Amarras

Havia a esperança que o destravamento das amarras sexuais femininas levaria ao fim das angústias que se associam à repressão das pulsões, como bem descreveu Freud em seus “Estudos sobre a Histeria”. Parece que a pergunta sobre a sexualidade feminina não pode ser respondida de forma tão simples.

Juliette de Saint Etienne, “Les Fleures du Mardi”, Ed. Gallimard, pág. 135

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Amor e Verdade

Ah, a ilusão do amor…

Dedicamos uma porção enorme de nossas vidas à busca desse sentimento que acalenta, conforta e dá sentido às nossas angústias. Entretanto, seu preço é por vezes amargo. E quando o amor é confrontado com a verdade? E quando a palavra afiada corta como navalha os cordéis de fina tessitura que sustentam a delicadeza desse encontro?

Entre a verdade e o amor, com qual deles você escolheria passar o resto de sua vida?

“Sons e palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém”. (Belchior)

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Ódio nosso de cada dia

Diante do desafio simples de pedir uma única prova de um deslize do ex presidente Lula que justificasse ser chamado de “ladrão”, a resposta é igual para todos os que assumem uma atitude autoritária. Na verdade, estes sujeitos não conhecem nenhum crime de Lula, mas isso não lhes impede de odiá-lo com todas as forças porque este sentimento não tem absolutamente NADA A VER com algo que ele tenha feito ou deixado de fazer, mas com sua figura simbólica, o que ele representa como ameaça à estrutura social do Brasil.

A verdade é que se ele fez algo de errado ou não é totalmente irrelevante para quem escolhe odiá-lo por ser quem é. Isso explica que as acusações de corrupção ou de roubo nunca tenham materialidade; nenhum acusador é capaz de citar uma prova sequer, e todos dizem “ah, Moro escreveu 300 páginas, está tudo lá”, e fogem de qualquer desafio de mostrar uma evidência qualquer de que tenha “roubado”, “prevaricado” ou se corrompido. Nada… Nenhuma conta, imóvel, mansão, carros de luxo, conta secreta, telefonema, recibo, gravação (compare com as do Aécio), joias, dinheiro vivo. Nada, absolutamente nada.

Sabem por quê? Porque não se trata de uma acusação racional. O ódio aos pobres e aos negros não pode ser dito em voz alta em uma sociedade que condena racismo e preconceito de classe, mesmo que estes sentimentos existam no submundo de nossas emoções. Por esta razão eles surgem na superfície com a fantasia do moralismo. Até os pastores travestem seu ódio com essas ferramentas – como o Pastor Feliciano falando da bala na cabeça dos esquerdistas – e ainda o fazem em nome de Jesus.

Portanto, minhas palavras em defesa da democracia e da constituição servem apenas de retórica jogada ao alto, e não direcionada a quem se nega a pensar com justiça e com respeito ao Estado Democrático de Direito. Quem se alegra e faz carnaval com a possível prisão de Lula está completamente alheio a qualquer abordagem racional e já mergulhou profundamente no poço das emoções mais primitivas, onde a luz da razão é incapaz de alcançar.

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V.O.

“A Violência Obstétrica, de acordo com a definição dada pela lei venezuelana, é caracterizada pela apropriação do corpo e processo reprodutivo das mulheres por profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na vida das mulheres”.

Nesta definição da lei venezuelana o foco é basicamente materno, talvez porque foram as feministas que estiveram sempre à frente desta luta e sua maior preocupação é com a mulher e sua proteção.

Feita essa ressalva, não sei se existe consenso a respeito desse tema, mas vou falar exclusivamente do meu ponto de vista. Ao meu juízo a violência obstétrica compreende a atenção danosa que ocorre no NASCIMENTO, tanto para a mãe quanto para o recém nascido. A justificativa para que esse termo seja usado de forma abrangente é que no nascimento não existe “mãe e bebê”, mas uma unidade a qual convencionais chamar de mãebebê (motherbaby unit) exatamente porque tudo que ocorre para um (mãe ou o bebê) terá imediatas repercussões para o outro – sejam elas boas ou ruins.

Logo após o nascimento – e por um tempo longo e variável – é importante considerar a ambos como sendo partes de uma unidade indissociável. Desta forma, qualquer ato agressivo realizado no bebê (intervenções, procedimentos, luz, corte prematuro do cordão, injeções, sondas, som em excesso ou o simples afastamento de sua mãe) terá repercussões negativas para a puérpera.

Se isso for considerado não há porque subdividir em “violência materna” e “violência neonatal” se ambas fazem parte de ações prejudiciais e/ou intempestivas contra uma UNIDADE que precisa ser mantida e analisada como se fosse um único corpo.

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Frida

O julgamento das escolhas emocionais e sexuais de uma mulher é um item que jamais sairá de moda. Os ataques vem de todos os lados: dos homens e até das próprias mulheres. Frida, mesmo depois de morta, é acusada e combatida por seu amor por “Gordo”, o pintor Diego Rivera, seu marido. Ainda hoje continua a ser condenada e jogada na fogueira por amar quem amou, e na intensidade que apenas ela seria capaz de entender e decifrar.

Maria Cândida Valcáceres, “Las Cejas de Frida”, Ed. Simón Cruz, pág. 135

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Iluminação

Há quem diga que a iluminação é um salto em direção à luz; eu a enxergo como um mergulho corajoso na própria sombra.

Kimberley McCaulin, “Leap into Darkness”, Ed. Bethesda, pág 135

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O Sofrimento dos Opressores

Pacientes oprimem médicos também. As taxas de mortalidade de médicos recentemente divulgadas mostram que a condição de médico é uma doença insidiosa que leva à morte prematura. Médicos tem uma vida muito mais curta do que os pacientes que eles atendem. Médicas tem taxas de tumores maiores do que a população em geral, com uma expectativa de vida de 57 anos nessa pesquisa.

A opressão dos pacientes sobre os médicos se expressa de uma forma mais sutil e subliminar, mas não menos danosa e dolorosa. A execração pública e os ataques à honra são os mais comuns. As fofocas, a maledicência e a destruição de reputações por erros presumidos ou simplesmente por não se adaptarem à imagem construída se tornaram banais no universo das redes sociais. Basta a palavra de uma paciente insatisfeita e a credibilidade do profissional se despedaça.

Dr Fulano não é humanizado coisa nenhuma, ele operou uma amiga minha“, ou “Ele não passa de um mercenário” ou então “Cobra uma fortuna porque só pensa em dinheiro”, são as acusações mais corriqueiras. Isso destrói a paixão de qualquer pessoa normal. Muitos dizem “Quer saber? Passei 20h de TP ao lado dessa paciente, e outros tantos dias angustiado com o caso dela sempre na minha cabeça para agora ser acusado de ter feito uma cesariana quando joguei a toalha diante de tantos problemas que surgiram. Eu podia ter feito como todos: contado uma mentira, feito a cesariana há 1 semana, e ninguém me acusaria. Só tolos se imolam publicamente em nome dos seus ideais. Ou os kamikazes“.

Sim…. os médicos também se sentem oprimidos, em especial os que enfrentam o sistema e sentem na pele o ostracismo e a violência de seus pares.

Criar modelos estanques e simplórios de “oprimidos e opressores” é um excelente método para esconder a verdade. Esta é sempre muito mais complexa e contraditória do que as novelas mexicanas onde o Bem e o Mal se confrontam estereotipados e sem matizes. No mundo real o oprimido também desvela o gozo com sua condição – o vitimismo – e dele tira vantagens, enquanto o opressor sofre na carne o peso de sua posição, pela culpa e pela responsabilidade que lhe recai.

O mundo é menos simples do que parece a realidade é mais complexa e paradoxal do que desejamos.

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Paz

 

Curioso ouvir gente falando de PAZ.

Essa gente que está cansada das guerras (aqui não as temos de forma declarada) e da violência urbana. Gente que não aguenta mais ser roubada, ameaçada, sequestrada ou furtada. Gente que não suporta mais o noticiário cheio de sangue ao meio dia. Desgraças, mortes, agressões a granel.

Por outro lado, essas pessoas não querem verdadeiramente a paz, porque paz não é algo que se ganha é algo que se faz. Essas pessoas querem tão somente deixar de serem vítimas da guerra, porém pouco ou nada fazem de efetivo para que ela termine. Choram as mortes, mas apenas aquelas do seu exército; os outros …. bem, eles bem fizeram por merecer a morte que tiveram.

Muitos fazem discursos bonitos e inspiradores sobre a importância da Paz, bons o suficiente para serem assistidos num domingo à tarde escutando ao fundo as bombas de gás caindo sobre os moradores da favela . Tão úteis quanto um punhado de artistas medíocres da Rede Globo com camisetas brancas marchando por Copacabana pedindo “paz”, que nada mais é do que o projeto de manter os pobres miseráveis e excluídos, mas conformados e dóceis, a ponto de não roubarem mais o nosso celular e a nossa carteira. Uma “pax romana” adaptada aos nossos tempos, onde o crime da exclusão e da iniquidade é tratado como “valoração do mérito”, e a fome como uma “chaga moral”. Uma paz que criminaliza de todos os meios e formas aqueles que ousaram questionar a miséria e a indignidade humana, procurando destruir sua figura pública e sua moral.

É desta paz dos vencedores que nos falam?

Paz? Teu cu….

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Responsabilidade e Autonomia

O problema da responsabilidade da mulher sobre a gestação é bastante complexo e sobre isso há um ponto nevrálgico de caráter ético e filosófico sobre o qual ainda não há solução definitiva: “Afinal, a quem pertence esse feto e, depois, esta criança?”

Há que se lembrar que o surgimento da paternidade reconhecida é recente na historia da humanidade. Até então o sexo era prazer e domínio e passou a ser preservação genética; de uma paternidade social a um vínculo mais pessoal. Entretanto, por razões óbvias, a maternidade sempre foi visceral e reconhecida socialmente. A guarda dessa criança sempre foi responsabilidade da mulher que a pariu. Somente as mudanças estruturais da sociedade advindas da monogamia e do amor romântico puderam determinar uma nova configuração da paternidade. De algo difuso ou quase inexistente a um vinculo social reconhecido e valorizado.

Hoje ainda vemos a mulher muito mais conectada com sua gestação e filhos do que os homens. Não imagino como poderia ser diferente, já que é sobre seu corpo que o processo ocorre. Entretanto, existe um limite invisível que separa os dois polos, que se move ao sopro dos valores sociais vigentes: de um lado a responsabilidade de outras instâncias, como o pai e a sociedade; do outro a liberdade e a autonomia da mulher sobre seu corpo e seu destino.

Quando se reconhece a mulher protagonista e autônoma o aborto legalizado passa a ser mais facilmente entendido. “Seu corpo, suas regras”, dizemos. Também seus cuidados e escolhas na gestação e no parto passam a ser mais valorizados e respeitados. Dieta, estilo de vida, cuidadores, local de parto, amamentação, etc. Tudo depende da mulher, sendo o homem um mero espectador do evento, restringindo-se a lhe dar suporte material e moral.

Por outro lado pode haver um envolvimento muito grande dos parceiros(as) na gestação e parto, mas com isso é natural que também os direitos sobre o bebê sofram uma espécie de partilha. Se antes dependiam apenas das escolhas da mãe, agora o parceiro também se sentirá no direito de opinar e decidir. Portanto, não deveria ser absurdo que ele opinassem sobre local de parto, amamentação, vacinas, parteiros mas também pela própria continuidade ou não da gravidez. Afinal, se ele é responsável (moral e financeiramente) deveria também poder exercer seu poder de decisão sobre algo que também é, reconhecidamente, seu.

As linhas divisórias entre as a suprema autonomia feminina e a “intromissão social” variam no tempo e nas latitudes, mas hoje vemos uma tendência crescente para proteger a mulher e suas escolhas. Entretanto, para que se exija responsabilidades dos parceiros(as) também é fundamental que lhes seja garantido um nível razoável (porem variável) de poder de decisão.

Nenhum parceiro é capaz de oferecer ajuda sem que haja a contrapartida do reconhecimento.

Manuel de Aquino Queiroz, “Poder e Limites do Corpo – uma arqueologia da gravidez”, Ed. Cascais, pág 135.

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Chuviscos

Eu mesmo percebi isso há 25 anos.

Ninguém diz, porque é feio, mas ecografias e MAPs tem os mesmos objetivos simbólicos: oferecer ao médico um elemento “comprovável” e palpável da fragilidade na relação mãe-feto que justifique uma intervenção intempestiva. Em verdade essa – a intervenção – era a intenção do cuidador desde sempre, mas sabemos o quanto afeta o imaginário de uma mulher sufocada por seus medos os pontos chuviscados de uma ultrassonografia ou os aclives e declives dos traçados de uma monitorização. Depois de um comentário sobre “dips” ou sobre “percentil” qual mulher manteria a confiança e o sangue frio para seguir adiante nos seus planos?

Se é verdade que estes exames podem ser úteis em circunstâncias específicas, mais verdade ainda é de que seu uso se volta para a proteção dos profissionais e a moldagem do parto em um evento que precisa ser bom para quem o cuida e não para quem o faz acontecer.

São armas de convencimento e persuasão profundamente eficazes.

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