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Piadas

A piada era: “qual a pior parte da b*? A mulher que vem junto.”

Na adolescência isso parecia engraçado entre os garotos. A gente estava numa fase “incel”, e agia como a raposa diante de cachos saborosos de uva, desprezando o que não podíamos alcançar. Depois de amadurecer um pouco – e encontrar a alma feminina que se escondia por debaixo das curvas – a piada se revelava em sua objetualização horrenda e, assim, perdia a graça e o sentido.

Pois agora percebo, sem surpresa, que este tipo de piadas vira de lado, com o mesmo caráter depreciativo. São os homens que agora são tratados com desdém, descritos como os “maridos dos programas de TV” – estúpidos, ignorantes, infantis, tolos, limitados e inúteis. A naturalidade com que as meninas contam essas piadas – iguais àquelas da nossa juventude e com sentido trocado – prova que não há nenhuma superioridade moral de um gênero sobre o outro. Para mim sempre foi clara essa semelhança por cima de todas as outras diferenças superficiais: dadas as mesmas condições, homens e mulheres são igualmente grosseiros ou virtuosos, estúpidos ou geniais.

Todavia, as mulheres que amam seus homens – pai, marido, filhos, irmãos – sentem desconforto com estas piadas depreciativas, exatamente porque sabem que elas desprezam o próprio amor que devotam a eles.

Qualquer ideia de uma diferença essencial esbarra na realidade evidente: ambos carregam a mesma centelha de inteligência ou violência.

PS: A razão dessa reflexão foi ler uma menina escrevendo em um fórum do qual participo “eu gosto mesmo é de p*, o problema é o homem que vem de brinde”. As gargalhadas que se seguiram fizeram eco com o que acontecia na minha adolescência. A mesma piada agora sendo contada pelas mulheres, e talvez pelas mesmas razões de antigamente.

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Cancelamento

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”.

O cancelamento é um ritual característico de nossa época apesar de que a Inquisição já cancelava gente por pensar diferente quando tudo aqui era – literalmente – mato.

Existe um determinado roteiro para cancelar um sujeito. Primeiro ele precisa ser um expoente em sua área. Não é necessário nem que tenha qualidade ou profundidade, mas é importante que seja referência. Ninguém diz “estou cancelando o motorista do ônibus porque descobri que ele é homofóbico”. Não, “no one gives a sh*t”. Precisa ser alguém relevante para a cultura e/ou para um determinado segmento dela.

Via de regra funciona assim: o sujeito passa a vida defendendo abertamente os setores oprimidos, sejam gays, trans, mulheres, indígenas, imigrantes, etc, seja no foco específico do seu trabalho ou seja por declarações que faz por sua condição de celebridade. A partir disso seus fãs constroem uma imagem idealizada, da qual ele fatalmente se torna prisioneiro. Todas as suas falas passam a ser vigiadas, milimetricamente construídas. Alguns contratam consultores de imagem para monitorar suas ações e suas falas. Tudo para se manter dentro da caixa estreita que foi construída para si, mas que, ao mesmo tempo que o oprime, fomenta sua fama, seu poder e seu dinheiro.

Algumas vezes, por distração, falta de cuidado ou de propósito, estes sujeitos se rebelam contra essa “condição de confinamento pela opinião pública”. Resolvem falar algo que acreditam ou sentem, mas que ofende seu fã clube. Como FHC dizendo que fumou maconha ou que é ateu. Como um presidente americano dizendo que não foi à igreja no domingo, ou como alguém questionando o termo “pessoas que menstruam”.

As vezes fico curioso de saber como seriam as opiniões de algumas pessoas públicas não fossem elas presas ao controle social da opinião. Muitas vezes seria o oposto do que acreditamos.

Pois o cancelamento, via de regra, acontece pelo detalhe. Mesmo que a vida inteira de um sujeito tenha sido dedicada à diversidade, contra o racismo, contra o sexismo e a favor de minorias, basta uma piada, uma observação, uma discordância do núcleo duro dos movimentos para que seja decretado o cancelamento. J. K. Rowling foi assim. Para Woody Allen bastou uma mentira repetida à exaustão. Para outros o uso de uma palavra proibida, como “denegrir”. Para muitos apenas uma frase em momento de descontração.

Quando o processo se inicia ele atinge a moral do sujeito. Assim, retira-se o fundamento espiritual profundo do acusado, como a peça da base do jogo da Jenga, fazendo toda a vida do sujeito desabar. A obra, seu trabalho, suas relações, seus prêmios, suas conquistas são imediatamente destruídas, incineradas na fogueira da opinião pública.

É facil perceber nesse processo o gozo de quem acusa, pois que ele oferece uma imensa satisfação à pessoa comum, aquela que sempre se sentiu secretamente oprimida pelo gigantismo do seu ídolo.

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”. Essa é a vingança do fã que se sentiu traído quando sua idealização foi rompida. Essa vingança aparece na internet todos os dias quando personagens são cancelados, destruídos, atacados por apresentarem-se como verdadeiramente são, ou por não cumprirem o acordo tácito criado pela idealização: “Você será como eu quero, e eu lhe dou meu amor”.

Na verdade os ídolos contemporâneos são construções sociais em que cada um coloca um pouco de suas projeções e aguarda que ele se comporte de acordo com elas.

Em suma, uma vida insuportável.

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Realidade em preto e branco

Copacabana, anos 70

Mais uma imagem que mostra o apartheid do Rio de Janeiro, e de resto o que ocorria em todo o Brasil. O Rio é uma cidade mestiça, com muitos negros e mestiços, mas a praia sempre foi de exclusividade dos brancos. Os negros e pardos aparecem nestas imagens apenas como serviçais, empregados, trabalhando onde os outros descansam e/ou se divertem.

Para aqueles que diziam não haver racismo nesta época eu apenas lembro que a expressão deste problema social só ocorre quando existe algum tipo de tensão e conflito. Nessa época havia a “paz do silêncio”, quando a questão racial era escamoteada e escondida. Até mesmo os negros sobreviviam se adaptando a uma sociedade que não foi construída para eles, de mulatas do Sargentelli a jogadores de futebol.

Cada um olha para essas imagens e extrai delas o que deseja. Eu não posso evitar o choque de ver a construção racista do nosso país. Não quero abrir polêmica, apenas lembrar do racismo em que vivíamos ao mesmo tempo que sofríamos a repressão de um regime brutal. As imagens concordam comigo.

Mas… sim, como era bom ser branco e de classe média no Rio dos anos 70.

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Educar sem telas

Para mim o debate “educar sem telas” é semelhante ao debate “educar sem violência” com o qual convivemos nas duas últimas décadas, pelo menos. Quando este assunto surgiu no nosso meio as reações eram muito semelhantes. Achava-se inviável; argumentava-se que as pessoas não conseguiriam impor “respeito”, prevenir “erros” ou evitar “mau caminho” sem que fosse usada a força e – mais do que isso – a violência, que é a força usada para submissão. Há 30 anos acreditava-se que sem as palmadas seria impossível educar e colocar as crianças nos “eixos”.

Não há dúvida que a palmada funciona. Sua eficiência é incontestável. Uma criança que apanha aprende a se calar diante da força bruta, baixar a cabeça e obedecer. Criamos gerações de homens e mulheres ensinados a ver no uso da violência uma solução para dilemas e embates. O resultado vemos agora.

Todavia, cabe perguntar: o que conseguimos com isso? Resposta: uma sociedade que reproduz estas ideias.

Sobre as telas, apesar de serem agressões diversas, a mesma lógica pode ser aplicada. É inegável que um celular e um tablet com jogos e músicas hipnótica “funcionam”, assim como a TV igualmente funcionou para a minha geração. As crianças entorpecidas pelas cores, imagens e sons param de observar o mundo ao redor e focalizam no jogo. Entretanto, cabe mais uma vez perguntar: a que custo? As mesmas perguntas sobre o uso abusivo de TV agora recaem sobre os pequenos computadores de mão.

Pesquisas já mostram inúmeros malefícios com seu uso em termos de cognição, aprendizagem e questões afetivas. Por certo que a limitação do uso é um grande desafio, em especial porque não temos mais as mães do passado que devotavam toda a sua vida a cuidar dos filhos. Hoje são mulheres ativas com múltiplas funções e tanto elas quanto os pais sofrem a sedução cotidiana de oferecerem uma tela aos filhos como “tempo de descanso” para quem os cuida.

Esta é, por certo, uma decisão extremamente complexa, mas não há mais como – a exemplo das palmadas – questionar os malefícios da exposição superlativa. Organizar a melhor forma de disciplinar o (inevitável) contato é a grande decisão a ser tomada.

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Estátuas Virtuais

Quando pensamos em retirar as estátuas que homenageiam mercadores de escravos, racistas inveterados, matadores de índios e ditadores eu me pergunto sobre o que fazer com as “Estátuas Virtuais” erigidas a grupos que impuseram terror, genocídio, limpeza étnica e massacres e que ainda hoje são glorificados através de um processo de “limpeza cultural’, que transforma monstros em heróis e crimes contra a humanidade em atos de bravura.

Lembro muito bem das séries de TV da minha época, onde os “colonos” com suas carroças, mulher e filhos loiros rumavam para o Oeste cheios da paixão pela aventura e plenos de coragem para enfrentar os perigos de uma terra selvagem.

Só muitos anos depois pude perceber o engodo dessas narrativas. Em verdade, nós poderíamos com toda a justiça chamar “Os Pioneiros” mais corretamente de “Os genocidas invasores de terras indígenas”.

Sim, eles nada mais eram que selvagens, assassinos, ladrões de terra e genocidas que produziram limpeza étnica de dezenas de nações indígenas nativas da América do Norte, herdeiras das populações Clóvis. O livro “Enterre meu coração na Curva do Rio”, de Dee Brown, deixa muito claro como tudo ocorreu – e o nível inacreditável de crueldade desse genocídio norte americano.

Todavia, a imagem que nos chegava era completamente diferente dessa dura realidade. “Daniel Boone”, “Os Pioneiros”, “Rin tin tin”, etc, eram programas que tentavam retratar estes invasores e assassinos como “bons cristãos”, “cidadãos de bem”, com suas Bíblias e carroças levando a palavra de Cristo aos selvagens. Estas séries se ocupavam de fazer uma limpeza da história, transformando invasores em “colonos” – como se estivessem ocupando terras vazias – enquanto os indígenas eram retratados de duas formas básicas: o “índio ruim”, cruel, bárbaro, traiçoeiro e vil, ou então o “bom índio“, domesticado, civilizado, de feições ocidentalizadas, que auxiliava os brancos e aceitava docilmente sua submissão à invasão europeia.

Em verdade, os índios que moravam nas terras à oeste por mais de 100 séculos foram massacrados por sujeitos movidos pela ganância e pelo desrespeito à posse das terras dos “first nation” – nativos da América. Não há outra forma de descrever as “Guerras Indígenas” americanas com um nome diferente de “massacre colonialista”.

Assim fala a Wikipédia sobre o massacre iniciado pela “Corrida do Ouro” em direção ao “Wild West” durante o século XIX:

“O Genocídio dos povos indígenas dos Estados Unidos durante o século XIX, que resultou no massacre de milhões e na destruição irreversível de várias culturas, feito sob a alegação de uma guerra justa, ou guerra indígena, teve características próprias, que diferem o que aconteceu nos Estados Unidos do que aconteceu no restante da América. A limpeza étnica do oeste americano tornou-se política oficial do governo americano, que passou a declarar guerra às tribos indígenas sob qualquer pretexto.

Assim os apaches foram destruídos pela ação do exército americano após a entrada de mineiros e bandidos no território dos apache. A eliminação dos índios também foi defendida por dificultarem o trabalho dos empreiteiros e empresários de ferrovias que construíam e cortavam suas terras com a nova malha viária, ou como uma forma de se desobstruir o solo das planícies, destruindo suas culturas de subsistência, substituídas por lavouras comerciais em contato com os mercados consumidores através do novo sistema ferroviário.

Os indígenas foram paulatinamente empurrados pelo governo americano para territórios cada vez mais áridos, inférteis, isolados e diminutos. O antigo “Território Indígena”, que cobria a superfície de 4 estados da União, acabou sendo abolido e trocado por pequenas e esparsas reservas indígenas.

Em um discurso diante de representantes dos povos indígenas americanos em junho de 2019, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, pediu desculpas pelo genocídio cometido em seu estado. Newsom disse: “Isso é o que foi, um genocídio. Não há outra maneira de descrevê-lo. E é assim que ele precisa ser descrito nos livros de história.”

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Tempo

“Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo”

(Caetano Veloso)

Uma questão importante de aprendermos – todos – em tempos de internet, mídias sociais e instantaneidades é que os temas precisam de maturação, e maturação requer tempo.

Por mais que você tenha uma visão muito lúcida e plena de razão em seus pressupostos existe um tempo necessário para que as feridas possam cicatrizar. Depois de uma perda, em especial mortes violentas de crianças e jovens, é especialmente válido guardar um tempo de silêncio em respeito à dor de quem sofreu o drama de uma perda tão de perto.

E não importa se a sua análise está correta; estar certo não é o que mais importa. Respeitar os sentimentos alheios durante processo agudo de luto é uma obrigação da civilidade. Sem isso perdemos toda a humanidade, a empatia se esvai e ficamos prisioneiros da realidade crua.

Nesses casos de morte à justiça precisa prevalecer mas não às custas da desumanização dos personagens envolvidos. Muitas vezes a justiça funciona mais quando tardia, exatamente porque as emocionalidades e paixões envolvidas sofrem o desgaste benéfico produzido pelo efeito curativo do tempo.

Se você tiver uma visão clara de um caso pontual e trágico ocorrido em nossa sociedade, espere o tempo adequado para se manifestar. Não se apresse, não seja vitima de seu senso de urgência. Guarde sua análise para depois, para um momento onde suas palavras não terão tanto potencial destrutivo.

Seja humano, pense no sofrimento dos outros. Em momentos de dor exercite sua empatia. Afinal a razão e a lógica vieram muito tempo depois que o cuidado com o semelhante já era um traço essencial para o futuro dessa espécie.

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Idolatrias

A presença de Sara Inverno nas manifestações pelo parto humanizado e pela autonomia da mulher na escolha pelo local de parto deveria nos fazer pensar de forma muito séria sobre a idolatria e a exaltação de personalidades. É por estas posturas que deveríamos ser muito cuidadosos na exaltação de indivíduos para além da ideia que carregam. A vinculação dela com o direito ao parto domiciliar se parece com a adoção do vegetarianismo por aquele outro personagem sombrio da Alemanha, que hoje em dia é usada como exemplo do perigo de colocar alguém no pedestal olhando para apenas para uma faceta de sua personalidade

Já do lado das vanguardas, fugir da sedução da idolatria é uma tarefa das mais difíceis. O amor direcionado às figuras de destaque é visto como “reconhecimento”, “carinho”, “merecimento”, “justiça”, mas em verdade esconde partes sombrias do nosso psiquismo como a idealização e a projeção.

Mais importante ainda é o “backlash”, a “volta”. Toda a adoração é um pagamento por um serviço prestado. Quem faz essa oferenda espera o retorno, que pode ser através do reforço de nossas crenças. Quando o ídolo resolve dizer algo que se afasta da cartilha que produziu sua idolatria, a decepção é nítida. O problema, a partir daí, passa a ser de contabilidade.

Sim…. como receber de volta todo o investimento afetivo colocado na figura de destaque? “Depois de todo o apoio que lhe demos, como ousa nos dar as costas?”. É aqui que aparece a genialidade do poema cru e dolorido de Augusto dos Anjos

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Não foram poucos os ídolos assassinados pelos seus maiores adoradores. Mark Chapman matou John Lennon e Yolanda Saldívar matou Selena ao perceberem que a dívida do seu amor não poderia ser paga. Mas estes são extremos: o amor ao cigarro produz os mais insanos antitabagistas, assim como os piores fascistas são ex-comunistas.

A história está repleta de exemplos desse fenômeno. Vejo isso até nos casais: atrás de uma paixão avassaladora se ergue uma gigantesca sombra. Quando escutava no consultório uma exaltação aparentemente exagerada de um(a) parceiro(a) eu tremia. Em silêncio refletia nos perigos de tamanha idealização. E mais: diante de tal exaltação como seria possível lidar com a inevitável frustração diante das falhas, erros e pequenas traições?

Arrisco dizer que os maiores ódios nasceram das mais intensas paixões. Não é essa uma das histórias mais prevalentes na literatura?

Ter uma relação menos apaixonada com figuras de destaque é importante para a sobrevivência das ideias. Deixar que estas personalidades cresçam mais do que as propostas que carregam é um passo para a cristalização de qualquer projeto. Mais seguro é desinstituir-se dessas posições, apagando o brilho pessoal (ou controlando-o) em nome das construções coletivas.

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Harry Potter

Não leia se você adora Harry Potter…

Estou assistindo com Zeza um filme por dia da coleção Harry Potter. Ontem vi o “Cálice de Fogo” onde aparece uma competição tipo uma Olimpíada das Escolas de Bruxaria. Harry foi “escolhido” para representar Hogwarts e precisou enfrentar um dragão, mergulhar sob a água e enfrentar monstros marinhos para salvar seus amigos do afogamento e depois entrar num labirinto em que as paredes tentavam lhe agarrar. Em todas essas etapas os competidores podiam morrer, e no final realmente um dos alunos morre!!! (desculpe o spoiler…)

Eu pergunto: quem colocaria seus filhos numa escola dessas? Quem aceitaria participar de competições em que você – ou seus amigos – podem morrer se você chegar um pouquinho atrasado?

Achei engraçado o diretor da escola explicando depois “pois é, infelizmente um dos alunos morreu durante os jogos”. No fim, fizeram uma festa de despedida.

Sei que a série tem fãs ardoroso, mas não consigo entender o endeusamento de filmes com roteiros tão absurdos.

Obs1:  sei que eles são bruxos e que se trata de um universo paralelo, mas também nesse mundo alternativo os jovens morrem. E eram competições, não uma guerra!!! Devia haver mais respeito pela vida de adolescentes. As atividades dessa escola são absolutamente insanas.

Obs2: quem inventaria um jogo ridículo como “quadribol”??? Imagine você jogando aquele basquete com vassouras, se esforçando ao máximo, vencendo de 5 x 0 e de repente escuta o apito do juiz dizendo que o jogo acabou. Sim, recebe o aviso de que seu time perdeu (??!!!) porque a 2 quilômetros dali um menino conseguiu pegar uma bolinha no ar. Pense num Fla-Flu em que o Fluminense está ganhando de 3 x 0 e o juiz apita dando a vitória para o Flamengo porque, ao lado do campo, duas crianças de cada um dos times jogavam pingue-pongue e quem ganhasse este jogo seria o vencedor do Fla-Flu. Faz sentido???

Outro problema é o “limite das mágicas”, algo que acontece nos filmes do Harry Potter mas também no Ultraman e até nos desenhos do Shazan.

No Harry Potter os caras fazem batalhas em que mandam raios uns contra os outros. Ficam se atacando mutuamente até que o mocinho – o cara do bem – diz um palavra mágica e o seu adversário explode, vira fumaça ou desaparece. O Ultraman fazia o mesmo: ficava meia hora apanhando até o botão no peito indicar que a energia estava acabando. Só então ele dava um raio nas paletas do bicho e dividia o monstro no meio. Por que não fez no primeiro minuto da briga???

Quem brigaria desse jeito, apanhando pra caramba até o final, se podia terminar a luta em segundos bastando para isso usar seu melhor truque? Sim… eles mesmo: os lutadores de luta livre. Só eles…

O Shazan era pior. Ele lutava contra os inimigos, mas suas mágicas eram todas “God Mode”. Invencíveis. Impossíveis de suplantar. Até Homero percebeu que essas lutas eram sem graça e injustas. Nos seus livros Odisseia e Ilíada, que tratam da Guerra de Troia e o regresso de Ulisses para a Grécia, os combatentes, antes de se engalfinharem, perguntavam ao oponente “Diga lá, gajo: és um homem ou um Deus?” Para a mitologia grega um Deus era igual aos outros homens, apenas imortal. Qual sentido haveria em lutar com alguém que, por definição, não pode ser derrotado pela espada? A pergunta fazia todo sentido, e se fosse um Deus o oponente ia embora. Quem então lutaria contra Shazan sabendo que suas mágicas são impossíveis de vencer?

Se leu até aqui, consegue imaginar um assunto mais bobo que este?

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Paris e Nascer

Escrevi sem querer “Paris e Nascer durante a pandemia” ao me referir a um congresso que vai acontecer dentro de alguns dias sobre partos em tempos de Covid19. Paris, leia-se “Parir”. Desculpe, foi o corretor.

Todavia, fiquei pensando no roteiro de um filme onde a população do mundo todo acabou contaminada com uma doença que, ao ser transmitida para as grávidas, produzia bebês mutantes e zumbis que apenas se alimentavam de coca light e se acalmavam ao ouvir música sertaneja. (Nota: avisar ao produtor para colocar “Evidências” na trilha sonora).

Entretanto, a cidade de Paris era o único local para parir em paz, porque a pirâmide de vidro do museu do Louvre produzia um círculo de proteção energética sobre a cidade. Os partos em Paris não produziam zumbis, apenas parisienses comuns, e isso chamou a atenção de especialistas. Vírus? Radiação 5G? Ataque alienígena? Degradação das calotas polares e emanação de gases retidos no gelo? Como saber, e mais ainda, como salvar estas mulheres e seus bebês? Não havia tempo a perder.

O planeta estava em total caos, e os cientistas do mundo todo para lá afluíam na tentativa de descobrir a causa da pandemia e o efeito protetor da pirâmide. “Paris e Nascer” é um libelo pela proteção de gestantes das influências maléficas ocasionadas pela destruição sistemática do meio ambiente e uma saga de suspense, mistério e ficção científica onde a protagonista Jennifer McCalister (médica geneticista), seu marido Jeff Margullis (policial alcoolista aposentado do FBI) e seu filho de 7 anos Ambros (um gênio nerd) percorrem os labirintos da burocracia e a polícia corrupta para encontrar uma via segura para chegar a Paris, à cura e a um parto com segurança.

Castle Rock & The Glassman productions

Em breve nos cinemas

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Tragédias cotidianas

Não quero ler sobre esse fato do menino que faleceu aqui no Estado. Escutar os relatos me causa dor e angústia. Parece muito com aquela outra historia, igualmente brutal, do menino do Norte do estado, cujo pai é um cirurgião. Muito triste, muito desesperador.

Pior ainda é o fato de que a gente acaba se revoltando, sentindo raiva e indignação, mas o ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contêm. Odiar é destrutivo, envelhece o corpo e calcifica a alma.

O que se segue a esses crimes é quase tão ruim quanto a morte em si: uma onda de identificações, ódio, ressentimentos eruptivos, raiva incontida e sentimentos de vingança. Esse clima é horrível. Eu lembrei agora imediatamente do julgamento dos Nardoni quando pessoas saiam de suas casas e iam para a frente do fórum com cartazes de “assassinos”, “pena de morte”, etc. Eu pensava: “O que move essas pessoas? Sãoo pessoas comuns, que souberam do caso pela TV!! Que gozo condenatório é esse?“. Depois eu pensava na turba ensandecida que gozava vendo os leões comendo criminosos no Circus Romano ou gargalhava olhando as bruxas sendo queimadas pela inquisição e penso que tais personagens continuam a existir nos dias de hoje, com cartazes no lugar de archotes, mas com a mesma raiva doentia a escorrer pelo canto da boca.

Pelo menos agora vejo pessoas se perguntando “o que leva uma mulher a cometer um ato de tamanha violência?“. Pois esta pergunta, que nos impele à empatia, é o que nos livra dos dedos apontados, da dureza, da inexorabilidade. Tentar se colocar nos sapatos de um criminoso e perceber o mundo através de seus olhos é uma tarefa tão difícil quanto sublime.

Espero apenas que esse menino tenha paz e essa mãe a justiça.

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