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O Dilema de Rahii

Meu pai nunca lê nada do que eu escrevo e diz que se constrange muito com minha paixão pela política. Como se pode ver, bom gosto literário é uma característica que não consegui herdar dele. Entretanto, escrevi uma fábula sobre escolhas difíceis e complexas – a qual ele deve ter lido por engano – e, muitos anos depois, disse que havia gostado. Um dia me falou da possibilidade de entender o “Dilema de Rahii” como uma metáfora para as necessárias mudanças na vida que demandam um corte na própria carne.

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Quando a tribo se reuniu para decidir qual rumo tomar, quem primeiro falou foi Nugot, filho do chefe Rahii:

– Precisamos fazer algo para amainar a fúria da “montanha que cospe fogo”. Não temos mais tranquilidade para dormir, para caçar, para colher ou mesmo para brincar no lago. Nossos filhos estão assustados e doentes. Minha mulher não quer mais fazer o “nukhatki” comigo. Reclama de dores na cabeça e no miolo dos ossos, mas eu sei que é por causa de Ratktanuri, a mulher zangada que mora dentro da montanha e que cospe bolas de fogo e fumaça. Quanto tempo ainda conseguiremos suportar tal suplício? O que podemos fazer? Ohh, quem poderá nos salvar?

Colocou as mãos no peito e iniciou um lamento em nabutki, a velha língua dos ancestrais. Cantou uma canção que falava de Merphit, a Deusa feita de nuvens, que voa montada em um alazão de asas brancas. Merphit, a protetora das águas, era chamada a apagar o fogo cujas labaredas impediam o sono de Nugot, o filho do chefe, e impedia que sua terceira esposa, Náhglit, recebesse o sopro de amor para o “nukhatki”.

Outros se uniram na cantoria de Nugot. Algumas vozes mais exaltadas olhavam para o chefe Rahii como uma mirada acusadora. Para ele dirigiam uma súplica queixosa. Como permitira que Ratktanuri se zangasse tanto? Não era ele o chefe da tribo, filho de Mishleh e neto de Natsfertah? Não trazia consigo o dom da palavra, a prática da escuta e a sabedoria do silêncio? Porque não ordenou aos feiticeiros que usassem suas poções, suas magias e seus sacrifícios antes que a situação se tornasse calamitosa? Porque seu silêncio? Parecia esperar que Ogroth, o Deus de todas as coisas, tirasse finalmente o chão de seus pés e caíssem todos no Poço de Numer, onde as gerações por fim se encontram.

É penosa a tarefa de um chefe, pensou Rahii. Os olhares pesados dos circundantes mostravam a ele que apenas de sua boca poderia brotar a palavra salvadora. O céu de ébano, enegrecido pela fumaça dos pensamentos odiosos de Ratktanuri, ficava ainda mais aterrorizante com a nuvem de preocupações que se avolumava. Rahii precisava fazer algo, nem que fosse para manter Éolid junto de seu povo, a deusa da esperança.

O velho chefe juntou os joelhos e ergueu-se com a ajuda de um cajado. Ao seu lado Macaya, sua primeira mulher, segurava sua mão. Ela estivera ao seu lado na luta contra os Nabucris, na enchente do Pitrah, na seca mortífera e na fome. Com ela teve seu filho Nugot, que agora se ajoelhava em frente à ele chorando por uma solução. Caminhou em direção ao centro do círculo dos anciãos, o cajado batendo fortemente na terra a cada passo que dava. Parecia querer cutucar a velha senhora, intimidá-la, ou mostrar que, apesar da idade, ainda havia em si algo de energia. Seus passos cadenciados pareciam ressoar pela tribo inteira, que jazia silenciosa à espera de uma palavra de esperança. Enquanto se aproximava do centro nada se ouvia além de Kaluma, o grilo, que cantava seu canto noturno.

– A velha mulher resolveu se vingar, e seu ódio a todos atinge. Nosso povo precisa aplacar sua raiva, pois se assim continuar seremos apenas cinzas a adubar o jardim de Ogroth. Nosso pecado foi a ignorância, o mal pensar e o agir temeroso. Ratktanuri não perdoa os que fogem de suas tarefas. Faremos a ela mais um sacrifício, para que ela perdoe nosso não-saber, causa do nosso não-agir. Que venham a mim os bezerros e as cabras, e que sejam eles entregues ao fel vermelho da brava senhora, em sinal de nossa submissão.

Mal terminara a fala e Nugot, seu primogênito, levanta-se e exclama:

-Velho pai. Tua sabedoria já foi contada por tantos e tuas histórias espalhadas aos ventos. Tua coragem é um hino em honra da nação Nabutki. Entretanto, o peso de Tépis, o tempo, verga tuas costas e embaralha tuas ideias. Tuas ordens são tão antigas quanto Bakti, o inverno. Já se foram duas quartas de cabras, duas mãos cheias de bezerros e mais uma mão de galinhas, todas oferecidas ao pé da montanha à velha senhora. Que mais pode ela querer? Chega de tanto sacrifício; chaga de tanta dor. De que adianta saldar a dívida com Ratktanuri se o que sobrar de nós for levado por Famis, a senhora da miséria, da dor e da fome? De que vale um povo livre da “água de fogo” que corre pela encosta, se estiver faminto e fraco? Teus rituais sagrados estão ultrapassados, tuas magias velhas, tua força se esvai.

O olhar abatido do velho Rahii ergueu-se para encontrar o rosto de seu filho, aquele que um dia o substituiria. O vigor físico de seu primogênito era notável, assim como a força de sua voz. Ele sabia que as palavras de Nugot estavam escritas com a tinta da morte. De nada adiantaram os rituais já feitos; a velha senhora estava faminta, e pedia mais. Rahii bem sabia que, para se manter como chefe, deveria enfrentar a fúria de Ratktanuri mais uma vez. Se falhasse, ela o derrotaria, e levaria consigo todo seu povo. Se vencesse manter-se-ia como chefe, e mais uma lenda se acrescentaria à sua história. Precisaria ser certeiro e forte, valente, destemido e duro.

Olhou mais uma vez para seu filho Nugot, e disse com a voz mais pesada que já lhe havia passado pela garganta:

– Não é o momento para lutas, meu filho. Sei que nossas magias anteriores falharam, e sei que investir mais na oferta de animais colocaria nosso povo em mais dor e mais tristeza. Precisamos agir com presteza, e com coragem. Creia em mim, e acredite no poder de Ogroth!

Deu um último suspiro e elevou o cajado ao alto. Gritou “Patuh saleh” três vezes e o abaixou até a altura da cintura. Girou nos calcanhares um círculo inteiro e parou. A ponta do cajado direcionou-se para o meio do povo aglomerado, que, assustado, afastou-se de sua trajetória. Apenas Núbit, a pequena filha de Nugot e Nahglit, continuou parada, hipnotizada pelo cajado de Rahii.

Minha neta!, gritou em pensamentos o velho chefe. Não pode ser, não pode ser…

Era o desejo da senhora má. Era a sua vontade, vinda das entranhas da terra. Era o sacrifício de Núbit que ela reclamava. Era o seu sangue que ela desejava.

O meu sangue, o meu sangue…, pensou ele em desesperada apatia.

Os gritos de Náhglit ecoaram pela floresta, sua dor ultrapassou a carapaça dura dos crocodilos. A voz de Rahii era um sopro quase sem vida, mas ainda assim falou ao filho, que gritava amparado pelos irmãos:

– Que a vontade de Ogroth se faça.

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O Acampamento

Sentou-se sobre o tronco da velha árvore e tirou do alforje uma pequena caixa de madeira onde guardava o fumo. As labaredas lambiam a madeira fazendo o crepitar dos galhos secos soarem como lamentos de dor. Ao seu lado Willock resmungava enquanto juntava os últimos caixotes. A munição precisava ser guardada em local seco e o céu sem estrelas não lhe garantia uma noite sem chuva. O silêncio na colina era entrecortado pelo uivo dos lobos, enquanto os grilos raspavam suas patas tentando acompanhar a triste melodia do vento. Harding fechou seu cigarro com a palha que trazia no bolso do colete,  mas antes de acender falou para Willock, que se ajeitava no chão ao seu lado.

– O fato de sermos poucos nesta luta não é apenas porque eles não enxergam o mundo com nossos olhos, Wee. Não os vejo como estúpidos, ignorantes ou maus; eles não são tolos, muito menos perversos. Não se trata de uma falha de caráter, mas uma perspectiva distinta na qual já estivemos inseridos, e tu bem o sabes.

Willock aquiesceu arqueando as sobrancelhas para cima enquanto aproximava o bule de café do fogo à sua frente. Harding pigarreou, acendeu seu cigarro e deu uma longa baforada para cima. A fumaça encontrou a brisa fria da noite e foi levada adiante, misturando-se com os aromas úmidos e escuros da mata. Cuspiu no chão à sua frente e continuou:

– Talvez mais relevante do que eles não conseguirem ver o que vemos seja os fato de que desconhecemos por completo o que os move. Não entendemos mais o mundo pelos seus valores e seus sapatos já não nos cabem mais. Se pudéssemos entender porque precisam tanto seguir pelo caminho que há tanto abandonamos seria mais fácil fazê-los ver as razões que nos levaram a uma escolha tão radical.

As palavras de Harding ficaram presas ao silêncio que se seguiu e a única resposta que veio foi o piar das corujas anunciando o início de sua caçada vespertina.

Scott P. Floyd, “Who Killed the Messenger?”, Ed. PubliMar pág 135

Scott Percival Floyd nasceu na pequena cidade de Dighton, no Kansas, tendo feito seu estudos em Wichita. Posteriormente mudou-se para Topeka para trabalhar na UPS, chegando ao posto de gerente regional. Escrevia para o jornal local Topeka Capital-Journal uma coluna de esportes e variedades, mas em 1995 escreveu seu primeiro livro de contos chamado “Marne e a longa viagem”. Costuma escrever sobre a vida no campo, cowboys, pastoreios e longas invernadas. Casou-se com May Shelby e tem 4 filhos: Joe, Harper, Teresa and Bill.

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Alethea

Ainda muito jovem, conheci uma jovem através de um intercâmbio da escola. Nossa professora nos estimulava a trocar correspondência com alunos de outras escolas para exercitar a escrita e coube a mim estabelecer correspondência com uma jovem de nome Alethea que vivia em uma cidade próxima. Nosso contato começou com conversas nas quais falávamos de nossas famílias, gostos pessoais, hobbies, músicas preferidas, esportes, etc. Todavia, com o passar tempo, e à medida em que adentrávamos na adolescência, nosso contato se tornava mais relacionado às nossas questões afetivas e nossos assuntos mais profundos. Durante todo esse período de intercâmbio de cartas nunca nos encontramos pessoalmente, mas as cartas acabaram nos aproximando de uma forma muito intensa. Através delas eu havia construído a imagem de uma jovem culta, doce, recatada, sincera, dedicada aos livros e com ambições intelectuais. Desejava ser uma professora, iluminar com o conhecimento as mentes que vagavam pelas trevas da ignorância.

Um dia, tocado por uma coragem pouco comum, resolvi perguntar-lhe da possibilidade de conhecê-la pessoalmente. Sua cidade ficava distante da minha 1 hora por trem, o que tornaria possível visitá-la chegando pela manhã e voltando no último trem, o das 19h. Aguardei ansiosamente sua resposta e, quando o carteiro trouxe a carta confirmando minha solicitação, nas letras bem desenhadas e redondas de uma folha sem linhas, fiquei tomado de entusiasmo e…. pânico. Decidi que deveria deixar o medo de lado e confirmar a data por ela proposta. Comprei sapatos novos com o dinheiro pouco que dispunha. No dia da viagem passei a camisa “de sair” e exagerei na água de Colônia. “O vento pelas janelas do trem vai tirar quase tudo“, pensei. “Melhor uma dose extra.

Chegando na estação férrea da sua cidade já me apressei a comprar o bilhete de volta, pois sabia que não haveria chance de voltar que não fosse na manhã seguinte. Aguardei o ônibus que me levaria à cidade segurando a caixa de bombons que havia comprado para lhe presentear. Nosso encontro foi a revivescência de um sonho. Alethea era exatamente a imagem construída em meus pensamentos e devaneios. Bonita sem exageros, sobriamente tímida, estudiosa, delicada, sensível e com um humor sutil e inteligente. Sentava-se com recato e falava com educação. Deixava as pernas juntas e levava as mãos espalmadas para o alto sobre as coxas. Era segura e otimista, e seu sorriso tinha os adornos de duas pequenas esferas de azul Calypso, tomadas emprestadas da luz dos oceanos.

Nossas conversas passaram por nossas vidas, famílias, esperanças, projetos e desejos. Alethea ansiava por ensinar, queria ser uma professora de ciências. A tudo o que dizia me deliciava com sua doce firmeza. Meu estado de espírito era puro encantamento. A tarde passou voando e próximo das 18h senti em Alethea uma certa preocupação. Olhava pela janela da sala com frequência como que aguardando por algo. Perguntei-lhe de sua tensão e ela me disse que se preocupava com o trem, que eu deveria pegar o ônibus para a estação, sob pena de ficar trancado na cidade. Senti que era a hora de ir e me levantei das poltronas aveludadas da casa de seus pais para me dirigir ao portão. Lá chegando Alethea me abraça, me beija as faces e sorri.

– Estou muito feliz com sua visita, moço bonito.

Ainda tonto e com o coração disparado pelas suas últimas palavras entro no ônibus acanhado que me leva à estação. Lá espero a chegada do derradeiro comboio que me levará de volta para casa. Envolto nas emoções do dia trago à memória o sorriso de Alethea, sua risada tímida, sua cultura, seus livros, suas mãos bem cuidadas. Seria essa sensação amor verdadeiro ou apenas uma embriaguez passageira com o nome de paixão? Estaria eu encantado demais, enfeitiçado em excesso pelo azul de seus olhos?

O tempo passou e o trem chegou à estação. Era hora de voltar. Como meu bilhete era numerado resolvi aguardar sentado no banco até que todos os passageiros saíssem do trem e que os que aguardavam para entrar se acomodassem. Ainda tinha as pernas bambas das emoções do dia, e a aragem da noite me oferecia um frescor agradável. As lembranças pulavam umas sobre as outras, as vezes confusas (“foi assim mesmo que ela falou?”) as vezes nítidas como a imagem do trem parado à minha frente. A multidão escasseava na plataforma. Nesse momento um jovem saído do trem senta ao meu lado e pergunta como chegar à cidade. Aponto para a porta verde escura na lateral da estação e só então noto o lindo buquê de flores que carrega. Explico como pegar o ônibus mas meu olhar não consegue se afastar das rosas vermelhas que brotam do embrulho. Ao lado, grudado no papel amarelo com bordas douradas, um envelope branco. Com letras desenhadas pude ler:

“Flores para uma flor. Alethea”

O som dos pássaros anunciava o recolher do sol e a chegada do breu. Ao longe vislumbrei a silhueta do maquinista acenando para os vigias. “Todos a bordo!!!”, gritou ele enquanto minhas mãos frias e trêmulas procuravam o bilhete no bolso da camisa branca.

Mario Schiffino, “Quelli che non ho Dimenticato” (Aqueles a quem não esqueci), ed. Vesuvio, pág. 135

Mário Schiffino é um contista italiano, nascido em Salerno, em 1948. Teve uma infância muito pobre e foi marcada pela morte do pai por suicídio em 1955. Sua família foi obrigada a se mudar para a pequena localidade de Potenza, onde moravam seus avós maternos. Sua infância foi toda marcada pelos comboios que ligavam sua cidade natal às localidades conectadas pela via férrea. Em seu primeiro romance “Il Ragazzo della Stagione” descreve de forma detalhada os pequenos acontecimentos de sua vida até a adolescência, tempo em que circulava vendendo balas e biscoitos nas estações férreas. Já em “Aqueles a quem não esqueci” ele apresenta uma colcha de retalhos de contos marcados pela vida pacata do interior da Itália, alguns deles expressamente verídicos. Mora em Modena e é casado com a maestrina Marieta Schiffino. Tem dois filhos, Pietro e Isabella.

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Adeus

Então subitamente ela se foi, levando consigo colado ao rosto um vinco de dúvida, uma ruga de medo e um sorriso envergonhado. Fechou a porta com pressa, deixando atrás de si, trancado comigo, seu perfume de adeus. Seu cabelo cor de mel balançava ao ritmo do desejo enquanto o sol que se punha cobria de ouro seu rosto de cristal. Depois daquele último encontro nunca mais a vi, e a saudade que deixou corrói feito zinabre. Quando voltou à noite para casa jogou sobre a mesa um boa-noite surdo junto com as chaves do carro e foi direto para seu quarto sem nada dizer. O adeus é um punhal cravado na alma.”

Sean O´Malley Jr, “The last Goodbye Forever”, Ed. Pancras, pag 135

Sean O´Malley Jr nasceu em Dublin em 1982 e passou toda a sua infância em Ballyfermot, um bairro de má reputação pela violência urbana e pelo tráfico de drogas. Seus textos iniciais, publicados em uma coletânea de sua escola – a St Dominic´s College – giravam em torno do cotidiano de seu bairro: drogas, garotas, brigas de rua, gangues e bebedeiras. Quando saiu do ensino médio e entrou para a University College in Dublin ocorreu um fato que mudou completamente sua vida e suas perspectivas: o acidente de ônibus em Hawk Cliff que vitimou 4 de seus colegas que realizavam com ele uma excursão para a praia. A partir desse acidente – e sua longa estada no hospital com fratura na coluna – resolveu trancar o curso de Engenharia de Metais e percorrer uma trajetória na literatura. Escreveu seu primeiro livro de ficção apenas um ano após deixar o Rotunda Hospital e ainda em cadeira de rodas. Este livro teve boas críticas e se chamou “The View from Above” (A vista de cima). “The Last Goodbye Forever” foi seu terceiro livro, e mistura contos, crônicas e poesia. Vive em Skibbereen com sua esposa Maggie.

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Fúria

Ele voltou o olhar para ela logo após seu desabafo. Dos olhos dela fugiam faíscas luminescentes de indignação. Não havia nenhum ensejo de paz enquanto o corpo de Adélia se projetava à frente e seus lábios cuspiam dor e ressentimento. Não pensou sequer em dar o abraço que ela tanto precisava; naquele momento de dor seus braços seriam os polos magnéticos opostos ao dela. Limitou-se a falar.

– Como poderia eu retirar-lhe o ódio, único alimento possível para sua alma sofrida? A mim não cabe criticá-lo, Adélia, apenas permitir que sua energia se gaste lentamente, como o fogo que se vai quanto mais incandesce. Impedir sua raiva é ignorar o quanto ela ainda lhe protege. Sua cólera cega lhe resguarda do seu maior medo: a culpa. Enquanto você carregar seu ódio com tanto cuidado e tratar dele com tanta ternura, sua culpa se manterá adormecida.

Lançou para Adélia seu derradeiro sorriso, e deixou para ela uma pergunta, da qual se seguiu um silêncio.

– Que direito tenho eu de despertar o monstro da sua culpa? Como permitir que o silêncio dos seus ódios faça acordar o mal que tanto esconde? Como roubar a muleta que lhe sustenta, Adélia?

Adélia ofereceu apenas o vazio como resposta.

Babette, “Adélia e outros contos”, ed Paris, pag, 135

Babette foi um escritor francês, nascido em Lyon em 1910, tendo morrido em Montpellier em 1991, em decorrência de um câncer. Na verdade, esse era o pseudônimo de Jean Michel Garrot, um jornalista e ex militar do exército francês, que escreveu por muitos anos para jornais e revistas femininas com o pseudônimo “Babette”. Foi um dos mais conhecidos escritores franceses da primeira metade do século XX. Entretanto, apesar da fama e da razoável fortuna, podia passear despreocupadamente por qualquer cidade francesa, já que sua identidade só foi revelada pouco antes de morrer. Começou escrevendo para o diário vespertino Journal de Lyon, respondendo perguntas de mulheres sobre casamento, filhos, educação e até moda. Sua formação em jornalismo, na Sorbonne, havia lhe garantido uma escrita elegante e sofisticada. Durante muitos anos manteve a sua coluna no jornal e algumas revistas femininas, até que Babette/Jean Michel resolveu se aventurar pela literatura. Para isso começou a escrever o que se convencionou chamar “pornografia feminina”, que são histórias românticas, cheias de reviravoltas, com ciúme, desconfiança, traição e a redenção amorosa que, via de regra, ocorria no epílogo de suas novelas. Passou a publicar no formato de “pocket books” nas bancas de jornal, com o nome genérico de “Babette” seguido do nome da história específica, como se fossem os capítulos de uma imensa série de narrativas. O sucesso foi rápido, e imediatamente se tornou a literatura preferida de meninas adolescentes que corriam às bancas quando havia o lançamento de uma nova edição. Babette se tornou extremamente popular e 230 exemplares foram publicados desde que o folhetim se iniciou, sendo traduzido em inglês, espanhol, alemão e italiano. As histórias eram repletas de elementos clássicos da fantasia feminina: jovens militares, homens da aristocracia, sogras invejosas, patrões maldosos, jovens pobres de bom coração e ricos perversos e traiçoeiros. Durante anos a identidade de Jean Michel foi mantida como um segredo pela sua editora, que tratava este mistério como uma peça de marketing. Em 1978 uma mulher chamada Isabelle Marie Deschamps afirmou que havia escrito as novelas de Babette, tendo alguns minutos de fama na TV francesa. Todavia a farsa durou pouco tempo, pois provou-se que ela era uma farsante, o que foi confirmado pela editora Paris, dona dos direitos autorais. A verdadeira identidade de Babette foi revelada no programa “Un nuit a Paris”, para o famoso apresentador e jornalista Maurice Lefévre. Num domingo à noite em 1988, Babette apareceu por detrás de uma cortina num estúdio de televisão e a França inteira se surpreendeu com a figura de um homem de 70 anos de idade, baixa estatura, cabelos brancos e usando óculos, que durante décadas cativou com sua escrita a atenção das meninas da França e de vários países de língua francesa. Na entrevista, Jean Michel disse que, apesar de gostar das vantagens do anonimato, era hora de revelar o segredo tão bem guardado. Naquele mesmo ano ele recebera o diagnóstico de um câncer pulmonar que, por fim, o levaria à morte poucos anos depois, e por isso achou que era o momento adequado de se revelar. Quando questionado sobre de onde retirava material para tantas histórias escritas respondeu que os anos que trabalhou como colunista de assuntos femininos no Journal de Lyon colecionou milhares de cartas de leitoras sobre seus assuntos pessoais, suas dúvidas, suas angústias e seus medos, mas também de seus sonhos, alegrias, conquistas e fantasias. “Meus livros são a mistura das histórias de milhares de mulheres, cujas vidas estão nas personagens dos meus livros, como peças de um quebra cabeças imenso e complexo”, disse ele. Jean Michel foi casado com Augustine Garrot e teve 4 filhas: Marie Claire, Dominique, Josephine e Arlene. Morreu em 1991, e está enterrado no cemitério de Montpellier.

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Anjos

Esta história sempre me ocorre quando me falam dos anjos, dos milagres e das circunstâncias em que eles ocorrem. Há muitos anos atrás fui convidado para uma festa de aniversário. Não sou muito chegado a estas comemorações, mas como se tratava do primeiro ano de vida de um bebê de uma querida amiga, aceitei de bom grado. Seria a oportunidade de encontrar pessoas diferentes e escutar o que elas têm para contar. Pois nesta festa de aniversário ao me servir de cerveja ofereci para completar a copo do rapaz que estava ao meu lado, o qual não conhecia. Só depois vim a saber que se tratava de um amigo de longa data da mãe do aniversariante. Quando mostrei a intenção de despejar a cerveja no seu copo ele fez um sinal de “não” com a mão espalmada à frente, e junto com a mulher ao seu lado sorriram e se olharam, como se por trás deste gesto houvesse uma piada interna, que só eles entendiam.

Fiquei um pouco desconcertado, e ri apenas para acompanhar o humor do casal. Vendo que eu estava intrigado, ele educadamente me explicou a razão do sorriso que ambos compartilharam, e nos minutos que se seguiram ele me contou uma história fabulosa, dessas que ficam na cabeça da gente e não esquecemos jamais.

– Eu não bebo, obrigado, disse ele. Parei há muitos anos, graças a um anjo que Deus colocou na minha vida.

Olhei imediatamente para a loira de traços formosos ao seu lado, mas ele me interrompeu.

– Não, por favor. Não se trata deste anjo. Foi bem antes de conhecê-la. Foi um anjo menos formoso.

Muito menos, emendou ela.

Minha curiosidade só aumentava, e se ele não continuasse com seu relato eu seria obrigado a lhe implorar. Ele se aprumou na cadeira e resolveu me contar a história de sua decisão de não mais beber. Uma história que me fez pensar nos caminhos tortuosos que empreendemos em direção ao crescimento. Ou ainda, as lições que a vida nos dá e da necessidade de estarmos preparados para recebê-las.

– Bem, eu parei de beber há 10 anos, disse ele. E eu bebia muito. Muito mesmo. Frequentava festas e bailes e só parava de beber quando o dia amanhecia. Era absolutamente inconsequente e irresponsável com a bebida, mas infelizmente não tinha forças para lutar contra isso.

– Minha vida era uma sequência de bebedeiras, continuou ele. Incontáveis incidentes constrangedores, inúmeros vexames. Mais de uma vez fui acordado por um policial quando me encontrava dormindo ao volante parado em um cruzamento. Sim… eu pegava no sono no pequeno espaço de tempo que separava o sinal vermelho do verde.

O rapaz ao meu lado continuou a me contar uma triste série de ocorrências que colorem com tintas lúgubres a vida de qualquer alcoolista.

– Mas eu sempre achava que poderia parar quando quisesse, compreende? Eu achava que algum dia Deus me mandaria um anjo que me abriria os olhos, para que eu pudesse enxergar o que eu estava fazendo com a minha vida, que se desfazia em minhas mãos como um sorvete ao sol.

– E Deus mandou, disse a mulher ao seu lado, com um sorriso…

– Sim, continuou. Num sábado à noite. No baile que eu sempre frequentava. Eu já havia bebido todas, já havia vomitado, já havia feitos os vexames habituais, já tinha me indisposto com os seguranças. O normal dos sábados de festa.

– Foi então que eu resolvi tirar uma linda mulher para dançar. Ela talvez não tenha visto o quão embriagado eu estava, ou talvez não quisesse parecer antipática. Por uma razão ou por outra aceitou o convite e fomos para a pista. Lá chegando eu devo ter dançado talvez uns poucos minutos, e aí a minha memória se embaralha. As coisas parecem enevoadas, os fatos se misturam às emoções. Palavras se confundem, ficam quebradas ou torcidas. É difícil reconstituir tudo o que aconteceu. Mas, foi neste instante que o meu anjo apareceu…

A face do meu amigo se fechou. As sobrancelhas se arquearam para baixo. Sua voz ficou mais pausada e densa.

– Gigantesco, é o que diz a minha réstia de lembrança. O anjo prateado que eu tanto pedi me fosse enviado puxou-me pelo ombro e desferiu um golpe certeiro no meu rosto, quebrando de forma instantânea uma fileira inteira de dentes, partindo a minha mandíbula em dois, transformando meu rosto em uma maçaroca de sangue, ossos partidos e álcool.

Meu anjo salvador era o noivo da moça com quem eu estava dançando. Acordei uma semana depois. Havia realizado várias cirurgias de reconstrução da face. Perdi todos os dentes inferiores do lado esquerdo. Por meses usei um aparelho para fixar a mandíbula. Perdi 20 quilos, por não poder comer, a não ser sopas e sorvetes. Perdi meu emprego, mas acho que eles apenas estavam esperando alguma razão para me demitir e quando retornei da licença médica fui logo informado do meu desligamento. Mas… aquele baile de sábado à noite foi a última vez na vida que eu bebi. Aquela tragédia, que poderia ter sido pior ainda, me fez descer ao poço da minha vida. Finalmente, através da dor e da vergonha, eu pude enxergar com clareza para onde a bebida estava me conduzindo. Mais do que as dores físicas, o fracasso e a vergonha me corroíam o espírito. Foi apenas depois de atingir o fundo é que meus pés puderam realizar o movimento de volta, de retorno à superfície. Eu agi como o “pescador de pérolas”, que só consegue o impulso para subir após tocar o leito do mar.

Nunca mais toquei em uma bebida. Sei que ainda sou um alcoolista, mas não sofro mais pelo meu vício. Aquela noite selou o meu futuro. Eu sabia que Deus um dia ia ouvir minhas preces. Encontrei meu anjo agressor por acaso em uma churrascaria, alguns anos depois. Nunca pensei em processá-lo, apesar de ele ser muito rico e dono de uma rede de casas noturnas. Ele se aproximou de mim e pediu desculpas. Disse que não se imaginava tão forte e que não pretendia me machucar tanto. Ficou sabendo por amigos do que havia acontecido comigo, mas não teve coragem de me visitar no hospital. Disse que eu não devia ter “passado a mão” na noiva dele, que inclusive era a sua atual esposa. Só naquele momento me dei conta que eu estava tão bêbado que nem notei como devia estar abusado.

Eu olhei para ele e disse:

– Pois você em imagina como aquele momento foi transformador para mim. Por mais maluco que isso possa parecer, eu queria lhe agradecer. Você salvou a minha vida. O grandalhão, obviamente, achou que eu estivesse debochando, mas meu sorriso era tão sincero que foi obrigado a acreditar. Levantei-me da cadeira e lhe dei um abraço. Ele sorriu sem jeito, despediu-se e nunca mais o vi.

Os anjos desaparecem depois dos milagres, pensei eu…

– Mas Deus, na sua bondade, concluiu ele, ainda tinha mais um anjo para colocar em minha vida.

Aí a linda loira sentada ao seu lado levantou-se e disse “Se dessa vez não for eu, vai levar porrada !!!

E caíram na gargalhada…

Lembro desta história e fico pensando: será possível – mesmo com um bocado de esforço – suplantar as questões mundanas e observar as dores, os sofrimentos e mesmo os martírios de um plano mais elevado? As vezes eu penso nas pedras com as quais nos deparamos no nosso caminho desta forma meio bizarra. Não fosse aquela pedra que me jogou ao chão talvez eu jamais soubesse o valor do equilíbrio. Não fosse aquela injustiça que sofri eu jamais entenderia o valor de ser justo. Não fosse a ofensa contra mim disparada eu nunca compreenderia o valor da serenidade. Não fossem os meus detratores e eu jamais aprenderia o que sei hoje. Não estou descriminalizando as atitudes de quem quer que seja: elas continuam equivocadas. Não se trata disso, até porque perdoar não é o mesmo que absolver. Perdoar é acima de tudo entender o outro, e colocar-se no seu lugar. Perdoar é olhar o outro como se estivesse olhando a si mesmo. Portanto, eu creio ser possível agradecer mesmo àqueles que nos fizeram mal pois, mesmo que por linhas tortas e através dos seus próprios erros, eles ajudam a consolidar a pessoa que somos. Eles podem ser os anjos que tanto pedimos, mas para que eles nos auxiliem precisamos estar preparados para aprender as lições. Mesmo as mais duras.

Martin Diaz Molina, “Cuentos de la Noche Fria”, Ed. Alzugaray, pág. 135

Martin Diaz Molina é um escritor espanhol nascido em Almería, em 1975. Escreve basicamente contos e histórias curtas, tendo sido premiado em vários concursos literários, como o “Premio Literário Jovem Andaluz”. Dedicou-se à literatura infantil e ao desenho até que lançou seu primeiro livro de contos adultos, com histórias na primeira pessoa que recolheu durante a sua vida na Espanha. Além de contista, Martin é professor de literatura e é representante distrital pelo partido “Podemos”. É casado com Amália Sotero e tem dois filhos, Javier e Edoardo.

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Matilda

Edgar, meu colega e superior hierárquico, ajeitou seu chapéu de feltro sobre a cabeça e com as mãos me fez um sinal de pressa. Abriu a gaveta chaveada de sua escrivaninha e mostrou os papéis que ali estavam guardados. “Aqui nessa pasta podes ver os detalhes do caso. Precisamos chegar a tempo. Todos nos aguardam. Vamos imediatamente para a mansão da viúva”

Meu chefe entregou a pasta enquanto o carro nos levava para o subúrbio mais rico e sofisticado da cidade. A pasta do caso em questão, o envelope “145”, jazia sobre o meu colo. Abri com cuidado e lentamente a cartolina que lhe servia de capa e li a primeira página até chegar no nome dos envolvidos. Nesse instante eu me assustei ao constatar a brutal coincidência, que apenas as confluências coordenadas pela Deusa Álea – a divindade dos fatos aleatórios – são capazes de produzir. Estávamos nos dirigindo à casa de Matilda Malamud, uma antiga namorada, com quem tive um breve romance há décadas.

Matilda era uma das herdeiras da fortuna de um advogado famoso dos anos de chumbo, que ganhou notoriedade libertando presos políticos e lutando em prol das liberdades democráticas. Matilda era linda, madura e muito rica, nos limites da obscenidade que o acúmulo de dinheiro produz. Por essas razões sempre foi cobiçada pelo “jet set” da cidade. Nosso romance havia sido breve, mas intenso. Foi sério a ponto de fazermos planos, de pensarmos em filhos e, por isso, tive oportunidade de conhecer suas irmãs e sua mãe, esta última há muitos anos viúva. Não deu certo: seu estilo de vida sofisticado e perdulário jamais se acomodaria a um estudante de classe média baixa e filho de funcionário público. Resolvi terminar com tudo antes que nossa vida se tornasse insuportável e atormentada. A coincidência se tornou ainda mais aterradora quando me dei conta que estaria encontrando uma ex-namorada milionária sem qualquer preparo emocional para isso. O que poderia ser mais aterrador que isso? Acho que apenas a roupa que eu estava vestindo. Aos poucos íamos nos aproximando da mansão que ocupava uma quadra inteira próxima do centro da cidade. Quando namorei Matilda imaginava que seria necessário um ano inteiro de trabalho apenas para pagar o IPTU dessa propriedade. Jamais um proletário como eu poderia participar do seu círculo de amizades. E o que faria eu das minhas ideias socialistas? Colocaria no lixo meus sonhos de igualdade e fraternidade em nome de conforto, luxo, facilidades e uma paixão? Deixaria de lado tanto os princípios quanto a firmeza de ideias?

Finalmente chegamos à sua casa onde um empregado de uniforme nos recebeu na imensa porta de entrada, que deveria ter mais de 4m de altura. Edgar informou de nossa missão oficial e mostrou o documento. O empregado olhou para o papel e depois me analisou de cima a baixo, com um olhar que misturava desprezo e desconfiança.

“Os senhores estão sendo aguardados. Por favor, me acompanhem”.

A Mansão

Que situação! Por alguns instantes nutri a esperança de que Edgar me deixaria aguardando no carro enquanto ele pegava as assinaturas necessárias, mas não foi o que ocorreu. Lá estava eu, reencontrando a mansão que já havia visitado na juventude. Confesso que cheguei certa vez a brincar em pensamento dizendo em solilóquio que “aquilo tudo um dia seria meu”. Mas eram apenas devaneios, sonhos juvenis. Bem tinha razão o mestre ao dizer que os sonhos não o são como os sonhamos. Um sonho é como um emaranhado de fios que correm dispersos para qualquer lado. Seus significados são quebrados, partidos, inconstantes. Somente ao contá-lo é que podemos enrolar os fios disparatados e criar um novelo de coerência. Contar um sonho é revivê-lo, descobri-lo, entendê-lo em suas filigranas e minúcias. Os esquecimentos, bem… estes são os melhores e mais importantes momentos, mas que – por obra do inconsciente – ficam escondidos de nós mesmos. Continuei caminhando pela mansão e reparando nos móveis finos, as luminárias, os assentos delicados de época. Depois de caminhar longamente por um corredor interminável, ciceroneados pelo empregado impecavelmente vestido com uniforme, Edgar e eu finalmente chegamos a uma porta de mogno maciço. Por trás da porta era possível escutar o borbulhar de risadas, falas incompreensíveis e conversas alegres. Quando ela se abriu fomos banhados pela luz radiante do ambiente e pelo aroma do vinho. Edgar e eu entramos na sala iluminada enquanto vozes silenciavam e olhares se voltavam para nós. Ao que tudo indica, nossa presença era esperada como algo que iniciaria os procedimentos, sejam lá quais fossem. A primeira pessoa que se aproxima de mim é Helga, a irmã mais velha de Matilda.

Helga

“Eu não acredito! Eusébio, é você? Você está bem apesar de….” Ela olha para minha cabeça que reflete a luz que vem do majestoso candelabro de cristais checos cintilando acima de minha lustrosa testa.

“Maduro”, respondi para ela com um sorriso tímido. “Sim, Helga. Faz muito tempo que não nos vemos. Como está? E os negócios, estão indo bem?”

Eu não parava de pensar nas minhas roupas desalinhadas, incompatíveis com o ambiente, mas os passantes pareciam não se importar ou mesmo se dar conta disso, e Helga menos ainda. Talvez pensassem que éramos empregados, e os serviçais são sempre invisíveis, Circulam como insetos por entre os burgueses, e deles não desejamos que nos mostrem qualquer aspecto humano, por mais simplório que seja. Perguntei a Helga dos “negócios” porque é isso que se pergunta para uma mulher solteira e sem filhos. Helga nunca havia se casado, apesar de ser uma bela mulher, dotada de inteligência e humor refinados. Era outra cerejinha colocada no bolo das solteiras desejadas da cidade, mas aparentemente ninguém era capaz de passar pelo seu crivo. Problemática? Exigente? Não haveria ninguém nesse mundo para ocupar o lugar do comendador Faustino, seu falecido pai, no coração dessa mulher? O comendador Faustino, aliás, era uma presença ilustre na sala, apesar de ter morrido há 3 décadas. Havia no ambiente pelo menos três imagens suas. Em uma delas está vestido com um traje aparentemente militar; em outra andando a cavalo na fazenda, e em uma terceira fotografia está ao lado da mulher e das três filhas pequenas. Uma quarta, descobri depois, era uma foto de corpo inteiro com uma beca especial usada para uma cerimônia da Maçonaria. O comendador ainda era citado na cidade como benfeitor, humanitário e “homem de princípios”.

Helga perguntou da minha vida, do que fazia, mas o “chit-chat” não se aprofundou em tema algum. Ao meu lado passavam pessoas distintas, homens de negócios, senhoras muito bem vestidas, com longos vestidos de tafetá. Todas interrompiam a conversa para abraçar Helga. Enquanto cumprimentavam Helga consegui vislumbrar em um canto da sala um homem trajando um uniforme azul com encordoamento trançado no peito e uma gola vermelho sangue reluzente, com bigodes apontando para cima, a lá Salvador Dali. Ele se ergueu e cumprimentou uma senhora com toda a pompa e circunstância. Parecia ser um oficial da Prússia no tempo de Frederico. Os senhores eram verdadeiros fidalgos, isto é, “filhos-de-algo“, gente bem-nascida, com posses, “burgeois” de estirpe. Ao contrário de mim e de Edgar, gente com “pedigree“. Depois de palavras que ficaram perdidas na conversa com Helga, pequenos nós no novelo que eu montava a partir dos fios emaranhados de lembranças, acerquei-me de um ponto mais à esquerda, onde estava Sophia, a irmã mais nova de Matilda.

Sophia

A sala era uma obra de arte escondida dos olhares invejosos dos cidadãos comuns da cidade. “Algo para o gosto refinado de quem conhece arte”, pensei. Para todo o lado que eu olhasse percebia luxo, requinte, sofisticação e bom gosto. As cortinas de um vermelho escuro aveludado eram adornadas com detalhes dourados. As janelas enormes enfeitavam as paredes, em salas cujo pé direito subia majestoso, arrancando nossos olhos do chão com a promessa de perder o teto de vista, humilhando ainda mais a minha pobre figura, vestida de forma patética. Quando avistei Sophia minha memória imediatamente me ligou à cunhada com quem brevemente convivi. Era a mais moça das irmãs e a mais geniosa, por certo. Alegre, esfuziante, intensa, porém ciumenta, birrenta e geniosa. Era a mais esperta de todas, mas carregava a cruz de ser a mais novinha, a caçula. Como era de se esperar, era a mais ligada à mãe. Além disso, Sophia era sedutora e provocante, e adorava provocar ciúmes nas irmãs com comportamentos, digamos, abusados, quando seus cunhados (ou pretendentes a tal honraria) apareciam na sua casa.

Ela continuava bonita e igualmente sedutora, sem dúvida. Apesar dos meus trajes deslocados do ambiente ela facilmente me reconheceu, mas – ao contrário do que seria esperado – não me tratou como uma figura bisonha incrustada em uma espécie de “baile de gala”. Não, ela me tratou como um convidado qualquer que apareceu de surpresa na festa de sua casa.

“Eusebinho, como vai? Parece que os anos lhe fizeram bem. Ficou bem melhor sem a barba, apesar de que eu gostava dela. Lembro de pedir para você cortar, mas era apenas para fazer birra com Matilda. Sua mãe como está?”

Respondi às suas perguntas de forma breve e sucinta, mas a maior parte da conversa que tivemos depois dessa breve apresentação se perdeu no novelo das memórias, ou eram ideias desconexas demais, feitas de assuntos diversos e sem ligação óbvia com o contexto. Assim são os encontros inesperados, que se revelam muito mais pelo que não dizem do que pelo que é expresso. Minha atenção agora se dirigia para o centro do salão. Por trás de um grupo de convidados que a cercavam estava a figura central de toda aquela cena: a matriarca, senhora Efigênia Malamud.

Efigênia

Foi necessário um pouco de esforço para me aproximar e aguardar a saída das pessoas que rodeavam a “viúva”. Efigênia, a esposa amantíssima do comendador Faustino, era o que sobrara de realeza na burguesia nacional. Ao seu redor não estavam amigos e parentes; aglomeravam-se súditos para cumprimentar uma dama, a mais nobre das mulheres daquela sociedade; uma celebridade local. Com um pouco de esforço, e a ajuda de Edgar, conseguimos nos acercar da matriarca. A “viúva” mantinha-se assediada por senhoras, crianças de vestidos rodados e senhores distintos. Estava sentada em uma cadeira enquanto sorvia uma xícara de chá. Tudo naquela mulher inspirava nobreza – e soberba. Ela parecia perceber claramente sua superioridade diante da mediocridade que a cercava. Acostumada a ter criados, serviçais, políticos locais, médicos e juízes sob seu controle, ela vestia uma aura de confiança inabalável. Para minha surpresa, apesar dos anos passados, ela se lembrou de mim quando me aproximei.

“Ora, ora, ora. Quem é vivo sempre aparece. O estudante sabichão. Eusebinho, como vai? Há muitos anos que não apareces em minha casa. Você fica bem sem a barba, mas ninguém pode negar que continua dono de um estilo inconfundível”. Sem surpresa ela foi a única a fazer um comentário sobre a minha roupa. Meus olhos saem do enquadramento do seu rosto magro e agudo e voltam a focar nos meus jeans surrados e a camiseta polo. Fico constrangido mais uma vez, mas aceito meu destino. Conformado, aceito o descompasso de estilos na esperança que alguém, no futuro, possa traduzir isso como “originalidade”.

“Não diria que sofri quando você se afastou de Matilda, seria um exagero. Entretanto, entendi que eram jovens demais, imaturos e impulsivos. Foi bom assim. Além disso, vocês eram muito diferentes. Digo, você era um rapaz de cidade e Matilda foi criada na fazenda, com regalias e mimos. Seria uma adaptação complexa. E sua mãe como vai?”

Sim, madame Efigênia. Diferentes demais para que pudessem estar lado a lado. E as diferenças não se resumiam a “uma vida cheia de facilidades e mimos”, pode ter certeza. Para mim sempre faltou a tonalidade azulada no sangue, coisa que sua filha do meio possuía em quantidade; mais de cinco litros em circulação. A viúva jamais aceitou que o “filho do funcionário público” – que era como secretamente se referia a mim, segundo os empregados me confidenciaram – ousasse namorar a filha do comendador. “As elites não suportam aventureiros”, pensei eu quando há muitos anos me despedi de Matilda pela última vez. Falei para Efigênia de minha mãe, suas dificuldades, a sua idade e a dedicação de meu pai a ela. Ela sorriu e pediu que me sentisse à vontade. Perguntou a uma amiga próxima onde estaria Matilda, mas esta respondeu que não a havia visto desde o início da recepção. Edgar abriu seu envelope e solicitou algumas assinaturas para a “viúva”, e eu fui lentamente me afastando após me despedir de maneira formal.

A mãe de Matilda sempre representou para mim o ocaso da “Casa Grande”. Sua mansão recheada de empregadas uniformizadas, invariavelmente negras, era como uma volta ao passado mais remoto dos canavieiros de São Paulo, quase uma pintura de Jean-Baptiste Debret. Todavia, seria um exagero dizer que Efigênia era malévola ou de má índole. Não, ela era apenas a herdeira de um mundo de desigualdades, cruel e injusto. Não foi ela quem criou a sociedade em que uma pele escura tira o valor humano de quem a veste, muito menos um mundo onde o dinheiro compra tudo, até o silêncio.

Nunca guardei mágoa ou rancor de Efigênia, mesmo sabendo como ela se referia a mim. Tivesse eu nascido em berço de ouro seria diferente? Tivesse eu sido criado em um mundo onde a riqueza é o valor máximo, teria permitido que um pé rapado se aproximasse de minha filha? Creio que somente calçando os sapatos Gucci de salto agulha da viúva do comendador e caminhando com ele mil vezes mil quilômetros seria possível saber como agiria, se também eu tivesse nascido com o sopro de fortuna dos herdeiros. Minha atenção agora se voltava para o outro lado da sala, onde um sujeito de terno cinza e sapatos marrons estranhamente desajeitado segurava um copo de vinho.

“É ele”, disse Edgar. “É o marido de Matilda”.

Heitor

“Sim”, disse Edgar com a inexpressividade intacta. “Precisamos falar com ele e conseguir as assinaturas. Além disso temos que acompanhá-lo aos seus aposentos, para garantir que estará só”.

“Certo”, disse eu, mesmo sem ter a menor noção do significado de acompanhar um indivíduo onde ele ia dormir para certificar-se de que estará sozinho. Afinal, o que isso nos interessa? Para que precisaríamos de comprovações num caso de separação? Houve alguma nova ameaça de agressão? O acusado pretende fazer algo nessa recepção que demande a nossa intervenção? O que estamos realmente procurando? Fomos lentamente nos aproximando do grupo de homens maduros até que o sujeito com o vinho na mão se voltou para nós.

“Boa tarde Sr. Heitor. Sou o comissário Edgar e vim fazer a fiscalização de que as determinações judiciais estão sendo cumpridas de forma correta e adequada. Nos perdoe por interromper a sua conversa, mas precisamos de sua assinatura em alguns papéis. Tenha a bondade, por favor”. O homem de terno cinza e estranhos sapatos marrons levantou-se do braço da poltrona onde estivera recostado e segurou os papéis que Edgar lhe ofereceu. Colocou a mão dentro do casaco e puxou uma caneta Montblanc. Sim as pessoas que circulavam no universo de Efigênia, como satélites do seu poder, não são moderadamente esnobes; elas avançam o quanto podem nesta direção. Só então, quando se preparava para assinar, ele se vira para mim com curiosidade. Edgar resolve me apresentar.

“Pois este é Eusébio, meu colega. Ele veio me acompanhar nas diligências. Desculpe não o ter apresentado antes”.

Heitor sorriu discretamente, mas fixou o olhar em mim. Ele era alto, pelo menos mais alto que eu, e tinha uma vasta cabeleira castanho-claro. Já aqui havia dois pontos suficientemente humilhantes contra mim. Sim, sei o quanto isso pode parecer ridículo, principalmente em se tratando de um encontro inesperado, mas fiquei medindo nossas qualidades e virtudes. Afinal de contas, Matilda havia casado com esse sujeito e ele deveria ter qualidades que me faltavam, ou não possuía os múltiplos defeitos que cultivo com especial apreço, tal qual as borboletas na gaveta de Frederick Clegg, esperando o momento certo para sequestrar a bela Miranda.

Heitor era uma mistura de Donald Trump e Stephen Fry: a cara do primeiro e um pouco do cabelo do segundo. Sei o quanto esta mistura fica terrível quando se imagina, mas ele talvez tivesse combinado o melhor dos dois. Era corpulento e um pouco desajeitado. Tinha uma próspera barriga, mas não a ponto de derrubar objetos ou impedir que os casacos se fechem. Mas o terno cinza, definitivamente não combinava com o sapato marrom de bico arrebitado, formando uma curva para cima que mais parecia a sapatilha de um arlequim. Heitor ficou me olhando fixamente, como a tentar me reconhecer, enquanto sua caneta Montblanc permanecia estática no espaço, apontando para uma taça de Clericot que repousava na mesa em frente.

“Eusébio, não? Eu creio que conheço você.”

Sorri amavelmente. “Não creio, senhor Heitor. Não sou da cidade. Creio que estive aqui há muitos anos. Provavelmente está me confundindo com alguém. Meus irmãos sempre me diziam que eu tinha “cara de balaio”, pois muita gente se parece comigo”. Heitor continuou a me olhar de forma firme. Suas sobrancelhas se aproximaram e seus olhos se apequenaram.

“Eusébio, você escreve. Eu sei que você escreve. Você é uma espécie de escritor.”

Aparentemente Heitor me conhecia, mas por quê? O que faria se interessar pelo que eu escrevia? Fiquei um pouco constrangido, menos por ele saber quem eu sou, e mais por estar falando com alguém que desconhecia por completo, mas que foi casado com minha ex-namorada de faculdade.

“Vou te dizer o que penso da arte de escrever. Se você tiver uma dor que torture o suficiente, será possível verter para…

Nesse momento ele foi interrompido por Edgard, que o avisou que deveria se dirigir aos seus aposentos, o que configuraria a última etapa da nossa tarefa de fiscalização. Ele se desculpou com o comissário, assinou os papéis sem lê-los, colocou na pasta de cartolina e pediu que eu o acompanhasse. Nesse momento é que eu percebi que ele se parecia com outro personagem significante para mim. Ele me lembrava o filho mais novo de Adélia, a mulher fatal com sua cigarrilha dourada. Sim, o filho que testemunhou o ato fatídico e que, em sua inocência, precipitou a tragédia. Mas, lembrei de novo, Adélia é outra história a ser contada.

Heitor segurou o meu braço e nos dirigimos à porta de mogno maciço por onde eu e Edgar entramos. Caminhamos vagarosamente pelo interminável corredor adornado por obras de arte até chegarmos ao jardim interno da mansão. Durante este período Heitor mantivera-se quieto caminhando ao meu lado, mas ao chegarmos ao jardim começou um longo discurso sobre assuntos variados, da política ao futebol. Ele não parecia um burguês falando: falava como se fosse um advogado interessado em muitos assuntos, como se pelas suas mãos houvesse passado um grande número de casos, os quais havia defendido com fervor e paixão. Não usava nenhuma linguagem técnica, mas gesticulava com desenvoltura e interesse. Durante a travessia do belíssimo jardim ele me contou que já havia lido muitos livros sobre política, incluindo algumas crônicas que eu havia escrito, mas que tinha algumas críticas a fazer.

“Fique à vontade, disse eu”, mas não foi possível pois a empregada nos comunicou que o Sr. Heitor deveria ficar no quarto 25, e que era preciso dar a volta mansão para chegar aos aposentos.

Isso significava que teríamos que sair da mansão, dar a volta na imensa casa central e procurar os apartamentos de casas idênticas que faziam o limite interno da propriedade. Imaginei que aqueles pequenos apartamentos foram um dia criados para acomodar viajantes de fora, mercadores de cana de açúcar, negociantes, vendedores de mercadorias. Por uma questão de segurança estes locais não tinham conexão interna com a Casa Grande, sendo acessados por fora. Saímos pelo portão principal e dobramos à direita, e novamente, para termos acesso ao flanco onde se encontravam enfileirados os apartamentos. Eles eram simples, como se fossem casas de operários ingleses. Uma porta que era acessível por quatro lances de escada, e uma janela da mesma cor. A empregada que nos guiava levava consigo as chaves e parou bruscamente quando viu a placa com o número 25 sobre a porta esverdeada. Heitor me convidou a entrar, enquanto outros empregados colocavam a pouca bagagem do convidado na sala estreita. Edgar nos acompanhou, junto com as duas empregadas, que se apressaram a entrar no quarto para ver se a cama estava arrumada e se havia sabonetes e papel higiênico no banheiro.

“O senhor Heitor deveria ter ficado no “23” mas a porta de lá está trancada”.

“Como”, perguntei eu? O que houve com a porta do quarto 23?

“Foi como eu disse. Não há como ir para lá, mesmo que o quarto esteja mais apresentável e seja levemente maior, mas o problema é a porta emperrada

Percebi que por duas vezes havia tentado entender a explicação que ela dera sobre a porta, mas a razão por ela estar inacessível me faltou à compreensão. Interpretei, em meus pensamentos, que se tratava de algo planejado. Talvez houvesse algo no quarto 23 que não deveríamos ver. O fechamento da porta do quarto 23 não estava ao meu alcance ou acessível à minha compreensão. Fiquei curioso com este fato, mas decidi que seria inútil insistir. Edgar olhou para mim e exclamou quase cochichando: “Espero que tenhas aprendido a sua função, Eusébio. Nosso trabalho se insere no mundo real, onde encontramos a crueza das ações, suas dificuldades e imprevistos. Nossa atividade sempre nos coloca em contato direto com a realidade, mesmo que ela pareça dura e pesada”.

Sim”, pensei eu. “Que dureza conseguir algumas assinaturas em uma festa, filar uns canapés, beber uma taça de Champanhe legítimo em uma festa burguesa e acompanhar Sir “Stephen Trump” (Ou seria Donald Fry) até seu quarto, cuidando para que ele consiga se equilibrar em seus sapatos de menestrel loquaz. Ora, se isso é a “dureza da vida”, como poderíamos chamar os mineiros, escafandristas, policiais e jornalistas que cobrem os conflitos? Sorri, mas não permiti que Edgar pudesse ler meus pensamentos.

“Bem senhores, agradeço a companhia, mas preciso me recolher. Amanhã será a cerimônia de assinatura do divórcio e preciso estar com a minha cútis em ordem. Rá, rá. Espero que vocês tenham igualmente uma noite tranquila de repouso”. Agradeci as palavras de Heitor e o cumprimentei. “Ainda quero conversar mais sobre seus escritos”, disse ele ao apertar delicadamente a minha mão. Nesse momento, olhou para a porta e com um sorriso tímido nos disse: “Bem, vejo que terão companhia até a entrada da mansão. A senhora vai acompanhá-los”. Nos dirigiu um “Boa noite!”  e entrou em seu quarto. Olhei para a porta do chalé que estava atrás de mim e percebi a chegada da “senhora”.

Era Matilda

Matilda

De todas as personagens dessa minha breve visita a um passado de fantasia adolescente, a única por quem tinha uma angustiosa vontade reencontrar era Matilda e, curiosamente, foi a última que cruzou meu caminho. Matilda mantinha os mesmos adereços do passado remoto de quando a conheci. O sorriso maroto, a boca carnuda e vermelha, os olhos grandes e castanhos. Os cabelos ainda os mantinha grandes, apesar de ser agora uma mulher madura. Sua roupa era sóbria: um Tailleur de linho vermelho escuro por sobre uma blusa de seda branca, meias, sapatos pretos de salto alto, mas não altos o suficiente para me humilhar ou entristecer. Nas mãos joias, capricho que conservava desde a juventude, e que a riqueza proporcionava. As unhas de um carmim impecável, e na mão esquerda a marca cicatricial de uma aliança ausente.

“Eusébio, jamais imaginei que um dia você voltaria à minha casa. É um prazer recebê-lo. Seja bem-vindo e sinta-se à vontade”.

Olhei para Matilda com carinho, pois a percebi desarmada. Poderia ter se escandalizado com minha presença, ou até ultrajada. Afinal eu viera ali para testemunhar sua infelicidade, o cumprimento de uma determinação que tinha, como cerne, a mágoa tatuada na carne. Poderia ter se escondido, simulado um mal-estar, fingido uma enxaqueca. Nada disso; foi ao meu encontro e se apresentou com o mesmo sorriso encantador que conheci na juventude. Não havia nela rancor, nem ódio. Mas inegavelmente Matilda deixava claro um sentimento inequívoco: a tristeza. Seus olhos não conseguiam dissimular que estava dolorida, sabe-se lá por quais razões. A falência de seu casamento, a vergonha da violência doméstica, o abandono, o remorso e a sensação do fracasso de um projeto de uma vida.

“Como está sua mãe?”, perguntou ela. Parecia que Efigênia e suas filhas haviam combinado esta pergunta antes do dia iniciar, como todos os sorrisos seriam encenados, os cumprimentos, as ordens, as perguntas de praxe e os comentários espirituosos. Acho que a alta classe precisa dessas regras para que as máscaras não caiam e deixem a todos constrangidos. Respondi a ela de que minha mãe passara por dificuldades, a cirurgia, a lenta recuperação as falhas da memória e todas as agruras previsíveis dos octogenários. Ela sorriu e disse algo como “que bom que melhorou”, mas esta era apenas mais uma das frases simpáticas que ela havia ensaiado.

“Senhora Matilda”, disse Edgar, e emendou com a mesma solenidade inexpressiva de sempre: “precisamos partir”. Já fizemos nossa parte e nos asseguramos que o Sr. Heitor ficará neste chalé isoladamente até amanhã, quando a cerimônia com as assinaturas e testemunhas terá lugar aqui mesmo na mansão. Desculpe se causamos algum desconforto ou constrangimento, mas estávamos apenas cumprindo nossa obrigação legal. Peço que a senhora assine estes documentos para que nossa função possa se encerrar”. Matilda segurou os documentos que Edgar lhe estendia e, como todos os outros, os assinou sem sequer ler. Devolveu-os com um sorriso para Edgar que, em agradecimento, retirou o chapéu e fez uma reverência.

“É hora de ir”, repetiu o comissário.

Eu gostaria de poder ficar mais, tão somente para poder entender um pouco a vida de Matilda. Um estranho sentimento de culpa me invadiu ao ver o rosto belo e triste da ex-namorada. Sim, a culpa era toda minha. Eu fui embora, eu desisti. A distância – na geografia e nas classes – me impediu de sonhar com Matilda e com a vida com ela poderia compartilhar. Seus desacertos com Heitor talvez poderiam ter sido evitados se antes eu tivesse coragem, determinação, força e paixão.

Não, tolice minha. Efigênia tinha razão; Matilda era de Vênus, e eu de Plutão. Sorri para Matilda e fiquei sem saber o que dizer. “Adeus”? Mas foi assim que me despedi na última vez que nos vimos. “Até mais?”, ora, quanta falsidade. Pior que isso apenas um “até breve”.

“Bem, eu vou indo Matilda. Foi bom te ver”, e essa foi a escolha que fiz nos segundos que me cabiam para decidir.

Ela sorriu e se aproximou de mim. Abraçou-me com ternura e tristeza. Chegou-se ao meu ouvido e sussurrou: “Nunca esqueci”. Seu corpo se distanciou, mas seu braço permaneceu em meu ombro, abrindo levemente o casaco vermelho de linho. Enquanto seu corpo lentamente se afastava pude vislumbrar o drama que se escondia na alma daquela mulher. Por baixo da blusa de seda branca um volume anunciava o que até então eu não havia percebido.

Matilda estava grávida.

FIM

Max Trebrett, “Matilda e outros Contos”, Ed. Panamericana, pág 135

Max Trebrett é um escritor de contos e crônicas. Nascido de pais noruegueses, sua família chegou ao Brasil nos anos 50, fugindo do grande estrago nas economias europeias causado pela II Guerra Mundial e em busca de estabilidade. Max formou-se em Medicina no Rio Grande do Sul e dedicou-se à obstetrícia, tendo trabalhado por muitos anos nesta área. A partir do ano 2000 começou a publicar, em vários jornais, crônicas e contos de humor, em especial acontecimentos ligados à área médica, onde atuou por muitos anos em serviços de pronto atendimento. Seu trabalho inicial foi na publicação “Bisturis e Canetas”, uma coletânea de escritos de médicos dedicados à literatura, com o conto “O Círculo do Gelo”, uma peça humorística sobre a mania, à época, de enviar objetos para um grupo de pessoas que, em contrapartida, precisavam manter o círculo vivo, enviando para o sujeito próximo da lista. O sucesso deste conto lhe estimulou a escrever sobre outros temas, sem jamais deixar de lado a vertente do humor. Desta forma, passou a colaborar com outras publicações de médicos escritores tendo publicado em 2010 sua primeira coletânea de textos originais, intitulada “Max e o novelo”, onde conta suas histórias pitorescas entrelaçadas umas às outras, formando um cordão de fatos intrincados que não permite que as histórias se desconectem e cuja leitura se assemelha ao desenrolar de um novelo de lã. O conto “Matilda” surgiu de um sonho do autor, conforme ele explica no prefácio da obra. Ao despertar, muito assustado, resolveu colocar em texto os elementos principais para que não escapassem à memória. Explicou ainda que os personagens da história são versões de pessoas que de fato conheceu, porém os fatos narrados são fantasias sobre um reencontro possível entre ele e seu amor platônico, Matilda. A personagem central Matilda existe de verdade, mas a história de ambos não passou de um flerte passageiro e inconsequente. Todavia, a caracterização da sua família e dos que a cercam é muito semelhante à realidade. Max é casado com Dorothy, e tem duas filhas: Denise e Michaella. Mora em Porto Alegre, RS

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Ódio

Ódio

Não gosto o suficiente de você para lhe criticar, muito menos ofender. Sei que uma agressão de minha parte poderia ter como consequência – mesmo que teórica e improvável – uma reflexão e autocrítica suscitada em você. Entretanto, como meu ódio por você é visceral e incontrolável, usarei sobre si a mais mordaz das crueldades: ficarei em silêncio, calado e silente diante dos seus insultos e, assim fazendo, lhe condenarei a continuar exatamente onde está, imóvel e paralisado, infenso aos giros do tempo.

Wesley Hodgkin, “Wind of Time”, ed. Schummer Press, pág.135

Wesley Walter Hodgkin nasceu em Tulsa, Oklahoma e estudou na Booker T. Washington High School. Serviu na Força Aérea Americana após o término do ensino médio e morou em Ramstein, na Renânia, na base americana existente em solo alemão. Foi nesse período que escreveu seu livro de estreia, um romance que conta a história (segundo ele, baseada em fatos reais) da paixão entre um soldado americano e uma dissidente russa. “Nothing to Tell” (Nada a dizer) narra os conflitos éticos, morais e sexuais que se intensificaram com a guerra fria, mostrando o lado humano das diferentes ideologias e a perversidade inerente a qualquer de nossas relações afetivas. Em “Wind of Time”, seu derradeiro romance, ele descreve as agruras de um viciado em crack para dissolver dívidas do passado e resgatar o que lhe resta de vida. Foi casado com James Arlington, e teve dois filhos adotivos. Faleceu em 1994 de causas naturais.

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A Trágica História de Mastuf e Marisca

Mastuf, o pastor manco, tropicava pelas colinas e sonhava cortejar a bela Marisca, dona de olhos azuis tão cristalinos que mal nos apercebíamos da moldura que os rodeava, a sua face corada e brilhante, coberta pela franja resplandecente a lhe descer pela testa. Marisca trabalhava no Salão “Harod” no vilarejo de Kungrat. Todos os dias tirava leite de camelo para fazer o queijo que alimentava seus irmãos, limpava o estábulo, arrumava a mesa para o café – onde comiam o Tigrith, pão feito de cevada e azeitonas, e depois caminhava dois quilômetros até o centro da cidade, onde ganhava uns poucos trocados como esteticista. Era linda e meiga, mas muito infeliz, pois lhe faltavam duas coisas: um prendedor de cabelos de cor verde que havia perdido quando foi tirar água do poço e um grande amor em sua vida. Sempre fora cortejada, e por por muitos homens, mas jamais havia se decidido, pois eles apenas se interessavam pelo seu corpo e seu cheiro (as azeitonas do pão Tigrith lhe deixavam com um aroma inconfundível). Isso era pouco.

– Quero que me amem pelo que “sou”, dizia ela, mas poucos conseguiam entender o que uma menina podia querer além de um marido forte e trabalhador.

Mastuf podia ser este homem, pelo menos em suas próprias infindáveis fantasias. Ele sim via nela mais do que um belo par de ancas e uma franja sedutora. Ela era carinhosa com as crianças, em especial seus irmãos menores. Era gentil com os mais velhos e muito esperta. Dificilmente errava quando fazia um penteado ou aparava as unhas de uma cliente. Era hábil com o arado e boa cozinheira. Como não se apaixonar por uma mulher tão cheia de virtudes, belezas e atrativos? O aldeão um dia resolveu que seria o momento adequado para cortejá-la. Passando próximo ao salão em que ela trabalhava adentrou o pequeno espaço para ver se conseguia vê-la. Não sabia o que dizer, muito menos como iniciar uma conversa com alguém que jamais havia trocado palavras diretamente. Mesmo que ela fosse uma personagem frequente de seus sonhos, um encontro até então havia sido algo impensável. Entrou no modesto salão e girou o olhar pelo ambiente. Umas poucas mesas vazias e um espelho grande na parede eram toda a mobília do lugar. Antes que pudesse falar ou dizer qualquer coisa uma bela jovem se aproximou e, segurando-o pelo braço, perguntou se desejava cortar o cabelo ou arrumar as unhas. Mastuf congelou. Era ela, a moça bela da aldeia, a quem seus olhos perseguiam sem descanso. Ainda em pânico, e lembrando sua aparência rude e simples, deu a única resposta que lhe parecia sensata:

– Vim cortar as unhas, disse ele com voz trêmula.

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Assim, ajeitou-se na modesta cadeira e viu a bela jovem sentar-se à sua frente, segurando delicadamente sua mão calejada de pastor. Provavelmente em toda a sua vida sofrida ele jamais havia sentido tamanha emoção. Imediatamente foi invadido por uma sensação profunda de contentamento e plenitude, sem comparação com qualquer outra em sua vida. Nos poucos minutos em que sua mão esteve sob a guarda das mãos de Marisca o mundo pareceu interromper seu curso e estancar seu giro celeste.

– Vamos começar pelas unhas do polegar, que é o mais forte e o que tem a unha mais suja e grossa, disse ela com um sorriso envergonhado. Retirando delicadamente camadas de sujeira sob a unha, esta foi paulatinamente tornando-se mais clara, límpida e translúcida. As cutículas grosseiras e espetadas foram aos poucos sendo desbastadas, e a poeira que cobria o leito das unhas aos poucos foi saindo. Uma lixa terminaria o serviço, deixando uniformes as irregularidades da unha.

Mastuf fechou os olhos e sua mente vagou para o infinito cósmico, o lar celestial das ninfas. A luz que emanava dos olhos de Marisca perfurava suas pálpebras que, mesmo fechadas, não impediam que este brilho ofuscante impregnasse suas retinas. As ninfas dançavam alegremente ao som de milhares de harpas, embaladas pelos cânticos angelicais da Falange de Herwitt, a deusa dos amores virginais. Não foi possível a Marisca passar para o próximo dedo, pois foi neste instante que o céu das ninfas se fechou com um trovão avassalador. Subitamente desperto de seu sono, Mastuf pôde observar Korgut, o Alcaide, entrando ruidosamente na pequena sala do Harod. Seu corpo volumoso e seu chapéu pontiagudo assustavam a qualquer um que ousasse cruzar o olhar com ele. Todos sabiam das suas investidas em direção à Marisca, mas ela jamais acolhera nenhuma de suas tentativas. “Ele cheira a alcachofra molhada“, dizia ela aos seus irmãos mais velhos, que apenas davam de ombros e lamentavam que ela refutasse um bom partido.

Certamente que Korgut estava a procura dela, mas não gostou nada de vê-la sozinha na sala atendendo o jovem aldeão. Enfurecido de ciúme apontou-lhe o indicador, acusando-a de vadia, irresponsável, fácil e de “oferecer sorrisos a estranhos como quem vende arenque no mercado“. Marisca só fazia chorar diante do furacão violento de acusações maldosas e injustas. Mastuf, surpreso, nada podia fazer a não ser se afastar. Depois de uma saraivada de ofensas cuspidas por Korgut em direção à pobre moça, o Alcaide levantou a mão ao ar, para desferir a derradeira ofensa sobre o corpo esquálido da pequena Marisca. Entretanto, para sua surpresa, seu gesto congelou no ar, e seu punho fechado paralisou-se sobre sua cabeça. Mastuf segurava o pano de sua camisa de seda. Tremendo de medo pela represália, o pobre rapaz ainda assim juntou a coragem suficiente para impedir a pancada do monstro enfurecido pelo ciúme. Korgut, virando-se para o lado, respondeu, atônito, a ousadia do pequeno Mastuf.

– Como ousa me impedir, moleque? Como ousa colocar seu braço sujo de pastor em minha camisa de seda? Quem você pensa ser? Nada mais é do que um mísero cuidador de ovelhas, catador de bolotas, analfabeto e estúpido. Como pensa me interromper? Acaso trouxe seus irmãos e primos? Tem uma armadura a proteger seu peito contra os golpes que vou desferir? Como acha que vai impedir que eu faça a justiça contra uma mulher que me iludiu com seu sorriso meigo e sua face cândida?

Mastuf prendia-se ao braço de Korgut como quem se agarra a um bote salva-vidas. Não ousava largar, pois o punho livre poderia terminar o que havia começado. Temia por si, mas muito mais por Marisca a quem, apesar de amar com toda sua alma, jamais havia confessado seus sentimentos. Korgut não esperou que Mastuf livrasse seu braço direito, e com um golpe de esquerda jogou-o para longe. O corpo esquálido cruzou a sala e foi chocar-se contra a parede à frente, fazendo estilhaçar o espelho em milhões de imagens de horror e pânico a refletir seu rosto. A dor era menor do que o medo da próxima investida. O sangue escorria pela boca, cujo lábio rasgado permitia o curso livre de um córrego de sangue. Os ouvidos zuniam pela potência do soco, que fizera balançar toda a arquitetura de seu crânio. Levantando-se sofregamente segurou-se na cadeira rústica que até então estivera sentado e derrubou a mesa de utensílios usada por Marisca para corrigir os defeitos de seus dedos toscos. Ainda tentando se erguer viu o corpanzil de Korgut aproximar-se para mais um ataque.

Desta vez a potência do choque foi sentida diretamente na boca do estômago. O pobre aldeão teve a sensação de sentir as vísceras saltarem pela boca afora. O sangue inundava seu rosto e sua boca, pintando de rubro a cena de violência brutal. Korgut tinha os olhos inflamados, saltados para fora de suas órbitas e totalmente cegos de ódio e ciúme. Seus ouvidos também eram surdos para os gritos de Marisca, que implorava piedade, que não atacasse o pobre rapaz e que tivesse compaixão pela sua alma, a meio passo entre este mundo e Astárides, o céu das ninfas que há poucos minutos enchera de alegria o agora moribundo. Caído ao solo com o estômago esmagado e o rosto desfigurado nada mais restava a Mastuf do que esperar o derradeiro golpe. Que viesse com presteza, sem dó, para que a passagem fosse rápida, o mais indolor possível. Preferia assim, mesmo que soubesse a dureza de partir sem a despedida de suas ovelhas amadas, mas, acima de tudo, sem ter a oportunidade de declarar a Marisca todo o seu amor e seu desejo.

O monstro gigante ficava cada vez maior a cada passo que dava ao se aproximar de seu corpo caído. Os objetos da manicure espalharam-se pelo chão da sala fazendo uma aterradora algazarra. Um pequeno pote de barro, uma jarra d’água vazia, sangue, cabelos, minúsculas unhas cortadas, lágrimas, afastadores de cutícula e uma tesoura. O cenário à frente de Mastuf parecia ser a derradeira imagem que ele veria nesta curta e sofrida vida. Fechou os olhos e esperou o golpe final. Um grito surdo e longo, aterrador e dramático, cruzou a sala. Marisca calou suas súplicas e um vazio eterno de alguns segundos encheu a sala da manicure de silêncio. O Alcaide abre os olhos pela última vez e cai ao chão fulminado. Estatelado ao solo, quase sem vida, ainda olha para o peito e encontra, cravada em seu coração, a tesoura de Marisca. No limiar de suas forças Mastuf rastejou até a pequena tesoura cortadora de unhas que jazia próximo de seus pés. Tão preocupado estava Korgut de aplicar o golpe mortal derradeiro que sequer se importou com o rápido movimento de seu oponente. O golpe foi sutil, rápido, preciso e fatal. A pequena tesoura de ponta aguda penetrou o peito do homenzarrão entre as costelas, atingindo a câmara inferior esquerda de seu coração.

Marisca voltou a chorar e atirou-se sobre o corpo de Mastuf, que jazia inerme. Com o pouco de força que tinha em seus braços a moça ergueu o corpo ferido de Mastuf e colocou-o sentado contra a parede. O sangue estava por toda a parte, seus dentes eram pura vermelhidão, e sua face era pálida como Zillut, a águia branca da neve. Sua respiração era ofegante e seu olhar pesado. Suas mãos trêmulas seguraram as de Marisca sem força e sem cor.

– Perdão Marisca…

– Porque me pedes perdão, Mastuf, se acaba de me salvar a vida?

A voz desaparecia como os últimos raios de sol ao entardecer, mas ainda conseguiu completar sua derradeira frase.

– Perdão por nunca dizer que te amei desde que te vi pela primeira vez. Perdão por deixar o tempo passar e só te dizer quando nada mais importava. Desculpe por nunca ter te oferecido o amor que merecias. Perdão, perdão…

Marisca chorava a dor irreparável. O amor que sempre sonhou, construído na nobreza e na bravura, se esvaía por entre seus dedos. O rosto de Mastuf ficava cada vez mais frio, sua voz mais baixa. Ele estava partindo. Marisca aproximou seu rosto mais uma vez para poder olhar o corpo caído quase sem vida de seu salvador. Se existe nobreza e virtude em uma morte aquela seria a escolhida pelos mais puros e fiéis servidores do Criador. Soltou o corpo de Mastuf e com suas mãos suaves e limpas fechou-lhe os olhos vítreos. O peão simplório cerrou as pálpebras enquanto sua cabeça se aconchegava no colo da amada. Soltou o ar contido nos pulmões pela última vez e dormiu o sono dos mártires.

Haakon Mikkelsen, “Fortællinger fra det Mistede Land” (Contos da Terra Perdida), Ed. Sandhed, pág 135

Haakon Mikkelsen é um escritor e roteirista dinamarquês, nascido em Nykobing Falster. Ficou famoso em seu país por ter trabalhado na produção de roteiros de um famoso programa de humor aos sábados à noite chamado “Griner i København” (Gargalhadas em Copenhague). Ao lado disso escreveu inúmeros sketchs de humor e roteiros para filmes, incluindo aí o premiado “St. Bernard Frossen” (São Bernardo Congelado) e “Isdukke” (Boneco de Gelo). Em 2010 lançou seu primeiro livro de contos, chamado “Contos da Terra Perdida”que teve uma boa recepção da crítica. Atualmente trabalha na TV2 da Dinamarca e mora em Copenhague com sua mulher Hilda.

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Outra História de Horror

Porta Horror

Um homem chamado Hans está jantando, já de madrugada, com sua esposa Helga e suas duas filhas, Gertrude de 15 e Mathilda de 19. Na mesa da cozinha estão dispostos os pães, a margarina, o queijo e os assuntos do dia. Em uma pausa entre uma fala e outra ouviu-se um barulho vindo da entrada da casa. Parecia alguém tentando abrir a fechadura.  

“Psiu!!”, disse ele, e todos suspenderam os comentários e a própria respiração. O silêncio tomou conta da acanhada cozinha, fazendo os grilos subitamente fazerem parte do ambiente. Mais alguns segundos e o barulho novamente surgiu, como se um artefato estivesse sendo forçado na abertura externa da porta. Os cabelos dos braços se ergueram, e os olhos se arregalaram, e podia-se sentir o cheiro de adrenalina sendo expelida pelas suprarrenais em alvoroço. No entanto, nenhum som se escutou quando a esposa de Hans se abraçou às duas filhas e mirou em súplica aterradora para os olhos do nosso herói.  

Hans mais uma vez repetiu o “psiu“, e encaminhou a mulher e as filhas para a sala contígua. Levantou-se e, caminhando em direção à porta de entrada, quando subitamente parou…   Enquanto caminhava para o que poderia ser o encontro último de sua vida, onde poderia encontrar a morte na porta que teimava em fazer barulho, subitamente parou a dois passos da porta e percebeu o quão machista era sua atitude.  

“Porque eu tenho que averiguar a porta? Porque eu tenho que garantir a segurança da casa? Não seria mais justo se todas as tarefas fossem compartilhadas, se todas as funções fossem igualmente distribuídas, para que o poder fosse repartido de forma igual entre os gêneros? Não seria correto que também a função de proteção fosse repartida, para que as mulheres tivessem igualmente este tipo de responsabilidade? Mas, se tanto lutamos por equidade, porque foi tão natural a atitude de  levantar e me dirigir para a porta, enquanto minha mulher se abraçava às filhas, à família? Por que me parece tão normal protegê-las?”  

Olhou para trás e pôde ver sua mulher espiando-o, abraçada às meninas, enquanto permanecia estaqueado no meio do corredor que terminava exatamente na fatídica porta.   Mais uns poucos segundos de tensão e terror, até que uma folha de papel surgiu por debaixo da porta. Ainda tremendo curvou o corpo para frente e, com inusitado cuidado, abriu a folha de papel cuidadosamente dobrada ao meio.  

Caro vizinho, percebi seu carro está com os faróis acesos no estacionamento. Não quis bater na porta para não acordar a família. Procure apagá-los assim que possível. Abraços, Simone

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