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Doulas Gourmet

O projeto de gourmetização das doulas não ajuda as doulas, mas auxilia as instituições no seu projeto de restringir ao máximo a sua atuação. É o projeto dos sonhos da corporação médica e dos hospitais privados, e carrega em seu bojo um problema gravíssimo: ele dificulta as doulas pobres, de comunidades distantes e sem educação formal a dar assistência às suas irmãs, vizinhas, amigas e clientes.

Por que deveríamos impedir uma doula sem instrução formal – inclusive analfabeta – de atuar? Por que restringir o acesso à essa função para todas as mulheres que não tem um diploma de segundo grau? No Brasil apenas 51% das mulheres com mais de 18 anos completam o ensino médio (homens 46%). Essa medida por si só já corta pela metade o número de mulheres que poderiam ser doulas. A quem tal restrição interessa?

Já pensaram se fosse exigido de cozinheiras, diaristas ou balconistas o ensino médio completo? Já perguntaram porque nunca alguém teve essa ideia para as outras profissões, mas decidiram que, para as doulas, essa certificação seria mandatória? Conseguem perceber o interesse das corporações em atingir o coração do movimento? Por que as doulas, mas não o porteiro do prédio, precisa esse grau de educação?

Claro… como sempre nos preocupamos com a classe média, com os pacientes mais abonados, com a performance de doulas em hospitais privados e sofisticados, enquanto o Brasil profundo, preto e pobre se mantém esquecido. A gentrificação desse movimento é um passo firme na direção da sua destruição, ao eliminar do cenário de atuação a sua base popular e laica.

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Lei das doulas

Parece que hoje, 16 de março de 2022, foi aprovada uma “Lei Nacional de Doulas”. Ainda não pude ler a lei – e a regulamentação que a acompanha – mas este parece ser um capítulo muito importante e significativo de uma luta que algumas doulas empreenderam no sentido do reconhecimento e da certificação das doulas em nível nacional.

Pelo que eu pude entender nas informações que me foram passadas, a nova “lei das doulas” determina uma formação mínima de 180 horas, e conclusão do ensino médio, e este para mim é o ponto crucial, porque estabelece um ponto de corte; depois disso, nada será como antes. Ainda não tenho conhecimento de como se pretende estabelecer o currículo para esses cursos de 180 horas, mas posso apostar como haverá aula de “feminismo”, “diversidade”, “direitos da mulher”, “violência de gênero”, “anatomia”, “fisiologia” e o escambau. Pelo que eu pude captar no Encontro Nacional de Doulas, realizado há alguns anos, a grade curricular destes cursos alargados deverá seguir por esse caminho, formando “doulas feministas”.

Entretanto, se colocaram na letra da lei as horas indispensáveis para um curso, por certo que por para além disso vão criar a necessidade de um certificado, depois um conselho autorizado a oferecer esta certidão e, por fim, vão proibir que doulas não registradas auxiliarem no atendimento às gestantes. As portas dos hospitais (parto domiciliar é outra realidade) se fecharão para quem não tiver a “carteirinha”.

Os ideólogos dessa profissionalização acabaram criando uma função – ou uma profissão – inserida na área médica; uma auxiliar de parto, formada e certificada. O que era uma grande virtude da doula – ser uma mulher tanto quanto a mulher que ela atendia – vai deixar de existir. Doulas serão técnicas, auxiliando o serviço médico do parto. Por certo que esta modificação na essência e na natureza das doulas vai enriquecer grupos que investem nesses cursos longos, mas a certamente a abrangência e a pervasividade dos cursos vai cair.

Pergunto: quem terá dinheiro para pagar cursos de 180 horas? E como vai acontecer com as doulas pobres? E as doulas analfabetas, ou com educação formal rudimentar? E a comadre que acompanha sua vizinha no interior e atua nessa função? Como vamos oferecer assistência de doulas para mulheres dos rincões afastados do país e que não tem condições para fazer um curso que – em última análise – pouco vai acrescentar para uma tarefa de dar suporte às necessidades básicas das gestantes?

Essa regulamentação parece servir ao que os médicos sempre desejaram. Agora vão parar de entrar mulheres “desqualificadas” nas maternidades, segurando suas “bolas de ginástica”, colocando incenso, com CDs da Enya dentro da bolsa. A partir de agora só vão entrar doulas formadas, com diploma e carteira do Conselho. Os médicos, por certo, devem estar comemorando.

A imagem que tínhamos das doulas ficará no passado. Caso isso se confirmar, acabou o movimento como nós o concebemos até então.

Quando li a notícia vindo pela Internet não pude me furtar de sorrir com uma velha piada que eu sempre contei sobre os “tipos de enfermeiras”. Por muitos anos eu falei das duas modalidades que cruzavam meu caminho: as primeiras são as “enfermeiras de tailleur”, que são enfermeiras chefes, chiques, lindas e arrumadas, executivas de maternidades e CEO de centro obstétrico, vestindo tailleurs que deixariam morrendo de inveja as aeromoças da SwissAir. Estão sempre limpas e falam um português perfeito.

Já as outras, que se contrapõem a estas, são as “enfermeiras de crocs”, desarrumadas, usando roupa de bloco cirúrgico, cabelo preso, sem maquiagem, mal dormidas, estressadas, angustiadas, cansadas ao extremo mas profundamente realizadas com seu trabalho de “chão de fábrica… de bebês”.

Pois agora, no bojo da certificação e da gentrificação das doulas, poderemos conhecer as “doulas de tailleur”, que serão as doulas chiques, com diploma na parede e crachá no peito; doulas com PhD, com anel de formatura e trabalhos publicados em periódicos reconhecidos. E vão chegar no hospital com laquê no cabelo…

Eu acho que muito cedo vamos ter saudade das “doulas roots”. Talvez este tipo de equívoco – no meu ver – seja necessário para que entendamos, finalmente, qual a verdadeira e profunda essência da doulas. Creio que fizemos uma tolice movida pela nossa vaidade, por uma necessidade muito primitiva enraizada na cultura sul-americana de sustentar seu saber – e a autoridade associada a ele – em um documento, um papel. É a nossa fome por “certificados”, que é muito característica dos brasileiros.

Lembro muito bem da vergonha que eu passei em Cleveland quando fiz uma palestra na Case Western Reserve University (em 2003, quando o Dr. John Kennell esteve presente) e pedi para a secretária do departamento de antropologia um “certificado”. Recordo nitidamente seu espanto quando lhe expliquei do que se tratava, e como ela não sabia o que era isso me pediu que a acompanhasse até sua sala para lhe ditar o que precisava escrever no papel. Perguntei para minha amiga Robbie como os americanos colocam essas coisas em um “resume” (currículo) e ela explicou que apenas informava o congresso, o local, data e o título da apresentação; não era necessário comprovar com papelzinho assinado pelo presidente do evento, pois ninguém arriscaria sua credibilidade mentindo ter realizado uma palestra que na verdade não fez.

Quando ela me contou isso me senti um perfeito caipira…

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Lillie Excellence

Muito maravilhoso participar de um painel no Dia Internacional da Mulher com ativistas dos direitos reprodutivos e sexuais de tantos países, em especial da Índia e do Irã, onde a cultura nos parece tão diferente. Entretanto, quando vemos a questão do parto e nascimento percebemos que temos problemas semelhantes na luta pela autonomia das mulheres.

Já dizia Max “O parto é um fenômeno da cultura que ocorre no corpo das mulheres”, mostrando que a nossa relação com o que nos cerca é dialética. “Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito”, diria o mestre de Freiburg, e desta forma o parto é o exato reflexo da cultura onde está inserido. Sociedades violentas vão produzir partos violentos, que estimularão o surgimento de adultos aptos para reproduzir esta violência. O contrário também é verdadeiro: uma cultura de paz e respeito com as mulheres produzirá uma sociedade que cultua seus laços de fraternidade.

Mudar o parto demanda, portanto, transformar o contexto onde ele se insere, mas que melhor maneira para começar essa tarefa senão trazendo mais bebês marcados pelo imprint da dignidade e da humanidade resgatadas? Mudando o parto, mudamos a humanidade, e uma humanidade transformada trará a autonomia e a dignidade para cada nascimento.

Thanks for all my friends in the world conneccted by the passion for birth.

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Idiomas distintos

Os médicos que ultimamente discursam contra o uso do termo “violência obstétrica” tem argumentos que eu consigo entender perfeitamente. Convido a uma reflexão.

Imagine que você passa 30, 40 anos trabalhando apenas em hospitais, atendendo bebês que não conseguem nascer de parto normal, tratando diabéticas, aprendendo sobre as drogas a usar, cuidando de hipertensas, gestações ameaçadas pela pré-eclâmpsia, analisando o melhor momento para intervir, operar, retirar um bebê pela via cirúrgica, depois costurar e aguardar a cicatrização adequada da ferida operatória. E fazer tudo isso com genuíno interesse de cuidar, muitas vezes conseguindo até salvar as vidas em risco.

Não apenas isso, mas há que contabilizar anos de dedicação, aulas na faculdade, provas, estágio, residência. Plantões intermináveis, noites mal dormidas, dedicação absoluta, pagamento escasso, crises familiares, angústia, medo, filhos sem pai ou mãe no aniversário. Estresse.

E aí aparece um monte de mulheres furiosas dizendo que o que você faz é violência obstétrica, como se tudo o que é feito pela medicina fosse carregado de egoísmo e maldade. Como se as ações realizadas não passassem de agressões dissimuladas, e igualmente destrutivas. E as vidas salvas? E os bebês resgatados de uma morte certa? E as mães que sucumbiriam sem esta ajuda?

Tente se colocar dentro dos sapatos dos médicos e andar mil km com deles. Só então poderá entender esta indignação.

Não há como negar esta perspectiva e não é necessário, da mesma forma, pintar os profissionais que atendem parto como seres cruéis e insensíveis. A questão não é moral, é sensorial e sistêmica.

A verdade é que estes velhos obstetras, apesar da idade, jamais se permitiram tocar por um nascimento fora do universo conceitual da biomedicina ocidental. É o único paradigma que lhes foi permitido conhecer. Para eles, parto e nascimento se esgotam no conhecimento técnico, focado na patologia, na figura do profissional médico e encerrado dentro dos hospitais. Carecem eles de uma perspectiva mais sensível e emocional, social e espiritual, psicológica e humana, elementos que compõe a complexidade desse evento. Essa perspectiva complexa e abrangente não é oferecida na escola de Medicina porque se contrapõe à ordem da obstetrícia, a qual se estabelece a partir da defectividade essencial feminina e do imperativo tecnocrático.

Em verdade as pessoas continuam cometendo equívocos mesmo depois de saberem que estão erradas ou ultrapassadas, pois as forças inconscientes que mantém estas condutas são mais fortes do que aquelas que as impelem à mudança. Só a dor produz transformação. Por outro lado, é preciso entender e acolher. Em verdade, creio que fazendo nós mesmos o que exigimos deles será o melhor caminho. Porém, lembre que “entender” não significa “aceitar” ou “concordar”.

Por certo que existe sentido em responsabilizar a Universidade, mas sejamos sinceros; os alunos repetem e incorporam como rotina o que escutam nas aulas ou que observam de seus referenciais profissionais? No meu tempo (espero que seja diferente hoje) os professores davam aulas (via de regra muito ruins) sobre fisiologia de parto e depois traziam pacientes particulares para serem operadas sem qualquer justificativa médica em hospitais públicos no plantão do hospital escola em que fazíamos residência. Todos nós sabíamos que os consultórios privados deles eram uma fábrica de cesarianas. Alguns davam aula e sequer trabalhavam com obstetrícia, mas aceitavam cesarianas com “hora marcada”.

Os alunos aprendem, acima de tudo, pelo exemplo!!! Alguns contratados da residência respondiam com risadas ao comentarem sua prática e diziam de forma cínica “lá fora o mundo não é acadêmico”. Esse exemplo entra direto no coração dos alunos: lutar pelo parto normal é “academicismo”; o mundo real é diferente do que se escuta em aula.

Sei que existem profissionais de qualidade hoje em dia, mas a realidade dos abusos, das múltiplas violências e da epidemia de cesarianas não pode ser encarada como ocasional. Ela é fabricada coletivamente pela cultura, e executada pelos profissionais. Pacientes envolvidos em medo e desinformação produzem médicos amedrontados e que apostam nessa mesma desinformação como forma de proteção. Um círculo vicioso que só se quebra com ação política e informação.

Há muitos anos que não me deixo seduzir pela ilusão de que é possível educar médicos para que tenham uma prática mais baseada em evidências no que diz respeito à obstetrícia. Não há como treinar profissionais durante 9 anos pela ideologia da intervenção e depois solicitar que sua prática se contraponha a isso. Todavia, eu cobro dos médicos pela situação absurda que vivemos, em função de sua posição de autoridade e pelo conhecimento que deveriam ter. Deveria partir dos médicos a reflexão necessária, mas o que fazem? Montam seminários pomposos para combater o termo “violência obstétrica”, ao invés de aceitar as críticas, reconhecer os desvios e lutar por uma reforma obstétrica – a exemplo do que ocorreu com a psiquiatria.

Para estes velhos médicos é incompreensível o que escutam das mulheres, porque jamais conseguiram entender o parto por um viés diferente do que receberam. Trata-se de um debate “lost in translation”; as mulheres exigem ser tratadas como sujeitos e protagonistas de seu destino, mas falam em um idioma que eles não entendem. Para entender essa língua estranha é preciso olhar com outros olhos, mudar a perspectiva, e com isso desafiar todo o seu conhecimento. Esta mudança de postura, desenvolvendo uma forma desafiante de sentir o parto, demanda coragem.

E isso também não se aprende na escola.

A revolução do parto, portanto, não virá de uma melhor compreensão dos médicos sobre o processo de nascimento, e nem de uma obediência rígida aos avanços da ciência por parte deles, no que tange ao respeito à fisiologia do parto. Não, a transformação virá da união da sociedade civil exigindo que a atenção ao parto seja conduzida da melhor forma e pelos melhores profissionais; será, sem dúvida, pela luta das mulheres.

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O Corte

O fato de haver uma parte considerável da população que na terceira década do século XXI ainda debate a necessidade das episiotomias – corte no períneo para alargar o espaço de saída do bebê – dá a exata dimensão da misoginia estrutural da nossa cultura. Esta impressão fica mais intensa quando os próprios profissionais do parto confiam mais na superioridade da técnica do que na ancestral capacidade feminina de parir.

A episiotomia inicialmente proposta por Sir Fielding Ould, em seu livro Treatise of Midwifery in Three Parts, publicado no ano de 1742 na língua inglesa.Entretanto, somente em 1799, Michaelis afirmou ter realizado uma incisão perineal durante o nascimento de um bebê. O termo episiotomia foi criado no ano de 1857 por Carl Von Braun, na Áustria, mas foi tornado popular por Joseph De Lee no início do século XX. A partir do início do século passado o nascimento passou a ser visto como evento perigoso (elevada morbidade e mortalidade materna e perinatal) mas, ao contrário do que acontecia até então, passou a requerer obrigatória assistência médica para prevenir riscos e reduzir morbidade e mortalidade materna e neonatal. A episiotomia se encaixava nesta visão ao oferecer aos médicos o controle sobre o curso do nascimento, garantindo-lhes autoridade e protagonismo.

Todavia, a observação cuidadosa do resultado desta intervenção demonstrou de forma definitiva que ela não oferece o que promete. Não encurta o período expulsivo do parto, não protege o períneo e muito menos produz resultados positivos sobre o bebê, e os estudos sobre a inutilidade das episiotomias foram publicados por Thacker & Banta em 1987, há mais de 30 anos. Assim sendo, como é possível entender que uma intervenção cirúrgica – incapaz de comprovar sua utilidade – manteve-se na prática médica cotidiana por mais de um século? Como pode uma especialidade médica, que se pretende racional e científica, utilizar técnicas sem qualquer evidência científica positiva de seu uso?

Há alguns tomei conhecimento de um vídeo onde professores da Faculdade de Medicina da minha cidade informavam a decisão de realizar um estudo randomizado sobre episiotomias. O antigo professor (e chefe do serviço) argumentava sobre a importância de se realizar uma análise para confirmar – ou não – pesquisas realizados em outros países. Achei surpreendente a decisão porque mais de 30 anos haviam se passado desde as pesquisas conclusivas sobre a ineficácia das episiotomias de rotina. Todavia, ficava claro que havia a esperança de se encontrar algum dado revelador no estudo realizado aqui no canto sul do planeta, além do desejo – inconfesso e inconsciente – de que algo surgisse para que fosse possível manter acesa a tênue chama de sua necessidade.

Em verdade, a falta de crítica sobre os significados últimos dos procedimentos médicos está na origem dessa aparente “curiosidade científica”. A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa a operacionalidade de seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura do patriarcado sobre o corpo da mulher, a chave que abre as portas do nascimento, a assinatura do autor na obra, grafando na carne a autoria de quem, usando os mais claros elementos da “couvade“, expropria o evento de quem realmente o produziu.

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou científicas; em verdade ela teve seu início triunfante por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente, que via na pretensa defectividade essencial das mulheres e seu mecanismo de parto a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. As episiotomias foram a desculpa perfeita para afastar da disputa as parteiras, profissionais que trataram das mulheres durante milênios, oferecendo seu tempo e sua dedicação à arte de cuidá-las. Para tomar posse destes corpos era necessário mostrar o valor das intervenções, sua superioridade e sua eficiência (mesmo que ilusória) e descrever a natureza como vilã traiçoeira, que escolhia as mulheres como suas vítimas contumazes.

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as perspectivas que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos nos últimos 80 séculos. A verdadeira motivação – inconsciente, porém não menos poderosa – para a prática desta cirurgia mutilatória e ritualística da medicina ocidental é a manutenção do controle sobre a sexualidade feminina, pois que ela é essencial para a estrutura social, onde o patriarcado e o capitalismo desempenham a função de estruturas fundamentais para sua sustentação.

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Doulas e Psicanalistas

Sobre a polêmica de cursos de graduação em psicanálise creio que esta discussão é a EXATA reprise de um debate que eu iniciei há mais de 10 anos sobre “cursos de formação de Doulas”, os quais pretendiam sua transformação em profissão regulamentada e desejavam tornar a doula uma “profissional da saúde” – como médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, etc.

Quando me posicionei sobre o tema – fazendo oposição à tentativa de encaixar as doulas no nosso modelo acadêmico e trabalhista – fui atacado, xingando, cancelado e tratado como “traidor”. Claro, ainda tive que escutar o famoso “lugar de fala”, mesmo que eu estivesse presente desde os primeiros cursos de capacitação de doulas no Brasil. Mas isso não foi suficiente para me fazer mudar de opinião.

Agora o debate é sobre um ramo centenário do conhecimento humano, a psicanálise. Entretanto, percebi que os argumentos que sustentam a ideia dos “Cursos de Graduação em Psicanálise” visando uma formação acadêmica na área tem os mesmo problemas estruturais que eu questionava na formação de Doulas. Tomo aqui emprestadas as palavras de Diogo Fagundes em um texto que circula na internet sobre a “domesticação” da psicanálise, mudando apenas o campo ao qual ele se refere.

“Graduação em Doulagem oferecida pelo Estado – ou pior, empresas de educação privada visando lucro – é algo análogo à possibilidade hipotética de graduação em marxismo. Faz sentido haver escolas de doulas (aliás, desejo muito isto) associadas a organizações ligadas à humanização do nascimento, grupos de mulheres ou clubes de mães, mas não cursos de graduação estabelecidos pelo Estado ou proprietários privados em busca de dinheiro fácil.

Ambos – doulas e psicanalistas – são formas de pensamento implicados na construção de um sujeito não necessariamente ligados ao que Lacan chama de “discurso da universidade” – não à toa o francês recusou chefiar o departamento de psicanálise (o primeiro da França) quando convidado por Foucault na criação da Paris VIII.

Na prática, vai haver um monte de biboca de esquina transformando o trabalho das doulas em “coaching de gestação”, autoajuda e coisas do gênero. Entretanto, a formação não pode prescindir de habilidades humanas e acompanhamento pessoal, uma experiência subjetiva complexa não balizada por prazos e exercícios determinados burocraticamente.”

Como pode ser visto, a mesma ideia de criar cursos de formação em psicanálise ou formação de doulas esbarra no fato de que ambas as funções sociais não são aprendidas exclusivamente nos bancos escolares mas pressupõe uma vivência no trabalho direto com os clientes, um mergulho na subjetividade destes, um aprendizado que surge do atrito com a infinita diversidade dos clientes, a alegria e o sofrimento com as vitórias e frustrações que esta função nos impõe. A academia e seus diplomas são incapazes de fornecer este tipo de construção, o qual não pode ser delimitada no tempo ou na carga teórica de conhecimento oferecida.

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Fé cega

É impressionante a confiança que as pessoas depositam na indústria farmacêutica. Essa fé cega se mantém mesmo depois de tantos escândalos que vem à tona diariamente, mostrando a forma como esta indústria manipula consciências, suborna autoridades da área de fiscalização e controle, falseia estudos, esconde resultados negativos e hipnotiza a comunidade médica com propagandas e propinas para que receitem suas drogas, tratamentos e maquinário diagnóstico. Ainda mais chocante é ver entre os defensores dessa máquina gigantesca pessoas que se consideram de esquerda, as quais deveriam cultivar um saudável ceticismo e uma postura crítica diante dessas empresas. Basta uma simples pesquisa sobre o relacionamento da “BigPharma” com as agências reguladoras – em especial no centro do Império, como o FDA e o CDC – para perceber a promiscuidade escandalosa entre o grande capital e as instituições ligadas ao Estado que deveriam proteger a saúde dos cidadãos. É um absurdo sem precedentes, um escárnio com os preceitos éticos e, por essa razão, pessoas como Márcia Angell (New England Journal of Medicine) e Peter Gotzsche (Biblioteca Cochrane) declaram não ter qualquer confiança nessas empresas, as quais eles chamam impiedosamente de “máfia das drogas”.

“Percebi que nossas drogas prescritas são a 3ª causa de morte – após doenças do coração e câncer. Tais drogas matam 200 MIL pessoas nos EUA a cada ano, e metade dessas mortes ocorre em pessoas que fizeram exatamente o que os médicos pediram a elas. A outra metade morre por causa de erros . [Médicos] dão aos pacientes drogas que não deviam ser dadas. Muito do que a indústria farmacêutica faz preenche os critérios para crime organizado nos EUA. Eles se comportam, de muitas maneiras, como a Máfia. A Indústria Farmacêutica compra primeiro os professores, depois os chefes de departamento, e então outros médicos chefes e assim por diante. Nossos cidadãos estariam muito melhores se todas as drogas psicotrópicas fossem retiradas do mercado, exatamente porque os médicos são incapazes de lidar com elas. É inevitável que a sua disponibilidade produz mais mal do que bem.” (Peter Gotzsche – Cochrane Collaboration)

A ciência aqui, desgraçadamente até na esquerda, se expressa como um culto, uma fé, e seus prepostos se apresentam como intermediários da sua verdade. Ter fé na ciência é o oposto do que ela própria apregoa, e tratar como hereges aqueles que ousam fazer perguntas é exatamente o que se espera de uma religião fundamentalista. É da essência da ciência que ela seja questionada, desafiada, pressionada e jamais tomada como verdade. É absurdo o clamor popular que diz “Eu creio na Ciência”, mas talvez esta expressão seja mais reveladora do que pensamos; nossa conexão com ela é muito mais mística e afetiva do que fria e isenta. A forma apaixonada como nos relacionamos com as vacinas da última epidemia é pedagógica: muito mais do que uma análise fria e objetiva sobre resultados, eficiência, eficácia, impacto, efeitos nocivos, custos etc. criamos uma linha divisória entre “cientistas” e “negacionistas”, obrigando os profissionais a escolher um lado onde se situar muito mais pelo julgamento dos seus pares do que pelas evidências que são capazes de avaliar.

“Simplesmente não é mais possível acreditar em muito do que é publicado pelas pesquisas clínicas, nem acreditar no julgamento de médicos confiáveis ou em protocolos médicos autoritativos. Não tenho prazer nenhum nesta conclusão, a qual alcancei de forma lenta e relutante após duas décadas como editora do “New England Journal of Medicine”. (Martha Angell)

Os psicólogos reconhecem que nossa fixação na utilização de drogas – cada vez mais sofisticadas e caras – é baseada em nossa tendência a inferir causalidade onde não existe, uma espécie de “ilusão de controle”. Na medicina, pode ser chamada de “ilusão terapêutica” Quando os médicos acreditam que suas ações ou ferramentas são mais eficazes do que realmente são, através da propaganda incessante por parte dos laboratórios multinacionais, os resultados podem ser cuidados desnecessários e dispendiosos”. Citando Marco Bobbio, um dos principais pensadores da corrente médica “Slow Medicine”, trata-se de “desperdício, inadequação, conflitos de interesse e modelos que induzem profissionais e pacientes a consumir mais e mais serviços de saúde na ilusão de que é sempre melhor fazer mais para melhorar a saúde”.

Enquanto o capitalismo lucrar com a doença – ou mesmo a mera possibilidade de adoecimento – das pessoas, nunca haverá um atendimento à saúde verdadeiramente livre de pressões. Muitos ainda acham que devemos aceitar cegamente o que essa “ciência” determina, como se a pesquisa médica inserida no capitalismo fosse um saber puro derivado de pesquisas isentas, controlada por querubins e serafins. Quando vejo os anúncios do FDA sobre efetividade e segurança de novas (e caríssimas) drogas eu lembro da expressão inglesa “gardyloo“, derivada da fala francesa usada quando excrementos eram jogados na calçada: “Regardez l’eau!!!”.

No latim clássico seria: “Cuidado c’a bosta!!!!”

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Ciência e Ideologia

Não é raro ver pessoas reclamando que o debate da ciência agora está politizado – e até partidarizado – exaltando ideologias em detrimento da “objetividade” da ciência positiva. Correntes filosóficas e perspectivas diversas estariam tomando o lugar outrora ocupado por experimentos, estudos, gráficos, números e estatísticas. Entretanto, a ideia de uma ciência isenta sempre me pareceu tão ingênua quanto um sistema judiciário ou um jornalismo que pudessem funcionar com isenção em suas específicas atividades. Creio ainda que, aqueles que acreditam numa suposta isenção da ciência apenas ignoram a influência do mundo, da cultura, dos contextos e das circunstâncias que influenciam os pesquisadores diante da tarefa de pensar e de analisar problemas científicos.

Para estes que proclamam uma perspectiva positivista para a ciência eu tenho uma pergunta honesta de alguém descrente das análises isentas e desapaixonadas: onde está a objetividade da ciência para o tratamento da tuberculose, que todos os anos mata milhões de pobres distribuídos pelos bolsões de miséria da África? Onde está a frieza científica quando milhões sucumbem à malária, à diarreia por desmame precoce, à fome endêmica, à pneumonia, à hipertensão? Mais ainda, onde está a força das verdades científicas para mudar o curso da epidemia de cesarianas? Por que não há para estas doenças a mesma mobilização que ora vemos para a Covid19, que matará muito menos do que estas nossas velhas conhecidas? Se aplicássemos um critério tão somente baseado em resultados – quantas vidas seriam salvas, quantos recursos alocados, qual a aplicabilidade e qual o impacto na saúde global – a ciência contemporânea estaria muito mais focada em água tratada, erradicação da fome, miséria absoluta, fontes de energia, tratamento de verminoses etc. e muito menos em medicamentos para queda de cabelo ou doenças raras – que não por acaso tem impacto desprezível, mas são áreas altamente rentáveis.

É preciso ver quem controla a ciência médica. Quem paga seus custos? Quem a financia? Hoje fica fácil perceber que basta uma doença ameaçar brancos e sujeitos da classe média dos países ocidentais para a nossa sociedade se erguer e exigir medidas tecnológicas imediatas, como vacinas e novas drogas, mobilizando recursos aos milhões nas pesquisas, logística e manufatura de medicamentos. Foi assim com a Aids e está sendo o mesmo agora com a Covid19. Nossa ciência não poderia se expressar fora do seu contexto histórico, e por isso ela reproduz os modelos de opressão e desequilíbrio vigentes no planeta.

Da mesma forma a tortura nos afeta: nos escandalizamos (e com justiça) pelas torturas cometidas pela ditadura militar contra políticos, jovens militantes, mulheres e professores, mas ainda temos dificuldade de nos mobilizar quando a vítima é preta e pobre e meliante. Essa escolha é ideológica. Na guerra da Ucrânia sentimos muito pelo sofrimento das crianças loiras de comercial de talco, mas não conseguimos nos identificar com a miséria causada pelas guerras coloniais e derivadas da ganância capitalista na África, quando as vítimas são esquálidas e desumanizadas.

A ciência é – e sempre foi – ideológica. A simples escolha do que será investigado já é uma opção mediada pelos valores nos quais estamos inseridos. A isenção que se pede à ciência é falsa ou mentirosa. Quando nos envolvemos com a pesquisa e a descoberta de tratamentos para uma doença – e desconsideramos centenas de outras – nossa escolha já está impregnada de ideologia, inobstante ser consciente ou não. E quem tiver o poder de tomar decisões o fará baseado nos valores que lhe afetam diretamente, e não necessariamente pelo que atinge e ameaça a maioria das pessoas.

Há muitos anos escutei de um conselheiro do CRM uma frase cuja tolice marcante nunca consegui esquecer. Dizia ele para uma plateia de iguais: “Não existe ideologia na medicina, apenas boas e más práticas”. Para dizer isso era preciso negar a realidade que nos atropela: “a isenção da ciência só seria possível se os cientistas deixassem de ser… humanos”. Ignorar o mar de significantes que nos envolve invocando uma objetividade ilusória é uma enfermidade que ataca muitos pseudocientistas. Freud já nos explicava há mais de um século: “Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito”, e isso demonstra que que a o circuito simbólico que nos enlaça acaba por pautar as decisões e o próprio pensamento. Assim, o oceano de conceitos à nossa volta escolhe por nós o que pesquisar e como tratar as doenças.

O que precisamos não é da ilusão de uma “ciência isenta”, mas sim de uma ciência democrática, onde as escolhas da ciência sejam tomadas em benefício da maioria e não para proteger o capital e quem o controla. É necessário que a ciência não mais esteja a reboque das forças do capital, mas que esteja nas mãos do povo para que ele possa decidir as prioridades de forma livre, e não pela imposição do lucro e do poder.

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Punições

Pessoalmente, não vejo punição maior do que a que já foi feita, e não vejo valor algum em punir esse sujeito para além disso. O mesmo eu disse para o jovem médico que fez piadinhas indecentes para uma garota no Egito. Ambos sucumbiram à mesma cilada na qual tantos tropeçam: um brutal sentido de “entitlement” (qual a melhor tradução?), a ideia de que sua posição “superior” lhes permitiria fazer qualquer coisa, dizer qualquer bobagem, no limite do desrespeito e da humilhação. Afinal, quem ousaria enfrentá-los? Quem apontaria o dedo para um ídolo, um exemplo de sucesso e excelência? Quem se atreveria?

Infelizmente eles não percebem que as luzes da ribalta, de tão intensas, produzem uma sombra muito escura. Nesta sombra se acumulam sentimentos pesados que estes personagens carregam por onde vão, a segui-los impiedosamente, na espreita do momento em que a luz se apagará, quanto então a escuridão tomara conta de todo o espaço. Augusto dos Anjos já nos dizia:

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Mal sabiam eles que a admiração e a adulação cobram um alto preço. Nenhum amor é oferecido sem contrapartida. Uma vez que se desfazem as capas da idolatria resta apenas o buraco de um afeto sem resposta, e a cobrança será inevitavelmente dura. Espero sinceramente que eles tenham recebido o golpe e feito um bom uso dele. Muitas vezes tais impactos produzem apenas dor, indignação, sofrimento, tristeza e depressão. Porém, em outras oportunidades elas podem deflagrar o parto de um novo sujeito, que só pôde nascer através da dolorosa contração de uma queda narcísica. Espero que a árdua lição os faça transformar, e que seu trabalho siga em um novo patamar.

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A Essência do Parto

O caso da influencer que teve sua história exposta pela mídia a partir das queixas que ela fez sobre o atendimento grosseiro que recebeu durante o parto dominou os noticiários por algumas semanas e suscitou alguns debates interessantes sobre os limites da atuação médica. Por outro lado também acabou produzindo um efeito catártico, servindo para o deságue de mágoas e ressentimentos de muitas pessoas que reviveram violências sofridas no passado. O fato também possui um aspecto deletério para a cultura do parto: continuamos a mostrar o nascimento como cenário de guerra, local de gritaria, abusos, invasões da privacidade, intervenções descabidas e exercício exagerado de poder. Acredito que o debate sobre estas múltiplas violências – mais do que o ataque a profissionais – deve vir acompanhado de um esclarecimento de que a assistência ao parto não precisa ser assim e que esta não é a essência do parto. Colocar toda a nossa energia em ataques pessoais (mesmo que compreensíveis) ajuda muito pouco, quando é a própria a estrutura viciosa da atenção que produz esse tipo de problema.

O que temos é um problema sistêmico de violência ao parto, e não a sequência de “fatos isolados” que se acumulam. Tal como os tiroteios americanos que se sucedem de forma macabra, não é a caça aos degenerados que fará o problema desaparecer, mas quando a sociedade perceber que eles são consequência, e não origem, do problema estrutural da sociedade capitalista e individualista. Da mesma forma, o que testemunhamos hoje nada mais é do que a “degenerescência da assistência”, causada pela falha do sistema médico das sociedades ocidentais de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, emocionais, sociais e espirituais do parto e nascimento. Esse evento foi violentado em nossa cultura, afastado de sua essência de cuidado, jogado na lógica da intervenção e da patologia, controlado por cirurgiões treinados na intervenção e gerenciado por interesses capitalistas. Como poderia um projeto como esse prosperar sem a criação de um clima artificial de pânico a lhe envolver, fazendo desse medo a base ideológica de tanta submissão e – como consequência – tantos abusos?

Praticamente tudo o que se vê na atenção ao parto – do local do parto aos procedimentos, passando pelo local de nascer e pelos acompanhantes – é artificial e ideológico. Quase nada (com raras e notáveis exceções) está baseado em evidências científicas sólidas. Entretanto, a encenação de um nascimento segue um roteiro bem estabelecido de submissão e poder, que obedece a um ordenamento opressivo sobre as mulheres – tratadas como contêineres fetais, e seus bebês – vistos como o produtos da cultura.

Há poucos dias um casal amigo planejou um parto hospitalar, mas o bebê nasceu muito rápido e acabou chegando a este mundo pelas mãos das parteiras que os acompanhavam em casa. Decidiriam ir ao hospital conforme combinado para terminar a avaliação, e lá foram tratados com atitudes típicas de retaliação por alguns profissionais, motivadas pela “ofensa” de permitir a um bebê nascer em sua própria casa. Na saída do hospital o casal me confidenciou: “o saldo foi positivo, pois só uma médica plantonista e uma enfermeira chefe foram “terroristas” conosco. Os outros foram bem gentis e educados”.

Ainda acho que somos demasiado condescendentes com este tipo de violência, tão comum quanto disseminada. Aceitamos um mínimo de dignidade como se fosse um presente e ainda engolimos sapos para não criar confusão. Estamos inseridos em uma sociedade onde questionar o poder abusivo é visto como “desacato”, como atitude de enfrentamento e comportamento não colaborativo. Somos doutrinados a naturalizar ações agressivas por parte de equipes médicas pela crença de que “é para o nosso próprio bem”. Não, não é em nosso benefício; é apenas para manter os pacientes dóceis e submissos às ordenações criadas para facilitar a vida e os ganhos de profissionais e instituições. A própria existência de abusos na indicação de cesarianas é a prova de que existe uma tendência de que as ações nos hospitais sejam conduzidas no sentido de proteger a ação dos profissionais e dos hospitais, e não no benefício primordial de mães e bebês.

Ainda assim, mais do que fazer justiça, é fundamental ampliar o debate sobre os descaminhos da assistência ao parto através das críticas aos seus fundamentos e sua conexão com a visão alienante do modelo patriarcal que visa o controle da sexualidade feminina em todos os seus aspectos. Para revolucionar a assistência ao parto e nascimento é essencial desconstruir a visão centenária do parto como “ato médico” e reconstruí-la através de uma visão transdisciplinar, integrativa e baseada em evidências científicas consistentes.

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