Morrer

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A face atual da medicina é como a de uma mulher eternamente insatisfeita com sua aparência. Pela impulsividade de seu desejo não interdito submete seu corpo a inúmeras cirurgias plásticas em sequência, as quais obedecem à lógica de consertar o que antes era – ou parecia – falho ou insuficiente. Quem com ela convive no cotidiano não percebe plenamente a intensidade da desfiguração; entretanto, quem a encontra depois de algum tempo, percebe que pouco restou da pessoa de outrora.

Existe um texto de Eliane Brum  (vide aqui) que é uma tocante descrição da morte, o morrer e suas circunstâncias. Fala do poder absoluto dos médicos e sua frieza arrogante. Descreve a insensibilidade dos profissionais que tratam da passagem sem a devida consideração das histórias e falas das quais somos feitos. Deixa clara a necessidade de mudar o médico e sua formação, para que o morrer seja reintegrado à vida e a entrada no mundo dos espíritos seja carregada de respeito e dignidade.

Infelizmente Eliane ainda não percebeu que mudar os médicos é INÚTIL e INEFICAZ se não houver ao mesmo tempo uma mudança nos pacientes. A sociedade forma os médicos que deseja e cultua. A frieza médica é ADMIRADA pelos pacientes; sua fala pretensiosa é valorizada e venerada. Ou, como se dizia no meu tempo: “Ele é um cavalo, mas um excelente médico”.

“Como assim?“, pensava eu, entre ingênuo e idealista. Era importante reconhecer que os médicos não vem de outro planeta; nem os políticos. Médicos e políticos são construções sociais. Temos os profissionais que merecemos e desejamos. O médico que agir em uma UTI – como pedem aqueles que desejam uma medicina mais humana – será destruído em pouco tempo, e pelos próprios pacientes cuja humanidade tenta defender. Não podemos ser ingênuos de propor mudanças em apenas um lado do muro; estas precisam ocorrer na CULTURA para só depois verter para as ações cotidianas.

Sobre isso lembro de uma história de minha época de escola médica. Havia um senhor da Santa Casa que estava em estado terminal há várias semanas. Inconsciente, velho, emagrecido e fraco. Recebia visita de uma filha apenas. Mulher pobre, morava em uma cidade vizinha e pegava duas conduções para vir ao hospital apenas para ver o pai-objeto como carne inerme sobre a cama cuja pintura descascava sem dó. Em uma das visitas eu estava ao seu lado quando confrontou o médico responsável. Disse-lhe que a situação do pai era injusta, que era crueldade mantê-lo naquele estado e que seria muito mais decente “acabar com seu sofrimento”.

Os rodeios eram inevitáveis ao falar de uma morte que era desejada, mas cuja expressão era constrangida. O médico, entretanto, foi duro. “Enquanto houver uma centelha de vida lutaremos por ela“. Despediu-se secamente e foi-se embora, deixando a pobre mulher comigo no corredor.

“São uns animais insensíveis“, disse ela secando as lágrimas.

Uma semana depois o velho pai desencarnou e encontrei o médico atendente na enfermaria. Ele me contou que a senhora, filha do paciente que faleceu, veio ao hospital e ao encontrá-lo o acusou de ter “matado” seu pai. Disse que foi negligente, irresponsável, um verdadeiro assassino. Disse também, como ameaça final, que iria à polícia e ao CRM.

“Por que ela agiu assim, a mesma mulher que uma semana antes pedia por um fim digno para o seu pai?” perguntou meu colega.

“Culpa”, respondi. “Alguém deveria pagar pela culpa que ela sentia por desejar a morte do próprio pai. Nada melhor que o médico que funciona como um “comedor de pecados”. É uma atitude devastadora para os profissionais, mas muito mais comum do que gostaríamos.”

Ele completou:

“Você tem razão, por isso mesmo é necessário entender as atitudes dos médicos também através desse prisma. Agimos como robôs insensíveis, mas assim o fazemos como uma forma de proteção“.

Se todos os familiares fossem sensíveis e compreensivos diante das perdas seria fácil ser humano diante da morte de um paciente. Mas eles não são…

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Privilégios

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Acho curioso quando alguém, para provar seus méritos, me diz: “Sou de família pobre. Meu pai era marceneiro”, sem se dar conta de que o fato de ter uma família e – mais ainda – ter um pai do qual se lembra já é uma gigantesca vantagem sobre os milhões que competem com você por um lugar ao sol e que não tiveram uma família, muito menos a oportunidade de conhecer o próprio pai.

Kyrylo Ustalov, “Sobre cercanias e distâncias” Ed. Stingray, pag. 135.

Kyrylo Ustalov nasceu em Makeva em 1890 e foi o irmão mais novo e de caráter conservador de Dimitri Ustalov, que foi um poeta e ensaísta Ucraniano nascido 4 anos antes, em 1886. Dimitri foi o líder do grupo literário “Os renegados” que lançou o jornal de poesia e crítica chamado “Удар в обличчя” (Patada na Cara, em tradução livre). Já Kyrylo uniu-se a “Juventude Católica da Ucrânia” e passou a frequentar seminários de ensinamentos bíblicos. Nesta época uniu-se ao URP (Partido Republicano da Ucrânia) e escreveu seu primeiro livro de caráter político “Obediência e Fé”, onde mostrava a importância dos valores familiares, assim como o significado da fé como guia dos valores políticos e sociais. “Sobre Cercanias e Distâncias” foi escrito quando estava servindo no exército e combateu as forças revolucionárias anarquistas na guerra civil.

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O jaleco cabo eleitoral

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Lembro da história de uma paciente antes da eleição de 2014 que, acompanhada do marido, consultou na emergência da Santa Casa. Logo que entraram na sala a médica lhes perguntou: “Vocês já sabem em quem votar, não?” Eles disseram que tinham candidato mas que esse era um assunto privado e que não cabia conversar em uma consulta médica. Talvez por isso mesmo a médica começou a disparar impropérios contra Dilma e porque deveriam destruir o PT e votar no Aécio.

A tudo isso escutaram em silêncio. Aguardaram a chegada do resultado dos exames, ouviram as explicações sucintas e se despediram. Não se passaram mais de 30 segundos após saírem e ela volta, coloca a cabeça pela fresta da porta e fala, com a voz um pouco mais alta do que deveria: “Saiba que vamos votar no PT, principalmente por causa de pessoas como você!!!!“

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Honestidade

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No excelente documentário “(dis)Honesty, the truth about lies” – (des)Honestidade, a verdade sobre as mentiras – o ponto alto e engraçado ocorre quando uma senhora da plateia pergunta ao pesquisador se nas suas investigações constatou-se diferença entre homens e mulheres no que diz respeito à honestidade. Sua resposta foi excelente:

– Sim, existem enormes diferenças, e a grande diferença observada é que apenas as mulheres fazem essa pergunta. Mas… nos testes realizados nunca se observou o fato de um gênero mentir mais do que outro.

Pensei agora que praticamente todas as virtudes, qualidades, vícios e defeitos humanos teriam o mesmo resultado, incluindo a agressividade. Por isso me irritam tanto as análises essencialistas, que dizem que as “mulheres são menos isso do que os homens” e vice versa. Talvez existam alterações hormonais que determinem comportamentos diferentes entre os sexos (o fator testosterona, por exemplo), mas não acredito em NENHUMA qualidade MORAL que sobre em um e esteja faltando no outro.

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História Fabricada

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Acabei de descobrir, em uma postagem do prof Luis Felipe Miguel, que a frase “Quem gosta de miséria é intelectual” não é de Joãozinho 30, mas do jornalista Elio Gaspari, que a colocou na boca de Joãozinho em uma entrevista fabricada. Esta era uma estratégia do velho jornalismo: criar fábulas, entrevistas inexistentes (mesmo que baseadas na verdade) e depois apresentar aos entrevistados para que concordassem. É claro que nem todos os jornalistas agiam desta forma, mas a esperteza destes velhos jornalistas me chamou a atenção.

Por outro lado eu lembro de uma história (ou lenda) de que um dos primeiros empregos do Woody Allen foi criar frases inteligentes e espirituosas para serem proferidas – com falsa originalidade – por atores de Hollywood, celebridades emergentes e políticos americanos. É provável que muitas reputações na época tenham sido forjadas por este artifício. É possível também que muitos “grandes” jornalistas do passado usavam estratégias deste tipo; talvez fosse mais usual do que imaginamos. Imensas entrevistas prontas eram entregues ao “entrevistado” apenas para conferência. Mentiras que se eternizaram pela criatividade de quem tinha a atribuição de (d)escrever a história.

E as biografias históricas de personagens do passado distante, escritas pelos colunistas sociais da época? Que verdades podemos retirar de tais textos? Quantos canalhas perversos recebem estatuto de santidade hoje em dia por histórias fabricadas dessa forma? Quantos sujeitos íntegros foram destruídos em vida, e após ela, por estas artimanhas?

Eu também não sabia da real autoria da frase sobre os intelectuais e a miséria e jurava que a frase era de Joãozinho 30.

A propósito de Woody Allen, ele escreveu um conto em que o presidente dos Estados Unidos diz a um assessor direto:

– Quando estivermos em reunião mais tarde pergunte-me “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”. Entendeu?

– Mas por que essa pergunta, senhor, indagou o assessor surpreso. 

– Ora, porque tenho uma ótima resposta: “Ideal para que alcancem o chão”. Não é maravilhoso?

Eu sempre interpretei essa piada do Woody Allen como um resquício do tempo em que ele fazia exatamente isso para políticos,  celebridades e atores. Entregava uma piada pronta, ou uma observação espirituosa, e pedia para alguém servir de “escada” para que fosse dita em público.

Isso não é a história sendo descrita ou contada; é a história sendo fabricada.

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Muito Mais Agressividade

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MMA não me parece esporte, por nenhum ângulo que eu procure observar. Para mim é apenas um processo contra-civilizatório típico da permissividade contemporânea de uma sociedade histérica. Não esqueçam que o boxe, com sua fidalguia, suas regras, luvas, protetores e protocolos foi exatamente o processo civilizador aplicado à pancadaria. Agora achamos que isso é bobagem e que o que vale mesmo é a carnificina, o sangue, a dor, o desmaio, a concussão cerebral, os narizes quebrados e as lesões cerebrais destrutivas e insidiosas. Sem capas, sem véus; a dor explícita e o sangue rubro, brilhante e verdadeiro jorrando na cara de uma turba ávida de violência explícita. Os gladiadores modernos entregando sua vida por instantes fugazes de glória encontram no caminho frustração, dor e martírio. Todavia, jamais perdem a esperança de vestir o cinturão cobiçado.

Para além das incapacitações permanentes não são poucos os casos de morte pela prática de esportes de luta. A regra é ficar no limite máximo do peso da categoria. Imediatamente após a pesagem volta-se a comer (e se come no máximo tolerável) o que causa a curiosa situação de que TODOS os lutadores estão fora do peso no dia da luta. Para uma boa ideia do absurdo desse sistema, vide aqui.

As injeções de diuréticos e as desidratações forçadas antes das lutas já mataram muitos lutadores. Isso lembra o filme “They shoot horses, don’t they?” e os bizarros concursos de dança nos anos 30, onde os casais dançavam sem parar até literalmente caírem de exaustão, pela oportunidade de ganhar um prêmio em dinheiro em uma época de profunda depressão econômica.  

Eles matam cavalos, não?

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Diploma

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Sobre a citação de Foucault abaixo, que algumas pessoas comentaram, eu ousaria acrescentar:

“Lattes, pau“.

Diploma é como cash, dinheiro. Se você olhar com atenção e crítica poderá perceber que aquele objeto não passa de papel e tinta colorida, ainda que com a cara estampada de um antigo opressor. Entretanto é preciso que todos ao seu redor acreditem que ele tem valor. Esse é o pacto: eu lhe dou esse papel colorido e você me dá uma vaca.

O diploma também é (apenas) um papel pendurado na parede que é feito para garantir autoridade externa – e indireta – ao que dizemos e fazemos. Vale para quem não o tem, mas só quem o conquista sabe o quanto ele é valorizado acima do que merece. Por isso concordo plenamente com as palavras de Michel Foucault abaixo: o diploma não vale pela presença, vale pela ausência. Ele é feito para ser valorizado por quem não o tem, e não para ser admirado por quem o possui.

“O diploma serve apenas para constituir uma espécie de valor mercantil do saber. Isso permite também que os não possuidores de diploma acreditem não ter direito de saber. Todas as pessoas que adquirem um diploma sabem que ele não lhes serve, não tem conteúdo, é vazio. Em contrapartida, os que não tem diploma dão-lhes um sentido pleno. Acho que o diploma foi feito precisamente para os que não tem.” (Michel Foucault)

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Violências


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Qualquer cirurgia é uma violência. Rasgar a carne, romper suas camadas, vislumbrar seu recôndito interior, desvendar seus mistérios; nada disso pode ser feito sem violar, abrir e penetrar. Até o código penal precisa se adaptar ao fato de que na sociedade alguns sujeitos específicos, dentro da lei que se obriga a existir, podem cortar, esfaquear, estripar e estrangular alguém no sentido de produzir-lhe algum benefício. 

Para fazer qualquer destes procedimentos é necessário, além do treinamento essencial, um agrandamento egóico que, ao mesmo tempo que destrava os temores, lhe coloca na rota do narcisismo, da vaidade e da temeridade. Eu sempre disse que levei poucos meses – ainda antes de formado – para aprender as etapas essenciais de uma cesariana e realizá-la com sucesso, mas passei os trinta anos seguintes aprendendo a não usá-la como recurso primeiro.

Infelizmente a corporação se preocupa mais com os egos inchados e as fantasias de poder oferecidas aos médicos pela cultura (que eles mesmos moldam e se adaptam) do que com o aprimoramento moral e ético que se segue ao esvaziamento desses egos e à retirada dessas fantasias.

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O Carnaval das Classes

Uma amiga foi visitar pela primeira vez o Carnaval da Bahia e resolveu comprar um abadá – uniforme especial do Carnaval baiano – que permite a ela brincar dentro do encordoamento que separa os que pagam (bastante) para ficar próximos ao trio elétrico dos “pipocas”, que por nada pagarem seguem a folia do lado de fora. Não saiu barato, mas suas economias do ano anterior foram suficientes para garantir essa extravagância colorida de verde e amarelo.

A festa corria solta e animada até que algo inesperado aconteceu. Quando o trio elétrico se aproximava da Praça Castro Alves, e a banda começava a cantar a música de Caetano em sua homenagem, todos os cordeiros (seguranças que controlam as cordas de separação) foram acionados para conter uma confusão próxima, e com isso muitos “pipocas” invadiram a parte exclusiva da turma do abadá. Como a invasão foi muito abrupta, rapidamente a área reservada se viu pintada de muitas cores, em especial a dos soteropolitanos mais pobres e escuros que se misturaram aos sulistas e aos turistas estrangeiros de pele avermelhada pelo sol da Bahia. A banda torpedeava “A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião” enquanto uma súbita democracia de raças, credos e castas tomou conta da rabeira do trio elétrico. Enquanto o povo se divertia na mistura inesperada a cantora abria o grito, alheia ao que estava acontecendo.

Aos poucos a alegria genuinamente popular que ocorreu com a invasão deu lugar a um crescente desconforto. A entrada do povo na parte restrita às elites começou a desagradar aqueles que se sentiam invadidos. Não que estivessem perdendo algo (já haviam pago mesmo), até porque nada lhes foi retirado. Sequer era espaço o que lhes faltava, pois antes já estava bastante lotado. Não, a inconformidade se dava pela invasão de um espaço que consideravam seu, o qual estava sendo usurpado por aquelas pessoas mais pobres. Não era nenhuma perda objetiva, mas a sensação desagradável e subjetiva de dividir espaço com aqueles a quem não julgavam como iguais. Afinal, tinham pago; portanto, tinham mérito. Tinham, por esta razão, direito a um lugar exclusivo.

A nenhum deles ocorreu, no meio da folia, das músicas, dos beijos roubados, da dança frenética e dos goles de cerveja questionar porque uma festa popular dividia o povo entre os que podem mais e os que podem menos. Muito menos ocorreu a qualquer um dos que vestiam abadá se perguntar as razões e as circunstâncias profundas que lhe permitiram estar do lado de cá da corda. Não, não havia clima para estas perguntas incômodas. A solução encontrada foi uma chamada conjunta de todos que vestiam o abadá verde-amarelo para que os seguranças jogassem todos os penetras para fora. “Voltem para o seu lugar”, gritavam. “Eu tenho o direito de estar aqui, você não”, diziam outros. “Eu paguei, não tenho culpa se você é pobre”.

Em alguns minutos, após a intervenção violenta dos seguranças, a ordem foi restaurada e mais uma vez só havia abadás verde-amarelos entre as cordas. “Eles que façam um carnaval só para eles”, disse o alemão barrigudo que segurava a mulata pela cintura. “Esse aqui é nosso”, completou. O trio elétrico parado na Praça chacoalhava os vidros dos sobrados centenários de Salvador e fazia as ondas do mar próximo quebrarem no ritmo dos atabaques. No centro da praça, impávido e pétreo, Castro Alves recitava em solilóquio alguns versos que surgiram em seu pensamento. Talvez – como saber? – fosse uma lembrança que, sem perceber a razão, lhe ocorreu naquele exato instante de euforia máxima e frenesi apoteótico.

“Existe um povo que a bandeira empresta
Prá cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …”

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Crise médica

A crise de objetualização dos pacientes ocorre em todos os campos da medicina: em todos eles se percebe a tendência para uma relação impessoal, fria, objetual e mecânica. Isso ocorre porque nos dias atuais a tecnologia intermedeia nossa relação com os pacientes. Nossa troca não é mais direta, entre seres humanos e iguais; ela passa a ser comandada por uma força maior e mais poderosa: a promessa redentora e teleológica da tecnologia. Com isso nossos pacientes não são os receptáculos diretos de nossa ação, mas os subprodutos dos arranjos entre nosso saber e o diálogo que estabelecemos com os recursos tecnológicos.

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