Lactância sem Mulheres

Eu vi a notícia sobre um congresso de aleitamento no México que não continha nenhuma mulher entre os expositores e achei absurda tal comissão que debateria o tema. Não gosto de nenhum tipo de sexismo e a exclusão de homens para debater amamentação – pelo simples fato de serem homens – é para mim um grosseiro equívoco. Digo o mesmo sobre o tema do parto e uso a explicação de que “homens nascem e homens são amamentados”, portanto, esse assunto igualmente nos atinge e nos diz respeito. Ressalvas sejam feitas aqui ao “lugar de fala”, por favor.

Eu convidaria aqui no Brasil Marcus Renato e João Aprígio sem pestanejar para um congresso como este, e poderia colocá-los inclusive na presidência do mesmo porque são grandes defensores e batalhadores incansáveis pela amamentação…. e são homens. O gênero importa menos que o engajamento no tema, mesmo que a vivência no processo de amamentar seja um fator relevante e significativo.

Entretanto, a ausência de mulheres na mesa fala muito mais de uma negação a elas do que de uma pretensa falta de especialistas sobre o tema da amamentação do sexo feminino. No Brasil – e posso garantir que também no México – existem médicas, enfermeiras, psicólogas ou nutricionistas capazes de levar adiante esta bandeira com pleno embasamento científico e com grande experiência no ativismo. Portanto, a ausência de mulheres e a presença de representantes da indústria láctea neste evento é um claro sinalizador de que as mulheres não estão presentes porque a sua “substituta” – a indústria de fórmula – veio para ocupar sua voz e seu espaço.

E isso é muito grave…

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Ubi et Quomodo

Entrei em mais um debate a respeito da ideia de que, chamar as cesarianas de “extração fetal”, nada mais seria do que um exercício de crueldade e uma estratégia suicida para o ativismo do parto humanizado.

Os argumentos os conheço muito bem; eles acompanham as discussões sobre parto e nascimentos humanizados pela internet há duas décadas. De um lado algumas mulheres (muitas vezes ativistas) reclamando que chamar uma cesariana de “cirurgia”, de “extração fetal” ou “operação” servia para afundar ainda mais a combalida autoestima de uma mulher cujo projeto de um parto normal havia fracassado. Do outro lado, alguns propõem – como eu – que os nomes sejam usados de forma correta, sem máscaras, sem tratar as mulheres como torrões de açúcar que se desmancham com qualquer palavra mais dura utilizada. Não há porque chamar Fusquinha de Mercedes, nem cesariana de “parto cesáreo”, ou “parto via alta”, pois estes estratagemas semânticos se prestam para banalizar a cirurgia e torná-la um procedimento “igual” ao parto. Tipo a fórmula láctea, chamada de “leite” para confundir este produto artificial com o leite humano.

Mas cesarianas não são partos. Os ativistas do parto normal sabem muito bem as diferenças entre um procedimento inscrito na fisiologia do corpo e nas entranhas obscuras do nosso DNA, e uma cirurgia de extração fetal. Os riscos de ordem física para ambos – mãe e bebê – são por demais descritos na literatura, e sobre eles não cabe mais dúvida alguma. Para além disso, temos as cicatrizes emocionais deixadas na alma das mulheres que foram impedidas de um processo fisiológico. Não há como confundir os dois eventos, e a linguagem não pode ser prestar a esta mistificação.

Por outro lado, é claro que os debates sempre ficam acesos quando se toca nesse ponto; afinal, estamos tratando da sexualidade nua e crua do nascimento. Falar de parto é falar de sexo em sua expressão mais simbólica – e poderosa. O escritor “maldito” (que também era médico) Louis-Ferdinand Celine nos alertava: “Esqueçam o sexo; se querem ver a sexualidade, olhem para um parto.” Por esta razão esses choques se tornam sempre duros; eles são, em verdade, expressões relacionadas ao mito da “menas main“, que assola as mulheres diante da avalanche de tecnologias que deslocaram o leite das mamas e os partos das vaginas.

Então eu me pergunto: como criar um ponto de acordo nestes conflitos? Depois de escutar estas queixas (de ambos os lados do espectro) por três décadas eu acho que as respostas são agressivas porque a PERGUNTA é mal formulada. Não se trata de saber COMO descrever uma cesariana tal qual uma grande cirurgia de extração fetal e suas naturais consequências para a saúde do binômio mãe-bebê, mas QUANDO poderemos oferecer uma explicação mais adequada do evento que se passou. Quase todos os ativistas concordam que dizer o nome correto do que aconteceu é importante para evitar o engodo embutido nas construções linguísticas do “parto cesariana” e do “parto via alta”. Ao mesmo tempo, todos sabem que os médicos criam essa confusão para diminuir o impacto das cesarianas e fazer com que se tornem mais “palatáveis” pela cultura. Entretanto, é também verdade – e quase todos reconhecem – que encontrar uma mãe na sala de recuperação do hospital e lhe dizer : “Que pena que não conseguiu ter seu parto normal e acabou numa extração fetal” não tem nenhum sentido humano e é apenas uma expressão de crueldade e falta de sensibilidade.

Portanto, eu proponho que olhemos para o dilema da nominação dos eventos não mais pela perspectiva do “como” chamar, mas do “quando” isso pode ser feito para uma puérpera para que ela possa entender os significados últimos de uma cirurgia, seja para fazer adequadamente seu luto ou seja para evitar os erros que porventura possa ter cometido na construção do seu não-parto.

Creio que assim agindo vamos poupar muitas batalhas que continuam a proliferar no espaço cibernético sobre esse tema tão palpitante.

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Roubo

O roubo é uma parcela pouco importante na conta final do Estado. Sua importância é muito mais moral do que financeira. Nossa carga tributária é mixuruca se comparada à Escandinávia onde a qualidade de vida está 100 anos na frente. O problema não é cobrança. Eu pagaria de olhos fechados o DOBRO que pago hoje se tivesse hospital de qualidade, medicina preventiva, escola boa, rua sem buraco e baixa criminalidade (tipo, Cuba).

O problema do roubo existe até na Suécia e na Coreia, e não é um problema dos políticos, é um problema da índole do povo que os elege. Postiços são pessoas como nós com as mesmas pressões e superegos que nos afrontam. Para mudar a política não adianta prender, matar ou trocar os políticos pois os que chegam no seu lugar se defrontam com o mesmo sistema corrompido da política nacional, onde os milhões de campanha são oferecidos por empresas que depois cobram o preço. Não adianta mudar DENTRO desse modelo, ele precisa se transformar. Reforma política urgente. Como todo mundo sabe, de nada adianta trocar moscas se…

Nunca funcionará esse combate estúpido e seletivo contra a corrupção do Estado. A verdadeira corrupção está no mercado. Os valores ridículos da Lava Jato não cobrem dois dias de especulação e roubalheira financeira no país. Político corrupto ganha MIGALHAS, são despachantes de poderosos, cujo dinheiro sujo não afeta em quase nada a nossa economia, mas desviam nossa atenção da roubalheira do sistema financeiro e da concentração de renda.

Claro que a corrupção deve ser combatida, mas não é com esta luta e muito menos baixando imposto da classe média que vamos resolver o problema grave do Brasil: a iniquidade.

Não se trata de relativizar desmandos e falcatruas. Todos devem ser combatidos. Entretanto, é também fundamental combater a ideia de que “o problema do país é a corrupção”, que é uma mentira usada aqui desde os tempos do Getúlio para mascarar a realidade da injustiça social, da corrupção do mercado, da mídia comprada, da opulência dos capitalistas, da miséria do povo, do machismo, do racismo, do ódio de classe e da elite que manipula o judiciário e as consciências. Enquanto ficamos falando de corrupção e achando que prender um político espertinho soluciona o caso eu pergunto que efeitos houve com o combate ao “mar de lama” de Getúlio, a “vassourinha” de Jânio, o golpe de 64 ou a “Caça aos Marajás” de Collor. Precisa ser muito tolo para não perceber que a direita sempre aposta nas mazelas MORAIS – corruptos e ladrões – para esconder a nojeira ESTRUTURAL da nossa sociedade racista e que cultiva esse ódio de classe. Figuras canalhas aparecem nesses momentos, como Filinto Müller ou o juiz corrupto de Curitiba, para oferecer DE NOVO a ilusão para os tolos da direita que acreditam que “punindo os maus” haverá uma depuração da política. Tolice!!!! Com Getúlio, golpe 64, Collor o resultado é sempre o mesmo: sufocam a esquerda e as escolhas do povo e colocam no governo alguém ligado aos interesses da elite.

E os pobres de direita aplaudem o punitivismo tosco sem perceber que são feitos de marionetes que precisam ficar calados, sem jamais questionar a concentração brutal de renda do nossa país.

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Ódios

Existem ódios que se fortalecem com o tempo, impregnados pela escuridão do ressentimento, que não se desfazem sequer pela luz matutina da verdade.

Ngai Pan, “Que Tao o Amor?”, Ed. Lumbrusco, pág 135

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Preparos

Não acredito em “preparo” para maus resultados. Acho que isso é uma fantasia criada pelo mercado para produzir a ideia de que “se você souber antes poderá se preparar“. Qual o preparo precisa ser feito para receber um bebê com síndrome de Down? Qual a diferença de “adaptação” se você receber a resposta vinda diretamente do profissional imediatamente depois do parto? Você terá 40 ANOS para se adaptar a um filho sindrômico; os 5 meses de gestação não terão nenhum impacto positivo nesse processo.

A história desses exames tecnológicos sempre se faz através da criação de “necessidades artificiais”. “Você precisa de um carro novo“, “Você tem que comprar o novo IPhone“, “Você precisa ir para um hospital aparelhado“, “Você precisa fazer uma ecografia!!!“. Todas essas falsas vantagens de modelos novos e modernidades FALHAM de forma constante em demonstrar IMPACTO na sobrevida de mães e bebês, mas MESMO ASSIM as mantemos na cultura porque, porque, porque…

Ora… por causa do capitalismo. É exatamente esse direcionamento irracional que nos obriga a entrar na “roda da fortuna” para manter girando uma sociedade de consumo. Monitorização eletrônica, hospitalização, exames de ultrassom, roupas especiais, afastamento da família, camas elétricas, TV de plasma no quarto…. NADA disso produz qualquer melhoria nas taxas de morbimortalidade de mães e bebês. O impacto na saúde das pessoas é ZERO, e mesmo assim continuamos a investir em tais artefatos. Por certo que são rituais do mundo tecnocrático – padronizado, repetitivo e simbólico de valores culturais ou crenças – mas quando eles começam a entrar em crise e sua eficiência (con)testada surgem fantasias mirabolantes, verdadeiras maquinações publicitárias, para nos fazer crer que tais brinquedos tecnológicos realmente produzem benefício.

Um deles é dizer que as pessoas podem se “preparar” para um resultado negativo durante os poucos meses da gestação. A verdade para mim, depois de 3 décadas atendendo partos, é que as ecografias são parte fundamental da alienação da gestação para as mãos da corporação de profissionais. Reféns de clínicas e laboratórios, as mães vão paulatinamente perdendo sua autonomia e a capacidade de tomar decisões. “Por que você fez esse exame? Você sabe para que serve?” perguntava eu para as pacientes recém chegadas. “Meu outro doutor pediu, mas não me explicou para o que desejava“, respondiam elas, quase envergonhadas. Pior, era óbvio que o seu doutor também jamais havia questionado o uso de uma tecnologia moderna (como ultrassom) aplicada à gestação, porque os avanços tecnológicos são – na prática – inquestionáveis em medicina. Funcionam como Éditos da Santa Igreja, sobre os quais não cabe discussão.

As pessoas não conhecem a história toda das ultrassonografias. Quando me pediam transluscência nucal – porque “todo mundo faz” – eu respondia: “estás realmente disposta a ir até o final dessa jornada?”

Sim, porque a transluscência lhe dará um índice de risco, não a resposta definitiva. Se o exame vier alterado o médico lhe recomendará uma amniocentese. O exame será feito com 13 ou 14 semanas da gestação e sai caro. Só este resultado lhe dará razoável garantia de um transtorno genético (e, como tudo, nunca é 100%).

Só com 14 ou 15 semanas você terá uma resposta genética confiável e NENHUM aborteiro aceitará seu caso, mesmo pagando muito. Portanto, seus exames – de imagem e genético – não lhe ofereceram nenhuma resolutividade; terá de esperar igual. “Ahh, mas pelo menos agora eu já sei“, dizem alguns, mas eu duvido que essa informação produza efeitos positivos no sujeito, como já expus anteriormente.

Na verdade, as pessoas sucumbem à sua curiosidade e ao desejo de reforços externos à sua combalida autoestima. Como a chance de um resultado negativo em uma transluscência é por volta de uma em duas mil existem 1999 vezes em que o resultado é comemorado para apenas um resultado que produz tristeza. Quem faz essas ecografias escolhe o suspiro: são exames sedativos, mas também uma roleta russa com uma bala em um tambor de dois mil buracos. Atire… mas se a notícia ruim vier lembre que ainda há vários meses de gestação pela frente.

Esse exame serve para oferecer ao médico o poder de decretar se o seu bebê está (ou não) bem. Talvez seja possível dizer que, junto com a própria “primeira consulta” médica, este exame sela definitivamente a alienação dos pacientes das decisões que se seguirão, garantindo aos profissionais e suas máquinas mirabolantes o poder e a glória de fazer todas as escolhas por elas.

A alienação é oferecida de forma sorrateira e só quem é muito atento escapa dela, e mesmo assim pagando caro. Somos bombardeados por esses penduricalhos tecnológicos para que o mercado continue nos cegando à realidade cristalina que se esconde por detrás de tantas prateleiras: as mulheres querem que seus partos sejam atendidos por pessoas da sua confiança, com segurança e em um nível local, seja num pequeno hospital de sua cidade ou bairro, casa de parto ou em suas casas.

O resto é muito menos importante, por mais que a publicidade seja fulgurante e sedutora. Pense no pastel e no amor: o que é bom de verdade nem precisa propaganda.

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Férias

Li uma publicação justificando o fato de professores terem férias duas vezes por ano com argumentos do tipo “fizemos concurso público, temos correção de provas, 40 alunos em sala de aula, seminários, congressos, reuniões, muito estudo, dedicação, etc.” Para mim bastaria dizer que existem dois períodos de férias; professores têm porque os alunos têm. Mas as explicações para serem “diferentes” dos demais me incomodaram

O problema é que qualquer profissão exigiria duas ou três férias por ano (e auxílios variados) com esse tipo de justificativa. Professores não são melhores que médicos, juízes, comerciários, é muito menos piores. Professor deveria ganhar um salário ótimo, excelente, tão bom quanto estes outros profissionais (sim, porque médico deveria ganhar mais que professor???) e não mordomias ou penduricalhos baseados em sua excelência. Deveria ser igual para todos. O que me incomoda nesse tipo de publicação é que ela é IDÊNTICA à dos juízes justificando os salários abusivos, auxilio creche, auxílio terno, gravata e duas férias por ano. Afinal, são concursados e fazem (segundo eles próprios) um trabalho excelente e muito sacrificial.

Por que não poderia ser o mesmo para todos? Férias iguais, imposto de renda de acordo com o que ganha e a ambição de qualquer tipo de benefício que os outros não possuem.

Acho que professor deve ter 30 dias de férias, como todo mundo. Ou duas vezes por ano para acompanhar as férias escolares (e não porque são “especiais”). Ou até mesmo 60 dias por ano, quando valer para todos os outros trabalhadores.

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Causas

As causas são PROFUNDAMENTE masculinas. Elas são mudanças no rumo da história, do roteiro das ideias. São golpes de machado nas raízes da natureza. Os homens sempre estiveram por trás delas. As revoluções foram todas lideradas por homens, assim como as lutas, as guerras, as conquistas. Todas estas são “causas”, mais ou menos nobres, que estimularam a inventividade, a coragem e a genialidade. Todas, sem exceção, determinaram vontade, desprendimento e sacrifícios.

A história está repleta de homens que sacrificaram tudo – em especial a própria vida – em nome de causas que ajudariam a todos. Pense em qualquer movimento paradigmático no mundo e houve ali um homem envolvido em uma grande luta que envia a todos de sua etnia, seu grupo, comunidade ou país.

Sim, homens não se preocupam tanto com câncer de pênis ou próstata o quanto deveriam. Entretanto se preocupam com o de mama e o de colo uterino, que sequer é no corpo deles. Todos os recursos, a energia, a vontade e a dedicação está focada para ajudar as mulheres, as matrizes, suas mães, filhas e esposas.

Mas… claro que isso é apenas mais uma faceta do machismo. Os homens cuidam das mulheres porque as odeiam e querem escravizá-las. Curam suas doenças, tratam suas feridas, deixam suas vidas mais dignas, mas o motor destas ações é o ódio. Este mesmo ódio que todo homem carrega por uma mulher é fruto da…. da… raiva que sentem da primeira mulher que os abandonou. Por isso tanta mágoa e desprezo. Por isso as poucas causas em que os homens se engajam dizem respeito apenas ao seu gênero, sua infinita vaidade e seu infindável egoísmo.

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Os limites da razão

Para os lacradores

Apesar de saudar o contraditório e as racionalidades explicitadas sobre a importância da liberação do aborto é fácil perceber que o aborto não será descriminalizado por uma súbita “lacração” de uma ativista. Não será através de um discurso, uma ideia, uma metáfora ou uma sacada genial. Não é assim que funciona em um mundo imerso no oceano das emoções e que mantém apenas o nariz de fora para, eventualmente, respirar o ar da razão.

Não foi preciso nenhum discurso que a homossexualidade foi descriminalizada – nos livros, ao menos – e nem por uma postagem brilhante, citando Freud ou Butler. Não foi por uma palestra maravilhosa na Academia que os livros pararam de exaltar a fórmula láctea. As ideias pavimentam o chão, mas são imóveis. Nossos pés é que produzem transformação e mudança.

Se a razão tivesse esse poder Lula estaria livre e a humanização do nascimento seria a regra em todos os hospitais. Não haveria violência de gênero e ninguém abusaria de drogas. Mas não somos governados pelo entendimento; somos presas de nossas emoções.

A solução passa necessariamente pela mobilização popular. É o que se fala de Lula, do aborto, da democracia e o que se tem como experiência sobre câmbios sociais profundos.

Nosso problema é de culinária: falta ainda “massa crítica“. Olhem para baixo, para o Chile e a Argentina, e entendam que essa é a única forma de avançar na questão do aborto.

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Cotas

Agora a ideia dos liberais é privatizar o ensino com a tese de que assim ele seria mais “democrático”. Não tem como apoiar isso. Chile e a Alemanha acabaram com a universidade paga por perceberem o mal que o capitalismo fez à educação.

Por que haveríamos nós de retroceder?

Quanto ao dilema com os filhos brancos – pobres “prejudicados” pelas cotas – isso não passa de pura fantasia. Esses meninos e meninas da classe média recebem educação diferenciada – se comparada aos pobres – e vão competir em desigualdade de condições com pretos e pobres do Brasil que – fossem dadas condições iguais – teriam a mesma possibilidade de ingressar na universidade.

As cotas são para isso. São para estancar essa hemorragia racista e classista. São para evitar esse embranquecimento nojento da magistratura, do MP, da engenharia e da medicina e tantos outros cursos. Diga aí o nome de um juiz preto, um professor seu ou um médico afrodescendente. Diga o nome de um engenheiro negro. Os filhos brancos desse país são criados no privilégio que esta sociedade determina (tanto quanto eu e os meus filhos). Esse privilégio injusto e imoral é o foco das cotas e elas precisam existir enquanto ele persistir.

Quer uma equação mais justa para o seu dilema entre matricular na escola pública (para ter “vantagem”) ou na particular (e ser “prejudicado” pelas cotas)?

Tenho uma proposta: saia de casa, desapareça, pare de pagar pensão, mas antes disso bata neles com vontade para que a sua imagem paterna vire poeira. Não mande dinheiro algum para comprarem roupas, comida, cadernos e livros escolares. Coloque-os para morar num barraco com zinco furado. Mande-nos para a escola com fome e depois diga pro PSDB roubar a merenda. Faça tudo isso por vários anos escolares… e depois inscreva-os para o vestibular em “igualdade de condições” com os branquinhos classe média  Iphone-Disney que nunca pegaram ônibus na vida.

Se os seus filhos se classificarem depois desse “teste de sobrevivência na selva” poderemos falar em meritocracia.

Ser contra as cotas é viver tão dentro da bolha de privilégios que o próprio mundo de verdade desaparece diante dessa fantasia.

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Masterchef

Hoje abri minha TL e vi no mínimo cinco comentários sobre a final do “MasterChef”. Eu nunca assisti nenhum capítulo desse programa, mas não porque tenha algo contra as comidas e seus preparos. Creio mesmo que culinária é alquimia, a forma de fazer comida é uma Arte (com A maiúsculo mesmo) e porque acho que o ato de comer em conjunto é uma conquista civilizatória essencial que estamos perdendo. Aliás, “A Festa de Babette” é exatamente a minha visão do que seja o alimento e seu sentido social. Entretanto, não assisto esses programas porque me sinto muito mal assistindo competições televisivas. Acho uma tremenda manipulação dos nossos sentimentos de identificação com os participantes. Todavia, uma coisa ficou muito clara para mim:

Esse não é um programa sobre comida.

Entre os comentários que li não há uma menção sequer às comidas preparadas, nem sobre os pratos, quitutes,e receitas. Não estou criticando, apenas mostrando que os produtores sacaram desde cedo que um programa sobre comida atrai muito pouca gente, e apenas seria visto por alguns aficionados diletantes, cozinheiras e chefs. O MasterChef é um programa sobre PERSONALIDADES e RELACIONAMENTOS. A comida é apenas o pano de fundo. TODOS os comentários que li sobre o programa falaram das personalidades, das intrigas e dos relacionamentos dos participantes. Até agora não sei qual foi o prato preparado na final; pode ter sido pernil ou farofa, salada ou sobremesa de profiteroles. Entretanto, sei que isso não faz a menor diferença. O programa poderia ser sobre penteados ou sobre maquiagem e o formato seria o mesmo, apenas mudando o cenário.

Repito: o programa não é sobre comida. Se o show focasse na comida haveria comentários sobre ela – a maneira como foi feita, o aspecto, os ingredientes, o tempo, a sujeira na cozinha, a temperatura do forno, os utensílios, os temperos, etc – mas NINGUÉM comenta isso. As pessoas estão interessadas nos personagens, nas reações, nos contatos, na derrota e na vitória, nas manifestações, nas fofocas internas, nos olhares e nos SENTIMENTOS dos participantes. Quando eu falei dos penteados e da maquiagem lembrei exatamente do “RuPaul Drag Race” que é uma competição de Drag Queens que segue EXATAMENTE o mesmo roteiro de explorar as reações humanas conflituosas entre os participantes. Tem pouco a ver com penteados e roupas, e muito a ver com os sujeitos que emprestam seus corpos e almas para os vestidos e perucas.

Mas isso não é uma crítica a quem assiste, apesar de que as pessoas que ADORAM culinária poderiam ficar frustradas sobre o quão pouco se fala nos pratos e a ênfase desproporcional nos cozinheiros. Eu apenas me refiro ao fato de que “a mim não enganam” dizendo que o assunto é culinária. Não é e nunca foi o “prato principal”; comida não passa de um “side dish” para usar um termo adequado para o debate. E digo isso porque os produtores e criadores não são bobos: ninguém viria comentar de forma emocional – e por vezes apaixonada – uma rabanada, um filé ao molho madeira ou uma sobremesa de nozes, mas TODOS se interessam pelas reações humanas dos competidores. As vezes ao ponto de brigar.

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