Arquivo do mês: agosto 2018

Debates com Debra

Debates com Debra

Continuando minhas conversas com a doula Debra Pascali-Bonaro sobre o futuro das Doulas – no Brasil e no Mundo – acabamos debatendo sobre a capacitação e o credenciamento, já que ambos tomamos como claro o fato de que a profissionalização e o “licenciamento” nos levarão a um beco sem saída que colocará em risco a própria continuidade do movimento de doulas. A ideia de transformar doulas em “profissionais da saúde” é inadequada, equivocada e – ainda pior – pode vir a destruir a própria essência do trabalho das doulas.

Nossa ideia é que, para manter essa essência intacta, faz-se necessário entender quais os pontos fundamentais do trabalho da doula. Estes não estão relacionados a nenhuma corrente ideológica, nem ao conhecimento aprofundado da anatomia ou da fisiologia e nem tampouco a qualquer entendimento de política, etnias, feminismo ou qualquer outro tema correlato. Uma doula dá suporte afetivo, emocional durante o parto. Só isso, ou melhor, TUDO isso.

Como então reconhecer quem é e quem não é uma doula? O sistema nos Estados Unidos e no Brasil ainda é bastante descentralizado, o que não é de todo ruim. Um grupo abre um curso de capacitação de doulas em uma cidade, forma novas doulas e estas vão para o mercado. Carregam um certificado comum que lhe serve de reconhecimento, de valor limitado. Entretanto, quando as doulas nos Estados Unidos desejaram o pagamento por reembolso pelas empresas de seguro saúde (ou pelo Medicare), começaram a exigir uma documentação oficial de sua graduação como doulas. Aí é que entra o papel da DONA.

A questão é: como oferecer um certificado que seja reconhecido em todo o país para garantir – através de um órgão central oficial – que esta moça que enviou os documentos pedindo reembolso é verdadeiramente uma doula?

Uma coisa ficou muito clara para nós: a inadequação de qualquer tipo de teste. Nenhum teste de conhecimentos objetivos é capaz de avaliar o trabalho de uma doula. Um teste apenas poderia aferir conhecimentos objetivos de matérias completamente desimportantes para o trabalho das doulas. Seria como um teste para ser pintor, artista plástico. Ora, as questões afetivas e emocionais relacionadas ao cuidado prestado por uma doula não são mensuráveis ou quantificáveis. Como diria Einstein, “muito do que se conta não conta, mas o que verdadeiramente conta não se conta

Se esse não for o critério, qual será? Creio que a resposta vem da entidade mais antiga na questão, qual seja, a DONA. Para elas o que conta é a formação que você teve e quem foram as pessoas que lhe auxiliaram nessa caminhada. Por isso, é mais eficiente garantir que os FORMADORES de doula tenham uma visão clara dessa função e tenham experiência.

Não posso deixar de lembrar a frase de Lacan sobre a maior virtude de um psicanalista. Sua resposta foi contundente e rápida: “A idade”. Sim, mais do que qualquer atributo cognitivo e racional a bagagem de experiência de vida seria fundamental para burilar as capacidades de escuta de um psicanalista. Para as doulas algo parecido poderia ser aplicado. Sim, não o critério etário, como em Lacan, mas a experiência que acumulou na atenção aos partos. Isto é: para ser uma formadora de doulas é necessário comprovar um número de partos atendidos como doula.

O número sugerido pela organização das doulas americanas é de 100 partos, mas é importante entender que existem 12 mil doulas associadas à DONA e mais de 20 anos de atuação. Ontem mesmo conversei com uma menina que, em dois anos de atuação, atendeu 60 partos!!! Isso não é a nossa realidade, e talvez seja necessário adaptar para um número mais razoável (eu sugiro 50 partos atendidos) como limite para ser formadora de novas doulas.

A verdade é que os caminhos que vi ultimamente nos leval para o lugar errado. Doulas não são profissionais da saúde, e não devem ser – segundo minha visão e a de Debra. A função das doulas deve ser livre, aberta, autônoma e sem qualquer exigência (ideologia, escolaridade, conhecimentos técnicos, etc.) que limite a sua atuação. “Doulas são a fraternidade instrumentalizada”, me dizia Max, tão logo conheceu o trabalho delas. Deixem as doulas livres!!

Deixo abaixo o resumo das exigências para ser formadora de doulas da DONA, deixando claro que talvez seja necessário debater exaustivamente a adaptação dessas regras para a realidade e brasileira e da América Latina.
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Minimum Candidate Qualifications

1. Proof of continuous and DONA certification and current membership (in good standing) with DONA International for two re-certification cycles (or 6 years).

2. Minimum number of births/families served:

Birth Doulas: Minimum of 100 births attended as birth doula, not as a nurse or midwife.
Postpartum Doulas: Minimum of 100 families served.

3. Proof of formal education/training (certificate) in childbirth education or adult education equivalent.

4. Proof of experience in adult education.

Birth Doulas: 120 hours teaching (at least 10 complete childbirth class series – minimum 12 hours per series.)
Postpartum Doulas: 10 complete childbirth preparation series totaling at least 60 classes and 120 hours to groups of 4 expectant parents minimum.)

5. Proof of volunteer experience (preferred but not required).

6. Signed memorandum of understanding.

7. Two successful interviews (Director of Education and trainer mentor from the education mentor council).

Mais informações em

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Vacinas e Religião

 

É impressionante como nos Estados Unidos o debate sobre os perigos e as inconsistências das vacinas é aberto e franco. As conferências reúnem milhares de pessoas de várias partes do país, com a presença de médicos, professores, bioquímicos, pais de crianças prejudicadas, pesquisadores e políticos. Entender a vacinação – seus riscos e benefícios – é um assunto sério e que mobiliza muitas pessoas. No Brasil o assunto é tratado com o mais completo escárnio e deboche. Questionar a validade da vacinação é tratado como “negacionismo” e as pessoas que o fazem são colocadas ao lado de sujeitos que negam o holocausto e os terraplanistas. Os pouquíssimos profissionais da saúde que ousam questionar e decidem apontar os perigos e os riscos evidentes da injeção de tantas substâncias perigosas e não testadas são levados ao ostracismo, quando não francamente perseguidos.

Falta muito ainda para tirarmos a religião de dentro da ciência. Vacinas são crenças de caráter religioso. Se elas funcionam ou não, ou se os malefícios encontrados são graves o suficiente para interromper seu uso, é uma outra questão. Todavia, a vinculação que temos com elas é de caráter dogmático e irracional. Elas ocupam o lugar das comunhões religiosas do passado: para ser aceito em uma determinada comunidade é preciso passar por um ritual de aceitação dos seus pressupostos básicos. Ontem, o batismo no cristianismo; hoje as vacinas no cientificismo.

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Territórios

 

Escrevi isso há 4 anos durante o atendimento a um trabalho de parto no hospital e me surpreendi, pois não lembrava de jamais ter escrito poesia. Contei pra Zeza e ela disse que era mentira. Talvez seja…

 

Territórios

 

Se o corpo de uma mulher

é um grande território,

onde guerras acirradas

atropelam gerações,

como negar seu direito

na luta da retomada?

 

Se a riqueza dessa terra,

por ter história e ser matriz,

seduziu o forasteiro

que dela quis se apossar,

como não aceitar que o ventre

– e tudo que tem em volta –

queira mais do que depressa

sua posse retomar?

 

Os lindeiros desse chão,

achados de posse eterna,

se esqueceram que a pequena,

por mais delicada que fosse,

tinha na mão um desejo

e no coração um poema.

 

O poema curioso,

cheio de rimas ricas,

dizia meio por assim,

porque a memória anda fraca,

que a conquista não se faz,

no martírio e na faca.

Que a mulher ou é livre,

ou melhor então nem nasça,

pois quem de si o leite dá,

de sua carne outra uma,

não pode viver cercada,

da liberdade, negada

 

O poema era esse,

que a lembrança se achega,

por mais que a mente procure

a palavra escondida.

Mas na mão está o desejo,

que se abre e nos afirma,

que a mulher tão paciente,

agora vai à luta.

Mais que a dor que sempre teve

ela agora só procura,

o caminho que é só seu,

que desenha na lonjura

do seu firme caminhar.

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Lactância sem Mulheres

Eu vi a notícia sobre um congresso de aleitamento no México que não continha nenhuma mulher entre os expositores e achei absurda tal comissão que debateria o tema. Não gosto de nenhum tipo de sexismo e a exclusão de homens para debater amamentação – pelo simples fato de serem homens – é para mim um grosseiro equívoco. Digo o mesmo sobre o tema do parto e uso a explicação de que “homens nascem e homens são amamentados”, portanto, esse assunto igualmente nos atinge e nos diz respeito. Ressalvas sejam feitas aqui ao “lugar de fala”, por favor.

Eu convidaria aqui no Brasil Marcus Renato e João Aprígio sem pestanejar para um congresso como este, e poderia colocá-los inclusive na presidência do mesmo porque são grandes defensores e batalhadores incansáveis pela amamentação…. e são homens. O gênero importa menos que o engajamento no tema, mesmo que a vivência no processo de amamentar seja um fator relevante e significativo.

Entretanto, a ausência de mulheres na mesa fala muito mais de uma negação a elas do que de uma pretensa falta de especialistas sobre o tema da amamentação do sexo feminino. No Brasil – e posso garantir que também no México – existem médicas, enfermeiras, psicólogas ou nutricionistas capazes de levar adiante esta bandeira com pleno embasamento científico e com grande experiência no ativismo. Portanto, a ausência de mulheres e a presença de representantes da indústria láctea neste evento é um claro sinalizador de que as mulheres não estão presentes porque a sua “substituta” – a indústria de fórmula – veio para ocupar sua voz e seu espaço.

E isso é muito grave…

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Ubi et Quomodo

Entrei em mais um debate a respeito da ideia de que, chamar as cesarianas de “extração fetal”, nada mais seria do que um exercício de crueldade e uma estratégia suicida para o ativismo do parto humanizado.

Os argumentos os conheço muito bem; eles acompanham as discussões sobre parto e nascimentos humanizados pela internet há duas décadas. De um lado algumas mulheres (muitas vezes ativistas) reclamando que chamar uma cesariana de “cirurgia”, de “extração fetal” ou “operação” servia para afundar ainda mais a combalida autoestima de uma mulher cujo projeto de um parto normal havia fracassado. Do outro lado, alguns propõem – como eu – que os nomes sejam usados de forma correta, sem máscaras, sem tratar as mulheres como torrões de açúcar que se desmancham com qualquer palavra mais dura utilizada. Não há porque chamar Fusquinha de Mercedes, nem cesariana de “parto cesáreo”, ou “parto via alta”, pois estes estratagemas semânticos se prestam para banalizar a cirurgia e torná-la um procedimento “igual” ao parto. Tipo a fórmula láctea, chamada de “leite” para confundir este produto artificial com o leite humano.

Mas cesarianas não são partos. Os ativistas do parto normal sabem muito bem as diferenças entre um procedimento inscrito na fisiologia do corpo e nas entranhas obscuras do nosso DNA, e uma cirurgia de extração fetal. Os riscos de ordem física para ambos – mãe e bebê – são por demais descritos na literatura, e sobre eles não cabe mais dúvida alguma. Para além disso, temos as cicatrizes emocionais deixadas na alma das mulheres que foram impedidas de um processo fisiológico. Não há como confundir os dois eventos, e a linguagem não pode ser prestar a esta mistificação.

Por outro lado, é claro que os debates sempre ficam acesos quando se toca nesse ponto; afinal, estamos tratando da sexualidade nua e crua do nascimento. Falar de parto é falar de sexo em sua expressão mais simbólica – e poderosa. O escritor “maldito” (que também era médico) Louis-Ferdinand Celine nos alertava: “Esqueçam o sexo; se querem ver a sexualidade, olhem para um parto.” Por esta razão esses choques se tornam sempre duros; eles são, em verdade, expressões relacionadas ao mito da “menas main“, que assola as mulheres diante da avalanche de tecnologias que deslocaram o leite das mamas e os partos das vaginas.

Então eu me pergunto: como criar um ponto de acordo nestes conflitos? Depois de escutar estas queixas (de ambos os lados do espectro) por três décadas eu acho que as respostas são agressivas porque a PERGUNTA é mal formulada. Não se trata de saber COMO descrever uma cesariana tal qual uma grande cirurgia de extração fetal e suas naturais consequências para a saúde do binômio mãe-bebê, mas QUANDO poderemos oferecer uma explicação mais adequada do evento que se passou. Quase todos os ativistas concordam que dizer o nome correto do que aconteceu é importante para evitar o engodo embutido nas construções linguísticas do “parto cesariana” e do “parto via alta”. Ao mesmo tempo, todos sabem que os médicos criam essa confusão para diminuir o impacto das cesarianas e fazer com que se tornem mais “palatáveis” pela cultura. Entretanto, é também verdade – e quase todos reconhecem – que encontrar uma mãe na sala de recuperação do hospital e lhe dizer : “Que pena que não conseguiu ter seu parto normal e acabou numa extração fetal” não tem nenhum sentido humano e é apenas uma expressão de crueldade e falta de sensibilidade.

Portanto, eu proponho que olhemos para o dilema da nominação dos eventos não mais pela perspectiva do “como” chamar, mas do “quando” isso pode ser feito para uma puérpera para que ela possa entender os significados últimos de uma cirurgia, seja para fazer adequadamente seu luto ou seja para evitar os erros que porventura possa ter cometido na construção do seu não-parto.

Creio que assim agindo vamos poupar muitas batalhas que continuam a proliferar no espaço cibernético sobre esse tema tão palpitante.

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