Arquivo da categoria: Pensamentos

Velhos

Velho apaixonado

“Em conversa telefônica com meu amigo Max chegamos a um acordo: o que existe de bom na velhice é acharmos irrelevante o que outrora pensávamos indispensável; o que há de ruim – segundo ele, torturante – é continuarmos desejantes quando já não somos desejáveis.”

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Suzane

Suzane

A maioria dos “cidadãos de bem” desse país são meros linchadores de merda. Eu não exijo compaixão de ninguém, apenas admiro e exalto esse tipo de sentimento como um dos aspectos mais nobres da alma humana. Qualquer julgamento dessa menina é injusto e estúpido, pois ninguém pode aquilatar seus valores e suas dores. A ninguém é dado o poder de sentir a dor de outrem.

E, por favor, julgar Suzane é completamente diferente de julgar seu ATO. Um ato criminoso como o dela PRECISA ser punido, e o foi. E foi punido dentro da lei, onde a progressão de pena cumpriu o ritual legal. Ao meu ver ela não representa uma ameaça à sociedade e pode gozar desse benefício, conforme determinado legalmente. Não há nada a questionar nessa ação juridicamente embasada.

Quanto àqueles que diante disso disseminam ódio e raiva eu apenas penso que não são dela muito diferentes. Com uma arma na mão e o auxílio dos “irmãos Cravinhos” talvez fizessem o mesmo crime que tanto desejam realizar contra ela. O que os diferencia é apenas oportunidades, circunstâncias e contextos. Em essência, estão mais próximos do que admitem da Suzane que tanto odeiam.

Realmente, perdoar – em sentido amplo – é difícil porque impõe empatia e compreensão dos limites impostos no entendimento do outro. Os tolos confundem perdoar com “absolver“, quando na verdade o perdão significa trazer a ação criminosa para dentro do seu espectro de compreensão. Perdoar é humanizar, e Jesus mesmo, diante do apedrejamento da prostituta, deu a lição mais profunda e simples sobre a questão: “Atire a primeira pedra aquele que for isento de pecado“.

Os julgadores ferozes do Facebook são, em essência e completamente, sujeitos incapazes de conhecer o próprio percurso de suas vidas e os pequenos pecados que os compõem. Iludidos por uma falsa ideia de pureza e retidão, cegam-se às próprias falhas e erros, projetando-os em figuras públicas que fizeram de seus crimes espetáculo de catarse coletiva. Por isso a ferocidade implacável de seus comentários.

Perdoar as pessoas, e não seus deslizes, é tarefa difícil, mas uma imposição da civilização. Reconhecer a falibilidade humana é um caminho tortuoso quando implica olhar para dentro de si mesmo.

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Carandiru e o Escafandrista

Carandiru

Eu li faz muitos anos, entre 15 e 20 anos, mas certamente quando ainda vivia a minha vida anterior, no milênio passado. Eu o vi nas mãos de uma estudante de direito que trabalhava no hospital onde eu atuava e resolvi investigar.

Quando o li, gostei.

Gostei porque contava histórias de pessoas, de dores, tragédias e infortúnios. Sempre me senti atraído por histórias assim e gosto de contá-las também. Gostei também porque mostrava um mundo desconhecido para mim, o mundo dos “pecadores”, o “Inferno na Terra”. Um mundo que não era para os da minha espécie, os “cidadãos de bem”

O livro de Dráuzio Varella trazia uma descrição entre pitoresca e trágica da vida nesse universo. O estado repressor, as pressões internas, os sistemas de poder, os grupos, a violência crua, o confinamento, a sexualidade. O livro me fez pensar na “Vida Sexual dos Selvagens”, do Malinowski, uma leitura das diferenças culturais. Mas esse mergulho numa realidade e cultura diferentes é que me sinalizou que havia algo na obra que me causava desconforto.

É necessário haver distanciamento para produzir a análise de uma cultura. Para Malinowski os Trobiantes eram alheios ao seu código valorativo. Era possível a um europeu analisá-los por serem eles suficientemente diferentes para causar estranhamento. Eram aborígenes, e não reconheciam as mães como participantes na formação fetal, como erradamente supôs. Poderia, assim, analisá-los de um ponto distante, longínquo e sem influências.

Dráuzio, ao adentrar os muros da prisão como um cidadão, fez o mesmo mergulho numa cultura alienígena, vestindo o escafandro para manter intactos seus valores e referenciais. Mas para isso era necessário tornar os “bandidos” diferentes de si mesmo, cuja essência diversa o afastava inexoravelmente daqueles a quem observou. Dráuzio nunca reconheceu-se naqueles a quem descreveu.

Alguns anos se passaram e o livro fez sucesso, assim como o autor. Entrevistas, reportagens e um programa no Fantástico. Ok, ele era casado com uma atriz da Globo, mas isso por si só não explicaria a importância que se dava às suas palavras. Ele dizia algo – talvez uma voz messiânica portando a boa nova da tecnologia – que desejávamos ouvir. Não há como negar: ele falava algo que nossos ouvidos aceitavam de bom grado.

Drauzio Pumba

Em uma dessas entrevistas Dráuzio disse, em alto e bom tom: “Eu não gosto de bandido!”. Essa sua frase, e os posteriores comentários demeritórios sobre o parto clarificaram a ideia que vim a formar sobre esse personagem.

No livro Dráuzio deixa claro que a sua entrada no presídio foi para tratar prisioneiros com AIDs. Achava ele – e nos anos 80 isso fazia sentido epidemiológico – que a prisão poderia ser um foco de disseminação da doença que, a partir daí verteria para a sociedade “outra”, a nossa, a dos “não-bandidos”. Desta forma fazia sentido estar lá e mesmo assim declarar não gostar de ladrões e falsários; seu objetivo claro era salvaguardar a parte “boa” da sociedade do mal que a parte “ruim” poderia produzir.

Minha frustração com a obra Carandiru foi esperar dela um estudo sociológico, e ter encontrado uma etnografia bem escrita de uma tribo alienígena: os “meliantes“. Esses seres, que Dráuzio deixou claro não ter simpatia alguma, guardam diferenças quase imperceptíveis conosco.

Dráuzio submergiu no universo prisional sem nunca se aprofundar o suficiente para ver o quanto de nós eles possuem e, mais aterrador, o quanto deles habita em cada um de nós. Sua distância segura da essência do bandido lhe garantia a tranquilidade para atendê-los sem jamais se identificar com suas dores e dramas, conflitos e angústias. Ao mesmo tempo que tal afastamento nos garante um alívio (“isso jamais aconteceria comigo“) também impede que entendamos a dimensão humana do prisioneiro. Ele, assim coisificado e catalogado, deixa de ser uma ameaça para nós. O mesmo fenômeno ocorreu com os homossexuais: quando eram “doentes”, diferentes em essência – ou geneticamente – de nós, jamais nos ameaçaram. Quando os trouxemos para a normalidade sua semelhança conosco tornou-se maligna e perigosa. Era preciso exorcizá-la, e a homofobia contemporânea serviu a esses propósitos.

O escafandrista nunca sente na pele o sal do mar que o envolve. Dráuzio, que poderia enxergar-se nos dramas humanos de cada um daqueles detentos, preferiu descreve-los de uma distância segura.

Afinal, se muito perto chegasse, como evitar que, desavisadamente, viesse a se afeiçoar – e até admirar – um ser que nada mais é do que um “bandido”?

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Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?

Ora, apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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Concordâncias

Concordancia

“Não se faz necessária a concordância sobre estes postulados, pois que são elaborações humanas e, portanto, passíveis de falha. Entretanto, respeitar a visão diferente que o outro possui é mais do que essencial: é a única forma de permitir que a sua própria visão se expanda e evolua. Reconhecer a diversidade dos pontos de vista é garantir que você descongele suas certezas com o calor da inquietude alheia.” (Max)

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Empatia

Empatia 03

Sem a construção única, invisível e essencial da conexão nenhum regramento será possível para o contato terapêutico. Não é possível dissimular o vínculo mediado pelos sentimentos de empatia. Quando o gesto se contrapõe ao coração, o primeiro se plastifica, e o segundo desaparece.

Maria Mercedes Ortega, coluna do Jornal Jalisco Hoy, jan/1982

Maria Mercedes Ortega, foi uma psicanalista e escritora mexicana, que durante muitos anos foi presidente da Associação Mexicana de Escritoras. Nasceu em Temixco em 1926, vindo a falecer em Jalisco em 1990, de insuficiência cardíaca. Escreveu vários livros sobre o tema da sexualidade numa abordagem psicanalítica e manteve uma coluna semanal no jornal “Jalisco Hoy” por mais de 25 anos, onde abordava temas como sexualidade, costumes e atualidades. Foi casada com o deputado do PRI Javier Domingos Palacios, e teve dois filhos: Jacinta e Juan.

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Imigrante

Imigrante

Imagine a seguinte situação hipotética. Em função de erros na condução da minha vida pessoal e familiar, por culpa minha e do contexto em que vivo, sofro uma perda financeira catastrófica e fico incapacitado de manter-me no local onde sempre vivo com minha família. Essa é uma “pequena” tragédia familiar muito comum no mundo contemporâneo. Felizmente meu irmão, apiedando-se da minha situação dramática, me convida a morar em sua casa. Para lá me dirijo contrariado, levanto minha família e minhas frustrações, pois se pudesse desejaria continuar na minha casa. Infelizmente isso não é mais possível. Ela foi vendida, perdida, confiscada ou nem existe mais, e no seu lugar restam escombros.

Na casa do meu irmão é tudo limpo e chique. O ônibus para na porta. Próximo de lá existe uma boa escola para os meus filhos. O bairro é seguro e tranquilo. Meu irmão e minha cunhada me tratam bem; minhas sobrinhas idem. Tudo parece bom.

Os moradores do prédio não falam comigo, mas apenas porque não me conhecem. O porteiro pediu para que eu subisse pelo elevador de serviço, mas expliquei que estava morando ali, no apartamento do meu irmão. Ele parece ter entendido, mas depois eu soube que ele ligou para confirmar com minha cunhada. Ele é uma boa pessoa, apenas se enganou.

Ontem meu irmão ralhou com sua filha por ela ter comido todo o doce que estava na geladeira, mas ela explicou que foi meu filho quem o comeu. Fiquei em silêncio e constrangido, mas meu irmão tentou dizer que se enganou e que, afinal, não havia problema algum. Meu filho chorou envergonhado. Minha mulher também ficou triste ao ouvir um comentário de que a conta de luz está mais alta ultimamente.

Precisei ligar para conseguir um emprego e, como meu irmão e minha cunhada não estavam em casa, pedi licença para a minha sobrinha de 7 anos para usar o telefone . Depois me senti envergonhado por ter feito isso. Humilhado seria um termo melhor.

Sou bem tratado aqui, pelo menos na minha frente todos são gentis e educados, mas sei que as pessoas falam pelas minhas costas. Os serviços são bons, e a escola é próxima. Minha mulher está bem adaptada. As crianças estão seguras. Como poderia ousar reclamar?

Entretanto – sei que é complexo entender – aqui eu sou convidado e minha presença é tolerada, pelas circunstâncias. Sou bem recebido no prédio, mas algumas mulheres mais ricas de lá simplesmente viram a cara para mim no elevador.

Se eu pudesse abriria mão de todas as aparentes vantagens que tenho para ter minha casa de volta. Não queria ter o constrangimento recidivante de não ser dono de nada, de não ser igual às pessoas com quem convivo no lugar onde moro. Ter autonomia e liberdade, ser reconhecido como um igual e com os mesmos direitos, não tem preço.

É possível que isso seja uma especial sensibilidade minha. “Frescura” diriam alguns, dizendo ser imoral reclamar com a barriga cheia. Já ouvi dizer de muitas pessoas que dão de ombros quando escutam “vá para sua casa”, “você não é bem vindo“, mas isso para mim tem uma sonoridade destrutiva.

Eu sei a dor de não ser dono do chão em que caminho.

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Uma Crítica à Veneração

Einstein2

(Um elogio à iconoclastia sistemática)

Será mesmo que podemos abrir mão da iconoclastia?

Serão realmente desnecessários os franco-atiradores que tentam solapar as “verdades” que com tanto amor nos aferramos?

Veja bem, não tenho nenhum gosto especial em ler os escritos difamatórios contra personalidades ou ideias. Entretanto, não serão eles apenas remédios muito amargos que necessitamos tomar para a depuração de uma doença insidiosa chamada “veneração”? Não serão eles importantes elementos para a cura da nossa credulidade cega nas personalidades e descobertas do passado? Não serão fundamentais tais críticas para que possamos enxergar o que de humano havia por detrás de figuras mitificadas da ciência, filosofia, artes e do conhecimento em geral?

Sei que a busca insana pela iconoclastia é aparentemente obsessiva, talvez até doentia. Mas e daí?

Entendo que a iconoclastia pode trazer prejuízos à sanidade de quem a professa ao apresentar um viés mais obscuro aos fatos, para contrastar com o nosso, que é suave e brando com as falhas de nossos mentores. Entretanto, a insanidade do nosso irmão pode ser de ajuda para se chegar mais perto de uma verdade límpida.

Seria lícito impedir críticas a Einstein, provando a falsidade de algum dos seus experimentos, apenas porque ele “não está aqui para se defender“? Ora, nenhum físico realmente sério desprezaria FATOS em nome do culto à personalidade do mestre de outrora. Se tais fatos forem mentiras, cairão por terra com o passar do tempo. Se forem, entretanto, verdades é importante que estejamos preparados para assimilá-las.

Repito: não há porque eleger figuras intocáveis nas ciências e nas artes, como de regra em nenhum ramo do conhecimento humano. Os gurus são paralisantes, e sua existência depende do esvaziamento de seus seguidores. Eliminar indivíduos “acima de qualquer suspeita” é humanizar o conhecimento e a “verdade”.

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Mônica

mônica

Nas histórias de Maurício de Sousa a personagem Mônica batia nos meninos da rua, e esta era a característica que fez sua fama e sua imortalidade. Ela era protagonista e poderosa, figura central da trama (era a “Turma da Monica”) mas sua forma de reação diante das contrariedades era através da violência física explícita.

Seria ela a personagem a anunciar uma nova mulher que abandonava os estereótipos femininos (candura, docilidade e submissão) desde a mais tenra infância, mas para isso tendo de mimetizar as estratégias de dominação violentas masculinas? Seria Mônica o protótipo da nova mulher que – assim como Batman anunciara o homoerotismo na cultura – nos trazia a nova postura feminina para o século XXI? Ou podemos achar que se trata de uma coincidência, apenas histórias sem um objetivo e sem ter uma conexão com o campo simbólico por onde circulavam?

No creo en coincidéncias. ..

Monica era uma personagem baseada na filha de Maurício de Souza, inclusive nas suas principais características. Hoje a filha é executiva das empresas. Mas se é baseada ou não na realidade é o menos importante, até porque ele poderia escolher outras qualidades dela como exemplares e definidoras, mas preferiu destacar sua força bruta e violência.

Batman também. O criador disse que jamais pensou em Batman como um personagem gay, mas aqui cabe a pergunta: por que a solteirice, a amizade com Robin, a criação especial (sendo mimado pela tia), a figura paterna frágil de Alfred e o sofrimento brutal, cuja indignação o leva a ser o “paladino da justiça“, sublimando sua dor (a constrição sexual) através da luta contra o crime?

Mas a Mônica era violenta. Espancava os meninos. Não era apenas protagonista das histórias, mas além disso usava os recursos masculinos de subjugar através da violência, os quais são naturalmente masculinos, por isso tão universais. Isso existe antes mesmo da cultura: tem a ver com a testosterona, a estatura, a configuração muscular e a fragilidade imposta pela gravidez às fêmeas da espécie.

Mas aqui me refiro, evidentemente, à violência explicitamente física. A violência moral é igual para ambos (apesar de eu achar que é maior nas mulheres, pela supressão da sua vertente física). A escolha da estratégia de fazer Monica FISICAMENTE violenta é que me fez pensar na questão.

Para subjugar, por certo, não é necessário utilizar violência física. Ela pode ser moral, e essa capacidade os homens a tem tanto quanto as mulheres. Muitas mulheres más subjugaram pessoas e nações sem jamais terem cometido uma mínima ação fisicamente violenta.

E não é vergonhoso reconhecer que os homens são fisicamente mais fortes e rápidos que as mulheres.  A”virilidade” é mesmo um atributo masculino, e essa palavra vem de “viril”, “varão”, etc. Força é outra coisa. Mônica batia com e sem coelho. Ela usava seus músculos e sua força para maltratar e subjugar. Por isso mesmo a pergunta: por que Mônica foi mostrada como uma menina que imitava os homens em suas características mais masculinas (pelo menos no que a cultura assim definiu) como a violência física? Por que não reclamamos que Monica usa seus atributos “para dominar quem não os possui.

Fosse Cebolinha um “macho alfa” da história e teríamos um escândalo. Ele seria o opressor, o sujeito que comete bullying, que maltrata, que destrói e que humilha seus amigos através da força. Mas de Mônica suportamos sua violência contra os amigos, e Mônica é perdoada… por ser mulher. Fazemos vista grossa à sua prepotência e à sua violência. Nas histórias acabamos convencidos que as surras que Cascão e o Cebolinha recebiam era, no fundo, “merecidas”.

Não é curioso? Quando as “vítimas” cometem os mesmos erros e pecados dos algozes sempre temos boas desculpas a dar.

E é exatamente por essa razão que eu julgo essa personagem rica e interessante. Ela parece demarcar a virada de uma consciência feminina. Na época em que ela surgiu o feminismo tinha essa cara: “vamos fazer o mesmo que eles“.

Monica era MUITO mais forte que eles, por isso eles apanhavam. Mas era menina, e por isso estava perdoada. A condescendência com a Monica é que me parece o novo. Ela batia, espancava, maltratava os amigos, mas era a protagonista e nós a víamos com bons olhos. Nunca havia pensado muito nessa questão e sempre gostei das histórias, mas Zeza me falou hoje que ficou espantada com a quantidade de violências que ela pratica contra seus “amigos”. Zeza não conseguiu ler uma história até o fim para o meu neto Oliver, pois teria que pular os espancamentos. Não lhe pareceu adequado ou pedagógico contar essas partes.

As pessoas davam MUITA bola para as surras que ela dava nos meninos, pois essa era sua MAIOR característica, lembrada por TODOS. Ela era uma espancadora. Usava a violência como arma e como estratégia de dominação. Entretanto, era perdoada por ser mulher, pois naquele período da cultura era isso que as mulheres ensaiavam: a revanche contra as violências historicamente sofridas. Neste tipo de retruque os excessos são perdoados, as surras têm sua dimensão diminuída, porque é como a tentativa “justa” de equilibrar um placar de abusos francamente desequilibrado.

Cebolinha era esperto e malévolo, pois tentava sempre ludibriar sua opressora. Como todo oprimido usava a fofoca, a maledicência e a dissimulação como armas. Cascão as vezes o ajudava em seus planos, mas era o “sujo”, o que sofria para tomar banho. Mas a característica mais chamativa era o poder superior de Mônica conquistado através da força. Ela não era esperta, ladina, curiosa, vivaz ou bonita. Era forte e, por isso, poderosa. Os meninos apanhavam e a gente sempre tinha a impressão que eles haviam merecido; a surra havia sido bem dada. Por isso é interessante: como julgamos as mulheres que apanham AINDA hoje? “Ah, vai ver que mereceu, que pediu para isso, que usou roupas curtas“. Parece que Maurício fazia uma crítica reversa, mostrando a forma como a sociedade enxerga os …. homens!!! Mas no corpo de uma menina abusadora.

Creio que Mônica é anacrônica hoje, com sua violência explícita, tanto quanto as belas adormecidas o são quando retratam a mulher que é beijada sem autorização, ou que fica em um castelo esperando seu “salvador” para lhe resgatar de uma vida encarcerada. Por outro lado, eu ainda gostaria de ver um filme – ou animação – que fizesse uma releitura de Monica a exemplo que fizeram com “Malévola”, que faz a releitura da “Bela Adormecida”. Queria mesmo ver Mônica se ferrar, sofrer, perder os amigos, ser abandonada e ficar solitária agarrada com seu coelho, enquanto os meninos teriam vidas produtivas apesar das marcas dos abusos que receberam durante toda a infância. Não acredito que o criador de Mônica agiu através de um “radicalismo”, porque sequer acredito que tenha sido consciente (assim como o homoerotismo implícito em Batman), mas suas histórias hoje me parecem o retrato fiel (mas codificado) de um momento de mudança importante na cultura.

Sim, pode ser essa uma boa leitura da obra de Maurício de Souza. Cebolinha e Cascão eram as mulheres da trama, sempre apanhando e tratadas de forma inferiorizada.

É essa a leitura que fiz.

A Mônica agredia porque era agredida” (mas não fisicamente, que fique claro) pelos seus amigos. Bem, há um problema aqui. Tal “explicação” pode justificar todas as guerras e todas as matanças. Todavia, como eu mesmo já falei, Mônica continua sendo perdoada por ser… mulher. No contexto histórico em que ela surgiu essa vingança brutal por parte das mulheres era tolerada e até valorizada. Tínhamos que empatar o jogo da violência. Chega de só o “nosso lado” apanhar. Nessa época uma imigrante latina cortou o pênis do seu marido (supostamente) agressor e não apenas foi absolvida, mas exaltada como heroína por algumas feministas radicais dos Estados Unidos. Não se tratava de uma luta contra a violência aplicada às mulheres, mas uma luta contra os homens violentos, e nessa luta a violência era apenas mais uma arma (O marido tinha o curioso nome de John Wayne).

O problema de justificar a violência física de Mônica é que muitos maridos descrevem EXATAMENTE assim as pancadas que dão em suas mulheres. Vejam que Cebolinha e Cascão agiam como “mulheres” que menosprezavam, humilharam, desmereciam, agrediam verbalmente o “marido” e acabavam sendo espancadas(os). Os homens (Dado Dolabella) que assim se comportam chamamos violentos e espancadores. Para pessoas assim agimos com dureza, punimos com a lei e fazemos doer no bolso, o que para mim está ABSOLUTAMENTE correto. Homem que espanca, em especial as mulheres, merece o rigor da lei, e para isso não há desculpa. Cadeia e multa.

Mas para Mônica, bem, ela sofria na mão deles, era vítima de bullying, era debochada, era humilhada (numa intensidade parecida com a humilhação de um homem enganado), era maltratada por ser dentuça. Nada mais JUSTO que espancar, maltratar, agredir, desmontar e fazer valer seus argumentos através da força superior e da violência.

Pesos e medidas cujas diferenças só podem ser entendidas (mas não justificadas) pela cultura dos anos 70 e 80. Para entender Mônica há que se mergulhar nos valores e no próprio feminismo de décadas passadas. Foi pelo choque de novos valores que Zeza ficou impedida de ler a história até o final, e foi pela sua surpresa que resolvi interpretar o universo de valores que se escondiam por detrás dos desenhos de Maurício, numa exegese obviamente superficial, mas que pode levar a um entendimento mais criativo do fenômeno.

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Contraditório

Discutir

Se você não suporta o contraditório não deveria entrar em controvérsias. Precisa saber que, ao expor seu ponto de vista, encontrará pessoas que pensam o oposto de você (ou de forma muito diversa) e que, até determinação nem contrário, podem se manifestar. Minha opinião é apenas isso: uma mera opinião carregada de intenção. Não se pretende “A Verdade” como alguns podem insinuar, mas tão somente meu ponto de vista sobre determinado tema ou questão.

Isso não deveria ofender ninguém, pois as visões discordantes deveriam ser sempre bem vindas. Se discordar de uma opinião através de argumentos ofende quem diverge da minha, peço desculpas.

Mesmo correndo o risco de não ser entendido e de aumentar cada vez mais a legião de pessoas que nutre por mim aversão e antipatia, ainda acho que é do choque de ideias e propostas que construímos um mundo mais plural.

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