Arquivo da categoria: Pensamentos

Solidão

homem_so1

As vezes eu penso que a maioria das teses que defendo são simples e fáceis de entender. Parto humanizado, protagonismo da mulher no nascimento, uso judicioso e consciente da tecnologia, visão integrativa do parto, uso de medicina baseada em evidências, soberania dos povos, fim do apartheid na Palestina, etc. são teses que se aproximam dos ideais libertários iluministas de liberdade, fraternidade e igualdade. Um conjuntos de conceitos com quase dois séculos e meio de existência não poderia ser algo difícil de defender.

Todavia, basta um passeio rápido pelo Facebook para perceber a emergência de “heróis” que defendem o oposto de tais princípios. Ditadura, darwinismo social, prepotência, sectarismo, obscurantismo belicoso, exaltação mística religiosa interesseira, solução de problemas centenários com medidas de exceção e um culto aos “salvadores da pátria” podem ser achados em todos os cantos virtuais da Internet.

Isso para mim é quase um alívio. Saber-se minoria é reconfortante para quem acredita que as unanimidades são tolas e frequentemente erradas. Lutar por mudanças de base – como uma nova visão sobre o parto e o feminino – é seara de decênios, e neste tempo é fundamental acostumar-se com a margem. O centro e seu conforto é reservado para os de índole calma; aos angustiados sobrará sempre a marginalidade e suas agruras.

E muitas vezes a solidão…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Evidências

Evidencias

Para quem deseja acreditar, até a opinião do porteiro do hospital passa a ser evidência “nível A”. Por outro lado, para aqueles que não aceitam que seus paradigmas sejam questionados nenhuma metanálise será suficiente.

Nossa mente pensa racionalmente, mas atua emocionalmente. O desejo nos controla muito mais do que nossa vã filosofia ousa admitir.Ao alcançar o umbral da razão as certezas se desfazem como a bruma desaparece sob o sol da manhã.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Defesa da própria cesariana

Cesariana

“A defesa da cesariana pelas mulheres que se submeteram a ela nada mais representa do que a proteção que estas fazem do sentido último da sua sexualidade. Por isso esta defesa frequentemente oscila entre a paranoia e a fúria.”

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Sobre as Tetas

ACER

Historias curtas de Porto Alegre….

Aconteceu enquanto almoçava solitário em um restaurante de Porto Alegre.

Uma senhora desconhecida se aproxima de mim enquanto eu estava terminando meu almoço. Com olhos arregalados, boca de um vermelho vivo e brincos extravagantes, ela coloca a mão no meu ombro e com olhar severo me diz:

– Você é o João Vicente, não é?

Ainda tenho tempo de terminar minha última garfada e, claramente surpreso, respondo:

– Olha, infelizmente não. Eu me chamo Ricardo.

Ela fica desconcertada e me enche de desculpas. Diz que estava me olhando há alguns minutos, mas que tinha “obrigação” de me perguntar quem eu era. Eu, também sem jeito, resolvo ser simpático e lhe digo:

– Não se recrimine. Esse João Vicente deve ser um jovem senhor muito charmoso também. É natural que as pessoas se confundam assim.

A senhora dá uma boa risada e me explica:

– João Vicente é meu sobrinho, filho da minha irmã, e ele é a sua cara. Incrível como são iguais! Na verdade, eu estava furiosa porque achei que ele estava esnobando sua velha tia.

Sorri para ela amistosamente e disse que nenhuma pessoa em sã consciência esnobaria uma senhora tão charmosa e chique, muito menos um sobrinho.

Mais uma gargalhada e ela arrematou.

– Muito verdade, Ricardo. Imagina só, mamou nessas tetas e agora me esnoba!!

Bateu forte com a mão espalmada nos seios fartos e saiu caminhando. Eu só olhei para o lado e baixei a cabeça, com esperança que ninguém tenha escutado pela metade nossa breve conversa.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Paixões, prisões

Paixão, prisão

Paixões são prisões autoimpostas, cárceres da alma onde o Império dos Desejos exerce sua tirania. Mas sem reconhecer o profundo significado destas pulsões fica impossível entender a trajetória humana que, despida de tais impulsos, não seria mais do que uma escrava das forças da natureza.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Desajustado

linchamento

É, sou um desajustado mesmo. Não consigo ver sentido em achar que a doença de um criminoso poderia ser apaziguada – ou minimamente tolerada – se sobre ele for aplicada outra violência, igualmente desumana e brutal. Quem acha que as notícias de crimes hediondos desnudam um mundo cruel e absurdo deveria esperar os comentários antes de se escandalizar.

Os comentários, eivados de ódio e indignação, são frequentemente mais violentos que o próprio crime a que se referem, emitidos por criminosos em potencial, linchadores embrutecidos pelas frustrações pessoais, mas que ainda não tiveram oportunidade de delinquir.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Visão de Futuro

Minha visão de futuro?

“Em um futuro distante testemunharemos a lenta incorporação dos valores da autonomia e liberdade para as escolhas informadas das mulheres gestantes, a diminuição lenta e gradativa das cesarianas – em especial as de indicação duvidosa ou questionável – uma aceitação crescente de enfermeiras obstetras na atenção ao parto eutócico, a incorporação das doulas pelas equipes de assistência, a criação de núcleos extra hospitalares de assistência ao nascimento, a suavização dos procedimentos de atenção e cuidados no parto (guiados pela Medicina Baseada em Evidências) e o desaparecimento dos “dinossauros” da obstetrícia, sufocados na poeira que surgirá pelo choque dos meteoros das evidências contra a face desgastada das mitologias anacrônicas.

Todavia, é preciso olhar para todos estes eventos com olhar geológico.”

1 comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Dearest Robbie

Robbie 01

Rituais de passagem são fundamentais, e o parto é um exemplo da real necessidade de ritualizar as transições pelas quais passamos. Entretanto, no parto contemporâneo ocidental não há uma falta de rituais; pelo contrário, existe uma perversão daqueles que historicamente conduziram o nascimento nos milênios que nos antecederam. Um ritual nos permite enxergar os valores inconscientes da cultura que circulam de forma invisível no “campo simbólico”, e no parto não poderia ser diferente. Os rituais que usamos revelam a estrutura valorativa que sustenta nossa ação social. Se no passado serviam para fortalecer as funções primordialmente femininas de gestar e parir, hoje sustentam o modelo tecnocrático, empoderando instituições e profissionais às custas da subtração da mulher como condutora do processo.

Assim, não nos faltam “rituais” no parto. Eles existem em abundância, bastando para isso observar os movimentos que o constituem. As malas, as roupas, as consultas de pré-natal, a ida ao hospital, o corte dos pelos, as “lavagens”, o afastamento imediato, as intervenções e tantos outros eventos se estruturam pela repetição, padronização e simbolismo, os quais caracterizam e definem todos os rituais humanos.

A diferença nos rituais que hoje observamos na assistência ao nascimento é que eles afastam as mulheres do controle, enquanto exaltam as tecnologias e quem as controla. Mudar a forma de nascer implica em transformar estes rituais, adaptando-os a um novo paradigma, passando de um modelo que aliena e exclui as mulheres para outro que as inclui e, mais ainda, as coloca no comando do processo.

A grande deflagradora deste processo de resgate da ritualística no parto foi Robbie Elizabeth Davis-Floyd. Robbie é uma das maiores personalidades do feminismo no mundo contemporâneo. Seu livro “Birth as an American Rite of Passage” é um marco na antropologia do parto e nascimento, ramo da ciência que estuda os recortes transcultural da assistência ao parto. Se primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado na Universidade do Texas, vendeu mais de 40 mil cópias, e isso é algo digno de nota. Ela recebeu algumas homenagens e honrarias que apenas feministas americanas realmente importantes receberam. Participou de várias edições de “Our bodies, ourselves”, e escreveu livros que transformaram a trajetória de parteiros no mundo inteiro. Robbie descortinou o imaginário do nascimento, sua profundidade simbólica e a relação dos rituais com as práticas da atenção ao parto ocidental contemporâneo. Muitos médicos, entre os quais me incluo, mudaram a forma de ver sua ação no parto a partir da perspectiva que ela inaugurou com relação aos rituais aplicados ao nascimento.

Este texto é a consequência direta de assistir – inadvertidamente – um colega atendendo um parto através da velha ritualística de atenção dos anos 50: paciente deitada de costas, pernas erguidas, obstetra mascarado, episiotomia, gritos, Kristeller, luzes ofuscantes e uma crença óbvia – apesar de inconsciente – na defectividade feminina para dar conta dos desafios do parto. Somente depois de conhecer o trabalho de Robbie o enigma da diferença – muitas vezes abissal – entre o que se sabe e o que se faz na prática pôde finalmente ser compreendido.

Os rituais foram desvelados por Robbie, e assim despidos, puderam ser por nós analisados naquilo que trazem de mais verdadeiro.

Por abrir estas “portas de percepção” teremos com Robbie uma dívida impagável.

Que Deus a abençoe…

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Discursos femininos

mulher-gordinha

O discurso das mulheres diante de desafios como “peitos pequenos”, “bunda grande”, “excesso de peso”, ou “cabelo ruim” sempre foi incompreensível e paradoxal para mim, e me remete à construção de uma auto imagem baseada no olhar do outro e sobre uma estrutura psíquica narcísica.

Por isso é que qualquer discurso construído pelas mulheres para reagir a estas “problemas” é considerado por mim como heroico.

  • Eu uso silicone porque é importante para minha autoestima, e o importante é eu me sentir bem e não o que os outros pensam.
  • Eu não coloco silicone porque não tenho que dar satisfação de como sou aos outros. Eles que me aguentem.
  • O importante é a beleza interna. O externo é efêmero e enganoso aos olhos.
  • Sim, eu gasto 500 reais num tratamento para o cabelo porque eu mereço.
  • Quero alguém que me valorize pelo que eu sou e não pelo que eu aparento.
  • Sim, fiz redução de mamas porque eu quero me amar mais.

Como entender tantas vozes aparentemente paradoxais? A moça das mamas pequenas que as exibe despudoradamente não tem menos coerência em seu discurso do que aquela que coloca próteses para se sentir mais bonita “consigo mesma”

É exatamente por estes aparentes conflitos do que significa ser e estar mulher que as percebo tão fascinantes e misteriosas.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Diários de Motocicleta

Eu usei a metáfora dos “Diários de Motocicleta” há uns 13 anos ao fazer a abertura do Congresso de Ecologia do Nascimento no Rio, representando a ReHuNa – Rede pela Humanização Do Parto e Nascimento. Numa cena deste filme o jovem médico – e asmático – Che (Guevara) precisa atravessar um rio gelado para atender os pacientes que precisavam de sua atenção do outro lado da margem. Movido por um impulso imperioso de dever e compromisso ético ele se arroja à corrente de água fria que retesa seu corpo e o sufoca, mas ao final vence a distância gelada com bravura e estoicismo. Os doentes precisavam dele; era sua obrigação servi-los.

Mais de uma década nos separa desta imagem de dedicação heroica aos pacientes, mas ela ainda continua fazendo sentido. Continuamos asmáticos e frágeis, mas do outro lado o número daqueles que procuram por nós só cresceu, expandiu-se para muito além do que esperávamos. Apesar das dores e da falta de ar continuamos nossas braçadas com vigor e resistência. O rio continua gelado e tormentoso, nossos braços aos poucos perdem o vigor da juventude, mas nossa teimosia humanista nos obriga a seguir.

Entretanto quando olhamos para o lado algo surpreendente ocorreu.

Não estamos mais nadando sozinhos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos