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O Mínimo

No grupo que participo sobre “Minimalismo” o pessoal insiste em fazer perguntas ao estilo “ter carro novo é contra o minimalismo?”, “posso ter ar condicionado?”, “comprar IPhone é contra os ideais minimalistas?” Fazem estas perguntas como se minimalismo fosse uma religião, para a qual questionam seus “dogmas”, como quem pergunta ao padre se “flertar na Igreja é pecado“. No fundo estão atrás de ideologias e líderes para seguir, já que decidir por si mesmo implica muita responsabilidade.

Minimalismo é essencialmente uma atitude e uma proposta de vida. Não tem regras, mas princípios. Parte da ideia da otimização dos recursos do planeta, para não gastamos mais do que necessitamos, deixando os outros em falta. É um estímulo à solidariedade entre os povos. Porém, é mais do que isso: em um planeta de recursos limitados o minimalismo é uma proposta de sobrevivência global.

Também significa retirar dos objetos uma parte do desejo que os contamina, tentando fazer da obtenção das coisas uma ação mais racional, mais útil e menos perdulária, questionando nosso egoísmo e nossa propensão acumulativa.

Sem regras rígidas, sem catecismo, sem culpas, sem cobranças, apenas olhando as necessidades acima dos desejos.

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Dores e sons

Essa imagem é de um debate ocorrido em um grupo de Whatsapp – de esquerda!! – a respeito de um artigo que escrevi sobre a necessidade dos partidos marxistas se engajarem na luta pela humanização do nascimento e pelo fim da violência obstétrica, mas se afastando dos discursos identitários de viés individualista.

O primeiro comentário diz respeito ao aborto, mas fala que assim como ele a cesariana também não é crime. Bem, do ponto de vista da humanização do nascimento a cesariana é uma cirurgia maravilhosa e capaz de salvar vidas. Todavia, isso apenas ocorre quando esta cirurgia de grande porte é bem indicada, sem os abusos que presenciamos cotidianamente quando seu uso ocorre para satisfazer as necessidades dos profissionais e das instituições – e não das mães e dos seus bebês. Criticar o abuso de cesarianas não significa desmerecer sua importância e validade. Parece incrível ainda ser necessária oferecer este tipo de explicação.

O segundo comentário – que elogia a anestesia – é uma visão largamente disseminada na cultura ocidental. Desde o dia 16 de outubro de 1886, quando John Collins Warren – o velho e empertigado cirurgião – retirou um tumor da boca de Gilbert Abbot sob anestesia por éter sulfúrico, conduzida por um tal Thomas Green Morton, que a humanidade exalta a possibilidade do uso das drogas para exterminar o sofrimento e as dores. Nada mais justo este entusiasmo, visto que desde a aurora da humanidade a dor nos acompanha como sombra mórbida a nos fustigar e torturar.

Todavia, do entusiasmo inicial e o nascimento da moderna cirurgia, vieram também como consequência muitos questionamentos: até quanto é possível isolar os sujeitos da experiência da dor, e quais as consequências de uma vida sem ela? E se para as dores físicas temos os múltiplos analgésicos (e os anestésicos para as cirurgias), como lidar com as dores da alma? Serão elas igualmente passíveis de extermínio? Ou serão estas dores um alvo para aqueles ávidos por descobrir novos mercados?

É minha visão que as dores são constitutivas dos sujeitos e que é impossível viver sem elas. Também creio que as dores de parir produzem seus efeitos não apenas na mulher que as suporta, mas também no sujeito que nasce. É claro que para isso as dores precisam de sentido, significado e função, e não ser apenas o sinal corporal de uma disfunção onde a tecnologia pode ajudar e produzir alívio. Há que discernir para não abusar e tornar ruim algo que é, em essência, bom.

A terceira manifestação, foi feita por um médico, que acredita no mito do “culto ao parto normal”, que seria produzido por uma “seita de identitários avessos à tecnologia e aos recursos cirúrgicos”. Sua aversão à humanização do nascimento se sustenta no “recurso do espantalho”: a criação de um adversário fictício que facilitaria nossas críticas ao direcioná-las a uma mera caricatura das opiniões e posições que se opõem às nossas.

Não restam dúvidas de que existem identitários na humanização do nascimento. Por certo que muitas ativistas abusam de recursos espúrios como cancelamentos, silenciamentos, ataques sexistas, essencialismos e preconceito. Entretanto, apesar de serem por vezes vocais, são uma minoria nesse movimento. Este se estrutura na garantia do protagonismo à mulher, na visão interdisciplinar do parto e na atenção baseada em evidências, e não em misticismos ou revanchismos sectários. Tratar um coletivo pela imagem de uma parcela diminuta é desonestidade.

Em verdade, a ideia de que o objetivo dos humanistas seria tornar a cesariana ilegal é tola e apartada da dura realidade do parto, porque é exatamente o oposto que acontece: é o parto normal que lentamente desaparece do horizonte das mulheres, expropriado pela tecnocracia médica que possui nas mãos o mapa único, a versão de uma realidade que insidiosamente evapora. Se existe nobreza neste movimento é a tarefa de lutar para que um processo fisiológico como o parto não seja exterminado pela arrogância cientificista.

Hoje em dia, nos países colonizados pela medicina drogal e intervencionista, é o parto normal que em breve precisará “habeas corpus”. Sim, “que tenhas o teu corpo” é a melhor definição para o desejo de uma mulher que pretende ter seu filho em paz, sem ser interrompida ou incomodada. É o fluxo normal e fisiológico da vida que está em perigo de extinção; é o parto que corre o risco sério de desaparecimento.

Repito a pergunta que fiz há 20 anos: o que será da humanidade quando os gritos lancinantes primais que constituem nossa estrutura psíquica mais primordial forem substituídos pelo som duro e metálico dos instrumentos cirúrgicos de uma sala gelada e repleta de luzes? Se a música é realmente feita da reverberação infinita desse som, que se repete indefinidamente em nossa memória mais precoce, que humanidade será essa onde não haverá mais nenhuma canção a nos aliviar as inevitáveis dores de viver?

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Parto, corpo, sexualidade e revolução

Trabalhei como obstetra durante 35 anos e durante todo esse tempo fui ativista e trabalhei em projetos de humanização do nascimento, tanto institucionalmente quanto na minha prática pessoal. O Brasil tem uma importância muito grande no cenário do parto humanizado, e nossas instituições são reconhecidas aqui e no exterior, em especial a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Durante os mais de 20 anos em que militei nas organizações de suporte ao Parto Humanizado eu percebi em muitas destas instituições uma vinculação forte com o identitarismo – o que fez com que eu me afastasse de algumas delas por sua conexão com a Fundação Gates, Fundação Ford e a Open Society. Entretanto, minha posição contra o identitarismo e estas instituições nunca me afastou da luta pelos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e seus filhos, e isso ocorre porque estas lutas não precisam ocorrer em nome de um “corporativismo de gênero”, mas pela via da ética e do humanismo, elementos que estruturam estas lutas que afetam o conjunto da sociedade.

É meu convencimento que o parto humanizado não deve ser defendido em nome da “mulher” tão somente, mas em nome da sociedade como um todo, de cada um nós, e pela proteção da integridade física e emocional de todos que dele participam. O mesmo se pode dizer do racismo, cujo combate não se restringe a beneficiar as comunidades negras, mas a todos que participam dessa sociedade, pela união da classe trabalhadora em torno do que existe de humano em cada um, acima das barreiras raciais.

Um exemplo disso é a minha própria entrada nesta seara da humanização, que ocorreu na condição de pai, há 4 décadas, pelo direito dos companheiros de participarem da gestação e do parto. Já naquela época eu intuía que esta singela atitude poderia melhorar e fortalecer os laços de paternidade, e todos hoje em dia reconhecem a importância de uma sociedade com país responsáveis e presentes. Diante da minha firma convicção na importância da defesa dos direitos reprodutivos e sexuais e o parto no modelo humanizado, a minha proposta é simples:

É evidente que a violência contra as mulheres é tão mais perigosa e insidiosa quanto mais dissimulada e inaparente. A violência doméstica – com agressões físicas e morais, chegando mesmo à morte – é evidente e escandalosa, e precisa uma especial atenção, e não pode haver dúvidas sobre isso. Entretanto, a violência institucional cometida contra as mulheres na hora de parir é normalmente invisível aos olhos desarmados, e por isso se mantém silenciosa e pervasiva, sem que receba a devida contraposição à sua manutenção e disseminação pela cultura burguesa.

Por esta razão é importante que a violência obstétrica seja nomeada dessa forma, e que seja tratada pelo que é: uma violência de gênero disfarçada de regras, protocolos e rotinas, praticadas nas mulheres muitas vezes sem seu consentimento (como episiotomias, afastamentos, manobras, cesarianas desnecessárias e outras rotinas) e violando sua integridade física e moral.

Assim como outras práticas agressivas estas violências são vendidas como ações “para a proteção da mulher”, quando na verdade servem basicamente para manter o controle sobre seus corpos. Sendo o parto “parte da vida sexual das mulheres” a ação abusiva da medicina sobre o parto é uma agressão contra sua própria sexualidade, e atua como uma forma de expropriar a participação materna sobre este evento.

A maioria dos partidos burgueses e liberais olham para a violência de gênero observando apenas a parte do iceberg que emerge para fora do oceano de abusos. Ficam focados na questão do emprego, da violência contra a mulher, da necessidade de creches e na descriminalização do aborto, o que é justo, mas não contempla a complexidade das lutas das mulheres contra os poderes estabelecidos que regulam seus corpos e sua autonomia.

Eu acredito que o os partidos marxistas deveria tomar a frente e assumir a pauta da Humanização do Nascimento com entusiasmo e destemor, pois que ela atinge de forma muito certeira o sistema de poderes que atinge o corpo das mulheres em sua liberdade, sua sexualidade e seu desejo.

Além disso, não devemos esquecer que gestantes do primeiro mundo são atendidas por um modelo de referência crescente de complexidade que é centrado na figura das parteiras profissionais (atendentes de parto com formação específica na área) e é através destas profissionais – especialistas na fisiologia do nascimento e no cuidado – que poderá haver uma revolução com a necessária radicalidade na questão do parto. Nos lugares onde este modelo é aplicado os resultados maternos e neonatais são melhores do que qualquer lugar – rico ou pobre – onde se estabeleça a atenção ao parto centrada na figura do médico. Para humanizar o nascimento é necessário descolonizar as mentalidades centradas no paradigma médico de atenção ao parto.

O movimento da humanização do nascimento não é uma pauta identitária, mesmo que tenha sido tratado dessa forma por muito tempo e ainda atraia muitas mulheres seduzidas por uma ideia de enfrentamento e separado das outras questões sociais, como o capitalismo e a luta de classes. Não, o parto humanizado diz respeito aos direitos mais básicos das mulheres, mas também da sociedade como um todo.

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Entropia

Recebi da minha amiga Germana Piripkura o print acima e acredito que vale a pena uma análise…

Bem, “discordar de quase tudo” pode ser entendido como uma virtude; as ciências que mais evoluem são aquelas dotadas de forte entropia e choques violentos entre os paradigmas em disputa. No caso da obstetrícia, eu vejo exatamente o oposto. Os obstetras operam (em nível inconsciente, por certo – esta não é uma análise moral) numa espécie de religião onde a discordância é vista como uma ação de extrema gravidade. Basta ver como as práticas obstétrica no mundo ocidental não variam. Pegue uma foto de parto na Suécia e num hospital em Cuzco e a imagem será praticamente idêntica; existe um consenso “forçado” baseado na coesão do grupo. Mas se entendemos o parto como parte da vida sexual de uma mulher, como podemos imaginar que a sexualidade das mulheres desse planeta seja tão padronizada? Por que não há “tantos partos quanto existem mulheres no mundo”?

Ora, porque o parto foi delas…. expropriado.

Em verdade, a obstetrícia é guiada por dogmas que são tratados como pontos intocáveis. São eles:

* Parto é um ato médico
* Parto é um procedimento hospitalar
* Parto é mais bem executado por médicos
* Parto é um ato duplamente arriscado (mãe e bebê) cujos riscos diminuem quando controlados pela medicina em ambiente altamente tecnológico.

Nenhuma das afirmações acima possui evidências científicas que garantam sua validade e universalidade. Não obstante, é repetida à exaustão pela comunidade obstétrica com inegável aceitação. Qualquer médico que discordar desses pontos será visto como um herege, uma ameaça, um infiltrado; se for da área da enfermagem, um invejoso. Toda a aceitação e preponderância social dos obstetras repousa sobre a narrativa de que sua ação é essencial para resgatar as vidas sob seu cuidado do risco produzido por uma natureza incompetente e madrasta.

Lembrei da frase de um professor de obstetrícia da corrente “liberal-reformista” quando falava aos seus alunos da residência: “As pacientes caminham sobre um cabo de aço entre dois edifícios há 30 metros de altura, e vocês são a rede”, uma frase que mostra a onipotência e o “entitlement” inabaláveis destes profissionais, pois que sequer as evidencias científicas são suficientes para demovê-los de suas crenças.

Sobre as “fontes discordantes”, penso que o que ela quis dizer é que os profissionais não concordaram com ela quando se referiu à atenção ao parto de risco habitual, mas engana-se quem imagina que existem debates intensos na academia sobre estes temas. Há um silêncio tácito sobre estas questões, porque tocar nos pontos nevrálgicos da estrutura da obstetrícia contemporânea significa colocar toda sua edificação ideológica em perigo. Poucos tem a coragem de enfrentar os monstros e colocar-se na posição de párias.

Eu bem que gostaria que houvesse realmente esse “tremor” na academia, com debates acirrados e veementes sobre o modelo de atenção ao nascimento, mas a percepção hegemônica sem dúvida ainda – e por muito tempo – se assenta sobre os pilares citados acima. A fração mais conservadora acredita nos malefícios do parto e nos seus riscos inquestionáveis, enquanto a vertente liberal revisionista crê que uma atenção médica baseada em evidências diminuiria as intervenções e, por conseguinte, a morbimortalidade associada a elas, tanto físicas quanto emocionais.

Minha vertente, por certo, é a revolucionária, com o abandono da ilusão reformista (que insiste na opção médica) e a adoção de um modelo humanístico de parteria baseado na atenção do parto eutócico por parteiras profissionais. Aliás, o modelo de melhores resultados no planeta, mesmo quando a avaliação leva em consideração países ricos e pobres.

Claro que, assim como em outras batalhas, morrerei sem ver este modelo instituído. Mas, de que vale a cidade não for pelas boas causas?

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Romerobritismo do parto

É assim que caem os impérios; quando a miséria do povo recebe como resposta das elites esse tipo de contraste ele se torna uma ofensa em si. Trata-se de escárnio, deboche e desrespeito. Não se trata de questionar o direito de produzir algo que o dinheiro pode pagar, mas viver em uma sociedade onde a desassistência, a fome, o desemprego, a inflação e a desesperança convivem com a opulência obscena é uma bofetada na cara de qualquer brasileiro.

Quando essas coisas explodem alguns dizem “Por que essa violência, gente? Não é pra tanto!!“. Mas quando a gente oferece brioches para a patuleia faminta está alimentando a indignação silente. Quando cai a última gota, cabeças rolam… as vezes literalmente.

Aliás, concordo que isso é tudo muito brega. Para mim vale o relato que centenas de mulheres me disseram: “não existe sensação melhor do que parir um bebê e depois deitar na sua própria cama para descansar e tomar uma sopa de galinha”. Isso é qualidade de vida e valor; o resto é modinha e ostentação fútil. Esta sim é uma memória capaz de produzir transformações na forma como enxergamos o mundo.

Tenho ainda uma curiosidade: desses 500 milhões de custos nessa obra – cuja única função é fazer a elite perdulária paulistana se sentir “especial” – quanto foi investido para fazer dessa chinelagem a capa de Veja?

Pois eu acho que essa iniciativa é o “romerobritismo” da assistência ao parto no Brasil, uma homenagem a Romero Britto, que produz coisas bregas, extravagantes, caras e inúteis.

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Conservadores e Progressistas

Eu sempre me defini como um progressista, de esquerda, comunista e com uma postura aberta e franca sobre a minha posição política. Jamais achei que esta é uma questão moral, a qual me tornaria melhor do que os outros por estar do “lado certo” do espectro político. Não acredito nisso. Conheço pessoas de direita que são anjos, gente caridosa, amável, inteligente, culta e espiritualizada. Contrário senso, conheço esquerdistas toscos, violentos, agressivos, preconceituosos, sexistas e vingativos. As qualidades morais não se estabelecem entre progressistas e conservadores; elas são produzidas em camadas muito mais basilares de nossa estrutura psíquica.

Digo isso porque entendo que as posições políticas estão profundamente sedimentadas na nossa especial visão de mundo – e de nós mesmos. São valores adquiridos numa fase muito inicial da vida. Um conservador é alguém que tenta manter o que foi conquistado. Sua missão é não perder as conquistas, garantir o caminho percorrido e não permitir aventuras que possam colocá-las em risco. Já os progressistas querem ver adiante, romper barreiras, atravessar os limites, arriscar novos caminhos e questionar valores. Um tem os pés no chão e o outro as mãos apontadas para o céu.

Não existe erro em nenhuma dessas posturas; ambas são válidas e necessárias. Não há nenhum problema moral em exigir que as mudanças sejam lentas e cuidadosas, assim como não há equívoco em desejar lançar-se ao espaço e experimentar a novidade do mundo. Ambas são posições subjetivas naturais e moralmente válidas, e pessoas más e boas ocorrem em ambos os lados desse embate.

Quando no inicio desse século resolvemos intensificar os debates sobre as definições da “humanização do nascimento” enquanto movimento, ideologia, filosofia e prática eu deixei claro que havia uma série de princípios dos quais não poderíamos abrir mão, sob pena de perdermos a base ideológica que nos conectava. Por esta razão, sempre me posicionei de forma muito forte contra a ideia de “cesarianas humanizadas” na medida em que o protagonismo é um fator essencial nessa definição e, estando ausente num procedimento cirúrgico, não poderia ser tratado como tal. Da mesma forma, sempre me mantive fiel à proposta revolucionária da obstetrícia – o modelo de parteria – não aceitando as propostas reformistas que muitos ainda perseguem e defendem com fervor.

Nesse aspecto específico, eu sempre me comportei como um “conservador”, e acredito que posso até parecer um “reacionário” aos olhos dos que acreditam que “o importante é o resultado, não a via de parto”. Por isso eu posso entender quando conservadores em várias áreas me falam de suas preocupação em relação à sexualidade, gênero, costumes, economia, pedagogia, educação dos filhos etc, mesmo não concordando com sua visão de mundo. E também entendo visceralmente a perspectiva daqueles que, como eu, lutam por mudanças.

A idade nos garante esse tipo de vantagem. Podemos enxergar esses conflitos e atritos com menos apaixonamento, de forma mais compreensiva e situando-se de maneira mais racional diante desses dilemas. Isso não significa “frouxidão”, mas “flexibilidade”; não é “fragilidade”, é “paralaxe”.

Como eu dizia ao meu pai, ao ouvir muitos de seus conselhos cheios de sabedoria: “são as benesses da senectude”.

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Humanização do nascimento, o que é mesmo?

O parto humanizado congrega em suas ideias um evento humano, um movimento social, uma expressão da sexualidade e uma luta política.

Muitos ainda hoje perguntam a definição de “parto humanizado” e acredito que sua definição é fundamental para que as pessoas compreendam a verdadeira amplitude desse termo. É notável que existe confusão com a ideia de “parto gentil”, “parto livre”, parto adequado”, “parto sem violência”, etc. Muitos também confundem parto humanizado com “parto normal”ou parto “vaginal”, mas é preciso entender que o fato de uma criança nascer pela via “vaginal” não significa que o parto tenha sido conduzido com normalidade. Em verdade, muitas das violências obstétricas que testemunhamos em nossa sociedade são fruto da má condução de partos vaginais. É igualmente verdadeira a noção de que realizar cesarianas em benefício de médicos, instituições, escalas, feriados ou pela falta de capacidade de lidar com a intrincada dinâmica do parto normal são atos violentos. A via de parto, por si só, não determina a característica de um atendimento “humanizado”.

É forçoso lembrar que este nome está relacionado com o humanismo, herdeiro do Iluminismo do século XVIII. O Humanismo é a filosofia moral que estabelece o humano como elemento primordial na cultura; é uma perspectiva que se encontra em uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade. A “humanização” nasceu na Europa, originada no Renascimento que se opunha à escolástica, valorizando uma postura intelectual crítica e colocando no humano – mais do que na figura de Deus – o foco de todos os nossos interesses, nossa admiração, as diretrizes e o destino da humanidade. Esta corrente de pensamento, em que Erasmus de Roterdã tem um papel de destaque, vem se contrapor ao teocentrismo da idade média, que desprezava as capacidades humanas de adaptação e transcendência. Portanto, a ideia de que “parto humanizado” seria um pleonasmo, pois “se todos somos humanos o parto só poderia ser humanizado” é equivocada e oportunista, pois o termo aponta para um pensamento que coloca nossas ações a serviço da humanidade, contrapondo-se à tecnocracia que nos torna escravizados àqueles que detém o poder tecnológico de controle dos corpos.

Em função disso há muitos anos eu elaborei uma definição que fosse acima de tudo prática, mas que também fosse simples, didática, concisa e que contivesse em seu bojo os aspectos principais dessa ideia.

Assim, na minha perspectiva o parto humanizado pode ser entendido como um projeto sustentado por um tripé conceitual:

  • Protagonismo garantido à mulher;
  • Visão interdisciplinar (o parto não é um ato médico);
  • Atenção baseada em evidências.

Esta definição foi criada há alguns anos para tentar dar a este tema uma delimitação, e assim diminuir as inevitáveis confusões como, por exemplo, confundir parto humanizado com “parto domiciliar”, “parto na água”, ou “analgesia de parto”. Sim, muitos ainda hoje acreditam que oferecer analgesia peridural para as mulheres, retirando do parto seu componente de “dor e sofrimento”, seria oferecer às mulheres uma vivência mais plena do parto, sem os componentes “selvagens” que nos afastam da “alma” enquanto nos aproximam inexoravelmente do “corpo”. Esta confusão do parto humanizado com o “parto indolor” é ainda muito prevalente entre os homens, para quem as dores do parto carecem de sentido.

Protagonismo garantido à mulher significa que esse evento está sob o controle das mulheres – ou daquela especifica mulher que o está atravessando, ou sendo atravessada por ele – seus valores, suas expectativas, suas perspectivas e seus desejos, e não a partir de protocolos que mais visam garantir segurança para médicos e instituições do que o bem estar para a mãe e o bebê. Significa colocar o elemento humano – a futura mãe – como o centro das nossas atenções, fazendo com que todas as ações realizadas sobre o processo de nascimento tenham como objetivo precípuo o bem estar das mulheres e não o fortalecimento de sistemas médicos e institucionais de controle sobre seus corpos. “Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher, sem isso teremos apenas a sofisticação da tutela milenar instituída pelo patriarcado”. Assim, o protagonismo feminino no parto é a viga central que sustenta a estrutura do movimento de humanização. Sem ele qualquer outra medida será apenas enganosa ou parcial.

Interdisciplinar porque envolve todo o pensamento humano que se dedica a descrever, compreender ou decifrar o nascimento humano em suas múltiplas formas de abordagem e todas as maneiras de oferecer cuidado. Psicologia, psicanálise, medicina, enfermagem, sociologia, antropologia, fisioterapia são correntes do pensamento que se ocupam da compreensão desse evento. É importante compreender que o parto não é um evento médico, não pode ser controlado pelos pressupostos ideológicos intervencionistas da medicina – a não ser em casos de patologia – e que deve ser entendido como um ciclo normal da vida de uma mulher, como parte da expressão da sua sexualidade, e que por esta razão merece uma abordagem interdisciplinar que contemple todas estas perspectivas. A medicina e suas intervenções jamais melhoraram o processo de parto em sua estrutura milenar, apenas garantiram que os desequilíbrios associados a ele tivessem o cuidado tecnológico adequado – o que é sua justa função.

Atenção Baseada em Evidências serve para se contrapor à milenar tendência de atuar no parto baseando-se em mitos, crenças, crendices, ações perigosas e até violentas. Kristeller (pressão sobre o fundo uterino), tricotomia (corte dos pelos pubianos), decúbito dorsal (deitada de costas na mesa de parto) e episiotomias (corte vaginal) são exemplos clássicos de rituais violentos (inclusive mutilatórios) realizados pela medicina ocidental sem que quaisquer estudos e pesquisas tenham comprovado seu benefício para as mulheres. Em função disso podem ser entendidos como “rituais”, pois possuem seus três elementos definidores: são repetitivos, padronizados e simbólicos, e sua simbologia nos leva aos valores mais profundos de nossa sociedade: o capitalismo, o imperialismo e o patriarcado. Sem a contraposição de estudos, análises e evidências oferecidas pela ciência o parto se mantém um campo aberto e convidativo para a aplicação de rituais que relacionados aos valores mais profundos de uma sociedade, onde impera a violência de gênero deles derivada.

Essa é uma definição simples, prática e útil, mas por certo que não é definitiva. Podemos criar outras, mais complexas e mais abrangentes, mas as definições servem às tarefas de seu tempo e, portanto, acredito que esta ainda seja adequada para a época em que vivemos. Como diria o pensador francês Michel Odent, “para mudar a humanidade é preciso mudar a forma de nascer“. Para isso precisamos garantir às mulheres a plena autonomia para seus corpos e o total protagonismo para a construção de seu destino.

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Parto humanizado e mídias sociais

Eu as vezes sou convidado a assistir palestras sobre obstetrícia que tratam de temas que há muitos anos debatemos no movimento de Humanização do Parto e Nascimento. Nesta semana assisti mais uma vez o mestre Michel Odent – pensador e escritor francês de 91 anos – falar de suas teses centrais, como o “imprint” e a importância de oferecer à mulher um entorno de proteção, intimidade e privacidade para que a “entrega” seja a mais tranquila possível. Ter sido contemporâneo de Michel é um grande privilégio para qualquer pessoa que um dia trilhou pelos caminhos da humanização. Posso estar cometendo um sacrilégio mas, na minha perspectiva, os trabalhos de Odent e Robbie Davis-Floyd no campo da compreensão dos significados últimos e inconscientes do processo de nascer adquirem uma importância ainda maior do que aqueles conceitos sobre o “nascimento sem violência” oferecidos a nós um pouco antes por Frederick Leboyer, outro baluarte da grande revolução do parto.

Escutei também o comediante Rafinha Bastos falando sobre partos e doulas, na entrevista que fez com sua irmã – que é doula e professora de Yoga – e achei que sua visão superficial, preconceituosa, jocosa e até debochada do processo de nascimento é uma amostra razoavelmente adequada do pensamento médio dos homens brasileiros. Sua ignorância a respeito de elementos mínimos da proposta de humanização, sua repulsa com tudo o que existe de selvagem e essencialmente humano no parto – além da sua exaltação da “praticidade e limpeza” das cesarianas – são muito demonstrativas da visão majoritária que ainda é prevalente entre os homens. Acho lamentável sua percepção sobre um tema tão delicado, mas saber que ele se dispôs a escutar é algo que devemos saudar como positivo. Quando trocamos ideias com os companheiros das mulheres que nos procuram pela expectativa de um parto humanizado é importante ter em conta que estes sujeitos representam uma fatia francamente minoritária nesta sociedade.

Um pouco depois escutei a aula de uma enfermeira obstetra que falou sobre o tema da violência obstétrica para alunos universitários, um tema que a cada dia assume uma importância maior nos debates de gênero na Internet. Na minha perspectiva ela falou de uma forma bastante superficial, talvez um pouco mais do que o necessário, mas entendo que ela imaginava se dirigir a uma plateia ainda muito desinformada sobre o tema e, portanto, preferiu uma abordagem mais geral e simplificada.

Em verdade eu prefiro as perspectivas sobre o parto que são mais complexas, mais obscuras e menos debatidas e sobre as quais pouco se fala, em especial no que diz respeito à atenção ao parto como evento da sexualidade. Entretanto, tocar nesse ponto é arriscado e perigoso. Vivemos em uma sociedade de cancelamentos onde as ideias sucumbem à interpretação que se pode fazer delas, e onde a verdade é menos importante do que a aceitação e o reconhecimento das nossas “personas sociais”. Fugir de certos maniqueísmos é tarefa complexa, e seria um risco muito grande tratar desse tema para um grupo tão heterogêneo.

Nas perguntas que se seguiram à sua exposição chamou minha atenção algo que vi repetidas vezes quando tratei publicamente deste tema. Percebi que, o que muitas mulheres chamam de “violência obstétrica” é, na verdade, tão somente a ponta de um imenso iceberg, uma fração menor do que seja a violência que ocorre no parto. A maioria das mulheres (e também seus parceiros) aponta como violência apenas aquilo se que tornou visível e palpável, a parte que ultrapassa a linha das ondas e emerge do oceano como barbárie. Da mesma forma, a violência do encarceramento obsceno das sociedades capitalistas aparece sob a forma de desumanidade, tortura e morte, para só então ser condenada. Parece que a nós somente quando a brutalidade estrutural e ideológica submersa se torna evidente pelo exagero de um processo – que já é violento por natureza – temos a possibilidade de denunciar sua existência.

Ainda espero das jovens ativistas uma definição mais clara, concisa e firme do que seja “parto humanizado”. Parece faltar uma percepção mais elaborada, que fuja da ideia de “parto gentil”, “parto delicado”, “parto adequado”, “obediência às evidências científicas”, que são elementos importantes deste processo, mas que não contemplam o cerne da definição, o qual está visceralmente ligado à ideia de “garantia de protagonismo” às mulheres. Precisamos falar mais sobre a história desse movimento social, debater seus pilares de sustentação e entender que esta proposta surgiu muito recentemente como uma contraposição ao modelo tecnocrático hegemônico, que despersonaliza e objetualiza as gestantes, uma condição que se fortaleceu pela dominação do paradigma biomédico estabelecido de forma marcante a partir do século XX.

Na palestra da jovem professora ela elogiou as Casas de Parto e deixou claro para todos a importância das enfermeiras como cuidadoras primordiais do parto, o que é muito bom. Para além disso, eu me surpreendi com as perguntas feitas pelos estudantes a ela, o que sugeriu que ela poderia ter ido mais fundo nas definições, contradições e dificuldades no combate à violência obstétrica. Talvez ela tenha subestimado mais do que devia a capacidade de crítica dos alunos presentes à sua palestra.

Saber que esse tema toma a Internet hoje em dia me oferece a esperança de que estivemos fazendo certo em denunciar um modelo anacrônico de atenção ao parto e de mostrar que há perspectivas mais humanas e dignas de trazer as pessoas ao mundo.

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Conservadores

Hoje me perguntaram o que eu achava da atuação de uma obstetra da minha cidade. Em verdade, muito pouco a vi na minha vida. Ela tinha a fama de ser contra o abuso de cesarianas, e deve ter alguns 6 ou 7 anos a mais do que eu; portanto, quase centenária. Todavia, achei curiosa a forma como tive que explicar seu trabalho e como categorizá-lo.

Bem, ela não é cesarista. Talvez tenha entre 60 a 70% de cesarianas em seu consultório, mas os cesaristas tem geralmente taxas acima de 90. Ela por certo não é uma médica humanizada; deve desprezar Doulas, ou não trabalha com elas. É conhecida por ser autoritária e até grosseira algumas vezes, mas tem mais partos normais do que seus parceiros. Tem um discurso de “parto normal é melhor, mas nem sempre é possível”, conjugado com as famosas “hoje as mulheres são muito mais fracas que antigamente“.

Há algumas décadas ela seria chamada de “vaginalista“, mas esse termo é difícil de usar para alguém com tantas cesarianas. Talvez o termo “conservadora” fosse mais adequado, pois ela parece mais uma obstetra tradicionalista, que nos anos 80 eram aqueles profissionais que consideravam a cesariana um modismo que atingia as novas gerações, mas que nivelava por baixo as competências requeridas para a atenção ao parto. “Cesariana qualquer um faz; atender um parto precisa habilidade“, diziam alguns velhos professores.

Ela sequer pode cair no grupo dos “tecnocratas conscientes”, que são aqueles que reconhecem os malefícios da tecnocracia e do abuso das intervenções, mas acreditam que o contexto os obriga a esta postura em função da pressão social e dos seus pares. Não, ela apenas valoriza alguns saberes que eram a matéria prima dos antigos parteiros, e acredita que estas ferramentas sejam um diferencial importante para uma atenção mais efetiva ao nascimento.

Sim, o parto é deitado. “Preciso enxergar o que vou fazer e não tenho mais idade para ficar de joelhos“. A episiotomia usa quase sempre, senão “rasga tudo, já vi acontecer“. Ocitocina quase sempre, comandos tipo “fecha a boca e faz força de cocô” em todos os partos. Entrega rápido o bebê ao neonatologista pois “nunca se sabe se ele está mesmo bem”.

De maneira geral você terá mais chance de um parto vaginal com ela, mas não pense que sua experiência será “baseada em evidências”; ela vai ser mais próxima da sua fisiologia, mas ainda longe do que poderíamos esperar desse evento.

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Doulas Gourmet

O projeto de gourmetização das doulas não ajuda as doulas, mas auxilia as instituições no seu projeto de restringir ao máximo a sua atuação. É o projeto dos sonhos da corporação médica e dos hospitais privados, e carrega em seu bojo um problema gravíssimo: ele dificulta as doulas pobres, de comunidades distantes e sem educação formal a dar assistência às suas irmãs, vizinhas, amigas e clientes.

Por que deveríamos impedir uma doula sem instrução formal – inclusive analfabeta – de atuar? Por que restringir o acesso à essa função para todas as mulheres que não tem um diploma de segundo grau? No Brasil apenas 51% das mulheres com mais de 18 anos completam o ensino médio (homens 46%). Essa medida por si só já corta pela metade o número de mulheres que poderiam ser doulas. A quem tal restrição interessa?

Já pensaram se fosse exigido de cozinheiras, diaristas ou balconistas o ensino médio completo? Já perguntaram porque nunca alguém teve essa ideia para as outras profissões, mas decidiram que, para as doulas, essa certificação seria mandatória? Conseguem perceber o interesse das corporações em atingir o coração do movimento? Por que as doulas, mas não o porteiro do prédio, precisa esse grau de educação?

Claro… como sempre nos preocupamos com a classe média, com os pacientes mais abonados, com a performance de doulas em hospitais privados e sofisticados, enquanto o Brasil profundo, preto e pobre se mantém esquecido. A gentrificação desse movimento é um passo firme na direção da sua destruição, ao eliminar do cenário de atuação a sua base popular e laica.

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