Arquivo da categoria: Pensamentos

Feministos

malefeminist

Escrevi em outros lugares, mas acho que vale a pena reproduzir aqui, pois pode aclarar as ideias sobre esta questão.

Minha tese é que homens não podem ser feministas exatamente porque não podem PROTAGONIZAR, o feminismo. Isto se aplica a qualquer movimento libertário: gays, negros, mulheres, países, etnias etc. Com isso reforço a tese de que as mulheres (negros, gays, palestinos) não podem ser tuteladas por grupos externos. Os homens podem ser aliados das feministas tanto quanto eu posso ser um pró-palestino , anti-racista ou a favor do movimento gay, mas protagonizar (liderar, assumir comando, responder e representar) somente quem sofre na carne os desafios de ser mulher, gay, pobre, palestino ou negro. Conseguem me imaginar presidente do grupo “Zumbi” da minha cidade, lutando pelo direito dos negros, sem nunca ter sofrido na carne a humilhação e a dor do preconceito? Não há como pensar isso sem entender como tutela. O mesmo com as mulheres.

Sou um aliado, e hoje em dia muito distante das feministas. Aliás, feminismo em teoria é tão lindo quanto o islamismo; a prática, no entanto, nos mostra que algumas defensoras mais radicais se aproximam do sexismo explícito, por parte das feministas, mesmo que tais desvios não constem dos ideais propostos por estas correntes de pensamento.

Eu não sou feminista por respeito às próprias feministas: não poderia ser sócio de um clube que deixa bem claros a sua inconformidade e desconforto com minha presença. Todavia, sigo fiel às ideias de equidade de gêneros, e lutarei para que os direitos das mulheres sejam respeitados no parto e nascimento.

Protagonismo é diferente de participação, e significar tomar a frente, representar. Brancos NÃO podem protagonizar o movimento negro, mesmo que possam ser ativos e participantes. Homens não podem protagonizar o feminismo, mesmo que seja possível serem defensores de suas bandeiras. Eu pensei mesmo em atuar desta forma, mas percebi que era mal visto e, diante da primeira contrariedade, fui tratado como inimigo e chamado de “machista”. Bem, eu respeito esse desconforto, mas não esse método suicida. Então eu, e milhares de homens que poderiam acrescentar ao debate, nos afastamos e mantemos nossas posições, longe do contato e das ações que poderiam promover uma real mudança.

Mas a luta por assumir esta posição de destaque é legítima. As mulheres foram tuteladas durante 100 séculos, e não aceitam mais que os homens digam o que é bom e certo para elas, requerendo, por isso, o pleno protagonismo de seu destino. A aversão à fala masculina no delineamento deste caminho é natural. Todavia, o rechaço ao apoio nas agruras do trajeto é equivocado e ineficiente. Nem toda ajuda é expropriação de protagonismo ou retorno à tutela. Saber diferenciar inimigos de potenciais parceiros é essencial em qualquer luta.Se o que está melhorando é o tom do diálogo entre feministas e sociedade minha impressão é positiva. Vejo mais interesse das feministas em rever alguns posicionamentos, abandonar posturas vitimistas e reconhecer outros pontos de vista relacionados aos direitos de ambos os gêneros.

Minha postura histórica sobre o protagonismo é o reforço do poder garantido às mulheres. Eu sempre disse que as mulheres deviam carregar o fardo do protagonismo das lutas pela humanização do parto. Minhas diferenças com o feminismo não estão centradas nesta questão, mas em outros pontos mais delicados.

Hoje eu me sinto cada vez mais próximo do ideal feminista e cada dia mais distante das lutas feministas. Alguns chamam isso de “aliado sem ser alinhado“. Pode ser; continuarei carregando bandeiras feministas sem ser feminista.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Remorso

!cid_F05E10D3-DD4E-4697-8A55-2DCF026D62EB

Das coisas que me arrependo:

  1. Não ter passado mais tempo junto com os meus filhos pequenos.
  2. Não ter dito tantas vezes “eu te amo” ou “muito obrigado”. Nunca é suficiente.
  3. Ter acreditado que a Verdade, por fim, triunfaria. Não, a verdade é apenas um detalhe, uma nota de rodapé na história da vida.
  4. Ter sido ingênuo demais sobre o ódio e o amor.
  5. Ter me dedicado demais às paixões passageiras e de menos às grandes.
  6. Não ter usufruído meu quinhão indispensável de oxitocina endógena, e ter vivido, paradoxalmente, envolvido em adrenalina.
  7. Ter me calado por medo, ou gritado por raiva.
  8. Ter perdido contato com pessoas vibrantes, interessantes e exóticas.
  9. Qualquer um dos meus preconceitos, tatuagens difíceis de eliminar.
  10. Não ter realizado os exercícios indígenas para combater a calvície, que o Dr. Moysés Paciornik me ensinou.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Legalidade e Justiça

Legal

Não existe uma justiça essencial e natural; ela é uma construção humana, dinâmica e constituída pelo tensionamento das forças políticas. O que é legal e aparentemente justo hoje pode não o ser amanhã. O que é ilegal também. As forças conservadoras patriarcais reagem às mudanças que observamos na realidade do parto, e respondem com a mesma intensidade com que se sentem pressionados ou ameaçados. O rechaço ao direito de fazer escolhas informadas – entre elas o local de parto – desnuda o desconforto da corporação com qualquer discurso ou ação por parte das mulheres que desafie uma onipotência duramente conquistada. Somente a pressão das mulheres pelos seus direitos e por sua autonomia poderá fazer a mudança na forma como a sociedade julga estas ações.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política

Dez simples razões para ser pai

Olizinho

Minhas 10 razões pessoais para acreditar que a paternidade é uma bênção, mesmo quando chega de forma inesperada…

  1. Um filho lhe dá a garantia que a linha da vida que lhe foi confiada não terminou em você.
  2. Um filho lhe dá a esperança de que vai fazer o que você não foi capaz de realizar ou conquistar.
  3. Um filho lhe oferece a oportunidade de entender e perdoar seu próprio pai.
  4. Um filho lhe ajuda a olhar o mundo por outra perspectiva, muito mais ampla e complexa.
  5. Um filho lhe ajuda a rever pontos obscuros da sua própria infância e colocá-los em perspectiva.
  6. Uma filha (aqui o gênero faz sentido) lhe ensina muito mais sobre a alma feminina do que qualquer outra mulher da sua vida, mesmo sua mãe, irmã ou sua esposa.
  7. Um filho é um pedaço de você que lhe será apresentado em capítulos durante décadas, de forma sempre surpreendente.
  8. Um filho é a esperança de que sua vida, por pior que tenha sido, terá valido a pena.
  9. Um filho é alguém que lhe faz acreditar que o mundo faz sentido.
  10. Um filho lhe ajuda a suportar a vida quando a desilusão chegar.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

O machismo de cada um

Machismo-II

Eu não sou um machista (porque racionalmente rejeito qualquer tese de supremacia masculina sobre a mulher), mas vivo num mundo controlado pelo patriarcado. Assim sendo, muitas vezes minhas ações são comandadas por este paradigma. Por exemplo: dirigir o carro quando a família toda está junto; pagar a conta do restaurante; ter um comportamento de proteção quando minha mulher e minha filha estão comigo.

Machismos? Não creio… marcas dos milênios de patriarcado. Portanto, o patriarcado está embebido nas minhas células determinando de forma invisível minha maneira de agir e proceder. Todavia, ele também compõe a matéria que forma as células das mulheres. Elas também vivem nesse sistema e esperam que ele lhes ofereça alguma vantagem e proteção. O problema é que, depois de 10 mil anos de vigência é hora de exterminá-lo por algo que ofereça uma condição melhor para as mulheres, mas também para os homens. Se ele teve sua importância no mundo a ponto de ser usado em toda parte, agora está caduco e não serve mais aos propósitos deste mundo. Para acabar com isso é necessário tocar nas fundações profundamente fincadas em nosso código valorativo, e isso não se faz sem dor.

Da mesma forma que a passagem da infância para a adolescência nos propicia um acréscimo de liberdade às custas de uma perda da proteção paternal, a queda do patriarcado também se fará com o necessário sofrimento, para os homens – que sofrem as dores da perda de uma identidade forjada há milênios como provedores e proprietários das mulheres – e para as mulheres, que terão que aprender a se defender sozinhas em um mundo em que a liberdade sempre cobra altos preços. É isso o que vemos hoje em dia: mulheres muitas vezes solitárias pelas perdas de companheiros, mas orgulhosas dos passos que deram em direção à liberdade e à autonomia. A literatura e o cinema nos oferecem exemplos magníficos dessa fase de transição.

Por seu turno vemos homens que se despedem da roupagem controladora e machista de “proprietários“, e que sentem-se confusos e desnorteados, perdidos num limbo identificatório sem precedentes. “Se não sou mais o provedor, o que sai pelo mundo na caça e na luta, se as mulheres não mais precisam de mim para sobreviver, se não sou mais o braço forte em um mundo mecanizado e cibernético, para o que sirvo, afinal? Qual o sentido do masculino no mundo? Seremos fêmeas sem útero?”

Estas são as perguntas de homens e mulheres, cujas respostas nos aguardam nos próximos séculos. Certamente que o mundo que virá será diferente, mas espero que, apesar dos embates necessários e da reacomodação das placas tectônicas dos papéis sociais, os homens continuem amando suas mulheres e que elas continuem nutrindo por eles a paixão que é a chama indelével que nos transforma em humanos.

Se não sobrar nenhuma marca cultural e artificial que nos defina, que o desejo e a complementariedade permaneçam para nos dar esperança no futuro.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Camille Paglia

camille-paglia-rant-hillar

Fiquei emocionado ao ler esta entrevista da Camille Paglia e perceber que suas ideias sobre gênero, feminismo e maternidade são as mesmas que defendo há tantos anos, pelas quais já paguei um preço bastante salgado. Sinto-me também aliviado ao perceber que os ataques a estas propostas e visões de mundo não são exclusivas de celebridades como ela, mas de todos que ousam estabelecer uma crítica e um olhar severo sobre os (des)caminhos da cultura ocidental, mormente no que diz respeito aos choques inexoráveis entre homens e mulheres na luta por sentido em suas vidas.

Camille Paglia tem a segurança e a firmeza que apenas as pessoas verdadeiramente cultas e preparadas possuem, e suas palavras – por vezes ácidas – tornam-se doces ensinamentos quando permitimos que se aproximem de nossa razão mais profunda.

Veja abaixo a entrevista dada à Folha SP

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Ódio

Hate

Mulheres que odeiam homens não precisam ler o que escrevo ou dissemino nos meus escritos e postagens, e podem guardar de mim uma distância respeitosa. Aliás, a mesma que me separa dos homens que odeiam mulheres, ou que as tratam como bibelôs idiotizados. Apenas entendam que o ódio que guardam dos homens não é espetaculoso ou explícito, mas opera nas sutilezas do discurso, nos silêncios e nos vãos que separam as palavras. O ódio que destilam pelos homens aparece nos pequenos detalhes dos comentários ou nos “calabocas” frequentes, que tentam impedir que um homem se manifeste sempre que a mulher é o assunto. Além disso, quando me dizem “eu não odeio os homens, tanto que casei com um” para mim faz tanto sentido quanto o velho clichê “não sou racista, já namorei uma negra“.

Homens que odeiam mulheres e as mulheres que os odeiam não precisam ler ou frequentar minhas ideias. Eu os respeito, mas não se faz necessária nenhuma proximidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Lágrimas Seletivas

LAGRIMA

Nossas lágrimas só vertem quando conseguimos nos identificar com os dramas que a vida apresenta. A tragédia só dói se for em nós, real ou imaginária. Se um jogador de futebol tem uma filha com problemas médicos milhares de torcedores vão ao estádio doar sangue. É fácil se identificar com alguém que conhecemos e podemos entender seu sofrimento. Se um terremoto destrói cidades inteiras na China como poderei me identificar e sofrer? É preciso que haja mínima conexão identificatória. Brancos europeus caindo de avião são parecidos comigo (que sou branco e também ando de avião), mas negros trancafiados como escravos são sub-humanos, quase animais. Professor universitário apanhando em delegacia na ditadura vira filme; preto e pobre apanhando, nem B.O. Enquanto não enxergarmos TODOS os humanos como iguais estas distorções continuarão acontecendo, e nossas lágrimas serão seletivas.

Porque nos assombramos com os coreanos que comem carne de cachorro? Porque nos horrorizamos com a morte de baleias e golfinhos? E porque não fazemos o mesmo com peixes (tubarões em especial), gado, porco ou aranhas? Porque elegemos alguns animais cuja morte achamos inadmissível que ocorra em nosso benefício, mas para outros não estabelecemos a mesma simpatia? Porque existem fundações para a proteção de baleias, mas não de lagartixas?

Minha resposta é que protegemos a NÓS mesmos, e não os animais. É nossa dor identificatória que queremos aliviar. Um cachorro me parece mais humano, mais parecido conosco que um peixe. Se for possível a identificação, aí sofremos, mas esta identificação vai ocorrer se encontrarmos naquele animal algo semelhante a nós. Num cão tal processo parece muito mais fácil de ocorrer do que em um molusco. É a dor que sentimos que pretendemos afastar, e não a dor por ser ele um animal indefeso. Quando o avião com os europeus cai no oceano isso nos maltrata porque fica simples e fácil a nossa identificação com o sofrimento das famílias envolvidas: também temos famílias brancas e que andam de avião. O mesmo não ocorre em um cargueiro cheio de negros fugitivos trancafiados em um porão.

Quando os americanos matavam vietcongues na Ásia Menor nos anos 70 isso era sentido pela opinião pública americana, mesmo que secretamente, como “matar formigas”. O documentário “Corações e Mentes” daquela época mostrava os políticos americanos se esforçando ao máximo para desumanizar o povo do Vietnã, exatamente porque, assim transformados, ficava mais fácil aceitar seu aniquilamento sistemático.

Desumanizar é fundamental para levar adiante qualquer projeto macabro de destruição. Judeus, negros e os palestinos foram sujeitos ao mesmo tipo de monstruosidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Cheiro Ruim

Perfume ruim

Hoje vi a última propaganda dos perfumes do Boticário. O filme começa com o anúncio da gravidez, as ecografias, a megalópole fria e feia onde a criança vai morar, os preparativos, as fotos da barriga crescendo, o último sorvete e termina…. tchan, tchan, tchan…. numa CESARIANA.

Lastimável que o exemplo de parto no Brasil é mediado por recursos tecnológicos usados de forma exagerada (ecografias) e por cesarianas. No vídeo fica claro a imagem da mãe impedida de tocar seu filho na hora em que isso é mais importante: a “hora dourada”. As imagens, para quem transita pelos caminhos da humanização do nascimento, são tristes de ver.

Todo o nascimento carrega a beleza da renovação e a esperança do futuro, seja ele de que maneira for, uma cesariana ou um parto normal. Não se trata, portanto, de desmerecer a beleza inerente da vida brotando em um nascimento. Entretanto, usar como EXEMPLO de nascimento uma cesariana apenas deixa mais evidente o atraso do Brasil em relação às grandes democracias no combate à banalização da cesariana. Propagandas como esta, vistas no exterior, dão a clara ideia de que no Brasil o normal da classe média (os usuários de perfumes do Boticário) é o nascimento pela via cirúrgica. A cesariana é limpa, moderna, chique e superior. Tudo errado, tudo falso. Cesarianas arriscam de forma clara e inquestionável o bem estar de mães e bebês. Este tipo de publicidade é lamentável e apenas reafirma nossa necessidade de mudar a atenção obstétrica cafona que este país tem.

Uma lástima Boticário…. Suas usuárias são “Too posh to push“, right?

Com tanto parto bonito e empoderador para apresentar preferiram se manter fiéis à classe média – a mais sofrida e castigada pelos abusos de cesariana – como estratégia de marketing. Para estas empresas, mais importante do que enfatizar um novo conceito – o parto humanizado, com óbvias consequências na saúde pública – é manter em alta a venda de seus produtos.

Publicitários precisam entender que uma propaganda não é boa apenas quando aumenta os lucros, mas quando imprime uma marca positiva na cultura. Propagandas assim tem cheiro ruim…

Nossa queixa é que a propaganda auxilia de forma marcante a banalização da cesariana. Se por exemplo, a propaganda mostrasse esta mãe fumando durante a gravidez poderíamos dizer que foi uma “escolha” dela, e que isso reflete a liberdade de determinar o que deseja. Verdade, mas o quanto esta conduta influenciaria outras mulheres? Como combateríamos o fumo na gravidez se uma propaganda associa felicidade, nascimento e vida com cigarro? Cesarianas desmedidas tem impacto na saúde das mulheres e precisam ser combatidas da mesma forma como tentamos diminuir cigarros e álcool na gestação. Concordo que “não podemos colocar a CAUSA em tudo“, mas eu acho que colocar cesarianas como o paradigma da gestação feliz é demais. Se esta moça filmou toda a sua gestação e ela terminou em uma cesariana, sinto muito, mas essa mensagem não pode ser veiculada. Se ela fuma, sinto muito. Não dá mais para tratar dessas questões sem – pelo menos – oferecer uma crítica severa e um contraditório.

Banalização de uma conduta se faz nos detalhes, e não com discursos grandiloquentes. Banalização das drogas é colocar um cara fumando maconha durante 15 segundos de um filme, e não fazendo um longa metragem sobre “as maravilhas da Cannabis”. Fica muito complicado o debate sobre o abuso dessa cirurgia quando a publicidade brasileira continua tratando como uma coisa bonitinha, uma opção como qualquer outra, tipo a cor do esmalte ou o corte de cabelo. Não, eu acho demais. Não tem mais como continuar estimulando essas práticas no Brasil. Não é por outra razão que somos os campeões mundiais de cesariana: ela é tratada com requinte e glamour em todos os espaços.

A queixa, entretanto, nem é exatamente contra a publicidade ou os publicitários, que talvez tenham feito um trabalho sob encomenda ou aquilo que lhes foi solicitado por uma empresa que avalia a preferência dos consumidores desta marca. Nosso incômodo é ver a cesariana – mais uma vez – banalizada e tratada como “perfumaria”. Escolhe-se por fazer uma cesariana como quem escolhe um dos perfumes da empresa. “Liberdade de escolha”, não? Pois é…. mas quando analisamos a barbárie das cesarianas desmedidas e abusivas no Brasil entendemos que este descontrole só pode acontecer exatamente porque a cesariana é tratada assim no imaginário popular. Talvez a deformidade nos pés das chinesas que usavam sapatos pequenos só foi possível porque era tratada como uma coisa corriqueira. A clitoridectomia talvez seja descrita em África como um “cortezinho” que cicatriza rápido e “ajeita” a deformidade natural da vagina. A circuncisão, prática medieval e amputativa da sexualidade masculina, é tratada pela cultura como uma cirurgia que retira a pela “que sobra” no pênis de crianças indefesas.

É assim que se constrói uma cultura: nos detalhes, na forma de descrever, na maneira de contar, no jeito que escolhemos relatar um fato, um evento ou uma cirurgia. O que é uma propaganda de TV senão uma história que se conta? O que é a publicidade senão uma janela da cultura, uma forma de absorver e observar os nossos valores e nossas características. Um comercial que trata a cesariana de forma tão “natural” e “banal” contribui para a construção de uma ideia positiva, afetiva e moderna de uma cirurgia que – como bem sabemos – só deveria ser usada em casos excepcionais. Não é à toa que propagandas de cigarro são proibidas: elas sempre tentaram vincular o cigarro ao sucesso profissional e erótico. Essa propaganda do Boticário faz o mesmo: vincula a cesariana ao sucesso de uma história de amor, e por isso ela deve ser repudiada.

1 comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Pensamentos

Mundo prisional

cadeia_lotada

Palavras de um colega médico que trabalhou durante muitos anos na maior penitenciária do meu estado…

“Depois de trabalhar durante anos no mundo prisional eu descobri que nós trancafiamos as vítimas, para que sua presença não deixe constrangidos os algozes, também conhecidos como “pessoas de bem”. Quanto mais eu falo com esses meninos mais me convenço de que são sobreviventes de um mundo que, ao mesmo tempo que os explora, guarda repulsa e nojo por eles.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos