Arquivo do mês: junho 2026

Fundos eleitorais

Hoje foram divulgados os valores do fundo eleitoral, um total de quase 5 bilhões de reais, mas que parece pequeno quando a gente pensa no que foi roubado na falcatrua do Banco Master e na montagem do filme “O Pangaré escurinho”. Na repartição desse montante o partido mais favorecido é o PL com 800 milhões de reais, enquanto o PT recebeu 600 milhões. Estes numeros se baseiam na representatividade de cada partido no parlamento. Os valores do PL e do PT parecem valores próximos, não? Entretanto, o que chama a atenção é o fato de que os partidos de direita recebem o triplo do que recebem os partidos de esquerda somados. Como podemos acreditar em paridade de forças com tamanha diferença?

Fica evidente que a eleição no Brasil é um produto na prateleira para ser vendido. Quem paga mais leva uma vantagem praticamente intransponível. Porém, muito mais importante que a qualidade do produto – as propostas políticas – está a propaganda que se faz sobre ele. Afinal, como imaginar que cigarro, Coca Cola e Israel fizeram tanto sucesso no mundo durante décadas sendo tão daninhos para a vida e a saúde de todo o planeta? Publicidade explica essa discrepância. As eleições demandam dinheiro, muita grana, gasta em pesquisas, organização, gasolina, contratar ativistas pagos, gastar com papel e publicidade, ações caras e sofisticadas, com o intuito de eleger o presidente, deputados e senadores – e mesmo vereadores, em nível local. Isso explica porque nossas eleições não são realmente “democráticas”, mas um arremedo de escolha “livre”. É preciso pagar uma fortuna para eleger um candidato. Quem sai na frente? O empresário ou o defensor do operário?

É como se houvesse uma competição de caça na floresta, onde todos saem do mesmo lugar, e todos tem o mesmo tempo para trazer os animais abatidos, mas o garoto herdeiro recebeu uma metralhadora caríssima do papai e o garoto pobre da periferia leva um bodoque, um estilingue que custa apenas alguns centavos. Existe real liberdade de escolha quando a publicidade é tão escandalosamente distinta?

PS: imaginem o PCO com a grana do PL e recebendo cobertura diária da Globo e dos jornalões brasileiros. Deixem essa imagem sedimentar nas suas mentes… 

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Sharia

A “nova moda” da direita brasileira, que se envergonha de apoiar abertamente os massacres contra palestinos em Gaza e na Cisjordânia, é falar mal da Sharia – veja aqui uma boa explicação da Sharia no Youtube. Com isso pretendem dizer que, “sim… os israelenses são psicopatas e criminosos de guerra, mas os árabes são selvagens e não respeitam crianças ou mulheres. Eles estão invadindo o mundo todo e impondo sua cultura àqueles que não se curvam a Allah”.

Que bobagem isso. Quanta ignorância! Essa direita de pouco estudo não percebe o quanto de manipulação islamofóbica existe nessa narrativa. Por acaso os judeus do Brasil não obedecem o Talmud? O que isso deveria preocupar o ordenamento jurídico do Brasil? Atacar – em especial sem conhecer – as religiões alheias é permitir-se ser manipulado pelos opressores!!! Exatamente quando Israel massacra sem piedade e com extrema crueldade mais de 50 mil crianças, entre mortas e feridas, na Palestina a extrema direita raivosa cria oportunisticamente esse julgamento público da “Lei da Sharia“, como se isso fosse uma ameaça aos “valores do ocidente”. O objetivo é claro: suco de orientalismo, como diria Edward Said. Serve apenas para pintar os muçulmanos como selvagens e incivilizados, adoradores de “divindades demoníacas”. Aliás, algo que Hollywood fez nos últimos 70 anos.

Não é necessário gostar dos regramentos religiosos de outras religiões, que são válidos desde que não agridam as leis do país onde estão estabelecidos. E essas leis religiosas valem apenas para muçulmanos, e não para quem não pertence a esta religião. Portanto, não há ameaça alguma aos valores cristãos. Quem matou 27 milhões de russos na 2a guerra mundial? Os que seguiam a Sharia ou a Bíblia? Quem massacra criancas palestinas, muçulmanos ou Israel? Essa conversa surgiu dos defensores do Estado terrorista de Israel para tentar passar pano para o genocídio televisado dos palestinos, e muita gente ingênua está mordendo a isca!!! A estes, peço que mostrem alguma vez que a lei da Sharia violou direitos humanos no Brasil, e na mesma hora eu mostro o número de crianças violadas pelos adultos cristãos no Brasil!!

A população árabe e descendente no Brasil é estimada em cerca de 11,6 milhões de pessoas, segundo pesquisa da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Entre 2000 e 2026, o crescimento demográfico foi impulsionado pela estabilidade histórica, pela assimilação cultural e por novas ondas de refugiados. Quantos casos de crimes realizados em nome da Sharia foram registrados? Quantas vezes vimos muçulmanos na TV instigando violência contra outros povos e crenças? Quantas vezes países muçulmanos invadiram nações soberanas? Compare suas respostas com o que se faz em nome de Cristo.

Viva os descendentes árabes e muçulmanos do Brasil. Viva o apoio irrestrito à população Palestina!!! Pela liberdade de expressão religiosa. Pelo fim da exploração ridícula da Sharia, como se ela fosse o regulador da vida social de todos, e não apenas da vida religiosa do seu grupo. Os países islâmicos tem leis e judiciário, e tem normativas de ordem religiosa como a Sharia, da mesma forma como o ocidente tem leis e, apesar disso, convive com o assassinatos da população pobre e preta dos moradores de favela.

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Os Civilizados

Os comentaristas Hasam Piker e Cenk Uygur do TYT, programa progressista liberal dos Estados Unidos, ligado (financiado) ao partido democrata americano, foram banidos de entrar no Reino Unido por suas declarações contra Israel e seu governo sionista, responsável pelo assassinato de milhares de cidadãos de Gaza, em sua maioria mulheres e crianças, sem falar de uma quantidade ainda maior de amputados vitimados pelos snipers de Israel.

Lembram quando eles, os Europeus, se chamavam de “democracia”? Lembram quando eles falavam de liberdade de expressão como um atributo inalienável das democracias europeias? Diziam que a censura só existia onde a selvageria era o modelo de governança. Faz pouco tempo havia uma ditadura sangrenta no Brasil e os europeus nos viam como estes selvagens. Os tempos agora são outros, e bastou ameacar seu poderia econômico para que a nudez do fascismo, que se escondia por trás de suas rebuscadas vestes, aparecesse de forma despudorada. O mesmo ocorre na Alemanha, onde uma sionista pode exibir descaradamente a bandeira de Israhell nas ruas, mas ativistas são presos por defender a vida de criancas palestinas. Para estas prisões arbitrárias é suficiente usar a velha desculpa de “antissemitismo”.

Os antigos diziam que “um liberal é um fascista comum que ainda não foi assaltado”. Essa frase se torna cada vez mais verdadeira quando percebemos que o “assalto” ao modelo colonial racista de Israhell e o questionamento cada vez mais intenso ao apartheid contra o povo palestino levou as democracias burguesas europeias a retirar a velha fantasia a mostrar sua cara horrenda e fascista.

O general russo Georgy Zhukov, um dos principais comandantes militares da União Soviética afirmou logo após o conflito que “Nós derrotamos Hitler e o nazismo, e a Europa jamais vai nos perdoar por isso”. O mais dramático dessa frase é que, quase um século após o surgimento do nazismo, a Europa novamente se nazifica, e os focos aparecem em vários países ao mesmo tempo, como Alemanha, Portugal, França e Itália, todos travestidos em partidos de extrema direita ligados à luta contra a imigração e com um ilusório discurso antissistema. Todos sabemos que o surgimento e proliferação desses partidos e ideologias estão ligados ao fracasso das propostas liberais, e a engenharia mental dos seus ideólogos nos faz acreditar que a culpa é dos imigrantes ou do Estado obeso.

O mais chocante da morte lenta da soberba europeia – hoje um mero puxadinho do Império americano decadente – é que antes de morrer sua economia, pela falta de competitividade com a China, quem agoniza são seus valores, outrora vistos como o bastião da civilização. O passo para uma total guinada da Europa ao nazismo já foi dado, e talvez a Rússia não seja suficiente para salvá-la mais uma vez.


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A culpa das mulheres

Uma reportagem do jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul relata o aumento da taxa de cesarianas ocorrida nos últimos anos em uma cidade do interior do estado, e apresenta a tese – que os próprios médicos oferecem – de que o aumento na idade das pacientes e a incidência aumentada de fatores negativos associados estaria na gênese do incremento das opções cirúrgicas para o parto. No Hospital de Clínicas (HC) da cidade – que podemos imaginar se tratar de um hospital público – a proporção de cesarianas saiu de 56% em 2021 para 64% em 2025, enquanto os partos normais recuaram de 42% para 35%. Ou seja: hoje, neste hospital do interior do RS, somente 1/3 das pacientes de um hospital público conseguem parir de forma fisiológica e com um baixo risco. Este é um retrato muito semelhante ao que ocorre em todo o país. E a culpa é das mulheres, certo?

Sim, mas é preciso entender que as explicações dadas para o número escandaloso – e crescente – de cesarianas são insuficientes para justificar as taxas inaceitáveis. A melhor explicação para este fenômeno não está no perfil das pacientes, mas no perfil dos cuidadores do parto, os profissionais que detém o poder e a responsabilidade sobre os atendimentos. Não é difícil entender que “existe uma tendência nos cirurgiões de realizarem cirurgias”. Sim, parece uma piada, mas enquanto o parto for comandado por profissionais que trabalham na lógica da intervenção o resultado nunca será diferente. A ideia de que as cesarianas aumentam porque os casos são de maior risco é uma meia verdade contada ad nauseum há décadas, que tenta colocar nas condições das pacientes a indicação abusiva de cirurgias. Essa explicação não se sustenta nos fatos. Talvez pudesse aumentar um ou dois pontos percentuais, mas o que vemos é uma franca epidemia de cesarianas que aumenta os riscos para mães e bebês e torna os partos muito mais caros – que no sistema público é uma conta que todos nós pagamos. Além disso, muito do que é apresentado como justificativa deveria ser visto de forrma oposta. Uma hipertensa, por exemplo, tem uma razão a mais – a pressão alta – para evitar uma cirurgia, pois o aumento da pressão multiplica os ricos de uma grande cirurgia. Entretanto, esta condição é vista como “indicação”.

Há muitos anos, ao participar de um congresso nacional de obstetras, fui interpelado por um professor de uma universidade paulista que me afirmava que a culpa pelo excesso de cesarianas era a miscigenação ocorrida no Brasil, que misturava os genes de negras de “ancas avantajadas” com europeias de cintura mais “fina”. Ou seja: aparte da postura racista e sem evidências do colega, percebi que ali se manifestava um padrão que se repetiria em muitos contextos e em locais distintos: para justificar os desmandos na realização de cirurgias sem justificativa clínica se usava o artifício de culpar as vítimas pelos abusos, para que não ficassem à mostra os interesses e incentivos corporativos, judiciais e econômicos dessa opção. A verdade é que as intervenções no parto ocorrem porque médicos têm uma crescente incompetência e um marcado desinteresse no tipo de assistência que um parto demanda, que não se encaixa na lógica médica e na perspectiva que têm do evento. O parto normal está ligado à “lógica do cuidado”, e pertence à parteria, e não à medicina. Por isso abandonei as propostas reformistas há duas décadas; não haverá modificação no perfil da assistência ao parto enquanto os mesmos cuidadores concentrarem o poder, como ocorre com a obstetrícia. Só teremos avanço se a medicina for retirada do atendimento primário às gestantes de risco habitual, e se concentre nos casos de alto risco, deixando o parto para a atenção das parteiras profissionais, como ocorre no norte da Europa e Japão. As questões jurídicas e econômicas completam o pacote da “cesariana inevitável”, onde os médicos que atendem parto normal sofrem perseguições da corporação e da justiça e têm muito menos incentivos econômicos para a sua atividade. Não é difícil entender porque minha postura revolucionária – e o abandono das posições idealistas – produziu o ódio com o qual minha corporação sempre me tratou.

Entretanto, sou um otimista. Houve avanços nos últimos 27 anos que acompanho o desenvolvimento de políticas para o parto e participo de instituições como a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Mas estes avanços são lentos. Muito conseguimos com a popularização das doulas, algo que introduzimos no Brasil no ano 2000, com os primeiros cursos de capacitação que foram realizados no Brasil e em Portugal. Outro fator importante foi a “Lei do Acompanhante“, de 2005, que mudou o direito de um membro da família de acompanhar a mulher durante o trabalho de parto e o parto. Desde que os familiares, em especial maridos, puderam testemunhar o que ocorria no centro obstétrico, houve uma clara transformação na estética do parto. Diminuíram os gritos e as ameaças de forma considerável. Porém, isso não mudou a taxa de cesarianas, que continua crescendo. Conseguimos ao menos deixar os médicos envergonhados pelo atendimento insuficiente que oferecem, expondo sua falta de interesse e dedicação à fisiologia do nascimento. Muito há ainda para fazer, e o futuro do parto dependerá de nossa capacidade de indignação.

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Culto

Uma notícia de algumas horas, associada a um editorial claramente reacionário do jornal “O Estado de São Paulo” dá conta de que o escândalo envolvendo as ligações obscenas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro não retirou muitos pontos entre aqueles que pretendiam votar no “mitinho”, o filho do Mito. Percebem o significado dessa posição do eleitorado de extrema direita? Nunca foi contra roubo, corrupção, possíveis conchavos ou a desonestidade com que os bolsonaristas e a direita corporativa acusavam Lula e o PT, mesmo sem apresentar provas e tendo que apelas para um golpe judiciário que envolveu promotores fascistas e um juiz corrupto. O que se vê agora é que, para o eleitor cativo de Bolsonaro, não há problema nenhum em roubar, fazer maracutaias, pedir propina, comprar mais de 100 apartamentos – 51 deles com dinheiro em espécie – ganhando apenas salário de deputado. Tudo isso é permitido, natural e justo, desde que os beneficiários dessas tramoias não sejam do PT.

O inaceitável, para a direita, é um nordestino pobre, migrante e sem dedo se meter a besta e ocupar a presidência de um dos maiores e mais ricos países do mundo, um lugar reservado apenas àqueles do andar de cima da nossa sociedade de classes. O fato de um pernambucano e operário da Villares como o Lula tornar-se representante dos pobres e dos trabalhadores é o que o torna indigno de perdão por parte da burguesia atrasada e corrupta desse país. Por isso a direita perdoa Bolsonaro & Filhos pelos seus crimes e até a roubalheira do Master e Vorcaro, mas jamais aceitará que um retirante como Lula seja o mandatário do país, por mais honesto que ele seja.

Sim, os estrategistas da direita apostam em uma total dissonância cognitiva combinada com uma narrativa messiânica para sabotar o Lula 4. É preciso uma ligação mística, um culto, onde eleitores são tratados como prosélitos de uma religião salvacionista. Por isso que a demonstração da desonestidade essencial de membros da Família Bolsonaro é pouco efetiva para conquistar corações e mentes dos eleitores desse campo. Para derrotar o “mal socialista’, o comunismo, as esquerdas e a perda da “liberdade” que eles representam é possível até fazer um pacto demoníaco e colocar pessoas sabidamente desonestas no poder.

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Arquivado em Causa Operária, Política