Arquivo da categoria: Pensamentos

Evidências

Lembro de ter visto há muitos anos um programa Silvio Santos (sim, e daí?) no qual ele fez uma curiosa brincadeira com a plateia. No seu programa dominical um sujeito entrou no palco enquanto Silvio faziam um discurso qualquer . Durante alguns instantes o intruso, vestindo uma camisa listrada, atrapalhou a apresentação do programa, saindo alguns poucos segundos depois. Silvio Santos fez um comentário qualquer sobre o fato e depois de alguns minutos pediu a alguém da plateia para descrever o sujeito e a roupa com a qual ele havia aparecido.

Eu fiquei chocado com as respostas dadas pela audiência do programa – e por mim mesmo. Sim, como eu também havia sido testemunha do fato, eu podia responder as perguntas formuladas. Errei tudo, desde a altura, a cor da roupa, o que ele tinha na cabeça, etc. O mesmo fenômeno ocorreu com várias pessoas escolhidas entre o público presente. Fiquei espantado com a imperfeição das respostas, e plenamente convencido de que nossa memória para esses detalhes é falha e, por ainda, enganosa. Passei a ter imensa desconfiança de depoimentos que vinham de “testemunhas oculares”. Há uma pessoa na minha família (cujo nome não declinarei nem sob tortura), que confunde as pessoas nas lojas. Certa vez foi atendida por um negro de 2 metros de altura numa loja de sapatos. Quando decidiu-se por comprar o produto foi falar com um sujeito branco de 1.60m, achando ser ele o vendedor. Perguntei pra Zeza: “tu não lembras quem te atendeu?”, ao que ela respondeu “Claro, tenho certeza que foi ele!!”.

Nossa memória nos trai consideravelmente. Somos facilmente enganados porque ela não é um filme onde as imagens ficam gravadas (com a exceção se casos raros de autismo), mas um arquivo complexo onde as imagens sofrem a influência do simbolismo que carregam. Assim, não são confiáveis para uma descrição factual. Por esta imperfeição da nossa memória, quantos inocentes já não foram condenados por testemunhas cuja descrição era baseada em uma falsa certeza, um equívoco culposo de reconhecimento ou um erro de percepção dos detalhes? Milhares? Milhões? Só em casos de abusos existem centenas de casos descritos, sem falar nos casos em que as vítimas mentem solenemente. Tenha isso em mente quando alguém lhe der o falso xeque-mate do “ninguém me contou; eu estava lá e vi com meus próprios olhos!!”.

Viu mesmo? Viu ou pensa que viu?

https://www.youtube.com/shorts/sEz8oUK-l54

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Inevitável

Nada se compara ao que Israel – o único Estado explicitamente racista do mundo – está fazendo com a população ocupada da Palestina desde o início de outubro. O exército mais covarde e imoral de todo o planeta está mostrando uma versão compactada de todas as crueldades que executou nos últimos 76 anos. Nada supera a narrativa genocida dos políticos de Israel, nem mesmo o que se escutou dos monstros nazi em meados do século passado.

Infelizmente, para eles, agora temosalternativas para uma livre circulação de informações, que antes eram filtradas por 4 ou 5 sistemas internacionais denotícias, dominados pelos interesses da burguesia. Pelo menos hoje, qualquer sujeito com um celular na mão é um jornalista, infinitamente mais honesto do que aqueles que trabalham para a imprensa do Brasil ou para a imprensa burguesa internacional. Por esta singela razão, está quase impossível manter por mais de 48 horas as mentiras que sobreviviam por décadas no passado não tão distante. Estivéssemos nos anos 60 e até agora a versão mentirosa dos “bebês sem cabeça“, o “ataque à Rave” ou os “estupros” de mulheres israelenses ainda seriam as versões oficiais, e a população de todo o planeta estaria repetindo de forma enfadonha a farsa montada por Israel.

Hoje já sabemos o quanto Israel é um país criado sobre uma montanha de corpos e páginas infinitas de mentiras, fraudes e manipulações. Essa fábrica de inverdades só pode se sustentar através da compra sistemática de políticos e da imprensa. Não fosse pelo jornalismo independente que apresenta um contraponto consistente e factual aos influenciadores sionistas – ou aqueles pagos por eles – e muitos ainda manteriam a tese de que o hospital de Shifa veio abaixo por “fogo amigo” palestino, tese que foi facilmente desmontada logo depois com a ajuda de especialistas do mundo todo. Cada dia é mais difícil sustentar a farsa de Israel. Nos anos 40 do século XX era possível mentir sobre “Um povo sem terra para uma terra sem povo“, mas hoje a pústula se rompeu e o que vemos escorrer são as falsidades, as mortes, os abusos e a corrupção de uma colônia branca europeia sobre a terra dos palestinos, acumulada em 76 anos de ocupação e arbítrio.

Boa parte da imprensa insiste em chamar o “Hamas” grupo “terrorista”, tentando forçar a narrativa de que a luta pela Palestina é a batalha da “luz contra as sombras“, como disse Bibi Netanyahu, mas é mais do que óbvio para qualquer um que repouse os olhos sobre a história da região que os invasores cruéis da Europa é que representam as trevas, e aqueles que lutam pela liberdade, a autonomia e a dignidade dos palestinos são os que levam a luz para a região. Também querem nos fazer acreditar que o problema é o “Hamas”, a resistência armada palestina, mas a verdade é que mesmo que fosse possível destruir todos os combatentes desse grupo e no dia seguinte outros tantos milhares se alistariam para a luta, porque eles representam a única chance de vida digna para a população de Gaza. Para cada combatente morto, dois mais se alistam para lutar pela liberdade.

O chanceler russo Lavrov declarou há alguns dias ser impossível pensar em paz sem a criação de um Estado Palestino soberano, livre, com defesa, com aeroporto, com moeda, com economia e com plena conexão com a Cisjordânia, mas é claro para qualquer observador que esta é uma solução necessária, porém paliativa. O mundo não pode aceitar mais o sionismo ou qualquer forma de organização social baseada no racismo e na exclusão. Mesmo um país só para judeus mantido ao lado da Palestina deveria ser objeto de boicote internacional, pois que este tipo de organização viola frontalmente todo o arcabouço jurídico e ético que sustenta a democracia.

A luta pela paz é uma tarefa de todos nós. Como dizia Nelson Mandela, “Sabemos muito bem que a nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos”. É preciso aumentar o boicote à Israel, forçar os representantes diplomáticos a encerrar qualquer conexão com este país, determinar um “cerco” econômico ao racismo branco de Israel, reforçar o apoio à Palestina Livre e sair às ruas até que Israel recue em seus objetivos de genocídio e limpeza étnica. Desejamos um Estado Palestino único e democrático, que possa aceitar todas as crenças, todas as culturas e todas as raças sob a égide dos direitos humanos e da plena democracia.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Palestina, Pensamentos

Mecenas

Pode ser uma imagem de 2 pessoas e texto

Tchê, que coisa humilhante essa eleição do internacional. Cada uma das chapas em disputa apresenta seu bilionário de estimação, com os candidatos rastejando e posando para fotografia ao lado deles. Essa subserviência genuflexa ao capital é uma miséria. E não me acusem de clubista; esse não é um problema do Inter, nem do nossos Estado. Atlético de Minas há anos tem seu mecenas (Menin do BMG) e o Grêmio está no mesmo caminho.

Daí se inventam esses apelidos fofos tipo “tio do arroz”, que não passa de um bilionário ruralista e bolsonarista ligado ao agronegócio e conectado com o que existe de pior na burguesia nacional… e o clube fica puxando o saco sem qualquer pudor.

No Inter o bilionário da oposição é o Sonda, dono de uma rede de supermercados. Já o da situação é o Maggi, que é a sétima fortuna do país e é aquele que pagou um milhão de reais para o Rodinei poder jogar contra o Flamengo em 2020. A dominação econômica desses bilionários, verdadeiros “sheiks brazucas” é um escárnio.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Rotinas

Acho que aqueles que têm o privilégio de avançar em idade e se tornarem velhos conseguem entender o que meu pai me disse há algumas décadas e que hoje eu percebo o quanto é verdadeiro: as rotinas são abençoadas, fórmulas de sobrevivência essenciais para as mentes que precisam de tranquilidade. A maturidade nos mostra que uma vida tranquila e previsível é essencial para a paz interior. Todas as obras importantes do mundo foram criadas por pessoas que exaltavam uma vida metódica, pois ela gera a adequada tranquilidade para a produção criativa. Uma vida de incessantes surpresas e fortes emoções é insuportável quando mantida indefinidamente.

O equilíbrio entre adrenalina e oxitocina é uma das chaves da existência humana. Por certo que a adrenalina é fundamental na primeira fase da nossa vida, pois que nenhuma mulher é conquistada sem este hormônio, nenhum filho chega ao mundo sem ser banhado por esta substância e nenhuma disputa é vencida sem ser por ela. Entretanto, nos dois terços finais da nossa vida a balança pende para o lado da oxitocina, pois que é ela quem comanda o prazer, o relaxamento, a paz, a tranquilidade, o amor e o sexo.

Nossa vida não pode ser um eterno comercial de “Hollywood – Ao Sucesso!!“. Na maturidade precisamos de previsibilidade, de rotinas, de segurança, pois elas nos oferecem a paz essencial para a nossa saúde. Até a rotina conjugal é essencial. Seria insuportável conviver com alguém que apresenta uma surpresa todos os dias, sem que possamos saber as suas reações e sem que o seu comportamento possa ser previsto. A angústia que essa imprevisibilidade gera é incompatível com a nossa mente, que necessita lidar com fenômenos que possam ser entendidos previamente.

Portanto, nunca reclamarei de rotinas, pois compreendo o quanto elas podem ser produtivas para todos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Exposição

Eu acho mesmo que a publicidade sobre personalidade das redes sociais atua de forma desfavorável para os profissionais liberais, como obstetras, médicos em geral, advogados, psicólogos, etc. Eu ainda acho mais seguro que estes profissionais usem perfis enxutos, básicos, muito simples e que ofereçam orientações simples sobre o seu ofício, mostrando a direção e o sentido amplo da sua proposta de trabalho (por exemplo, humanização do nascimento), mas sem exposição intensa e ostensiva dos profissionais – excesso de fotos, prêmios, filhos, conquistas, casa, férias, etc.

Cada dia mais me convenço que uma postura pessoal discreta é o melhor caminho, o mais seguro. Aqui na minha terra há uma expressão que diz “não alerte os gansos”, ou seja, não chame tanta atenção para si mesmo, pois poderá em breve se tornar alvo dos invejosos e daqueles que se sentem ameaçados pelo seu sucesso. As redes sociais devem ser prioritariamente usadas para disseminação de ideias, não de propaganda pessoal, pois a exaltação de egos é uma luz muito forte, que invariavelmente projeta uma enorme sombra. O número de profissionais famosos que sucumbiram ao tsunami do próprio ego deveria nos ensinar algo sobre os perigos dessa vitrine virtual.

PS: Isso não é indireta para ninguém, só uma digressão sobre superexposição midiática.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Hereges

Acho curioso o investimento que se faz em tecnologia aplicada à gestação, o período da vida de uma mulher onde se concentram os mais intensos medos atávicos e onde se manifesta o maior temor das mulheres: não ser capaz de gerar e parir seus filhos com segurança. Agora surgem no mercado empresas sofisticadas que oferecem serviço de ultrassonografias seriadas, insinuando que este acompanhamento aumenta as chances de “ter um bebê vivo e saudável no colo” (sic). Esse tipo de serviço representa o ápice da alienação, onde se consuma o afastamento mais intenso da mãe com seu bebê. Como a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd já dizia há décadas, depois de convencermos a todos – em especial as mulheres – de que o corpo feminino é frágil, falho e incompetente, nada melhor do que “arrancar” o feto do seu ventre e colocá-lo dentro de uma máquina, onde poderá ser medido, vigiado, avaliado e cuidado por pessoas confiáveis – médicos, cientistas – afastando-o dos perigos representados pelo corpo incompetente da sua mãe.

Eu, pessoalmente, acho esse movimento na cultura absolutamente inaceitável. Ele representa a subserviência suprema da mulher à tecnocracia, guiada pelo medo construído e disseminado pela cultura que, agindo de forma oportunista, gera lucros para médicos, indústrias de equipamentos e instituições, porém sem oferecer o que explicitamente promete através de propaganda.

Em tempo: não existe nenhum estudo até hoje publicado que demonstre que ecografias seriadas de rotina melhoram resultados maternos e neonatais em gestações de risco habitual. Ou seja: trata-se de um embuste tecnológico, mas que é vendido como “o futuro”, “tecnologia aplicada”, “prevenção” e “cuidado”…

Sim, é muito difícil gerar consciência nas pessoas, explicando a elas que tais exames não diminuem os riscos de uma gestação sem que haja uma indicação clara para o seu uso. Isso ocorre porque a tecnologia assume o lugar da religião no imaginário social, a qual nos vinculamos de forma irracional porque criticar seu uso é o mesmo que questionar a razão e o conhecimento científico. Guardadas as proporções, seria como explicar para um sujeito qualquer na Idade Média que fazer uma romaria ou rezar um terço não melhoraria suas chances de sobreviver à peste negra. Para ele não rezar seria inadmissível, pela potente conexão mágica que estabelece com esse ato, da mesma forma como a gestante se sente insegura se não se submeter a várias ecografias, nem que seja para dar “uma olhadinha e ver se está tudo bem”.

Na idade das trevas se você não rezasse e fizesse penitências seria uma herege que não merece a salvação. Hoje, se você fizer apenas os exames que comprovadamente melhoram suas chances durante a gestação, você será considerada uma irresponsável e relapsa.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Essência humana

A ideia do “homem essencialmente bom”, como apregoada por Jean Jacques Rousseau, definido como o sujeito que, nascendo bom, depois é corrompido pela sociedade, não resiste às análises mais superficiais. Creio mesmo que o homem nasce essencialmente egocêntrico, fixado em si mesmo e em sua própria sobrevivência, colocada acima de todos os outros valores. Somente a lenta maturação é capaz de afastá-lo de sua propensão natural a preservar a si mesmo como tarefa precípua. Nascemos “maus”, no sentido de nossa essência egoísta. O altruísmo – se é que ele existe – só é conquistado com muito labor e bem mais tarde, e só ocorre pelas forças sociais; somos fraternos por imposição do meio.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Hipocrisia

Existe uma hipocrisia humanamente construída sobre o respeito à diferença, que faz os inimigos mortais se cumprimentaram antes de uma disputa, ou que esconde algumas preferências para que essa distância de perspectivas não magoe quem você ama. Eu acredito que o “culto à verdade” tão exaltado em nossa cultura ocidental é a capa mais fulgurante e socialmente exaltada da crueldade humana. Dizer a “verdade” é uma das formas mais perversas de machucar e até destruir. Eu me afasto de gente “direta e sincera”; prefiro a mentira doce, o “vai passar” diante do diagnóstico terminal inexorável ou o “tudo vai dar certo” quando a tragédia pinta de negro o horizonte próximo. Nesse embate peço apenas que não me venham com verdades frias; prefiro o calor acolhedor das mentiras amorosas.

Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam

(Cazuza)

Ser verdadeiro e honesto em todas as circunstâncias da vida é algo impossível. Existe um contrato social informal, não escrito, de que existem verdades que devem ser escondidas, exatamente porque se acredita que a verdade deve ser usada em situações bem definidas. Ela só deve ser aplicada quando, de alguma forma, pode ser de auxílio para o mundo. Dissimular é essencial para a vida em sociedade; é algo que está distante do controle racional. Existem coisas que não podemos controlar com a razão, porque sua origem não é racional. Paixão clubística é um bom exemplo: torcer pelo seu clube e “secar” o coirmão são ações inevitáveis para o torcedor.

Isso só vai acontecer quando eu superar essa vida de paixões. Enquanto a paixão for minha guia serei dela, também, prisioneiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Opressão de classe

A questão de classe se sobrepõe à questão racial. Negros foram escravizados há 500 anos, trazidos de África, para serem trabalhadores forçados nas propriedades brasileiras, mas na história da Grécia e de Roma outros povos brancos foram trazidos para as metrópoles do mundo antigo como escravizados. Até na própria África negra havia escravos negros de senhores igualmente negros. Outros exemplos são os asiáticos no leste americano e os irlandeses pelos ingleses, tratados com o desprezo reservado às classes inferiores. A opressão dos mais fortes usa a cor da pele como desculpa para oprimir e explorar os mais fragilizados. No caso do Brasil – semelhante à dos Estados Unidos – a luta contra o racismo não pode assumir o caráter identitário, privilegiando apenas uma identidade, acreditando que o sofrimentos dos negros é único e uniforme.

Em verdade, esse sofrimento só será exterminado quando os negros tiverem acesso aos recursos econômicos para a sobrevivência digna nessa sociedade, um movimento que não vai acontecer apenas através da ascensão de alguns poucos negros às classes superiores, mas com a supressão das classes sociais. Sem classes dominantes e enormes contingentes de dominados, o racismo não terá como se expressar. Por essa razão, lutar contra o racismo sem entender que ele é uma consequência da sociedade capitalista de classes apenas gera conflito dentro da classe operária. É por essa específica razão que a direita americana oferece um apoio tão consistente para organizações identitárias que objetivam a divisão da classe trabalhadora, usando a luta antirracista, feminista e pró LGBT para minar a luta contra o capitalismo.

Não há dúvida de que ninguém vê senhoras negras dirigindo uma Ferrari aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos existem centenas, talvez milhares de mulheres negras ricas que usam esse tipo de ostentação. Podemos então dizer que por lá o racismo foi derrotado? Eu diria que é exatamente o oposto: lá o racismo é muito pior. Esse é o grave problema do identitarismo, porque a existência de personagens negros com muito dinheiro não eliminou o racismo, o sofrimento do povo negro, e muito menos a exclusão da população negra da riqueza nacional, mas dá a eles uma ilusão de que o liberalismo é capaz de lhe oferecer as condições de ascensão social. Essa mentira percorre o imaginário há séculos.

Sobre os trabalhos domésticos, os serviços perigosos e danosos reservados aos negros, isso não é condição inerente da pele negra…. mas da pobreza!!!! O fato de haver muitos negros pobres no Brasil nos oferece a ilusão de que a cor da pela é a questão primordial, pois negritude e pobreza se confundem num país que se liberou da escravidão há 150 anos. Entretanto, o que conduz essas pessoas a condições de trabalho indignas é sua classe social, e não a quantidade de melanina que carregam.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Futebol Moderno

Suspeito que o futebol no Brasil esteja se tornando um claro reflexo da senescência capitalista, como já havia previsto Marx. Primeiro deixou de ser associativo e passou a ser financiado pelas empresas e corporações industriais, através da publicidade nas camisetas e em todas as ações do clube. O sócio e suas mensalidades já não são suficientes para arcar com as despesas do clube, magnificadas dentro de uma bolha nutrida pela relação apaixonada que temos com as agremiações. Depois disso, com o crescimento exponencial dos custos com seus astros e suas arenas modernas, tornou-se dependente de bilionários e investidores, que usam o futebol como trampolim para seus lucros. Muitos destes mecenas futebolísticos são conhecidos por seus negócios escusos em várias áreas, repetindo o que acontecia com o “jogo do bicho” e seus investimentos no Carnaval.

Grandes e tradicionais clubes europeus já são controlados por príncipes Árabes ou novos ricos do leste europeu, cujo dinheiro surgiu do desmantelamento da Europa socialista. No Brasil clubes centenários como Botafogo, Vasco, Coritiba e Bahia já estão sob o controle de magnatas que usam o futebol como negócio; outros, como o Atlético Mineiro e o Santos estão em vias de se tornar. Hoje em dia se discute quem conseguiria escapar da sanha privatista do futebol. As SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol) estão se tornando a única saída viável para um esporte que se torna cada vez mais hipertrofiado.

Agora o próprio futebol, em nível internacional, migra para os países da península arábica, criando um polo de futebol midiático, lotado de jogadores ricos, príncipes excêntricos e petrodólares, onde o futebol se torna uma mera renda extra para as atividades de publicidade dos artistas da bola. Hoje os clubes brasileiros estão atolados em dívidas, algumas delas na casa do bilhão de reais, enquanto jogadores medianos tem salários de até 2 milhões mensais, mas ao mesmo tempo em que esse espetáculo de luxo acontece pela TV a classe operária é alijada do show, expulsa dos estádios luxuosos, impossibilitada de torcer pelos seus times dentro do estádio. A gentrificação e a gourmetização tiraram a alma dos clubes, tornando-os um produto de luxo. O esporte mais popular do mundo, está perdendo sua raiz social ao impedir o povo de frequentar os lugares onde o ludopédio é praticado. Os torcedores das classes populares foram expulsos dos estádios, tornados shopping centers para as classes média e alta.

O futebol moderno talvez seja uma das primeiras bolhas a explodir. A conexão do povo com o esporte aos poucos se enfraquece, e a paixão – que se nutre dessa conexão – vai lentamente fenecendo.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos