Filmagens

Sobre permitir filmagens de hospital somente mediante autorização. Para debater…

Sim, mas já pensou quem dá autorização para que o hospital seja filmado e fiscalizado? O delegado? O diretor do hospital? O diretor da maternidade? E dará em que circunstâncias?

Eu acredito que o melhor para o serviço público é ser absolutamente transparente. Como nos Estados Unidos (nas poucas coisas que eu concordo com as leis de lá): pode filmar tudo que seus olhos puderem enxergar em espaços PÚBLICOS. Não há expectativa de privacidade quando se está na rua ou em lugar de livre acesso. Qualquer cidadão com um celular na mão tem prerrogativas de “imprensa” e pode controlar e registrar o que é feito com o seu dinheiro aplicado nos impostos. Cada cidadão se torna um FISCAL do uso do dinheiro público.

Isto é: Pode filmar a polícia, os hospitais, a prefeitura, o trabalho dos funcionários públicos, desde que (e aqui o ponto FUNDAMENTAL) esteja em um local aberto ao público. Assim, você não pode invadir a sala de parto ou a sala cirúrgica de um hospital, mesmo que sejam hospitais PÚBLICOS. Não pode invadir a sala de interrogatório de uma delegacia de polícia ou a sala do prefeito, pois são espaços (de acesso) RESTRITOS, usados apenas por quem lá trabalha.

Uma medida como essa parece ser de proteção aos profissionais da saúde que são ameaçados por familiares pacientes – em especial os bolsonaristas hoje em dia. Entretanto, a resposta da sociedade para proteger profissionais e o seu trabalho não pode ser ESCONDER ou impedir que sejam registradas as suas ações que são públicas. Este tipo de “censura” serve muito bem aos governos totalitários que dificultam o acesso às informações do que ocorre dentro de espaços que, em última análise, pertencem a todos nós.

E vejam só…. percebam o que ocorreu com a assistência ao parto quando os centros obstétricos foram lentamente “invadidos”, primeiro pelos pais e acompanhantes nos anos 80, e depois pelas doulas neste século. Quantas transformações ocorreram exatamente porque as ações dentro do centro obstétrico puderam ser vistas, testemunhadas, fiscalizadas e registradas.

Mesmo que muitos profissionais tenham sido prejudicados por esta vigilância o saldo para a população é positivo. Muito mais importante é descrever as alas restritas dos hospitais e permitir que seja registrado o que está acontecendo, porque o segredo e a censura nunca são estratégias positivas em longo prazo.

Sobre o projeto de lei que deseja proibir as filmagens, clique AQUI.

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Fechamento

Sobre o fechamento de setores do Hospital da PUC de Porto Alegre (obstetrícia, neonatologia, pediatria e cirurgia pediátrica) escreve abaixo um médico que lá trabalhou por vários anos. Acredito apenas que seu diagnóstico final está equivocado; não é “neoliberalismo” o nome dessa doença, mas CAPITALISMO. Esse modelo econômico, quando aplicado à saúde é trágico e desumano. Como fica bem claro no texto, partos, nascimentos e crianças “não dão lucro”. Agora o hospital vai centrar suas ações na áreas que dão mais dinheiro e, via de regra, aquelas que produzem menos impacto na saúde da população. Ou alguém ainda vai discutir que um bom nascimento e uma boa infância são os caminhos mais seguros para uma vida saudável?

Ahhh, não sei se é o caso do colega, mas quando lembro do apoio entusiasmado dessa corporação em favor de Aécio, depois os ataques contra Dilma, pela prisão injusta de Lula e finalmente a favor da eleição de Bolsonaro eu fico pensando… o que esperavam depois de tantas escolhas insensatas e umbigocêntricas?

A partir de agora sugiro aos guardas do hospital que, quando forem obrigados a mandar uma grávida ou uma criança doente à procura de outro hospital, que orientem os pacientes para que peçam ajuda à “mão invisível do mercado”. Talvez assim eles mesmos passem a entender que saúde NÃO é negócio. Talvez pela dor possam compreender que assistência à saúde é um direito humano básico, essencial e inalienável, a que todos devem ter direito, não obstante sua condição econômica.

E viva o SUS.


Texto de José Beltrame Cusco

“Hoje é um dia muito triste para mim. Daqui a pouco vou para o Hospital São Lucas da PUC-RS para o que será o meu último plantão na instituição – e dentro de poucos dias serei demitido, juntamente com outros colegas. Trabalho no Centro Obstétrico e este será fechado, extinto, como também os serviços de Pediatria, neonatologia e Cirurgia Pediátrica. A justificativa? É porque estes serviços “não dão lucro para o hospital.” Alguns colegas, professores com muitos anos de casa e um trabalho de qualidade notável já foram demitidos sem a menor consideração, inclusive pegos de surpresa, porque ninguém da direção teve a mínima decência de consultar os profissionais.

No aspecto pessoal, vou perder uns 30% dos meus ganhos, o que causa impacto mas não chega a ser nenhuma tragédia, porque ainda dará pra ter um padrão de vida confortável. Muito pior é para alguns profissionais que trabalham exclusivamente lá. E muito pior é o impacto no sistema de saúde pública da cidade, e para as pacientes do SUS que atendemos sempre com toda a atenção e o cuidado que elas merecem. E para as crianças e seus pais aflitos com as doenças que atingem os pequenos. E agora? Que se virem, que procurem outros hospitais – que vão ficar ainda mais sobrecarregados.

Há prejuízo também para os médicos residentes, que prestaram um concurso difícil para fazer sua especialização no hospital de sua escolha, com qualidade, e que serão realocados para outros hospitais que jamais escolheriam. E prejuízo ao alunos do curso de Medicina da PUC, que não terão onde acompanhar atividades práticas em duas áreas importantíssimas da medicina (pediatria e obstetrícia) e terão que “pipocar” por outras instituições… O curso de Medicina da PUC, com mensalidade caríssima, já foi considerado o melhor curso entre as universidades particulares – e vai deixar de ser. Mas a mensalidade não vai baixar, é óbvio.

Eu fiz minha formação como especialista no Hospital de Clínicas, que felizmente tem outra cultura e outra visão como instituição, mas trabalho no hospital da PUC praticamente desde sempre, desde que acabei minha formação. Eu fico muito triste com isso, mas a indignação é maior que a tristeza. O nome disso?

Neoliberalismo.”

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Ainda cloroquina

Não creio em razões políticas para a manutenção da Cloroquina como opção para a pandemia, mesmo após as repetidas informações sobre sua inefetividade, partindo de organizações de saúde e de governos. Creio que o buraco é outro.

As verdadeiras razões jazem nas profundezas do inconsciente e são derivadas da pressão do “imperativo tecnológico” sobre as ações médicas. Existe uma pressão positiva sobre a ação dos profissionais da Medicina, uma expectativa de “algo a ser feito”. Não se admite que alguém com essa responsabilidade social – como o médico – não aja positivamente, ativamente. Essa é uma lei não escrita que regula a medicina.

Se uma pessoa morre de Covid SEM o uso de Cloroquina a família, os colegas e até a opinião pública (mídia) podem acusar o profissional de negligência, por não usar algo que “muitos outros dizem salvar vidas”. Por outro lado, se o sujeito morre de Covid tendo usado a Cloroquina – mesmo que a morte tenha ocorrido pelos seus efeitos tóxicos (!!!!) – ainda restará ao profissional dizer “fizemos tudo ao nosso alcance”. É raro um médico ser acusado por ter FEITO algo, e o comum é o acusarem por NÃO ter feito o que se supõe deveria fazer.

Ciência e evidências científicas desempenham um papel pouco expressivo nas escolhas médicas. Elas são majoritariamente tomadas por pressões de ordem subliminar. Médicos prezam seus empregos, sua qualidade de vida e seu status – como qualquer outra profissão. Enfrentar as acusações em nome do rigor científico e de suas convicções é raríssimo. Se as evidências e estudos sistemáticos REALMENTE guiassem o proceder médico a medicina desta forma empregada seria absolutamente irreconhecível.

Alguns meses depois de formado encontrei colegas de residência que me diziam: “Essa história de parto normal é muito bonita, mas não funciona no mundo real. Na cidade do interior onde trabalho as mulheres chiques (esposas da elite interiorana) marcam cesariana. Se eu negar serei mal falado na cidade, e vão espalhar que ‘não sei operar’. Se eu tentar esclarecer serei chamado de ‘Joãozinho-do-passo-certo’. Todavia, se eu ceder e operar sem justificativa serei abraçado, reconhecido, bem pago, elogiado e jamais serei questionado. Só um maluco suicida faria uma opção diferente desta última.”

Nas escolhas deste colega, onde está a ciência? Mas, quem pode dizer que esta escolha é irracional? Pode ser equivocada e cínica, mas quem a toma tem suas razões.

Médicos são guiados pela mão invisível da cultura. São produzidos pelo cadinho de valores que nela transitam. São PRODUTOS culturais, assim como a medicina que praticam. Aqueles que ousam questionar os pilares sobre os quais se assenta esta prática vão receber a resposta dura e inexorável dos representantes do modelo hegemônico. Não há mudança sem luta – e sem mártires.

Não se trata de culpar as ações de médicos que – por medo ou oportunismo – mantém os modelos intocados, mesmo quando claramente insensatos e sem base científica. Mais importante é mudar a cultura através da educação. Um povo educado produz médicos menos agressivos e mais seguros. Houvesse mais educação para todos sobre ciência e a discussão sobre a Cloroquina teria uma face muito mais racional e simples.

É o nosso atraso que mantém o debate em bases tão primitivas.

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Medicina irreconhecível

Se por um decreto divino a prática médica a partir de hoje fosse plenamente vinculada às evidências científicas – mesmo as que já temos – muito rápido a medicina se tornaria uma profissão tão diferente do que existe na atualidade que seria praticamente irreconhecível. O que chamamos de “ato médico” é, em verdade, a encenação de um encontro terapêutico cujo enredo não é necessariamente escrito com as tintas da ciência.

James H. Waldorf, “From the depths to Calicut”, ed Norwegian, para 135

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Educar sem telas

Para mim o debate “educar sem telas” é semelhante ao debate “educar sem violência” com o qual convivemos nas duas últimas décadas, pelo menos. Quando este assunto surgiu no nosso meio as reações eram muito semelhantes. Achava-se inviável; argumentava-se que as pessoas não conseguiriam impor “respeito”, prevenir “erros” ou evitar “mau caminho” sem que fosse usada a força e – mais do que isso – a violência, que é a força usada para submissão. Há 30 anos acreditava-se que sem as palmadas seria impossível educar e colocar as crianças nos “eixos”.

Não há dúvida que a palmada funciona. Sua eficiência é incontestável. Uma criança que apanha aprende a se calar diante da força bruta, baixar a cabeça e obedecer. Criamos gerações de homens e mulheres ensinados a ver no uso da violência uma solução para dilemas e embates. O resultado vemos agora.

Todavia, cabe perguntar: o que conseguimos com isso? Resposta: uma sociedade que reproduz estas ideias.

Sobre as telas, apesar de serem agressões diversas, a mesma lógica pode ser aplicada. É inegável que um celular e um tablet com jogos e músicas hipnótica “funcionam”, assim como a TV igualmente funcionou para a minha geração. As crianças entorpecidas pelas cores, imagens e sons param de observar o mundo ao redor e focalizam no jogo. Entretanto, cabe mais uma vez perguntar: a que custo? As mesmas perguntas sobre o uso abusivo de TV agora recaem sobre os pequenos computadores de mão.

Pesquisas já mostram inúmeros malefícios com seu uso em termos de cognição, aprendizagem e questões afetivas. Por certo que a limitação do uso é um grande desafio, em especial porque não temos mais as mães do passado que devotavam toda a sua vida a cuidar dos filhos. Hoje são mulheres ativas com múltiplas funções e tanto elas quanto os pais sofrem a sedução cotidiana de oferecerem uma tela aos filhos como “tempo de descanso” para quem os cuida.

Esta é, por certo, uma decisão extremamente complexa, mas não há mais como – a exemplo das palmadas – questionar os malefícios da exposição superlativa. Organizar a melhor forma de disciplinar o (inevitável) contato é a grande decisão a ser tomada.

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Prince Charming

The search for chloroquine, ivermectin and now dexamethasone bears a resemblance to the search for love in a man or woman, an ideal of happiness that depends in someone to complete us and offer what we lack. In all cases the answer is always out there, in something that will rescue us from loneliness, degeneration and death. Exogenous healing has never gone out of style. Prince Charming never stopped visiting our dreams.


“A busca pela cloroquina, ivermectina e agora a dexametasona guarda uma semelhança com a busca do amor em um homem ou a mulher, um ideal de felicidade e em alguém a nos completar e oferecer o que nos falta. Em todos os casos a resposta está sempre lá fora, em algo que vai nos resgatar da solidão, da degeneração e da morte. A cura exógena nunca saiu de moda. O Príncipe Encantado jamais deixou de visitar nossos sonhos.”

Patricia Highsmith, Punxsutawney Chronicles, june 12th,

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O Preço da hegemonia

Uma das questões aqui na aldeia sempre foi que as esquerdas perderam a disputa pela hegemonia discursiva entre as seitas evangélicas, onde a direita e os fascistas “nadam de braçada”. Todavia, resta a questão: deveriam as esquerdas mergulhar no mesmo poço de falsidades, mentiras, mistificações, estelionato da fé e sonegação dos tele-evangelistas para disputar este terreno discursivo e estes eleitores?

Seria justo e eficiente abrir mão de convicções essenciais da esquerda – direito ao aborto, diversidade, educação sexual, estado laico, etc. – para invadir e conquistar o universo dos pentecostais? Não seria esta estratégia uma contradição em si? Seria lícito apostar na exploração maniqueísta da fé para depois propor uma sociedade complexa e cheia de contradições? A batalha deveria ser – mimetizando as redes sociais – pelo conteúdo ou pelos likes? Debate profundo ou lacração?

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O Sapateiro Russo

O filósofo russo Vladimir Egorov foi um famoso sapateiro e um dos maiores pensadores do século XIX, apesar de ter escrito de próprio punho apenas um manual para máquinas de costurar botas. Sua obra literária, entretanto, foi toda construída a partir do registro oral de suas histórias, poemas e narrativas feitos por seus discípulos da “Высшая школа сапожного дела” (Escola Superior de Sapataria) de Krasnoyarsk, na Sibéria, sua cidade natal.

Sua obra é gigantesca, e abrange a filologia, a ética, a filosofia, a poética e a literatura. Na Rússia czarista, ficou famoso por seus contos políticos satíricos, onde retratava o drama dos agricultores e a miséria do campesinato sob o czar Nicolau. Seu conto mais famoso – o qual lhe rendeu 18 meses de prisão em Irkutsk – foi “Блоха в задницу собаки” (uma pulga no c* do cachorro) onde um pequeno cão com o provocativo nome de “Nicolau” viaja pelos prados gelados da Rússia estabelecendo um ácido colóquio com uma pulga alojada no final do seu tubo digestivo. Os diálogos foram elogiados por Lev Tolstoi, que o chamou de “um idiota com uma inteligência admirável, porém imperceptível”.

Egorov foi reconhecido como um dos maiores influenciadores do pensamento russo do século XIX, e suas ideias podem ser vistas nas obras de Bakunin, Lev Shestov, Pavel Florensky, Dostoievski, Gueorgui Plekhanov e em especial Karl Marx. Seu encontro com Marx foi marcante e único, confirmado por inúmeras testemunhas. Durante uma viagem à Sibéria, Marx procurou a sapataria central de Krasnoyarsk para consertar seu velho calçado, gasto por longas caminhadas. Lá encontrou Vladimir Egorov muito ocupado, mas mesmo assim solicitou que ele lhe consertasse as botas furadas. Egorov aquiesceu e, enquanto fazia este serviço, Marx estabeleceu uma profícua conversa com o “sapateiro da Sibéria”, tendo anotado por mais de 3 horas todas as palavras do mestre sapateiro em um caderno. Anos depois se descobriu que esta conversa embasou “Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro”, sua tese de doutorado. Infelizmente, Marx nunca deu o devido crédito a Vladimir Egorov por este seu texto.

Este ano festejamos o centenário da sua morte, tragicamente ocorrida em 1920 quando resolveu velejar no rio Ienissei e foi jogado para fora do bote pelos marinheiros, acusado de fazer trocadilhos cujas rimas não se encaixavam adequadamente. Seu corpo foi resgatado muitos meses depois, e no seu bolso foi encontrada a última de suas poesias:

«Белые скалы
Брошены в мочу богов
Без соли и горечи
У стойки Егорова
Они вынули это из голосового туннеля
Твой последний хрип
И голос прошептал
Под сибирским небом
Твой последний крик
Свобода, свобода
И крем от обморожения»

«As rochas alvas
Jogadas na urina dos deuses
Sem sal ou rancor
No balcão de Egorov
Tiravam do túnel da fala
Seu último estertor
E a voz sussurrava
Sob o céu da Sibéria
Seu derradeiro clamor
Liberdade, liberdade
E um creme para frieiras»

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Cadeia

A camiseta dessa moça é a grande ironia, que ninguém imaginava que viesse ocorrer. A diferença é que o presidente não vai usar uma camiseta “Sara está presa”, muito provavelmente porque – é possível e eu acredito – os mais de 500 dias de Lula na prisão o ensinaram sobre o erro gigantesco de sua gestão carcerária. Lula, por certo, não acredita mais no encarceramento como solução para as tensões sociais e a criminalidade. O aumento da massa carcerária nos governos Lula e Dilma (imitando o mesmo fenômeno nos governos “liberais” dos Clinton) é uma mácula que os próximos governos progressistas precisam eliminar.

Encarceramento = racismo.

Sara Winter não deveria ser presa. Deveríamos estabelecer medidas sérias e bem controladas de reparação social. Cadeia e perda da liberdade apenas para assassinos e perversos, gente cuja presença na sociedade é uma ameaça REAL à vida de outras pessoas. A prisão de Sara apenas reforça o punitivismo tacanho que caracteriza o nosso judiciário.

Sara provavelmente tem problemas mentais e emocionais graves, como fica claro em sua biografia, mas é apenas uma bufona, não representa um real perigo com seu exército Brancaleone. A sua prisão tem um interesse midiático, para reforçar a autoridade de um STF acovardado e pusilânime, mas foi quase um pedido explícito de Sara. Ao ver seu projeto de milícia fracassar, só lhe restava a imolação pública como propaganda final. Queria ser heroína, e para alguns será…

As esquerdas deveriam desconfiar sempre que sua alegria está vinculada a uma decisão do judiciário politizado e partidário que temos. Lembro (faz pouco tempo) de figuras das artes com cartazes de apoio a Bretas, ou de artistas da Globo dando suporte a Moro. Nosso judiciário tem lado, e não é o das esquerdas. Festejar suas decisões apenas por diversão é um erro estratégico. A prisão espetaculosa de Sara pode ser amanhã a de um líder do MTST ou do MST, bastando para isso que um juiz do STF acorde de mau-humor.

O discurso tão usado do “bota na cadeia” é um apanágio da direita. As pessoas que usam estas expressões por certo que não fazem ideia do que seja uma penitenciária no Brasil. Nunca se deram ao trabalho de ver a foto de uma cela superlotada e nunca estudaram o terror que é sobreviver nas condições desumanas de uma prisão de terceiro mundo. Jamais questionaram o preceito básico do direito penal que afirma que “nenhuma pena pode ser pior que o crime cometido”. Mas… o que pode ser pior que o inferno? Aliás, foi um general ignorante e racista, truculento e boçal, quem imortalizou a brutalidade da ditadura militar no Brasil, exclamando: “eu prendo… e arrebento”.

Prender, colocar na cadeia, aprisionar e encarcerar sempre foi a narrativa da direita, em especial da extrema-direita e do fascismo. Sei também que os totalitarismos da cortina de ferro também usaram desse artifício. São estes tiranos que exaltam o poder coercitivo do Estado para estraçalhar as dissidências na busca por um pensamento único. Todavia, eu esperaria da esquerda um passo adiante, rompendo o ciclo nefasto do “vigiar e punir” e acabando com a arbitrariedade das prisões determinadas pelos interesses ou pelo ódio do juiz, como assistimos na Lava Jato.

Entretanto, nosso rancor (compreensível) ainda vai manter o enredo. Agora é nossa vez de sair às ruas gritando “Sara está presa”, dando risadas do seu infortúnio e fazendo chacota, sem perceber que mantemos o círculo do ódio girando, só esperando a vez de nos atacar mais uma vez. Tolamente, colocamos nas mãos de juízes e promotores venais o poder discricionário de quem sofrerá a humilhação e o horror de adentrar os calabouços deste país. E, vale sempre a pena lembrar, a pena pesa sempre muito mais se você for de esquerda, preto e pobre.

Valha-me Valois…
Salve-nos Kenarik…
Nos ajude Igor Leone.

Abolicionismo penal já!!!

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