Essência humana

A ideia do “homem essencialmente bom”, como apregoada por Jean Jacques Rousseau, definido como o sujeito que, nascendo bom, depois é corrompido pela sociedade, não resiste às análises mais superficiais. Creio mesmo que o homem nasce essencialmente egocêntrico, fixado em si mesmo e em sua própria sobrevivência, colocada acima de todos os outros valores. Somente a lenta maturação é capaz de afastá-lo de sua propensão natural a preservar a si mesmo como tarefa precípua. Nascemos “maus”, no sentido de nossa essência egoísta. O altruísmo – se é que ele existe – só é conquistado com muito labor e bem mais tarde, e só ocorre pelas forças sociais; somos fraternos por imposição do meio.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Pesos e Medidas

Para quem acha que os ataques do Hamas foram horríveis, deixo claro que numa guerra nada é bonito. Só é menos feio do que bombardear um edifício de apartamentos enquanto crianças dormem em seus quartos. Responda: a revolução americana que em 1776 encerrou o colonialismo britânico foi realizada com flores, abraços, despedidas e convenções de paz? Os insurgentes americanos não cometeram atrocidades durante a revolta? Seria imaginável que a Revolução Francesa ocorresse sem derrubar a Bastilha e sem as prisões (e morte) de membros da Realeza? As revoluções anticoloniais de Angola, Moçambique e Argélia – que encerraram as dominações cruéis e brutais do imperialismo europeu em África – poderiam ocorrer sem violência? Com diálogo? Com debates? Com acertos e cumprimentos? Ou alguém acha que Zumbi deveria ter sido gentil e “civilizado” com os colonos portugueses que escravizavam e brutalizavam seu povo? Por que esse tipo de civilidade só se cobra quando os oprimidos se insurgem?

A libertação da Coreia do jugo japonês e posteriormente do controle imperialista americano seria possível sem uma guerra sangrenta? Que povo opressor até hoje na história desistiu de seu domínio sem terror? A libertação do Vietnã da dominação da França e dos Estados Unidos seria viável sem utilizar o terror e a guerra sangrenta? Que tipo de libertação de um povo ocorreu sem guerra? Se a guerra é evitável, por que Israel massacra o povo Palestino desde o Nakba? Por que atacam agora ao invés de negociar a paz?

Estes que se horrorizam com as mortes de israelenses quantas vezes se manifestaram contra o terrorismo de Estado de Israel nos últimos 70 anos, que destrói famílias inteiras em nome do colonialismo sionista? Será mesmo que só agora souberam dos massacres, das torturas, das humilhações e do confinamento em Gaza? Por que só agora, quando os oprimidos finalmente reagem, puderam enxergar a brutalidade e a violência “injustificáveis”? Se o ataque do Hamas permitiu que a realidade do horror Palestino viesse à tona, então ao menos algo de bom brotou de tamanha tristeza. Por que dois pesos e duas medidas? Por que desumanizamos mais uma vez os palestinos, condenando-os a sofrer em silêncio, imóveis, sem sequer o direito de reagir ao seu próprio extermínio?

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina

Hipocrisia

Existe uma hipocrisia humanamente construída sobre o respeito à diferença, que faz os inimigos mortais se cumprimentaram antes de uma disputa, ou que esconde algumas preferências para que essa distância de perspectivas não magoe quem você ama. Eu acredito que o “culto à verdade” tão exaltado em nossa cultura ocidental é a capa mais fulgurante e socialmente exaltada da crueldade humana. Dizer a “verdade” é uma das formas mais perversas de machucar e até destruir. Eu me afasto de gente “direta e sincera”; prefiro a mentira doce, o “vai passar” diante do diagnóstico terminal inexorável ou o “tudo vai dar certo” quando a tragédia pinta de negro o horizonte próximo. Nesse embate peço apenas que não me venham com verdades frias; prefiro o calor acolhedor das mentiras amorosas.

Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam

(Cazuza)

Ser verdadeiro e honesto em todas as circunstâncias da vida é algo impossível. Existe um contrato social informal, não escrito, de que existem verdades que devem ser escondidas, exatamente porque se acredita que a verdade deve ser usada em situações bem definidas. Ela só deve ser aplicada quando, de alguma forma, pode ser de auxílio para o mundo. Dissimular é essencial para a vida em sociedade; é algo que está distante do controle racional. Existem coisas que não podemos controlar com a razão, porque sua origem não é racional. Paixão clubística é um bom exemplo: torcer pelo seu clube e “secar” o coirmão são ações inevitáveis para o torcedor.

Isso só vai acontecer quando eu superar essa vida de paixões. Enquanto a paixão for minha guia serei dela, também, prisioneiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Opressão de classe

A questão de classe se sobrepõe à questão racial. Negros foram escravizados há 500 anos, trazidos de África, para serem trabalhadores forçados nas propriedades brasileiras, mas na história da Grécia e de Roma outros povos brancos foram trazidos para as metrópoles do mundo antigo como escravizados. Até na própria África negra havia escravos negros de senhores igualmente negros. Outros exemplos são os asiáticos no leste americano e os irlandeses pelos ingleses, tratados com o desprezo reservado às classes inferiores. A opressão dos mais fortes usa a cor da pele como desculpa para oprimir e explorar os mais fragilizados. No caso do Brasil – semelhante à dos Estados Unidos – a luta contra o racismo não pode assumir o caráter identitário, privilegiando apenas uma identidade, acreditando que o sofrimentos dos negros é único e uniforme.

Em verdade, esse sofrimento só será exterminado quando os negros tiverem acesso aos recursos econômicos para a sobrevivência digna nessa sociedade, um movimento que não vai acontecer apenas através da ascensão de alguns poucos negros às classes superiores, mas com a supressão das classes sociais. Sem classes dominantes e enormes contingentes de dominados, o racismo não terá como se expressar. Por essa razão, lutar contra o racismo sem entender que ele é uma consequência da sociedade capitalista de classes apenas gera conflito dentro da classe operária. É por essa específica razão que a direita americana oferece um apoio tão consistente para organizações identitárias que objetivam a divisão da classe trabalhadora, usando a luta antirracista, feminista e pró LGBT para minar a luta contra o capitalismo.

Não há dúvida de que ninguém vê senhoras negras dirigindo uma Ferrari aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos existem centenas, talvez milhares de mulheres negras ricas que usam esse tipo de ostentação. Podemos então dizer que por lá o racismo foi derrotado? Eu diria que é exatamente o oposto: lá o racismo é muito pior. Esse é o grave problema do identitarismo, porque a existência de personagens negros com muito dinheiro não eliminou o racismo, o sofrimento do povo negro, e muito menos a exclusão da população negra da riqueza nacional, mas dá a eles uma ilusão de que o liberalismo é capaz de lhe oferecer as condições de ascensão social. Essa mentira percorre o imaginário há séculos.

Sobre os trabalhos domésticos, os serviços perigosos e danosos reservados aos negros, isso não é condição inerente da pele negra…. mas da pobreza!!!! O fato de haver muitos negros pobres no Brasil nos oferece a ilusão de que a cor da pela é a questão primordial, pois negritude e pobreza se confundem num país que se liberou da escravidão há 150 anos. Entretanto, o que conduz essas pessoas a condições de trabalho indignas é sua classe social, e não a quantidade de melanina que carregam.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Iconoclastia e nascimento

Eu entendo a tesão da iconoclastia. Durante anos a fio o ideário da humanização do nascimento percorreu este fluxo. Tudo o que víamos eram os erros, a barbárie da medicalização abusiva, o desrespeito com a privacidade, a expropriação do protagonismo, a objetualização, a coisificação humilhante, o abandono e a insensibilidade com as múltiplas facetas de um evento tão rico e plural. Queríamos, com evidente furor revolucionário, destruir o velho e erguer o novo sobre seus escombros. Queríamos limpar o nascimento das “pseudociências” que o controlam. Tínhamos a fé firme na revolução do saber, através do ensino, da demonstração da Verdade, dos estudos, dos periódicos, das metanálises deslumbrantes e arrasadoras. “Soubessem eles o que sabemos e a violência acabaria, como um facho de luz percorrendo o espaço ilumina tudo o que toca.”

Nossa maior riqueza era o vigor transformador, filho dileto da indignação. Queríamos transformar o mundo mudando a forma de nascer. Apostávamos no poder libertador da ciência e da informação. O erro, assim o entendíamos, era o resultado direto da ignorância. Traríamos nós, então, a “boa nova”, o Evangelho da humanização e sua potencialidade de, mudando o parto, fazer nascer uma humanidade verdadeiramente cidadã. Sim, a nós faltava a compreensão materialista das forças econômicas, as verdadeiras proprietárias do parto. Ao nosso ver, para que ocorressem as necessárias mudanças, era preciso combater, acusar, agredir, lutar, apontar dedos, denunciar. E, não há como negar, para aqueles que conheciam a prática de partos que brotavam da simplicidade fisiológica da proposta humanizante, era fácil perceber o contraste chocante com a realidade cotidiana. Eram dois mundos tão distantes que único traço unificador era o nascimento de um bebê, mas por caminhos tão distintos que não seriam colocados na mesma categoria por um visitante do espaço sideral. Confundiriam uma cesariana com a simples retirada de um tumor, enquanto um parto, na penumbra e no ritmo sensual da natureza, seria facilmente confundido com…. o sexo.

Éramos cães correndo atrás dos pneus, latindo fervorosamente para que parassem com a selvageria tecnocrática dos nascimentos artificializados. Para aqueles contaminados pelo vírus da humanização o barulho era, a cada dia, mais insuportável. Todavia, com o tempo e a insistência, os gritos foram aos poucos sendo ouvidos pelas mulheres, seus parceiros, enfermeiras, obstetrizes, as doulas e, de forma muito tímida, pelos poucos médicos que se aventuravam a questionar os dogmas da corporação, mesmo sabendo que o ódio contra eles seria implacável.

Depois de tanto grito, o carro diminuiu a marcha e o motorista agora pergunta: “afinal, o que desejam vocês?”

Estava claro que manter-se criticando os erros e absurdos do velho paradigma não produziria nenhuma transformação consistente e duradoura. As soluções aos poucos foram surgindo. Cursos de obstetrícia (parteiras de entrada direta) sendo inaugurados, novas casas de parto, equipes de parteiras domiciliares, a luta pelo protagonismo do parto garantido à mulher, a vinculação firme com a saúde baseada em evidências e a reformulação de alguns centros obstétricos do país. Todas iniciativas muito boas, mas ainda incapazes de gerar impacto num pais gigante, com residências obstétricas anacrônicas, poucas enfermeiras, um modelo de parto sustentado pela ciência capitalista e uma hierarquia vertical e autoritária coordenando as relações entre os pacientes e seus cuidadores. Infelizmente, a adesão às propostas de financiamento por instituições ligadas ao imperialismo, como a Fundação Ford, a Open Society e a Fundação Bill e Melinda Gates, seduziram por muito tempo aqueles que tinham interesse na construção de um novo modelo de assistência ao parto, o que foi motivo do meu afastamento desta organização. Entretanto, apesar dos percalços, o debate está mais aceso do que nunca, e a consciência sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher é um caminho sem volta. Nos parece claro que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem” (António Gramsci). Entre eles a perseguição implacável e cruel contra os profissionais que ousam anunciar que o autoritarismo no parto precisa ser extinto.

Acredito, agora de forma já amadurecida, que a solução se dará apenas com a adoção de um modelo de luta popular, centrado nas mulheres, exigindo – jamais pedindo – uma transformação radical na estrutura da assistência ao parto no Brasil, com recorte de classe e com caráter sistêmico. Penso também que a iconoclastia de outrora que ainda sobrevive, assim como a guerra contra as “pseudociências”, serve aos interesses dos poderosos, os que controlam o nascimento sem ter uma vinculação com a completude psicológica, emocional, social, material e espiritual do nascimento. A visão moralista da humanização do nascimento precisa ficar no passado, para entrar na fase de estabelecer-se como novo paradigma.

Com o tempo começa a ficar claro que derrubar mitos é muito mais fácil do que construir novos templos. Entretanto, mesmo reconhecendo o papel da indignação na construção dos novos paradigmas, é forçoso entender que o local de destaque cabe àqueles cujo trabalho se concentra em criar o novo apesar das dificuldades, agindo como “um velho marinheiro que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.

Tá legal?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Causa Operária, Parto

Futebol Moderno

Suspeito que o futebol no Brasil esteja se tornando um claro reflexo da senescência capitalista, como já havia previsto Marx. Primeiro deixou de ser associativo e passou a ser financiado pelas empresas e corporações industriais, através da publicidade nas camisetas e em todas as ações do clube. O sócio e suas mensalidades já não são suficientes para arcar com as despesas do clube, magnificadas dentro de uma bolha nutrida pela relação apaixonada que temos com as agremiações. Depois disso, com o crescimento exponencial dos custos com seus astros e suas arenas modernas, tornou-se dependente de bilionários e investidores, que usam o futebol como trampolim para seus lucros. Muitos destes mecenas futebolísticos são conhecidos por seus negócios escusos em várias áreas, repetindo o que acontecia com o “jogo do bicho” e seus investimentos no Carnaval.

Grandes e tradicionais clubes europeus já são controlados por príncipes Árabes ou novos ricos do leste europeu, cujo dinheiro surgiu do desmantelamento da Europa socialista. No Brasil clubes centenários como Botafogo, Vasco, Coritiba e Bahia já estão sob o controle de magnatas que usam o futebol como negócio; outros, como o Atlético Mineiro e o Santos estão em vias de se tornar. Hoje em dia se discute quem conseguiria escapar da sanha privatista do futebol. As SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol) estão se tornando a única saída viável para um esporte que se torna cada vez mais hipertrofiado.

Agora o próprio futebol, em nível internacional, migra para os países da península arábica, criando um polo de futebol midiático, lotado de jogadores ricos, príncipes excêntricos e petrodólares, onde o futebol se torna uma mera renda extra para as atividades de publicidade dos artistas da bola. Hoje os clubes brasileiros estão atolados em dívidas, algumas delas na casa do bilhão de reais, enquanto jogadores medianos tem salários de até 2 milhões mensais, mas ao mesmo tempo em que esse espetáculo de luxo acontece pela TV a classe operária é alijada do show, expulsa dos estádios luxuosos, impossibilitada de torcer pelos seus times dentro do estádio. A gentrificação e a gourmetização tiraram a alma dos clubes, tornando-os um produto de luxo. O esporte mais popular do mundo, está perdendo sua raiz social ao impedir o povo de frequentar os lugares onde o ludopédio é praticado. Os torcedores das classes populares foram expulsos dos estádios, tornados shopping centers para as classes média e alta.

O futebol moderno talvez seja uma das primeiras bolhas a explodir. A conexão do povo com o esporte aos poucos se enfraquece, e a paixão – que se nutre dessa conexão – vai lentamente fenecendo.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

Imprensa

Eu costumava escutar rádio pela manhã, ao dirigir para o consultório. Sempre ligava num programa de informação e entrevistas de uma estação filiada à Globo da minha cidade. Em uma dessas manhãs, próximo do impeachment da presidente Dilma, o programa matutino entrevistou o então promotor do MP Federal Deltan Dalanhol, que naquele momento desfrutava a condição de celebridade, e estava no auge da fama. Acumulava palestras e viagens, inclusive nos mais importantes “talk shows” da TV brasileira. Logo após a entrevista, que descrevia com entusiasmo mais uma das operações midiáticas da Lava Jato, o âncora da estação de rádio fez uma declaração apaixonada para o “garoto de bochechas rosadas”, deixando clara sua admiração pelo “grande brasileiro” que estava acabando com a corrupção e os corruptos, colocando a impunidade dos poderosos em nocaute. Nada poderia ser mais explícito do que a admiração daquele jornalista ao justiceiro da Lava Jato.

No horário do almoço, no intervalo das consultas, eu escutava o programa mais longevo do rádio do meu estado: o Sala de Redação, uma resenha de futebol, cotidiano e costumes que ocorre todos os dias de semana a partir das 13h há mais de 40 anos. No dia em que o ex-juiz Sérgio Moro assumiu o Ministério da Justiça o debate (sobre futebol) foi interrompido para transmitir seu discurso de posse. Quando ele terminou sua “elegia ao punitivismo”, o programa foi retomado com aplausos e elogios rasgados ao ex-juiz por parte de toda a bancada, tratando-o como um herói nacional, um ícone da justiça, que estava diante da chance de colocar seu nome na galeria de grandes personagens históricas da República. “Ele é a nossa grande esperança”, disseram alguns. Por “nossa” eles, por certo, falava em nome da classe média ressentida, aquela franja da população que sempre foi o suporte para o bolsonarismo.

Lembro com detalhes dessas datas porque estes foram os últimos programas de notícias e opinião que escutei no rádio. Deixei de ouvi-los ao notar que a imprensa estava totalmente cooptada, agindo em sintonia para dar apoio a um governo de absurdos, capturada pela propaganda anti-esquerda, anti-Lula e em ataque constante ao PT, que fechou os olhos durante vários anos para o despreparo de Bolsonaro, sua incompetência e sua desonestidade, assim como para os abusos evidentes do Ministério Público Federal e do juiz Sérgio Moro. A mesma imprensa que fez livros exaltando o juiz Moro e a Operação Lava-Jato e que jamais empreendeu uma mea-culpa, jamais se desculpou das mentiras e dos “canos de esgoto“, e que nunca realizou a necessária autocrítica sobre o desastre de sua cobertura jornalística, das jornadas de junho até a prisão de Lula.

Quando na noite de domingo de 9 de junho de 2019 foram divulgadas as provas do “hacker de Araraquara” – Walter Delgatti – inicialmente pelo Intercept na figura do seu antigo representante, o jornalista americano Glenn Greenwald, o Brasil parou. Daquele momento em diante os caçadores se tornaram caça, e o mundo de fantasias criado para elevar à condição de heróis nacionais um juiz parcial e procuradores alucinados do Ministério Público começou a se desmanchar como um castelo de areia com a chegada da maré alta. Essa foi a primeira etapa de um longo processo de desconstrução, e que agora joga os personagens Moro e Dalanhol no fundo do poço. Pessoalmente, senti alívio ao constatar que estivera certo o tempo todo, e que não errei ao abandonar a audiência das empresas do jornalismo corporativo que deram o suporte para os golpes em sucessão que se abateram sobre nosso país, jogando na lama sua credibilidade. Não sinto falta alguma da manipulação a que todos somos submetidos cotidianamente pelo jornalismo burguês e hoje posso dizer que perdi a confiança em qualquer empresa jornalística cujos compromissos com quem a financia impede a emergência da verdade. Jornalismo só existe se for livre; sem isso temos apenas propaganda e jogo de interesses travestidos de notícia.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Fantasma

Quem de nós não tem um fantasma de amor que habita o sótão das memórias?

Meu irmão Roger Jones me fez lembrar de um show de TV que passava na nossa infância e que no Brasil levou o nome de “Nós e o Fantasma” (The Ghost and Mrs. Muir – 1968). A série foi inspirada no filme “O Fantasma Apaixonado”, de 1947, que recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. Este filme, por sua vez, baseou-se na novela escrita em 1945 por Josephine Aimee Leslie, lançado no Brasil com o nome de “Vozes na Casa”. A série era centrada na vida de uma viúva, a jovem escritora Carolyn Muir, que decide reconstruir sua vida e se muda com seus dois filhos – e o cãozinho Scruffy – para um chalé no litoral de Schooner Bay, conhecido como o “Chalé das Gaivotas”. Lá eles descobrem que a casa é habitada pelo fantasma de um velho marinheiro, o Capitão Daniel Gregg. Invisível aos olhos de todos, ele torna-se visível à Sra Muir e seus filhos, e começa a se relacionar com eles.

Havia uma evidente tensão sexual entre ela e o espírito do velho marinheiro. Uma das características do show eram as artimanhas do Capitão para afastar qualquer pretendente que se aproximava da viúva. Entretanto, o amor era explicitamente platônico, como se fosse óbvio que nada de sexual seria possível ocorrer entre os personagens que habitavam as duas diferentes dimensões. Para a minha cabeça infantil era uma história divertida, em especial pelas trapalhadas do sobrinho do Capitão Gregg, Claymore. Hoje, entretanto, vejo na trama um pouco mais do que uma história de fantasmas.

Escutei inúmeras histórias como esta contadas pelas muitas mulheres com quem conversei na vida. Elas me relatavam amores do passado que haviam falhado, laços rompidos na juventude, frustrações românticas que deixavam espaço para infinitas conjecturas. Havia, para muitas, o fantasma de um amor perfeito, que morava no sótão de suas memórias, o amante idealizado do passado, o “amor que poderia ter sido”, perfeito, eternamente jovem, sem mácula, mas que o passar do tempo tornou impossível, o qual sobrevive apenas como doce fantasia. Muitas até usavam esse amor como escudo que as impedia de refazer sua vida amorosa, pelo medo inconfesso da decepção.

Quem já pensou que seu destino poderia ser diferente caso tivesse tomado uma decisão distinta numa encruzilhada da vida?

Abertura “Nós e o Fantasma” – YouTube

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Lobo em Pele de Cordeiro

Prestem atenção no voto do todo-poderoso Ministro Alexandre de Moraes: caso você tenha a oportunidade pouco agradável de um encontro com a polícia, não ouse correr. Se você se afastar da polícia (entre outras razões, porque tem medo de ser morto por um policial mal treinado e em pânico), isso dará aos policiais o direito de invadir a sua casa – mesmo com o uso da força, derrubando sua porta à patadas – sem mandado judicial e sem flagrante delito, apenas por ter se portado de forma “suspeita” (como dizem os americanos, de forma irônica: “suspicion is a felony or a misdemeanor?”). Ou seja: uma atitude “suspeita” – segundo os critérios subjetivos do policial – poderá justificar a invasão da sua casa. Essa invasão violenta do Estado ao caráter “inviolável” do domicílio foi defendida pelo “Príncipe da Democracia”, Alexandre de Moraes.

A sedução de aplaudir o algoz do Bolsonaro assumiu proporções quase incontroláveis. Espaços virtuais como “esquerda compra de esquerda” já vendem memorabilia com a face do “Xandão”, tratando-o como um verdadeiro ícone nacional. Passamos a tratar como herói um sujeito cuja história é marcada por episódios de autoritarismo explícito. A exaltação do ministro psdbista por sua ação nas últimas eleições é uma profunda ingenuidade, pois que sua postura autoritária se tornou evidente desde o episódio do corte dos pés de maconha.

Esse pendor para as ações punitivas não deveria causar espanto no campo progressista, mas boa parte da esquerda liberal ainda se deixa seduzir por frases de efeito, demonstrações de virilidade e ações pirotécnicas. Alexandre foi indicado pelo golpista Temer, o que já deveria nos causar repulsa, e suas posições sempre tiveram como norte uma perspectiva arrogante e autoritária. Aplaudir suas ações é um ato de expressa ingenuidade que a esquerda raiz deve repudiar.

E vejam bem; os lavajatistas confessos Facchin e Barroso foram contrários a tese da liberalidade oferecida às forças repressoras do Estado de invadir sua casa. Ou seja, até mesmo os ministros mais reacionários compreendem a gravidade de permitir estas invasões e defendem a manutenção da proteção do cidadão diante do poder massacrante da polícia. Para a surpresa de nenhum marxista consciente, Xandão se associa às forças sociais mais retrógradas e escolhe a perspectiva abusiva que atropela o direito individual.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Felicidade

A alegria explícita em um mundo que exalta a depressão é vista como uma forma de subversão ao modelo social. Ser feliz agride frontalmente um sistema baseado no consumo, porque é evidente que as pessoas felizes não tem buracos a preencher com coisas compradas. Toda a propaganda procura lhe tornar infeliz, mostrando o quanto a falta de objetos lhe diminui e oprime. Com isso poluímos a existência com bugigangas, penduricalhos, tralhas pesadas que carregamos com pesar e esforço. A felicidade, entendida como a disciplina dos desejos e a valorização dos afetos, é a forma mais efetiva de libertação espiritual, muito mais do que qualquer religião ou fortuna.

Agnes Edwiges Stanton, “A River for every Bridge”, Ed. Sampaoli, pag. 135

Deixe um comentário

Arquivado em Citações