Arquivo da categoria: Pensamentos

Casa Sagrada

Bebe utero

Casa sagrada
De paredes vermelhas
Tantas vezes tuas lágrimas
Pintaram o alvo lençol
Quantas vezes teus lábios
Falaram comigo em meus sonhos

 Acalentou meus filhos
Quando lá os deixei
Nutriste seus sonhos
E os guardaste para mim
Agora que vais
Leva meu adeus e a certeza
Da gratidão eterna pelo bem
Que fizeste à vida.

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Tatuagens

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Eu escrevi uma vez sobre minha curiosidade com o fenômeno das tatuagens, mas era num enfoque psicológico. Num mundo de inconstância as marcas na pele oferecem uma perenidade que o mundo contemporâneo sonega. Os relacionamentos, outrora firmes e seguros , tornaram-se frágeis e temporários. Os papéis sociais antes fixos e determinados nos ofereciam uma segurança de posição no desenho da cultura. Hoje isso é passado e a metamorfose é a regra; o que fomos é apenas lembrança, e não mais o que nos constitui e estrutura.

Se isso nos descortina infinitas possibilidades e construções diárias de um destino incerto, ao mesmo tempo nos oferece um vazio de valores perenes e imutáveis. Parece que nada sobra do que fomos. Sem uma certeza do que, em última análise, nos constitui recorremos às marcas na pele. Elas nos dizem que, a despeito do mundo em constante transmutação, teremos para sempre a marca do dragão, a marca tribal, a rosa, a serpente ou o nome do filho imprimindo para todo o sempre (ma non troppo) o sentido de um momento, captura eterna de um fragmento de emoção.

Todavia, existe um outro aspecto que deveria ser explorado: a intoxicação causada pelas substâncias injetadas na derme. E essa é uma preocupação crescente. Algo tão “na moda” mereceria ter uma abordagem de saúde pública.

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Velho Rabugento

O rapaz no aeroporto se aproximou pelo lado direito, e chegou perto o suficiente para que eu percebesse que queria falar comigo. Entretanto, não conseguia tirar os olhos da tela do computador, já que uma torrente de ideias me invadia para a feitura do texto que Robbie havia me pedido.

– Posso incomodar?

Eu continuei escrevendo, pois não queria perder o fio do raciocínio. Mantive os olhos grudados na tela do computador e respondi secamente: “Claro“…

– Preciso colocar o meu celular para carregar. Posso usar a mesma tomada que você está conectado para ligar o meu telefone?

Meu rosto não se mexeu. Continuei escrevendo e falei: “Pode“.

Só nesse momento eu percebi a imensidão da minha grosseria. É verdade que eu estava ocupado e tentando me manter focado. Tinha medo de perder o fio da meada, e não conseguir desenvolver minha ideia. Tinha que terminar este texto antes que Robbie chegasse em casa. Mas o que custaria levantar a cabeça, sorrir e deixar claro para ele que isso não me incomodava de maneira alguma e que eu faria questão de dividir a tomada da parede com ele?

Tentei reverter a má impressão deixada pela minha rudeza e me voltei em sua direção, quando ele já voltava para seu lugar após conectar o telefone. Percebi que sequer era um rapaz; era um senhor um pouco mais jovem que eu. “Nem o rosto eu havia visto, pensei. Quer vergonha!“.

Há muitos anos que tenho esse fantasma a me perseguir. Durante décadas tentei esconder de todos um problema genético que ataca a mim, meu pai e meu irmão menor. Somos afetados por uma moléstia muito comum, mas que é facilmente dissimulada, como uma doença que se esconde ao olhar dos outros e da qual temos vergonha em admitir. Nossa doença é a fobia social.

Meu pai talvez seja o mais acometido. Incapaz de ir a festas, divertir-se em público, frequentar lugares, andar em uma multidão e (em especial) entrar em uma fila, hoje em dia tornou-se um ermitão. Apesar de ser extremamente afável com todos eu percebo facilmente seu desconforto com a aproximação de pessoas desconhecidas. Nas obrigatórias festas de aniversário é notável seu desconforto com a balbúrdia, a gritaria e até as conversas superficiais. Meu irmão menor também tem sofrimentos análogos. Durante muitos anos era difícil tirá-lo de casa, e só com muito esforço eu o arrastava para alguns encontros sociais. Também ele não gosta de pessoas que não conhece, tem medo de festas, odeia conversas recheadas de superficialidades e com pessoas estranhas ao seu meio.

Eu sofro do mesmo mal, mas numa forma mais branda. Assim como meu irmão menor, encontrei na palavra escrita um refúgio. A forma compulsiva de escrever me faz parecer sociável ou “expansivo”, mas é apenas uma fachada falsa e que não se sustenta facilmente quando o encontro com as pessoas é inevitável. Nunca cultivei amigos próximos, nem sou fácil de me relacionar com os colegas. A festa de 30 anos de formatura da minha turma da faculdade terá uma ausência certeira este ano…

Quando vejo artistas na TV participando de programas de variedades eu nunca invejo seu talento e muito menos o dinheiro. O talento é sempre duvidoso e o dinheiro é “merda”, como diria minha antiga psicanalista. Quem valoriza dinheiro a ponto de endeusá-lo é porque perdeu todas as esperanças de ser feliz. Pessoas verdadeiramente felizes quase não precisam de riqueza material. Para consumir, ter coisas e colecionar objetos é fundamental cultivar desde sempre a infelicidade. A propaganda é a arte de nos fazer infelizes, vendendo a seguir a cura através de um objeto.

Não, nem o talento questionável e sequer o dinheiro inútil: o que eu invejo é o sorriso, a espontaneidade e a facilidade de se relacionar com as pessoas. O que eu mais gostaria na vida é ser simpático. Gostaria de sorrir para todas as coisas, ser explicitamente feliz (mais do que interiormente). Gostaria de ser extrovertido, brincalhão e jovial, e preferia não ter herdado esse humor inglês soturno e melancólico. Como diria Woody Allen, “é por contar piadas como esta que você não é convidado para festas desde 1938“. Gostaria de gargalhar com felicidade e ter sempre um sorriso para retribuir às pessoas.

O fantasma que me persegue é a rabugice que acompanha os velhos.

Tenho medo que minha doença antissocial me leve a um final triste. Temo que meu olhar soturno se transforme em ressentimento com o mundo, na incapacidade de vislumbrar a esperança e na impossibilidade de vencer as dores na alma quando a desilusão chegar. Tenho pânico de imaginar minha velhice solitária sentado em uma cadeira, reclamando dos políticos ladrões, do barulho da vizinha, dos netos que não param quietos e do chato que veio me interromper quando eu estava concentrado.

No aeroporto eu vi o que poderia vir a ser, e morri de medo.

Eu sei, eu reagi. Sim, a consciência de minha sina genética e das minhas tendências mórbidas pode me dar um alento, uma tênue esperança de poder vencer minhas fragilidades e afastar o espectro da indignação desesperançosa e triste que me espera.

Se houvesse uma escola de risos eu me inscreveria. Se houver como ser explicitamente feliz, trazendo no sorriso e na expressão acolhedora uma mensagem de paz, eu desejaria aprender. Ok, eu sei que alguém vai dizer que essa escola existe e que eu até já me matriculei. A ela chamamos “netos”…

Espero que assim como meus filhos foram meus grandes professores para o aprendizado da maturidade, meus netos possam me ensinar a ser um velho decente, otimista e simpático.

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ATAME!

The Collector

Pedro Almodóvar, em seu filme “Ata-Me!”, desenvolve um instigante tema que já havia sido abordado no filme “O Colecionador” (The Collector, de William Wyler) de 1965. Nesta obra o genial diretor espanhol discorre sobre o amor como produto objetivo da procura amorosa. Em verdade, sob um ponto de vista filosófico, o filme do espanhol poderia ser analisado como um “remake” do filme de Wyler. Em ambas as películas um jovem, obcecado por uma paixão, sequestra sua vítima, foco de seu amor desmesurado, mantendo-a trancafiada e aguardando que ela um dia venha a se apaixonar por seu raptor. Após tal desesperada atitude, os sequestradores de ambos os filmes se esforçam em demonstrar – de variadas maneiras – a sua dedicação e desvelo com as vítimas, dizendo amar-lhes com devoção e respeito. Refreiam até seus impulsos sexuais, fazendo da contenção uma prova adicional do respeito que nutrem por suas adoradas cativas. Em “O Colecionador” a tragédia é o desenlace fatal, pela impossibilidade de sustentar-se a absoluta assimetria da relação. Vitimada pela penúria psicológica e física, a protagonista vem a morrer de pneumonia, nos braços de seu algoz.

Almodóvar, em seu filme de 1989, resolveu aplicar ao seu final uma solução mais otimista: o amor descoberto por detrás das capas de violência.

Atame

Em ambos os filmes a temática é clara: a possibilidade de criar-se o amor como fim, e não como meio. A ideia que perpassa é a tentativa de criar-se o afeto como o “produto” de um encontro. Forçadamente os protagonistas procuravam constranger a afeição de suas eleitas como se esta fosse uma conquista típica do universo masculino: “subjugue e imponha”. Entretanto, o afeto nunca é produto: oferece-se sempre como acessório, ou subproduto de uma relação. “Os subprodutos põem em xeque a soberba racionalista de que podemos conseguir moldar tanto o mundo exterior como o nosso próprio meio intra psíquico, fixando nossas metas e pondo imediatamente em ação os meios ou recursos adequados(*). Podemos impor o medo e o terror; jamais o respeito, o amor e a confiança. Estas aparecem como que “magicamente”, no transcorrer de um processo. Surgem quando menos se espera, e revoltam-se contra as determinações externas. As relações amorosas carregam sempre esta marca de imprevisibilidade: nunca seremos capazes de reconhecer e vislumbrar os encontros adequados, posto que apenas o engajamento de um no desejo do outro é capaz de produzir o florescimento do amor. E, como bem o sabemos, não temos como prever tal acontecimento, pois que escapa ao controle do racional.

“Mesmo sendo o Antônio Banderas! Que mais poderiam desejar?”, perguntava eu às minhas amigas, ao que elas respondiam que, não sendo do seu agrado, nenhum homem poderia dispor de sua afeição ou de seu corpo. Como na fábula de princesa monstruosa de dia e linda à noite, o segredo estava na possibilidade de escolher.

“Acontece que a donzela,
e isso era segredo dela,
Também tinha seus caprichos.
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e cobre
Preferia amar os bichos”.

(Chico Buarque, Geni e o Zeppelin)

Mesmo Geni, que representa o “esgoto social”, (**) sabia destas imponderáveis características do desejo. Os encontros de amor trazem sempre seus caprichos. Acima de tudo, o que todos queremos é o protagonismo de nossas vidas. Oferecer a elas um Banderas, sem que isso passe por sua decisão, não é capaz de produzir o amor como produto.

Marina, a heroína pornô do diretor Máximo, acaba resgatando na sexualidade desperta, o amor por Ricky. Ali encontrou Almodóvar a possibilidade redentora de seus personagens. O sexo selvagem entre eles (que tanta celeuma produziu na época) acendeu a chama que os capturou, um ao outro. O contrário se observou no filme de William Wyler, onde nada conseguiu produzir a ligação entre a dupla, e a morte tornou-se o único desfecho possível. Não havia, imagino eu, nos anos 60, essa via de redenção. Seria demais pedir que as mulheres, há quase 40 anos, buscassem na sexualidade desperta uma possibilidade transformadora. Pelo menos não no imaginário social.

Prefiro analisar a modificação temática ocorrida nos mais de três decênios que separam as películas como a possibilidade de conquista de um amor mais livre e mais justo. O filme dos anos 60 nos mostra que o inconsciente social recém despertava para a necessidade de uma maior liberdade para as mulheres, mas não traçava um horizonte mais claro pela impossibilidade de compreensão das alternativas que produziriam tal revolução. O resultado só poderia ser sombrio e lúgubre. As mulheres ainda estavam numa total subserviência ao controle patriarcal, mas o romance de Freddie e Miranda em “O Colecionador” apontava para a ideia de que, se não lhes fosse oferecida a possibilidade de escolha, o resultado para a sociedade só poderia ser funesto. Em “Ata-Me!”, Almodóvar acena com a redenção: o protagonismo conquistado, e só ele, como capaz de reverter a submissão humilhante e degradante. Marina desperta seu desejo e, na cama, como metáfora de sua opção, troca de posição com Ricky. Sobre o corpo de seu amante, acena com a subversão da dominação, impondo sobre a violência a vitória imperiosa dos seus desejos e direitos. Ali se estabelece a mudança, o corte profundo, a guinada em direção ao “amor conquistado”, em substituição ao “amor imposto”.

Quando vi o filme de Almodóvar, e fazendo a conexão imediata e natural com o drama de Wyler, foi para mim impossível não traçar um paralelo com a humanização do nascimento. Nos filmes, como na trajetória de qualquer mulher, surgirá o tema das escolhas e da autonomia. O encontro médico-paciente é um encontro entre pessoas, onde fluem energias afetivas que compõe o cenário terapêutico. Negar esse fenômeno é cegar-se à própria essência do processo de cura onde, muito mais do que drogas e intervenções, operam os processos afetivos que permeiam este encontro. Médicos podem “atar” seus pacientes em transferências sadomasoquistas, ou aprisioná-los em medicamentos e terapias, mas somente quando estes se sentem livres é que a cura pode ocorrer. Não existe terapia verdadeiramente frutuosa que não remeta o paciente a libertar-se do seu egoísmo, de suas dores, culpas, ódios e rancores. A medicina, tal qual ocorreu com os desesperados protagonistas, por vezes procura forçar o bem-estar, a despeito da autonomia, da vontade e do desejo de quem se serve dela, desconsiderando o paciente como legítimo condutor de seus desígnios.

“Liberdade é nossa meta última”, repetia-me Max. “O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar”, cantavam os doces bárbaros. Não existe relação verdadeira sem a liberdade de escolher.

Não existe verdadeira humanização do nascimento sem protagonismo. Entretanto, cabe dizer, o que fazer daqueles que optam pelo cativeiro por se julgarem inaptos para a liberdade, e que se jogam nas mãos dos algozes para, abrindo mão da autonomia, encontrarem pelo menos a segurança que almejam? Esta é uma questão que se responde através da educação e da informação, pois só elas levam à descoberta das alternativas para a alienação.

Ata-me

Ricky, assim como Freddie, esmerou-se em oferecer tudo o que estava ao seu alcance para proteger, ajudar e cuidar de sua amada. Ambos fizeram sacrifícios, arriscaram-se, quase morreram. Entretanto, não conseguiram oferecer aquilo que de mais valioso era possível ofertar: a liberdade. Travados por um modelo de controle e dominação, não conseguiam entender um processo que não fosse pela coerção e através do medo. Ambos foram pródigos em “sofisticar a tutela”, dando às suas amadas o que de mais rico eram capazes de oferecer: sua devoção sincera; porém, também sabiam que, se a liberdade fosse oferecida, elas poderiam ir embora. Temiam o resultado dessa atitude, pela possibilidade da perda do seu amor. Entretanto, esse amor nunca floresceria, em “O Colecionador”, e só ocorreria em “Ata-Me!” quando a própria estrutura autoritária da relação foi subvertida, o que não pôde ocorrer na relação doentia de Freddie e Miranda. Note-se que a morte da protagonista nesta película pode ser lida, simbolicamente, como a “desistência da vida”, causada pela falta de liberdade a ela imposta.

No cenário do nascimento humano, apenas a possibilidade de oferecer às mulheres o controle sobre seus corpos poderá lhes “salvar” da tragédia da sua anulação enquanto sujeitos. Nenhuma “sofisticação de tutela”, por mais dedicada que seja (como fizeram Ricky e Freddie), será capaz de resgatar as mulheres da “inanição” de um cárcere de si mesmas.

A estrutura social, com o qual convivemos, precisa descobrir as alternativas (como Marina) para resgatar a essência profunda das relações, nem que para isso precise rever os próprios alicerces que a sustentam. Uma sociedade em que se busque incansavelmente a liberdade e a justiça como metas é o destino que nós mesmos precisamos construir.

Talvez estejamos mesmo vislumbrando o ocaso de um modelo baseado na conquista e na submissão, assim como nas ilusões racionalista e positivista que permeiam tanto as relações pessoais quanto a nossa medicina autoritária. Certamente que muito ainda há que ser construído, mas não acredito em nenhum direcionamento que nos afaste do necessário rebentar de grilhões e do indispensável arrancar de mordaças.

Porque não há futuro sem liberdade, e esta jamais é oferecida ou imposta, pois que é da sua essência ser conquistada.

Referências:

* “O que Sócrates Diria a Woody Allen” – Juan Antonia Rivera – Ed Planeta

** “Violência e Homossexualismo”, Valéria Amim – Univ. Estadual de Santa Cruz/UESC – Ilhéus/BA

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Velhos

Velho apaixonado

“Em conversa telefônica com meu amigo Max chegamos a um acordo: o que existe de bom na velhice é acharmos irrelevante o que outrora pensávamos indispensável; o que há de ruim – segundo ele, torturante – é continuarmos desejantes quando já não somos desejáveis.”

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Suzane

Suzane

A maioria dos “cidadãos de bem” desse país são meros linchadores de merda. Eu não exijo compaixão de ninguém, apenas admiro e exalto esse tipo de sentimento como um dos aspectos mais nobres da alma humana. Qualquer julgamento dessa menina é injusto e estúpido, pois ninguém pode aquilatar seus valores e suas dores. A ninguém é dado o poder de sentir a dor de outrem.

E, por favor, julgar Suzane é completamente diferente de julgar seu ATO. Um ato criminoso como o dela PRECISA ser punido, e o foi. E foi punido dentro da lei, onde a progressão de pena cumpriu o ritual legal. Ao meu ver ela não representa uma ameaça à sociedade e pode gozar desse benefício, conforme determinado legalmente. Não há nada a questionar nessa ação juridicamente embasada.

Quanto àqueles que diante disso disseminam ódio e raiva eu apenas penso que não são dela muito diferentes. Com uma arma na mão e o auxílio dos “irmãos Cravinhos” talvez fizessem o mesmo crime que tanto desejam realizar contra ela. O que os diferencia é apenas oportunidades, circunstâncias e contextos. Em essência, estão mais próximos do que admitem da Suzane que tanto odeiam.

Realmente, perdoar – em sentido amplo – é difícil porque impõe empatia e compreensão dos limites impostos no entendimento do outro. Os tolos confundem perdoar com “absolver“, quando na verdade o perdão significa trazer a ação criminosa para dentro do seu espectro de compreensão. Perdoar é humanizar, e Jesus mesmo, diante do apedrejamento da prostituta, deu a lição mais profunda e simples sobre a questão: “Atire a primeira pedra aquele que for isento de pecado“.

Os julgadores ferozes do Facebook são, em essência e completamente, sujeitos incapazes de conhecer o próprio percurso de suas vidas e os pequenos pecados que os compõem. Iludidos por uma falsa ideia de pureza e retidão, cegam-se às próprias falhas e erros, projetando-os em figuras públicas que fizeram de seus crimes espetáculo de catarse coletiva. Por isso a ferocidade implacável de seus comentários.

Perdoar as pessoas, e não seus deslizes, é tarefa difícil, mas uma imposição da civilização. Reconhecer a falibilidade humana é um caminho tortuoso quando implica olhar para dentro de si mesmo.

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Carandiru e o Escafandrista

Carandiru

Eu li faz muitos anos, entre 15 e 20 anos, mas certamente quando ainda vivia a minha vida anterior, no milênio passado. Eu o vi nas mãos de uma estudante de direito que trabalhava no hospital onde eu atuava e resolvi investigar.

Quando o li, gostei.

Gostei porque contava histórias de pessoas, de dores, tragédias e infortúnios. Sempre me senti atraído por histórias assim e gosto de contá-las também. Gostei também porque mostrava um mundo desconhecido para mim, o mundo dos “pecadores”, o “Inferno na Terra”. Um mundo que não era para os da minha espécie, os “cidadãos de bem”

O livro de Dráuzio Varella trazia uma descrição entre pitoresca e trágica da vida nesse universo. O estado repressor, as pressões internas, os sistemas de poder, os grupos, a violência crua, o confinamento, a sexualidade. O livro me fez pensar na “Vida Sexual dos Selvagens”, do Malinowski, uma leitura das diferenças culturais. Mas esse mergulho numa realidade e cultura diferentes é que me sinalizou que havia algo na obra que me causava desconforto.

É necessário haver distanciamento para produzir a análise de uma cultura. Para Malinowski os Trobiantes eram alheios ao seu código valorativo. Era possível a um europeu analisá-los por serem eles suficientemente diferentes para causar estranhamento. Eram aborígenes, e não reconheciam as mães como participantes na formação fetal, como erradamente supôs. Poderia, assim, analisá-los de um ponto distante, longínquo e sem influências.

Dráuzio, ao adentrar os muros da prisão como um cidadão, fez o mesmo mergulho numa cultura alienígena, vestindo o escafandro para manter intactos seus valores e referenciais. Mas para isso era necessário tornar os “bandidos” diferentes de si mesmo, cuja essência diversa o afastava inexoravelmente daqueles a quem observou. Dráuzio nunca reconheceu-se naqueles a quem descreveu.

Alguns anos se passaram e o livro fez sucesso, assim como o autor. Entrevistas, reportagens e um programa no Fantástico. Ok, ele era casado com uma atriz da Globo, mas isso por si só não explicaria a importância que se dava às suas palavras. Ele dizia algo – talvez uma voz messiânica portando a boa nova da tecnologia – que desejávamos ouvir. Não há como negar: ele falava algo que nossos ouvidos aceitavam de bom grado.

Drauzio Pumba

Em uma dessas entrevistas Dráuzio disse, em alto e bom tom: “Eu não gosto de bandido!”. Essa sua frase, e os posteriores comentários demeritórios sobre o parto clarificaram a ideia que vim a formar sobre esse personagem.

No livro Dráuzio deixa claro que a sua entrada no presídio foi para tratar prisioneiros com AIDs. Achava ele – e nos anos 80 isso fazia sentido epidemiológico – que a prisão poderia ser um foco de disseminação da doença que, a partir daí verteria para a sociedade “outra”, a nossa, a dos “não-bandidos”. Desta forma fazia sentido estar lá e mesmo assim declarar não gostar de ladrões e falsários; seu objetivo claro era salvaguardar a parte “boa” da sociedade do mal que a parte “ruim” poderia produzir.

Minha frustração com a obra Carandiru foi esperar dela um estudo sociológico, e ter encontrado uma etnografia bem escrita de uma tribo alienígena: os “meliantes“. Esses seres, que Dráuzio deixou claro não ter simpatia alguma, guardam diferenças quase imperceptíveis conosco.

Dráuzio submergiu no universo prisional sem nunca se aprofundar o suficiente para ver o quanto de nós eles possuem e, mais aterrador, o quanto deles habita em cada um de nós. Sua distância segura da essência do bandido lhe garantia a tranquilidade para atendê-los sem jamais se identificar com suas dores e dramas, conflitos e angústias. Ao mesmo tempo que tal afastamento nos garante um alívio (“isso jamais aconteceria comigo“) também impede que entendamos a dimensão humana do prisioneiro. Ele, assim coisificado e catalogado, deixa de ser uma ameaça para nós. O mesmo fenômeno ocorreu com os homossexuais: quando eram “doentes”, diferentes em essência – ou geneticamente – de nós, jamais nos ameaçaram. Quando os trouxemos para a normalidade sua semelhança conosco tornou-se maligna e perigosa. Era preciso exorcizá-la, e a homofobia contemporânea serviu a esses propósitos.

O escafandrista nunca sente na pele o sal do mar que o envolve. Dráuzio, que poderia enxergar-se nos dramas humanos de cada um daqueles detentos, preferiu descreve-los de uma distância segura.

Afinal, se muito perto chegasse, como evitar que, desavisadamente, viesse a se afeiçoar – e até admirar – um ser que nada mais é do que um “bandido”?

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Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?

Ora, apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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Concordâncias

Concordancia

“Não se faz necessária a concordância sobre estes postulados, pois que são elaborações humanas e, portanto, passíveis de falha. Entretanto, respeitar a visão diferente que o outro possui é mais do que essencial: é a única forma de permitir que a sua própria visão se expanda e evolua. Reconhecer a diversidade dos pontos de vista é garantir que você descongele suas certezas com o calor da inquietude alheia.” (Max)

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Empatia

Empatia 03

Sem a construção única, invisível e essencial da conexão nenhum regramento será possível para o contato terapêutico. Não é possível dissimular o vínculo mediado pelos sentimentos de empatia. Quando o gesto se contrapõe ao coração, o primeiro se plastifica, e o segundo desaparece.

Maria Mercedes Ortega, coluna do Jornal Jalisco Hoy, jan/1982

Maria Mercedes Ortega, foi uma psicanalista e escritora mexicana, que durante muitos anos foi presidente da Associação Mexicana de Escritoras. Nasceu em Temixco em 1926, vindo a falecer em Jalisco em 1990, de insuficiência cardíaca. Escreveu vários livros sobre o tema da sexualidade numa abordagem psicanalítica e manteve uma coluna semanal no jornal “Jalisco Hoy” por mais de 25 anos, onde abordava temas como sexualidade, costumes e atualidades. Foi casada com o deputado do PRI Javier Domingos Palacios, e teve dois filhos: Jacinta e Juan.

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