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Jovem de Novo

Existem basicamente dois tipos de filmes de “volta ao passado”. Inobstante o truque de mágica envolvido nessa passagem, em um deles a pessoa retorna à sua persona de garoto ou adolescente e volta ao passado dentro de seu próprio corpo. Espanta-se ao ver sua imagem renovada no espelho, mas mantém a mentalidade e o conhecimento acumulados nos anos passados. Um exemplo clássico é “Young Again”, de 1986, com Keanu Reeves. Por outro lado, existe um outro tipo de filme em que a volta ao passado faz o personagem encontra-se, e até interagir consigo mesmo. Neste caso duas facetas separadas pelo tempo – jovem e maduro – interagem no mesmo espaço. O exemplo mais conhecido é a brilhante trilogia “De Volta ao Futuro”, onde os personagens encontram a si mesmos em outras épocas.

Vou me deter na primeira, porque durante toda a minha vida escutei expressões de remorso sobre acontecimentos ao estilo: “queria voltar no tempo, ter de novo 25 anos e agir diferente diante daquele acontecimento”. Ou ainda: “queria retornar à minha juventude, mas mantendo a cabeça que tenho hoje”. Eu então pergunto: seria bom ter um corpo jovem em uma cabeça madura? Seria bom para a humanidade ter jovens de 25 anos com a maturidade de velhos? Mais ainda: seria suportável para um sujeito ter sua cabeça madura confinada em um corpo jovem?

Digo isso porque penso que existem decisões que só tomamos porque a juventude, a energia e o ímpeto da pouca idade são mais fortes do que o juízo e o bom senso. As coisas – certas e erradas – que fizemos no passado são fruto da energia vital vigorosa que coordenava nossa vida. Boa parte das conquistas da humanidade ocorreram porque a impetuosidade estava à frente da sensatez, o que nos impeliu a aventuras arriscadas mas que acabaram trazendo descobertas novas e progresso. Duvido que um Menelau mais velho teria atacado Troia apenas para retomar sua Helena do troiano Páris. Mas um jovem o faria, mesmo às custas de uma década de guerra.

Muitos, como eu, foram pais muito cedo. Se a minha cabeça à época fosse como hoje é provável que não tivesse filhos tão cedo, ou talvez nem os tivesse. Nossa progressão na vida parece uma disputa entre desejo e razão, onde a razão vai aos poucos tomando o espaço do desejo com o passar do tempo. Entretanto, a razão nos dificulta a decisão de arriscar, e o desenvolvimento da cultura sempre se dá através dos passos mais largos que damos pela coragem de enfrentar os riscos.

Uma juventude artificialmente madura nos levaria à contenção do furor das descobertas, bloquearia a energia das aventuras e estancaria a busca pelas novidades arriscadas. Tomaríamos muito menos decisões incorretas, cometeríamos poucos equívocos e erraríamos bem menos, por certo; todavia, nossa maturidade extemporânea nos impediria de avançar através dos nossos erros e das descobertas que fazemos através deles.

A maturidade na juventude não seria o paraíso de sabedoria que imaginamos. Talvez fosse uma verdadeira tragédia, que condenaria os corpos jovens a uma vida mais segura, porém insossa e previsível. Até porque somos constituídos tanto pelos nossos erros quanto pelos nossos sucessos e acertos.

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Culpa e Responsabilidade

Parto de uma premissa que entende que a responsabilidade pelas escolhas no terreno dos direitos reprodutivos e sexuais, no que diz respeito a parto e nascimento, certamente é das mulheres. Quem não se responsabiliza pelo que escolhe não têm autonomia; aqueles que assim agem não passam de crianças grandes, para quem jamais pode ser dada qualquer tarefa que exija comprometimento. Portanto, é importante pontuar a arrogância de algumas mulheres que acham possível mudar a essência de seus parceiros – ou de seus médicos – usando apenas a ferramenta da sedução. Dizendo isso, assevero que criticar esta postura ainda muito disseminada na sociedade não é “culpar as mulheres” por questões sobre as quais não possuem qualquer controle. Trata-se tão somente de fazer as mulheres serem donas de seu destino, garantindo a elas o protagonismo e a responsabilidade que está a ele associada. Há que se entender as diferenças entre “culpa” e “responsabilidade” para evitar conflitos desnecessários.

Aliás, esse maniqueísmo também precisa acabar. As pessoas podem ser vítimas e culpadas ao mesmo tempo. Um sujeito que é assaltado porque deixou o seu dinheiro saindo para fora do bolso traseiro é vítima de um assalto e ao mesmo tempo culpado pela falta de cuidado com o que possui. Mulheres vítimas de vivência obstétrica da mesma forma. Podem ser vítimas de ações abusivas, mas culpadas pela ingenuidade de suas escolhas ou pela sua …. arrogância. Não são situações excludentes, em hipótese alguma.

Prefiro tratar da responsabilidade das mulheres de serem protagonistas de suas escolhas. Sim, no Brasil a maioria das mulheres não pode escolher os médicos ou serviços de assistência ao parto, e esta é uma questão que está relacionada às dificuldades do nosso sistema de saúde. Todavia, o que eu proponho aqui é algo mais simples: aquelas mulheres que podem fazer escolhas não devem ser vítimas da ilusão auto infligida de que serão capazes de mudar a essência dos seus cirurgiões através da pura sedução, para que eles – por elas “transformados” – atuem contra suas próprias tendências e preferências. Isso está em paralelo com o exemplo de mulheres que acreditam ter a capacidade de mudar a essência de seus parceiros – muitos deles violentos, abusivos e alcoolistas – através dos recursos do afeto. Isso é uma arrogância que testemunhei durante décadas entre as mulheres que procuravam assistência no setor privado de assistência ao parto.

Além disso, o discurso de que as “mulheres são vítimas, não tem agência, não podem escolher nada” já cansou. Quem se coloca como vítima eterna e imutável jamais assume o protagonismo; agente e vítima são posições antípodas. O fato de ser vítima não determina a paralisia e não retira a responsabilidade da reação!!! Só as mulheres poderão transformar o parto; esperar que médicos se humanizem (de novo, pela sedução idealista de algumas mulheres) é arrogância. Médicos jamais vão modificar sua postura em relação ao parto e nascimento sem que ocorra uma pressão intensa da parte de quem se sente prejudicado. Apenas a luta organizada protagonizada pelas próprias mulheres poderá – através da luta e do confronto – mudar esta realidade. Portanto, não se trata de estabelecer culpas – que são via de regra inúteis – mas de responsabilizar as mulheres pelas escolhas que precisam ser feitas. Enquanto os médicos forem os únicos responsáveis só a eles será garantido o protagonismo. Nenhuma conquista ocorre sem luta e essa luta não pode ser alienada a ninguém.

Esse tipo de postura arraigada na cultura propõe a existência de dois grupos em disputa: os bons (as mulheres) e os maus (os homens). Portanto, se os homens são os culpados da violência no parto a responsabilidade de transformar o mundo seria… deles?

Não seria preciso falar sobre o fato de que hoje, no Brasil e no mundo, a maioria dos obstetras “maldosos e cruéis” que cometem violências contra mulheres são, adivinhem… mulheres. Mas para além disso, essa perspectiva baseada na culpa explica o atraso em qualquer conquista civilizatória na direção da equidade. Enquanto as mulheres acreditarem que a mudança da sociedade partirá dos homens (e a mudança do parto partirá dos médicos) ficaremos esperando que uma ilusória iluminação recaia sobre suas cabeças e, a partir disso, eles decidam fazer algo que jamais ocorreu na história do planeta. Ou seja: nenhum grupo abriu mão do seu poder pela transformação interna; todos foram forçados pelos conflitos e pela pressão que vem de fora.

Assim, a perspectiva de culpar os homens ou culpar os médicos – cujas atitudes são basicamente reflexos da sociedade onde estão inseridos, no tempo e no espaço – além de equivocada e injusta não produz nada, não faz nada, não ajuda nada e não transforma nada da realidade contemporânea. Quem acha que o problema da violência obstétrica recai exclusivamente sobre os médicos eu convido a passear pela seção de comentários de qualquer notícia de parto nos periódicos nacionais. Ali poderão testemunhar o quanto as mulheres aplaudem cesarianas, condenam partos humanizados, adoram episiotomias e exaltam os abusos de tecnologia. Com isso fica claro que os médicos, em verdade, se adaptam aos valores sociais vigentes em sua época, se dobram ao imperativo tecnológico e se rendem à demanda tecnocrática. Além do mais, afirmar o que “as mulheres querem” é arriscado; muitas vezes (acredito que na maioria) elas desejam até o oposto do que nós, humanistas, defendemos.

Acreditar que os homens são os culpados por todas as mazelas do mundo é tão ingênuo quanto dizer que o problema da violência obstétrica é culpa dos médicos. Além de fulanizar e criar um fosso sexista onde “os homens são maus e as mulheres vítimas doces e inocentes” esta perspectiva não enxerga a complexidade dos direitos reprodutivos e sexuais e cai na sedução de criar uma dualidade que separa “os bons e os maus”, sendo os maus (que surpresa!!) os médicos, os homens, os brancos etc. enquanto as mulheres são nobres, justas, doces e inocentes. A realidade material mostra que não é assim que o mundo funciona.

Eu, pessoalmente, cansei dessa perspectiva que se baseia no apontar de dedos. Não apenas porque ela é falsa, mas porque perdemos tempo em organizar a mobilização necessária para pressionar o sistema de saúde para as mudanças na atenção ao parto. Atacar os médicos, acreditando que eles são o problema central, é uma espécie de bolsonarismo, um recurso característico da extrema direita, pois aposta nas acusações de ordem moral (médicos egoístas, maldosos, cruéis, orgulhosos, malandros, canalhas, etc.) sem perceber que o problema é sistêmico e estrutural, onde médicos e pacientes são peças de um gigantesco quebra-cabeças e prisioneiros de um jogo no qual são manipulados por interesses alheios.

Eu não aguento mais esse tipo de debate. Não existe chance de mudança através do idealismo. a solução e o avanço para uma maternidade mais justa, humana, respeitosa e segura apenas surgirá pelo caminho do materialismo, pelos confrontos e pela conscientização das massas sobre os direitos reprodutivos e sexuais. Culpar os homens, tratando-os como inimigos é a rota mais segura para o fracasso, e foi isso que vimos até hoje.

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O Império dos Sentidos

Em 1976, quando eu ainda era adolescente, foi lançado com grande furor um filme chamado “O Império dos Sentidos” do diretor japonês Nagisa Oshima. No enredo uma ex-prostituta se envolve num caso tórrido, obsessivo e altamente erótico com seu patrão, numa história que envolve possessão, sexo e morte. O filme tinha como atrativo inédito uma cena de sexo explícito que ficou famosa, apesar do filme ter seus méritos para além desta cena, e ser um drama tenso, pesado e com final trágico. Claro, eu fui assistir com a mesma cara de pau de quem comprava revista Playboy e depois dizia que era “pelas entrevistas”. Sim, eu fui ver o filme porque sempre fui “um amante do cinema japonês”…

Outra curiosidade era que, quando as pessoas falavam que no filme havia essa cena de sexo explícito, logo emendavam a frase dizendo que os protagonistas eram “casados na vida real”, o que oferecia uma curiosa “liberação” para esta exposição pública do sexo entre eles. Tipo, “ahh, se eles são casados, tudo bem”. Parecia que o fato de estarem legalmente unidos através dos sagrados laços do matrimônio retirava da cena uma grande parcela de pecado, e aposto que essa desculpa foi uma das razões para permitir que este filme pudesse ser exibido em plena ditadura militar.

Na verdade, eu lembrei do filme por outras razões. Foi o nome da película que me fez imaginar uma interpretação alternativa. Digo isso porque hoje vivemos, de uma certa forma, no “Império dos Sentidos“, mas não nos “sentidos” com o significado das percepções que captamos do exterior e que nos impressionam, como o tato, o paladar, a visão, etc. Não, eu me refiro aos “Sentidos” com a conotação de “magoados” ou “ofendidos“.

Vivemos, assim, no “Império dos Magoados” onde os sentimentos alheios valem mais do que a própria verdade. Qualquer palavra, expressão, dependendo de sua origem (e não do seu conteúdo), pode ofender pessoas, grupos, etc. As piadas e os gracejos não podem mais se arriscar a tocar as feridas de todos os “(re)sentidos”, pois estes podem se machucar ao ouvi-las. Com isso a cultura fica paralisada, imóvel, temendo os cancelamentos inexoráveis que podem partir de qualquer pessoa e coletivo que se julgam ofendidos. Os comediantes, em especial, vivem sob vigilância extrema, e vivemos hoje em um tempo em que o humor perdeu boa parte da sua potência transformadora. Humor que não rompe barreiras e que não agride conceitos recalcitrantes é entretenimento anestesiante. Nesse Império os grupos historicamente oprimidos se tornaram os mais poderosos na cultura, ditando de forma autoritária o que pode e o que não pode ser dito. Como afirma Zizek, “ser branco, cis, hetero e homem nos tempos atuais tornou-se um crime para o qual não há mais perdão“.

Não nego que houve avanços em algumas áreas – em especial nas agressões que eram travestidas de piada – mas as perdas também são inegáveis. Por isso uma reação evidente já pode ser vista no horizonte. O “Império dos Sentidos” começa lentamente a ver sua força diminuir diante da reação de pessoas e grupos que não acreditam mais na capacidade da censura, dos silenciamentos e dos cancelamentos em oferecer solução para as desigualdades ou para acabar com o preconceito. Não se muda a cultura proibindo e punindo, mas educando e transformando as relações de poder.

A ideia de que os sentimentos feridos devem ser considerados superiores à justiça, à realidade e à verdade é um conceito que precisa acabar. O modelo de “maternagem” condena os oprimidos à uma posição inferior e reativa na sociedade, mas o que eles precisam é de protagonismo e poder de decisão, não de proteção infinita.

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A Festa

Era uma vez… uma famosa Drag Queen que resolveu se casar, mas para isso resolveu fazer a maior festa da história da cidade. Dinheiro não seria o problema, e para isso resolveu fazer um evento grandioso o suficiente para entrar na história. Não apenas convidou o mais caro buffet, alugou o clube mais chique da região, os garçons mais gatos, o serviço de manobristas mais top, luzes, palco, convidados da alta burguesia, etc, como também prometeu o mais fantástico de todos os vestidos de noiva, uma arte jamais produzida pela criatividade humana.

No dia do casamento a noiva chegou em uma limousine prateada, dirigida por um motorista negro, alto e forte escolhido pelo nome: Jarbas. Logo ao chegar ao local a multidão cercou o carro para ver a noiva e sua promessa de glamour; todos queriam ver o espetáculo que ela prometera. Quando a porta da limousine se abriu de dentro dela saltou uma perna esguia e forte cujo calcanhar era adornado por uma pulseira recheada com pedras preciosas. Nós pés um salto agulha de uns 18cm; um sapato Loubotin branco cravejado de joias. Acima do joelho uma jarreteira cor-de-rosa com fios dourados deixava a panturrilha ainda mais realçada e delicada. A pele estava alva e brilhante pela sessão de massagens e cremes hidratantes recebida no “dia de noiva”.

O vestido era apenas deslumbrante. Feito com renda Soutache, apresentava um cordão a contornar os desenhos proporcionando um aspecto de profundidade aos florais, mais justo à cintura e estruturado. As modistas que se aglomeravam na calçada estavam espantadas e abismadas, pois se tratava de um vestido de noiva clássico, requintado, sofisticado e com um toque todo especial de atrevimento.

– Calma, gente, calma!!! Esperem!! É apenas a aia!!!!!

Era a Drag Queen, avisando que o melhor ainda estava por chegar. Pois na data histórica de 30 de junho de 2023, o Brasil inteiro festejou a inelegibilidade… da aia.

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Esforço

O gosto da vitória está inexoravelmente conectado ao esforço. Não se trata de “romantizar o sofrimento”, mas valorizar a intensidade e o sentido do trabalho dispendido. Algo recebido sem esforço não adquire valor. O ouro só é valioso pelo trabalho intenso para encontrá-lo; os diamantes também. Já o ferro e o cobre são obtidos com muito menos “sofrimento” – ou esforço, e é altamente por isso que estes metais valem muito menos.

Equilíbrio entre a dor de avançar e os resultados obtidos é outro tema. O esforço é o que dá valor às nossas conquistas. Ou, como diria meu irmão, “tudo que é de graça custa muito caro”, pois que não está conectado com nossa dedicação ao objeto construído.

Aqueles que não reconhecem o significado das conquistas difíceis e das batalhas heroicas não conhecem futebol e nunca vivenciaram uma vitória épica do seu time (recomendo ler sobre a Batalha dos Aflitos) e nunca tiveram que sofrer diante dos seus medos e inseguranças para conquistar a mulher por quem estão apaixonado. “Quanto mais fácil melhor” é um absurdo colossal; na verdade, o oposto está muito mais próximo da verdade: quanto mais difícil, maior o prazer da conquista…

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Risadinha

Acontece muito comigo…

Escrevo um comentário (via de regra contra hegemônico) em uma publicação qualquer e recebo como uma resposta sem palavras, apenas uma “risadinha” de alguém que não concorda com a minha opinião.

🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣

Ao meu ver é a falta de argumentos a razão que os leva a utilizar o ícone da risada debochada, o qual traduzo como: “Não tenho argumentos para lhe contrapor, por isso utilizo esta risada sardônica como o recurso que me resta, evidenciando meu vazio retórico”.

Ok, acho pequeno e desagradável, mas ainda lido melhor com as risadinhas pusilânimes do que com os ataques ad hominem.

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Futebol e Capitalismo

A UEFA – Federação Europeia de Futebol – pretende implementar um “teto de gastos” no futebol para estimular a competitividade nos campeonatos do continente. Sei que existe um caráter imperialista nesta medida, mas não há como fugir dessa realidade. Não acredito que o objetivo seja roubar da periferia, até porque precisam dos clubes à margem do futebol europeu para produzir bons jogadores para eles. Entretanto, sei que está medida impactará o futebol do sul global. O que se quer por lá é combater o desnível que está acabando com a disputa. Os resultados escandalosos dos campeonatos italiano e alemão recentes deixaram isso claro, quando clubes ricos ganharam seus campeonatos durante uma década inteira. Isso vai matar o futebol, e o Brasil terá que tomar medidas semelhantes, caso contrário vai morrer.

E vamos vender nossos jogadores mais baratos para a Europa mesmo. Eu, pessoalmente, acho ótimo!!! E vamos pagar menos para os jogadores dos grandes clubes daqui como consequência. Somente os clubes muito ricos poderão continuar com salários estratorféricos, e por isso medidas aqui deverão acontecer no mesmo sentido. Não vejo alternativa; o futebol dentro do capitalismo deixa claro que, se não houver esse fairplay econômico, haverá um aumento da concentração de poder que produzirá a fuga ainda maior de torcedores.

Um fato bizarro ocorreu há poucos dias no jogo do Borussia Dortmund, quando havia a possibidade de ser campeão após 10 anos de vitórias do seu adversário, o Bayern de Munique. Não deu; perderam de novo, mas foi o aplauso da sua torcida no final do jogo o que mais nos chocou, deixando claro que, para os desanimados torcedores de Dortmund, perder para o Bayern está “de boa”, já que é impossível competir com eles. Os clubes rivais históricos já se conformam com a derrota para o adversário mais rico. Não há mais indignação.

A disparidade econômica acabou com o campeonato alemão. O mesmo ocorreu com o Espanhol, onde sabemos que apenas dois times disputam. Na França o PSG empilhou campeonatos nacionais. No Brasil o dinheiro de Palmeiras e Flamengo podem produzir a “espanholização” dos nossos campeonatos, além de soterrar em dívidas times como Vasco da Gama, Coritiba, Atlético e Cruzeiro, etc, a quem só resta se atirar nos braços das SAFs e vender-se ao capitalismo.

Isto já está ocorrendo com o Brasil, e vai piorar se o atual desnível se cristalizar. Se não houver algum tipo de bloqueio dessa disparidade o futebol vai morrer. Sim, pois ninguém vai se interessar por assistir um espetáculo de disputa onde não há emoção alguma, pois o desnível financeiro destrói toda a isonomia.

E mais: reduzir o padrão salarial dos jogadores e demais participantes se tornará mandatório. É impossível manter essa fantasia, mas a própria crise do capitalismo internacional vai dar fim à orgia de salários do futebol. Não há como manter esse universo paralelo…

E isso não é uma profecia funesta; o futebol já está ficando sem graça. Os mesmos clubes ganham tudo. O poder econômico do Brasil diante dos parceiros da América Latina já nos dá há anos disputas finais de Libertadores apenas entre clubes brasileiros. Futebol está dominado pelo poder econômico, que é quem produz essa crise. Os clubes de bilionários, sejam sheiks ou mafiosos do leste europeu, produziram este tipo de desnível na Europa, mas o fenômeno está chegando aqui à galope. As torcidas, ainda intoxicadas por este tipo de vandalismo econômico, ainda não perceberam o quanto isso é destrutivo para a paixão do futebol.

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Contexto

Uma conversa possível….

– Ahhh, mas usar um uniforme nazi pode ofender algumas pessoas…

– Sim, mas tem que entender o contexto. Não faz sentido olhar só a roupa do cara sem perceber que ele luta contra o fascismo em todas as suas músicas e textos, e que aquela apresentação é exatamente um ataque ao fascismo. Não fosse assim, teríamos que proibir as imagens de romanos chicoteando Jesus durante a Paixão de Cristo.

Parece que alguns esquerdistas estão finalmente se dando conta que os contextos são relevantes quando se descreve a história ou quando se conta uma piada. Precisou o Roger Waters vir aqui nos mostrar que uma imagem só tem sentido pleno quando é possível apreender todo o seu entorno.

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Utopias e Zumbis

Muitos se assombram que Geraldo Vandré tenha se tornado um reacionário na maturidade depois de ter embalado nossos sonhos de justiça e equidade com a trilha sonora da nossa adolescência ao compor “Prá não dizer que não falei das flores”. Essa música era cantada em onze de cada dez acampamentos onde houvesse um violão e a luz flamejante das utopias. Sim, e também garotas…

Eu não me assombro. Vandré tinha 30 anos quando sobreveio a ditadura e 33 anos quando sua música ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção em 1968. Era, na minha perspectiva de terceira idade, um garoto. Quando penso nele lembro muito bem dos amigos de juventude que hoje são reacionários – e muitos deles fanáticos bolsonaristas – mas que na juventude compartilhavam comigo sonhos à esquerda. As idéias dessas pessoas mudaram, ou sua postura revolucionária era tão somente uma máscara a esconder seus medos e angústias?

Fico com a segunda opção; jamais foram de esquerda ou socialistas. Eram inconformados, amedrontados, queriam derrubar “isso tudo que está aí” (como repetiram à exaustão os bolsonaristas também), mas não se conectavam com as bases que estruturam o socialismo. Eram rebeldes, mas não tinham a dureza da luta pela sobrevivência no seu horizonte próximo.

Há uma velha piada da direita que diz que “quem não foi comunista na juventude não tem coração; quem continua da maturidade não tem cérebro”. A piada serve para tentar explicar esse fenômeno: por que tantos abandonam seus sonhos, deixam a esquerda, atiram-se nos braços do conservadorismo e assumem uma posição cínica, utilitarista e desprovida de paixão?

Eu tenho uma perspectiva freudiana sobre o tema. Primeiro, a piada do “coração e o cérebro” é apenas isso: um chiste, uma troça, um gracejo que tenta explicar um fato através do humor – e o humor, ao meu ver, é sagrado. Todavia, essa piada não tem nenhum fundamento na realidade, e expressa o oposto do que se pode constatar cotidianamente. Quanto mais se estuda o capitalismo e suas contradições mais percebemos que a solução é “socialismo ou barbárie“, já que as promessas da Revolução Burguesa jamais foram cumpridas, liberando a classe proletária da exploração e oferecendo dignidade aos trabalhadores. Portanto, a presença do cérebro pode ser mais facilmente constatada naqueles que abraçam posições à esquerda do espectro político, e nunca o contrário.

Aliás, é daí que vem o mito de que as universidades são uma ameaça ao sistema, por serem “antros de esquerdistas”, exatamente porque onde se dissemina a luz do conhecimento, em especial das ciências sociais, mais se descortinam as realidades perversas do liberalismo e do Imperialismo, produzindo naturalmente um contraponto ao modelo social e econômico corrente. Ou seja: o cérebro nos leva à esquerda, não à direita.

Entretanto, o que cede insidiosamente durante a vida é o furor sexual da adolescência e da juventude. Assim como nossas juntas, também nossas paixões enferrujam, tornam-se rígidas, perdem movimento e amplitude. Somos, com o tempo, cooptados pelo sistema e pela necessidade de sobreviver – ou pela garantia de ilusórios privilégios – o que nos dificulta sonhar pelo bem comum. Acabamos nos tornando velhos ranzinzas, que jogam a culpa das mazelas do mundo nos políticos, na corrupção, no “comunismo”, nos vagabundos, etc, esquecendo a importância que o sistema injusto e opressivo ocupa na produção da realidade cotidiana.

Vandré e muitos dos meus amigos de infância, ex-esquerdistas, sofrem da fadiga dos metais, do abandono das utopias, do cansaço do desejo, da fraqueza das convicções e da senilidade de seus ideais juvenis. Mesmo entendendo a maturação de nossas propostas, vejo na desistência dessas motivações uma espécie de “morte ainda em vida”, algo que deve ter inspirado os cineastas a fazer tantos filmes sobre zumbis. Todavia, as utopias jamais morrem; como ervas daninhas elas se recolhem e retornam em solos mais jovens, cujo viço da paixão aduba as propostas de mudança.

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Identidades

Lutar contra o racismo não é identitarismo. Combater o machismo, idem. O identitarismo, como o nome diz, é a luta pelas identidades a despeito das divisões da sociedade em classes distintas, as quais nos separam em proletários e burgueses. Esse modelo, em última análise, transforma um homem branco miserável em um opressor, enquanto o negro que divide com ele a mesma marquise é visto como um oprimido, ambos vítimas de uma sociedade injusta e cruel. Usar a luta antirracista para combater essa disparidade sempre serviu aos interesses de quem não quer que a sociedade capitalista seja questionada.

“Você é oprimido porque é preto”, “Você não é valorizada por que é mulher, ou gay” quando por trás desses fatos existe um modelo perverso de sociedade e uma concentração absurda de riqueza que sacrifica a todos nós, trabalhadores.

Grandes organizações antirracistas estão lentamente rompendo com esse sectarismo e abandonando a postura identitária. O pulo do gato é acordar para o fato de que a raiz do racismo não é a melanina, assim como a raiz do machismo não é aquele X a mais.

Os grupos antirracistas e feministas que se deram conta disso estão rompendo lentamente suas amarras com o sistema capitalista. Chamam a isso “interseccionalidade”, que nada mais é do que perceber que esses modelos opressivos são tão somente máscaras usadas para justificar uma sociedade dividida, baseada em classes.

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