Violência Homem

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Para meus colegas homens – que enxergam com tanto assombro e aversão a proximidade entre as palavras “violência” e “obstetrícia” – eu proponho que façam este singelo exercício de imaginação:

Vejam-se em um hospital escola em posição para um toque e avaliação da próstata. Depois de um bom tempo de demora entram o professor e seus 16 alunos. O mestre descreve seu caso como se você estivesse ausente, e como se sua única função no mundo fosse carregar uma patologia no corpo para oferecer aos alunos como aprendizado. Logo depois, sem pedir ou avisar nada, enfia os dedos no seu ânus, descrevendo jocosamente o que encontra, entre um e outro comentário de futebol. Depois disso, pede para um aluno sentir a consistência da próstata, o que ele faz com mais vagar. Depois um segundo, um terceiro e um quarto. Quando você escuta o quinto aluno colocar as luvas, resolve perguntar se está certo ser tratado dessa forma. O nobre professor se indigna e diz, com rudeza, que aquele é um hospital escola, e que você DEVE isso aos alunos. Você concorda, em termos, mas tenta argumentar que existem formas mais dignas e respeitosas de fazer isso, mas é interrompido. Explicam-lhe, finalmente, que é assim ou nada. “Se você quer o atendimento tecnológico que temos a oferecer então deve se calar. Caso não queira, nada podemos fazer para lhe ajudar”.

Você baixa os olhos e se submete. Por medo. Engole em seco e permite, mais uma vez, ter seu corpo invadido e sua dignidade desmerecida.

Pensou? Talvez só assim seja possível a você enxergar porque se calam as mulheres diante das ameaças, explícitas ou dissimuladas. Talvez só passando por uma experiência assim você possa aquilatar a dor da humilhação e da violência. Não é por pouca coisa que as mulheres recalcam essa dor em suas almas.

Enquanto continuarmos a aceitar este tipo de violência contra mulheres todas as outras continuarão a ter sentido. Por outro lado, quando extinguirmos o parto violento, as outras formas de agressão passarão a ser cada vez mais inaceitáveis.

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Violência Mulher

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“O pior da violência é quando não é reconhecida como tal. É quando ela se mistura às normas e rotinas, procedimentos e protocolos, sendo institucionalizada e banalizada, a tal ponto que fica camuflada no cenário da atenção. Invisível ela cria raízes e se consolida na paisagem. Quando alguém, por fim, desperta e reclama, sempre aparece um outro que, amortecido pela mesmice das condutas repetitivas exclama: Mas como? Sempre fizemos assim e nunca ninguém reclamou“.

Acredite… quando um grupo de antropólogos e feministas aportou em terras de África para questionar a clitoridectomia em meninas adolescentes como prática ritualística e institucionalizada esta foi a EXATA manifestação do líder tribal. “Como assim “violento”? Esse ritual é realizado há milênios e jamais alguém havia reclamado!!”.

Para ter direitos é necessário conhecê-los. Para viver em um mundo melhor é preciso primeiro concebê-lo, depois desejá-lo e por fim construí-lo.”

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Cesarianas, episiotomias, clitoridectomias…

Cesariana

Episiotomias, cesarianas, histerectomias, ooforectomias…

O que estas cirurgias têm a nos dizer?

Aparte de ocorrerem apenas em um gênero – as mulheres – tais intervenções estão entre as cirurgias mais realizadas do mundo, mas a ninguém parece lícito questionar a necessidade de algumas destas cirurgias. Nós mesmos, os humanistas do nascimento, historicamente defendemos a cesariana bem indicada, criticando apenas seu uso abusivo e indiscriminado. Porém, estamos nos aproximando de números para os quais não existe justificativa. Nos Estados Unidos as cesarianas já chegaram a 33% das gestantes, mais de 1 milhão delas sendo realizadas todos os anos. O Brasil ostenta a vergonhosa marca de 56% de cesarianas todos os anos. No setor privado brasileiro as cesarianas se aproximam de 90%, mostrando que a obstetrícia brasileira desistiu da atenção ao parto normal, oferecendo a via sedutora e alienante da cesariana como primeira (e muitas vezes única) alternativa.

Estes números sobre a forma de nascer deveriam acender um sinal vermelho intermitente para a sociedade. A “vida natural” parece estar cedendo espaço de forma intensa para sua vertente artificial. O nível de intervenção sobre o ciclo fisiológico feminino atinge coeficientes absurdos e inaceitáveis. Entretanto, quando vamos analisar a cesariana com mais profundidade para entender as reais motivações para a sua realização abusiva, percebemos que ela não está isolada no espectro de intervenções sobre o corpo feminino.

As histerectomias estão entre as cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos. Por volta de 600 mil são realizadas todos os anos, e mais de 20 milhões de americanas não possuem mais o seu útero. As episiotomias, apesar da sua queda na prática obstétrica graças a quase três décadas de evidências científicas em contrário, ainda são muito utilizadas por lá. No Brasil os relatos das pacientes que sofreram uma episiotomia nos chegam diuturnamente, e até revistas para mulheres ainda as caracterizam como “pequenas intervenções que não machucam a mãe”.

Estas intervenções cirúrgicas ocorrem exclusivamente entre as mulheres e sobre a sua sexualidade. Qual a razão disso?

Para entender as razões para o aumento de cesarianas é fundamental inseri-las no contexto das intervenções culturalmente aplicadas sobre o corpo da mulher, onde esta cirurgia se situa como a mais chamativa, mas não a única.

A clitoridectomia – retirada cirúrgica do clitóris – cirurgia ritualística utilizada por alguns povos africanos, também se caracteriza por uma intervenção ablativa sobre o corpo da mulher. Para estas mulheres a retirada do clitóris as capacita para a vida adulta, fornecendo um ritual de iniciação preparatório para a maternidade. Este ritual milenar, assim como todos os outros que fazem parte do nosso dia-a-dia, não se estabelece ao acaso. Um ritual pode ser definido como “um ato repetitivo, padronizado e simbólico, de uma crença cultural ou um valor. Estas atitudes podem ser simultaneamente ritualísticas ou técnico-racionais”, segundo a definição de Robbie Davis-Floyd. Assim, um ritual qualquer pode ser entendido como a encenação de um valor cultural, de forma consciente ou não.

Uma clitoridectomia e uma cesariana, desta forma, obedecem a um ordenamento semelhante, pois se caracterizam por encenações de valores profundos relacionados à mulher e ao feminino. Se para muitos fica clara a ideia de que a clitoridectomia é uma violência para cercear e controlar a sexualidade feminina, para alguns a mesma lógica pode ser aplicada à realização abusiva de cesarianas, que apenas demonstra uma dificuldade de lidar com as energias de ordem sexual que se tornam evidentes no transcorrer de um parto. A retirada de úteros e ovários, práticas comuns nas sociedades ocidentais também corroboram esta hipótese na medida em que confirmam a noção do corpo da mulher como sendo imperfeito, mal elaborado e defectivo, indigno de confiança.

As sociedades humanas temem a sexualidade feminina porque ela atenta contra um dos seus pilares mais importantes de sustentação: o patriarcado.

As intervenções sobre o corpo da mulher estão assentadas sobre um olhar específico sobre o feminino. Cesarianas, histerectomias, clitoridectomia, episiotomias são todas faces de uma mesma figura. O uso alastrado de formas ablativas de intervenção em seus corpos se baseia na ideia da mulher como ser perigoso, traiçoeiro, dissimulado e inconfiável. As razões médicas para tamanha intervenção são incapazes de explicar a enorme adesão a esta forma de atenção. As culturas humanas olham para a mulher de uma forma depreciativa. Seus órgãos são frágeis e problemáticos, sua menstruação é uma “sangria inútil”, sua gestação é uma bomba relógio prestes a explodir e sua menopausa é uma “falência” que necessita de reposições químicas, caso contrário seus ossos se tornam farinha e se quebram.

Nenhum aspecto FISIOLÓGICO da vida masculina recebe atenção ou tratamento da medicina. Como dizia meu colega Max “Se mulheres tivessem barba haveria tratamento para isso”.

Para entender a profusão de cesarianas é importante entender a mulher e seu contexto. Para mudar esta realidade não será suficiente proibirmos as cesarianas, ou mesmo penalizarmos quem as comete em demasia. É preciso mudar a forma como a sociedade enxerga a mulher e o feminino, valorizando seus rituais de passagem e oferecendo um olhar positivo para eles. O cuidado com momentos críticos da vida reprodutiva e sexual de uma mulher exige mais do que simplesmente intervir quando é necessário; implica em valorizar o que existe de belo e estimular  a vivência mais natural possível destes eventos.

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Parto e Autonomia

Maozinha

Afinal, quem deve tomar as decisões no nascimento?

Você acha que as equipes de saúde podem tomar decisões por você?
Podem escolher por você? É certo você receber uma episiotomia sem justificativa e sem a sua plena concordância? É razoável ter um fórceps ou um Kristeller aplicado sem que você receba explicações? É correto tomar atitudes sobre o corpo de uma mulher sem consentimento?

É justo que você seja afastada do seu bebê sem explicações detalhadas ou justificativas baseadas em evidências, apenas porque as equipes do hospital querem “dar um banho“, “tirar a sujeira do parto“, “pesar, medir, colocar colírio” ou para fazer “procedimentos de rotina“? Podem estes procedimentos ocorrer sem que você seja consultada?

É justo que seu bebê seja levado para longe de você apenas para ser avaliado em um local cheio de luzes, barulhos e cheiro de desinfetantes a despeito de sua vontade expressa de estar ao lado do seu filho? É adequado interromper a “hora dourada” – os 60 minutos que se seguem ao nascimento – para cumprir normas insensíveis e sem comprovação de sua utilidade? A quem servem estas condutas?

Já parou para se perguntar quem tem o direito de mandar em você e no seu filho no momento sagrado em que um é apresentado ao outro?

Pense bem… afinal, quem manda no seu corpo? Quem determina sobre este bebê, que ainda pulsa no mesmo ritmo do seu coração?

Não se trata de impedir o cuidado oferecido pelos profissionais, mas questionar até onde estas intervenções são criadas para verdadeiramente acrescentar segurança ao momento do parto ou apenas para gerar vantagens para quem atende.

Se você acha que a atenção ao bebê precisa ser revista, para que o melhor da técnica se adapte aos direitos humanos, não aceite mais procedimentos indignos e que não respeitam a ciência e negam autonomia às mulheres.

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As Delícias do Parto

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Pela segunda vez em poucas semanas atendemos um parto (no hospital!) em que a mãe, imediatamente depois que o corpinho inteiro do bebê saiu, exclamou de forma espontânea: “Ai, que delícia!!”

“Ai, que delícia!!“ ??????

Mas… não era para ser um horror?
Não era para elas se ajoelharem e pedirem uma analgesia?
Não era para ficarem aterrorizadas e marcarem uma cesariana ainda segurando entre os dedos trêmulos das mãos o teste de positivo de gravidez?

Não entendo…
Não era para ser uma dor excruciante, injusta, cruel e sem sentido?
Não era para ter a intensidade dolorosa de um dedo decepado?
Não era para ser como “defecar um tijolo”?
Onde cabe o conceito de “delícia” no sombrio cenário de parto que me foi ensinado na escola médica?
Onde “prazer”, “realização” e “superação” poderiam fazer sentido no modelo tecnocrático e biologizante que recebi nos bancos da universidade?

Eu pergunto:
Onde foi que perdemos o caminho do nascimento humano?
Onde foi que esta parte fundamental da sexualidade humana foi culturalmente deturpada?
Em que momento perdemos a mão, caímos soltos no espaço, sem referenciais e sem destino?
Onde foi que prostituímos o parto, encarceramos os corpos e sequestramos o prazer, a alegria e a felicidade de parir em paz e com dignidade?
Porque não podemos mais escutar dos nascimentos a verdade que neles se esconde?

Sim, a verdade por tantos sonegada é que esse momento pode ser uma “delícia”, desde que nós assim aceitemos.

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Respostas à Violência

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Não se trata de tornar-se infenso a qualquer reparo. Eu mesmo conheço pessoas que fazem críticas corretas e bem fundamentadas ao trabalho das doulas. Por exemplo: levar o ativismo para as salas de parto e tornar o centro obstétrico um campo de batalha. Temos nos preocupado com isso nos últimos anos, exatamente pelo aumento no número de doulas e na natural dificuldade de estabelecer o limite entre ativismo – doulagem. É muita emoção para ser controlada, mas é necessário que assim o seja. É por isso que devemos escutar as críticas e aprender com elas, o que só fortalece o movimento de humanização. Fechar-se em conceitos estanques é cristalizar-se e desaparecer. A dinâmica da transformação social deve ser intensa e reflexiva.

O fato da própria ACOG (American College of Obstetrics and Gynecology), poderosa defensora dos obstetras dos Estados Unidos, ter reconhecido publicamente a importância das doulas na diminuição da taxa vergonhosa de cesarianas (a vergonha para eles chegou aos 33%; para nós ainda não, aos 56%) apenas deixou os conservadores da minha especialidade ainda mais furiosos. O resultado é bem demonstrado em algumas manifestações de médicos indignados com o fato de terem suas atitudes e condutas questionadas pelos pacientes: baixo nível, agressão verbal, impropérios, acusações, generalizações e violência de toda ordem. Como diria Schopenhauer: depois do escárnio viria a violência; era o que fatalmente ocorreria.

Concordo com o mestre. Minha visão sobre esta fase do processo de humanização do parto é de que a violência poderia esperar, mas chegaria de qualquer maneira. Não é possível fazer o omelete da humanização sem quebrar os ovos da prepotência. Entretanto, nossa resposta precisa ser diferenciada. NÃO podemos entrar no jogo acusatório e violento. Se recebemos pedradas, revidemos com evidências. Se a violência é o idioma, respondamos na língua da perseverança.

Sem este diferencial apenas nos igualamos à queles que nos combatem.

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A Culpa é da Mãe

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“Culpa Materna – Como livrar-se”. Minha mãe, quando havia discussões e debates entre os homens da casa (meu pai, eu e meus irmãos), sempre dizia: “Essa discussão é inútil; a culpa, no fim, sempre será das mães“… Era humor, mas também era tão verdadeiro quanto a frase que os franceses imortalizaram com “Cherchez la femme“…

Como diria o tio Ben, famoso filósofo do filme Homem Aranha, “Com grande poder vem uma grande responsabilidade“. Quanto maior a responsabilidade, maior a expectativa. Quando as expectativas pessoais não são cumpridas – o que é inevitável – sobrevêm a culpa. Quem tem mais poder nessa cultura do que uma mãe? Portanto, quem acabará sentindo-se mais culpada diante das inexoráveis adversidades que a vida nos reserva?

Todavia, eu também não creio que a mãe tenha uma culpa verdadeira. Estou falando de culpa presumida, culpa imaginária. E isso as mulheres mães tem de sobra! E, de fato, o fardo da culpa feminina é pesadíssimo. Você já deve ter tratado de mulheres que sofreram todo o tipo de abuso durante um casamento violento e insatisfatório. Você conhece muito bem este tema. Pois mesmo as mulheres que colecionam B.O.s e que se separam para salvar a sua vida e a dos filhos sentem uma culpa brutal por estarem “destruindo uma família”. Coitadas… sofrem a culpa por carregarem o fardo da mais forte das instituições humanas. A mãe, quem normalmente tem a iniciativa nas separações deste tipo, acaba sendo acusada pelos filhos e passa muito tempo sofrendo calada abusos e agressões (até dos filhos) por ser a “causadora” da separação.

Pobres mulheres! É muito pesado ser mãe e mulher em uma sociedade desigual, mas já foi muito pior…

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Capitulação à Tecnocracia

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A atenção anacrônica e tecnocrática de pré-natal faz, SIM, a cabeça das mulheres em direção a uma cesariana, ilusoriamente colocada como “salvadora”, e quanto a isso não resta dúvida alguma. Existem vários estudos comprovando tal evidência, entre eles o estudo de Potter, da universidade do Texas, realizado no Brasil no início dos anos 2000. Nessa investigação fica demonstrado que – tanto no serviço público quanto no privado – as mulheres optam pelos partos normais em sua grande maioria. Entretanto, ocorre uma transformação – pela ferramenta do medo – no pré-natal, fazendo com que os índices se invertam. As mulheres tem sua autoestima profundamente abalada, ou mesmo destruída, durante a preparação para o parto, e os mitos da barriga perigosa, e da “mulher bomba-relógio” acabam vingando. O resultado é o desastre das cesarianas desmedidas, que nos coloca na “barbárie” do intervencionismo.

Quanto aos riscos do parto normal, da cesariana e dos partos domiciliares eles todos existem. Não existe nada no mundo com “risco zero”. Lembre que um parto é um evento humano, e por ser humano é carregado do risco natural, assim como é andar de carro ou avião, ou mesmo sair de casa para comprar leite na mercearia. Toda nossa vida é cercada de probabilidades de algo ruim possa ocorrer. O que podemos fazer é cultivar atitudes que diminuam tais chances. Desta forma, parir no hospital é TAMBÉM igualmente arriscado, bastando para isso que você perceba que o simples passo para dentro de um centro obstétrico significa uma chance de 85% de sofrer uma grande cirurgia como é a cesariana, que na grande maioria das vezes (no caso brasileiro) é absolutamente desnecessária do ponto de vista clínico e obstétrico. Triste é constatar de forma inequívoca que esta cirurgia foi INDUZIDA pelo discurso dos profissionais, o qual deixa as mulheres apavoradas diante de um evento natural e fisiológico como parir, que foi ultrapassado com valentia e confiança por quase todas as suas ancestrais. Criou-se um medo bizarro e inusitado na cultura, fomentado pelas instituições que LUCRAM com a angústia das mulheres e com suas dúvidas artificiais sobre suas reais capacidades de gerar e parir com segurança, as quais foram implantadas em suas almas pelo sistema de saúde contemporâneo iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico

Todavia, se uma mulher está carregada de medo e insegurança, jamais será melhor desistir e se entregar ao sistema. Não, pelo contrário. Aí está a demonstração de uma fragilidade, a qual nenhuma cesariana poderá consertar. Se a mulher está mergulhada em suas desconfianças sobre si mesma, este é o momento certo para enfrentá-las, e não para entregar-se de forma alienada a um profissional qualquer. Médicos servem para guiar e auxiliar, e não para tomar decisões sobre sua vida. “Liberdade é nossa meta última”, me dizia um querido colega na época da residência, ao me explicar que o medo nos aliena, aprisiona e acovarda. Enfiar a cabeça no chão, entregar suas escolhas a outrem, desconfiar de si mesmas e atirar-se à aventura intervencionista nunca fará com que as mulheres alcancem os altos fins de suas existências. Pelo contrário: vai mantê-las atreladas a um discurso que, se as liberta do jugo masculino, as mantém presas à tecnocracia e a ideia contemporânea da defectividade essencial de seus corpos.

A capitulação à tecnocracia no parto é o primeiro dominó a cair na maternagem. Depois acataremos o afastamento do bebê, a vacinação extemporânea, a fórmula, os alimentos com conservantes e assim por diante. A sedução da manipulação da vida por interesses de outra ordem será sempre presente, e cada vez com mais intensidade. Dar um basta a isso nunca é tarde. Porque não começar a reforçar uma adormecida cidadania logo ao abrir o teste de gravidez positivo à sua frente?

Somente a liberdade e a autonomia darão às mulheres o destino grandioso para o qual foram criadas.

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A necessidade da transcendência

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Olha, qualquer um pode enxergar de forma negativa até mesmo o sexo, quanto mais uma gravidez. Todavia, as descrições negativas sobre a gravidez que frequentemente encontramos na Internet não descrevem as agruras e problemas em si, mas as dificuldades de pessoas que não conseguem perceber sentido no conjunto de transformações pelas quais uma mulher passa durante sua gestação. Quando focamos no negativo e no problema ele se torna absolutamente evidente; quando voltamos nosso olhar para outro lado, ele desaparece.

Para quem está cego à transcendência é impossível perceber a luz. Podemos, sem muito esforço, descrever uma rosa como uma “vara cheia de espinhos que facilmente perfuram dedos desavisados“. Podemos descrever o nascimento de uma criança em termos econômicos, fazendo cálculos que começam nas fraldas e terminam na universidade particular. Podemos enumerar os transtornos físicos, os edemas, o peso alterado, as náuseas e tantas outras coisas. É uma questão de viés e, portanto, de escolha. Um momento mágico e glorioso como a gestação (para o meu olhar, admito) pode ser entendido e traduzido apenas pelos desconfortos que frequentemente se apresentam à grávida. Um período curto de 9 meses pode ser visto como uma “longa e torturante jornada”. O natural e charmoso crescimento do útero pode ser visto como um transtorno sem precedentes e até uma perda de feminilidade. Porém, quanto mais as mulheres se afastam de sua essência feminina, onde a gestação e a maternagem tem lugar de destaque, mais elas perdem seu valor específico.

Para nós, homens, é fácil abstrair a magia e nos focar nos pés inchados, na ciatalgia e nas cãibras. Já para uma mulher, que mergulhou nas águas misteriosas de uma gestação, é muito mais difícil manter-se alheia à intensidade inebriante de suas transformações. Por isso mesmo as descrições negativas e até pejorativas da gravidez são para mim espantosas. Eu respeito qualquer forma de olhar para a gestação e o nascimento, até partindo daqueles que pretendem artificializá-los ad infinitum. Entretanto, se existe algo da essência humana que vale a pena manter, creio que esta chama tímida se esconde no nascimento. Toda a história de nossa espécie foi escrita pela ligação entre uma mãe e seu filhos. Max adora repetir o adágio freudiano de que “Se o amor existe, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todas as outras formas de amor são dele derivadas“. Portanto, esse amor – que é fruto da extremada dependência do filhote humano ao nascer – esculpiu o que somos. Somos filhos dessa fissura cósmica, o inexplicável, o não planejado. Somos o que somos por causa do amor, e ele apenas pode nos definir. E se isso é verdade, qualquer mudança nas delicadas tessituras deste envolvimento primitivo poderá ter consequências funestas para todos nós. Talvez, num futuro distante, teremos a triste nostalgia do tempo em que uma mulher podia sentir alegria, contentamento e plenitude na sua gravidez, mesmo rodeada de pequenos desconfortos passageiros.

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Game Over

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Um parto é como um casamento: uma travessia cheia de percalços, dificuldades, problemas, atrasos, recuos e vicissitudes de todas ordem. De um nascem as esperanças de uma nova vida; de outro uma parceria que nos oferece a oportunidade de crescimento pelo choque constante com o desejo do outro. Tanto quanto os partos, os casamentos são sempre acompanhados da constante sedução da desistência. Basta olhar para o lado e iludir-se rapidamente com a promessa de uma vida melhor desistindo propostas outrora assumidas. Parece-nos tão simples, tão mais fácil e tão mais adequado fazermos as malas e deixarmos para trás um processo que se desenrolava, mesmo que com toda a sorte de transtornos. A tecnologia das cesarianas e dos divórcios nos ofereceu a escapatória limpa e simples para a troca de planos.

Por outro lado, é certo que existem partos e casamentos que precisam ser cortados à faca, pois que se tornam viciosos e agridem as estruturas emocionais daqueles que dele fazem parte. Para a toxicidade de alguns processos não há paciência que resista e nem lenitivo para a tortura do convívio. Para estes, não há porque insistir em um projeto que pode levar a mais tristeza, dor e sofrimento. Entretanto, cada dia mais fica evidente que a simples desistência diante de pequenas discordâncias e contratempos não soluciona as angústias na maior parte dos casos, apesar das crescentes facilidades. Muitos processos que precisariam de um tempo maior de amadurecimento – para sedimentar cumplicidades, reforçar compromissos e aplacar mágoas – são cortados pelas lâminas vorazes dos bisturis e dos cartórios. Nem todos se beneficiam dessa ação radical, e fica claro que é preciso mais ponderação ao fazer escolhas definitivas.

Uma lástima tanta pressa quando o que mais precisamos é paciência, perseverança e vontade de vencer obstáculos. Partos e casamentos duradouros escassearam no mundo moderno, mas será que isso tornou as pessoas mais felizes?

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