Satisfações

O grande problema é que Moro (mas também o MP) não responde a ninguém, não presta contas ou satisfações. O poder de tais atores sociais é perene e inquestionável. E não adianta falar do STF porque ele deu mostras de acovardamento e pequenez, tanto hoje quanto em 1964, quando poderia ter agido e se calou. Qualquer órgão defensor da constituição em um país civilizado teria dado um basta sonoro ao juiz de Curitiba quando da divulgação das conversas privadas da presidente ou quando da condução coercitiva ilegal de Lula, que tinha como objetivo humilhar e colocar o ex presidente de joelhos. Deu xabú, como sabemos, mas poderia ter ocorrido uma tragédia em Congonhas.

Ele pode fazer o que quiser, até traição à pátria. Os fascistas normalmente raciocinam assim (e não apenas nesse caso): “Ah, não importa o modo como foi feito, o importante é que….”, e aí você acrescenta a sua ideologia, normalmente de caráter autoritário e fascista. O teste – para todos nós – é quando você defende o Estado Democrático de Direito MESMO QUANDO o ordenamento jurídico pode lhe prejudicar.

Não esqueçam que esses funcionários públicos, quando impunes, usurpam naturalmente do seu poder e as consequências são óbvias, como a criação de monstrengos como as “10 medidas“. Oferecer a qualquer um poderes acima da lei nos faz retornar ao absolutismo medieval, mas parece que esse modelo ainda seduz muitas mentes primitivas.

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Monstros

“Ele não passa de um monstro”

A solução fácil para resolver o problema é considerar que os sujeitos que cometem estes crimes não são pessoas. “Sim, eles são monstros, não podem ser considerados como nós”. O fascismo é um produto numa prateleira de supermercado ao alcance de nossas mãos.

Aliás, a liberalidade como matamos durante toda a história os nativos das Américas (norte, sul e central), os judeus na Europa e os Palestinos sempre se faz com argumentos desumanizantes. Torná-los monstros não-humanos (como cães) nos desobriga de exercitar qualquer empatia. A partir desse artifício podem ser eliminados como uma ninhada de gatos inoportunos.

Ainda soa para mim com sentido a máxima de Terêncio. “Sou humano, e o que é humano não me é estranho”. Existe dentro de mim a fagulha das maiores genialidade e a das piores monstruosidades humanas. O que faz uma delas brilhar é, muitas vezes, algo completamente alheio à minha decisão. Colocar estas pessoas num estrato inferior ao nosso é um crime muito pior do que o que ele mesmo cometeu, pois aquele crime solitário prejudica um punhado de pessoas, enquanto desumanizar pode colocar milhões em risco, como a história nos mostrou reiteradas vezes.

A demonização dessas criaturas e a retirada de suas características humanas – sua história, seus motivos, suas angústias, seus medos e suas fragilidades – é a face mais horrenda deste fato. Eu esperava mais compaixão por todos e não apenas por aqueles cuja identificação é simples e automática. Entender o algoz e seu drama também faz parte do processo, mesmo reconhecendo que “entender” não significa “inocentar“.

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Real Threat

Eu concordo com Chomsky…. a Coreia do Norte não é uma ameaça ao mundo; os Estados Unidos o são. Minha opinião sobre as bombas produzidas e lançadas pela Coreia do Norte é a seguinte:

“The only reason North Korea still exists is the fact the they are able to built atomic artifacts and spend more than half of their GDP on the military (like the US). Don’t forget that 60 years ago 1/3 of their CIVIL population was killed by American bombing. 1 out of 3 people – like you and me – were killed by Americans. Wouldn’t you create any possible device to protect you and your people for the next attack?

Last year USA bombed 7 different countries, with 26 thousand missiles, in search for oil. One million Iraqis were killed in the American invasion; thousands are being killed in Afganistan, Libia and Syria. Why would americans preserve North Korea from complete “free market” destruction?

The missile launched is a warning. If America attacks North Korea millions will die. But the question is: in those 60 years how many countries were attacked by this tiny asian country?

If you were a North Corean, wouldn´t you do the same to protect your country and your family?”

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Ripples

A primeira vez que fui ao Rio meu filho tinha 1 ano e meio de vida. Entrei com ele e sua mãe em um ônibus para Botafogo e fomos assaltados antes mesmo de sentar, quando o ônibus se preparava para sair. Três garotos entraram e um deles puxou da cintura um revólver. Roubaram meu relógio e uns cruzados. O valor corrigido de ambos não passaria hoje de 50 reais, mas foi a primeira vez que sofri um assalto e uma ameaça dessa forma. Eu tinha 23 anos na época.

As vezes penso que os três meninos meliantes já morreram, o que é bem provável. Eles tinham entre 15 e 18 anos. Pretinhos, mirradinhos, bonitos. Não houve nenhum contato e sequer violência física, mas fui atingido no peito por uma sensação de fragilidade e impotência. Eles apenas ordenaram: “Passa o relógio e o que tiver no bolso“. Só isso.

A lembrança desse fato voltou à minha memória hoje. O roubo em si foi insignificante, mas o que me incomodou durante semanas foi o estrago que produziu em mim. A raiva, a sensação de impotência, o susto, os dentes trincados, os desejos de vingança e o pensamento fixo na cena me acompanharam por vários dias. Como uma pedra jogada em um lago que produz ondulações por muito tempo. Lembro de ter visto os mesmos sentimentos destrutivos muitos anos depois no rosto de um colega anestesista que havia sido assaltado nas férias. O orgulho de macho ferido, a impotência, o ódio, a raiva, as expressões malignas eram todos muito piores que as bugigangas e os poucos pilas roubados.

Estas lembranças me atingiram porque quando ocorre um fato brutal – como as agressões às mulheres dos últimos dias – as reverberações destes eventos são horríveis e continuadas. O fato se repete todos os dias em muitas outras mulheres que despertam suas dores antigas, as quais cumpre extravasar, numa catarse que as redes sociais amplificam de forma intensa e dolorosa.

Não me cabe questionar a validade destes relatos, pois talvez a expulsão destes demônios a partir de um fato alheio possa ajudar as vítimas cujas vozes se calaram. Todavia, me resta lamentar o quanto de dor ainda produzimos nesse planeta, e o quanto ainda se mantém guardado e calado dentro de tanta gente.

Espero somente, solitário em minhas fantasias, que os três garotos cariocas que um dia encontrei do lado oposto de uma arma sejam hoje homens de valor, pais, parceiros, amigos, talvez avós como eu. Espero que tenham encontrado uma saída para suas vidas, assim como espero que a dor que emerge de tantas mulheres que sofreram nas mãos de seus algozes sirva para que um dia tenhamos plena consciência da importância de respeitar a todos.

Não são esperanças tolas.

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Betting on Zero

Há 25 anos eu fui convidado por um grupo de colegas do hospital onde eu trabalhava para participar de uma reunião a respeito de um “novo modelo de negócios” que poderia render milhões. Alguns colegas foram, eu não. Não acredito, inclusive hoje, que eu poderia vender coisa alguma na vida; seria uma tremenda perda de tempo. O mais entusiasmado entre eles era um colega pneumologista, que voltou da reunião absolutamente apaixonado pela ideia, e completamente envolvido pelo clima da proposta.

A reunião era da Amway, uma ideia “revolucionária” onde você não precisava vender nada, apenas convencer outras pessoas a vender por você. Você seria um gerente, um coordenador de equipe, o cabeça, o organizador. O chefe. O que poderia ser mais sedutor?

A regra do sucesso? Nunca desistir, mesmo quando parece estar fracassando. O método de convencimento? Ora, ainda hoje é usado por igrejas no mundo inteiro: a promessa da redenção. Lembro de encontrar meu colega uns dias depois e dizer a ele que este modelo se parecia demais com uma “pirâmide”, e que não seria possível em um modelo como esse que todas as pessoas se beneficiassem. “Não é uma questão de de talento ou empreendedorismo, mas de matemática”, expliquei a ele.

Ele ficou furioso com a minha observação. Sua resposta foi:”Eu estava enganado quanto à sua capacidade de se envolver em um negócio maravilhoso como este, mas agora estou desconfiado da sua capacidade intelectual“. Essa é a resposta óbvia de alguém que “viu a luz” em uma espécie de viagem astral e não aceita que outros não a tenham visto. Meu colega levantou-se e saiu indignado da sala.

Nunca mais falei sobre ele sobre esse episódio e alguns meses depois eu mesmo saí do hospital. Quando encontrei um amigo em comum muitos anos depois lhe perguntei se o nosso amigo ainda estava envolvido no “negócio” para o qual tinha nos convidado. Meu colega respondeu que ele havia abandonado um ano depois e que foi “uma grande decepção, a qual não gostaria de comentar”.

Digo isso apenas porque ontem assisti o documentário da Netflix “Betting on Zero” e achei muito bom, pois me parece um documentário que fala mais do que o gigantesco modelo de negócios e sonhos da Herbalife, mas vai além e nos faz questionar as bases do capitalismo: a ilusão disseminada de que, se você tiver méritos e resiliência, poderá ser um vencedor, mesmo quando as regras do jogo são predeterminadas e na sua mão jamais haverá cartas boas para apostar. O capitalismo está na estrutura filosófica que sustenta estes negócios através da promessa escatológica de redenção.

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Psicólogo

“Psicólogo é o sujeito que ousa chegar na beirinha para olhar o abismo de todos nós.”

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Ricos

“Não creio que os ricos tenham um comportamento social diferente por um defeito de caráter ou uma perversidade inata da alma. Esta é uma questão cultural. Vejam que eu aqui uso “rico” para me referir ao sujeito que anda com seu próprio avião e coleciona Porsche, e não o que popularmente chamamos assim, apenas porque tem uma casa bonita e um carro novo. Seu comportamento diferente de nós não se dá por  uma questão essencial, mas a compreensão de que o acúmulo de poder em forma de capital – em especial desde a mais tenra idade –  faz com que os absurdamente abastados vivam em um mundo à parte, com seus valores próprios, onde os outros não possuem o mesmo valor que eles se atribuem, por isso mesmo se escondem no Olimpo gradeado onde vivem. Sequer as coisas que seu muito dinheiro compra valem o quanto sentimos que valem, em nosso mundo de valores poucos.

Por isso acredito que a riqueza, assim como a pobreza, a beleza extremada e até a delicadeza são fardos que o sujeito carrega, por mais estranho e paradoxal que isso possa parecer. Se possível fosse, pediria antes de chegar a este mundo que não recebesse o fardo da beleza, para não sucumbir à vaidade e à puerilidade. Também não gostaria de ser rico para não tratar meus iguais como coisas etiquetadas, retirando deles todos sua condição humana. Pediria que a delicadeza fosse temperada com pitadas generosas de força para não correr o risco de sucumbir aos baques do mundo por faltar-me a força e a energia. Em suma, pediria que estes fardos fossem aliviados para que nenhum deles fosse capaz de obstruir a tarefa de conquistar a humildade.

Nunca esquecerei da frase enigmática que o meu pai disse quando eu estava em plena adolescência e na angústia natural de conseguir dinheiro e independência: “Se quiseres me destruir basta me dar 1 milhão e estarei arruinado“. Para mim sua frase parecia totalmente incompreensível, mas hoje, ao ver diminuir paulatinamente o valor monetário de qualquer coisa ao meu redor, sua frase pode, finalmente, fazer sentido.”

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Tarefas domésticas

Zeza me lembrou dessa historia de mais de 30 anos passados.

O cenário era de filhos pequenos, pouca grana, muito trabalho, tarefas domésticas sendo divididas dentro do possível, numa adaptação difícil (em especial para mim) do modelo patriarcal que estruturou nossas próprias infâncias. Plantões de ambos os lados, noites fora de casa, louça se acumulando para lavar.

Diante da gravidade da situação, lá vou eu lavar a pilha indecente de louça. Da janela da cozinha vejo a vizinha, já falecida, me alcançando com os olhos por cima do muro.

Parabéns, doutor. É isso mesmo. Muito bonito mesmo. Tem que ajudar em casa. Gostei de ver. Assim é que se faz. Que lindo!!

Sorri encabulado para ela enquanto dei uma piscada para Zeza. “Viu como elas me valorizam?“, brinquei.

Dois dias depois chego em casa do hospital e me atiro no sofá. Desta vez Zeza estava na pia lavando a louça quando me viu. Ao lembrar da cena de alguns dias antes, não perdoou. Abriu a janela da cozinha e gritou:

Vizinha, não perde essa. Olha eu lavando louça. Também quero elogio!! Vem aqui ver!! Olha como sou maravilhosa!!!

Gritava na janela e se finava de rir. Eu entendi a crítica aos padrões sociais e às expectativas de gênero e me associei às risadas. Nós homens somos elogiados por fazer o mínimo enquanto o trabalho doméstico para a mulher “não passa da sua obrigação”. Não se trata de criticar o elogio, mas de reclamar do silêncio diante de um trabalho tão duro quanto invisível.

Concordei com a lição e a queixa, mas deixei Zeza lavando a louça. Afinal, era o dia dela.

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Fogo amigo

“Algumas pessoas que aparentemente se situam no espectro da humanização divulgam – com especial ênfase e alarde – notícias de punições a parteiras por erros cometidos. Eu posso entender a importância da autocrítica dentro de qualquer movimento social, do combate ao racismo ao feminismo, passando pela defesa LGTB e pela humanização do nascimento. O que eu tenho dificuldade de entender é o sentido de engrossar o coro das forças conservadoras que procuram qualquer brecha para destruir um movimento frágil e iniciante como o nosso. Certamente que a motivação é pessoal, mas ainda assim eu me assombro com a intensidade e a crueldade que testemunho em algumas manifestações.

Dos cesarianas eu posso entender a violência, mas o “fogo amigo” sempre me pega de surpresa.”

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Culpa e responsabilidade

Quando analisamos o papel da maternidade na cultura humana e sua importância central podemos nos defrontar com questões controversas. É verdadeiro o peso desproporcional que recai sobre as mães pela sua condição e também a necessidade, diante do fim dos papéis sociais fixos, de redistribuir as responsabilidades que o casal tem em relação ao cuidado parental. Porém, é importante refletir sobre os significados desse peso. Se você olhar pelo lado da culpa tudo fica pesado e doloroso, mas se você olhar pelo viés da responsabilidade, a mãe é efetivamente o canal por onde a criança é introduzida ao mundo da linguagem.

Ontem eu estava contando uma história para o meu neto quando ele me interrompeu e disse: “Mas nesse lugar não tinha aranhas, né? É que eu tenho medo de aranhas. Eu e a minha mãe…”

Na verdade a mãe dele é que tem medo de aranhas e ele se identifica com seus sentimentos. As crianças sempre produzem essa conexão violenta e libidinal (originada da altricialidade) com a figura da mãe, que Freud chamou de Complexo de Édipo. É sobre essa relação intensa, amorosa e criativa que se estabelecem os fundamentos do psiquismo humano. A mãe é, portanto, o centro constitutivo da vida emocional da espécie. É natural que recaia sobre ela a responsabilidade (não a culpa) de construir o mundo afetivo das crianças, seus filhos.

A visão estrutural humana solidamente construída pelo amor primordial entre um bebê e sua mãe – e o amor que ela lhe dirige em contrapartida – nunca foi suplantada como chave essencial para compreender o desejo humano. Não acredito que seja possível aliviar o “peso da maternidade” retirando das mães a responsabilidade de serem as construtoras de mentes, introdutoras da linguagem e até mesmo aquelas que oferecem um pai ao seu filho – pai que um dia poderá resgatar esta criança das garras mortais do amor materno.

Não vejo sentido em “pegar pesado” com os autores que reconhecem a importância da mãe no sustento psíquico das sociedades humanas. Entretanto, se este valor feminino fosse extinguido, levando às últimas consequências a “liberdade da mulher”, teríamos uma sociedade sem esse peso em suas costas, mas talvez sem amor suficiente para que a própria espécie pudesse sobreviver.

É de Freud a frase:

A maior função de uma mulher é ensinar seu filho a amar. A maior função de um homem é livrar seu filho de ser consumido pelo amor materno“.

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