Se é necessário jogar os velhos ídolos ao fogo na árdua tarefa de nós libertar de seu jugo sufocante, também creio ser fundamental fazê-lo de forma criteriosa.
Ainda considero válida a tese de que “as virtudes são do homem, os vícios de sua época”. Não há como criticar um personagem sem a necessária contextualização do sujeito no tempo e no espaço. Se não há “sujeito sem cultura, e cultura sem sujeito” então tudo o que somos surge dessa interação entre nossa subjetividade e o conjunto de valores que nos rodeiam no oceano de significantes e significados onde estamos submersos.
Por outro lado, o entendimento de figuras icônicas como sujeitos falíveis e limitados nos ajuda a humanizá-los. Tal tarefa é fundamental para que, assim identificados, possamos seguir seus ensinamentos com mais precisão. Enquanto forem divindades serão inatingíveis; ao nosso lado, passíveis de falhas e erros humanos, serão parceiros de travessia.
Entretanto, se posso perdoar a falta de amabilidade de Marx com seus filhos e seu caso extra conjugal, assim como as diatribes dos astros da TV ou do futebol, o mesmo não posso dizer de literatos cujas palavras escritas ferem preceitos básicos da civilidade e da dignidade humana. Por mais que sua genialidade transpareça e seja exaltada, e mesmo que as épocas sejam outras, a misoginia e o racismo de Fernando Pessoa ou Humberto de Campos são inaceitáveis e colocam a profundidade e dimensão de sua obra em questão. Se a imagem que fazem de negros e mulheres era tão diminutiva e preconceituosa, que outras falhas de percepção podem ser piores?
Perder um ídolo é como arrancar uma parte de si mesmo; felizmente uma porção de nós que ainda nos prendia às fantasias e idealizações mais infantis.
Rola pela Internet um texto que fala das agruras da maternidade e da quantidade enorme de mulheres que odeiam ser mães. É claro que os relatos das dificuldades são verdadeiros e reais; não há dúvida de de que o nascimento de um filho impõe – em especial às mulheres – um peso muito grande e uma enorme mudança paradigmática. É inquestionável a dureza da parentalidade, em especial num mundo em que para as crianças não basta mais o suprimento de suas necessidades básicas (comer, beber, ser amada, vestir-se, etc.), pois que já nascem envolvidas num universo de desejos infinitos e insaciáveis.
Por outro lado, depois de conviver por 35 anos ao lado das mulheres grávidas, resta uma dúvida e uma desconfiança. Se são verdadeiras as queixas e a tonelagem de atribuições massacrantes sobre as mães, as quais tornam insuportáveis a vida de relação e o prazer, fazendo da existência um tormento infrutífero e vazio, por que ainda está fixo na parede da minha memória aquele sorriso que teima em brotar de seus lábios? Qual a razão de ser daquelas meninas que, entre orgulhosas e emocionadas, estendem a mão em minha direção segurando, ainda trêmulas, um mísero pedaço de papel timbrado onde, no meio de letras espalhadas, números, datas e logotipos, sobressai uma única palavra, que faz seus olhos marejarem apenas por repeti-la?
“POSITIVO”, dizem elas com seus sorrisos enfeitiçados.
A história de dor, que a ninguém cabe duvidar, existente em cada gestação não pode ser completa sem que esse sorriso enigmático seja colocado na equação.
Como sempre acontece com esses textos sobre os “horrores da maternidade”, eles contam a dureza do trabalho sem relatar (espertamente) o gozo. Todos eles, sem exceção, mostram um fato pincelado com as tintas do sacrifício, escondendo a energia poderosa e libidinal que nos empurra em direção a esse precipício. O que há para além da dor que teimamos em omitir?
Eu poderia escrever o mesmo texto, usando as MESMAS palavras e copiando uma igual arquitetura para relatar as agruras de ter, por exemplo, um relacionamento afetivo.
* Sarcasm notification *
“Eu odeio ter namorado(a)”. Alguém é capaz de negar que tal condição implica na perda da liberdade, sobressaindo-se as críticas, a angústia, a saudade, a mudança de perspectivas, o afastamento dos antigos amigos, os ciúmes e o medo corrosivo e destruidor de perder seu amor?
Tudo isso é verdade, e mesmo assim as pessoas continuam acreditando que amar é bom!!!! Escrevem livros sobre isso, romantizam relacionamentos, colocam fotos de casais felizes e as pessoas perdem a cabeça com aparente felicidade. Fazem até filhos para materializar essa alegria transbordante.
É tudo mentira!!!!
Na verdade as pessoas se escravizam mutuamente, mentem e se enganam. Mal se suportam e depois, sem que possamos perceber, regam seus travesseiros no meio da madrugada com as lágrimas do arrependimento e da desesperança.
Não é verdadeira ou real essa fábula do amor. As pessoas se “juntam” apenas por serem pressionadas pelo capitalismo a comprar fogões e geladeiras numa falsidade insuportável guiada pela sociedade de consumo. Somos marionete do capitalismo, fazendo dívidas e filhos apenas para dar conta do mercado.
Amar o outro é uma fraude, uma obrigação social criada pelo sistema escravizante que nos governa e aprisiona. Lutar para garantir o seu amor nada mais é do que esforçar-se na compra da própria prisão. Não é por acaso que “esposa” em espanhol se diz “algema”, alma gêmea.
Amar é a mentira que sempre nos contaram, deixando de lado todo o sofrimento e humilhação que acompanha este ato ingênuo e suicida. A dor de amar, de comprometer-se com alguém, não vale a pena ser paga. Somente os tolos e covardes admitem a escravidão como lenitivo amargo para escapar à solidão.
Mas… então, como explicar aquele sorriso? Será que perdemos algum detalhe pelo caminho?
Não se trata de colocar um “lado trash” da maternidade, mas de exaltar o espinho escondendo o perfume. O texto ao qual me referia não é reflexivo; é prescritivo. Por isso senti um desconforto ao me deparar com ele pois, ao invés de apontar para o fim das idealizações, aponta para OUTRA, mas com sinal invertido. Para combater o “padecer no paraíso” cria o mito da gravidez paralisante, que aprisiona mulheres sem nenhuma contrapartida de alegria ou prazer. Engravidar e ter filhos é uma “merda” (talvez porque a sua tenha sido, mas isso não implica em prescrever essa imagem para todas).
O texto peca pela falta de perspectiva e ausência de compreensão sobre a transcendência desta construção humana. Se é verdade que as mulheres são “escravas de sua raça e os homens escravizados pelas mulheres” também é verdade que a única razão pela qual esse sistema faz sentido é pelo misterioso elemento que lhe oferece sentido: o amor. Mas pode chamá-lo de desejo se “amor” lhe parece por demais assustador.
Entretanto, analisar um filho – ou um afeto – através dos olhos da praticidade ou da operacionalidade é desconfigurar a essência mais profunda do que nos torna humanos. Sem essa pitada de amor nada pode brotar do caldo de vida que nos constitui.
Li uma suposta carta de Fabíola sobre o triste episódio ocorrido na saída de um motel, mas creio – pela forma como foi escrita – que se trata de uma missiva apócrifa. Melhor que seja, pois achei decepcionantes as suas palavras. Depois de ler a mensagem eu fiquei pensando nas possibilidades de continuidade da vida depois daquele fato trágico e pensei que a melhor alternativa seria o silêncio. Entretanto, se uma explicação pública se tornasse obrigatória ou necessária, o que eu diria?
É praticamente impossível responder o que “deveria” ser dito por ela, pois só ela pode saber o quanto lhe dói. Mais ainda: como aquilatar o que uma mulher sofre diante desta situação? O máximo que eu poderia fazer seria a “transposição” masculina do sofrimento de uma mulher, mas isso é sempre uma aproximação. Ser traído por uma namorada em um mundo patriarcal é diferente de sê-lo por um namorado neste mesmo contexto machista. São acontecimentos que se tornam diferentes pela imersão em uma cultura que penaliza de forma diversa essas experiências.
Por esta razão é difícil me colocar “no seu lugar”. São dores diferentes, repercussões díspares e um resto da vida com caminhos muito distintos.
Todavia, fosse colocado nessa situação e tendo que responder, não tentaria me esconder atrás das frases que eu ouvi por aí. “Ah, os homens sempre fizeram e nada lhes acontece”; ou “ela era uma mulher desprezada”; nem mesmo “trair não é crime”, etc. Acho que acusar os outros – no caso, os homens – não é uma resposta justa. É escapista e mimetiza as respostas históricas que os homens sempre utilizaram para estes “deslizes”.
Eu teria uma mensagem, porém não quero que ela seja vista como a correta; é apenas o que eu diria. Tampouco acho que exista uma frase ou declaração certa a se fazer, e ainda acho o silêncio a melhor opção. Mas, diante da premência de oferecer uma resposta, ela seria assim:
“Sim, errei. Não posso justificar o que fiz sob nenhum aspecto. Minha atitude pode ser humanizada, entendida, contextualizada, analisada e até perdoada, mas não posso justificar a tristeza que causamos (lembrem, eu não estava sozinha) a tanta gente, principalmente àqueles que muito amamos. Sei também que a divulgação das cenas e as agressões que sofri são PIORES do que minhas atitudes, mas para isso existe a lei e ela será acionada. Eles que lidem com o mal que causaram, enquanto eu lidarei com o tanto que causei.
Sim, eu errei. Entretanto uma pessoa é mais do que seus erros ou suas virtudes. Sou mais do que minhas fraquezas e fragilidades. Sou mãe, mulher, profissional e cidadã e não apenas uma “pecadora útil”, cujos erros servem para oferecer aos outros a ilusão de que são mais virtuosos do que realmente são. Qualquer rótulo colocado será injusto e reducionista; sou muito mais do que qualquer nome que me ofereçam.
Meu erro está sendo pago de forma desproporcional, mas o mundo patriarcal cobra esse preço injusto das mulheres. Nossa sexualidade nunca é plenamente nossa; precisa sempre passar pelo controle de um outro, seja no sexo ou até mesmo quando vamos parir, e quando burlamos essas “leis” o céu desaba sobre nossas cabeças.
Peço desculpas pela dor que causei. Realmente não precisava ser assim, mas o que está feito… está feito. Espero que um dia possam entender que sou uma mulher igual a qualquer outra, cujas falhas serviram ao gozo sádico de um público sedento de sangue. Agora, passado o escândalo, peço que me esqueçam e deixem que eu viva minha vida em paz.”
Não vejo incoerência alguma nos meus colegas que, ao mesmo tempo em que celebram a vida através do ativismo pelo parto humanizado, defendem o pleno protagonismo das mulheres sobre seus corpos, incluindo-se aí o direito ao aborto. Não, não é incoerente.
Essas pessoas favoráveis ao aborto se preocupam com as mulheres que morrem todos os dias pelos abortos clandestinos, em salas infectas nas periferias e por mãos totalmente inábeis para esta intervenção. Quem é a favor da descriminalização do aborto ama essas mulheres e não quer mais que elas morram em decorrência de uma proibição que amplia o fosso social do país e que faz as pobres morrerem por falta de assistência, enquanto as ricas tem oportunidade de irem a clínicas sofisticadas e limpas.
Não, não é incoerente. Porém, eu compreendo as pessoas que enxergam a alma em um embrião minúsculo, mas conseguem enxergá-la em uma jovem mulher que cometeu o terrível erro de amar e desejar. Para essas pessoas incapazes de olhar para além de seus preconceitos, eu ofereço o meu perdão.
Não acho justo que pessoas se acomodem aos seus velhos conceitos e depositem placidamente suas bundas em zonas de conforto. Eu não tenho medo de abelhas, portanto não fujo dos abelheiros. Acho importante estimular pensamento crítico e o respeito pelo contraditório, caso contrário seremos apenas depósitos ambulantes de clichês e preconceitos. Toda a minha formação médica foi recheada de tabus. Não se critica HIV, vacinas, remédios, hierarquia médica, etc. Ao meu redor eu via uma tendência a não questionar o socialismo, o mercado, a família, Jesus e o feminismo. Nunca aceitei e estou velho demais para me tornar um “concordino“.
Minhas críticas são, entretanto, no profícuo terreno das ideias. Não combato pessoas e sim propostas, modelos, sistemas e paradigmas. Tanto quanto os homens não são o problema do machismo (apesar de estarem nele envolvidos) também os médicos não são o problema na obstetrícia. Ambos são vítimas de SISTEMAS de poder, nominalmente o patriarcado e a tecnocracia, mas a mudança desses sistemas de forças não se dará tolamente eliminando (ou acusando de forma leviana) médicos e homens, mas mudando de tal forma a cultura que esses modelos serão rejeitados por não satisfazerem mais as aspirações de todos.
Para que isso possa ocorrer é preciso que alguns levem adiante essas propostas, mas exercendo sem tréguas uma autocrítica severa, sob pena de trocarmos um sistema envelhecido e anacrônico por outro, apenas com roupagem diversa.
Sobre essa questão li o texto de uma feminista que escreve na “Folha de São Paulo”, a qual é vista por algumas feministas como uma voz moderada, enquanto outras a enxergam como traidora. Aliás, nada mais natural que isso ocorra…
“Um colega escritor premiado e respeitado se desesperou ao saber que, após um texto seu falando sobre admirar uma mulher bonita, sua filha sofreu bullying das coleguinhas, “seu pai é misógino”. Outro amigo, que trabalha em um prédio na Faria Lima, ficou segurando a porta do elevador, esperando uma colega de trabalho. Ela fechou o tempo com ele: “Ah, sim, porque eu não sei chamar o elevador sozinha e preciso MESMO de um homem pra me ajudar, não é?!”. Daqui a pouco “Garota de Ipanema” vai ser proibida de tocar no rádio.” (Tati Bernardi)
Há alguns anos escrevi um texto em que elogiava as pernas lindas de uma moça (sem nome ou descrição) que passou ao meu lado no aeroporto. O texto brincava com uma evidência: a crueldade divina de nos manter desejantes quando não somos mais desejáveis. A mim cabia apenas admirar e suspirar. A experiência e o tempo, senhores da existência, se agora me sonegavam a proximidade, pelo menos me permitiam a contemplação quase religiosa dos corpos travestidos de desejo.
Entretanto, a simples confissão do impacto que a morena de pernas bonitas produziu nas memórias do velho senhor acabou desencadeando um efeito destruidor por parte de muitas feministas que outrora acompanhavam meus escritos. Nutriam elas a esperança de ver em mim um “macho domesticado” que estaria ao seu dispor eternamente para ratificar sua cruzada religiosa contra o falo opressor. A cruel confissão ao reconhecer minha admiração pela beleza, pela graça e pelo inefável encanto das mulheres foi o tiro de misericórdia. Passei a ser “intragável”, “misógino” e “machista”, e mais alguns impropérios semelhantes aos que a articulista Tati Bernardi foi obrigada a suportar.
Meu crime: amar e admirar as mulheres e deixar explícita minha devoção à sua maravilhosa capacidade de nos encantar e, com isso, manter a vida florescendo.
O texto desabafo de Tati é uma espécie de lenitivo para uma ferida que eu custava a curar. Por causa de minha atitude francamente aberta em defesa do feminino (na minha concepção, passível de crítica) cometi mais de 200 bloqueios de homens e mulheres que usaram as redes sociais para me ofender e agredir, entendendo que esse assunto só pertence a uma vertente de pensamento e que qualquer elogio à mulher feito por um homem pressupõe o anúncio público e explícito de um estupro.
Agora, ao perceber que algumas mulheres (e feministas) concordam com minha tese, passo a me sentir mais tranquilo por ter clareado minha rede social de pessoas que apostam no ódio e na discórdia como modelo de conexão com o outro.
Obrigado, Tati, por dizer o que eu não poderia dizer…
Frase de um colega médico em um debate sobre a presença de doulas no hospital: “Quer dizer que doula agora virou curandeira? Para num passe de mágica sumir com a dor da gestante?“
A resposta é: sim.
Quem já teve uma mãe (ou uma avó) que soprou seu joelho ralado numa partida de futebol sabe como isso pode ser verdade, até porque a “dor”, como a conhecemos, é muito mais do que simples emissões químicas eferentes em direção ao cérebro. A dor é um sentimento, é uma resposta global do sujeito dentro da formatação da linguagem. É por isso que o joelho para de doer depois do “sopro mágico” de uma pessoa querida, e pela mesma razão a proximidade afetiva das doulas faz com que as dores do parto adquiram SENTIDO, e como diriam os Terapeutas do Deserto, “a única dor insuportável é aquela que não tem sentido“.
As doulas, ao oferecerem esse significado às dores do nascer, estão conferindo uma visão especial a elas. Mais do que sinalizadores orgânicos importantes para – entre outras coisas – mudar a posição ou liberar endorfinas, a dor do parto produzirá uma marca importante e empoderadora para esta mulher. Como diria a antropóloga Barbara Katz Rothman, “partos não servem apenas para fazer crianças, mas para construir mulheres fortes e capazes para enfrentar os desafios da maternagem“. As dores do parto são como o cinzel a esculpir a mulher que surgirá, emergindo das profundezas de seus medos para ocupar o lugar que passará a ser dela.
As dores “insuportáveis” que obstaculizam o progresso do parto, a despeito de todo o suporte afetivo, emocional e psicológico oferecido (em especial pelas doulas) precisam ter o suporte da química através das anestesias, mas isso não significa que essa ação drogal deve ser nossa primeira escolha. Esses casos, pela sua raridade, precisam ser controlados com o que a tecnologia pode nos oferecer mas não faz sentido algum imaginar que um rito de passagem como o nascimento, que era levado a cabo com tranquilidade pelas nossas antepassadas, agora precise de recursos tecnológicos perigosos – como as drogas – para ser suportado com dignidade.
Será mesmo que as mulheres involuíram a ponto de que TODAS precisem de “muletas tecnológicas” em função da degenerescência de suas habilidades milenares de gestar e parir?
Existem, pela minha observação, dois tipos de “ativismo”, e creio que eles podem ser observados em praticamente todas as lutas sociais, do feminismo, passando pelo parto, LGBT e movimento negro.
O primeiro eu chamaria de INTRUSIVO. É o ativismo que é feito para dentro, para o núcleo de ativistas que abraçam essa causa específica. Ele se preocupa em canalizar a indignação coletiva e apontar pontos de confronto com os paradigmas e poderes hegemônicos. Seus líderes são por vezes alçados a posições mitológicas como “gurus” ou “mestres”. Sua autoridade é estimulada por si mesmos e pelos seus prosélitos como inquestionável.
A força dos modelos intrusivos está na focalização em um inimigo externo, palpável, reconhecido, essencializado (mau, egoísta, prepotente, etc) e com isso possui uma energia muito intensa de congregação. O movimento de humanização teve essa cara por muito tempo. Os médicos eram os culpados das mazelas do parto, assim como o capitalismo, a formação profissional equivocada, a academia etc. As mulheres, igualmente essencializadas, eram sempre vítimas impotentes, apáticas, frágeis e desrespeitadas.
O modelo intrusivo se fortalece pela indignação que, finalmente, se ordena em ação reivindicatória. É um movimento de lideranças fortes e bravas, de passeatas e greves. Funciona com a energia libidinal da confrontação com os opressores.
Existe, entretanto, um outro modelo que eu chamo de EXTRUSIVO.
Contrariamente ao modelo anterior, ele se propõe ao convencimento externo. Não se trata mais de “converter os convertidos”, mas de levar “a boa nova aos gentios”. Desta forma, não há como utilizar a energia fulgurante da indignação represada, pois a mensagem não é destinada aos oprimidos, mas aos indiferentes e mesmo aos opressores.
O movimento de humanização do parto e nascimento passou de uma forma muito clara por estes dois modelos. Há 16 anos, quando tive contato pela primeira vez com suas ideias e seus ativistas, tudo era inconformidade. Havia uma força, que aos poucos foi se expandindo, de questionamento àquilo que percebíamos como prática inadequada, hoje em dia referida como “violência obstétrica”. Entretanto, carecíamos de bases suficientemente firmes e abrangentes para formular o que verdadeiramente era a humanização e quais propostas desejávamos levar adiante.
O tempo fez amadurecer nosso paradigma e, por consequência, nossa postura. A visão tripartite da humanização hoje é aceita de forma quase unânime: Em primeiro lugar a garantia do protagonismo, seguida da visão interdisciplinar e, por fim, a vinculação com a saúde baseada em evidências. Com esse escopo ideológico seria possível dizer ao que viemos, e passar a usar o ativismo extrusivo como ferramenta.
Os filmes como “Orgasmic Birth” e o “Renascimento do Parto” são marcas claras de um novo direcionamento, já dentro da lógica do ativismo extrusivo. Já não nos parece mais suficiente convencer doulas, parteiras e os poucos médicos humanizados para as nossas ideias, mas ampliar o público para atingir “novos mercados” – para usar um jargão neoliberal. Queremos agora seduzir novos profissionais do parto para as nossas fileiras, para que possam oferecer uma atenção centrada no tripé que nos define: protagonismo, interdisciplinaridade e MBE.
Todavia, para atingir tais fronteiras é fundamental perceber que os adversários não podem ser destruídos, mas precisam ser seduzidos a valorizar os pressupostos que carregamos como bandeira. Não se trata mais de acabar com os “inimigos” através de táticas de guerra, mas cooptá-los com a doçura das evidências.
Espero que nossa transição possa ser entendida como um processo necessário de amadurecimento e fortalecimento dos paradigmas. Do entendimento de como funcionam essas lutas, e como elas são importantes, surgirão os próximos passos do ativismo pelo parto e nascimento.
E assim será até o dia em que o respeito à liberdade e à autonomia de uma gestante se tornar algo tão natural que qualquer ativismo será obsoleto, como o são desnecessárias hoje em dia as lutas pelo reconhecimento lei da gravidade ou a realidade do heliocentrismo.
Casa sagrada De paredes vermelhas Tantas vezes tuas lágrimas Pintaram o alvo lençol Quantas vezes teus lábios Falaram comigo em meus sonhos Acalentou meus filhos Quando lá os deixei Nutriste seus sonhos E os guardaste para mim Agora que vais Leva meu adeus e a certeza Da gratidão eterna pelo bem Que fizeste à vida.
Eu escrevi uma vez sobre minha curiosidade com o fenômeno das tatuagens, mas era num enfoque psicológico. Num mundo de inconstância as marcas na pele oferecem uma perenidade que o mundo contemporâneo sonega. Os relacionamentos, outrora firmes e seguros , tornaram-se frágeis e temporários. Os papéis sociais antes fixos e determinados nos ofereciam uma segurança de posição no desenho da cultura. Hoje isso é passado e a metamorfose é a regra; o que fomos é apenas lembrança, e não mais o que nos constitui e estrutura.
Se isso nos descortina infinitas possibilidades e construções diárias de um destino incerto, ao mesmo tempo nos oferece um vazio de valores perenes e imutáveis. Parece que nada sobra do que fomos. Sem uma certeza do que, em última análise, nos constitui recorremos às marcas na pele. Elas nos dizem que, a despeito do mundo em constante transmutação, teremos para sempre a marca do dragão, a marca tribal, a rosa, a serpente ou o nome do filho imprimindo para todo o sempre (ma non troppo) o sentido de um momento, captura eterna de um fragmento de emoção.
Todavia, existe um outro aspecto que deveria ser explorado: a intoxicação causada pelas substâncias injetadas na derme. E essa é uma preocupação crescente. Algo tão “na moda” mereceria ter uma abordagem de saúde pública.
O rapaz no aeroporto se aproximou pelo lado direito, e chegou perto o suficiente para que eu percebesse que queria falar comigo. Entretanto, não conseguia tirar os olhos da tela do computador, já que uma torrente de ideias me invadia para a feitura do texto que Robbie havia me pedido.
– Posso incomodar?
Eu continuei escrevendo, pois não queria perder o fio do raciocínio. Mantive os olhos grudados na tela do computador e respondi secamente: “Claro“…
– Preciso colocar o meu celular para carregar. Posso usar a mesma tomada que você está conectado para ligar o meu telefone?
Meu rosto não se mexeu. Continuei escrevendo e falei: “Pode“.
Só nesse momento eu percebi a imensidão da minha grosseria. É verdade que eu estava ocupado e tentando me manter focado. Tinha medo de perder o fio da meada, e não conseguir desenvolver minha ideia. Tinha que terminar este texto antes que Robbie chegasse em casa. Mas o que custaria levantar a cabeça, sorrir e deixar claro para ele que isso não me incomodava de maneira alguma e que eu faria questão de dividir a tomada da parede com ele?
Tentei reverter a má impressão deixada pela minha rudeza e me voltei em sua direção, quando ele já voltava para seu lugar após conectar o telefone. Percebi que sequer era um rapaz; era um senhor um pouco mais jovem que eu. “Nem o rosto eu havia visto, pensei. Quer vergonha!“.
Há muitos anos que tenho esse fantasma a me perseguir. Durante décadas tentei esconder de todos um problema genético que ataca a mim, meu pai e meu irmão menor. Somos afetados por uma moléstia muito comum, mas que é facilmente dissimulada, como uma doença que se esconde ao olhar dos outros e da qual temos vergonha em admitir. Nossa doença é a fobia social.
Meu pai talvez seja o mais acometido. Incapaz de ir a festas, divertir-se em público, frequentar lugares, andar em uma multidão e (em especial) entrar em uma fila, hoje em dia tornou-se um ermitão. Apesar de ser extremamente afável com todos eu percebo facilmente seu desconforto com a aproximação de pessoas desconhecidas. Nas obrigatórias festas de aniversário é notável seu desconforto com a balbúrdia, a gritaria e até as conversas superficiais. Meu irmão menor também tem sofrimentos análogos. Durante muitos anos era difícil tirá-lo de casa, e só com muito esforço eu o arrastava para alguns encontros sociais. Também ele não gosta de pessoas que não conhece, tem medo de festas, odeia conversas recheadas de superficialidades e com pessoas estranhas ao seu meio.
Eu sofro do mesmo mal, mas numa forma mais branda. Assim como meu irmão menor, encontrei na palavra escrita um refúgio. A forma compulsiva de escrever me faz parecer sociável ou “expansivo”, mas é apenas uma fachada falsa e que não se sustenta facilmente quando o encontro com as pessoas é inevitável. Nunca cultivei amigos próximos, nem sou fácil de me relacionar com os colegas. A festa de 30 anos de formatura da minha turma da faculdade terá uma ausência certeira este ano…
Quando vejo artistas na TV participando de programas de variedades eu nunca invejo seu talento e muito menos o dinheiro. O talento é sempre duvidoso e o dinheiro é “merda”, como diria minha antiga psicanalista. Quem valoriza dinheiro a ponto de endeusá-lo é porque perdeu todas as esperanças de ser feliz. Pessoas verdadeiramente felizes quase não precisam de riqueza material. Para consumir, ter coisas e colecionar objetos é fundamental cultivar desde sempre a infelicidade. A propaganda é a arte de nos fazer infelizes, vendendo a seguir a cura através de um objeto.
Não, nem o talento questionável e sequer o dinheiro inútil: o que eu invejo é o sorriso, a espontaneidade e a facilidade de se relacionar com as pessoas. O que eu mais gostaria na vida é ser simpático. Gostaria de sorrir para todas as coisas, ser explicitamente feliz (mais do que interiormente). Gostaria de ser extrovertido, brincalhão e jovial, e preferia não ter herdado esse humor inglês soturno e melancólico. Como diria Woody Allen, “é por contar piadas como esta que você não é convidado para festas desde 1938“. Gostaria de gargalhar com felicidade e ter sempre um sorriso para retribuir às pessoas.
O fantasma que me persegue é a rabugice que acompanha os velhos.
Tenho medo que minha doença antissocial me leve a um final triste. Temo que meu olhar soturno se transforme em ressentimento com o mundo, na incapacidade de vislumbrar a esperança e na impossibilidade de vencer as dores na alma quando a desilusão chegar. Tenho pânico de imaginar minha velhice solitária sentado em uma cadeira, reclamando dos políticos ladrões, do barulho da vizinha, dos netos que não param quietos e do chato que veio me interromper quando eu estava concentrado.
No aeroporto eu vi o que poderia vir a ser, e morri de medo.
Eu sei, eu reagi. Sim, a consciência de minha sina genética e das minhas tendências mórbidas pode me dar um alento, uma tênue esperança de poder vencer minhas fragilidades e afastar o espectro da indignação desesperançosa e triste que me espera.
Se houvesse uma escola de risos eu me inscreveria. Se houver como ser explicitamente feliz, trazendo no sorriso e na expressão acolhedora uma mensagem de paz, eu desejaria aprender. Ok, eu sei que alguém vai dizer que essa escola existe e que eu até já me matriculei. A ela chamamos “netos”…
Espero que assim como meus filhos foram meus grandes professores para o aprendizado da maturidade, meus netos possam me ensinar a ser um velho decente, otimista e simpático.