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Passagens

Eu passei a melhor parte da minha vida observando a transição das mulheres – em menor intensidade também a dos homens – em direção à maturidade, como mães e pais. O parto, como corte brutal na percepção egoística do mundo, nos joga de forma mais ou menos intensa nas agruras da insegurança e da tarefa de cuidar dos que chegam. Todavia, ainda me surpreendo com a velocidade com a qual essa transformação ocorre. Muitas vezes fiquei espantado ao falar com pacientes apenas algumas semanas após o parto quando já era possível perceber – na forma como se posicionavam diante dos temas – as mudanças de perspectivas, de ênfases e de posturas. É como se a partir do parto fosse aberto um portal pelo qual a realidade ampliada pelo fórceps da experiência lhes permitisse enxergar o mundo de forma mais alargada.

O malho da dor aguda, da espera e da angústia produz a transformação, que será tanto mais intensa e profunda quando maior forem os significados depositados sobre ela. Por isso continuo a achar que a experiência da maternidade e da paternidade são dores e angústias que valem a pena ultrapassar. Por certo que saímos um pouco menos piores, menos arrogantes e mais humildes depois de termos a carne triturada na passagem por este purgatório de êxtase e lágrimas.

Além disso, tais experiências pelo vale da paternidade e da maternidade nos permitem olhar os próprios pais com mais condescendência. Fico feliz de estar vivo para ver meus filhos passando por esta transição.

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Novos termos

A gente vê muito disso todos os dias. Mas tenho outros acréscimos que considero de valor:

* Gaysplaining: explicar para gays como é simples sair do armário;
* Birthsplaining: explicar para mulheres como é fácil parir sem nunca ter parido;
* Breastfeedsplaining: criticar a “pega errada” sem nunca ter amamentado;
* C-sectionsplaining: criticar a cesariana de alguém dizendo que faltou força de vontade;
* Colorsplaining: dizer que a vida de alguém é fácil só porque ele não é preto;
* Gendersplaining: debochar da dificuldade de alguém apenas porque não é mulher ou trans;
* Traumasplaining: diminuir a gravidade do trauma alheio sem ter noção do seu peso subjetivo;
* Shitsplaining: explicar suas merdas de forma a isentar-se de culpa;
* Sciencesplaining: explicar a racionalidade da ciência usando atitudes e argumentos irracionais.

That’s all for now folks….

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Joga Pedra!!

Sabe o que eu acho curioso? O Brasil inteiro está com ódio daquela moça que atacou o rapazinho que, de tanto apanhar, pediu para sair. Só vejo mensagens de ódio contra ela. Ela é a Geni nacional e, como toda a Geni, cumpre uma importante função social. “Ela serve prá apanhar, ela é boa de cuspir, maldita!!”

Enquanto existir uma pessoa que encarna a maldade e o mal do mundo nosso ego se sente aliviado. Tipo “Eu sou mau – às vezes – mas nunca fiz isso que ela fez. Ela sim é ruim de verdade”. Ufa, que alívio. Ela é também nosso Judas, e podemos malhá-lo à vontade para dar vazão ao nosso ódio e às nossas frustrações.

Por outro lado, eu não acho que ela – escondida entre os muros daquela casa – sabe do ódio que atraiu nas últimas semanas. Ela, como todos nós, não tem a capacidade de saber o quanto suas ações afetam os outros. Temos uma enorme condescendência com nossas ações e para elas sempre encontramos explicações, razões e claras justificativas, que quase sempre não fazem sentido para os outros, pois que não conseguem enxergar de forma “correta”, da maneira como nós vemos.

Tenho certeza que ao saber do que aconteceu com ela aqui fora a sua reação será o espanto e a incredulidade. “Como assim? Eu? Não pode!!!”. Talvez – apenas uma suposição – em seu íntimo ela já tenha uma pequena suspeita, mas que fica soterrada por um sistema muito eficiente de proteção emocional.

Porém, isso não se aplica à essa artista, mas vale para todos nós. Somos uma construção do olhar do outro, e sem isso é impossível saber quem realmente somos. Essa moça é um pouco de cada um de nós, mas por sorte não temos câmeras a acompanhar nossas patifarias cotidianas. Somos muito mais incorruptíveis por mediocridade do que por virtude.

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Rollerball

Quando eu era menino lembro de ir assistir uma superprodução de ficção científica do ano de 1975 estrelada por James Caan chamada “Rollerball”. No ano de 2018 (!!!) era famoso um esporte assustadoramente violento onde boa parte da diversão era a ocorrência graves ferimentos e até mortes durante os confrontos. Apesar – ou em função – da desmedida violência e os casos não raros de morte durante o jogo, o Rollerball tinha popularidade gigantesca e mundial.

A sociedade retratada era uma distopia opressora e totalitária capitalista, onde grandes corporações controlavam a vida e a morte dos cidadãos. O filme sempre me remeteu ao espetáculo mórbido dos concursos de dança de “They shoot horses, don’t they?”, filme de Sidney Pollack de 1969, onde uma sociedade arrasada pela depressão pós 1929 saciava sua necessidade de circo através do sacrifício dos dançarinos.

Curiosamente esta semana houve um feminicídio causado por uma disputa de um casal sobre futebol e hoje vi conhecidos perdendo completamente a compostura e a educação ao tratarem da derrota do seu time no mundial de clubes. Essas coisas não são coincidências.

Na sociedade distópica onde se praticava o Rollerball as pessoas arrefeciam suas angustias e sua infelicidade em um mundo caótico e violento, divertindo-se com as disputas de gladiadores sobre patins que se enfrentavam até a morte. Hoje se matam amores e desfazem amizades pelo futebol, enquanto o Big Brother serve como um catalisador de frustrações e rancores recalcados.

Por certo que se não há pão, que não falte circo. A brutalidade desses espetáculos é a medida exata do buraco gigantesco aberto pelo capitalismo no mundo atual, o qual nos sufoca e oprime.

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Não existência

Para uma criança, ser ignorada por sua mãe é a maior violência possível. Em seu mundo pequeno, onde o amor da mãe é a luz que lhe garante a vida, esse silêncio pode ser destruidor. Eu lembro do castigo mas grave usado em uma tribo africana que se resumia a ignorar peremptoriamente o condenado. Ninguém podia se referir a ele ou mesmo reconhecer sua existência. Segundo os pesquisadores nenhum condenado aguentava mais de 6 meses. Todos definhavam e morriam.

Acho que é exatamente que isso ocorre com as crianças quando são ignoradas por suas mães. Algumas não se matam apenas porque não saberiam como fazer

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A Criação das Avós

Existem muitas teorias para explicar a existência da menopausa. Afinal, essa é uma dúvida válida: por que poderiam os homens manter sua capacidade reprodutiva até o fim da vida enquanto as mulheres a teriam até meados da sexta década? Por que oferecer aos homens uma possibilidade maior de disseminar seus genes do que às mulheres? Por que algo tão caro à vida como a reprodução é abruptamente interrompido nas fêmeas humanas – mas não nos machos?

A melhor resposta que eu conheço se chama “fator avó”, que conheci pela primeira vez no livro “Birth” da paleoantropóloga americana Wenda Trevathan. Esse processo de “produção de avós” supõe que as mulheres entram na menopausa para, liberadas do peso das próprias gestações e maternagens, poderem se dedicar à sobrevivência dos seus netos e, assim, da própria comunidade onde estão inseridas. Como esse cuidado era uma tarefa quase exclusiva das mulheres, interromper sua capacidade reprodutiva facilitaria esta nova função social, deixando-as livres dos cuidados com seus próprios filhos para dedicarem-se à geração seguinte.

(revi)Vendo a ação das avós nos cuidados intensivo junto aos netos – e de forma muito próxima – pude perceber com clareza como esta tarefa é complexa, estafante e só pode ser realizada com uma quantidade enorme de habilidades e capacidades adquiridas por aprendizado não formal, que as mulheres aprendem no transcurso de suas vidas e pelas suas próprias experiências prévias como mães, tias, irmãs e filhas. A quantidade de informações, ideias, saberes e conhecimentos de várias áreas (puericultura, amamentação, nutrição, psicologia, suporte emocional, etc.) é vasto e impressionante, e não poderia ser diferente, já que se debruça sobre habilidades que garantem sobrevivência de seres tão frágeis quanto os recém-nascidos.

Testemunhando a riqueza dessa relação avó-bebê é possível, com um pouco de imaginação, entender que a presença de uma avó ajudando no cuidado dos netos pode significar a diferença entre a vida e a morte em contextos de miséria, guerra, fome aguda, desastres naturais, etc. Se o surgimento da menopausa realmente ocorreu para a criação de avós, essa passagem na história pessoal das mulheres precisa ser valorizada, ritualizada e homenageada, pois é uma das estratégias mais eficientes de sobrevivência produzida pela cultura humana.

Às vovós todo o meu respeito e minha reverência. Quem ainda tem a bênção de ter avós ao seu lado, pense nelas com carinho e reconheça o quanto foram – e são – fundamentais na sua vida.

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Contextos

Li pelas redes sociais um texto onde a articulista tentava mostrar as dificuldades pelas quais Karol (do BBB) havia passado desde sua infância – difícil e penosa – para que nosso julgamento sobre suas atitudes egoístas ou preconceituosas pudesse ser contextualizado diante de uma vida de luta, dor e sofrimento. Esse texto veio logo depois de outro, de igual teor, que pedia mais amor ao julgar a transexual que, depois de pedir “mais aglomeração”, acabou falecendo pela Covid19. Também ela havia sido vítima de uma sociedade cheia de julgamentos, violência, incompreensões e cancelamentos. Muito antes ainda eu li a história de uma mãe estressada que bateu no seu filho pequeno durante uma viagem de ônibus porque ele insistia em colocar a mãozinha para fora da janela para brincar com o vento. Quando foi interpelada por outra passageira sobre a razão da violência ela desfiou uma série de pequenas tragédias cotidianas que colocavam aquela agressão dentro de um contexto maior, de privação e sacrifício. O nome do texto era algo como “Muitas vezes só o que ela precisa é de um abraço”. E foi mesmo com um abraço compassivo que o texto terminou.

Todos estes textos me chamaram à atenção por serem justos. Há que se conhecer o contexto para compreender a integralidade de qualquer ato desviante. Ortega y Gasset já nos ensinava: “Eu sou eu… e minhas circunstâncias”, mostrando que somos feitos de elementos alheios à nós, os quais pressionam por ações e atitudes.

Todavia, depois de ler estes textos eu fiquei com uma curiosidade: se no lugar de uma “lacradora“, artista negra e vinda dos estratos mais pobres da sociedade, de uma transexual marcada pelo desprezo e o abandono ou de uma mãe desgastada pela sua tripla jornada estivesse um homem, um abusador e agressor, haveria a mesma análise que tenta entender suas ações inseridas em um contexto de violência psicológica infantil? Sim, porque praticamente todos os abusadores e espancadores tiveram uma infância recheada de traumas e agressões, que são encenados pela vítima na fase adulta agora no papel do opressor. Ou esse raciocínio compreensivo só serve para minorias e oprimidos? Só é possível ser condescendente diante da possibilidade de identificação com o sofrimento alheio?

Pois eu faço o convite a que essa compreensão mais abrangente seja estimulada e assegurada a todos, e não somente àqueles grupos com os quais conseguimos desenvolver empatia. Até porque qualquer um de nós, seja preto, branco, homem, mulher, gay, trans, oprimido ou opressor já esteve diante de escolhas e acabou sendo o Torquemada de alguém.

Todos temos um lugar de dor onde se esconde nosso recalque. Meu singelo pedido é que, antes de julgar qualquer sujeito, é importante saber que todo mundo carrega feridas mal cicatrizadas e que é preciso entender aquele que comete erros dentro de seu contexto de vida. Todos nós, de uma forma ou de outra, cometemos delitos – com maior ou menor gravidade. Sem exceção…

Ser compreensivo e tolerante com os erros do próximo é bom e justo até porque é isso que esperamos que façam conosco. Todo mundo merece receber um julgamento de acordo com suas circunstâncias e contextos. Assim, o teste verdadeiro é tentar entender alguém cujas atitudes agridem nossa humanidade, procurando olhar para o criminoso (e não para seu crime) com a mesma justa compreensão com a qual julgamos a transexual ou a garota do Big Brother. E isso não significa perdoar crimes, mas entender os criminosos.

Justiça, amor e raio laser para todos.

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Mudanças

Todos nós temos a obrigação de consertar a todos. O outro é sempre teu espelho e também teu bote salva-vidas. Se não forem as mulheres a consertar os homens (e vice versa) de quem será esta tarefa? A quem cabe mostrar que o outro invadiu nosso território, senão nós mesmos? A mudança sempre ocorre por dentro, por certo, mas o estímulo para a transformação sempre virá de fora.

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Fracassos

“Somos o que resta de uma montanha de escombros”, já dizia meu amigo Max. Os fracassos, mais do que as conquistas, são o que nos moldam e aperfeiçoam. Esta semana tivemos a vitória esmagadora de alguém que representa o atraso, o machismo, a corrupção e a perversão na política para ser o chefe do legislativo federal, numa reprise macabra da eleição de Eduardo Cunha. Tivemos a queda das máscaras lacradoras no Big Brother e o fim do sonho autoritário e farsesco da Lava Jato.

Os ídolos com pés de barro, Moro e Dalanhol, caíram das alturas: um queria ser presidente, o outro desejava uma estátua. Ambos terão que se contentar com o esquecimento. Também vimos um partido à esquerda “cancelar” uma co-deputada de um mandato coletivo – sem direito a defesa – por discordar de um texto publicado nas mídias sociais, na mais escandalosa demonstração de amadorismo político e falta de preparo para as discordâncias naturais e o contraditório.

Se não soubermos aprender com estes fatos então teremos perdido uma oportunidade histórica de fazer a necessária depuração nos quadros da esquerda.

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Estrangeiros na própria terra

Conheço alguns, até (em especial) médicos…

Sempre se acharam superiores a essa “tigrada” com quem são obrigados a conviver. Um deles, um cardiologista, quando viajou pela primeira vez à Europa, veio nos dizer que se sentia “em casa”, com aquela “finesse”, todo o charme e a elegância dos europeus. Esta falta de noção aqui no Rio Grande do Sul é MUITO pior do que no resto do Brasil por causa da colonização italiana e alemã.

Há alguns anos uma sociedade cultural italiana aqui de Porto Alegre distribuía aos seus sócios um adesivo onde se lia em dialeto vêneto: “Mi son Talian grazie Dio”, ou seja “Eu sou italiano graças a Deus”, o que nos faz lembrar dos italianos mortos de fome e miseráveis que vieram para nosso país para fugir da “mirada” (miséria + gelada) da Europa do século XIX. Foram recebidos de braços abertos e com terras gratuitas para plantarem. Alguns viraram industriais e grandes fazendeiros, e muitos continuam vivendo na Europa, mesmo sem sair da sua fazenda no interior do Rio Grande do Sul ou São Paulo.

Hoje os tetranetos desses miseráveis europeus se acham superiores pela cor de sua pele, e não aceitam ser confundidos com os “pelo duro”, os moreninhos, os “brasileiros” com quem são obrigados a conviver. Dizem frases características como “se eu pudesse fugia daqui” (mesmo para ser cidadão de segunda classe em Miami), ou “o problema não é o Brasil, mas esse povinho” (mas sempre se colocam fora do “povo”) e tantas outras grosserias que estamos acostumados a ouvir em mesas de bar ou conversas informais.

“O Brasil não merece uma pessoa como eu”, dizem, numa arrogância patética e estúpida. Negam o quanto receberam desse país e o tanto de benefícios tiveram para chegar onde agora estão. Médicos, advogados, comerciantes e empresários sustentados pelo esforço conjunto de uma sociedade que agora desprezam, achando que seu mundo é outro.

Mal sabem que quando chegam na Europa são vistos com deboche e desconsideração pelos racistas que, como eles, não percebem o quanto de sua riqueza depende do trabalho de quem tanto desprezam.

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