Há 20 anos exatamente estava atendendo no consultório quando fui surpreendido por uma imagem no computador da minha mesa. Imediatamente liguei meu rádio e aproveitei para escutar as descrições ao vivo. Um avião havia se chocado contra as torres gêmeas em Nova York, um lugar que eu havia conhecido duas décadas antes quando visitei a cidade. A descrição da rádio me fez ligar a TV do consultório na recepção, aproveitando uma falha na agenda. A sensação de todos era pânico e assombro.
Cheguei a ver ao vivo o choque do segundo avião. Imediatamente liguei para minha mulher. “O mundo vai acabar”, disse eu para Zeza Jones em tom de despedida, sem saber que era mesmo verdade. O mundo, como o conhecíamos, acabava naquele dia. Nunca mais eu vi os Estados Unidos como eu estivera acostumado a ver e – confesso – até admirar. Imediatamente, ainda enquanto ouvíamos o eco da queda retumbante das torres, surge o “Patriotic Act”, a perda dos direitos civis nos EUA, o recrudescimento da islamofobia, a invasão do Iraque, a “Guerra ao Terror”, as convulsões no Oriente Médio, as invasões brutais a vários países (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, etc) e o panóptico americano sobre suas zonas de domínio, que em nível local levou à própria Lava Jato, ao juiz cooptado em Curitiba, aos golpes jurídico-midiáticos e finalmente nos levando à “facada” e à Bolsonaro.
Sim, em minha perspectiva o fascismo bolsonarista é ainda um reflexo do fatídico dia 11 de setembro de 2001, que no futuro será visto como a festa macabra a celebrar o fim de um Império. Desde então esse gigante de poder planetário apodrece lentamente à nossa frente mas, como todo sistema de opressão, sua decadência será marcada pela violência e pela agressão às conquistas da civilização.
Minha solidariedade aos mortos dessa tragédia no correr dos anos foi dando lugar à indignação com um país que passou a matar um World Trade Center a cada dia no Oriente Médio. Só no Iraque foram 100 mil. No Afeganistão foram mais de 400 mil mortos, mas para estes homens e mulheres pobres e de pele escura – mortos por defender sua própria terra – não há nenhuma superprodução de Hollywood para contar suas histórias, seu sofrimento, sua dor, seus filhos perdidos, o heroísmo de seus combatentes e suas esperanças soterradas pelas bombas americanas.
Os bombeiros americanos são tratados – justamente – como heróis. Histórias e lendas são contadas sobre sua bravura e coragem para salvar o maior número possível de vitimas do ataque. Todavia, nenhuma justiça é feita aos heróis e heroínas anônimos que ainda hoje protegem seus filhos dos ataques imperialistas. Da Palestina às cavernas nas montanhas do Afeganistão milhares de histórias poderiam ser contadas sobre a brutalidade e os massacres levados à cabo pelas forças invasoras, mas também sobre os anônimos homens e mulheres que defenderam suas famílias e suas comunidades.
Um mundo onde impere a justiça e o equilíbrio por certo haverá de trazer à tona essas narrativas de dor, coragem, determinação e esperança.
PS: Não, não é o World Trade Center nesta foto. É Gaza, onde todas as semanas há um novo massacre, matando palestinos de forma brutal e sistemática. Lá as torres gêmeas são o imagens do cotidiano. E por trás da barbárie continuada estão os mesmos Estados Unidos e seu apoio aos terroristas de Isr*el.
Sempre me interessei pelos significados últimos da riqueza e do poder, em especial a tentativa de entender personalidades onde estas características atingiam limites inimagináveis. Gosto muito da abordagem de Gore Vidal ao descrever os Césares como os homens mais poderosos da historia da civilização e o quanto esse poder desmedido era capaz de destruir suas almas; quase todos eles morreram loucos e desvairados, destruídos pela falta de limites ao desejo.
Hoje temos uma repetição curiosa, fruto do poder conferido a alguns sujeitos pelo neoliberalismo, o qual oportuniza a inédita, imoral e macabra concentração de renda atual. Ao lado de Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg está George (Schwarz) Soros e sua curiosa história, que poderia ser resumida como a revivescência de Roosevelt no seu intento de salvar o capitalismo através de um mundo sem fronteiras – Open Society – mas centrado no capital. Sua ojeriza ao socialismo o faz investir em instituições identitárias mundo afora e no combate aos governos autoritários e suas “sociedades fechadas”. Esta reportagem do The Guardian deixa claro o erro em pensar numa “sociedade de iguais” enquanto se investe num sistema de exploração que se nutre da miséria de muitos para garantir a opulência de cada vez menos.
Veja a excelente investigação do The Guardian aqui
Eu afirmo que comparada à corrupção LEGAL e corriqueira da sonegação de tributos, a corrupção de agentes do governo – seja de onde for – é café pequeno; totalmente desimportante quando comparada à grande corrupção do sistema capitalista. Basta olhar os números. Isso não significa que ela não deve ser combatida, mas apenas que deve ser vista em perspectiva, para que não seja usada eternamente como cavalo de batalha dos grupos de direita. Aliás, os escândalos mostrados na CPI da Pandemia e da família Bolsonaro mostram que essa retórica da direita é pura encenação. Era falso com Adolf, com a Ditadura Militar, com Collor, com Bolsonaro e com tantos outros.
“Somadas, as mil empresas que possuem as maiores dívidas ativas com a União sonegaram R$ 754,7 bilhões aos cofres públicos. Se esse valor fosse quitado pelos empresários, o Brasil poderia pagar 14 meses de auxílio emergencial aos trabalhadores informais, autônomos e desempregados. De acordo com o Ministério da Economia, cada mês do benefício custa R$ 51 bilhões.”
51 bilhões POR MÊS!!
Enquanto isso, a maior força tarefa para o combate à corrupção – a Lava Jato – de triste memória, arrecadou tão somente 4.3 bilhões, o que é menos de 10% do que poderia ser pago de auxílio a cada mês. É ÓBVIO que esse “combate à corrupção” promovido pelos governos de direita é uma cortina de fumaça, alienante e moralista, para não enxergarmos a verdadeira corrupção, o enorme furo que esse modelo produz nas contas.
Entretanto, apesar da disparidade desses números a corrupção é vendida desde sempre pela extrema direita como “o grande mal a ser combatido”. Por isso permitimos que surjam bilionários como o velho da Havan, o Bezos e o Elon Musk, cuja fortuna é produzida pela incapacidade do Estado em produzir justiça social.
O combate à corrupção deve ser feito dentro dessa perspectiva. Feche-se o megaducto da sonegação atacadista primeiro, para depois fechar a torneira dos corruptos à granel.
Quando vejo elementos da direita apontando incoerência na esquerda que aplaude os ataques do STF a Bolsonaro, eu acho bom esclarecer qual a nossa postura.
O STF é uma instituição BURGUESA e CONSERVADORA. É composta de liberais que estão lá para proteger os privilégios das camadas superiores da burguesia e das elites financeiras. O STF, por covardia ou interesses escusos, foi responsável pela prisão injusta, covarde e cruel de Lula, mudando o resultado das eleições presidenciais de 2018. Não há como perdoar ou esquecer este fato.
Antes disso se calaram diante das ilegalidades do golpe contra Dilma. São responsáveis diretos pela tragédia bolsonarista de agora. São medrosos até a medula, e Lula disse isso com todas as letras durante a crise de 2016, que poderia ter outro resultado não fosse a atuação de oportunistas como Gilmar e Rosa Weber, entre outros.
A esquerda conhece muito bem a função do STF de proteger os capitalistas e a burguesia. Só os tolos se enganam com os acenos civilizatórios de Alexandre Morais. Ali o que funciona é o espírito de corpo, com o objetivo claro de salvar a si próprios, e não a nação ou a justiça.
Não há ilusão alguma com essa turma, valentes protetores do capitalismo e das elites. Mas… não há porque não comemorar que no esforço de protegerem a si mesmos eles resolvam jogar o crápula do presidente aos leões. Não há nenhum “esquecimento” do papel por eles prestado ao golpe . Temos vivo na memória o papel deplorável do STF na farsa do “impeachment” golpista e sem crime de responsabilidade contra Dilma e depois o impedimento de concorrer e a prisão espúria e criminosa de Lula. Tudo à margem da lei.
Sempre criticamos no passado e continuaremos a criticar agora. Não esqueçam que esse esperneio do Alexandre Morais é apenas porque ELE se sentiu ameaçado, e não porque teme pela constituição e a democracia que deveria proteger. Se esses ministros tivessem respeito à constituição Lula jamais seria preso porque está EXPRESSO na carta que ninguém pode perder a liberdade sem o trânsito em julgado.
Se alguém ainda tinha dúvida sobre prisão em segunda instância, pense no quanto isso pode ser usado para perseguições políticas. Lula está sendo inocentado de todas as suas acusações em instâncias superiores. Já foram 17 absolvições em acusações infundadas e oportunistas. Ficou preso por mais de 500 dias e deixou de comparecer ao enterro do irmão por causa de uma pena inventada por um juiz corrupto. Quem recupera agora este tempo? Quem paga pela liberdade que lhe foi tirada? Quem paga pelos seus 500 dias de prisão injusta????
Tenho total concordância com o Fernando Schuler, em especial no que diz respeito à sua crítica aos identitários e sua “reivindicação do absoluto”, mas principalmente na defesa da “primeira emenda” perdida, ou o direito supremo de defender publicamente suas perspectivas de mundo, sejam elas cesarianas para todos, ivermectina, poliamor, cannabis, monogamia, Bolsonaro, vacinas, parto humanizado, Lula, esquerda, direita, Deus ou Abraxás.
Sim, há limites, como aparece muito claramente no paradoxo de Popper. Não podemos fazer da tolerância a nossa fragilidade e assim permitir que os intolerantes usem dela para impor a todos sua intolerância. A liberdade precisa de salvaguardas. Entretanto, eu não posso aceitar que ministros do STF ou juízes de plantão determinem se o que digo e escrevo é certo ou errado, se há estudos suficientes, se alguém ganha dinheiro com estas ideias, se influencio muitas pessoas ou se minha opinião ofende alguém. Não podem ser eles os avalistas de todas as verdades.
O risco de ofender é inerente à liberdade de expressão, e ninguém pode ser culpado por atingir elementos subjetivos de alguém, ou valores circunscritos a determinados grupos. É inadmissível que a justiça seja a “patrulha dos sentimentos feridos” e também por isso as decisões que ressuscitam – de forma dissimulada – a censura são preocupantes. Agora atingem fanáticos de extrema direita, mas amanhã poderão atingir qualquer sujeito que defenda teses contra-hegemônicas.
Uma sociedade plural precisa conviver com diferenças. Se um sujeito ou organização dissemina mentiras então que seja aberto um processo com a garantia de ampla defesa para avaliar a inverdade disseminada, seus impactos e – caso seja confirmada – a sua punição. Todavia, as justificativas apresentadas para o fechamento dos canais de direita não me parecem democráticas.
Para a esquerda eu digo: festejar estas atitudes do Alexandre Morais, do Bonner, de juízes comuns, do Facebook, do Google ou de instituições do Estado é como alimentar corvos; mais cedo ou mais tarde eles te comerão os olhos. A mesma mão que arbitrariamente bate na direita hoje amanhã atacará a esquerda por motivações puramente ideológicas. A história deveria ter nos ensinado melhor.
Eu acho que o ódio às esquerdas (leia-se ódio à justiça social) é uma patologia digna de figurar no DSM – o código internacional de doenças. Claramente se manifesta pelo rechaço a tudo que é popular, que parte do povo, que tem cheiro de gente e que procura escutar o país como num todo, e não apenas os desejos de sua faixa média burguesa. Entre os sintomas dessa patologia está a classificação de todo líder emergente das faixas “inferiores” como “líder populista”, que seria um mentiroso, dissimulador, falso, mercenário e com uma agenda escusa de vantagens pessoais e corrupção. Um exemplo disso é a placa encontrada numa manifestação de direita onde se lia: “País sem corrupção é país onde rico manda, pois quem é rico não precisa roubar”. Claramente a ideia é de que um candidato do povo só poderia estar no poder para roubar…
Um sintoma dessa rejeição é a narrativa atual de que todos os que defendem Lula são “fanáticos”. Afinal, se ele é “ladrão”, só o fanatismo poderia nos fazer entender esse apoio. Entretanto, essa parcela da pequena burguesia hoje sente vergonha do profundo desastre ocorrido no governo Bolsonaro em todos os níveis: econômico, jurídico, ético e na imagem internacional do país. Em função disso, não aceitam Lula e seu odor de povo e também não querem se ligar ao horror anti civilizatório de Bolsonaro-Guedes.
É desse caldo que nasce o “nem Lula, nem Bolsonaro”, que nada mais é do que a “terceira via”, ou a viabilização de um candidato que burle essa dualidade não mudando nada na estrutura racista e classista da nação. Por isso a procura desesperada por um candidato que seja a cara do Centrão: homem, branco, burguês, rico e que guarde equidistância com PT e Bolsonaro, mas que seja bem visto pela elite exploradora e os militares oportunistas.
A terceira via, pela clara polarização e o clima de guerra que Bolsonaro sempre apostou como modus operandi da sua gestão, acabou por se inviabilizar e finalmente morrer de inanição. Não há como – agora – oferecer uma alternativa que impeça a eleição plebiscitária que teremos à frente. A terceira via morreu no primeiro dia do governo Bolsonaro, quando ele avisou que seu governo seria baseado no confronto, mas ainda há aqueles que tentam revivê-la gritando e chorando ao lado do seu corpo em decomposição.
Na minha perspectiva ocidental Xador, Amira e Hijab são praticamente iguais, mas depois aprendi que o Xador cobre o corpo inteiro, e a Amira não permite aparecer nenhuma parte do cabelo. Já o Hijab permite que se veja um pouco do cabelo frontal. Existe diferenças no formato para além da cor apresentada na imagem acima. Entre os mais conservadores a Arábia Saudita wahabista e (minha surpresa) o Paquistão.
Nesses países muçulmanos apenas 4% das mulheres não usam véu – mas no Líbano metade das mulheres já não o usam. Quase metade usarão Amira, mas a burca (tão condenada por nossas bandas) não passa de 2% das mulheres, e mesmo na Arábia Saudita mal passa de 10% de uso. Entretanto, recheamos nossas críticas ao mundo islâmico com esses estereótipos que estão longe de mostrar a diversidade do Oriente.
Às vezes – guardadas as proporções – vejo críticas ao islã que partem de generalizações miseráveis. Quando dizem que nos países muçulmanos as “mulheres são obrigadas a usar burca” eu imediatamente imagino um iraquiano olhando uma foto do Rio Grande do Sul e comentando “Pobres brasileiros, obrigados a usar bombacha. Deve ser horrível vestir isso na floresta amazônica”.
As pessoas que acusam aqueles que ficaram felizes (com a expulsão dos americanos do Afeganistão pelo Talibã) de serem “machistas” aceitam ser chamados de “genocidas” por sua conivência com as mortes de meninas e mulheres durante a ocupação americana? Aceitam o rótulo de neocolonialistas? Aceitam a pecha de “bandeirantes da América”?
Dizer que celebrar a derrota do Império no Afeganistão é saudar a misoginia do Talibã é o mesmo que afirmar que festejar a derrota de Trump significa se alegrar com a vitória dos democratas imperialistas e sua máquina de guerra. Com um pouco de esforço dá para entender que é possível desprezar tanto o imperialismo quanto o Talibã, mas acreditar que um precisa ser derrotado primeiro, até por ser a principal causa do outro.
Da mesma forma dá para combater Trump e Biden, por que são diferentes apenas em nível interno, mas iguais no seu pendor imperialista.
O biscoitismo – em especial partindo de figuras públicas da Academia na capital brasileira – é um cacoete terrível de intelectuais que se aventuram nas redes sociais. É preciso agradar em primeiro lugar ao seu eleitorado, e só depois fazer algumas concessões à realidade. O salário são os “likes” e os elogios rasgados ao seu idealismo que não suporta 10 minutos de mergulho da verdade dos fatos.
Quem, entre as pessoas horrorizadas com a entrada do Talibã – um grupo de reacionários e fascistas de direita muito parecidos com os bolsonaristas no Brasil – lembrou das 500 crianças mortas pelos bombardeios americanos SÓ ESSE ANO? Por acaso dá para comparar a PORCARIA REACIONÁRIA do Talibã com 500 crianças explodidas pelas bombas imperialistas?
Qual a dificuldade de entender que a entrada dos Talibãs e a expulsão dos americanos é um mal menor diante do DESASTRE GENOCIDA do Império em qualquer lugar do mundo????
Em suma, ressaltar a importância da derrota do Império não é o mesmo que passar pano para os abusos do Talibã, mas reconhecer que só com o fim do imperialismo a cultura misógina do Talibã poderá ser atacada. Assim como no século XIX, o colonialismo eurocêntrico não é a resposta, pois com ele vem abusos, mortes e torturas – em especial com os mais frágeis, as mulheres e as crianças.
Acho curiosa essa manifestação de condenação à retomada do Afeganistão pelas tropas talibãs, especialmente quando a gente sabe que morreram MUITO mais mulheres e crianças pela invasão americana do que pela ação dos talibãs durante toda a sua história…
Tortura pelas tropas americanas na prisão iraquiana de Abu Ghrabi
“Pobres afegãs”, dizem agora aqueles que analisam o fenômeno no conforto de suas casas há milhares de quilômetros de distância das atrocidades da guerra, como se as tropas americanas não tivessem alta tecnologia em subjugar através de estupro e tortura, inclusive de mulheres e crianças. Acaso esquecemos tão facilmente assim Mi Lay e mais recentemente Abu Ghraib? Acaso será necessário aguardar mais um documentário horroroso da ocupação do Afeganistão para – DE NOVO – comprovar as atrocidades americanas cometidas contra os “povos inferiores”, cucarachas e moreninhos?
Proponho então um exercício simples… (baseado em antigas conversas com minha mãe, uma gringófila confessa)
Imaginem que os Estados Unidos invadiram o Brasil. Mataram nossos soldados, destruíram o exército, expulsaram o presidente, desembarcam milhares de soldados, controlaram as TVs e a Internet (ops, isso já fazem) e tomaram as ruas com seus marines, canhões e tanques.
No dia seguinte à vitória o “Comandante em Chefe” do Governo de Ocupação entra em cadeia de rádio, TV e Internet e explica para o país que a invasão se deu em função da destruição da Amazônia, as fraudes nas eleições e um genocídio em curso. Claro, prometendo proteger as mulheres, a fauna, a flora e as minorias. A tomada do poder se deu como recuso heroico para restabelecer valores democráticos e salvar a floresta. Era, afinal, uma intervenção humanitária para auxiliar os brasileiros e, porque não, ajudar o mundo.
Uma combatente americana posa ao lado de um iraquiano carbonizado pelas armas de guerra imperialistas
Depois disso, como aconteceu na Líbia, no Iraque, na Síria – e aconteceria na Venezuela – empresas americanas iniciam prospecção e retirada de petróleo do pré-sal, ferro, ouro, bauxita, madeira, soja e até o famoso nióbio. Agem como se aqui fosse o seu quintal, brincando de desenterrar tesouros escondidos. Todavia cumprem a promessa de cuidar da Amazônia; ou pelo menos assim o dizem, pois como controlam a imprensa não informam nada que nos faria vê-los de forma negativa. De tudo fazem para mostrar que só praticam o bem para todo o mundo e que os antigos donos do país eram cruéis e covardes, os verdadeiros assassinos e genocidas. Possuem em suas mãos a mais potente de todas as armas da guerra híbrida: o controle da informação e da propaganda, a ponto de transformar verdades em mentiras, fracassos retumbantes em vitórias gloriosas – e vice-versa, se assim for conveniente.
Um soldado americano se diverte com o horror de um prisioneiro no Iraque.
Pergunto: qual o preço que se suporta pagar pela liberdade e pela autonomia? E se o povo brasileiro decidisse que a eliminação da extrema direita era tarefa nossa, de acordo com nossas propostas e nossos valores, e não pelas escolhas de invasores estrangeiros? E se o projeto de expulsão dos bandoleiros americanos – assassinos cruéis como em toda parte do mundo onde estiveram – fosse liderada pelas milícias bolsonaristas, deveríamos saudar ou lamentar nossa libertação? Seríamos a favor da manutenção da ocupação genocida e exploradora dos nossos recursos ou marcharíamos ao lado dos milicianos?
Então imagine-se agora no Afeganistão….
Mulheres e crianças sendo abusadas pelas tropas americanas no Vietnã
Nesta foto ao lado pode-se perceber a angústia das mulheres sob o controle das tropas americanas em Mi Lay, e o exército americano atuando em “favor das mulheres”, da sua liberdade, de sua autonomia, etc. Melhor nem contar o que existe por trás dessa imagem. Sério…. eu fico enlouquecido de ver as pessoas diminuindo – ou relativizando – a importância da luta contra o imperialismo. E se o Talibã não tinha no horizonte a luta anti-imperialista (o que é uma afirmação cheia de preconceito com as lutas alheias, pois pressupõe que só as nossas lutas tem valor, as dos outros são interesseiras) o resultado objetivo é a DERROTA do império, e isso é, por si só, uma vitória para a autonomia dos povos.
Não é por outra razão que Venezuela e Cuba, que se ergueram contra o Império americano, são alvo de boicotes, ameaças, agressões e tantas outras violências. Se houvesse tanta ardor feminista estariam todos agora lamentando o salafismo da Arábia Saudita, APOIADO pelos gringos, ao invés de atacar uma luta de liberdade que já dura 20 anos e MATOU milhares de mulheres em sua esteira de exploração e destruição.
E posso acrescentar: eu DETESTO a perspectiva de mundo talibã. Odeio profundamente o machismo e a colocação das mulheres em um patamar social inferior, mas não posso aceitar que a solução para isso seja reviver o colonialismo. Quem sabe, então, voltamos de novo para a África para catequizar aqueles “machistas e ignorantes”?
Não tenho nenhuma resistência ao feminismo, que apoio, e reconheço o risco de retrocessos, em especial no que diz respeito aos direitos das mulheres. Porém, sou contrário aos identitarismos, o que é bem diferente. A crítica ao Talibã – que eu mesmo faço de forma incansável – não me impede de ver que a derrocada do imperialismo é um processo MUITO MAIS IMPORTANTE do que a simples proteção do estudo das meninas afegãs, ou do uso de burcas, até porque uma menina ter a oportunidade (ou a garantia) de frequentar a escola depois de ver seus pais mortos pelas bombas americanas não vai aumentar sua qualidade de aprendizado.
Defender a revolução talibã não significa aceitar seus pressupostos, mas também digo o mesmo em relação às revoluções anticoloniais da Argélia, do Congo, de Angola, de Moçambique e do Vietnã. Nem mesmo da Índia colonial ou da China sob o tacão britânico. Entretanto, a luta contra o IMPERIALISMO está acima dos valores de grupos específicos, por mais que estes valores me sejam caros.
Não esqueçam do “pinkwashing” que Isr*el usa para criticar a pretensa homofobia dos palestinos, como se isso pudesse justificar a ocupação da Palestina. A comparação com a Arábia Saudita é perfeita. Lamentamos a ascensão dos Talibãs mas sacudimos os ombros para a dominação dos salafitas sobre as mulheres sauditas. Por que nunca ouço lamentos sobre isso????
Não acho justo que ocorra uma comemoração para a volta do Talibã, mas pela queda do Império, e de onde veio sua derrocada é algo menos importante – apesar de ser essencial manter a crítica à forma como os Talibãs encaram o feminino, assim como fiscalizar os acordos assinados que garantem uma postura respeitosa com as mulheres.
Para ponderar sobre as repercussões da iminente retomada de Kabul e a expulsão dos gringos do Afeganistão.
Sim, partidos marxistas comemoram a vitória do povo afegão contra o Imperialismo, depois de vinte anos de lutas e 2 trilhões de dólares gastos no esforço de uma guerra inútil e perdida. Aliás: imaginem apenas o que poderia ter sido feito para a modernização do Afeganistão e seu povo se o dinheiro americano não fosse gasto para matá-los, mas para desenvolvê-los…
Mas, espere aí… teremos de volta os Talibãs? Ora, “eles são machistas, misóginos e bárbaros!!” Como em “The Kite Runner” veremos de novo o menino Amir tendo que fugir do seu país para se proteger dos abutres e pedófilos? Como podemos comemorar esta vitória sabendo que isso significará uma série de retrocessos, em especial para as mulheres?
Bem, minha posição pode ser entendida da seguinte maneira: se os Estados Unidos invadissem o Brasil e Bolsonaro fosse o presidente, a atitude óbvia e natural de um partido marxista revolucionário seria JUNTAR-SE a Bolsonaro no combate ao imperialismo! A questão Bolsonaro – assim como a questão Talibã – deverá ser resolvida internamente e a posteriori, mas a emergência em devolver o país ao seu povo é muito mais importante – e grave. Por certo que qualquer processo revolucionário significa muita dor, mas não há país que possa se desenvolver sendo dominado e escravizado, por “melhores” que sejam seus invasores. A guerra do Afeganistão e o surgimento dos Talibãs – “estudantes“, em pachto – se deu na esteira da entrada dos Estados Unidos na região após a retirada dos soviéticos. Os talibãs são apenas o resultado ruim de uma intervenção catastrófica, mas a expulsão do Império era uma questão de honra para o povo afegão.
O mesmo sentimento eu tive quando da revolução iraniana em 1979 e a queda do Xá Reza Pahlavi – com o surgimento do Aiatolá Khomeini e o fundamentalismo xiita. Da mesma forma, eu sabia que haveria um retorno a valores que se contrapunham a minha visão ocidental, mas ainda achei melhor que assim fosse do que ver a imposição de um estilo de vida ocidental em um país subjugado ao Império. O mesmo com a revolução haitiana ou cubana; é melhor ser livre e poder lidar com suas contradições internas do que manter-se escravo e incapaz de se afirmar como nação.
Ou ainda existe quem justifique as aventuras imperialistas que, a pretexto de levar “democracia” (leia-se expropriação dos recursos) e “modernidade” para países em crise, acabem por espalhar uma visão homogeneizante de sociedade baseada nos valores ocidentais? Continuamos achando justo espalhar a varíola do capitalismo e da “democracia liberal” em troca de oferecer camisa do Vasco para os índios e sutiãs para suas esposas? Bíblia para todos? Saias curtas para as moçoilas do Irã?
Além disso, o Brasil não tem nenhuma condição moral para apontar dedos em direção ao Afeganistão. Se existem problemas sérios em relação aos direitos das mulheres, não somos nós os mais adequados para acusá-los. Existem mais mulheres na política afegã do que no Brasil, e isso deveria nos fazer pensar o que os nossos “talibãs tupiniquins” – fanáticos fundamentalistas – estão fazendo com os direitos das mulheres por aqui. Comecemos esta batalha por aqui mesmo…