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Uma graça

jesus diabo

Se o mestre Nazareno de mim se aproximasse e suas mãos vazadas pelas chagas segurassem as minhas oferecendo um pedido qualquer que enchesse meu coração de alegria, que diria eu a ele?

Eu pediria a Jesus que deixasse cumprir tudo o que a mim fosse destinado. Que caísse sobre mim o que for por mim merecido e justo. Jamais aceitaria receber o que fosse por uma graça, por um favor, por uma bênção.

– Quero todas as bolhas que meu caminhar mereceu. Quero todo suor que minha pressa escorreu. Exijo toda a sede que minha palavra produziu e todo calor que minha paixão expulsou. Não quero nenhuma dádiva, nenhum valor que não tenha vindo do meu esforço. Peço as punições que for merecedor, mas desejo que só cheguem a mim as recompensas a que fiz jus.

– Não me dê nada, Jesus. Que sentido teria essa vida se nossas conquistas fossem realizadas através de prêmios recebidos sem merecimento? Que justiça é essa que nos oferece benefício por loteria ou bajulação?

– Obrigado, senhor, pelo oferecimento. Guarde o presente para quem realmente o deseja. Para mim me bastam as alegrias simples e a harmonia fugaz que nosso mundo de expiações oferece.

Nesse momento o Jesus redivivo sorri, larga minhas mãos e desaparece em uma nuvem avermelhada, deixando no ar um inconfundível odor sulfuroso.

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Palmada

palmada

Chego mais cedo ao terminal compelido pela minha neurose. A fila do check in está vazia, mas a tripa em pouco tempo se fará presente. Em tempo: na minha infância se usava a palavra “bicha” para designar fila, expressão que veio de Portugal. Hoje em dia “furar a bicha” é crime de transfobia; “bicha” está para fila assim como “gay” está para alegre. Os costumes sepultam expressões, mas para cada uma que morre outras tantas nascem ou são revividas pela fala.

Solicito a troca do meu assento. Outra neurose: só consigo viajar no corredor. Não adianta me dizer que “a vista quando se chega em… é linda”. Claustrofobia. Urina frouxa.

Troquei. “Viu como é bom chegar cedo?”. Poderei esticar as pernas e visitar o banheiro sem pedir licença.

Resolvo tomar um café com leite, mais para me acalmar de um dia cheio de atribulações do que por qualquer necessidade ou fome. Ao me aproximar do caixa escuto a conversa das atendentes enquanto faço o pedido da “média”.

– … e com cinco anos nunca apanhou. Não sei mais o que fazer.

Olho para a moça que havia falado. Loira, alemoa, carinha redonda de “colona”. Olhos verdes brilhantes e bochechas vermelhas. Parece uma figura que seria facilmente encontrada num “kerb” em Nova Hartz.

Pergunto, consciente da minha indevida intromissão.

– Quem aí disse que nunca bateu?

Elas se olharam intrigadas. Quem é esse velho se metendo na nossa conversa?

– Eu disse, falou a loirinha. Meu filho tem 5 anos e nunca apanhou, mas agora anda impossível. Não sei mais o que fazer.

– Bem, disse eu, não sei exatamente o que podes fazer, mas posso te garantir que bater no seu filho será absolutamente inútil. Se é verdade que as criança precisam descobrir limites para o seu ego em expansão, também é verdade que a violência apenas poderá oferecer a elas um idioma, uma linguagem de respostas imediatas, mas jamais uma comunicação correta ou adequada.

A moça do caixa, mais velha e talvez com filhos adolescentes, entrou na conversa.

– Mas a geração anterior, que recebeu castigos mais severos e até físicos, não é mais educada e respeitosa que esta? Não estou justificando espancar uma criança, mas uma palmada não seria adequada… talvez imprescindível?

A loirinha quis concordar, mas olhou para mim em busca de uma opinião de alguém mais ve…, digo, experiente.

– A minha geração e a anterior não produziu crianças mais educadas ou “com modos”; ela apenas criou crianças com medo. Muitas crianças tiveram sua criatividade destruída pelos castigos brutais que receberam. Não creio que esta opção possa lhe dar qualquer garantia de “educação” ou “bom comportamento”, mas certamente oferecerá a ela um “imprint“, uma marca afetiva e profunda, que determinará efeitos por toda a vida. Esta mensagem afirmará, por partir de uma figura importante e essencial como a mãe, que a violência é um artifício válido para a solução de conflitos ou frustrações. No futuro este adolescente ou adulto, diante de um desafio limítrofe qualquer, recorrerá ao depósito de suas memórias antigas e reconhecerá na brutalidade uma via lícita para resolver seus problemas ou descarregar suas angústias. O ciclo então se mantém: o espancado se identifica com o espancador e garante a linha sucessória da violência. É essa a herança que queremos deixar aos nossos filhos?

– Eu nunca consegui bater nele, moço.

– Então siga obedecendo seu coração. Não se conserta nada com violência. Pense nisso e…. parabéns.

Ela sorriu e entregou a bandeja com meu café, cujo vapor coloriu a atmosfera próxima com o aroma da nobre semente.

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Mississipi

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Uma historinha…

Quatro jovens entram em uma loja no shopping sem camisa. Três brancos e um negro. Em função da contravenção a polícia é chamada. Todos são interrogados, mas só o negro é detido, espancado, humilhado e levado à prisão. Quando pergunta por que só ele foi perseguido e punido recebe como resposta: “Mas você está justificando seu ato indecoroso porque outros também fizeram? Que vergonha!!” Ele então responde: “Não, meu ato de não usar camisa pode até ser punido, o que me espanta é o fato de que apenas eu sou perseguido e espancado. Por que os meus amigos não estão presos?” A resposta dos policiais é: “Não vem ao caso“….

Nesse momento ele percebeu que não havia sido preso por andar sem camisa, que até é uma contravenção verdadeira. Ele havia sido preso por ser negro em um shopping, um “crime” muito pior, mas que ele não havia percebido.

Sua queixa não é contra a sua punição, mas a intensidade dos espancamentos diários, e a seletividade em escolher sobre quem cai a mão pesada da lei, e sobre quem o julgador apenas diz que “não vem ao caso“….

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Desprezo

Mulher braba

Escrevi um enorme texto e apaguei…

Guardei apenas a última frase: “Nunca despreze a violência de uma mulher que se sentiu desprezada por um homem”. A violência dos homens na mesma situação bem a conhecemos, e ela é trágica. Mas a das mulheres as vezes pode passar despercebida…

A violência de um homem desprezado bem a conhecemos, e ela é trágica. E para essas mulheres já existem sistemas de suporte. Minha frase se referia apenas ao fato de que é natural um homem ser desprezado por uma mulher em um baile, num pedido para sair, numa abordagem qualquer. Para um homem comum isso não é uma desonra. Levar um “não”, “estou cansada”, “sai pirralho”, “vai te criar”, “estou conversando com minhas amigas”, etc… é natural. A imensa e gigantesca maioria dos homens civilizados bota isso na conta da ousadia. “Se colar, colou. Se não der certo, vamos para a próxima“.

Entretanto, as mulheres não tem esse treinamento de milênios oferecido pelo modelo patriarcal. Eles não sabem levar “não”. Ficam contidas e se sentem humilhadas. O problema é que a revolução feminina colocou no “mercado” milhões de mulheres que acham que tem o (justo) direito de tomar a iniciativa. Tiram para dançar e até se oferecem sexualmente. Todavia, não estão ainda preparadas (como nós) a receber um rechaço por suas investidas. Ficam indignadas e, primeira atitude, desqualificam o sujeito. “Bixa“, “frouxo“, “fraco“, etc. Maior ainda é a maledicência sutil e insidiosa que vai ocorrer depois. As mulheres, se quiserem ser livres a ponto de se tornarem “caçadoras”, precisam se adaptar ao fato de que nem sempre a flecha atinge o alvo.

E a culpa não é do alvo.

PS: Eu sei que homens matam mulheres por serem desprezados, por ciúmes, por se sentirem abandonados. Sei que esse problema é muito maior. Entretanto, o fato de haver uma guerra na Síria não me impede de questionar o aumento no preço da farinha de rosca. Até porque um fato não invalida o outro.

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Terra arrasada

terra arrasada

Todas as supostas vitórias trazem consigo o germe da frustração. O que parece ter sido o ápice de uma conquista retumbante muitas vezes não é mais que o prenúncio de uma tragédia. A expulsão dos romanos da Judeia, e a libertação de um povo dominado, veio apenas alguns anos antes do extermínio, a destruição e a diáspora. Aqueles que comemoraram o arbítrio, apenas porque lhes interessa a vingança, estão semeando a brutalidade que lhes recairá no futuro.

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Shortinhos

Shortinho

Tive o cuidado de perguntar para a minha filha antes, já que ela é expert em assuntos feministas, e ela concordou comigo: essa NÃO é uma pauta feminista. E por uma razão bem simples de entender: não existe uma constrição de vestuário baseada em gênero. A regra se aplica a todos. Meninos não podem assistir aulas de “shortinho” ou sem camisa. Eles também precisam se adequar à norma. Portanto, é uma questão de costumes, que tem a ver com o traje de meninas de classe média que frequentam uma escola privada, e não com uma restrição ao sexo feminino de usar determinada roupa.

O shortinho NÃO está sendo proibido por “sexualizar” adolescentes, pela mesma razão que a proibição de assistir aulas sem camisa não é para evitar a sexualização dos garotos. A questão me parece bem mais simples, mas está sendo criada uma celeuma falsamente feminista e reivindicatória sem sentido.

A escola exige uma compostura dos que a frequentam, professores e alunos. O hospital também. A repartição pública idem. Podemos debater esta “compostura” e seus limites, mas a escola tem o direito de estabelecer suas regras. Não é uma restrição às mulheres; é para todos.

Poderíamos imaginar estas mesmas meninas, já formadas em direito, fazendo uma manifestação para que frequentem o fórum de “shortinho”? Ou residentes no hospital? E se fossem proibidas, seria para não “sexualizar” o corpo das advogadas e médicas, ou apenas por que estes locais exigem um determinado decoro, que se expressa pelo linguajar usado, mas também pelos trajes?

Eu creio que as meninas fariam muito melhor escolhendo pautas mais importantes como bandeira. Eu entendo o desejo de engajamento, mas liberação de shortinho não é a mais nobre que eu poderia imaginar.

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Feministo

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Eu não sou feminista.

Não sou, nunca fui e nunca serei.

Ok, por um determinado tempo pensei ser, mas durou pouco. Algumas feministas deixaram muito claro para mim as razões pelas quais eu não podia ser. Lembro que o mesmo ocorreu com um dos meus ídolos, Dr Marsden Wagner. Uma amiga feminista certa vez lhe disse: “Se você não fosse homem seria uma maravilhosa feminista“. Ele contava essa história com genuíno orgulho, com o que concordo plenamente.

Caminhando na praia no meu último dia de férias – depois de muitos anos sem poder tê-las – eu refleti sobre estes limites. Para mim o Feminismo (e coloco letra maiúscula pela sua importância na cultura) é como nacionalidade. Alguns atributos são de nascença, em especial o lugar onde você nasceu. Assim como a sua nacionalidade é algo que os OUTROS conferem a você, também assim entendo o Feminismo.

Eu posso torcer pelo Leicester, falar inglês, comer “fish and chips”, adorar a rainha, cantar o hino, conhecer a genealogia dos Tudor ou me vestir como um britânico, mas não serei inglês a não ser que os ingleses me reconheçam como tal. Na hora de mostrar o passaporte aparecerá para sempre o meu país de origem. E ele não fica ali, atravessando o canal da Mancha.

Com o Feminismo ocorre o mesmo. Seria preciso que as feministas aceitassem essa intromissão, mas o movimento que elas criaram e que trata dos problemas específicos das mulheres apenas a elas diz respeito. Posso dizer que os assuntos da Inglaterra me dizem respeito de forma indireta, pois estamos todos no mesmo planeta e um “bater de asas de borboleta na Inglaterra me afeta aqui”, mas isso apenas me garante o direito de participar do debate, mas jamais carregar a palavra pelos ingleses.

Quando em uma audiência pública em 2014 vi um representante médico auto proclamar-se feminista, mesmo tendo uma história e uma postura francamente misóginas, eu percebi a clara inconformidade das feministas presentes. Era como se tivessem sido insultadas; ficaram indignadas e furiosas com a arrogância do catedrático. Naquele momento pude colocar no tabuleiro de ideias à minha frente a última peça que faltava para entender a questão do “pertencimento”. O abuso em considerar-se feminista era ofensivo e violento àquelas que há muitos anos lutavam por essa proposta.

Minha vinculação com as ideias do feminismo, todavia, não precisou jamais ser desafiada. Posso continuar sendo um proponente da autonomia plena da mulher sobre seu corpo e seu destino. Posso lutar por partos mais seguros e edificantes. Posso brigar com unhas e dentes pelo empoderamento feminino e pela liberdade garantida para fazer escolhas. Posso ser um “aliado sem ser alinhado”. E tenho uma ótima razão para fazer isso.

Mulheres e homens fazem parte da humanidade. Dividimos o mesmo espaço na terra e a natureza nos aproxima através dos laços do desejo. Por mais que este seja vilipendiado, há algo que nos faz sempre buscá-lo. Pois “ele dá dentro da gente e não devia, é feito estar doente de uma folia, e nem dez mandamentos vão conciliar, nem todos os unguentos, toda alquimia”, como diria Chico. O feminismo, ao criticar o paradigma sempre acerta; ao atirar nos homens, sempre erra.

Somos todos da família humana apenas artificialmente apartados. Somos ainda todos nascidos de mulher e, portanto, o nascimento produz uma marca indelével em todos que nascem, sejam homens ou mulheres. Cuidar destas é, em última análise, cuidar de toda a humanidade.

E como sou um pedaço dessa humanidade tenho total autoridade para lutar pelo que julgo ser o melhor para todos nós, humanos. E o melhor para todos é considerar as mulheres como dignas e fortes, capazes e livres.

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Dor insuportável

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Uma dor insuportável? Não deixar os filhos crescerem.

Na vida driblamos as adversidades escolhendo a que nos provoca menos dor. Entre a perda da liberdade e a solidão escolhemos o casamento. Entre a exploração e a fome escolhemos o emprego. Entre a desconsideração dos pares e a integridade ética escolhemos a cesariana. Entre a dor da partida e a violência da opressão, deixamos que os filhos criem asas e saiam voando pelo mundo. Sempre há uma escolha a ser feita e cada um sabe onde o sapato mais lhe aperta.

Por isso que JAMAIS insisto nas tentativas de “conversão” de profissionais que se aproximam – entre temerosos e tímidos – do discurso da humanização do nascimento. Se a prática violenta que usam em sua atitude cotidiana não lhes causa DOR qualquer ação para mudar suas condutas será inútil. Estes colegas continuarão agindo dentro de suas cápsulas analgésicas, onde encontram o conforto e a aceitação que procuram. A estes falta a necessária e indispensável neurose para conduzir a mudança que desejamos.

Sem sofrimento não há mudança. Deixar um filho partir só é possível diante da dor maior de vê-lo definhar sob nossas asas.

Humanizar sua prática de parto, com toda a dor que isso acarreta, só é possível diante da vergonha de expropriar a mulher de seu momento mais sublime. Mas para isso faz-se necessário ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.

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Vitimismo

Vitimismo

Uma comunidade de direita apareceu na minha TL com a mensagem conhecida de que não existe racismo, mas indivíduos de diversas etnias que escolhem caminhos certos ou errados.

A retórica é a conhecida exaltação da meritocracia. Os negros não se esforçam tanto quanto os brancos, por isso estão em condições menos favoráveis na economia. Se os negros parassem de reclamar e se esforçassem mais esta distância acabaria. Chamam os movimentos sociais contra o racismo de movimentos “vitimistas”.

O vitimismo é o uso da condição de vítima para obter vantagens. Todo mundo sabe o que é isso, e todo mundo que teve irmãos na infância já usou das táticas vitimistas. Dito isso, é óbvio que existe vitimismo no movimento negro, no movimento LGBT e no feminismo. É impossível existir vitimas que não se seduzam pelo vitimismo e as vantagens que ele oferece. Ele funciona como um bypass, um atalho para conseguir alguma vantagem usando sua condição política e economicamente inferior. Não há como não se deixar levar, mesmo que temporariamente, por esta sedução.

Entretanto, existe racismo, homofobia e misoginia na nossa cultura. Essa evidência pode ser facilmente extraída das estatísticas e dos dados governamentais, assim como dos relatos dos negros, dos homossexuais e das mulheres que sofrem atos racistas lgbtfóbicos ou machistas. Minha experiência com o parto me permitiu testemunhar milhares de atos, atitudes e comportamentos claramente sexistas contra as gestantes nas instituições que trabalhei, acima de qualquer dúvida. Com os negros e homossexuais certamente é o mesmo.

Não se trata, portanto, de contrapor vitimismo com preconceito. O vitimismo é absolutamente minoritário nesses movimentos, que se estabelecem sobre a crueza dos fatos do cotidiano, onde negros, mulheres e homossexuais são desconsiderados em função de sua cor, gênero e orientação sexual. Não há como desmerecer a luta contra o machismo, o racismo ou a homofobia pela existência, francamente minoritária, de discursos vitimistas no seio desses importantes movimentos sociais.

A tentativa de desqualificar a luta contra o racismo, a homofobia e o machismo apenas demonstra que os avanços alcançados por estes grupos incomodam os poderosos, e por isso mesmo precisam continuar.

A questão é que o “vitimismo” funciona como uma capa encobridora, fazendo com que todas as reivindicações dos grupos oprimidos desapareçam por serem deslegitimadas. Se existe ou não vitimismo em alguns setores destes movimentos é o menos importante. O que tem valor é reconhecer a legitimidade das lutas e respeitar seus pressupostos.

Nivelar, em que topografia for, é fazer justiça. Mas sequer é esse o problema. A “discriminação positiva” é uma etapa de readaptação, um processo de “aceleração da equidade”. É usada para tornar mais célere a justiça social, e por isso ela um dia acabará, como aconteceu em muitos lugares onde foi implementada (Flórida, por exemplo). No Brasil podemos constatar a olho nu como ela está produzindo frutos: uma quantidade crescente de negros tendo acesso às universidades e, mais ainda, aos cobiçados cursos de Medicina, Direito, Computação etc…

Quando os efeitos sociais da escravidão tiverem, por fim, evanescido o suficiente para não serem notados nas filigranas do cotidiano eu serei o primeiro a reivindicar pela extinção do sistema de cotas.

Por ora a inconformidade de uma parcela da classe média – ressentida e meritocrática – é a melhor medida para avaliar o sucesso do programa.

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Ódio

odio

Qual o sentido publicar textos de ódio pela Internet contra pessoas que cometeram crimes famosos? Qual o sentido de agredir pessoas que já foram presas a condenadas pelos seus erros e falhas?

 Qual o sentido de odiar uma pessoa que já está destruída? Qual o sentido em destroçar quem já foi despojado de tudo? Não percebem que isso – odiar alguém que cometeu um erro – as aproxima do criminoso? Somente o oposto disso – o perdão – é capaz de produzir esse saudável afastamento. Somente o perdão que surge de uma profunda autocrítica pode nos colocar ACIMA destas questões.

 Meu pai sempre dizia, quando recebia uma “fechada” no transito: “Não posso xingar esse sujeito, pois ainda está vívida em minha lembrança a ultima vez que, por desatenção ou descuido, fiz exatamente a mesma coisa“.

 Mas…claro que não vou pedir que perdoem quem fez tanto mal. Isso serve apenas para as pessoas que, como Terêncio, são capazes de dizer “o que é humano não me é estranho”. Para o resto eu peço tão somente que não disseminem ou distribuam seu ódio publicamente, até porque isso em nada atinge o pobre criminoso, mas mostra que seus algozes não são tão diferentes dele quanto pensam… O motivo foi a constante crucificação da mulher que mandou matar o enteado. Mas basta um olhar muito rápido para perceber que ela é um farrapo humano. Resta pouco nela que possamos ainda tripudiar. Mas … para quê? Qual a razão de carbonizar um corpo quase destituído de vida? O que se ganha ao jogar ainda mais para baixo essa mulher? Eu digo: nada.

 Entretanto, ao fazer isso nos aproximamos de sua miséria e provamos que somos mais parecidos com ela do que pensamos. São pobres seres humanos, dignos de comiseração. Nenhum de nós admitiria trocar de lugar com esta pessoa, nem por cinco minutos. Quando se reconhece a miséria alheia isso não significa inocentá-la de todos os crimes, mas apenas que seus erros não podem nos afetar porque não encontram nenhuma ressonância em nós. Poderia ser esse caso ou qualquer outro.

 Ódio não nos leva a lugar algum. Não estou pregando moral, e talvez eu mesmo também sucumbisse à proteção que o ódio e o rancor prometem. Entretanto, não acredito que algo de construtivo possa surgir desse sentimento.

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