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Escolha parir…

Hoje deu saudade do meu pai falando:

“Gosto quando você escreve sobre parto. Deixe a política de lado…”

Não dá pai… tudo é político, em especial ousar nascer livre em um mundo que adora correntes. Poucas coisas são mais desafiadoras e perigosas para a estrutura social do que uma mulher parindo em liberdade. “Um parto sem amarras é um liquidificador ligado às 3 da madrugada no condomínio”. Não há como se manter dormindo diante dessa potência.

Parir em paz, liberando as forças selvagens do nascimento, é uma decisão política. Não afeta apenas esta mãe e seu bebê, mas todo o entorno. Sua família, seu bairro, sua cidade e o planeta inteiro. Parir sem medo é desafiar a ordem patriarcal e buscar um novo mundo possível.

Escolha parir…

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Iluminismo, onde andas?

Pessoal da humanização do nascimento que festeja censura do Estado sobre a livre manifestação de ideias ainda não percebeu que a censura quase sempre atinge os grupos marginalizados e quase nunca os poderosos. Para cada Monark atingido existem 10 parteiras urbanas que serão massacradas por censura ou impedidos de manifestar sua opinião sobre temas controversos. Quem pode garantir que, diante do poder de cercear “más ideias”, não seremos as próximas vítimas? Quem define o que é uma “ideia perigosa”? O congresso? Este STF? Ficaremos na mão deles de novo?

Glenn Greenwald – judeu e homossexual, pertencente a dois grupos historicamente vilipendiados – deixa clara nesta entrevista à Carta Capital a importância da livre expressão das ideias como uma conquista iluminista – e não um modernismo americano. Abrir mão dela, mesmo que eivado das melhores intenções, é oferecer ao Estado o direito e o poder de controlar o que é debatido em uma sociedade. A isto se chama censura, um medievalismo. Foi o próprio nazismo quem determinou censura sobre pensamentos divergentes tão logo chegou ao poder.

Mais ainda, Glenn explica que esses movimentos que obstruem a livre expressão, mesmo quando bem intencionados, são inúteis e contraproducentes. Tanto ele quanto Chomsky lutaram contra a transformação de homofobia e do racismo em crimes exatamente por ser esta uma medida inócua, sem efeito e sem benefício para as comunidades a quem desejava proteger. Estas leis no Brasil não deixaram o país menos homofóbico e menos racista, apenas mais falso e dissimulado.

Por mais duro que possa parecer, a liberdade ainda é o caminho mais seguro. Oferecer o poder de controlar a narrativa a sujeitos como Alexandre de Morais – um nazista típico – para combater ideias ruins é um erro que poderemos pagar muito caro. Aceitar o direito de organização pode ser algo difícil de engolir, mas ainda É o mais justo e mais correto.

Nesta entrevista de Glenn Greenwald à Carta Capital eu não gostei da atitude da entrevistadora, que parece achar válido que empresários usem o poder do Capital para calar a boca de quem faz perguntas incômodas e traz convidados que atrapalham seus negócios, mas de resto Glenn deixou bem clara sua posição.

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PT 42 anos

Eu estava na Faculdade de medicina quando o PT foi fundado. Comentei com um colega “comunista” presidente do nosso centro acadêmico e sua resposta foi: “o que significa essa estrelinha vermelha na bandeira do PT?”.

Sua pergunta visava desmerecer a essência do PT, dizer que na verdade era de esquerda apenas na fachada, mas no fundo era um partido igual a qualquer outro. Curiosamente, anos depois encontro esse colega transformado num liberal de direita, um burguês típico.

Estive presente na eleição de Olívio Dutra à prefeitura de Porto Alegre, um momento histórico para a democracia. Um operário no poder!!! Saí às ruas com o bigodão do Olívio pela cidade agitando as bandeiras rubras do partido. Foi uma festa enorme da cidadania.

Sofri nas derrotas de Lula e vibrei com a vitória do partido em nível nacional em 2002. Vi as conquistas sociais, a volta da auto estima do povo e o retorno da esperança com os governos petistas. Junto com minha família chorei com a vitória do inominável em 2018.

Não sou filiado ao PT porque me situo à esquerda de suas ideias, mas reconheço no partido a potência transformadora de que precisamos agora, mais do que nunca.

Parabéns ao Partido dos Trabalhadores que hoje completa 42 anos de vida, sendo hoje o maior partido de esquerda do Ocidente, farol de liberdade e da democracia.

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Monark

Curiosos os argumentos; parece que as pessoas acreditam mesmo que proibindo os nazistas de terem um partido vão fazer com que os nazistas do Brasil desapareçam. Os nazistas estão entre nós, e faz tempo.

Lógica contemporânea:

“Eu acho preferível que os nazis saiam do porão e abram seu partido para serem combatidos à luz do dia”.

Saquei, tu é nazi

“Eu também acho que gays têm o direito de sair do armário e se casarem”.

Saquei, tu é gay que eu sei…

Para mim a ideia de que a legalização do partido nazista faria todo mundo virar nazi (ou aumentaria perigosamente seu número) brota do mesmo lugar que que criou a tese de que permitir beijo gay em novela transforma todo mundo em homossexual. Acordem… os nazistas sequer precisam de partido pois que já estão entre nós!!!!

No final, deste episódio patético ganharam os poderosos de sempre. Monark está proibido de abrir um Canal no Youtube. Já pensou se fosse o Estado autoritário e malvadão a fazer isso? Comunismo!!! Autoritarismo!!! Ditadura!!!

Pois não foi… foi o livre mercado, a tal da “iniciativa privada”. Os mesmos poderosos que estimulam guerras, disseminam fake news, produzem monopólios criminosos e patrocinam milícias digitais de direita acham que tem o direito de proibir a livre expressão de um sujeito. O bloqueio ao Monark é criminoso e ilegal. A esquerda que aplaude isso é BURRA, OTÁRIA, e está aplaudindo a tirania do capital para silenciar vozes dissidentes.

Não esqueçam que más ideias devem ser combatidas com boas ideias, e não com bloqueios e censuras.

Monark foi demitido do Flow por ousar dizer que abrir um partido nazista seria lícito (e não por defender o nazismo), e que o debate sobre suas práticas deveria ocorrer no terreno das ideias. Foi expulso pelos capitalistas que controlam a grana do programa e que aplicaram CENSURA sobre uma postura que, pode estar errada, mas deveria ser amplamente debatida.

Mas essa não é a pior notícia. O que me entristece é ver a esquerda aplaudindo as imposições do capitalismo sobre o debate das ideias, exaltando a censura, aplaudindo a tirania do dinheiro e aceitando a dominação do capital – através do torniquete econômico – sobre o pensamento nacional.

Monark é um garoto, um ancap – até reaça – um jovem defensor de ideias de direita, mas foi exatamente aqueles que ele tanto defendia que puxaram seu tapete. Foram os empresários, a “livre iniciativa”, a elite brasileira e os donos do Brasil que o mandaram calar a boca. Espero que ele aprenda com essa queda.

Monark se ferrou pela ditadura do capital. Os patrocinadores deixaram claro: “quem manda somos nós, e você só fala o que a gente permite”.

Mas… adivinhem quem ficou do seu lado, defendendo seu direito de dizer qualquer coisa – inclusive besteiras – por não aceitar que se obstrua a liberdade de expressão?

Os comunas… logo por quem tinha tanto desprezo.

Uma empresa de “acompanhantes” chamada Fatal Model foi uma das financiadoras que cancelou o Monark, levando-o a sair do Flow. Sim, uma empresa que explora a prostituição. Cafetões gourmet, exploradores do lenocínio com grife. Gente de família; homens e mulheres de bem. Afinal, eles não poderiam aceitar essa pouca vergonha que se tornou o Flow. Pega mal pro negócio deles…

Outra empresa foi a Puma, uma empresa criada na década de 20 na Alemanha e que se tornou apoiadora dos nazistas. Essa empresa acabou sendo julgada e condenada por crimes de guerra e da briga dos irmãos depois do fim da segunda guerra mundial surgiram as empresas Adidas e a Puma. Gente pura, empresários que pensam apenas no bem das pessoas.

Outra patrocinadora do linchamento ao garoto ancap foi a Globo, essa sim, empresa impoluta que esteve à frente de todos os golpes contra a democracia nos últimos 60 anos. Casa dos Marinho, central do PIG, apoiadores da candidatura do ladrão de toga, ex-juiz Moro, o destruidor do Brasil a soldo dos americanos.

Enquanto isso a esquerda liberal acéfala aplaude a atitude correta dessa turma…

E não esqueçam que na Alemanha o nazismo é proibido, mas pode-se encontrar uma organização nazi em cada cidade. Os nazistas de lá, exatamente como os daqui, se reproduzem e multiplicam no escuro, infiltrados nos partidos de direita. No Brasil são 530 células disseminadas pelo Brasil racista. Onde estão escondidos esses fascistas todos? Ora… no DEM, PP, União Brasil, Podemos, etc. Acham mesmo que tirar o sofá da sala e proibi-lo de ser colocado de volta poderia acabar com a sacanagem?

No meu modesto ver os nazis são como bactérias anaeróbicas que proliferam onde não circula o oxigênio; quando expostos à luz e ao ar corrente definham, enfraquecem e morrem. Censurá-los só serve para fortalecê-los.

Triste espetáculo de prepotência travestido de amor ao próximo…

PS: espero que meus patrocinadores não leiam isso

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Cosplay de pobre

Uma caricatura perversa do proletário precarizado.

Quando eu estava entrando na adolescência visitava famílias muito pobres na vila Restinga ou no morro Santa Teresa em Porto Alegre. As pessoas nos esperavam com a casa arrumada para receber algum auxílio para si e para os filhos, além de fazermos juntos uma oração. Era a chamada “Caravana Auta de Souza”. Quando chegávamos à casa delas era visível a precariedade e a falta de recursos, mas igualmente notável o capricho, o asseio, o cuidado e o respeito que tinham pelas suas poucas posses, e a preocupação com a nossa presença. A ideia que tenta associar pobreza com porquice é apenas uma mentira, uma jogada oportunista e tosca para gerar identificação.

Bolsonaro cria uma “ficção de pobre”, uma alegoria caricatural criada pelo seu preconceito com as camadas proletárias da sociedade brasileira. Aquele sujeito sujo, descuidado e emporcalhado é a imagem que ele próprio tem dos pobres, que confunde com vagabundos, descuidados e sem higiene.

O retrato triste que celebra o ocaso da tragédia bolsonarista diz muito mais do Bolsonaro, sua família, seus preconceitos de classe e sua ignorância sobre o proletariado brasileiro do que sua descrição dos pobres de quem ele, ingenuamente, tenta se aproximar.

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Blockbuster

Hoje eu pensei num filme que ainda não existe, mas bem que um diretor desses de Oliúde poderia se interessar por este roteiro.

Imaginem um juiz brazuca que se corrompe e ganha grana “por fora” para destruir empresas brasileiras que incomodam as suas concorrentes no exterior. E ganha muito dinheiro, porque esta empresa vale bilhões e é alvo de cobiça de construtoras de outros países. O problema é que esse dinheiro grosso não tem como simplesmente aparecer na conta do juiz, porque ficaria óbvio que esses valores só poderiam vir de algum lugar sujo. Todo mundo sabe o quanto ganha um juiz e a esposa dele, e sabe que ele não tem dinheiro de família, negócios paralelos ou qualquer outra fonte de renda. Então, como fazer essa grana ganha ficar “limpa”? Levando ela em um “lava jato”? Não, seria muita bandeira…

Solução? Sempre se acha….

Depois que este juiz se afasta da magistratura a empresa Alvaral e Marcez – a que mais lucrou com a quebradeira das empresas brasileiras contrata esse cara para ficar um ano inteiro no exterior como “aspone”, batendo ponto, indo na firma pra tomar cafezinho e ganhando um salário nababesco de mais de 3,5 milhões. Depois de um ano coçando o saco, ele volta para o Brasil, com a sua propina limpinha para depositar na sua conta no Banco do Brasil, e ainda por cima resolve entrar na política para ser o presidente do país que ele saqueou.

Não é um roteiro genial? Só não garanto que seja original….

Claro que isso nunca aconteceu, mas bem que poderia ser um roteiro muito maneiro para um filme com George Clooney no papel do juiz sacana, Julia Roberts no papel da esposa dele

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Olavão

Muitos chamam Olavão de burro, ignorante e idiota. Acusam-no de ser um embusteiro e um farsante. Acho isso bastante errado. Olavo de Carvalho escrevia muito bem – mesmo seus críticos admitem – e tinha cultura e erudição incomuns. Leu muito mais autores clássicos do que 99% dos seus críticos.

Burrice e ignorância vem da falta de conhecimento e de informação, o que não é o caso dele. Olavo tinha outros perversão do saber, um conhecimento e uma erudição a serviço de ideias fixas, controladas por uma personalidade paranoica. Isso não é burrice, é o uso doentio do conhencimento. Sua cultura era uma ferramenta de guerra, uma arma para destruir, não para iluminar. Mas, assim como inumeros outros personagens da história, está longe de ter sido um sujeito ignorante.

Agora Olavão morreu, ainda jovem (mais jovem que Lula, por exemplo). Não há como negar a importância de Olavo de Carvalho no pensamento conservador no Brasil e não se trata de execrá-lo (muito menos exaltá-lo) em sua morte. A mim interessa mais entender porque um sujeito como ele fez tanto sucesso. A extensão e o significado de suas ideias no pensamento de uma parcela da população é algo que precisa ser entendido. Conheci alguns de seus seguidores e vejo o quanto de fascinação ele exercia sobre essas pessoas.

Olavo deixa uma importante lição. Uma não, centenas. Um sujeito que elege um presidente pela força de suas ideias tem muito a ensinar. Se a gente não prestar atenção em Olavão, suas estratégias e a sedução que exerceu sobre milhões de pessoas, seremos obrigados a repetir o drama de sua influência.

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Gado à esquerda

A esquerda da brasileira está cheia de democratas que gritam por “cadeia neles”, que acreditam em “chamar a polícia” e que acham que a censura é um “assunto delicado” que em certas situações – tipo, fazer perguntas incômodas sobre vacinas, questionar identitários ou tecer críticas pesadas à Suprema Corte – deve ser levada em consideração. Acreditam igualmente na lisura das instituições burguesas e aplaudem decisões tomadas por personagens claramente contrários ao ideário que defendemos.

Daniel Silveira

Sim, a esquerda também tem seu gado, e ela está recheada de punitivistas e autoritários que andam por aí achando que basta usar a sua camiseta “Lula Livre” para torná-los automaticamente membros da vanguarda revolucionária. Agora vemos estes mesmos esquerdistas comemorando a prisão do fascista com esteroides aplaudindo figuras golpistas e macabras como Alexandre de Morais. Para se vingar dos personagens mais mesquinhos da política nacional aceitam exaltar um STF cheio de golpistas e reacionários. É muito triste ver a “Esquerda Cirandeira” batendo palmas pro Ministro que cortava pé de maconha com facão e que foi indicado para Ministro pelo golpista Temer…

Estamos cavando nossa própria cova. A sentença de 9 anos de prisão é absurda e claramente um exagero, tornando o caso do Daniel em um ato emblemático da arrogância do STF. Quem agora comemora este tipo de ação autoritária que brota de uma suprema corte reacionária deve pensar que muito em breve estas sentenças abusivas dos Ministros que julgam em causa própria vão se voltar contra a esquerda. Da mesma forma como cruzaram os braços diante do golpe parlamentar contra a presidente Dilma, agora igualmente cancelam os votos de milhares de votantes, apenas porque tiveram seu orgulho ferido.

Alexandre de Morais

Não esqueçam que estes mesmos Ministros foram os responsáveis não apenas pelo golpe contra Dilma, mas principalmente pela prisão do Lula – ambas ações criminosas e ilegais, afrontosas à constituição. Aplaudir Alexandre de Moraes agora é pura estupidez, comparável a alegria que estes ingênuos esquerdistas têm com os editoriais lidos pelo porta voz da Rede Globo – William Bonner – atacando Bolsonaro. Exaltar uma força reacionária para atacar outra é um erro estratégico que a esquerda não pode se dar ao luxo de cometer. Não importa que os personagens da bolha fascista sejam idiotas e golpistas, precisamos pensar adiante, tendo como norte os princípios que defendemos, e não ações oportunistas desprovidas de uma visão em longo prazo.

Estamos abrindo uma porta que não seremos capazes de fechar. Muitos desses esquerdistas que agora aplaudem a Suprema Corte por suas atitudes abusivas são apenas direitistas com distúrbio de lateralidade.

Steve Bannon

Por causa dessa ação Bolsonaro emitiu uma nota concedendo perdão para o “halterofascista”. Até nisso o Bolsonaro é um “Trump Genérico”. Fez para o Daniel o mesmo que o ex-presidente americano fez com Steve Bannon – outro notável bandido, personagem dos mais nefastos da política direitista internacional. Esses presidentes da direita adoram ter os seus bandidões de estimação e, pelo que se pode ver, sentem-se acima da justiça e da lei. Imagina agora como está se sentindo o tal bombadinho. “Quem se meter comigo eu mando chamar o Bolsonaro“. Mais capítulos dessa novela estão por vir, e ainda não se sabe qual a reação do STF com essa guerra aberta do executivo contra o judiciário, mas é certo que os verdadeiros marxistas não devem se associar a nenhuma dessas forças retrógradas sob pena de sermos as vítimas em um futuro próximo.

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Gravidez e Desejo

Não existe gravidez indesejada.

Ok, aquelas gestações resultando de estupro poderiam ser as exceções, mas são estatisticamente insignificantes. O que existem são gestações onde o desejo não é reconhecido ou explícito. Eu, por exemplo, tive dois filhos de duas gravidezes não planejadas, mas plenas de desejo, um elemento sorrateiro, caótico e inconsciente – como haveria de ser.

A ideia de centrar esforços sobre “gestações conscientes” sempre me pareceu um delírio racionalista. Escuto isso desde os bancos escolares, antes ainda da escola de Medicina. Passa pela ideia de que, mais bem informadas e “orientadas” as meninas teriam uma capacidade maior de evitar gestações inadequadas, fora de hora, prematuras, indesejadas ou inconvenientes.

Eu rejeito a ideia de que esta ação poderia trazer benefícios para além de mudanças marginais, locais, pontuais e absolutamente pouco significativas. E digo isso porque não acredito que estas escolhas sejam majoritariamente controladas por elementos conscientes, os únicos que poderiam ser transformados pela educação e a informação. Ou seja, não se transforma racionalmente uma pulsão de origem irracional.

Minha namorada engravidou aos 22 anos, em plena faculdade de enfermagem, e seu namorado (eu) era estudante de medicina, ambos de classe média. A gestação, como eu disse, não foi planejada. Aliás quem planejaria ter um filho aos 21 anos, sem emprego, morando na casa dos pais? Pois mesmo assim, com toda a informação possível, com toda a educação necessária, uma gestação ocorreu – e logo depois outra.

Por quê? Ora… porque a informação não é capaz de mudar o desejo. Havia um desejo que transitava por detrás das palavras e gestos, como uma sombra, percorrendo caminhos para se expressar. Afinal, ele está onde não devia estar, ele “desacata a gente que é revelia, pois é feito estar doente de uma folia, como uma aguardente que não sacia, e nem dez mandamentos vão conciliar”, e nem todas as aulas, palestras, desenhos, gráficos, filmes vão tornar o sagrado em profano ou transformar o quente no frio.

Nas comunidades mais pobres as meninas não engravidam por serem burras ou pouco educadas nas questões do sexo. Ora, que ingenuidade. Elas sabem como evitar uma gestação, e desde muito cedo na vida. Aprendem nas quebradas e nos cochichos, encostadas no muro da escola. Aprendem da mãe, e até do pai. Ensinam-se uns aos outros na escola da vida cotidiana. A questão da gestação na adolescência passa longe de uma abordagem cognitiva, apesar desta não ser uma perspectiva desprezível; ela é apenas insuficiente e não produz efeitos consideráveis.

A questão passa pelo reconhecimento das pulsões sexuais como forças propulsoras da criatividade humana, muito mais fortes e potentes do que qualquer abordagem racional e educativa, mas também pela percepção da questão social que subjaz, muito mais significativa e que regula a política dos corpos nas estruturas sociais exploradas, como as comunidades onde a gestação na adolescência é prevalente.

Lá, nas quebradas, a gestação da menina de 15 anos tem uma repercussão completamente diferente da garota burguesa grávida nessa idade e que mora na zona sul. A ausência de perspectivas de crescimento pessoal que caracteriza a primeira se choca com as inúmeras portas que se fecham à segunda diante de uma gestação “fora de hora”. São realidades sociais extremamente díspares, criadas por contextos diferentes e produzindo consequências divergentes.

Por isso, não há como uma abordagem autoritária (na minha época se planejou dar injeções de progesterona em meninas de vilas populares) ou meramente educativa produzir resultados relevantes. Por mais que os ginecologistas se sintam desprestigiados a realidade é que a diminuição de casos de gestação na adolescência quase nada tem a ver com a ação médica que eles poderiam produzir. A solução – atenção para o spoiler – é política, e tem a ver com a superação do capitalismo, em direção à construção de uma estrutura social igualitária. Enquanto não houver uma transformação social, através de uma nova forma de organização das cidades, da renda, da moradia, da educação e do emprego, continuaremos a ver gestações que ocorrem em épocas muito precoces, o que acarreta um custo social e familiar muito grande.

Uma percentagem ínfima de gestações são planejadas, no sentido racional do termo. Quando uma mulher diz “não foi planejado” fica explícito para mim que ela apenas permitiu que seu desejo tomasse as rédeas do processo, sem a interferência da razão.

“Quem pensa não casa”, já dizia o velho adágio. Já pensou nesse ditado de forma mais profunda, tentando encontrar o que está escrito por detrás das palavras? Se você puder entender “casar” como um conceito amplo – que inclui amar alguém e ter filhos – a frase fica ainda mais interessante. Assim, para casar – amar, procriar, cuidar – é necessário não pensar, não racionalizar e permitir-se desejar. O amor é exatamente isso, uma perda do controle, uma submissão ao desejo.

Por certo que faz sentido orientar meninas sobre anticoncepção, gestação na adolescência, métodos alternativos, drogas para evitar, riscos e benefícios. Médicos deveriam ser essencialmente pedagogos (e não meros despachantes de drogas). Entretanto, para mim é evidente que essa estratégia é incapaz de mudar a situação porque se baseia numa ilusão racionalista. Parte do princípio que o sexo e a própria reprodução podem ser controlados – ou domesticados – pela informação. Isso é puro delírio médico, uma onipotência de controle.

Eu escuto essa queixa sobre a gestação na adolescência há 40 anos e sempre do mesmo jeito. Não muda uma vírgula do que os médicos dizem há 4 décadas, apesar de todas as evidências mostrarem que a abordagem usada por todo esse tempo está apenas equivocada. É duro aceitar, mas os médicos não tem quase nenhuma importância nessa equação, porque gestação na adolescência não é um problema médico, é um sintoma social – mesmo que, por certo, produza repercussões médicas.

A ideia de campanhas, injeções compulsórias em populações vulneráveis, educação nas escolas e distribuição de anticoncepcionais jamais solucionaram o problema. E a razão é simples: gestação na adolescência se adapta ao microcosmo das populações exploradas. Para que essa escolha inconsciente desapareça do horizonte das meninas é preciso transformar a própria sociedade e a cultura onde elas estão inseridas. Quando a pobreza for exterminada a gestação “não planejada” cairá vertiginosamente sem qualquer campanha, exatamente porque estas meninas, historicamente roubadas em suas alternativas, verão o futuro de si mesmas com outros olhos.

Muitas vezes reclamamos das gestações precoces como o faz um médico indignado com as verminoses no posto de saúde. Sua inquietude e sua legítima angústia diante dos casos que se avolumam o faz cobrar uma ação médica, imaginando que a verminose é um problema que pode ser medicamente solucionado.

Agora imagine ele passar 40 anos exigindo novas drogas, lutando para educar crianças a lavar as mãos e as frutas que vão comer, dando palestras na escola do bairro etc. e sem jamais perceber qualquer diminuição nos casos, porque nunca se dispôs a visitar a casa desses pacientes situadas à beira do valão imundo que os circunda. Verminose é um problema médico como a desnutrição, mas nenhuma destas doenças tem uma solução médica. Pois só no dia em que ele enxergar a questão social que produz há décadas essas enfermidades ele poderá abandonar seu discurso ingênuo e sua crença racionalista inocente.

Eu, pessoalmente, cansei desses discursos médicos que estão apartados da sociologia e da politica. São palavras vazias que nada acrescentam ao tema, pois as soluções apontadas são comprovadamente inúteis por colocarem nas mãos dos médicos uma solução que lhes é impossível. Isso apenas alimenta a frustração, causada pela onipotência da corporação.

Os nossos esforços deveriam estar direcionados muito mais à luta política para a erradicação da pobreza do que ficar tapando seus furos, tal como fazem os médicos abnegados que oferecem vermífugos às toneladas para crianças que moram em situação de miséria, excluídos da sociedade. Melhor fariam oferecendo injeções de indignação e pílulas de consciência de classe para que, desta forma, pudessem combater em conjunto as verdadeiras enfermidades: a iniquidade e a injustiça social.

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Vai pra Cuba…

Vocês que ainda apoiam um sujeito como Bolsonaro na presidência jamais vão entender que o capitalismo brasileiro pode ser bom, mas apenas para uns 50 milhões de cidadãos – nossa classe média. O resto é tratado como massa de manobra, escravos modernos do neofeudalismo corporativo, pobres carregadores de carga numa divisão perversa de classes. Para eles os deveres, para nós os direitos.

O que vocês não perceberam é que qualquer miserável americano, que mora numa “maloca” de lona das ruas de Detroit, Seattle ou Los Angeles adoraria se mudar para Cuba para ter assistência médica, segurança e educação de qualidade para os seus filhos.

Portanto, essa história de “ninguém vai para lá” é uma meia verdade. Ninguém da burguesia dos países com classes opressoras vai para um lugar de justiça social; sempre vão procurar um lugar onde seus privilégios de classe serão mantidos e exaltados. Procurarão sempre um sistema que lhes proverá vantagens indevidas e que lhes garantirá um sentimento de superioridade.

Desta forma, aqueles que pertencem à classe média vão preferir ir para o centro do império, onde haverá gente pobre para lhes servir. O drama é que vocês não conseguem olhar para NADA longe dos vossos radiantes umbigos. Não conseguem perceber o sofrimento de milhões de brasileiros esquecidos, maltratados, mal pagos, espoliados, explorados e muitos passando fome. Essas pessoas são desumanizadas ao extremo, enquanto são desconsideradas ao seu olhar.

A questão central é que quando vocês são assaltados, ou quando seu pequeno negócio vai à falência, vocês culpam o governo, o “socialismo”, o Lula, a lei Rouanet, a polícia “frouxa”, os direitos humanos, as esquerdas, a falta de presídios ou a impunidade (como se a pobreza já não fosse uma punição eterna para esses grupos) ao invés de perceber que a culpa é do sistema perverso, de um capitalismo desumano, da sociedade de classes e da resistência produzida por uma classe média tola e racista que teima em não aceitar a necessidade de mudanças profundas e sistêmicas.

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