poderia? Seria perdoado? Seria aceito? O Roberto Carlos canta o que deseja ou o que sente que seu público exige dele? Quanta liberdade criativa existe naqueles em quem depositamos tanta expectativa? Paulo Coelho escreve o que quer, ou o que dele se demanda? Uma menina se apaixona mesmo por Justin Bieber, ou pela figura que ele representa? Como poderá ele saber?

Não estaria a verdadeira liberdade reservada apenas aos feios, pobres e desprovidos de excelência? Estes sim, podem escolher um amor sem que ele esteja contaminado pelos interesses, ofuscado pelo brilho fátuo da beleza ou misturado com a sedução dos talentos exuberantes. Só os feiosos tem certeza que o amor que recebem é verdadeiro. Só eles podem estar seguros de que seu amor é “dar algo que não se têm”.

Para os que escrevem, e aí o gancho que eu percebi no cotidiano, nada alivia mais do que decepcionar algumas pessoas. Assim libertos dessa pressão, é possível usufruir, mesmo que de forma limitada e parcial, um pouco de liberdade.

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Lua e Sol

“A lua é muito mais importante do que o sol. Enquanto ela ilumina as nossas noites o sol apenas ilumina o dia, quando tudo já está claro”

Creio que esta frase merece uma consideração mais profunda. Quando eu a li me pareceu uma simples idiotice. Uma segunda leitura me obrigou a uma consideração mais profunda, e pensei que ela poderia conter algum tipo de ensinamento.

Muitas vezes consideramos pequenas coisas (como a Lua, se comparada com o sol) como sendo grandiosas apenas porque são demasiadamente exaltadas pelo contexto – em um céu escuro o nosso satélite se destaca com facilidade. Já o Sol fica quase invisível pela sua imensidão e onipresença e, frequentemente, nos esquecemos de sua existência, imaginando que a claridade que percebemos ao nosso redor é natural e parte constituinte do que consideramos um “dia”.

Quando pude reler a frase pensei nas experiências de vida que quase todos nós um dia passamos. Uma delas a paternidade e a maternidade e a convivência com os filhos. Muitas vezes, quando pequenos (e as vezes depois também) nossos filhos fazem elogios extremados e emocionados, em que ressaltam a importância de pessoas que acabaram de conhecer, deixando de valorizar o que possuem desde que nasceram. É clássica a paixão das crianças pela professora, mais tarde pela namorada. Pois elas são Luas resplandecentes no céu escuro da nossa experiência cotidiana. Claras, brilhantes e destacadas, elas irradiam sua luz em todas as direções.

Entretanto, na casa dessas pessoas habitam muitas vezes Sóis de experiência, carinho, afeto, compreensão, paciência e virtude, que muitas vezes são desconsiderados diante da exuberância telúrica. Fixados na face redonda e sorridente da Lua por algum tempo nos olvidamos do calor que sempre nos aqueceu, até porque ele sempre esteve lá; era parte constitutiva de nossas vidas.

Hipnotizados pela Lua, muitas vezes não damos ao Sol a devida justiça.

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Cesárias e Palmadas

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Muitas vezes uma cesariana é como uma palmada.

Conta menos a necessidade de quem recebe do que a falta de preparo e a impaciência de quem aplica. Uma cesariana mal indicada economiza tempo para quem a realiza, assim como uma palmada em uma criança irrequieta. Ao invés de amparar, cortar; ao invés de compreender, bater. Cesarianas e palmadas oferecem a sedução de um atalho rápido para um objetivo imediatista. Se o caminho parece inútil, que mal há em chegar logo ao final?

A questão é que o trajeto é constitutivo. Uma mãe é moldada por cada contração; ela se constrói no interstício de suas dores. Partos não fazem apenas bebês, como diria Barbara Katz Rothmann, mas também mães fortes e capazes para enfrentar os dilemas da maternagem. A paciência necessária para o trabalho com o nascimento é provavelmente o mais sofisticado dos talentos requeridos nesta arte. Para a criação de uma criança a mesma lei se aplica: o aprendizado se dá na compreensão lenta e gradual dos valores embutidos em cada ação, das mais banais às mais complexas. Uma palmada cala, mas a paciência ensina.

Houvesse mais aptidão para escutar, aguardar, confiar e esperar tanto as cesarianas quanto as palmadas não seriam aplicadas da forma abusiva como vemos em nossa sociedade.

*PS: Ah, e antes que digam que “existem cesarianas necessárias, mas não existe palmada justa”, eu diria que uma cesariana necessária e bem indicada corresponde a um “banquinho do pensamento”, onde não há culpados, mas um lugar onde é importante refletir sobre todas as circunstâncias que cercaram a necessidade da cirurgia.

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Via de Nascer

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Não há problema algum em disseminar pela Internet (ou pelo rádio, TV ou conversas privadas) que o parto normal é uma via MUITO melhor e mais segura do que a cesariana, e que esta só deve ser realizada em situações extremas, para garantir menor risco para mães e bebês.  Isso é o que as evidências científicas nos demonstram há décadas; não se trata portanto de uma questão de gosto. Existem diferenças marcantes nos resultados – tanto para a mãe quanto para o bebê – em relação à via de parto. Mas o que encontramos na prática médica se opõe às evidências e vai de encontro à boa conduta médica. Infelizmente constatamos um abuso claro e insofismável das indicações cirúrgicas e 52% das gestantes acabam ganhando seus filhos através da cesariana, quando esse número não deveria ser maior do que 10 a 15% de acordo com valores históricos apregoados pela OMS e baseados em estudos bem conduzidos.

Portanto o risco verdadeiro NÃO é o de mulheres rejeitarem indicações adequadas de cesariana por conta de uma “campanha” de rejeição a esta cirurgia. O problema está nas gestantes continuarem acreditando que não existe “nada de ruim” em ter feito uma.

EXISTE SIM!!!! Pelos aspectos médicos, psicológicos, microbiológicos, emocionais, econômicos e sociais a cesariana no Brasil é uma barbárie, na qual as mulheres são as vítimas. O número de cesarianas verdadeiramente bem indicadas é pequeno e a grande maioria destas intervenções é empurrada com falsas verdades e mitos, como “pouco líquido”, “cordão enrolado”, “placenta velha” e tantas outras formas de apavorar uma futura mãe. Ainda vivemos em um mundo onde as mulheres são conduzidas a procedimentos pela autoridade dos profissionais, e não pelo amplo esclarecimento de vantagens e riscos.

Não tenhamos medo de uma mulher empoderada, bem informada e com argumentos, capaz de enfrentar o poder de um profissional médico. Isso é o que se espera da civilização. Tenhamos, sim, medo de mulheres emburrecidas e alienadas, incapazes de questionar o que fazem sobre seus corpos.

Isso é o que ocorre na selva, no reino da alienação.

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Crescer precisa Crescer

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Comentário sobre a Matéria da Revista Crescer com o título de “Tudo o que acontece nos primeiros 60 minutos de vida do seu bebê“

Meu nome é Ricardo e sou médico obstetra. Infelizmente virou rotina que empresas jornalísticas escrevam matérias sobre parto e nascimento baseadas em mitologias, informações enviesadas e protocolos anacrônicos. A matéria acima não foge à regra, e esta poderia ser categorizada entre as matérias mais desatualizadas e fracas sobre parto e nascimentos dos últimos tempos. Certamente que o(a) profissional que a assina colocará a responsabilidade nos entrevistados, mas isso não o(a) exime de culpa. Não se admite mais TANTA desinformação e tantos equívocos. Seria enfadonho listar todos os erros graves na reportagem, mas atentem apenas para um deles: as episiotomias são procedimentos agressivos e injustificados, comprovadamente INÚTEIS para mães e bebês desde os trabalhos clássicos de 1987 (Thacker & Banta). Já se passaram 27 anos e existem jornalistas que ainda disseminam este tipo de violência obstétrica!

Para haver uma imprensa responsável, ética e correta é preciso que este tipo de informação venha de mais de uma fonte, para evitar que um entrevistado com carência de boas informações e com condutas ultrapassadas e erradas dissemine conceitos que não tem mais espaço na medicina moderna. Os erros sobre o corte do cordão e aspiração de líquido amniótico são constrangedores. Para um leitor desavisado, mas com conhecimento na área da saúde, pareceria estar abrindo uma revista “Seleções do Readers’s Digest” de 1955, tamanha a desatualização de conceitos. Numa época em que se fala incessantemente de Violência Obstétrica, uma matéria como essa serve de exemplo de como o (mau) jornalismo pode ser violento com a inteligência dos seus leitores.

É importante lembrar os 3 pilares que sustentam a humanização do nascimento:

  1. Protagonismo restituído à mulher, para que ela deixe de ser “tutelada” pelo sistema de saúde, e possa ser a condutora de seu próprio destino;
  2. Parto como evento humano, e não como procedimento médico (mesmo que a visão médica seja uma das importantes formas e perspectivas para avaliar o parto e o nascimento) e…
  3. Vinculação visceral com a MBE (Medicina Baseada em Evidências).

Na matéria da Revista Crescer a mulher não aparece como protagonista, mas como um ser passivo sobre a qual um grande número de procedimentos desnecessários e perigosos serão executados, em sua grande maioria sem a autorização expressa por parte da mulher para a sua realização. As descrições dos procedimentos partem de uma visão absolutamente médica, sem levar em consideração os aspectos emocionais da mãe (afastada de seu filho imediatamente depois do parto para ser “secado” – ???, tendo feito uma episiotomia, mas “sem machucar a mãe” – ?????), psicológicos, sociais, culturais, antropológicos, econômicos e espirituais. E, de forma conclusiva e marcante, as “recomendações” não se baseiam em ciência, mas em mitos, procedimentos antigos, exercício de poder e rituais sem a devida comprovação científica de sua validade. Isso precisa acabar, para que possamos atingir em um futuro próximo a condição de “país civilizado” que, pelo menos no que tange à garantia da integridade física de mães e bebês, ainda não alcançamos.

Modernizar a atenção ao parto é uma URGÊNCIA na saúde brasileira.

Ric Jones
Médico Obstetra Humanista

http://revistacrescer.globo.com/Bebes/Rotina/noticia/2014/03/saiba-tudo-o-que-acontece-nos-primeiros-60-minutos-de-vida-do-seu-bebe.html

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Riso

Risada

“Então na derradeira força o bebê nasceu. Um suspiro seguiu-se de uma gargalhada. O pai ao meu lado ria da simplicidade da vida. Sua risada era pela maravilhosa e genuína beleza descomplicada de nascer em paz. Sua manifestação espontânea ecoou pela casa e contaminou a todos. “Riam todos, escandalosamente! Ela nasceu!” dizia sem palavras a sua sonora risada. Depois, ainda embevecido pelas cenas que seus olhos testemunharam, me disse, sem tirar os olhos de um ponto futuro: “Não pode haver no mundo sensação mais completa e grandiosa do que esta”.

Sorri e concordei… “

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Sobre uma Crítica à Humanização

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Fiquei um pouco surpreso ao ler um texto escrito por um médico e que parece ter sido escrito nos anos 80. O articulista parece estar genuinamente preocupado com a questão da humanização e o problema da violência obstétrica, mas curiosamente o texto fala pouco das questões contemporâneas de violência contra a mulher no momento de parir, e preocupa-se mais com a questão por um viés corporativistas e de proteção do mercado para os médicos. Desta maneira, o colega parece ter descoberto que a humanização do nascimento não deve prescindir da tecnologia e dos médicos.

Eureka !!! No texto ele parece ter avistado a América e ficou maravilhado com sua descoberta, mas ainda não teve tempo de se dar conta que tudo isso já é velho, e que logo ali na frente está o porto e a cidade, construídas há muito tempo.

No texto aparece a frase “…e fôssemos falar em parto e quiçá gestação totalmente “humanizada”, conceituando mínima ou ausente tecnificação..”

“Mínima ou ausente tecnificação?” Diante desta insinuação eu pergunto: A quem ainda interessa este conceito anacrônico de confundir humanização com desassistência e repulsa à tecnologia? Tal confusão foi sepultada há anos !!! O articulista prefere se defender de algo que não interessa a mais ninguém, ou seja, a falsa idéia de que a humanização do nascimento prega a ausência de atendimento e a supressão da figura do médico.

Desinformação ou interesse em criar confusão?

No mais o texto revela mais pelo que não diz do que pelo que expressa. A simples existência de um texto em defesa da boa prática médica demonstra uma preocupação crescente da corporação com as acusações cada dia mais consistentes de que o nascimento é local frequente de práticas envelhecidas, inconsistentes e com muita violência. Isso é positivo.

Espero que os equívocos do texto não desmereçam a nobre e positiva tentativa do seu autor em ajudar na construção de uma assistência mais digna e respeitosa às mulheres.

A quem realmente interessa a manutenção desses mitos? A quem interessa a ideia de que a humanização despreza tecnologia e médicos? A quem favorece a noção anacrônica de que a tecnologia pode ser aplicada indiscriminadamente, pois ela representaria o “progresso” e a “evolução” , e que só através dela poderemos nos proteger das incertezas da natureza?

Ora… a pergunta é: Quem se sente ameaçado com a justiça e a dignidade restituída às mulheres? Quem?

O texto nos remete a um falso dilema: Se quisermos a modernidade e o progresso, a alienação e a violência entram no pacote. É uma venda casada, na qual os médicos são os proprietários do parto, e a mulher um objeto sobre o qual eles atuam. Caso queira o parto natural, sem violência e protagonismo, então nós médicos não faremos parte, e seu destino é a selva e a desassistência.

O texto do colega sonega EXATAMENTE a humanização do nascimento, que vem propor a “terceira via”, o protagonismo restituído à mulher, a visão complementar e integrativa e acoplada às EVIDÊNCIAS científicas. Falta tocar no nervo exposto da assistência: a incapacidade crescente dos médicos de entenderem o parto normal como um direito das mulheres e um evento humano, para o qual a sua ajuda é bem vinda, mas não fundamental para a assistência direta.

Falta CORAGEM para olhar este cenário de frente. Por isso é que se cria essa dicotomia falsa e interesseira entre violência e tecnologia X desassistência e barbárie. MENTIRA. É possível oferecer partos humanizados, para todos os setores, públicos e privados, mas para isso é preciso sair das trevas, parar de pensar sobre conceitos estapafúrdios e anacrônicos, e encarar o desafio de oferecer a ética conjugada com a técnica, resguardando as mulheres de intervenções inadequadas no transcurso fisiológico dos seus partos.

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Ultrassom

Ultrassom 4d

Eu falo do exagero de ultrassonografias há 20 anos, mas agora vejo a preocupação alcançar as instituições médicas. Lembro que há muitos anos eu criei as 3 categorias básicas de ultrassom:

  1. Médicas – aquelas que possuem os 3 elementos fundamentais de um exame diagnóstico: uma pergunta uma resposta e uma ação médica.
  2. Sedativas – É utilizada (indicada ou a pedido) para aquelas mulheres que desconfiam de sua capacidade de carregar uma gestação com segurança. Para estas a ecografia oferece uma tranquilização e uma sedação de suas angústias.
  3. Recreativas – Sem indicação clínica, estes exames são utilizados para ver o sexo do bebê, para “espiar” o bebê, para saber “como ele está” ou “com quem é parecido”.

O artigo abaixo se refere às ecografias “recreativas”…

É muito importante estabelecer uma crítica constante aos modismos médicos e ter uma conduta baseada no que é comprovadamente melhor para os pacientes.

http://o.canada.com/news/stop-using-ultrasound-to-determine-sex-of-fetuses-urge-doctors-radiologists/

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