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Reprise

Quando vejo tantas “pessoas de bem” na Internet justificando os massacres contra crianças palestinas usando a Bíblia e suas específicas interpretações como desculpa, fica claro que a vinculação com o cristianismo não garante nenhuma vantagem ou distinção moral para os seus adeptos. Os cristãos que agora aprovam o genocídio no Oriente Médio são apenas monstros travestidos de carolas, pessoas vis e sem alma. Que pensar de religiosos que aceitam a morte de milhares de mulheres e crianças em nome de suas convicções místicas?

Não vejo nenhuma diferença entre a barbárie inominável de agora e o que ocorreu há pouco menos de 1 século na Alemanha. O desejo de sangue, o desprezo pela vida das crianças e a desumanização de um povo – para deixar livre a escolha explícita pela “solução final” – não podem ser desmerecidos, e são na verdade elementos estruturais do desastre civilizatório, tanto lá atrás quanto agora.

Não pare de falar da Palestina. Não pare de denunciar o massacre. A Palestina somos todos nós…

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Colonialismo

Eu sempre fui muito fã do Tintim e, por causa disso, assistir o longa metragem sobre suas aventuras foi a derradeira vez que fui ao cinema com meu pai. Passei a infância e a juventude lendo as histórias escritas por Hergé. Meu pai comprava os “gibis” repletos de viagens a lugares estranhos e lutas contra bandidos de outras terras e eu viajava longe junto com os personagens. Aliás, o nome “gibi”, que deve estar em desuso, se devia às letras GB no alto da capa da revista que indicavam a editora – GuanaBara.

Meu pai cresceu apaixonado por estes gibis e se alfabetizou com eles. Ele descrevia a chegada do meu avô, vindo da cidade (meu pai morava no interior, Três Cachoeiras) com uma pilha de revistas, com a mesma excitação da criança burguesa que ganha um smartphone novo no seu aniversário. Na época dele (e também na minha) gibis valiam ouro. Era comum a gente visitar uma outra família e minha mãe dizer “levem os gibis de vocês para trocar”. As histórias preferidas do meu pai eram Tex, Anjo, Popeye, Capitão Midnight, Reis do Western, todas as revistas de caubói e o indefectível Tintim.

Ser um jornalista internacional, um menino prodígio, visitar todos os lugares exóticos do planeta era o sonho dourado compartilhado pela gurizada da minha geração. Sim, bem diferente do sonho de ser YouTuber, influencer ou jogador de Free Fire. Tintim era tudo isso, além das qualidades morais que acrescentava à sua inteligência e tenacidade. Tinha uma relação paternal com seu cãozinho Milu (Milou, em francês, Snowy em inglês – um gracioso Fox Terrier) e cuidava do capitão Haddock – sua figura paterna – como um filho cuida de seu velho pai doente, alcoolista, com síndrome pós traumática e problemático.

Aqui é que se estabelece a minha grande dor. Enquanto adorava os dramas e as intrigas internacionais nas quais Tintim e o Capitão Haddock estavam envolvidos, eu não percebia que, por trás de todas essas narrativas maravilhosas, se escondia a brutalidade do colonialismo europeu em África. Ou seja: para adorar o herói que despertava em mim o fervor revolucionário e investigativo era preciso fechar os olhos para a barbárie genocida da invasão europeia da África, regada com o sangue da exploração de seus recursos naturais. Entre os maiores “investidores” na África estava o Rei Leopoldo, rei belga que dominou o Congo, lugar onde ocorriam muitas das histórias de Tintim. Leopoldo, com 10 milhões de mortes na sua ficha corrida macabra, é provavelmente o sujeito mais brutal que já passou pelo Planeta. Talvez não exista no inferno ninguém mais conhecido e celebrado que ele. Mas, à época, essa não era uma história contada nos jornais.

As aventuras de Tintim retratam exatamente o olhar colonialista, a desumanização dos povos da África, a ganância da exploração e o desrespeito com as culturas nativas, mas os quadrinhos que meu pai e eu devorávamos eram envoltos em uma bruma de heroísmo, coragem, inteligência superior, determinação e força moral. Esta, por certo, é a receita básica dos colonizadores, que precisam glamurizar a conquista dos nativos tornando-a uma sequência de episódios épicos da necessária luta da “luz contra as trevas”. Algo parecido com a perspectiva que Israel apresenta sobre as chacinas e os massacres contra os palestinos na “conquista da Terra Santa” – a Nakba, na perspectiva dos palestinos. É preciso forçar a narrativa, torturar os fatos, até o ponto em que os próprios colonizados acreditem que a servidão lhes ofereceu benefícios.

Hoje Tintim é uma lembrança apenas, mas muito de sua personalidade e temperamento apareceram em outro “desbravador” contemporâneo. À maneira de Tintim, tratam como herói um ladrão de relíquias de povos da África e Oriente Médio como Indiana Jones. Desta vez o colonizador é americano, não belga, mas a forma de tratar os nativos como “inferiores” e incapazes de cuidar de suas próprias riquezas é essencialmente a mesma. Isso me faz pensar que o colonialismo usa de criativas metamorfoses para continuar impondo uma perspectiva etnocêntrica ao mundo, fugindo enquanto pode da incômoda multipolaridade cultural.

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Disparidade

População de ascendência judaica nos Estados Unidos é de 7.5 milhões, o que significa ao redor de 2% dos habitantes do país. Fica então a pergunta: como pode uma parcela tão pequena da população ter tamanho poder, a ponto de enviar 4 bilhões de dólares anuais para armar Israel e manter a opressão dos palestinos, enquanto coloca os outros 98% dos seus habitantes em risco de uma guerra que pode destruir o planeta? Por certo que a grande massa dos seus cidadãos, como demonstram as manifestações em apoio à Palestina, não aceita esse uso do dinheiro público para fomentar e financiar guerra, destruição, mortes e apartheid. Somente a falsa democracia liberal, onde os políticos podem ser facilmente comprados pelos interesses capitalistas, pode explicar essa disparidade entre o que o povo deseja e o que sua elite financeira faz…

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A obrigação moral de resistir

Não fiquem bravos comigo: a libertação da Palestina é o grande clamor civilizatório da nossa época. Não há como me calar diante da necessidade de apoiar a grande luta libertária do século XXI.

Não me perguntem se eu aceito os ataques do Hamas às bases militares sionistas situadas ao lado de Gaza. Sim…. eu aceito as bombas, os foguetes, os ataques e as emboscadas, sim. Por mais que sejam inaceitáveis e injustificáveis a violência e a brutalidade, há que aceitar a motivação de tais ações heroicas. Entendo perfeitamente que aos palestinos, depois de sete décadas de massacres e humilhações, só restava a possibilidade do ataque militar aos fascistas de Israel. Acreditar que depois de 75 anos de massacres haveria consideração e interesse de debater a questão palestina por parte dos invasores é uma ingenuidade que os palestinos não se permitirão nunca mais.

Ou por acaso a liberdade dos povos se consegue com abaixo-assinados? Por acaso o fim da monarquia na França e a ascensão da burguesia ao poder na Revolução Francesa se deu por uma petição no Avaz? Os americanos venceram os ingleses e conquistaram sua independência através do diálogo? A liberdade da Argélia do jugo horrendo da França se deu numa mesa de bar? E o que houve com todas as colônias em África que se libertaram do colonialismo? Por acaso sua liberdade ocorreu numa sala acarpetada na ONU?

Seria justo pedir moderação a quem sofre a barbárie racista e colonial há décadas? A estratégia do consenso e da diplomacia funcionaria agora, depois de jamais ter produzido resultados? O que houve com Camp David? Qual o resultado dos acordos de Oslo? E por que exigimos diálogo por parte dos Palestinos, mas jamais exigimos isso dos brancos europeus invasores sionistas? Por que os passos para a paz são exigidos apenas de quem é oprimido, mas não da parte opressora? Porque nós (as vitimas do imperialismo) somos pressionados a dialogar, esperar, aceitar, suportar e nos resignarmos, enquanto aos invasores é oferecido tudo: aviões, armas, foguetes, canhões, tanques, o controle da narrativa e ainda por cima uma máquina gigantesca e mortífera de propaganda?

Se a guerra é necessária que seja aceita, lutada e vencida. Chega de abuso, chega de racismo e apartheid. Chega de opressão e morte. Os povos de todo o planeta exigem: Palestina livre!!!

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Seu Passado Condena

Os fatos atuais, que mostram de forma explícita e inequívoca a barbárie do colonialismo racista de Israel, tornaram ainda mais vergonhosas as visitas de Caetano, Gil e Jean Wyllys à Palestina há poucos anos. A visita destes ocorreu mesmo depois dos avisos reiterados – inclusive de Roger Waters – para não visitarem um país que tinha uma imensa ficha corrida de abusos e violações de direitos humanos contra a população original daquela terra.

A ideia dos ativistas pela Palestina era reforçar o bloqueio cultural à Israel como parte do esforço para isolar um país que tem o supremacismo étnico e a invasão de terras palestinas como cimento cultural. Apesar dos avisos, estes personagens, identificados com a esquerda brasileira, foram a Israel, fizeram shows e palestras de cunho identitário e tiraram fotos com notórios terroristas – como Shimon Perez. Cabe também dizer que outro queridinho da esquerda liberal festiva do Brasil, Gregório Duvivier, também proferiu palestras a convite de Israel em sua campanha de propaganda e “whitewashing” do colonialismo. Esses convites “boca livre” de Israel são tradicionais para a compra de mentalidades na América Latina. Há poucos dias uma nova leva de influencers (como Rogério Vilela e André Lajst) foi para Israel receber uma versão distorcida e mentirosa para o ataque do Hamas em 7 de outubro. 

As imagens de Jean Wyllys na universidade sionista e dos músicos brasileiros ao lado do ex-presidente de Israel são as mais chocantes – e das mais difíceis de engolir. Quanto ao político israelense, Shimon Peres, nasceu na Polônia em 1923, em Wiszniew, Polônia (hoje Vishnyeva, Bielorrússia) e seu nome original era Szymon Perski. Ele foi um os fundadores de Israel, mas também de sua milícia terrorista mais cruel, chamada Haganah. Este comando terrorista se ocupava em exterminar e expulsar palestinos de seu território com o suporte das forças imperialistas para criar uma grande base militar no Oriente Médio. Anos após, foi Shimon Peres quem negociou o apoio imperialista para que Israel tivesse armas atômicas.

Shimon Peres foi também primeiro ministro e presidente de Israel – parte de uma longa lista de terroristas que se tornaram políticos de destaque naquele país. Nesta condição é responsável direto pelas violências, abusos, massacres, bombardeios, execuções extrajudiciais e múltiplas violações dos direitos humanos aplicados ao povo palestino durante mais de sete décadas. Peres foi ideólogo do terrorismo israelense em sua mais clara manifestação. Ele é responsável pela nomeação de Ariel Sharon, que o sucedeu, para o comando das tropas que invadiram o Líbano, as mesmas que posteriormente estiveram presentes no massacre de Sabra e Shatila. Não por acaso, Shimon Peres foi parceiro dos mais sanguinários ditadores genocidas latino americanos, como Pinochet, Videla e Hugo Banzer.

Não deveria causar surpresa que Shimon Peres (que faleceu em 2011) pertencia à esquerda israelense, do partido trabalhista, porque para Israel a esquerda e a extrema direita são visceralmente unidas no etnocentrismo racista que sustenta a ideologia sionista.

A culpa que estas personalidades da cultura brasileira carregam eu não gostaria de ter sobre as minhas costas. Não há justificativa para ser fotografado ao lado de reconhecidos genocidas ou para posar sorridente à frente de uma universidade erguida sobre terra Palestina furtada pelo estado terrorista que a controla. Todavia, espero que eles tenham a capacidade de rever suas posições (algo que até agora não ocorreu de forma clara), reconhecer seus erros e, enquanto ainda houver tempo para limpar suas biografias desta nódoa, colocar suas vozes a favor da independência, da autonomia e da liberdade do povo da Palestina.

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Apenas imagine…

Faça um simples exercício de imaginação e pense como reagiríamos se a China comunista tivesse esmagado uma rebelião no Tibete e, através de um bombardeio incessante sobre regiões densamente habitadas e houvesse matado mais de 15 mil civis, entre estes 8700 crianças tibetanas – até agora. Diante de tamanha matança, como seriam as manchetes nos principais meios de comunicação do ocidente? Como seriam tratados os chineses e suas autoridades? Que país europeu estaria apoiando a China e sua carnificina com slogans “I Stand with China”?

Por que a diferença no tratamento destes dois episódios desumanos e brutais? O que está por trás desse horror que não sejam os interesses capitalistas, o racismo e a perversidade mais explícita? Qual a diferença entre os campos de concentração nazi e o campo de concentração de Gaza? Por que aceitamos as desculpas cretinas dos apoiadores de Israel, aceitando haver razão para matar 1000 crianças para atingir um único combatente do Hamas? A resposta é óbvia: Israel é uma ponta de lança do imperialismo cravada no Oriente Médio, às custas da liberdade e da autonomia da Palestina. Além disso, Israel, através do AIPAC, financia a maioria dos políticos americanos, em especial do partido Democrata. Fica fácil entender porque tanto amor devotado a esta colônia europeia branca entre os países árabes.

Acrescento a estes questionamentos, perguntas direcionadas à imprensa: por que insistimos em chamar o Hamas de terrorista, e não chamamos de terroristas os brancos e europeus que roubaram suas terras, os humilharam e torturaram a ponto de não restar nenhuma alternativa além da reação violenta e feroz? Qual a razão para acreditarmos como aceitáveis as milhares de violências cotidianas cometidas contra a população palestina, mas nos escandalizamos quando aqueles que sofrem os abusos durante décadas finalmente reagem às agressões? Por qual motivo aceitamos o Apartheid declarado e explícito que impede o acesso dos palestinos à plena cidadania? “Dos rios dizemos violentos, mas não chamamos violentas as margens que os oprimem”. (Bertold Brecht)

Não é possível calar-se diante do apoio necessário à Palestina. É necessário que as denúncias se mantenham; é preciso expressar cotidianamente nossa inconformidade. Precisamos deixar claro o lado da história em que nos colocamos, apresentando a todos, e a todo momento, a realidade desumana do sionismo. Não permita que normalizem o racismo, a exclusão e o preconceito contra a coletividade Palestina. Peço para cada um que olhe para a foto desse texto e se imagine correndo com um filho nos braços, recém retirado dos escombros de sua casa, covardemente destruída pelas bombas sionistas. Difícil? Se esta identificação é complicada, então imagine que é uma criança loira e de olhos azuis atacada por nazistas no gueto de Varsóvia; talvez com esta pequena alteração na cor da pele fique mais fácil criar esta identificação. Miko Peled, ativista israelense pela palestina, filho de um general israelense que atuou na Guerra dos 6 dias, afirma que é “impossível vencer os palestinos”. Em uma postagem recente, deixa claro que a guerra contra Gaza é a guerra contra a paz. A imaginária vitória de Israel nessa guerra genocida significaria a vitória do racismo, da exclusão, da brutalidade e do abuso. Por isso somos todos Palestina Livre.

Palestine will be free!!! 

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Desejo de Matar

O Brasil inteiro ficou chocado, na última semana, quando surgiram nas telas da TV as cenas de assaltos cometidos por grupos de jovens nas ruas de Copacabana. Impossível não se identificar com o horror das vítimas, muitas delas meninas, que foram espancadas pelos meliantes. Nas cenas, a população parece indefesa, sem ação, atônita e sem qualquer proteção das forças policiais.

A reação nas ruas e nas redes sociais foi de indignação. Brotaram na Internet os conhecidos jargões da extrema-direita, exigindo desde espancamentos até linchamentos, pena de morte e mesmo a execução sumária dos assaltantes. A elite da extrema-direita vociferou sua previsível violência contra os delinquentes, mas a imprensa burguesa também foi igualmente incisiva. Alguns lembraram do caso do rapaz despido e amarrado a um poste após um assalto frustrado, quando até setores da imprensa aplaudiram a ação dos populares.

Ato contínuo aos arrastões no Rio de Janeiro, lutadores de Jiu-jitsu apareceram em cena oferecendo-se como proteção à população, agindo como vingadores, heróis acima da lei, salvadores dos fracos e indefesos habitantes do Rio. Assim, foram criados “comandos” populares de rapazes musculosos, que foram filmados espancando suspeitos (normalmente os pobres e pardos) e espalharam arbítrio, violência e um aroma de “Whey Protein” pelas ruas da cidade maravilhosa. Como Charles Bronson em “Desejo de Matar” – de 1974, um filme que contém as sementes do fascismo e do racismo – os lutadores do Rio acreditam na fábula de consertar uma sociedade com a ferramenta da vingança violenta. No filme, Charles Bronson produz um banho de sangue contra delinquentes (todos de pele escura) para vingar da forma mais cruel a morte da sua família. No início dos anos 80 este filme era um campeão das locadoras, e isso levou dois produtores israelenses (coincidência) a comprar os direitos da franquia, fazendo mais 4 filmes de sucesso.

Como sempre, estas reações da sociedade, carregadas de emocionalismo, levam a uma contenção imediata dos assaltos, mas invariavelmente passageira. Assim que os Comandos deixam de atuar, a normalidade dos abusos volta a ocorrer. E assim acontece porque continuamos a moralizar a questão, acreditando que esses ataques ocorrem pelo choque entre duas classes: as pessoas de bem (nós) e os bandidos, meliantes covardes e oportunistas. Continuamos a olhar para os bandidos como seres deformados, moralmente deteriorados, que usam de sua malícia e força para atacar pessoas inocentes pelo simples prazer de roubar e machucar. Acreditamos que se trata de uma questão moral, e não econômica, política e sistêmica.

É evidente que o aparecimento das “brigadas populares” , compostas por lutadores das academias do bairro, também se dá pela falência da segurança pública da cidade, controlada por uma polícia que está infiltrada em todos os níveis pela contravenção. Entretanto, a simples repressão destes marginais (e aqui uso no sentido de estarem “à margem”) pela polícia não seria uma solução muito melhor, apesar de produzir menos ataques discriminatórios – mas não muitos. 

Estes sujeitos, cansados de espiar pelos buracos do muro, resolvem invadir a festa do consumo como verdadeiros penetras, subtraindo dos desatentos as bugigangas que carregam. Quem não aceitar ainda leva um olho roxo. Por certo que não há como aplaudir como os pobres e excluídos do Rio de Janeiro decidem, de forma paroxística e desordenada, reclamar seu quinhão na festa do capitalismo usando as ferramentas do terror. Entretanto, não há como negar que uma sociedade de classes, onde a imensa maioria é expulsa do consumo (o caminho para a felicidade), é pródiga em produzir este tipo de reação. É improvável que se consiga manter por muito tempo tamanho desequilíbrio sem uma enorme força repressiva, mas também é justo esperar que muitos vão reagir – com maior ou menor violência, maior ou menor organização. Os assaltos no Rio de Janeiro tem suas raízes profundamente inseridas na terra fértil da desigualdade e da injustiça social. 

Da mesma forma, não é possível manter uma população de milhões de habitantes presa em um campo de concentração ao ar livre ou submetida à humilhação diária de espancamentos, prisões ilegais, abusos, desapropriações e assassinatos e não imaginar como natural a reação – até violenta e incontrolável – contra essa barbárie. Acreditar ser possível solucionar a situação na Palestina através da violência, seja pela eliminação do Hamas, a expulsão de toda a população restante ou até mesmo com a “solução final” – admitida por fascistas israelenses – é uma tolice, pois que a razão desse ódio é a invasão, o colonialismo e o imperialismo, da mesma forma que o ódio represados dos descamisados e favelados brasileiros é a traição do capitalismo ao seu desejo de participar da colheita dos frutos do trabalho. 

A solução, como sempre, está longe das alternativas paliativas. A brutalidade genocida de Israel e as brigadas de lutadores cariocas não podem solucionar problemas que não começaram na semana passada no Rio ou no 7 de outubro na Palestina; são doenças sociais ligadas à estrutura mais profunda e constitutiva de cada uma dessas realidades. Sem o fim do sionismo e do capitalismo nada será suficiente para dar fim à barbárie. Uma sociedade cuja matriz é perversa e onde a desigualdade é vista como natural será eternamente incapaz de solucionar a indignação dos excluídos através da violência. 

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Evangelho

Quando pequeno tive aulas de “evangelização” na sociedade espírita que meu pai era presidente. Até hoje tenho sentimentos conflitantes sobre essa experiência. Discuti o assunto com vários amigos da época, e ainda acredito que, caso tivesse frequentado uma escola de artes, ou um clube literário, (quem sabe uma banda de rock?), estas escolhas teriam sido mais proveitosas, e me deixariam mais preparado para a vida. Para muitos, as aulas “dominicais”, são uma forma de ensinar perdão, amor, caridade, fraternidade, etc. Há quem discorde, acreditando que ensinar religião para crianças e encher suas cabeças com conceitos religiosos – acreditando que isso pode “moldar seu caráter” para que se tornem “cidadãos de bem” – é uma ideia absurda e que não encontra qualquer comprovação nos fatos. Seja qual for a verdade, compreendo quem acredita que a infância deve ser livre deste tipo de ensinamento, em especial os que são oferecidos às crianças do ocidente, como as mitologias judaico-cristãs.

Eu lembro vagamente dessas aulas, mas não de uma forma positiva, apesar de que minhas memórias sobre elas também não são negativas (afinal, conheci minha futura esposa nesses encontros). Todavia, acredito que minha cabeça seria mais livre de preconceitos se não tivesse escutado tantas histórias de Jesus e seus apóstolos, as quais acabaram trazendo toda uma exaltação da Palestina como um lugar “mítico” e “sagrado”. Ora, na perspectiva do Império Romano, naquela época a Palestina tinha tanta importância geopolítica quanto tem hoje a pequenina Gravatá em Pernambuco para o Imperialismo americano. Ou seja, absolutamente insignificante. Entretanto, foi Paulo de Tarso (o apóstolo dos gentios) e uma série inimaginável de intrincadas coincidências históricas o que fez o cristianismo ter relevância – muito mais do que a profundidade dos ensinamentos de Cristo, que podem ser achados numa infinidade de outras religiões e seitas até bem anteriores ao próprio cristianismo. “Ahh, mas o sermão do monte, as bem-aventuranças”. Sim, não há como negar o significado desta parte do Evangelho; este sermão é o coração do cristianismo e o seu grande diferencial, pois nele ficou clara a opção pelos pobres, e foi essa conexão com as classes miseráveis que lhe ofereceu imensa popularidade.

Por outro lado, por causa dessas aulas precoces de cristianismo, acabamos fixados nessa cosmovisão judaico-cristã – que pode ser sectária e até obliterante. A pior de todas as heranças é a tese do “povo escolhido” ainda usada pelos sionistas, como se aquele povo tivesse alguma qualidade especial aos olhos de Deus, mais do que os asiáticos, africanos ou os habitantes do novo mundo. Como se Deus tivesse encontrado, entre todos os grupos humanos, a sua gente “preferida”. Pergunto: que Deus é esse que se comporta como um pai irresponsável, que se dedica mais a um filho do que aos outros?

O espiritismo, por sua vez, importou esta ideia supremacista ao criar a fantasia do Brasil como “Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, uma ideação arrogante e ufanista que não se assenta sobre nenhuma evidência na história, a não ser o fato de termos a maior população católica do mundo. Bem sabemos o quanto essa “religiosidade” não nos garante nenhuma qualidade especial na defesa dos direitos humanos, das crianças, das mulheres, da população LGBT, da natureza ou na distribuição de renda. Na infância muitas crianças espíritas são alimentadas com estas visões equivocadas e arrogantes sobre o Brasil, trazendo a fantasia de que somos um país “especial”, quando em verdade somos apenas mais uma nação que tenta sobreviver ao capitalismo brutal e decadente.

Hoje vejo entre os cristãos brasileiros uma adesão muito forte ao discurso de Israel na sua guerra covarde contra os palestinos, e acredito que muito disso está na visão positiva que têm da região. “Ahh, Jerusalém, o Monte das Oliveiras, o Gólgota, o lago Tiberíades, Belém, Nazaré, o lago de Genesaré, o mar da Galileia, o rio Jordão”…. são lugares que eu lembro de cabeça somente pelas histórias que li e ouvi durante os anos da infância, mas isso não deveria produzir nossa cegueira diante da perversidade genocida daqueles que controlam a ferro e fogo a região.

Minha experiência mais contundente aconteceu quando fui à China pela primeira vez e perguntei à uma plateia de quase 100 profissionais da saúde se tinham ouvido falar de “Freud”. Apenas duas pessoas o conheciam, mas nada sabiam de sua obra. Ou seja: a cultura de lá jamais necessitou de Freud para construção de uma sociedade vigorosa. Da mesma forma, conheci lá centenas de maravilhosas pessoas que jamais tiveram qualquer contato com o cristianismo ou com as histórias e parábolas de Cristo, o que parecia não lhes fazer falta alguma. Naquela oportunidade cheguei à conclusão que nossa visão eurocêntrica, ocidental e cristã nos dificulta enxergar outras realidades no pensamento humano. Por isso, oferecer aos pequenos uma perspectiva humanista e não sectária deveria ser uma alternativa muito mais frequente entre nós. Sem gurus, sem salvadores, sem messias, sem livros sagrados, sem povos escolhidos, sem verdades pétreas, sem diferenças essenciais entre os povos e abraçando a diversidade da forma mais intensa e possível, desde a mais tenra idade.

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Canção da Morte

Eu francamente não imaginava ver de novo a retórica claramente racista do sionismo ganhar tantos adeptos, ainda mais usando as mesmas justificativas adotadas por Adolf e sua turma há um século. Em verdade essa é uma demonstração clara de ingenuidade: essas ideias jamais desapareceram do nosso repertório de perversidades; apenas ficaram adormecidas, hibernando, silenciosamente esperando que as crises inevitáveis do capitalismo pudessem desenterrá-las. Redivivas pelo pânico, agora podem ser novamente utilizadas como a desculpa oportuna para os abusos e as crueldades. No atual ataque de Israel contra o povo palestino contabilizamos mais de 12 mil mortos até agora (final de novembro 2023), dentre eles 5000 crianças, e metade da cidade destruída. Apesar disso, em uma recente pesquisa, mais de 90% dos israelenses acreditam que a força utilizada contra Gaza é pouca ou adequada, um resultado semelhante ao apoio recebido pelo IDF depois do último grande massacre em Gaza em 2014, quando 95% dos judeus israelenses apoiaram os ataques. No bombardeio atual, menos de 2% dos judeus israelenses acreditam que houve exagero. Essa é uma sociedade monstruosa.

“Ahhh, mas os ataques, os bebês, as mulheres abusadas, os terroristas do 7 de outubro…” Amigo, há 75 anos todo santo dia é 7 de outubro na Palestina. Não há um dia sequer que não tenha ocorrido uma grave violação de direitos humanos nos territórios ocupados, seja na Cisjordânia, Jerusalém oriental ou na Faixa de Gaza. A diferença é que a crueldade inominável que se repete por lá é de verdade e não mentiras plantadas pela imprensa corporativa burguesa para escamotear os crimes hediondos da etnocracia colonialista e racista de Israel. É tempo de parar com o terror racista de Israel.

Antes de julgarem as ações dos combatentes palestinos, liderados pelo Hamas, coloquem-se na posição deles, subjugados por invasores europeus racistas e criminosos, condenados a uma cidadania de segunda classe, confinados no maior campo de concentração a céu aberto do mundo ou aprisionados sem o devido processo legal em penitenciárias israelense, sem crime ou mesmo acusação, bastando apenas o interesse e o desejo das autoridades. Se a sua mãe, irmãos, amigos, inclusive crianças estivessem presos em masmorras israelenses, sofrendo todo tipo de abusos nas mãos de fascistas, vocês não apoiariam uma ação extrema como a que aconteceu em 7 de outubro? Não fariam isso por seus filhos? Para quem reclama das ações violentas dos Hamas contra os chacais racistas de Israel, fica a lembrança de que durante 1 ano e 8 meses em 2018 houve protestos pacíficos nas bordas de Gaza chamados ” A Grande Marcha de Retorno“. Tudo o que os admiradores de Gandhi sempre desejaram, não? Pois o resultado foi de 223 palestinos mortos por protestar pacificamente e mais de 10 mil feridos. Ou seja: Israel só entende a linguagem da violência, pois os racistas de lá apenas acreditam na força bruta.

Se implorar não basta, se apelar para a justiça é insuficiente, quem pode julgar aqueles que, em desespero, escolhem a violência como forma de libertação? Como se sentiriam aqueles cujos filhos e família tivessem negadas as mais básicas necessidades humanas, como beber água? Mas nada disso impressiona os habitantes de Israel, educados desde a mais tenra idade a odiar os “árabes”. Nem mesmo as crianças em Israel escapam dessa educação para o ódio; em Israel elas são ensinadas desde a mais tenra idade a odiar e destruir. Numa recente campanha publicitária característica de “white washing” de Israel, elas cantam canções onde exaltam o exército de Israel e apoiam a destruição de Gaza. Ou seja: para mudar a imagem deteriorada de Israel agora estão apelando para as emoções mais primitivas e para a imagem de crianças cantando canções de morte. Não haveria como Israel não se tornar a grande pátria do fascismo e do racismo.

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Inevitável

Nada se compara ao que Israel – o único Estado explicitamente racista do mundo – está fazendo com a população ocupada da Palestina desde o início de outubro. O exército mais covarde e imoral de todo o planeta está mostrando uma versão compactada de todas as crueldades que executou nos últimos 76 anos. Nada supera a narrativa genocida dos políticos de Israel, nem mesmo o que se escutou dos monstros nazi em meados do século passado.

Infelizmente, para eles, agora temosalternativas para uma livre circulação de informações, que antes eram filtradas por 4 ou 5 sistemas internacionais denotícias, dominados pelos interesses da burguesia. Pelo menos hoje, qualquer sujeito com um celular na mão é um jornalista, infinitamente mais honesto do que aqueles que trabalham para a imprensa do Brasil ou para a imprensa burguesa internacional. Por esta singela razão, está quase impossível manter por mais de 48 horas as mentiras que sobreviviam por décadas no passado não tão distante. Estivéssemos nos anos 60 e até agora a versão mentirosa dos “bebês sem cabeça“, o “ataque à Rave” ou os “estupros” de mulheres israelenses ainda seriam as versões oficiais, e a população de todo o planeta estaria repetindo de forma enfadonha a farsa montada por Israel.

Hoje já sabemos o quanto Israel é um país criado sobre uma montanha de corpos e páginas infinitas de mentiras, fraudes e manipulações. Essa fábrica de inverdades só pode se sustentar através da compra sistemática de políticos e da imprensa. Não fosse pelo jornalismo independente que apresenta um contraponto consistente e factual aos influenciadores sionistas – ou aqueles pagos por eles – e muitos ainda manteriam a tese de que o hospital de Shifa veio abaixo por “fogo amigo” palestino, tese que foi facilmente desmontada logo depois com a ajuda de especialistas do mundo todo. Cada dia é mais difícil sustentar a farsa de Israel. Nos anos 40 do século XX era possível mentir sobre “Um povo sem terra para uma terra sem povo“, mas hoje a pústula se rompeu e o que vemos escorrer são as falsidades, as mortes, os abusos e a corrupção de uma colônia branca europeia sobre a terra dos palestinos, acumulada em 76 anos de ocupação e arbítrio.

Boa parte da imprensa insiste em chamar o “Hamas” grupo “terrorista”, tentando forçar a narrativa de que a luta pela Palestina é a batalha da “luz contra as sombras“, como disse Bibi Netanyahu, mas é mais do que óbvio para qualquer um que repouse os olhos sobre a história da região que os invasores cruéis da Europa é que representam as trevas, e aqueles que lutam pela liberdade, a autonomia e a dignidade dos palestinos são os que levam a luz para a região. Também querem nos fazer acreditar que o problema é o “Hamas”, a resistência armada palestina, mas a verdade é que mesmo que fosse possível destruir todos os combatentes desse grupo e no dia seguinte outros tantos milhares se alistariam para a luta, porque eles representam a única chance de vida digna para a população de Gaza. Para cada combatente morto, dois mais se alistam para lutar pela liberdade.

O chanceler russo Lavrov declarou há alguns dias ser impossível pensar em paz sem a criação de um Estado Palestino soberano, livre, com defesa, com aeroporto, com moeda, com economia e com plena conexão com a Cisjordânia, mas é claro para qualquer observador que esta é uma solução necessária, porém paliativa. O mundo não pode aceitar mais o sionismo ou qualquer forma de organização social baseada no racismo e na exclusão. Mesmo um país só para judeus mantido ao lado da Palestina deveria ser objeto de boicote internacional, pois que este tipo de organização viola frontalmente todo o arcabouço jurídico e ético que sustenta a democracia.

A luta pela paz é uma tarefa de todos nós. Como dizia Nelson Mandela, “Sabemos muito bem que a nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos”. É preciso aumentar o boicote à Israel, forçar os representantes diplomáticos a encerrar qualquer conexão com este país, determinar um “cerco” econômico ao racismo branco de Israel, reforçar o apoio à Palestina Livre e sair às ruas até que Israel recue em seus objetivos de genocídio e limpeza étnica. Desejamos um Estado Palestino único e democrático, que possa aceitar todas as crenças, todas as culturas e todas as raças sob a égide dos direitos humanos e da plena democracia.

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