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Medicina e medo

Heis aqui algo que denuncio há 30 anos: “Médicos são treinados a SE proteger em primeiro lugar, e só depois disso a resguardar a saúde de seus pacientes“. Este é um problema ético basilar em uma profissão que é regulada pelo medo, pelas pressões e pela mão do capitalismo.

A disfuncionalidade do sistema é evidente e escandalosa. Pacientes, enquanto consumidores de produtos e serviços, são estimulados a um consumo abusivo, insensato e perdulário. Para constatar isso basta ficar 20 minutos sentado na sala de espera de uma emergência. O nível de equívocos por parte de pacientes e médicos é inacreditável.

Os profissionais também estimulam o uso exagerado dos seus próprios serviços ao determinarem regras sem evidências científicas que as embasem, através de chavões como “consulte seu médico regularmente“, ou “não esqueça de fazer o exame preventivo” e mesmo com os famosos Setembro isso, Outubro aquilo, Dezembro etc… colocando aí qualquer cor e fazendo pacientes frequentarem serviços especializados movidos pelo medo culturalmente instilado por estas campanhas publicitárias.

Realmente, a responsabilidade dos administradores dos sistemas de saúde é inequívoca. Aliás a ideia corrente que os chama de “praga” é maldosa, mas não está muito longe da verdade. Entretanto, como direi mais adiante, trocar administradores não resolveria a questão, apenas criaria outra crise. É preciso ir muito mais além, e modificar uma cultura médica anacrônica, alienante, objetualizante e cientificamente defasada.

Médicos são, via de regra, muito medrosos. Se borram de medo dos seus conselhos profissionais. Não ousam arriscar sua pele, e para isso não se importam de arriscar a dos seus pacientes. A cesariana é um bom exemplo dessa disfuncionalidade. Todo obstetra sabe que os riscos são maiores em curto e longo prazo com a realização de uma cesariana – tanto para a mãe quanto para os bebês. Precisaria ser muito alienado – ou inescrupuloso – para negar as evidências claras e insofismável a esse respeito. Entretanto, é inegável – e facilmente constatável – que a cesariana é MUITO MAIS SEGURA para os profissionais, exatamente porque a cultura tecnocrática criou o mito da “transcendência tecnológica” e com isso produziu uma atitude profissional chamada “imperativo tecnológico” que diz que “na existência de uma tecnologia, ela deve ser usada“, inobstante sua inutilidade ou mesmo o aumento dos riscos para o paciente com sua utilização. Médicos são premidos pelo medo a usar recursos para além da natureza, como operar e medicar, mesmo quando as evidências mostram que não fazer nada seria a melhor escolha. O resultado é uma epidemia de cesarianas, uso irrestrito de uma tecnologia que deveria ser usada apenas na exceção, e o aumento de mortes em decorrência dos maiores riscos envolvidos.

Os Conselhos de Medicina (CRMs), por sua vez, são órgão de proteção da corporação, e não dos pacientes ou da boa prática médica, como os próprios clientes dos serviços de saúde são levados a pensar. Para lá afluem médicos sequiosos de poder ou que trabalham em áreas complexas, onde precisam de “carta branca” para atuarem – a qual pode ser conseguida tornando-se um julgador de médicos. Os conselheiros são temidos por usarem seu poder como uma arma apontada contra inimigos ideológicos e contra todo aquele que questione o poder abusivo da medicina. Geralmente os profissionais que trabalham no Conselho são os que falharam no objetivo de conquistar poder através da sua prática, seja na atuação privada ou na academia. São violentos, sem grande brilho profissional e abusam do poder de aterrorizar colegas. São como policiais de ronda, sabedores de suas limitações, mas ávidos para exercer seu poder sobre o cidadão comum. São os tiranos dos “pequenos poderes

Parafraseando Napoleão Bonaparte, “São tantos os detalhes e as questões subjetivas envolvidas num atendimento médico que nenhum profissional está livre de ser massacrado por um conselho que antagoniza suas ideias ou posturas”. (“Há tantas leis que ninguém pode se julgar livre de ser enforcado” – Napoleão). Sem dúvida, a forma como um caso qualquer será visto nestes tribunais profissionais dependerá de fatores extra-médicos como poder, influência, dinheiro e – acima de tudo – o quanto o caso em debate vai ofender os pilares sagrados da relevância social do médico. O que julga os médicos é sempre o sentimento de ameaça que os conselheiros percebem em sua prática, e não o dano que possa causar aos pacientes.

Marco Bobbio no livro “O Doente Imaginado” fala muito dessas questões políticas e econômicas determinando a conduta médica, deixando a saúde e a segurança dos pacientes em plano secundário. A propaganda médica, os medos dos tribunais, a pressão insana a que são submetidos tudo isso produz uma medicina bizarra, onde o elemento chave para a sua compreensão é o MEDO, e a ideia de que médicos e pacientes estão distantes, julgando-se mutuamente como inimigos em uma arena de ameaças.

O grande problema, para mim, é o fato de que não é suficiente que se modifiquem os administradores, e que se lhe capacite a atuação para que seja mais científica e embasada. Isso apenas não funcionaria, assim como a oficialização da “humanização do nascimento” como prática padrão nos hospitais do Brasil poderia gerar caos e até mesmo tragédias, pelo simples fato de que os próprios PACIENTES ainda não estão prontos para uma medicina centrada na ciência e no uso racional de recursos – entre eles a tecnologia.

Para que isso seja realidade é necessário que ocorra uma revolução cultural, de baixo para cima, onde os médicos e administradores serão forçados pelo novo paradigma a revisitar os seus conceitos e práticas.

Para finalizar, o comentário sobre a frase de John Kenneth Galbraith “Toda a revolução é um pontapé em uma porta podre” feita pelo meu amigo, o professor Francisco Ferreira Carmo: “As pessoas acham que a revolução é dar o pontapé… sou da opinião que é fazer apodrecer a porta.

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Vacinas à jato

Está todo mundo comemorando um remédio produzido às pressas, sem controle, sem avaliação de segurança, sem padrões mínimos de efetividade garantida e após uma onda de desinformação e pânico mundiais que foi no mínimo “estranha”? Isso me lembra o Tamiflu, que gerou milhões de dólares para a empresa farmacêutica do Donald Rumsfeld, e que agora sabemos tinha a mesma eficácia do AAS…

Não acham que estão comemorando um “negócio da China”, mas não para nós? Quem vai lucrar com o nosso medo, mais uma vez?

Lembram da pílula do Câncer que foi detonada até no Fantástico por não seguir as normas e os tempos determinados pela boa pesquisa médica para um uso seguro e uma eficiência comprovada? Pois agora, os mesmos que detonaram seu uso saúdam quando em poucos DIAS uma empresa israelense avisa que tem uma vacina para o corona vírus.

Coerência, Senhor, coerência.

Parece que o que vale mesmo são os zilhões de dólares de lucro pela venda de uma droga sem eficácia ou segurança comprovadas que chega ao imaginário popular após uma “campanha” muito consistente de pânico mortal pelos inimigos invisíveis de sempre. Primeiro instala -se o pânico; depois vende-se a cura sem nenhuma comprovação, apenas premidos pela urgência. Antes foi o Tamiflu a enriquecer muita gente, agora serão vacinas feitas nas coxas.

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Punch Theory

Macaca-caranguejeira, como as utilizadas no estudo de Juan Carlos Izpisúa, ao lado do filhote

O alongamento do período fértil das mulheres através da intervenção tecnológica (leia sobre as recentes descobertas aqui) é um exemplo clássico do “modelo de punch” (Punch Theory) do antropólogo americano Peter Reynolds eternizado por Robbie em “Birth as an American Rite of Passage”.

O modelo capitalista determina o retardo da gravidez no mundo contemporâneo, fazendo com que a primeira (em geral a única) gestação ocorra perto do fechamento da janela fisiológica de fertilidade, no início da 5a década. Assim, ao invés de questionarmos os mecanismos sociais que retardam a maternidade – em suma o capitalismo em sua expressão social – criamos novos recursos tecnológicos para “consertar” o desequilíbrio criado por um estilo de vida que agride nossa programação paleolítica.

Evidentemente a criação de soluções para gestações após a época naturalmente determinada pelo processo adaptativo produzirá suas próprias consequências – o desaparecimento do suporte das avós jovens sendo apenas a mais óbvia – mas estas serão igualmente abordadas por outras intervenções tecnológicas, e assim sucessivamente.

O progresso científico é sempre enganoso. O que nos oferece é sempre fulgurante, mas o que nos retira fica ofuscado, as vezes por um tempo tal que impede qualquer retorno. Como… smartphones.

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Lactofilia

Vênus de Willendorf, cujas mamas voluptuosas mostram que nossa atração por elas é tão antiga quanto a própria humanidade

A questão se torna sempre delicada exatamente quando grupos que defendem as mulheres respondem até com violência a qualquer insinuação de que a amamentação faz parte do arsenal erótico feminino. Associar amamentação e prazer é uma espécie de tabu que ainda resiste em nossa cultura.

Por outro lado, o fato de um homem (ou mulher) ter fixação erótica em mamas ou mesmo em mamas com leite, ao meu ver não tem nenhum problema ou “pecado” envolvido. Os objetos de desejos e as fantasias não são boas ou ruins, são manifestações do inconsciente. Para mim são como podolatrias (pés), adoradores de nádegas, de cabelo, mãos, sapatos, etc. São fetiches (uma parte que sintetiza o todo) inofensivos e naturais.

O que pode ser questionado é quando existe a “passagem ao ato” e este se torna inoportuno para quem está produzindo leite. Se um homem (ou mulher) se excita com leite jorrando de sua parceira, namorada ou amiga e esta prática é consensual, qual poderia ser o problema? Qual o pecado poderia existir pela excitação ligada à vivências remotas da infância??

Nenhuma, eu creio. Entretanto, se essa busca de satisfação implica em abusar, constranger, enganar, expor indevidamente ou importunar mulheres lactentes… aí se torna um ato inadequado e até punível pela lei. É nesse momento que uma fantasia pode se tornar crime, e só a partir desse ponto.

Aparece nessa temática, mais uma vez, a luta – ao meu ver equivocada – de alguns grupos contra a objetualização da mulher. Ora, mais uma vez eu digo: não há nada de errado em objetualizar o corpo da mulher, visto que o erotismo masculino é mesmo de caráter objetual. O problema está em REDUZIR a mulher a um corpo a serviço do prazer masculino, desconsiderando suas dimensões subjetivas, inclusive – e principalmente – sua própria sexualidade.

Assim, a lactofilia seria danosa quando – como qualquer outra expressão da fantasia sexual humana – não levasse em consideração o OUTRO, no caso a mulher, desprezando seus sentimentos, emoções, integridade física, e direito à privacidade. Enquanto fantasma do desejo humano, entretanto, a lactofilia é como qualquer outra expressão da sexualidade. Não há como criticá-la em termos morais, pois que se situa aquém desses valores.

De resto, a análise histórica do desejo pelas mamas é sempre necessária e correta. Somos fixados nas mamas pois que elas representam a continuidade da vida humana e significam nossa sobrevivência. Nada mais compreensível que fetichizá-las.

Os americanos tem uma cultura muito mais “mamófila” do que a nossa. Aqui, creio que pela “abundância” de africanos falantes do kimbundo – de onde veio a palavra “bunda”, de “mbunda” e com esteatopigia (uma mera suposição, claro) – somos muito mais “bundofílicos“. Mas, do ponto de vista antropológico, faz todo o sentido esta veneração à sublime arquitetura das mulheres, pois ambas exaltações das partes femininas nos levam à origem da proteção da vida. Ancas grandes para partos fáceis e muitos, além de mamas profusas e fartas para amamentar nossos filhos com o leite que carregam.

Querer criminalizar este olhar masculino sobre o corpo das mulheres além de inútil agride as próprias forças libidinais que nos trouxeram até aqui.

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Selvageria

Creio que um bom terapeuta jamais procura “segundas intenções” ou o “sentido oculto das coisas” em seus pacientes. Não por virtude, mas porque percebe a inutilidade dessa busca.

Primeiro, porque TODAS as ações tem intenções outras, para além de sua operacionalidade superficial. Porém, a simples procura por sua raiz é uma busca estéril. A descoberta das razões para o comportamento aberrante ou aparentemente paradoxal de um analisando não possui nenhuma utilidade, a não ser que ele próprio descubra – e por si mesmo – os truques dessa engenharia mental inconsciente. Interpretar e jogar por sobre o paciente essas elucubrações com base em teorias psíquicas não passa de “análise selvagem” – ou pura crueldade arrogante. O sentido “oculto” das coisas não deve jamais ser uma busca para o terapeuta, mas um guia para o paciente. Pouco importa ao psicólogo “descobrir” que o ódio pela ex mulher encobre uma atração residual ou uma relação que teima em sobreviver através do rancor. Só haverá sentido se o paciente encontra as vias para enxergar POR SI PRÓPRIO esta realidade.

A pergunta é: interpretar para quê? De que nos valeria chegar no consultório de um psicólogo e antes mesmo de sentarmos ele dizer: “Seus problemas estão relacionados às sobras de um triângulo amoroso que se estabeleceu na aurora de sua vida, o qual forma a estrutura de sua sujeição à linguagem: você, sua mãe e alguém além dela. Pronto, pode se levantar. Interpretei seu drama existencial e cheguei ao âmago de suas angústias mais primitivas.”

Muito bem interpretado e, no meu modesto ver, até correto. Mas é daí? Que valor há numa descoberta cujo caminho doloroso não foi trilhado pelo sujeito? De que servem essas palavras corretas, justas e estéreis?

Para mim a interpretação de um nó psíquico é como Santiago de Compostela. Como cidade… bem, já vi melhores. Mas se você chegou lá caminhando 850 km com seus próprios pés então essa cidade tem um sentido único, e que pode ser transformador.

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Vícios

Uma pergunta que se faz necessária: se o indivíduo for impedido – química ou cirurgicamente – de desenvolver seu vício em crack, cocaína ou outro psicotrópico, qual outra droga ele vai eleger para completar o vazio ilusoriamente preenchido pelas substâncias das quais fazia uso?

Não esqueçam que uma margem grande dos pacientes de bariátrica desenvolvem algum tipo de adição ou transtorno psiquiátrico sério quando o vício de comer não pode ser satisfeito. O aumento dos casos de suicídio chega a 58% segundo alguns estudos.

Até quando vamos olhar para a consequência (o vicio) ao invés de reconhecer a causa (o trauma) para elucidar a longa e complexa tessitura da adição?

“Fatores como autoimagem corporal, traços de personalidade e presença de compulsão alimentar prévios à intervenção, dentre outros, têm sido implicados na evolução e no prognóstico desses pacientes”, completa Sallet. Entre os problemas, está o aumento do transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), complicação mais recorrente nos pacientes da cirurgia.

Por outro lado, o médico diz que, em alguns casos, é possível que condições psiquiátricas prévias se agravem, ou até mesmo novas doenças surjam após a cirurgia.

“Provavelmente, essas novas patologias são resultantes de fatores como necessidade de adaptação psicossocial à nova condição e de alterações psíquicas decorrentes de déficit nutricional”, detalha Sallet. Segundo o estudo, de 20% a 70% das pessoas que procuram a cirurgia têm histórico de transtornos mentais.

Os autores do trabalho brasileiro citam outro estudo, feito em 2007 por pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, que ilustra a incidência de mortes entre pessoas que passaram pela cirurgia. Segundo os americanos, mortes associadas a acidentes e/ou suicídio são 58% maiores em indivíduos no estágio pós-cirúrgico quando comparados aos que não fizeram a operação — isso sem contar os óbitos associados a comportamentos impulsivos, como bulimia e acidentes de trânsito. A maior parte dos suicídios se deu após apenas um ano da intervenção.”

Veja mais aqui

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A ciência

Quem trabalhou como eu durante 40 anos em um ramo que se percebe científico, mas que funciona com os mesmos dogmas e sistemas de poder como qualquer igreja, entenderia mais facilmente minha crítica à ciência como expressão humana. Falo da ciência com “c” minúsculo, aquela construção humana, e não a “Ciência” abstrata, o conhecimento racional. A primeira é uma produção contemporânea, feita por mentes humanas e carregada com sua falibilidade e corrupção; já a segunda é o ideal racional, a ferramenta da transcendência humana, mas que quase nada existe no mundo real, sendo uma habitante do mundo das ideias.

Existem fatos inequívocos que mostram a veracidade dessa visão cética sobre a ciência. Estudos demonstram que metade das condutas médicas correntes não tem uma conexão com as evidências científicas. Outras pesquisas denunciam que que as próprias pesquisas – que deveriam dar suporte às condutas médicas – não são tão confiáveis como gostaríamos de acreditar. Veja aqui.

Por vezes parece que existe um totalitarismo dos cientistas, que seguem uma espécie de “ciência soviética”, a qual produz um monobloco de visões que se colocam na posição de saber acima de todos os demais, e que condena todos os outros saberes à extinção.

Isso torna a ciência a irmã dileta da religião…

Lembro de um encontro da UNIMED do Paraná em que fui convidado a falar sobre humanização do nascimento, um evento perdulário que se realiza todos os anos. No jantar fui colocado à mesa junto com uma psiquiatra que me falou: “Há muitos avanços na psiquiatria no mundo todo, mas nenhum maior do que a extinção de todo o resquício de pensamento freudiano. Hoje sabemos que tudo o que pensamos e sentimos se resume a alterações bioquímicas dentro do cérebro. Isso inclui dor, prazer e até o sabor dessa sobremesa“.

Fiquei esperando ela terminar dizendo “… e Fiel é o Senhor”, mas ela apenas sorriu com um olhar que apenas aqueles que falam de uma posição de certeza e fé inabalável possuem.

Quando trabalhamos dentro de um hospital ou de um laboratório é muito mais simples perceber de forma clara as incongruências e paradoxos do sistema. Da mesma forma, se você trabalhar na justiça verá que a mulher que segura a balança NUNCA está usando vendas e estará sempre com os olhos bem abertos para manter e garantir o poder para quem tradicionalmente o controla: as castas superiores que detém o domínio sobre os recursos e a produção.

E digo mais: quem trabalhou por muitos anos em traduções sabe que as traduções são realmente “traições” e não existe uma sequer que seja “isenta” ou “neutra”; sempre haverá a ideologia do tradutor na obra que traduz. A ideia positivista de uma tradução sem viés é tão ingênua quanto a de uma medicina ou uma justiça não ideológicas.

Por isso não é difícil dizer que na ciência não poderia ser diferente. O quê – e como – investigamos, assim como os próprios resultados que atingimos, são determinados pelas nossas ideologias e sustentadas pelos dois grandes pilares da civilização contemporânea: o capitalismo e o patriarcado. Ambos decadentes, mas ainda vigorosos o suficiente para ditarem as regras para o mundo em que vivemos. Enxergar a ciência pelo que ela verdadeiramente é, sem as fantasias de isenção ou neutralidade, não a diminui, mas a conduz à condição de criação social digna dos valores do seu tempo.

Perceber a complexidade da cultura é fundamental para não nos deixarmos engolir pelas visões ingênuas de imparcialidade que nos tentam impor. A decisão de passar um bisturi e rasgar a pele de um doente, ou de bater o martelo para condenar são produzidas no âmago de nossas convicções mais profundas, mais afetivas e menos racionais. Somos governados por nosso fígado, pelos nossos instintos menos nobres como medo, angústia e egoísmo, muito mais do que pela tênue camada de massa cinzenta que envolve nosso cérebro.

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Ciência

A solução está nos antibióticos? Mesmo? Fica então a pergunta: antes da penicilina como essas bactérias eram eliminadas? Todas as pessoas afetadas por infecções iam a óbito? E quais as razões para uma morrerem e outras sobreviverem? Quem – ou o quê – determina isso?

Minha inconformidade com esta imagem é que ela nos leva a pensar que APENAS A CIÊNCIA – experimental tecnológica e exógena – salva vidas. A proposta é essencialmente positivista, dando a entender que bacterias são destruídas apenas com “fungo de laranja” (Penicillium notatum), quando na verdade elas são destruídas – desde antes da existência do nosso gênero – por um sistema imunológico adequado e funcional. Assim, quando você mostra a penicilina se contrapondo às orações está colocando somente alternativas cuja dualidade é FALSA, pois muito mais importante do que AMBAS é o que o sujeito faz no seu processo dinâmico de autocura e homeostase, e pelos seus próprios mecanismos internos de regulação.

Pior ainda, aposta na ideia de que APENAS A intervenção tecnológica pode ser chamada de “ciência”, quando em verdade os estudos que demonstram as ações da meditação e oração também são Ciência – inobstante o quanto acreditamos em sua validade e/ou abrangência.

Humildade produz sabedoria. Ciência salva vidas, mas não apenas a ciência capitalista. Aquela que te ensina a ter um sistema imunológico forte, sem destruir o corpo com elementos “anti vida”, também.

Matéria recente do Correio Braziliense:

“Ao lado da ciência: O pneumologista Blancard Torres, titular do Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro Doença, fé e esperança, não tem dúvidas: o paciente que tem fé incorpora em si a certeza da recuperação, aumentando a imunidade e as chances de resposta positiva ao tratamento. “Quando a ciência e a religião andam juntas, o combate aos males torna-se viável, a evolução do tratamento é completamente diferente do padrão observado em quem não têm espiritualidade, não acredita em bons resultados”, observa. (…)

(…) Koenig coordenou uma pesquisa realizada com 4 mil pessoas com idade acima de 60 anos que seguiam diferentes credos. O resultado do trabalho demonstrou que a fé também proporciona uma vida mais longa. Seis anos depois de começado o estudo, foi verificado que menos da metade dos indivíduos que não tinham uma crença religiosa estava viva. “Em contrapartida, 91% dos seguidores de alguma religião permaneciam saudáveis”, garante o americano.”

PS: Uma ressalva da minha parte: rezar não tem necessariamente NADA a ver com religião, mesmo que todas elas usem das orações em sua prática. Portanto, não se trata da ilusória união entre “ciência e religião” (para mim inconciliáveis, pois uma trabalha com a projeção e a outra com a realidade, uma com o desconhecido e a outra com o conhecimento) mas a abrangencia da metodologia científica sobre fatos até então do domínio exclusivo das religiões.

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Exatidão

Claro que existe exatidão em várias ciências humanas, e existe até humanismo nas exatas. Entretanto, o gráfico acima é para ser mesmo generalista. Certamente você terá muita dificuldade encontrar uma enfermeira, assistente social ou socióloga cuja PAIXÃO seja fazer cálculos e estatísticas, algo fácil de descobrir na engenharia ou na física. Da mesma forma, será difícil encontrar um engenheiro cuja atração maior seja a inexatidão dos sentimentos humanos na busca por espaços e vias.

Minha ideia, entretanto, traz uma provocação em outro sentido. A medicina é HUMANA por essência e por natureza, mas a tecnocracia e a cultura da inevitabilidade tecnológica a aproximam – ilusoriamente – das exatas. Tal migração não é capaz de produzir a melhoria da condição humana, sequer a mitigação do sofrimento e da dor, mas sem dúvida empobrece a própria medicina, seu ethos e sua profundidade. Tanto é intensa a invasão da medicina pela exatidão fria dos exames e testes que o médico mais famoso e respeitável dos dias de hoje não é aquele que oferece a compaixão como pressuposto básico e sequer um olhar caridoso para quem vê desaparecerem as esperanças, mas um que dá diagnósticos presumidos, tratamentos sem rosto e sem história e atende pelo nome de “Dr Google”.

Alias, o acho sempre muito estranho quando vejo gente se ofendendo quando dizem que as “ciências humanas são inexatas”. Ora, como diria Bohr “As certezas não são científicas; elas são o prêmio de consolação dado pelo criador às mentes frágeis“. Ou como diria Camões na voz de Caetano “Navegar é preciso, viver não é preciso“…

A Medicina Baseada em Evidências é uma justa intenção de aproximação da medicina com as ciências exatas. Em verdade, ela muito mais serve para barrar o intervencionismo comandado pelo capitalismo, o qual invadiu a medicina com a intenção de resgatar o sujeito – através da tecnologia – da falibilidade da natureza. Entretanto, essa proposta esbarra na própria condição humana deste, cuja história, percurso e subjetividade imprimem ao(s) seu(s) sintoma(s) uma qualidade inigualável e irreproduzível, que escapa à mensuração matemática e exata que é usada na Medicina Baseada em Evidências. Assim, se devemos saudar seu efeito protetor contra os abusos da tecnocracia, também é importante reconhecer seus claros limites, que se situam na própria condição única do sujeito.

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Rótulos

O gozo que os pacientes experimentam ao receber – em batismo médico – o nome de suas doenças e enfermidades sempre me surpreendeu. “Mas afinal, o que é isso que tenho?”, perguntavam com ávida ansiedade. O “carimbo” médico – a nomeação de seus males – era seguido de um suspiro de alívio. O esforço comovente que tantas pessoas fazem para colar nos outros – e em si mesmos – diagnósticos e rótulos para explicar suas mazelas é uma das marcas da nossa medicina. O efeito apaziguador dessas rotulagens oferece um sentido de pertencimento e delimitação. Desta forma, estabelecendo barreiras para o sofrimento, parece-nos mais simples imaginar uma cura para os males, mesmo que não seja mais do que uma fantasia com pouca conexão com a realidade. Também nos livra do isolamento que se abate sobre todo aquele que se vê vítima de uma enfermidade. “Somos muitos aqui nessa dor”, e não há como negar o quanto este compartilhamento apazigua o sofrimento.


Dr. James McKinnon, “Disease as a Matter of Fact”, Ed. Coltrane, Pág. 135

James McKinnon é um médico sul-africano nascido em 1943 em Cape Town. Com 24 anos de idade foi testemunha do primeiro transplante cardíaco realizado por Christiaan Neethling Barnard durante seu período como residente de cardiologia no hospital Grote-Schuur em Cape Town, quando o coração de uma pessoa falecida bateu pela primeira vez no peito de outro ser humano, exatamente às 5h 25min do dia 3 de dezembro de 1967. James McKinnon era da equipe de suporte da UTI do paciente transplantado, que sobreviveu a cirurgia apesar de vir a falecer de sepse 18 dias depois do transplante. Apesar do aparente fracasso, as equipes envolvidas nessa cirurgia inédita não se deixaram esmorecer e logo após realizaram uma nova cirurgia, onde o paciente sobreviveu por 1 ano e 7 meses. McKinnon iniciou uma carreira de sucesso como cardiologista e passou a se dedicar à literatura na maturidade, quando começou a escrever sobre temas médicos mais amplos, inclusive com uma visão muito crítica à medicina exógena e medicamentosa contemporânea. Seu livro “Medicina Quaternária” lançou seu nome como um dos importantes escritores médicos de língua inglesa. “Disease as a Matter od Fact” é seu último livro, e trata das relações entre médicos e pacientes, em especial na força curativa da relação transferencial.

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