Atenção Especial

Conversa real ocorrida há uns 20 anos entre o Dr. Fulano, chefe do serviço X do hospital universitário, e o Dr. Sicrano, professor recém admitido e examinador da banca de residentes do serviço Y do mesmo hospital.

– Oi Dr Sicrano, como vai? Aqui é o Dr Fulano, tudo bem?
– Tudo, o que manda professor?
– Pois tu sabes que amanhã é a entrevista do meu sobrinho para o serviço de vocês e eu precisava que vocês dessem a ele uma atenção especial. Sabe como é, certo?
– ……
– Alô?
– Professor, o que o Sr. quer dizer com “atenção especial”?
– Ora Sicrano, não se faça de desentendido. Você sabe como as coisa funcionam aqui na Universidade.
– Desculpe professor, mas eu não sei. Poderia me explicar, por favor?
– Veja o seu próprio caso. Foi admitido como professor em um concurso há pouco mais de um ano. Havia vários candidatos qualificados, tão bons quanto você. Todavia, foi seu o nome escolhido. Certamente você teve uma atenção “carinhosa” dos seus colegas de banca, não lhe parece?
– Não sei do que o Sr. está falando Dr. Fulano. Que eu saiba fui admitido pelos meus méritos e meu currículo acadêmico. Não tive nenhuma vantagem indevida para chegar chegar onde estou.
– Ora Sicrano, agora está sendo cínico comigo? Lembre de uma regra que é muito usada aqui: uma mão lava a outra. Não é muito saudável bancar o íntegro e o honesto comigo pois logo na esquina precisará também de um favor. Pense nisso. Você está recém começando; não construa uma carreira feita de inimizades e desavenças. Avalie com cuidado o meu sobrinho e muito obrigado.

CLIK

Nesse ponto aparece o Dr. Beltrano, jovem professor e colega do Dr.Sicrano.

– Que houve Sicrano?
– Não vais acreditar. Dr. Fulano me ligou agora pedindo explicitamente para avaliarmos positivamente a entrevista do seu sobrinho amanhã. O tom foi quase de ameaça. Que absurdo…
– Hummmmm
– Hum o quê, Beltrano?
– Vais arrumar uma briga com um velho professor por causa de um “detalhe” como esse? Que diferença faz para nós quem será o próximo residente? Para que criar essa animosidade e esse clima ruim? Pensando bem, uma mão realmente lava a outra e daqui a pouco podemos precisar de uma ajuda dele no conselho da faculdade. Diz aí, qual o nome do sobrinho?
– Não ouse…
– Credo, que radicalismo…

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Os rios de Brecht

No envelope amassado entregue pelo guarda, Zdenka consegue de imediato reconhecer a letra rude e a firmeza dos traços que ferem o papel produzidos pela caligrafia de Vladimir. Ao alto ele escreveu entre aspas:

“Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que o oprimem.” (Bertold Brecht)

Veja, minha amada Zdenka, esta é uma das mais belas frases e concepções que conheço, querida Zdenka. Vemos com facilidade a violência no assaltante frio, mas não enxergamos as amarras sociais invisíveis que o atam à bandidagem. Dizemos brutal o roubo da propriedade mas não dizemos desumana a privação de quem nunca a teve. Percebemos com clareza a brutalidade de um assalto, mas não saltam aos nossos olhos a injustiça de quem nada tem para perder. Por fim, acreditamos justa a punição de quem de nós algo subtrai, mas esquecemos de punir quem de todos expropria.

Theodor Luděk Novotný, “Řeky a jejich banky” (Os rios e suas margens), Ed Palmear, pag 135

Theodor Novotný é um escritor nascido em Praga, na República Tcheca em 1974, após a primavera de Praga e durante a dominação soviética. Toda a sua infância for marcada pela intromissão soviética no seu país e seus trabalhos iniciais – como “Flores para Vaklav” – se inseriam no retorno da autoestima do povo checo. A partir daí, e muito influenciado pela literatura de Milan Kundera, passou a se dedicar aos dramas psicológicos mais profundos, mas sempre com o pano de fundo das transformações produzidas pela Guerra Fria, pela queda do muro de Berlim e pela a implosão do “comunismo real”. Em “Os Rios e suas Margens” ele centra a ação em Zdenka, uma militante de esquerda acusada de conspirar contra os governos alinhados com o totalitarismo. Nos interrogatórios a que foi submetida ela encontra o prisioneiro Vladimir, um velho comunista ressentido que sofre pela desilusão e a derrocada de seus sonhos. Desse encontro surge uma amizade que perdura através de missivas, entregues pelos guardas de ambos os setores da prisão. No final, uma mistura de drama e comédia, ocorre o reencontro de ambos e brota uma mensagem de esperança surgida das cinzas de vidas esmagadas pela fidelidade aos ideais.

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Fuga da Venezuela?

Uma recente publicação (veja aqui) avalia os fluxos migratórios entre países da América Latina e a Venezuela é os achados brutos demonstram que mais brasileiros, argentinos e colombianos atravessaram as fronteiras em direção à Venezuela do que o oposto. Isso confronta diretamente a tese de que existe uma “fuga” maciça do “bolivarianismo venezuelano” e de que haja uma “catástrofe humanitária” ocorrendo com nosso vizinho. Uma recente visita de um alto funcionário das Nações Unidas desmente peremptoriamente a ideia de que haja uma tragédia em curso (veja aqui)

Mais uma pedra sobre a falácia da “crise humanitária” Venezuelana e uma prova cristalina da manipulação das informações que nos chegam através do cartel de mídias brasileiras. Isso lembra a Guerra Fria e os “informes de Moscou” onde tudo que chegava a nós sobre o comunismo era distorcido e manipulado. Felizmente hoje existe a Internet e os mecanismos de avaliação mais abrangentes do que efetivamente ocorre.

Crise humanitária? Um terço da população AMERICANA vive abaixo da linha da pobreza. O capitalismo está nos seus estertores, conforme a exata previsão de Marx —> o movimento do capitalismo é para a periferia deixando seus próprios países com um vazio de empregos, o que resulta em sentimentos ódio aos imigrantes e a eleição de “salvadores” populistas e proto-fascistas (como nos Estados Unidos). Os ricos ficam mais ricos com o pagamento mínimo de trabalhadores periféricos, mas com o tempo os produtos produzidos não podem ser mais comprados pelos trabalhadores desempregados ou descapitalizados. A crise é inevitável, mas a situação se mantém pela propaganda e pela obstrução (temporária) da verdade.

Os bodes expiatórios acabam sendo criados baseados em oportunismo e interesses, quando em verdade o problema é a própria estrutura capitalista da sociedade.

O capitalismo disfuncional termina por colocar o cidadão insatisfeito diante de um dilema: combater os fantasmas criados pelo capitalismo decadente (a corrupção, a criminalidade, os imigrantes, os petralhas, o comunismo, os sindicatos) que, apesar de existirem e muitas vezes serem problemáticos, NÃO SÃO a origem dos problemas estruturais pelos quais passamos, ou olhar para o envelhecimento e a senescência de um modelo de três séculos que mostra sinais de falência sistêmica. É mais fácil procurar a chave perdida sob a luz da lamparina do que procurá-la onde verdadeiramente se encontra: na escuridão dos modelos que valorizam o capital em detrimento do sujeito.

Enquanto isso nós continuamos a pregar em favor de um modelo doente terminal com argumentos saídos dos gibis do Capitão América.

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Rumos

Fatos que teremos de encarar nos próximos anos na atenção ao parto:

O modelo “um obstetra para uma gestante” está moribundo; é um doente terminal. Ele ainda sobrevive apenas a partir de 3 elementos:

  1. A indústria da cesariana
  2. O engodo do “parto normal se tudo der certo”, uma espécie de falsa propaganda criminosa.
  3. Meia dúzia de abnegados Kamikazes que aos poucos vão se aposentando, sendo excluídos, adoecendo, desistindo por exaustão e/ou desilusão.

“Não existe humanização do nascimento sem humanizar e proteger o trabalho dos cuidadores” já dizia meu colega Max há mais de 30 anos. O futuro aponta claramente para as “cooperativas” de parteiras profissionais ou para as Casas de Parto, com pré-natal coletivo e rodízio de cuidadores para atenção no momento do parto. O resto cai nas possibilidades acima.

Quando terminei meu sacerdócio pela humanização estava atendendo 80 pacientes por ano, o que ultrapassa em muito o número de excelência e qualidade. Não tinha férias tranquilas, nem descanso garantido e sequer paz de espírito em função do bullying. Portanto, o trabalho em equipe colaborativa não se trata sequer de uma escolha a ser dada aos pacientes, mas uma imposição para os próximos passos da atenção ao parto.

O tempo dos abnegados e daqueles movidos por pura paixão está no fim. Aceitemos isso e humanizemos (também) os humanizadores.

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Adição

Diante de qualquer uma das múltiplas faces dos transtornos mentais, da ansiedade à depressão, o que mais se ouve é “você precisa de remédios“, e não o oposto. Não acredito que as pessoas pesadamente adictas aos remédios psiquiátricos sofram discriminação, mas sei o quanto é difícil ser diferente numa sociedade normótica.

Manifestar-se contrário à adição medicamentosa é situar-se numa posição contra hegemônica em uma sociedade que coloca fora do sujeito (coisas, drogas, dinheiro, parceiros) a conquista da felicidade. Mas a saúde cobra caro por essa atitude endorcista. Prince e Michael Jackson morreram por tomar remédios que se compram em farmácias. Milhões de crianças estão usando Ritalina nas escolas enquanto muitos outros milhões tomam antidepressivos para ansiedade e para depressões saudáveis (como o luto). Não parece que estamos usando drogas para curar a ferida de um estilo de vida doentio?

Assim, pedir bom senso no uso de drogas e solicitar que não se abuse delas para patologizar a vida normal é um desejo justo, além de ser urgente. Como já foi dito, isso não significa negar medicação para as raras situações onde ela é mandatória, mas reconhecer que seu uso quase sempre ocupa o lugar de algo que não foi dito ou para ilusoriamente secar uma ferida que se mantém aberta esperando o sopro da palavra.

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Escravidão

Queria ver você ser assaltado, com uma arma na cabeça, no Complexo do Alemão. Mudaria de opinião sobre a intervenção“.

Se eu fosse assaltado no Alemão tudo que eu faria era me convencer ainda mais que matar assaltantes ou prendê-los em NADA soluciona o problema. Infelizmente foi nos governos do PT que aumentamos ainda mais o encarceramento da população pobre e isso não resultou em nenhum resultado positivo. O mesmo aconteceu com o encarceramento em massa no governo Clinton com os famosos “Three Strikes”. Um crime terrível contra a dignidade humana, que até Clinton reconheceu.

Mandar prender é muitas vezes necessário diante de atentados ou ameaças à vida, e nenhum sujeito de esquerda ignora isso ou defende o oposto. Entretanto, não passa de pura raiva de pobres e negros a ideia de curar a ferida social da criminalidade deixando se alastrar esta ideologia punitivista. É agir com sentimento de vingança, sem se dar conta das razões que levam milhares de jovens a se tornarem bandidos ou contraventores.

É curioso, porque todos que vociferam pelas armas e pelo extermínio um dia assistiram Robin Hood ou Cidade de Deus e perceberam a sedução que a criminalidade produz no jovem, humilhado crônico, envolto num mundo de consumo em que o valor máximo da vida social lhe é sonegado. Por que na ficção é mais fácil entender?

Precisa muito ódio e desumanização para não enxergar que exterminar jovens negros e pobres – que lutam com as únicas armas que possuem para vencer na vida – é um ato tão criminoso quanto o que eles praticam.

E, por favor, não me venham contar das exceções de jovens que venceram se comportando como os patrões brancos e ricos queriam. Essas histórias são usadas apenas para refrear o ímpeto de mudança. Não passam de um bilhete de loteria, uma esperança tola que guardamos de que a vida possa se transformar sem enfrentamentos. Não duvido que, durante a escravidão legal no Brasil, muitos senhores de escravos contavam histórias de negros que eram tão prestativos e leais que acabaram recebendo alforria como presente. E muitos negros acreditaram que calar sua indignação era a conduta mais justa e correta. Para estes eu digo que “A vida é luta renhida e viver é lutar. A vida é combate que aos fracos abate e os fortes e bravos só pode exaltar.”

A sociedade não muda como mágica. Ela se transforma e transmuta, com suor e luta.

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Função Paterna

Há alguns meses, falando sobre os condicionantes sociais da criminalidade citei um estudo que mostra que 70% da massa carcerária de homens no Brasil é composta de sujeitos sem a figura paterna constante em suas vidas. Realmente, faz sentido para mim este achado; falta um pai na vida dessas crianças. A mesma análise agora foi feita com os massacres nos Estados Unidos demonstrando que a ausência de um modelo masculino paterno está presente em todos os perfis psicológicos dos personagens por trás das armas.

A volatilidade dos relacionamentos contemporâneos e a facilidade dos divórcios e separações, associados com uma maior independência das mulheres – mudanças culturais com inegáveis aspectos positivos – tiveram como parefeito o aparecimento de um número maior de crianças que crescem sem a presença de um pai em suas casas.

A ausência dessa figura junto com outros fatores como a violência urbana, o capitalismo, a banalização das armas e a competitividade estimulada nas escolas podem estar na origem dos surtos de violência como os que temos testemunhado na América do Norte. Além disso, algo também precisa ser feito com os meninos dentro de um sistema escolar que é conduzido por mulheres e direcionado para as meninas, e não para os garotos. Ser “garoto” na escola é ser um potencial foco de problemas.

O estilo de vida ocidental nos levou a que um número crescente de crianças crescem sem a figura paterna. Não é a separação do casal a origem do problema, mas suas consequências. Entretanto, a ninguém ocorre achar que a solução seja manter juntos casais que não mais se amam. Esse tempo de prisão “em nome das crianças” já passou.

Como presenciei muitos casos de alienação parental em minha vida pessoal e profissional e sei o quanto é duro ver homens expulsos do afeto de uma criança pela voz da mãe. Apesar de achar que a maioria dos casos é mesmo por imaturidade e irresponsabilidade dos homens, não penso que a alienação paterna possa ser desconsiderada.

Por outro lado, não é à força que se constrói um pai. Ser um bom pai é um processo transgeracional; se o indivíduo não consegue se sentir nessa função não há nada que se possa fazer. Claro que podemos obrigá-lo a pagar suas obrigações econômicas e fazê-lo cumprir as determinações de visitas, mas sabemos que não é isso que significa ser pai. É bem mais do que dinheiro e presença física.

Mães deixadas à própria sorte para cuidarem sozinhas dos filhos são sempre um desafio complexo. Não apenas as questões materiais contam, mas também as emocionais. A sensação de onipotência de uma mãe (até um pai) que cria uma criança(s) sozinha é fabulosa. Não há contraponto, nem contraditório. Sua voz é TODA a autoridade que a criança tem. Isso pode representar uma sedução muito grande e representar um elemento não visível na alienação parental. “Ele (ela, raríssimas vezes) nunca vem visitar os filhos.”, ou “Ele(a) sempre volta chorando da casa do pai”. Sempre que escutei estas frases de mães separadas eu me perguntava – em silêncio – o quanto disso era falta de desejo do parceiro e quanto havia de obstrução simbólica por parte da mãe. Difícil saber.

Sejam quais forem as razões (abandono ou alienação parental) a verdade é que a falta dessa função (mais do que dessa “figura”) está implicada em todos os casos de massacres produzidos por jovens rapazes americanos. É preciso proteger os meninos que, por serem homens e tratados como “privilegiados” (com o que discordo, mas esta é outra discussão) são frequentemente negligenciados. A falta do pai é um dos principais elementos ligados ao crime e à contravenção e uma especial atenção precisa ser devotada a essa lacuna de formação nos próximos anos. Para o bem de toda a humanidade.

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Vida Privada

Alexander Soljenitsin avisava em “Arquipélago Gulag” que a investigação da vida privada dos cidadãos pelos órgãos de informação do Estado não ocorria para encontrar crimes e responsabilizar corruptos, mas para criar uma lista de possíveis fragilidades (financeiras, sexuais, familiares, etc) da vida pessoal de sujeitos comuns para que fossem usadas contra eles caso ousassem desafiar o poder estabelecido.

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Propina

Os médicos moralistas e conservadores acham um escândalo que um político receba presentes de empreiteiras mas passam a vida recebendo amostra grátis, canetinhas, jantares, viagens, tablets, passagens aéreas e convites para congressos pagos pela indústria farmacêutica, e tudo isso sem a menor cerimônia. A corrupção é sempre um problema dos outros.

Sheldon McGuinitty, “Corruption by prescription”, Ed Alteros, pág. 135

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Doulas da Morte

Recebi hoje a ligação de um amigo de mais de 4 décadas que me fez refletir sobre uma questão muito relevante. Gostaria que algumas pessoas pudessem contribuir para estas ideias que me parecem importantes.

Esse amigo perdeu um familiar há poucas semanas vitimada pelo câncer, após uma luta longa e cansativa. Agora volta a se ocupar desta questão com a internação da mãe, também acometida da mesma afecção. Durante os cuidados de hoje com a mãe percebeu que a paciente da cama ao lado era uma jovem mãe em tratamento contra uma neoplasia, e imediatamente lhe veio à mente as inúmeras lembranças do caso de sua irmã que havia há pouco falecido. Ao conversar com essa moça (não tinha mais de 40 anos) percebeu que ela e seu marido estavam passando por fases de adaptação à doença semelhantes àquelas que reconheceu em sua irmã. A empatia com eles foi imediata. Alcançou-lhes alguns livros que dispunha, trouxe palavras de estímulo, abriu espaço para reflexão e ofereceu seu tempo para ajudar, se eles assim o desejassem.

Meu amigo ainda tinha coladas, na parede da memória recente, as imagens das lutas e dilemas pelos quais passou nos últimos anos no enfrentamento da inevitabilidade da morte.

Foi então que se lembrou de mim e resolveu ligar. Disse ele:

“Querido amigo, acompanho sua luta pelo parto humanizado e, em especial, pelo modelo das doulas. Pelo que sei elas são mulheres (grande maioria) que ajudam outras mulheres no processo de passagem, um rito milenar que as transforma de mulheres em mães através da gravidez e do momento mágico do parto. Parece mesmo que o humano, diante das suas passagens inevitáveis, carece do suporte carinhoso a lhe minorar as dores e agruras do processo. Por isso queria lhe perguntar algo que me parece relevante no meu atual estágio de vida”.

Nesse momento eu já intuía o que estava por ouvir, e meu coração já se encontrava em sintonia e concordância com sua iniciativa. Ele continuou:

“Se é verdade o que os estudos nos falam sobre a eficiência das doulas na passagem do parto, por que não seria possível admitir que o mesmo principio fosse positivo se aplicado em outra “passagem”, a morte, o desencarne, a fronteira final? Não seria interessante criar uma “doula para a morte”? Não seria interessante capacitar pessoas comuns que pudessem ser um auxílio NÃO técnico, não psicológico, não médico e nem de enfermagem para dar suporte afetivo, psicológico, espiritual e social àqueles que estão próximos do fim da vida física?”

É claro que a ideia me cativou, e por isso convido os amigos que façam um input de sugestões ou críticas a esta proposta para que possamos saber o que seria possível fazer nesse sentido.

Quem gostaria trabalhar como doula nesta outra ponta da vida?

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