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Evolução espiritual

“O objetivo do espiritismo é a reforma intima e a evolução dos espíritos?“

Não é como vejo. O objetivo do espiritismo é exatamente comprovar a sobrevivência do princípio espiritual, a reencarnação e a lei de causa e efeito. A transformação moral do sujeito – se é que seja possível – é apenas uma consequência do tempo alargado, das múltiplas vivências, da multiplicidade das experiências terrenas e da convivência com o outro. O espiritismo não é (ou não deveria ser) uma doutrina moralista, que estimula as pessoas a fazer o “bem” e o “amor ao próximo”. Nada disso; o espiritismo é uma perspectiva de mundo e de universo que engloba as realidades do espírito; nada mais do que isso. É a compreensão do mundo a partir da imortalidade da alma, mas não tem como objetivo mudar o sujeito, transformar a sociedade, da mesma forma que Newton não criou a lei de gravitação para amarmos ao criador e sermos a ele obedientes. O espiritismo fala de leis naturais, não “leis de Deus”.

Essa transformação só pode ocorrer pela materialidade da vida, pelos choques, pelo contraditório e pela dor. O espiritismo, enquanto se aproxima da carolice religiosa cristã, se afasta de sua essência científica, filosófica e renovadora. Esse espiritismo católico que temos nas Casas Espíritas é apenas uma seita espiritualista que contém os mesmos vícios moralizantes e alienantes de todas as religiões tradicionais. Não é à toa que os espíritas em grande número aderiram ao conservadorismo e ao radicalismo fascista embrionário. Figuras como Divaldo aderiram aos crimes da LavaJato assim como Chico apoiou a ditadura militar, porque seu espiritismo é conservador. O espiritismo, se realmente tiver algo a dizer, será muito diferente do discurso religioso que temos no Brasil contemporâneo.

“Seriam as manifestações espirituais – leia-se mediunidade – casos de esquizofrenia, dissimulação ou falsidade ideológoca?”

Não creio ser essa uma perspectiva justa. Acredito na possibilidade de auto engano, sugestão, wishful thinking ou desejo mascarado de informação. “Safadeza” pode existir, mas jamais explicaria o fenômeno. Existe em pessoas como enganadores profissionais, prestidigitadores, mágicos, etc., mas não em número considerável para ser a razão principal. Psicose e esquizofrenia seriam explicação para um número limitado de casos, mesmo sendo importante levar essa possibilidade sempre em consideração.

A mediunidade pode ser um fenômeno muito interessante a ser estudado. Se aceitamos a possibilidade de manutenção de um princípio espiritual, poderia haver influência entre os planos? Seria possível estabelecer uma linha que parte da mera influência sutil e chega às manifestações mais explícitas? Negar estes fenômenos e tratá-los como falhas morais – tipo safadeza, bandidagem, engodo, dissimulação – não me parece a forma mais adequada de encarar relatos de fatos tão antigos quanto a própria história. Eu prefiro ter a mente aberta para a possibilidade de tais fatos serem verdadeiros e que descortinam uma realidade ainda desconhecida.

Pelo espírito Odracir

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Deus

Muitas vezes vejo pessoas falando dos ateus, seja elogiando ou criticando, mas percebo que em verdade estão se referindo aos agnósticos. Existem diferenças, ao meu ver, nas posições defendidas por ambos. O ateu (a-não, teo-Deus), via de regra, crê fervorosamente na não-existência de um criador. Acredita que o universo foi criado pelo processo expansivo brutal e violento do Big Bang, sem a interferência de uma entidade qualquer, uma “sabedoria suprema, causa primária de todas as coisas”. Já o agnóstico simplesmente não vê provas suficientes e definitivas para acreditar na existência de Deus, mas também não desacredita nela e nem a refuta peremptoriamente; ele apenas não consegue fazer qualquer afirmação sobre o tema, pela ausência de provas que atestem a existência de qualquer divindade.

A forma como imagino esse dilema é através desta simples analogia: é como postar-se diante de uma porta fechada. Diante do fato concreto – a existência de uma porta – cabe a pergunta: há alguém do outro lado? O crente diz que sim, pois se uma porta foi construída, e antes planejada, é porque ela serve de passagem e, por inferência, se há passagem alguém deve estar do outro lado. O ateu, por sua vez, afirma que não. Coloca o ouvido na porta, dá várias batidas, chama por socorro. Ninguém atende, nada se manifesta e ele conclui que não há ninguém do lado de lá. Já o agnóstico olha a porta e tenta abri-la. Não consegue, por mais que se esforce. Conversa com ambos, o ateu e o crente, e finalmente reconhece que é impossível ter qualquer certeza sobre se há alguém do outro lado – ou se nada existe para além do que nossos sentidos percebem.

Na falta de qualquer evidência conclusiva sobre a existência de uma causa primária e imaterial do universo, o agnóstico (a-não, gnosis-conhecimento) declarara-se incapaz de um veredito; a existência ou não de Deus está fora da sua capacidade de compreensão. Creio que essa definição pode ser parecida com aquela que muitos carregam consigo.

Para além disso, creio que a crença ou não em Deus – ou em um sentido último do universo, que para mim significa o mesmo – não ocorre pela via racional, mas afetiva. Da mesma forma como se dá a orientação sexual, ela não se constitui em uma opção racional, e não existe uma verdadeira escolha pela crença ou pela descrença em um Criador. Acreditar em Deus é um sentimento sustentado por alicerces profundamente assentados no inconsciente e, por esta razão, não será derrubado facilmente por uma abordagem racional. A irracionalidade dessas ideias é, em verdade, sua força mais poderosa, pois as afasta de uma derrocada pelas abordagens da lógica e da razão. Séculos de ciência explicando as origens naturais dos fenômenos que outrora acreditávamos divinos e isso não abalou em nada a crença em uma “faísca primitiva”, a força inicial, o motor primeiro para a criação do universo e das leis que o regem, apenas mudou a forma como conceituamos nosso Deus.

Para maiores informações sobre ateísmo e religião recomendo conhecer mais os “new atheists”. Comecem por Sam Harris, Christopher Hitchens e Richard Dawkins, para entender porque eles criaram uma seita niilista e islamofóbica. Aqui e aqui estão duas palestras fundamentais do jornalista Chris Hedges.

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Espiritismo é Religião?

O espiritismo enquanto sistema de crenças institucionalizado foi criado por um homem, Allan Kardec (ou o pedagogo Hippolyte Leon), baseado em manifestações de espíritos acerca de fenômenos muito comuns na França do século XIX. Não é uma “revelação”, porque este tipo de modelo só pode produzir doutrinas dogmáticas, e também não é uma doutrina ditada por espíritos. Ela foi criada por Kardec, que lhe ofereceu todas as virtudes e todas os seus defeitos. Como principal virtude a ideia de que não é uma religião, não se comporta como seita, não aceita personalismo, não tem caráter sectário e está vinculada à ciência, de maneira que pode ser modificada indefinidamente caso seja comprovado um erro em seus pressupostos.

Como principal defeito o evidente eurocentrismo, a ideia construída de Cristo como espírito guia da humanidade, desprezando outros personagens religiosos de igual relevância e importância histórica. Faltou ao espiritismo nascente este caráter de universalidade. A ideia de uma doutrina de consequências morais também me parece bastante equivocada, pois que a moral se molda e se transmuta com o tempo. Ver espíritas adotando a moral conservadora cristã e as perspectivas políticas mais alienantes são os resultados óbvios dessa escolha. O espiritismo deveria se ocupar da pesquisa científica e filosófica da sobrevivência da alma, a manutenção do princípio espiritual e a reencarnação como processos depurativos do sujeito, e muito menos com os costumes e a moral vigente, elementos que apenas atrasam sua circulação no ambiente acadêmico.

Não se trata de “conhecer”, mas de interpretar os fatos. Não acredito que o espiritismo seja uma doutrina “ditada” por espíritos, mas criada por Kardec a partir de mensagens esparsas e sem a devida conexão recebidas por médiuns de sua época. Kardec sempre foi a figura central e unificadora do processo, pois é dele a sistematização, a divisão dos temas, a escolha das perguntas e a formatação final. Desta forma, o Livro dos Espíritos é tão humano e tão centrado na figura do seu criador quanto a teoria evolucionista de Darwin. A ideia de que ele seria apenas o “codificador” (seja lá o que isso quer dizer) não me parece justa. Os méritos são de Kardec, assim como os terríveis defeitos encontrados nas obras, causados pelo contexto em que foram escritos aqui na Terra.

E quanto a “espírito perfeito” essa é outra tolice. Jesus é uma criação humana, criado e moldado pelas nossas necessidades e interesses geopolíticos. O Jesus real foi basicamente um judeu reformista, cujo principal interesse era reformular a religião judaica. Nunca conversou com alguém que não fosse judeu e sempre se dirigiu apenas ao seu povo. Era basicamente um autoproclamado “messias” – assim como outros 400 daquela época – alguém destinado a livrar os judeus do jugo Romano. Tinha portanto uma missão política, aliás, para criar um “reino deste mundo”. Falhou em seu intento, e por esta singela razão jamais foi reconhecido como “ungido” por seus iguais. Entretanto, sua mensagem aos humildes e pobres cativou a periferia do Império Romano, graças ao apóstolo dos gentios (não judeus), Paulo de Tarso, que a levou a “gregos e baianos”.

Por outro lado, essa é apenas a história criada sobre um personagem mitológico ocidental, que ganhou sucesso graças a uma decisão de gabinete de Constantino. Que dizer dos outros líderes espirituais, como Buda, Lao Tsé, Zoroastro, Confúcio etc. Por que seriam eles “inferiores” ao “sujeito perfeito” nascido no fim do mundo, num lugar miserável e desimportante do Império Romano chamado Palestina e cuja mensagem não trazia nenhuma grande verdade oculta (a não ser parte das bem-aventuranças)? Ora… 200 anos depois de Kardec e continuamos com o mesmo eurocentrismo cafona, achando que nosso Jesus branco é um “ser de luz” com faroletes mais luminosos que do que aqueles dos seus concorrentes. Por que haveria de ser? E por que deveria o espiritismo, em sua proposta universalista, escolher o líder ocidental como paradigma de perfeição? Não faz nenhum sentido, e o espiritismo deveria abandonar essa perspectiva racista e sectária para se tornar a verdadeira voz de unificação de uma proposta espiritualista.

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Cristãos

Vou repetir o que já venho dizendo há muitos anos: não tenho mais paciência com o cristianismo. Chega!!! Não aguento mais esses pilantras de fala mansa que roubam dízimo de pobre. Não aguento o conformismo cristão que permite uma sociedade injusta sem se revoltar. Não aguento evangélicos defendendo a podridão de Israel e justificando um genocídio acreditando que Deus “deu a terra” para aqueles – por ele mesmo – escolhidos. Não aguento gente das igrejas falando em “povo de Deus”. Não suporto mais milícias bolsonaristas sendo formadas em igrejas evangélicas. É inaceitável a quantidade gigantesca de pastores abusadores sendo encobertos pela imprensa – afinal, não se deve atacar os “ungidos”.

O Brasil se tornou um evangelistão porque, em nome do “respeito à diversidade de crenças”, passamos a passar pano para a barbárie dos religiosos. Até o espiritismo, que conheço muito bem, me incomoda muito hoje em dia, em especial quando a franja mais reacionária dos espíritas fala de “Jesus governador da Terra”. Ora, por que o governador do planeta deveria ser uma personalidade exaltada pelo ocidente, apesar de ser do oriente médio? Esta ideia disseminada por alguns espíritas nada mais é do que desprezo pelo mundo oriental e islâmico, trazendo o centro do mundo para a Europa e sua religião branca. O espiritismo, assim como todas as religiões cristãs, está tomado por bolsonaristas, reacionários, fascistas e hipócritas.

Sei que esses defeitos morais também existem entre os ateus, mas não vejo dirigentes do ateísmo enriquecendo com a exploração da gente pobre do Brasil. Os agnósticos e os descrentes ficam na sua, curtindo seu positivismo existencialista, normalmente sem incomodar ninguém e sem tentar regular a bunda alheia. Enquanto isso, esses Everaldos, Edires, Malafaias e toda essa corja nojenta ligada à Israel e ao neopentecostalismo se comportam como a linha de frente do atraso do Brasil. São a locomotiva do preconceito, gente asquerosa e desonesta, arrogante e hipócrita.

Portanto, é exatamente isso mesmo que eu quero dizer: as religiões cristãs institucionalizadas em suas infinitas seitas e credos precisam sofrer o golpe de um novo iluminismo, uma nova revolução pela razão, para que possamos sair do buraco obscurantista onde nos encontramos. E todos aqueles que acreditam que a religião, enquanto questionamento do sentido da vida e do universo, ainda tem razão de existir no mundo da infotecnocracia atual, deveriam lutar contra essa carolice moralista e reacionária que se tornou o cristianismo.

E tenho dito. Chega de amor!!!

Aliás, creio que Jesus estaria comigo nessa luta. Afinal, ele também expulsou os vendilhões do templo, não?

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Saramago

Saramago está bastante errado nesta questão; uma humanidade cheia de ateus não faria diferença alguma na origem dos conflitos. Nenhuma guerra até hoje na história da humanidade ocorreu por diferenças religiosas, mesmo que muitos enxerguem disputas entre crenças naqueles que estão em conflito. Na verdade trata-se apenas uma tática diversionista para que não vejamos os interesses econômicos por trás das guerras e para convencer uma enorme massa de manobra para morrer pelos interesses financeiros de alguns. As Cruzadas foram assim. A guerra nacionalista na Irlanda, pela independência do país, foi por muito tempo chamada de guerra entre “Católicos x Protestantes”, apenas porque os irlandeses são majoritariamente católicos, e os colonizadores/invasores ingleses são protestantes. Todavia, esta foi uma guerra de independência de um país contra os colonizadores britânicos, e a religião um detalhe desimportante na origem do enfrentamento.

O mesmo ocorre agora entre “judeus x muçulmanos” na Palestina, onde uma questão de colonialismo é confundida – de forma oportunista – como sendo uma disputa religiosa. Jamais houve discordância entre estas religiões abrahâmicas a ponto de haver conflito. Fôssemos todos ateus, o que é até um pouco absurdo de pensar, se levarmos em consideração a inquietude da alma humana, e não haveria nenhuma diferença nas disputas por terra, por dominação, por influência, por recursos naturais e pelas rotas comerciais, que foram o que sempre colocou humanos em luta em toda a história da humanidade. Sou fã do Saramago – grande comuna!! – mas sua percepção da influência das religiões está equivocada.

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Fé

Para um observador mais atento, é curioso o quanto os líderes evangélicos lutam contra os cassinos e os jogos de azar. Muitos deles se envolvem em verdadeiras cruzadas contra o “jogo”, e até se opõem à necessária regularização das casas de apostas virtuais – para que, pelo menos, paguem impostos. Mas até a taxação de impostos para essa atividade parece a eles um sacrilégio. Não que eu veja qualquer virtude em apostas e jogos de azar; pelo contrário, até em “1984” o anticomunista liberal do Orwell já mostrava o quanto a jogatina disseminada era um fator essencial para estabelecer uma sociedade alienada e controlada. Os cassinos e, em especial, a nova moda das “bets“, mas também os joguinhos de internet, são elementos chaves no entendimento da decadência acelerada do capitalismo, levando milhões de pessoas a este comportamento infantil baseado no pensamento mágico. Mais do que isso: as casas virtuais de aposta estão poluindo o mundo do esporte, em especial o futebol. Quem poderia estabelecer uma crítica severa e necessária quando os comentaristas de futebol foram todos comprados pelas casas de apostas, fazendo dessa publicidade a sua principal fonte de renda? Estes parecem os congressistas americanos aplaudindo Netanyahu, que os paga e sustenta, impossibilitados de estabelecer qualquer crítica.

Eu me arrisco em outra perspectiva: No meu entender, a luta contra os jogos de azar pelos líderes de igrejas ocorre porque a jogatina é a pior concorrência ao negócio lucrativo das igrejas evangélicas e afins. Ambas as modalidades se baseiam na crença de um um ente sobrenatural a guiar nossa vida. O jogador contumaz acredita na “Sorte”, uma força etérea que determina quem ganha e quem perde, seja nos dados ou até no futebol. Para ser bafejado por ela é preciso crer nas suas escolhas, por isso precisamos estar preparados para quando ela se aproxima de nós. Já o crente acredita numa força superior, igualmente etérea e invisível, que o conduz pelo caminho da redenção; igualmente é necessário estar sempre atentos às suas mensagens sutis. Tanto para o crente quanto para o jogador existe um preço: o bilhete, as fichas, a loteria, a rodada de pôquer ou bacará de um lado; o dízimo de outro. “Se você pede a Deus para ganhar na loteria pelo menos compre o bilhete”, diz o velho adágio popular. “Faça sua parte, Deus não pode fazer tudo sozinho”, e a parte daquele que crê nas forças invisíveis é paga no jogo e na Igreja.

A jogatina é um sinal inequívoco da falência do projeto capitalista, pois relega à sorte o sonho dos pobres por uma vida digna e segura. Não há outro caminho que não seja o palpite certeiro na vitória do time, a face luminosa dos dados no feltro verde ou encontro fortuito dos números numa roleta controlada pela deusa Álea, a divindade dos fatos aleatórios. Já nas igrejas, é preciso pagar regiamente o intermediário de Deus para que sua vida receba a dádiva da Graça, a simpatia do criador por um de seus servos, a preferência que ele dará a quem realizar seus caprichos – por mais ridículos que eles sejam.

Combater a jogatina garante aos exploradores das religiões uma enorme e sedutora reserva de mercado às igrejas, e os Malafaias, Edires e Valdomiros que poluem nosso cotidiano sabem muito bem disso. As loterias e jogos de azar devem mesmo ser combatidos, mas com a mesma intensidade que combatemos os mercadores da fé que apostam na ignorância e na alienação para encher os bolsos com o dinheiro de gente pobre e desesperada.

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Os Espíritas e a Palestina

É impressionante (mas não deveria surpreender) o número de espíritas evangélicos (os chamados “espíritas cristãos”) que apoiam de forma explícita as ações de Israel em Gaza. Inobstante as imagens dos massacres, as 16 mil crianças mortas, o ataque desproporcional, a clara intenção de limpeza étnica e a ação genocidária de Israel eles se mantém fiéis à luta contra o “terrorismo” e ao direito sagrado do “povo escolhido” de ter a posse daquela terra. Usam a bandeira deste país em suas mídias sociais como emblema de sua fidelidade à “terra de Jesus”. Outros ainda defendem a morte dos palestinos dizendo tratar-se de um “karma coletivo“.

Esse é um tema interessante, e quem transitou pelo espiritismo já se deparou com esse conceito. Ele basicamente estabelece que certos grupos sofrem punição coletiva por erros e atrocidades cometidas no passado. Assim, os aviadores nazistas teriam se reunido num voo que incendiou e caiu no oceano – mas nenhuma menção aos americanos que chacinaram 1/3 dos habitantes da Coreia do Norte na guerra de libertação daquele país. Claro, as punições “divinas” dependem do nosso julgamento. A mesma sentença foi aplicada aos soldados dos exércitos de Napoleão, Gengis Khan, etc, que pelos seus crimes foram punidos pela lei do Karma. Sim, na mente de muitos espíritas habita o velho Deus malévolo, vingativo e cruel dos hebreus. Por certo que não são todos os espíritas que assim pensam, mas uma parte considerável, em especial os grupos ligados à “religião espírita” e os mais conservadores.

No atual episódio, os palestinos teriam cometido atrocidades no passado, as quais seriam a causa do sofrimento atual. Assim, os sionistas nada mais são do que “instrumentos divinos” para aplicar a punição necessária a quem cometeu delitos graves no passado. Ahh, e que fique claro que o holocausto sofrido na segunda guerra mundial contra a comunidade judaica da Europa também teria sido guiado pelas mesmas normas jurídicas punitivas celestiais. Crime e castigo.

Pois agora vejo os espíritas, que como eu estudaram na escola dominical estes personagens bíblicos, defendendo o direito sagrado dos judeus sobre a Palestina, tratando a população nativa – que habita a região há mais de 2 milênios – como invasores ilegais. Não sabem eles dos horrores que são cometidos em nome dessa ideologia abertamente racista e explicitamente fascista contra gerações de palestinos. Estes espíritas não têm noção do desprezo que os sionistas nutrem por eles e por todos os ditos cristãos, a quem consideram inferiores e subalternos. É tempo de acordar para a realidade perversa, racista, cruel e destrutiva do sionismo. Existem muitas provas da ideologia francamente racista que domina a mentalidade de Israel. Pensem, com sinceridade, se o mundo pode conviver com tamanha perversidade.

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Evangelho

Quando pequeno tive aulas de “evangelização” na sociedade espírita que meu pai era presidente. Até hoje tenho sentimentos conflitantes sobre essa experiência. Discuti o assunto com vários amigos da época, e ainda acredito que, caso tivesse frequentado uma escola de artes, ou um clube literário, (quem sabe uma banda de rock?), estas escolhas teriam sido mais proveitosas, e me deixariam mais preparado para a vida. Para muitos, as aulas “dominicais”, são uma forma de ensinar perdão, amor, caridade, fraternidade, etc. Há quem discorde, acreditando que ensinar religião para crianças e encher suas cabeças com conceitos religiosos – acreditando que isso pode “moldar seu caráter” para que se tornem “cidadãos de bem” – é uma ideia absurda e que não encontra qualquer comprovação nos fatos. Seja qual for a verdade, compreendo quem acredita que a infância deve ser livre deste tipo de ensinamento, em especial os que são oferecidos às crianças do ocidente, como as mitologias judaico-cristãs.

Eu lembro vagamente dessas aulas, mas não de uma forma positiva, apesar de que minhas memórias sobre elas também não são negativas (afinal, conheci minha futura esposa nesses encontros). Todavia, acredito que minha cabeça seria mais livre de preconceitos se não tivesse escutado tantas histórias de Jesus e seus apóstolos, as quais acabaram trazendo toda uma exaltação da Palestina como um lugar “mítico” e “sagrado”. Ora, na perspectiva do Império Romano, naquela época a Palestina tinha tanta importância geopolítica quanto tem hoje a pequenina Gravatá em Pernambuco para o Imperialismo americano. Ou seja, absolutamente insignificante. Entretanto, foi Paulo de Tarso (o apóstolo dos gentios) e uma série inimaginável de intrincadas coincidências históricas o que fez o cristianismo ter relevância – muito mais do que a profundidade dos ensinamentos de Cristo, que podem ser achados numa infinidade de outras religiões e seitas até bem anteriores ao próprio cristianismo. “Ahh, mas o sermão do monte, as bem-aventuranças”. Sim, não há como negar o significado desta parte do Evangelho; este sermão é o coração do cristianismo e o seu grande diferencial, pois nele ficou clara a opção pelos pobres, e foi essa conexão com as classes miseráveis que lhe ofereceu imensa popularidade.

Por outro lado, por causa dessas aulas precoces de cristianismo, acabamos fixados nessa cosmovisão judaico-cristã – que pode ser sectária e até obliterante. A pior de todas as heranças é a tese do “povo escolhido” ainda usada pelos sionistas, como se aquele povo tivesse alguma qualidade especial aos olhos de Deus, mais do que os asiáticos, africanos ou os habitantes do novo mundo. Como se Deus tivesse encontrado, entre todos os grupos humanos, a sua gente “preferida”. Pergunto: que Deus é esse que se comporta como um pai irresponsável, que se dedica mais a um filho do que aos outros?

O espiritismo, por sua vez, importou esta ideia supremacista ao criar a fantasia do Brasil como “Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, uma ideação arrogante e ufanista que não se assenta sobre nenhuma evidência na história, a não ser o fato de termos a maior população católica do mundo. Bem sabemos o quanto essa “religiosidade” não nos garante nenhuma qualidade especial na defesa dos direitos humanos, das crianças, das mulheres, da população LGBT, da natureza ou na distribuição de renda. Na infância muitas crianças espíritas são alimentadas com estas visões equivocadas e arrogantes sobre o Brasil, trazendo a fantasia de que somos um país “especial”, quando em verdade somos apenas mais uma nação que tenta sobreviver ao capitalismo brutal e decadente.

Hoje vejo entre os cristãos brasileiros uma adesão muito forte ao discurso de Israel na sua guerra covarde contra os palestinos, e acredito que muito disso está na visão positiva que têm da região. “Ahh, Jerusalém, o Monte das Oliveiras, o Gólgota, o lago Tiberíades, Belém, Nazaré, o lago de Genesaré, o mar da Galileia, o rio Jordão”…. são lugares que eu lembro de cabeça somente pelas histórias que li e ouvi durante os anos da infância, mas isso não deveria produzir nossa cegueira diante da perversidade genocida daqueles que controlam a ferro e fogo a região.

Minha experiência mais contundente aconteceu quando fui à China pela primeira vez e perguntei à uma plateia de quase 100 profissionais da saúde se tinham ouvido falar de “Freud”. Apenas duas pessoas o conheciam, mas nada sabiam de sua obra. Ou seja: a cultura de lá jamais necessitou de Freud para construção de uma sociedade vigorosa. Da mesma forma, conheci lá centenas de maravilhosas pessoas que jamais tiveram qualquer contato com o cristianismo ou com as histórias e parábolas de Cristo, o que parecia não lhes fazer falta alguma. Naquela oportunidade cheguei à conclusão que nossa visão eurocêntrica, ocidental e cristã nos dificulta enxergar outras realidades no pensamento humano. Por isso, oferecer aos pequenos uma perspectiva humanista e não sectária deveria ser uma alternativa muito mais frequente entre nós. Sem gurus, sem salvadores, sem messias, sem livros sagrados, sem povos escolhidos, sem verdades pétreas, sem diferenças essenciais entre os povos e abraçando a diversidade da forma mais intensa e possível, desde a mais tenra idade.

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E aí, espíritas?

Prefiro não exagerar nos adjetivos, mas creio que os espíritas do Brasil deveriam se preocupar com as diretrizes políticas que o movimento tem tomado, em especial após as declarações de alguns de seus expoentes. Acho difícil encontrar uma palavra branda para definir médiuns que, usando de sua influência no universo espírita, promoveram delinquentes como Moro, chamando-o de “Espírito de luz”. Essa afirmação, vindo de onde veio, nos coloca diante de um claro dilema: uma possibilidade seria que o referido médium emitiu sua opinião política pessoal a um público espírita para emprestar seu prestígio a um grupo criminoso de juízes e promotores da Lava Jato, o que por si só seria uma usurpação de suas funções como divulgador do espiritismo e um erro histórico. Lembrem que Deltan e Moro, os líderes dessa facção, estão sendo processados pelos crimes cometidos.

A segunda possibilidade é de que sua manifestação foi inspirada pelos espíritos “de luz” que o acompanham, mas isso coloca a clarividência desse grupo de “espíritos assessores” em cheque. Agora que sabemos todas as ligações da turma da Lava Jato com interesses imperialistas – o DOJ e a própria CIA – é provável então que estes “conselheiros” sejam apenas palpiteiros do plano espiritual, imbuídos do mesmo caráter reacionário, punitivista e individualista de tantos iguais a eles que habitam o plano terreno. Ou seja: para que serviriam as mensagens mediúnicas se os espíritos que as manifestam têm os mesmos vícios e a mesma carência de consciência de classe que os encarnados? Qual a sua utilidade se sucumbem ao mesmo punitivismo que desreconhece a dinâmica social na gênese da iniquidade e da injustiça?

Assim sendo, prefiro ficar com as manifestações das personalidades vivas, pois que estas, no mínimo, são obrigadas a suportar o contraditório, podem ser pressionadas a comprovar suas teses e mostrar suas fontes. Mais ainda, deveríamos derrubar essa aura falsa de infalibilidade que surge quando a opinião vem de “espíritos superiores”, o que nos faria testemunhar a debacle de suas teses quando as evidências despontam no horizonte. Onde estão os espíritos que exaltavam a “coragem” do “conje” e sua postura magnânima e viril na luta pela justiça? Provavelmente estão encolhidos com vergonha de se manifestar.

É curioso como os espíritas de direita criticam o apoio da esquerda à Cuba e a ligação com nosso maior parceiro comercial, a China, mas nada falam das visitas dos governos anteriores às ditaduras declaradas da Arábia Saudita ou de Israel, que comanda um sistema racista de Apartheid na Palestina. Onde está o “fora da caridade não há salvação” quando dão suporte a países racistas? Afinal… os espíritas também vão embarcar nesse apoio à Israel? Vamos fechar os olhos para os massacres que se iniciaram há 75 anos? Vamos nos associar na sustentação desses crimes através do “sionismo evangélico”?

O movimento espírita, que deveria estar à frente das manifestações pela paz, deveria se manifestar em nome das crianças palestinas que estão morrendo em nome da ganância imperialista.

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Bye bye, Jesus

Em 1983 ocorreram os primeiros casos de AIDs no planeta. Havia um clima de terror biológico no mundo semelhante ao que ocorreu com a Covid há poucos meses. A tese que percorria o imaginário dos médicos e da população é de que a “peste gay” – ou seja, uma doença causada pela “opção” sexual desviante – extrapolaria as barreiras do mundo homossexual, passaria para os bissexuais e daí para todo o mundo heterossexual. Não esqueço de um episódio em que uma palestra foi dada por um dermatologista da cidade (os dermatologistas eram os mais próximos do estudo da síndrome por causa das manifestações de pele, como o sarcoma de Kaposi) onde o clima era um misto de curiosidade e pânico por parte dos estudantes de medicina. A palestra foi técnica, para mostrar o pouco que já se sabia a respeito da doença. Entretanto, havia um outro sentimento no ar: a ideia de que esta doença era causada por questões morais, falhas graves cometidas por humanos desviados das leis divinas.

No ano seguinte ocorreu um seminário sobre “sexualidade” patrocinado por uma entidade espírita da capital. Como eu havia participado da “juventude espírita”- em quase nada diferente de qualquer grupo de jovens que frequentam igrejas – e estava no penúltimo ano do curso de medicina, fui convidado a fazer uma palestra sobre “AIDs e a questão espiritual”.

Não lembro exatamente qual foi o teor da minha palestra, mas por certo que nela havia uma forte tendência a colocar muito mais peso nas questões ambientais, sociais, culturais e psíquicas do fenômeno do que no mero estudo de um vírus – cuja letalidade já era fortemente questionada por virologistas famosos, como Peter Duesberg. Eu acreditava que a destruição do sistema imunológico era produto de um estilo de vida que por si só era destrutivo, e o papel dos microrganismos não era o único responsável pela manifestação da enfermidade. De qualquer maneira, deixei claro que as mortes eram reais e os cuidados deveriam ser mandatórios, para que houvesse uma diminuição nos casos. AIDs tirava a vida de muitos jovens, era um assunto sério, mas evidentemente que havia se tornado uma questão relevante porque as vítimas eram jovens, brancos, de classe média e do ocidente, ao contrário do que ocorria com a tuberculose, que matava dez vezes mais, mas acontecia com populações de pele mais escura, pobres e miseráveis do terceiro mundo.

Sim, as pessoas não estavam preparadas para minha análise dos fatores sociais relacionados ao surgimento de doenças, e muito menos estavam interessadas em ouvir minhas críticas e questionamentos sobre a tecnocracia médica. Eles queriam saber da “vacina” (que jamais chegou, mesmo depois de 40 anos) e, mais do que isso, quais os significados morais dessa doença. Era mesmo um “castigo divino” diante da “libertinagem desvairada” do mundo contemporâneo”?

Pois eu frustrei a plateia (algo que me especializei em fazer) ao me negar a explorar esta perspectiva, e tudo o que eu fiz foi tentar des-moralizar os quadros de imunossupressão adquirida, tirando deles a imagem de “doença do pecado”. Tentei até mostrar que existem vários fatores produzem esse tipo de quadro, mas que havia um número crescente de casos associados com a aparição de um retrovírus específico, o HTLVIII. Minha breve explanação foi sobre a história dessa doença, seu surgimento entre jovens americanos gays, o mito do “paciente zero”, as repercussões, o teste criado por Robert Gallo, a descoberta por Luc Montaigner, etc. Percebi que os espíritas presentes não gostaram das minhas palavras. Caretas, bocas torcidas e cabeças balançando negativamente apareceram à minha frente.

Na parte das perguntas, logo após minha fala, uma jovem me questionou: “Será essa doença um aviso da espiritualidade contra práticas condenáveis”? Ato contínuo, outro senhor me perguntou “O que fazer com uma laranja podre que compromete um cesto inteiro”. Ficou claro que havia uma tentativa de tornar essa síndrome uma doença da alma, torná-la uma chaga moral, produzida por erros do comportamento. Havia a visão de que os gays (mais do que o vírus) eram o problema a ser combatido.

Havia várias pessoas na plateia que eu sabia serem homossexuais. Até hoje me pergunto como se sentiram quando as pessoas ao seu lado questionavam a “moralidade” dos gays”. Como se sentiram ao ouvir que eram maléficos, “um mau exemplo” e que eles poderiam ser os responsáveis por uma doença que tinha a potencialidade de “exterminar a humanidade”? Depois da minha palestra um médico de Goiás veio falar de “homossexualidade e espiritismo”, e sua fala apontava para que a única atitude correta dos homossexuais seria a supressão dos seus desejos e a vida em castidade. “Se religiosos de várias seitas conseguem dominar seus impulsos para se purificar, por que os gays não poderiam fazer o mesmo?”, perguntou ele, com a característica empáfia dos clérigos. Foi aplaudido de pé.

Há 40 anos abandonei as religiões. Percebi que o discurso das religiões não servia para mim. Continuei me dizendo “espírita laico” porque ainda tenho crenças relacionadas ao espiritismo, mas não me sinto bem escutando qualquer palestrante espírita. Quando escuto uma palestra em questão de minutos começa a torrente de moralismo, falas prescritivas, regras de comportamento, idealização de personagens (Chico, Divaldo, Kardec, Jesus, etc) e um ranço cristão culposo insuportável. Desculpe, apenas não é para mim e não consigo achar qualquer validade em tais manifestações.

Abandonei o espiritismo religioso há 40 anos, mas hoje abandono o cristianismo. Chega de Jesus. Sua existência real talvez seja até verdadeira, mas seus seguidores deturparam de tal maneira a mensagem cristã que, se o próprio Cristo viesse à terra, não se reconheceria em nenhuma igreja – até porque, sendo preto, jamais se veria naquele germânico de olhos azuis que aparece nos templos. Mais do que isso, a retórica dos líderes cristãos agora apoia os massacres em Gaza, mostrando a face mais preconceituosa, racista e cruel desses “pastores”, os mesmos que aceitam como “desígnios divinos” as mortes por atacado de crianças nos territórios palestinos. Isso tudo porque estão conectados financeiramente com o Estado Sionista, que os promove e financia em suas excursões para a Terra Santa. São empregados muito bem pagos do terrorismo de Estado de Israel, que controla de forma genocida o colonialismo no Oriente Médio.

Deixo aqui qualquer conexão com o mundo cristão. Não reconheço Cristo como “meu salvador”, e sequer acredito que o cristianismo tem ainda uma mensagem a oferecer ao mundo. Se as ideias de Cristo fazem isso com os cristãos que levam as bombas para Israel, o que podemos esperar de sua mensagem? Uma religião cujos seguidores matam despudoradamente crianças em nome da dominação e do poder não pode ser algo aceitável para a minha vida.

Adeus Jesus, até não mais…

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