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Eu e as Doulas

– Você sabe o que é uma doula?

Sua pergunta era direta e seus olhos verde-água me encaravam com a mesma firmeza doce com que segurava Miguel, seu filho recém-nascido. Poucos dias haviam se passado do nascimento, e ela vinha ao meu consultório para a revisão de rotina. Os desafios daquela gravidez e os mistérios daquele parto haviam me oferecido inúmeros ensinamentos sobre as conexões entre o espírito, a mente, o corpo e suas inúmeras e enigmáticas falas. Quando a pergunta de Cristina me chegou aos ouvidos eu sequer sabia que as grandes transformações ainda estavam para começar…

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Não, eu ainda não sabia o que era uma doula, mas Cristina teve paciência para me explicar o que elas faziam. Falou de Wendy, Klaus e Kennell, Dana Raphael, Penny Simkin. Falou do suporte psicológico, afetivo, emocional, físico e espiritual que elas podiam proporcionar. Falou também dos estudos, da biblioteca Cochrane, e de tantas outras verdades as quais eu desconhecia por completo.

– Eu sou uma doula, Ricardo, continuou ela. E nós vamos trabalhar juntos.

O convite inesperado me acertou em cheio. Sua proposta era simples: referência e contra-referência. Ela me encaminharia pessoas interessadas em um atendimento humanizado ao parto e eu encaminharia a ela gestantes que desejam um acompanhamento de Yoga durante a gestação e que desejam a presença de uma doula no parto. Os partos seriam uma tarefa compartilhada entre nós. Ali começava uma parceria que produziu muitos frutos, mas que também acabou atingindo de forma inquestionável um dos pilares da obstetrícia moderna: o poder sobre o corpo da mulher. O preço a ser pago, sei bem agora, seria o pior possível, e o perdão… impossível.

Nosso trabalho se iniciou de forma tímida, mas tinha uma característica importante: a busca de horizontalidade. Não se tratava de uma “auxiliar de médico” a fazer um trabalho acessório para ajudar o “nosso” trabalho. Não, o trabalho da doula vinha inserido em um outro entendimento da atenção, em que diferentes atores executam funções complementares e de igual importância. A doula fazia o trabalho de preparação física para o desafio do parto, e durante o processo se ocupava de oferecer conforto, confiança, determinação e relaxamento. Depois de cada parto conversávamos para ver os pontos positivos e negativos da nossa atuação, o que poderia ser melhorado e o que poderia ser repetido em novos atendimentos.

Todavia, o primeiro grande assombro do meu trabalho com as doulas não ocorreu pelos partos maravilhosos, pelo choro de felicidade, pela alegria de pais e mães envolvidos em um abraço comovido com sua cria, ainda úmida e quente, embalada nos braços. Não foi pelo clima maravilhoso de sensualidade, de carinho, de proteção e confiança. Não, não foram estas as causas do meu assombro.

Meu primeiro grande susto foi ver uma paciente escrever na internet uma nota sobre um parto que nós tínhamos atendido. Nela se lia, com palavras semelhantes a estas: “Agradeço ao meu marido, minha família, meus amigos e à minha doula. Sem ela eu jamais conseguiria.

A sensação que eu tive foi de espanto. “Como assim sem ela eu não conseguiria? E eu? E a minha arte, meu esforço, minha dedicação, meu talento, meus anos de estudo?” Meus pensamentos incontroláveis eram o suporte da minha indignação, mas era preciso absorver o golpe e tentar entender. Com o passar do tempo consegui compreender que minha irritação se dava por não conseguir admitir nada além de mim mesmo como merecedor de qualquer tipo de elogio pelo nascimento. Minha mente ainda acreditava que eu “fazia” os partos de minhas clientes e, sendo assim, não haveria como alguém querer roubar este corpo e este parto que a mim pertenciam.

Era preciso sair deste lugar, e eu sabia disso. Sem abrir mão da posição de “dono do parto” eu jamais poderia dar um passo adiante. “Humanizar o parto é garantir o protagonismo à mulher“, dizia eu. Se o protagonismo a elas pertence, que disputa é essa que se pode estabelecer entre pessoas alheias ao evento? “Se a posição de coadjuvante não lhe é suportável, esqueça esse ofício“, repetia meu amigo Max. “Médicos, parteiras e doulas não são feitos para brilhar, são feitos para refletir e ampliar a luz que emana de uma mulher parindo“. Aquela era a lição mais dura, a mais difícil, a mais complexa e a mais desafiadora. Descer do pedestal de saber auto erigido sobre o corpo da mulher é terrível. Quando vejo os ataques ferozes de elementos da corporação médica às doulas fica claro para mim que eles são tomados pelo mesmo sentimento que me atingiu ao ler aquela nota, mas sem a fidelidade aos compromissos de equidade, justiça e protagonismo garantido às mulheres aos quais eu me propunha.

Meu trabalho com as doulas foi abrindo um portal que eu jamais teria imaginado. Era como se um aspecto gigantesco, imenso e misterioso do meu trabalho houvesse sido trancafiado por 10 anos e só então pudesses ser aberto. Os aspectos psicológicos, absolutamente negligenciados durante toda a minha formação médica e na residência, finalmente faziam sentido. O enigma da página 138 do livro “Nacimiento Renacido“, de Michel Odent, podia ser desvendado: era essa conexão física, emocional, intensa e profundamente feminina que oportunizava às mulheres percorrer os labirintos obscuros do seu ser feminino com mais confiança. Era essa a parte que me faltava, da qual eu carecia e que as doulas poderiam ajudar, acrescentando a feminilidade e o contato amoroso ao trabalho técnico de médicos e obstetrizes.

Duro reconhecer, mas durante muitos anos eu fui um médico manco, claudicante, que andava me arrastando, sem saber como oferecer uma atenção que contemplasse as reais e profundas necessidades das gestantes e seus parceiros. Foi através das doulas, com sua calma, silêncio, tranquilidade, compaixão e arte que eu aprendi muito sobre os intrincados caminhos da feminilidade. Se o parto verdadeiramente é “uma parte da vida sexual normal de uma mulher” como dizia Odent, então a própria sexualidade feminina se desenrolava diante dos nossos olhos no momento sublime do nascimento, o que nos obrigava a uma atitude de solene admiração e respeito.

As doulas me levaram a uma revolução interna sem precedentes. Com elas percebi que a única posição subjetiva coerente de um médico é a humildade, aliada a compreensão do nascimento como um fenômeno para muito além do que conseguimos atingir com a mera pesquisa biológica e mecânica. Existem segredos ainda reclusos, que precisam ser descobertos, e cabe a nós a coragem de procurá-los. Para as doulas, e para Cristina – minha primeira doula – fica a minha homenagem e os meus agradecimentos eternos.

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Poderes

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“O poder médico, que se expressa através do discurso e da ideologia do risco, assim como as ameaças veladas sobre o bem estar do bebê, têm um poder imenso de convencimento sobre as pacientes, em especial no final de uma gestação, onde as fragilidades e os temores estão à flor da pele. Muito mais do que o sistema de crenças e sua sustentação nas evidências – ou não – os exageros e violências vão ocorrer pela própria imponência da figura do terapeuta sobre o sujeito que sofre no embate transferencial que se estabelece.”

Dimitri Ustalov, “In hoc signo vinces”, ed Pompéia, pag 135

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Parto Adequado

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Fiquei sabendo que 10 mil cesarianas foram evitadas pelo programa “Parto Adequado”, cujo nome foi criado com um único objetivo: tirar o nome “humanização” dos projetos de incentivo ao parto normal. Como sabemos, os médicos sempre se ofenderam com essa palavra (“está nos chamando de desumanos?”). Essa diminuição de cesarianas e a consequente queda nas internações em UTI neonatal parece ser um bom indicador. Entretanto, quando percebemos que são realizadas mais de 1 milhão de cesarianas por ano, esta redução representa menos de 1% de todas as cirurgias realizadas no país.

Claro, o programa não foi aplicado no país inteiro, mas penso que sem mudar o paradigma médico intervencionista pelo modelo de parteria nenhuma mudança significativa e mensurável será percebida em um futuro próximo. Apesar dos resultados aparentemente promissores, o projeto “Parto Adequado” parece querer provar que é possível melhorar o atendimento ao parto dentro do velho paradigma, baseado na intervenção, no médico e no hospital.

Não creio…

A simples diminuição de cesarianas não fará a menor diferença. Estaremos evitando cesarianas a que preço? Podemos acabar trocando altas taxas de cesarianas por partos cheios de intervenções, além de acrescentar riscos decorrentes de uma atenção vaginalista, mas que mantém o mesmo viés centrado na intervenção.

Humanizar o nascimento é bem mais do que trocar um corte em cima por um mais em baixo.

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Acusações

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Eu acredito ser justo que mulheres comentem atendimentos em que se sentiram mal atendidas, lesadas, desrespeitadas etc, inclusive dizendo o nome do profissional quando isso ocorrer em grupos fechados. Por outro lado sou contrário aos linchamento virtuais de profissionais para quem não se dá direito de defesa. Sempre que escuto essas histórias eu digo “é, pode ser, mas gostaria de escutar a outra parte“. Entretanto, nas poucas vezes que isso aconteceu, fiquei impressionado com as diferentes histórias apresentadas quando ambos os lados tem a oportunidade de se expressar .

Um exemplo: Uma apresentadora de TV foi demitida e escreveu uma dura carta acusando os diretores pela sua demissão. Fiquei bravo com eles. Hoje surgiu a versão dos diretores que a demitiram. Fiquei puto com ela. Qual a versão verdadeira?

Toda mãe sabe parir e todo bebê sabe nascer” são tão somente palavras de ordem que fazem sentido no furor do ativismo. Na vida real há problemas, intervenções necessárias, cesarianas e todo tipo de merda possível, que em boa parte das vezes não tem a ver com a violência do profissional, mas com o uso adequado de sua arte para oferecer segurança às mães e aos bebês. Muitas vezes esses pacientes sofrem pela fantasia exagerada que criam sobre seus partos e não por uma real falha do profissional que as atendeu.

Para ser justo é preciso escutar com a razão, e não apenas com o coração.

Entretanto, o que eu afirmo em nada invalida a existência de violência obstétrica, que quanto mais invisível é mais intensa se apresenta. A descrição das pacientes NUNCA deve ser desconsiderada, ao mesmo tempo que não se pode desconsiderar a fala dos profissionais. A experiência nos oferece a oportunidade de entender que um parto não depende apenas dos cuidadores. Eles são uma parte fundamental do processo, mas não podem garantir nenhum resultado. Infelizmente muitas mulheres acreditam que as equipes de atenção humanizada podem solucionar bloqueios de ordem psicológica e emocional, alguns deles com mais de 30 anos de construção.

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Moção de Apoio

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12 de dezembro de 2016 · 17:35

O Ódio ao Parto Domiciliar Planejado

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O parto domiciliar causa tanto ódio, raiva e produz tantos ataques da corporação médica mesmo sendo absolutamente desimportante do ponto de vista estatístico. Ele representa bem menos de 1% dos partos. Por que tanta raiva?

Se a segurança das pacientes fosse o temor, por que se admitem cesarianas a rodo quando sabemos cientificamente que elas multiplicam o risco de morte materna e neonatal, além de elevar exponencialmente os riscos de danos a ambos e produzir custos estratosféricos?

Se a segurança fosse a preocupação por que os hospitais privados não são obrigados a ter anestesistas de plantão exclusivos para a obstetrícia para dar conta de emergências obstétricas? A razão é que não se trata de oferecer segurança, mas de manter “controle”. Em sua casa a mulher está no comando e a corporação patriarcal não pode lhe lançar os olhos. Não se trata de “cuidar melhor”, mas de controlar esta mulher em seu momento mais íntimo. A medicina é um braço do patriarcado, ocupada em conservar e disseminar seus pressupostos. Ela é em essência, conservadora e em oposição aos movimentos que lutam pela liberdade da mulher.

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Aborto Livre

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O STF declara que, em função das iniciativas internacionais das quais o Brasil é signatário, o abortamento até 12 semanas NÃO pode ser considerado crime, pois tal postura ou normativa legal agride o princípio da autonomia. Essa é uma decisão que precisa ser comemorada e sustentada, pois outras instâncias vão tentar destruí-la.

Portanto, o aborto… PODE e DEVE ser debatido em todos os setores da sociedade, em especial na esfera de defesa da autonomia da mulher. Entretanto, por conhecer as características dos movimentos de outros países – em especial dos Estados Unidos – a conjunção das temáticas de aborto descriminalizado e livre e a humanização do Nascimento em um nível institucional tem o potencial de DIVIDIR o movimento. Muitas ativistas da Humanização são contrárias ao aborto – por questões religiosas ou morais – enquanto muitas ativistas pelo aborto não aceitam os postulados da Humanização ou da amamentação.

Se o aborto se tornar uma “pedra fundamental” do movimento de humanização do parto e Nascimento isso pode criar uma dissidência desnecessária e potencialmente destrutiva. Nos Estados Unidos esses assuntos são tratados separadamente exatamente para não criar um obstáculo à união dos ativistas. Pode ser que minha opinião, baseada em minha experiência pessoal, esteja equivocada e que devemos unificar essas lutas, mas ainda não vejo argumentos suficientemente consistentes para me demover da ideia de deixar esses temas separados, para o bem de AMBOS movimentos.

Minha postura sobre isso é clara, cristalina e não dogmática. Posso conversar sobre essas estratégias tomando um cafezinho ou escrevendo um texto, sem problemas. Posso me render a bons argumentos contrários às minhas ideias, mas ainda não ouvi nenhum que seja bom o suficiente. Pessoalmente eu apoio a ambas lutas, mas ainda acho que elas correm melhor separadas, pelas características especiais do aborto e suas conotações morais e religiosas. Sempre haverá intolerância em pautas que despertam tanta paixão.

Eu estou acostumado com isso, por esta razão não transformo esses debates em questões pessoais. A posição do movimento de humanização não precisa ser a minha. Eu apenas falo em meu nome, e como participante do movimento digo abertamente minhas ideias, que jamais podem ser entendidas como posições institucionais, que demandam um debate democrático de seus membros.

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Aborto

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Li a extensa resposta de um rapaz dizendo-se contrário à descriminalização do aborto usando os argumentos que escuto desde a minha juventude, tempo em que até eu militava contra a descriminalização. Entretanto, essa parte do discurso do rapaz me pareceu interessante:

“Eu defendo que o Estado não deve interferir nas liberdades individuais, mas…”

A gente sabe o que vem depois de um “mas” (sou contra o racismo, mas… sou contra o machismo, mas… sou contra homofobia, mas…). No entanto, é tempo de, finalmente, deixar as escolhas da esfera sexual para serem tomadas exclusivamente pelas mulheres. Cada uma que decida sobre seu corpo. Não vamos nos meter mais. Chega. Estamos de acordo no foco central – a não ingerência do estado no corpo da mulher – vamos, então, celebrar essa inédita concordância sobre direitos humanos reprodutivos e sexuais.

Chega de fazer do corpo da mulher um campo de disputas falocráticas. Se o aborto for condenado por algum Deus no juízo final que ELAS se responsabilizem pela condenação ou pelo perdão que receberão d’Ele.

É hora de tirarmos a mão dos ventres alheios.

Por outro lado, não é curioso que dos mesmos grupos que defendem embriões com unhas e dentes surja a expressão “bandido bom é bandido morto”? Pois o fundamentalismo é o traço que une estes posicionamentos. É uma postura que conecta Bolsonaro, Feliciano, Malafaia e outros. E não é coincidência; o fundamentalismo produz este tipo de associação pois é de sua natureza essencializar o mal tirando-lhe o contexto e dominar o corpo das mulheres, tornando-o objeto.

Sair de cima do muro significa pular para um dos lados, e nenhum deles é limpinho. É uma decisão horrível. Minha posição é de que, por questões morais e por crenças pessoais – distantes demais da racionalidade para serem julgadas pela razão – EU jamais faria um aborto ou estimularia um. Mas isso é uma decisão subjetiva, sobre minha prática médica de 34 anos ou sobre as pessoas a quem se poderia porventura influenciar (mulher, namorada, amante, filha, nora, etc). De resto, já que preciso me “sujar” de alguma forma, prefiro sacrificar embriões do que mulheres já feitas, e prefiro apostar que o gozo da autonomia plena terá como consequência uma postura, por parte das mulheres (mas também dos homens), crescentemente responsável sobre seus corpos e sua sexualidade.

Se isso serve de ajuda para quem pensa sobre o tema do aborto ainda lembro como se fosse ontem do discurso inflamado que fiz durante a faculdade de Medicina para companheiros do Projeto Rondon (lembram dele?) contra qualquer lei que liberasse a prática do aborto. Recordo vividamente de todos os argumentos que usei, utilizados com paixão e fervor, para proteger fetos de “mãos assassinas”. Ainda estão claros em meus tímpanos os vazios, a surdez e a incapacidade de reconhecer ou… aceitar os argumentos contrários, em especial os que falavam do sacrifício de vidas maternas. Afinal, para mim elas “apenas pagavam pelo seu egoísmo”.

Foi necessário envelhecer, tornar-me pai, estudar os índices de morte materna e conhecer a vida de verdade que cada uma dessas mulheres tinha antes de enfrentar essa decisão. Só assim pude abrir o coração e mudar para o outro lado. Essa mudança não foi abrupta; foi lenta, gradual, ponderada e serena.

Todavia, enganam-se todos aqueles que pensam que ficar deste lado do muro significa desreconhecer as implicações emocionais e psicológicos desta escolha. Ela continua sendo terrível e dolorosa, mas ainda não vi nenhuma saída mais justa e decente do que oferecer o pleno protagonismo dessas decisões para as próprias mulheres.

Se eu estiver errado em tomar partido dessa forma que seja julgado adequadamente, mas ainda exijo que – por coerência – meus erros sejam apenas meus.

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Manifesto

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Caríssimos amigos

Diante da publicação pelo CRM do meu estado, feita no dia 22/11/2016 no jornal Zero Hora referente à cassação do meu registro médico, gostaria de deixar claro que medidas judiciais estão sendo tomadas para a reversão dessa decisão autoritária, equivocada, violenta e que se choca contra os fatos relacionados com este evento. Este julgamento não se resume a um caso médico; para além das questões clínicas existe uma batalha POLÍTICA envolvendo a disputa entre dois modelos conflitantes. De um lado o paradigma médico que não reconhece as necessidades físicas, psíquicas, emocionais, psicológicas e espirituais das gestantes, considerando o parto um ato que se pareia a qualquer outra intervenção médica, onde o paciente é passivo e o médico o ator principal. De outro lado está o novo modelo, baseado nos direitos humanos reprodutivos e sexuais e que AGREGA ao atendimento seguro a atenção centrada na mulher, reconhecendo seus direitos e seus desejos em relação ao nascimento de seus filhos. Desta forma, pretendo demonstrar que este ato inquisitorial se insere em uma longa linha de violências cometidas sobre os profissionais da saúde que se posicionam contrários à violência institucional e que lutam contra o absurdo das cesarianas sem justificativa, as quais são um dos principais problemas de saúde pública no campo do nascimento humano.

1. O objeto dessa punição foi um parto domiciliar atendido há 6 anos passados, e esta é a principal razão da inconformidade do conselho de medicina. Trata-se de uma luta pelo controle da assistência, e não pela sua segurança. O parto ocorreu no domicílio e por razões de segurança o bebê foi transferido para o hospital. O óbito só ocorreu 24 horas depois. O bebê chegou ao hospital em boas condições. Não houve atropelos e nem atitudes precipitadas.

2. O atendimento respeitou os mais rigorosos protocolos europeus de atenção ao parto domiciliar. Infelizmente o CRM do meu estado mantém-se na caça aos profissionais que atendem parto fora do hospital, imaginando com isso poder atingir o soberano direito das mulheres de escolher o lugar de nascimento de seus filhos. A punição máxima de exclusão – para muitos juristas inconstitucional e, portanto, ilegal – visa atingir as lutas pela humanização do nascimento, e não é por acaso que o conselheiro responsável pelo julgamento em nível local é um conhecido inimigo feroz das propostas de humanização, do trabalho autônomo de doulas e enfermeiras obstetras e um defensor do modelo tecnocrático de atenção ao parto. A punição visa atingir não apenas o profissional, mas suas ideias e sua luta contra a violência obstétrica e o abuso de cesarianas em nosso meio. “Se não há como atingir a mensagem, atinja-se o mensageiro”. A mensagem da humanização do nascimento e da atenção domiciliar ao parto estão embasadas em evidências científicas e pelas próprias rotinas preconizadas pelo Ministério da Saúde do Brasil. Negar – ou constranger – aos pacientes este tipo de escolha ameaçando médicos é uma atitude medieval que precisa ser combatida. Não é por acaso que a atenção domiciliar ao parto planejado faz parte das políticas PÚBLICAS na Inglaterra e Holanda, e o são porque estão embasadas em pesquisas muito sérias que atestam sua segurança.

3. O julgamento em questão faz parte de uma série de outros eventos de constrangimento e agressão por parte de diversos conselhos de medicina, e não apenas contra a minha pessoa. Podemos lembrar das agressões a um colega de São Paulo que ousou falar do parto domiciliar planejado, como alternativa válida quando observados critérios rígidos de segurança em rede aberta de TV, no programa Fantástico da Rede Globo. Tal fato mobilizou mais de 5 mil ativistas por todo o país numa manifestação de dois dias e em 31 cidades brasileiras no ano de 2012. Podemos citar as ameaças e o “bullying” sofrido por colegas de Pernambuco por atender partos no quarto da maternidade de um hospital. Podemos citar a perseguição que sofri há 16 anos ao atender um caso de Embolia Aguda por Líquido Amniótico (uma doença impossível de prever ou prevenir) cuja paciente veio a óbito por ter se contaminado por varicela pelas visitas que recebeu na UTI de um hospital luxuoso da cidade. Apesar da escandalosa falha de segurança no hospital o conselho de Medicina do RS resolveu estabelecer que a culpa pela tragédia era do obstetra, por ser um incentivador dos partos normais (esta decisão foi drasticamente atenuada pelos conselheiros nacionais). Esse caso, por si só, mostra o nível em que a cegueira ideológica pode levar. Podemos falar também da colega obstetra que está sendo agora mesmo perseguida em Campinas, suspensa de suas funções, apenas por ser incentivadora de partos vaginais, posicionar-se contra a barbárie das cesarianas e trabalhar com o auxílio de doulas (auxílio este também respaldado pelas evidências científicas). Podemos falar dos colegas de Santa Catarina que sofrem perseguições por atenderem de forma cuidadosa e amorosa. A absurda proibição de atender pacientes egressas de Casas de Parto no Rio de Janeiro, assim como o ataque sistemático pelo conselho de lá ao trabalho das doulas é outra prova do caráter agressivo dos representantes da corporação. Outro caso no Rio de Janeiro, onde um colega recebeu uma punição máxima (posteriormente atenuada) por ser defensor e ativista pelas casas de parto, também não pode ser esquecido.

4. Os casos acima deixam claro que não se trata de um médico sendo acusado pelo óbito de um bebê: trata-se de um movimento de REAÇÃO de setores conservadores da medicina que se negam a enxergar a crise ética que se abate sobre a corporação. É a tentativa de negar direitos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, apresentando estudos enviesados e publicados apenas em lugares onde a corporação médica e as companhias de seguro criminalizam o parto domiciliar. Os grandes estudos com adequada seleção, de caráter prospectivo e com grande abrangência são muito claros ao assegurar a qualidade e a segurança dos partos domiciliares planejados, e por isso mesmo países democráticos e progressistas adotam essa modalidade de atenção no próprio serviço público.

5. As alegações do CRM a respeito da não realização de prontuário são evidentemente falsas. O prontuário de pré-natal está absolutamente completo e com todas as informações pertinentes para o caso. O partograma foi realizado e entregue para o CRM, mas não foi aceito pelo conselheiro porque estava sem a assinatura. O partograma utilizado é o mesmo que consta na pasta do hospital onde eu atendia na época, e nele não consta lugar para assinatura. Fosse levada a sério essa negativa e todos os médicos que atenderam pacientes naquela época deveriam ser punidos. Essa negativa de aceitar o documento entregue apenas demonstra a má vontade do conselheiro em tratar com justiça um adversário no terreno das ideias e um crítico feroz da violência obstétrica e do abuso de cesarianas.

6. Para finalizar quero deixar claro que as medidas judiciais para a anulação deste julgamento estão sendo tomadas e serão informadas em breve. Não podemos admitir no Brasil mais um triste exemplo de “justiça dos inimigos”, onde pessoas explicitamente inimigas no terreno das ideias julgam de forma absolutamente facciosa seus colegas que se situam no campo oposto. Não se pode admitir que pessoas sem a mínima isenção sejam capazes de fazer justiça – que necessita de equidistância e equilíbrio para a sua execução. O movimento de humanização do nascimento e as críticas à violência obstétrica e aos abusos inaceitáveis de cesarianas não vão silenciar por este tipo de atrocidade. Os responsáveis pelo atual descalabro de termos 57% de cesarianas no Brasil e 85% de cesarianas na classe média não deixam dúvidas da crise SEVERA de valores pela qual passa a atenção ao parto. Não apenas as cesarianas, mas as múltiplas intervenções desnecessárias e perigosas, além da abordagem anacrônica – segundo as evidencias mais atuais – configuram uma tensão sem precedentes. O modelo centrado na figura do médico – especialista em intervenções – e afastado do modelo europeu centrado nas enfermeiras obstetras e obstetrizes – especialistas no cuidado – estão na gênese dessa tragédia. Infelizmente os conselheiros dos conselhos de medicina preferem atacar as vozes dissidentes ao invés de estimular uma profunda autocrítica aos rumos do trabalho médico, em especial na atenção ao nascimento humano.

É triste observar que após 34 anos atendendo mais de dois mil partos um médico seja excluído por um caso em que sua ação não foi equivocada e muito menos dolosa, mas que resultou num resultado negativo. É nefasto para a medicina criar um clima de medo e angústia entre os cuidadores do parto quando, por questões de ordem política e ideológica, uma fatalidade pode ser usada para obstruir uma carreira e atacar um profissional. Neste exato momento estou na China, desenvolvendo projetos abrangentes de treinamento de profissionais da atenção ao parto em grandes conglomerados hospitalares, mas agradeço a solidariedade que recebi de centenas de colegas e ativistas do parto humanizado que reconheceram nesta agressão um ataque direto aos nossos postulados e à nossa luta. A dignificação da mulher em seu momento mais sublime não será interrompida por atos inquisitoriais como este. Seguimos de cabeça erguida e em frente.

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Periferias

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Durante uma palestra  na UFBA em 2002, fui interrompido pela pergunta de uma mulher negra sentada na última fileira do amplo auditório. Naquela oportunidade estávamos, eu e Robbie, palestrando sobre a humanização do nascimento na capital da Bahia. Disse ela:

“Dr, é muito bonito o seu relato das transformações no parto que ocorrem impulsionadas pelas redes sociais, mas minha pergunta simples é a seguinte: essas vantagens inquestionáveis do parto humanizado são para uma casta de mulheres de classe média que tem tempo e dinheiro para navegar na Internet ou ela também vai atingir a mulher negra e pobre da periferia de Salvador?”

Foi um soco no estômago. Por uma fração de segundos cheguei a me irritar com a contundência impertinente da pergunta, mas imediatamente percebi que ela estava coberta de razão. Minha resposta foi igualmente seca e direta:

– Se este movimento é para ser uma “moda” para pessoas de classe alta, mulheres burguesas ou de classe média, não precisava nem ter começado. Ou este movimento de resgate do parto que humaniza sua atenção e sua abordagem, se estende a TODAS as mulheres, de qualquer classe social ou extrato econômico, ou ele vai desaparecer naturalmente como uma quimera, algo que serviu apenas a um contexto passageiro e que não sobreviveu ao teste do tempo.

A migração da humanização do nascimento para o serviço público e o SUS é o caminho natural dessa revolução. As experiências exitosas do Sofia Feldman, Hospital Conceição, Sapopemba, Davi Capistrano no Realengo, Casa Ângela entre outros, mostra que o caminho é a disseminação da mensagem para toda a população. Quem viver verá: o que hoje parece um sonho em pouco tempo se tornará realidade.

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