Experts

Sempre é bom colocar a opinião dos especialistas em perspectiva. Não que suas palavras devam ser descartadas, mas apenas considerá-las uma entre tantas possiblidades de avaliar uma obra. Experts também têm preconceitos e pontos cegos em sua visão de um trabalho artístico ou acontecimento, e se é verdade que acertam na maioria das vezes, também é correto aceitar que muitas vezes cometem erros espetaculares.

Darcy Egberg Ramirez, “O erro como processo”, ed. Sulina, pág 135

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Solidão

Muito da solidão que percebo está relacionada à negativa do sujeito em aceitar seus próprios medos e falhas, e na busca ilusória de jogar sobre o outro a culpa de suas mazelas. Aceitar seus erros é o passo essencial e precípuo para transformar-se aos olhos de quem se deseja.

Hilde Willburg, “Seven steps to Love”, ed. Capri, pag. 135

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Pânico no Império

Só quem sofreu lavagem cerebral não entende porque estamos vivenciando um forte e consistente surto de propaganda contra os BRICS nos últimos tempos. Os ataques à Rússia e à China estão cada vez mais frequentes, mas é importante entender a razão dessa violência – recheada de mentiras e fake news – contra as duas principais potências que enfrentam o imperialismo.

A Rússia era o país mais miserável da Europa na primeira década do século XX, sendo governada por um Czar assassino e um modelo feudal de produção. Bastaram 50 anos da revolução socialista para a União Soviética colocar um homem em órbita na Terra, ainda antes dos americanos. E isso depois de perder 20 milhões dos seus habitantes na guerra que venceu por todos nós. Hoje a Rússia é o terceiro país do mundo por paridade de consumo, graças ao que sobrou de socialismo àquele país e às alianças formadas com a China. Já a China foi invadida, saqueada e roubada pelos europeus (em especial o Império Britânico) até quando promoveu sua revolução em 1949. Foi destruída e subjugada pelo exército japonês durante a segunda guerra mundial e hoje é a economia mais forte e pujante do mundo – em pouco tempo ultrapassará os Estados Unidos.

A China em 30 anos tirou 800 milhões de pessoas da fome, mais que o dobro da população americana. Vietnã é um estado próspero e superou o Brasil na produção de Café. Cuba é socialista e independente do imperialismo, e apesar de ser pobre, tem um PIB 10x superior ao seus vizinhos capitalistas como El Salvador, Rep Dominicana, Haiti, Belize, Honduras etc. E ainda sofre bloqueios terríveis há 60 anos que interrompem seu crescimento. É triste lembrar que até 1997 a China tinha um PIB menor que o do Brasil. O que houve com eles que não ocorreu conosco?

Quem não se importa com a pobreza é quem a produz: a exploração capitalista, sua ética do lucro e a exploração infinita através da escravização dos povos. O discurso antissocialista, pró capitalista e de suporte ao imperialismo só viceja naqueles cujas mentes foram lavadas e escovadas pela propaganda imperialista durante décadas, gente que trabalha para comer e sobreviver apenas para que os donos do poder possam continuar milionários.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Caritas

Tenho uma clara discordância com a famosa frase de Alan Kardec sobre a “salvação” através da caridade. Por certo que posso entender a importância da empatia e a necessidade de auxiliar os pobres, mas vejo nessa prática a manutenção de erros na política de distribuição das riquezas produzidas pelon ser humano. Em verdade, penso exatamente o contrário: a prática da caridade – mesmo que meritória – sinaliza degeneração social. Minha versão é esta:

“Enquanto houver caridade, não haverá salvação.”

A caridade é o subproduto da perversidade social. A caridade é a face sorridente da iniquidade e da injustiça social. A caridade é a estratégia que os ricos usam para aplacar suas culpas. O “caridoso” e o filantropo são, via de regra, sujeitos culposos que acumularam riqueza através da exploração do trabalho alheio. A caridade é sempre vexatória e humilhante para quem a recebe. Ninguém deveria receber pela caridade o que deveria ser o justo pagamento pelo seu trabalho. E mais: a caridade floresce onde existe miséria, escassez e concentração obscena de riquezas. A caridade, desta forma, é a medida mais adequada para o fracasso civilizatório.

Não estou me referindo, por certo, à caridade que pode ser traduzida por amor ao próximo ou fraternidade (de frater, irmãos, portanto iguais). A caridade que me refiro – e o cristianismo também – é aquela que nos estimula a oferecer o que se tem aos necessitados. Essa é, sem dúvida, um sinal inequívoco de injustiça social. Ao invés de construir uma sociedade com equilíbrio, onde inexista a disparidade obscena de riquezas e poder, estimulamos àqueles privilegiados a doar algumas migalhas de suas fortunas – normalmente conquistadas pelo trabalho árduo dos outros, muitos deles os próprios pobres a quem ajudam.

A caridade cristã é “…é difundida como um dever cristão, uma ação que se expressa na experiência da solidariedade em relação ao outro que se encontra em situação que lhe impossibilita garantir sua condição mínima de sobrevivência”. Segundo a igreja católica, a caridade pode ser entendida como:

1) Dar de comer a quem tem fome;
2) Dar de beber a quem tem sede;
3) Vestir os nus;
4) Dar pousada aos peregrinos;
5) Visitar os enfermos;
6) Visitar os presos;
7) Enterrar os mortos.

Nada disso seria necessário em uma sociedade justa. Essa caridade apenas existe pela nossa ganância e pela incapacidade de elaborar uma estrutura social em que ela seja dispensável.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Castelos de areia

Mais prazeroso do que construir castelos de areia é pisoteá-los sem dó, reduzindo-os à insignificância amorfa que os constitui. O mesmo pode ser dito dos ídolos e referências culturais que, ao mesmo tempo em que os amamos, percebemos o quanto nos oprimem. Destruí-los diante da primeira dúvida quanto a sua integridade nunca é feito sem uma pitada de gozo sádico.

Malik Sadik, “Thunderbolts”, Ed. Carratti, pág. 135

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Tempo…

Quando eu tinha a idade do meu neto – 10 anos – eu sonhava em ter 14 anos, poder fazer coisas que os garotos maiores podiam fazer, como ir até o centro sozinho, ir nas festas, jogar futebol com os mais velhos, ir para o ginásio. Depois que o Brasil venceu a Copa de 70 eu pensei que a próxima levaria uma eternidade; dos 10 aos 14 o tempo passa muito devagar.

Hoje eu vejo meus netos crescendo a uma velocidade estonteante. Basta uma semana para notar as diferenças marcantes no rosto, na estatura, na linguagem, nas manhas e malandragens. E tudo que eu peço é que, mais uma vez, essa mudança e esse tempo sejam lentos, para que ainda possa aproveitar cada minuto dessa passagem

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Definições

Esclarecimentos importantes:

Mitose = doença de quem acredita em ou exalta mitos;

Meiose = doença psíquica de quem acredita que os fins justificam os meios;

Fagocitose = destruição de fagotes, instrumento musical, possivelmente derivado de um antigo instrumento conhecido como bombarda-baixo. No final do século XVI foram destruídos vários desses instrumentos no que ficou conhecido como “A noite dos Fagotes”, por causa de um fagotista anarquista chamado Valéry Deschamps. Esse cidadão manteve-se durante um dia inteiro à frente da casa do alcaide da cidade de La Rochelle e passou 24 horas ininterruptas tocando “La Chasse” como forma de protesto pela taxação da couve de Bruxelas. Populares se aglomeraram e começaram uma depredação, mas não da casa do alcaide Jean Claude Lefray, mas do fagotista Valery e seu instrumento, pois ele tinha tão somente noções primárias sobre o uso do fagote. Depois de ver seu instrumento despedaçado (fagocitose) o ativista voltou no dia seguinte com outro fagote, para continuar o protesto, e essa ação motivou a turba enfurecida a destruir todos os fagote da cidade para evitar que a manifestação voltasse a ocorrer, produzindo a famosa “Noite dos Fagotes”. Hoje a data é comemorada em La Rochelle com uma marcha de homens empunhando archotes que segue até a frente da prefeitura, terminando com um concerto, onde normalmente se ouve “La Chasse” e na qual o gran finale é o “Concerto RV.495, de Vivaldi”, para fagote.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

O Arrependimento de Palocci

Eu estava em um restaurante com a TV ligada na Globo durante o Jornal Nacional quando aquele bunda mole do Bonner anunciou que o juiz Moro havia liberado a delação de Palocci, exatamente uma semana antes das eleições. O mesmo Moro que suspendeu uma audiência de Lula antes do pleito para evitar “interferência eleitoral”. Sim a mesma delação que havia sido rejeitada pelos procuradores por não conter nenhuma informação importante e respaldada por provas materiais. Muitos bolsonaristas comemoraram esta delação, achando que ela seria a “pá de cal” na vida pública de Lula.

Na época eu – e muitos da esquerda – desconfiamos de imediato. Por que Palocci? Por que agora? Parecia uma jogada eleitoreira de um juiz corrupto e imoral, com o interesse de mudar os rumos de uma eleição que mostrava a (tímida, mas consistente) reação de Haddad na luta contra Bolsonaro, mas o clima já era muito desfavorável. O povo estava contaminado pelo discurso punitivista, “Lula ladrão”, cano de esgoto na Globo, mentiras infundadas, fake news, disparos de WhatsApp, Cambridge Analytica, depoimentos fajutos, acusações infundadas, o powerpoint criminoso de Dalanhol, e as ações abusivas e fascistas da Lava Jato. A população, movida por intensa propaganda e financiamento externo, estava apoiando um nazista como Bolsonaro da mesma forma como as massas no passado gritaram Barrabás ou H*tler. Erguer-se contra essa flagrante desrespeito às leis era pregar no deserto. Parece que as linhas da história já estavam escritas, e era necessário que Lula subisse ao Calvário para poder ressurgir depois, nos braços do povo. Bolsonaro – e o desastre de sua administração – pareciam ser inevitáveis para que o país tivesse a maturidade para entender a tragédia que se anunciava através de suas palavras.

Palocci foi constrangido, torturado, ameaçado pelos procuradores corruptos e pelo juiz que chefiava a quadrilha. Agora, passados mais de 4 anos, ele deseja rever sua posição, afirmando que sua delação foi forçada. Sabemos agora o quanto isso foi prejudicial ao país, mas ainda é preciso que os responsáveis sejam punidos, sob pena de sermos condenados a repetir os erros que tanto mal fizeram ao Brasil. É importante que Palocci diga a verdade, pois esta é a última chance de limpar sua biografia, inexoravelmente manchada por sua covardia.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Espiritismo e Cristianismo

Cristo não criou uma religião, muito menos Leon Tolstói ou Maradona, mas três igrejas se ergueram em seus nomes. Religião é o que os outros fazem do pensamento e das obras de alguém. O mesmo aconteceu com o pensador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, também conhecido como Allan Kardec. Na minha perspectiva – e na de Kardec, que explicitamente negava que o espiritismo fosse uma religião – uma religião é uma ideologia que nos aparta das demais. Por isso se usa a palavra “seita”, um termo que deriva do latim “secta” cujo significado é “seguidor”. O termo é utilizado para designar um grupo numeroso de uma determinada corrente religiosa, filosófica ou política que se destaca da doutrina principal. Sectário é um termo que designa o indivíduo que faz parte de uma seita. Uma seita pode também ser considerada uma “divisão”, “partido” ou “facção”.

Kardec não desejava nada disso. Ele era um homem de ciências e queria demonstrar a sobrevivência do princípio espiritual, a comunicabilidade entre os planos, a evolução e a reencarnação como sistemas pedagógicos espirituais. Em verdade, o espiritismo é apenas isso e Kardec tão somente desejava que o espiritismo fosse um suporte para todas as religiões. Na sua visão seria absolutamente razoável a existência de um católico espírita, um budista espírita, um muçulmano espírita e até um ateu espírita – se for possível negar a existência de Deus mas aceitar as outras leis naturais que o espiritismo defende.

Tornar-se uma religião formal foi, entretanto, algo inevitável para o espiritismo. Não haveria como o espiritismo nascente no Brasil – a grande nação espírita do mundo – não estabelecer um sincretismo com o cristianismo do país. De certa forma quando Kardec (ele mesmo um católico) escreveu o “Evangelho segundo o Espiritismo” criou uma conexão indissolúvel com a religião e suas inevitáveis pregações morais. Nem Kardec conseguiu evitar isso, mas em um mundo ideal, o espiritismo poderia ficar alheio às questões morais. Isso jamais ocorreu, e as palavras de um espírita são facilmente confundidas com qualquer cristão deste país. O espiritismo se tornou uma seita cristã reencarnacionista com os mesmos vícios moralizantes das outras religiões ligadas à figura de Cristo.

Para mim esta ligação com a “moral” e com o cristianismo aprisiona o espiritismo. Seria muito mais interessante que fosse livre, laico, despregado do catecismo carola das religiões. Sendo uma filosofia e uma ciência sem vinculação com preceitos morais ele estaria muito mais próximo de atingir seus altos objetivos. Porém…. admito que minha posição é contra hegemônica e pouco popular. Existe muita cristolatria no espiritismo, e uma necessidade de criar normas para regular o comportamento das massas. Como toda religião o faz.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

San Cristóbal de las Casas

Estive em San Cristóbal de las Casas – México, há uns 15 anos, onde passei por uma experiência curiosa. Para sair do hotel até o local do congresso de parteiras tradicionais mexicanas chamei um táxi. O motorista, mexicano do Chiapas, me explicou um pouco do culto ao Subcomandante Insurgente Marcos, mas me disse para tomar cuidado com os guatemaltecos que se aglomeravam na praça central – o zócalo. “Eles são desocupados, alguns deles bandidos. Nao dê conversa a eles, pois só querem atrapalhar nossa cidade. Deveríamos impedir que entrassem ilegalmente em nosso país!!”

Achei surpreendente, mas didático. Bastou mudar só um pouquinho a latitude para fazer os invasores se tornarem invadidos, e o discurso xenófobo rapidamente mudar de lado. “Nosso mundo ainda é cheio de fronteiras” pensei. Nossas cidades ainda estão lotadas de imigrantes, forasteiros, deslocados e perseguidos, porque nos dividimos artificialmente em países, estados, crenças, grupos, raças, credos, etc. Entretanto, quando aproximamos o olhar, percebemos que nossa essência é muito parecida, variando apenas com os contextos e circunstâncias.

Como diria meu amigo Max, “se um viajante do espaço sideral chegasse à terceira rocha depois do sol e se deparasse com a variabilidade da espécie humana ele se espantaria muito mais com nossas semelhanças do que com as nossas diferenças”. Somos assustadoramente parecidos em nossa essência…

Não creio que essa experiência com o taxista seja algo capaz de representar negativamente o local, mas o que alguns poucos americanos falam dos imigrantes mexicanos na California ou no Texas também não. Apenas me chamou a atenção porque alguns mexicanos seriam capazes de mimetizar as mesmas falas que ouvimos (e deploramos) nos gringos.

Quanto ao Subcomandante, eu fiquei impressionado com a iconografia que se via nas ruas. Inúmeras camisetas, pôsteres, chaveiros, bandeiras, imagens, etc. Talvez os tempos sejam outros e não exista mais tanto culto à sua personalidade.

Visitei também San Juan Chamula e fiquei profundamente impactado pela igreja que cultua São João Batista. É uma igreja bem bonita, mas o interessante é o sincretismo único das práticas. Na frente de cada altar existem centenas de velas e inúmeras garrafas de refrigerante. A Coca é a favorita dos fiéis, mas até a Pepsi e outros tipos de refrigerantes tem seu lugar nos rituais. Nessa cidade autônoma também se fala o Totzil, língua nativa local. As garrafas de Coca Cola e a grama que serve de piso na Igreja (como se fosse uma manjedoura) nunca saíram da minha memória.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos